leitura de romances de má doutrina e peor linguagem, não são uma creação
do seu espirito. Eu tambem os conheci, e ainda conheço muitos,
infelizmente. Ora esses nem têem amor á litteratura nem á sciencia. São
uns vadios, que andam malbaratando as economias dos paes e pegam no
compendio para pretexto de passeio até ao lyceu, e n'um romance para
engalharem o somno, espavorido com a excitação da saturnal.
Eu sei que não escureceu o seu animo a idéa de se referir á minha
pessoa. Faço-lhe inteira justiça e correspondo á sua amizade. Todavia
algum leitor menos benevolo poderia ver n'isso uma allusão encapotada. A
esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para
reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa
que, como homem, me pertence,--o amor ao trabalho. Os meus amigos
conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então contente, e mais ainda
quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem
fumegam as casas visinhas para a refeição matinal, a canceira com que um
moinho de vento proximo vai rasgando o nevoeiro com os seus quatro
braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas
nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores
que estão despertos, é o moinho e sou eu. Basta isto.
Uns estudantes ha ahi, e sempre houve, que desestimam as sciencias
exactas, mas que são grandes em differentes ramos d'estudo. Esses só
sahem incolumes do exame de geometria,--quando sahem--depois de longo
soffrimento para domarem temporariamente a inclinação natural do seu
espirito d'elles.
Lembra-me citar-lhe um que tenho á conta de grandissimo poeta;--é
Gonçalves Crespo, o author das _Miniaturas_.
Bom é que haja sempre aptidões diversas; só assim poderá florescer um
estado.
Os que como o meu amigo começaram por poetar gentilmente e acabam «por
combater as influencias do romantismo futil e estouvado» são raros.
Felicito-o sinceramente pela perseverança com que procura expurgar os
velhos habitos, os quaes se me não afiguram tão nocivos como o meu amigo
suppõe, antes, a meu vêr, eram mais um titulo de respeito para a opinião
que geralmente se fórma da sua intelligencia.
Alguma cousa porém lhe ficou dos seus passados amores com as letras, a
despeito das mathematicas,--foi o estylo que naturalmente resalta da sua
penna com estimavel donaire.
Não perdeu tempo nem trabalho, e muito mais se conseguiu, como acredito,
alliar as louçanias da phrase aos conhecimentos d'um mathematico estudioso.
Voltemos porém aos mathematicos.
Em duas classes os divido eu; mathematicos-_artistas_ e
mathematicos-_operarios_.
Os primeiros, aquelles de que o meu amigo me fallou, são os que
entenderam em assumptos de telhas acima, os que procuraram a poesia da
mathematica nos mundos que pendem sobre as nossas cabeças e que estão
narrando a gloria de Deus, no dizer da escriptura.
Um só defeito tiveram alguns d'elles, a meu vêr. Foi o ensoberbecerem-se
tanto com a gloria n'aquelle seu adejar nos páramos do céo, que julgaram
Deus uma cousa ociosa e superflua. Subiram tão alto, que se lhes
afigurou impossivel haver alguem que os sobrepujasse.
Lalande proclamava que tendo estudado o céo não encontrara por lá
vestigios de Deus. Laplace dizia a Napoleão que se no seu systema de
mechanica celeste não tinha fallado de Deus, era só porque não urgira
d'essa hypothese.
São maneiras de vêr.
Á segunda classe dos mathematicos, taes como eu os distingo, pertencem
os executantes, os que não sabem da sciencia mais do que o que está
n'uns compendios sobremodo aborrecidos; d'uns que não dispensam a
esponja para os seus calculos, porque a esponja lhes absorve os erros
frequentes; que se apresentam com a vã magestade de regulos em sciencia
e fazem do radio uma especie de ferula com que martelam na lousa para
intimidar os alumnos que andam perdidos na abstrusidade da explicação do
professor; finalmente d'uns que zombam de todos e de tudo o que não fôr
a mathematica que elles versam, e que nada acham prestadio tirante a
sciencia dos numeros. Estes são os que eu detesto, porque matam muita
aptidão nascente com grandes doses de pastelão algebrico, como ia
acontecendo ao Garrett, se elle não tivesse o bom senso de lhes fugir
com o seu talento.
Estes taes podem ser equiparados na profundidade da sciencia, não pelo
que toca a extensão, a uns homens obscuros, mais prestimosos e menos
inchados que elles,--os guarda-livros. Uns praticam a mathematica dos
lyceus, os outros a das casas bancarias. Praticam-n'a todos os dias; por
isso desempenham correntemente as operações arithmeticas que lhes
commettem. Mais nada.
«A algebra, disse o adoravel Garrett, é bom contraveneno para os
empeçonhados de poesia; mas hade ser dado com geito e tento. Quiz-me
fazer engulir doses muito grandes, não me pôde o estomago com ellas.»
Ora eu estava empeçonhado, mas não me pôde o estomago com as doses do
contraveneno, e como para chegar á poesia da mathematica era preciso
desbravar a semsaboria dos prologomenos, fiquei sem conhecer os
mathematicos do quinto andar e desandei pela porta fóra. Esta distincção
que eu faço entre mathematicos, parece que tambem a fazia o
Chateaubriand. Sempre é bom valer-se a gente de authoridades. Dizia elle
no _Genio do Christianismo_:
«Todavia não será talvez difficil pôr d'accordo os que declamam contra
as mathematicas e os que as preferem a tudo o mais. Esta differença
d'opiniões vem do erro commum, que confunde um _grande_ com um _habil_
mathematico. Ha uma geometria material que se compete de linhas, de
pontos, de A+B; com tempo e perseverança, um vulgarissimo espirito póde
entrar por ella dentro com galhardia.
«É então uma especie de machina geometrica que executa de per si
operações complicadas, como a machina arithmetica de Pascal. Nas
sciencias, o ultimo que chega é o que melhor se instrue; eis-aqui porque
qualquer collegial do nosso tempo esta mais adiantado que Newton em
mathematicas; esta é a razão, porque tal que hoje é tido á conta de
sabio será acoimado de ignorante pela geração futura. Azoinados com os
seus calculos, os geometras-machinas teem um desprezo ridiculo pelas
artes de imaginação; sorriem de compaixão quando se lhes falla de
litteratura, de moral, de religião; _conhecem_, dizem elles, a natureza.
Não será para adorar-se a _ignorancia_ de Platão, que chama á natureza
uma _poesia mysteriosa_?»
Ha uma applicação da mathematica, que, com quanto se me não afigure
poetica, não merece que se maldiga, porque é util: a geodesia. Essa
professa o meu amigo, e tanto não me parece poetica a convivencia com o
jalão e a fita metrica, que foi capaz de emmudecer a lyra das suas
_Alvoradas_. Um tio meu, que passa por engenheiro distincto, Frederico
Augusto Pimentel, conserva na sua bibliotheca muitos volumes de boa
litteratura, que adquirira em estudante, mas eu quando o visito em Braga
ou o encontro a braços com o pantómetro ou annotando o seu livro _Manual
do apontador_.
Com referencia a mathematicos disse o que tinha a dizer.
Reportemo-nos agora a outro ponto da sua carta.
Deus me livrara, ainda que me fosse possivel, de fazer leituras
d'astronomia a mulheres.
Estou d'accordo com Rossely de Lorgues, que fixa a origem da impiedade
no reinado em que as mulheres, a conselho de Fontenelle, estudavam
Euclides e discutiara Newton e Leibnitz, á roda de Maupertuis, no jardim
das Tulherias.
Ora estas sabenças d'alto cothurno, que se conversavam nas cêas do barão
d'Holbach e nos jantares de madame de Tencin, levaram a mulher franceza
ao desvergonhamento, a que só póde ser cauterio a verdadeira religião;
não a religião das missões e dos missionarios, mas a religião de Deus.
O proverbio popular desconfia da mulher que sabe latim; eu desconfio da
mulher que sabe mais do que latim. Quero instrucção para a mulher, grito
por ella; mas ha-de ser uma instrucção rosada, loura, como as mais
formosas tranças, casta, pura, limpida.
Para isso era preciso fazer compendios especiaes, delicados e prudentes.
Da historia de Portugal, por exemplo, seria conveniente dramatisar as
legendas dos heroes que se sacrificaram pela patria. Teem as mulheres
imperiosa necessidade de conhecel-os, para soprarem ao animo dos filhos
as primeiras sementes do amor nacional. Agora as negruras d'umas rainhas
e d'uns principes, que mancharam a nossa historia, bom seria que ellas
as não soubessem nunca. De mathematica desejo eu que as mulheres saibam
correntemente as quatro operações elementares. É o que minha filha ha-de
saber, e afigura-se-me que o marido de minha filha abençoará algum dia a
discrição com que eu a hei-de educar.
É debalde que o meu amigo me aconselha n'este ponto. Cada um governa o
que é seu, e eu, a despeito do seu claro entendimento, meu caro
Conceição, não lhe hei-de ensinar a ella a «historia, que é a epopêa da
humanidade», mas unicamente da historia o preciso para ella não
aborrecer a humanidade.
Não quero que a pobresinha entre no mundo pela porta do tedio.
Eu não entrei, porque, quando examinei os quadros negros, tinha a alma
educada para o sentimento do bem pelos amorosos conselhos de minha mãi.
Isto não é dizer que a maxima erudição seja a maxima desmoralidade. Não;
eu quero que a instrucção seja para quem a póde professar, e que se
estude quando se deve estudar.
É meu proposito que minha filha não ande pelas salas a fazer discursos
de varia historia ás meninas da sua idade.
Os livros que eu escrevo, como ella os ha-de lêr um dia, não levam
doutrina que a faça corar de pejo, por usar o nome que lhe lega o author
d'aquellas novellas.
Não fallemos mais de minha filha, que dorme no berço os sonhos
auriluzentes da primeira infancia. Não quero passeal-a na imprensa,
depois de a ter roubado ás caricias de sua mãi.
Aqui tem, meu caro Conceição, o que se me offerece dizer-lhe.
Peço-lhe que me releve uma ou outra falta que tenha commettido, e
creia-me sempre,
amigo dedicado e sincero discipulo,
Porto, 1 de fevereiro de 1872.
_Alberto Pimentel._
* * * * *
Segunda carta do snr. Alexandre da Conceição ao author
_Ill.mo amigo._
Uma declaração antes de mais nada: Agradeço ao seu bom senso e á sua
lealdade o ter-me feito a justiça de não vêr uma allusão pessoal e
indelicada no esboço que fiz do estudantinho ocioso e devasso, que
detesta a geometria, com o falso pretexto de que os talentos _originaes_
e impetuosos se não podem sujeitar ao jugo affrontoso do calculo. Não
podia lembrar-me de si quando tentava aquelle esboço, primeiro: porque
seria isso uma grosseria incompativel com a minha educação; segundo:
porque o aprecio muito como escriptor e como poeta; terceiro: porque o
estimo deveras como amigo e como homem, pois que lhe reconheço o
talento, a elevação do caracter, o amor ao estudo e a dedicação ao
trabalho.
Posto isto como mordaça aos malevolos ou aos futeis, e não como elogio
com que eu queira pagar-lhe as finezas que me dirigiu na sua carta e que
eu lhe agradeço com a plena consciencia de que as não mereço senão á sua
amizade e não á sua critica esclarecida, entro na replica ao seu
folhetim, sobre o qual temos muito que conversar.
Com o seu espirito alado e inquieto de folhetinista toca o meu amigo na
sua ultima carta n'umas poucas de questões, qual d'ellas mais
importante, que eu lhe não posso levantar todas, porque me não sinto com
competencia para tanto, porque me não sobra tempo e porque isso tomaria
proporções assustadoras para a redacção e para os leitores d'este
jornal, que não póde ser condescendente commigo até ao ponto de arriscar
a sua boa reputação.
Creio que o meu amigo leu a minha primeira carta um pouco preoccupado,
ou que eu, por falta de aptidão e uso, expuz confusa e desastradamente o
que tinha na mente dizer-lhe. Opto pela segunda hypothese, por me
parecer a mais racional e por estar mais de accordo com os factos e com
o conceito em que eu tenho os meus merecimentos litterarios, cuja
pequenez no entanto recommendo a commiseração do seu espirito ás vezes
tão finamente epigrammatica. Assignar-se _meu discipulo_!... Eu, seu
mestre!... Em que? Não lhe perdôo a graça e obriga-me a praticar alguma
inconveniencia, se a repete: envio-lhe o Serret pelo correio, pois que
não tenho a consciencia de poder ensinar-lhe regularmente mais cousa
alguma; e não me discuta isto, que não soffre discussão seria.
Vou pois vêr se condenso em dous ou tres periodos umas idéas mal
expostas no meu primeiro folhetim e que o meu amigo ataca, porque as
tomou pelo que ellas não são, mal entrajadas como ellas se lhe
apresentaram.
A minha sincera admiração pelas mathematicas nunca me cegou o
entendimento até ao ponto de eu não vêr mais nada fora d'ellas, de
suppôr que abaixo das mathematicas tudo é futil e inconsistente e acima
d'ellas tudo sonhos e illusões. Creio que ha salvação possivel fóra da
minha igreja, e que para divisar uma face á verdade não e absolutamente
indispensavel saber dirigir um equatorial para a estrella 2151.ª da
_Popa do Navio_ ou para a _alpha do Centauro_. O que digo e sustento, em
quanto o meu amigo me não convencer do contrario, é que o estudo das
mathematicas e a familiaridade com os seus methodos seguros, ou pelo
menos cautelosos, de raciocinio, não póde por fórma alguma ser
prejudicial ao desenvolvimento de qualquer das nossas aptidões
intellectuaes, e que sendo a litteratura e em geral a arte um dos muitos
caminhos que levam o espirito humano ás atlantides do ideal, é licito
acreditar que tudo o que tenda a elevar-nos o espirito, a robustecer-nos
a alma e a esclarecer-nos o entendimento ha-de tambem desenvolver-nos as
faculdades poeticas e o sentimento artistico. Este o argumento _à
priori_, como se diz na logica. O argumento _à posteriori_ está nos
exemplos, que lhe citei na minha primeira carta, de grandes
mathematicos que foram tambem homens de muita imaginação e de muito
enthusiasmo, sendo estas mesmas qualidades as que os tornaram grandes
mathematicos. Responde a isto o meu amigo com a sua theoria dos
_mathematicos-artistas_ e dos _mathematicos-executantes_, theoria que, a
meu vêr, se póde formular do seguinte modo: Ha mathematicos seccos de
espirito, estereis de imaginação e baldos de todo o senso artistico,
logo foi a mathematica que os fez mirrhados e massadores. Se ha grandes
mathematicos com imaginação e sentimento, esses são espiritos por tal
fórma privilegiados que resistiram ás influencias esterilisadoras dos
numeros e do calculo.
Afigura-se-me sophistica esta sua argumentação, porque a ser verdadeira
teremos de classificar de esterilisadora a influencia de todas as outras
sciencias, incluindo a litteratura, e de massadores todos os primeiros
litteratos do mundo, todos os nossos escriptores de mais segura e
duradoura reputação; por exemplo: Garrett, que para manejar a lingua
patria com aquella graça, facilidade e atticismo, que nós todos lhe
admiramos, havia de folhear e compulsar muito bacamarte classico e
soporifero; Alexandre Herculano, que para escrever aquelle poema do
_Eurico_ teve forçosamente de deletrear muita somma de pergaminho safado
e roido, muita chronica bolorenta, muito livro indigesto; Antonio
Feliciano de Castilho, Camillo Castello-Branco, Theophilo Braga e alguns
outros, que para subirem ás alturas, onde nós hoje os contemplamos com
admiração, tiveram indispensavelmente de estudar e de meditar muito
livro somnolento, e nem por isso lhes ficou lá o espirito, nem o
talento, nem a graça, nem a espontaneidade; muito pelo contrario, foi
ahi, n'essas monumentaes semsaborias da nossa litteratura classica que
elles se robusteceram em graça, em talento e em originalidade.
Um mathematico cabeçudo e massador é tão massador como um jurisconsulto
caturra e formalista, como um medico charlatão e pretencioso, como um
padre fanatico e obscurante, como um professor ignorante e embirrento.
As caturrices dos jurisconsultos, o charlatanismo dos medicos e a
ignorancia dos padres não podem provar nada contra a poesia da
jurisprudencia, contra a grandeza da medicina ou contra a sublimidade da
religião.
Parece-me, pois, senão demonstrado, pelo menos não destruido pela sua
argumentação, que, em principio, o estudo das mathematicas não faz nem
póde fazer mal algum ao gosto litterario ou á aptidão poetica.
Deixe-me dizer-lhe ainda: É convicção minha, e creio que de muito boa
gente, que o espirito moderno deve á vulgarisação dos estudos
mathematicos as mais solidas e as mais brilhantes das suas conquistas.
Não lhe fallo já da civilização material do nosso seculo, para cujas
maravilhas a mathematica cooperou com a melhor parte: quero fazer-lhe
notar sómente a benefica influencia dos estudos mathematicos no espirito
scientifico do nosso tempo. A mathematica não inventou por certo nenhuma
theoria physiologica, não ditou nenhum tratado de direito publico, não
descobriu um unico corpo simples ou a composição de qualquer corpo
composto, não acrescentou um só versete aos Evangelhos; mas tem, pela
benefica influencia dos seus methodos, do seu genio rigoroso e justo, do
seu espirito verdadeiramente scientifico ajudado a expulsar das outras
sciencias muito espantalho com fóros de verdade; muitas tolices com
ambições de acertos, muitas hypotheses absurdas e lorpas com reputação
de principios incontestaveis. E com isto tem ganhado todas as sciencias,
incluindo a moral, que deve ao espirito logico e robusto das sciencias
exactas, aquella austeridade de principios, aquelle stoictsmo de
conclusões, que são as feições caracteristicas da philosophia
contemporanea; com isto tem ganhado a litteratura, que se despe
d'aquelles modos scismadores e langorosos, d'aquelles ares meditativos e
lunaticos de virgem pallida e incomprehendida para se tornar em esposa
forte e affectuosa, que nos consola nas amarguras, que nos alegra nas
tristezas e que nos robustece nos desalentos, que nos melhora, que nos
eleva, e que nos instrue. É porque a poesia ainda se não compenetrou bem
d'estas verdades, que ella está representando na sociedade o papel
secundario que representa. Como explica o meu amigo este palpavel
desamor da opinião publica pela poesia? Não nota que a sociedade
contemporanea não quer que lhe fallem em versos; e que os não lê e que
vira a pagina do jornal ou do livro onde os versos lhe appareçam? A
culpa d'este desamor deve imputar-se por inteiro á sociedade ou aos
versos?... É a sociedade que está acima dos versos, ou a poesia acima da
sociedade? Ha depressão no sentimento moral e artistico da sociedade ou
ha abaixamento no nivel intelectual da poesia? Eu creio que a culpa,
posto que lhe caiba em parte, cabe menos á sociedade do que á poesia.
Isto porém é uma questão para largos desenvolvimentos, e eu não quero
terminar esta minha carta, que já vai escandalosamente massadora, sem
lhe levantar outras duas questões que o meu amigo toca no seu folhetim.
A que chama o meu amigo _impiedade_?... Ás conquistas do espirito
analytico do mundo moderno, á reforma, á revolução de 93? Á philosophia
raccionalista, ao livre exame, aos direitos do homem? Á critica
historica, á exagese biblica, a toda esta febre de investigações que
trabalha a alma do seculo XIX e que lhe faz bater apressado no pulso o
sangue riquissimo da vida? Chama a isto impiedade, ou entende por
impiedade uns ralhos de sachristia em que andam ahi envolvidos os irmãos
das confrarias? Chama impio ao catholico mr. Thiers, que deixa ir pela
agua abaixo o poder temporal de sua santidade, e orthodoxo ao actual
bispo de Orleans que se arreda de mr. Littré como de um leproso?
Diga-me o que seja para si impiedade, que eu tenho visto abusar-se tanto
da palavra e da idéa que ella representa, que me não admira vêr
appellidar de impio qualquer dia o proprio cardeal Antonelli ou até o
snr. marquez d'Avila e Bolama.
O meu amigo parece tambem pensar que o seculo XVIII foi immoral por
excesso de sciencia nas mulheres, e impio--volta a terrivel
palavra!--por excesso de philosophia nos homens. Mas onde é que está
isto demonstrado? Em Chateaubriand, que se esqueceu de metrificar o
_Genio do Christianismo_, unica qualidade que falta ao livro para poder
ser recitado ao piano? Mas quando e onde é que a sciencia e a
philosophia fez mal a alguem e principalmente a uma sociedade? Quando e
onde é que fez bem e elevou e moralisou e instruiu a ignorancia, o
absurdo, o preconceito, a _rèvèrie_? Mas então voltemos aos cilicios,
aos jejuns, aos conventos, á inquisição, á idade media. Nego com toda a
força das minhas convicções, nego com todos os insignificantes recursos
da minha intelligencia que a immoralidade tão apregoada da sociedade
franceza do seculo XVIII tenha nascido no palacio de Rambouillet; nego
que a impiedade--não me deixa esta maldita palavra!--do tempo dos
encyclopedistas, seja o resultado do amor pela philosophia. São absurdas
taes supposições perante os principios, são illegitimas perante os
factos, são calumniosas perante o meu pouquissimo conhecimento da historia.
Agora a questão magna do seu folhetim, a educação da mulher. Sobre este
ponto sinto dizer-lhe que nem comprehendo como o meu amigo, cujo bom
senso e intelligencia eu tanto aprecio, não quer para a mulher a maxima
instrucção, que dá em regra, a maxima elevação moral; não, para todas as
mulheres, a instrucção professional de que precisa o medico, o
jurisconsulto, o estadista, o engenheiro, o professor de universidade,
mas esta instrucção geral, completa e solida, que dá aos espiritos a
maxima amplitude de vistas, ao entendimento a maxima robustez, á alma a
maxima grandeza moral, ao coração a maxima bondade, pela comprehensão do
direito, pelo sentimento profundo do dever.
Quer o meu amigo para a mulher uma instrucção rosada e transparente como
uma meditação suspirosa de Lamartine; não lhe quer ensinar da historia
senão o sufficiente para que ella se não faça beata, pelo horror aos
seus similhantes, ou Lucrecia Borgia, por imitação ou por amor aos
envenenamentos; não lhe quer ensinar astronomia porque receia que ella
ande pelos bailes a perguntar aos cavalheiros que a comprimentam ou ás
amigas que a abraçam, qual seja n'esse momento a declinação austral do
planeta Saturno ou em que phase está o quarto satellite de Jupiter! Eu,
francamente, não lhe sei responder a isto. Se o meu amigo tivesse dito,
clara e cruamente, que quer a mulher como nossa mãi Eva, ignorante como
uma barroza de capucha de pardo, entendia-se; era um systema ou uma
convicção, a que eu tributaria todos os respeitos que me merecem as
convicções sinceras; mas dizer-me que quer para a mulher uma certa meia
instrucção, que não vi que désse nunca mais que petulancia, mau senso e
bacharelice ás mulheres que a possuem, porque lhes excita a curiosidade
sem lh'a satisfazer, porque as não deixa na completa ignorancia, que as
obriga á modestia do silencio, nem lhes dá á instrucção regular que
produz a sensatez, dizer isto é estar a fazer versos quando se trata de
formular claramente um principio, e responder com a _aria final_ da
_Traviata_ ao X de uma equação algebrica. Não posso pois acreditar na
solidez das suas convicções sobre este ponto, e peço-lhe que, antes de
me replicar, se me quizer dar tal prazer, leia o admiravel livro de
Ernesto Legouvé--_Histoire morale des femmes_. Se elle o não convencer,
eu perco as esperanças de o levar a fazer melhor juizo dos beneficios da
instrucção e do espirito da mulher.
Creia-me
muito seu amigo,
Braganca, 7 de fevereiro de 1872.
_Alexandre da Conceição._
* * * * *
Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição
Meu bom amigo:
Estamos em plena sabbatina e, como em todas as sabbatinas escolares,
abundam as palavras e escacêa o methodo, a deducção clara, e a
argumentação logica. Escreve o meu amigo que eu li a sua primeira carta
um pouco preoccupado, e eu com mais justa razão o poderia accusar de
igual desleixo, o que é em si muito mais para sentir attenta a sua
intimidade com as formulas mathematicas e os processos de calculo.
Vejo-me portanto, obrigado a pôr nos seus verdadeiros termos esta
conversa amigavel entre dous rapazes que se estimam. Os periodos que
demoveram o meu amigo a quebrar o seu obstinado silencio de ha annos,
foram estes:
«O meu pesadelo foi a mathematica, ai! foi a mathematica, sim. O Garrett
queixava-se d'um mathematico de Coimbra, o snr. Honorato, que foi causa
d'elle se ficar poeta. E o mais é que o snr. Albuquerque, do lyceu, é um
homem de intelligencia e d'estudo, duas qualidades que eu respeito e
admiro em qualquer homem.