Em razão d'esta minha inimizade com a mathematica, hei-de recommendar a

minha filha, quando ella crescer, que tapete de boninas e esconda entre

plantas o quadrado da minha sepultura. Eu, que não vivi bem com a

arithmetica, não quero que ella se vingue de mim, quando me seja

impossivel sacudir a lousa com os funebres algarismos que para logo

denunciam a milicia dos mortos.

N'este horror á mathematica sou ainda discipulo de Camillo

Castello-Branco que escrevia a Faustino Xavier de Novaes: «Teremos nós

sepultura com lagea!? Conta com um cômorosinho de terra, e umas papoulas

na primavera, e uma taboa preta com um numero branco. A arithmetica

ha-de perseguir-me além da morte!»

Agora estou eu reparando que me tenho desmandado em confidencias, e que

amanhã ha-de gritar a maledicencia que eu fiz, que aconteci, que me quiz

nivelar com Julio Machado. Não ha tal; previno o commentario. Basta

dizer-lhes que ha sete annos,--era eu uma creança,--li pela primeira

vêz, na Foz, as _Scenas da minha terra_ e que me demorei longo tempo

diante da dedicatoria d'esse livro que Julio Machado offerece a sua mãi,

não sabendo se havia de applaudir mais o escriptor se o filho. Elle era

então já um talento feito e eu, desprovido dos seus valiosos dotes,

ainda era uma creança. Applaudi-o então, applaudo-o hoje e

applaudil-o-hei sempre.

Mas era d'elle que vinhamos fallando,--era do seu temperamento que

queriamos fallar.

Ah! feliz temperamento o seu, que se revela na suavidade dos seus

folhetins, na doçura dos seus contos, na tranquillidade do seu animo.

O temperamento de Julio Machado está no _Pedrinho_ dos _Contos ao luar_,

na _Marcolina_ das _Scenas da minha terra_, no _Romance d'uma alma_, das

_Historias para gente moça_. São tristezas suaves,--deliciosas tristezas!

Elle, que foi o successor de Lopes de Mendonça, deve inquestionavelmente

ao seu temperamento o ter arrostado ha longos annos com a improba

canceira do folhetim sem desanimar, sem ficar vencido.

Escreve tranquillamente, por isso se não tem gastado. As viagens são uma

tendencia do seu espirito. É ainda o folhetim em acção o que elle quer.

Mas não vai viajar de afogadilho, não pensem, como se lhe fosse na pista

a policia ou o cholera. Nada d'isso. Para ir a Paris e para chegar a

Londres gastou dous mezes.

Quando parte, não diz a ninguem onde estão os seus papeis importantes

para o caso de não voltar. Nada d'isso. Parte alegremente,--para Italia;

cantarolando com o Junca; para Hespanha, em trajo de _touriste_, em

communidade de aventuras com o conde d'Obidos.

Nunca se lembrou que lhe ia acontecer desgraça pelo caminho. Ao

contrario, pensa que a natureza o espera com um sorriso e um _bouquet_.

É elle mesmo quem nol-o diz:

«De mais a mais, não sou de uns certos, que tudo pesam e scismam antes

de se proporem a sahir da sua terra, e até cuidam que o barco se ha-de

perder, simplesmente pelo facto de os levar; eu, ao contrario, cuido que

por eu ir n'elle é que o barco se não perderá.»

Accusam-n'o de desleixado na linguagem. É um defeito. Quem o não tem? E

muitos dos que lhe atiram a pedra estão tambem no caso de ser apedrejados.

Bem desleixado se deixou ser o Garrett nas _Viagens_, que é o folhetim

mais folhetim que se tem feito entre nós, e todavia o Garrett ha-de

viver mais tempo do que os seus criticos. O folhetim não se está a

pregar e a repregar como as mulheres de trinta annos. Ah! não, o

folhetim tem a graça e a desenvoltura de uma donzellinha. Namora-o a

flôr; basta-lhe o perfume. Tudo o que faz é «ao acaso, tudo a brincar,

tudo para entreter», segundo uma expressão de Julio Machado.

Quando elle publicou os _Contos ao luar_, sahiram-lhe ao encontro os

grammaticões, os nossos graves grammaticões--que graça!--por haver

attentado contra a virtude da syntaxe, começando o seu livro por uma

conjuncção copulativa.

Era certo que elle havia escripto--«... E depois, eu não sei bem porque

chamei ao meu livro _Contos ao luar_!» Que elle, o phantasioso contista,

tivesse aceitado a sequencia d'um sonho interrompido, d'um devaneio

cortado pelo fremito d'uma vaga, que quizesse dar aos seus contos o vago

do luar, não comprehendiam os grammaticões. Lá estavam as reticencias

que substituiam as palavras, mas não eram reticencias o que elles

queriam, eram palavras, palavras, unicamente palavras.

Os grammaticões são como os diccionarios;--o que mais têem são palavras.

E os defensores da inviolabilidade da grammatica em vão açularam a

critica, e os apostolos da conjuncção morderam-se, e o livro teve tres

edições, para dizer tudo d'uma vez.

Já que me referi n'outro lugar ao _Romance de uma alma_ quero

acrescentar que basta este conto para caracterisar physiologicamente

Julio Cesar Machado,--um conto adoravel, dôce e triste, um devaneio de

phantasia delicada que faz lembrar as mais formosas tradições do Rheno

primorosamente trasladadas a portuguez pelo snr. José Gomes Monteiro.

Ah! meu caro Julio, eu, que sou ainda novo, amo sinceramente a candida

mocidade que se respira nos seus livros, delicio-me com as fragancias

d'esses gentis _bouquets_ que o seu talento tem enfeixado, e ao terminar

estes breves estudos de physiologia, litteraria permitta-me que saude

d'aqui a primavera que ainda lhe sorri exuberante de galas e esperanças.

Algum dia dirá de si a historia da litteratura patria que foi um

escriptor sempre moço, que sabia com o seu espirito enganar a idade,

quando ella the acenava de longe, e que no dia em que lhe nasceu a

primeira branca atirou ainda a umas bailarinas que iam passando com um

bonito _bouquet_, um adoravel folhetim, de sorte que ellas, apesar d'uma

ruga e de uma can igualmente traiçoeiras, tiveram inveja á sua mocidade

e ao seu temperamento, como eu, que sinceramente o confesso, e se

lembraram de Anacreonte, que morreu a sorrir, coroado de flôres.

Termino esta serie de folhetins com o nome festejado d'um distincto

folhetinista. Assim devia ser; é sobre o pedestal que se colloca a estatua.

N'estes rapidos estudos humoristicos, que ahi ficam, procurei fazer em

Portugal o que fez Emilio Deschanel em França, com uma unica

differença--que elle o fez muito melhor e mais detidamente. Elle me

serviu de modelo e incentivo. Gostei do seu livro, e o mais que fiz foi

applicar aos nossos escriptores a theoria que elle havia enunciado, não

na sua generalidade, o que seria longo, mas em uma das suas

ramificações, o estado physico, o que me pareceu curioso. Parti, como

elle, da influencia do corpo sobre a alma, e procurei estudal-a n'um

certo numero de individuos.

Tentei estudar o temperamento no estylo.

Mais que nunca se me figura opportuna a occasião para trazer em minha

defeza as palavras de Deschanel: «Paradoxo! dirão uns. Banalidade!

clamarão outros. Que se entendam uns com os outros até chegarem a um

accordo. Que importa que uma cousa seja velha, se é verdadeira? E não

será sufficientemente nova, para o tempo que corre, se fôr precisa e

sincera?» E depois, receioso de que supponham que se dá ares academicos,

acode Deschanel denunciando a indole dos seus estudos: «Imaginai que

folheaes, por matar o tempo, um album de autographos ou de

photographias; é pouco mais ou menos o que vos eu apresento.» Isto

escreveu Deschanel; isto devo eu repetir com dobrada razão.

* * * * *

EM ADDITAMENTO A PHYSIOLOGIA LITTERARIA

Carta do snr. Alexandre da Conceição ao author

_Ill.mo amigo._

Na ultima das suas _Cartas do Inverno_[5], nas quaes o meu

amigo tratou, com a sua habitual delicadesa d'estylo, a interessante

questão do temperamento d'alguns dos nossos mais populares escriptores,

vem lá uns piparotes á mathematica e aos mathematicos que eu não posso

deixar passar sem reparos.

Saio pela honra do meu convento. Proponho-me demonstrar-lhe que as

chamadas sciencias exactas não são tão destituidas de riquezas poeticas

como o meu amigo apregôa e muita gente acredita, e que nas litteraturas

de todos os tempos e de todos os paizes--veja que ambições de erudição

as minhas!--não ha concepções nem mais grandiosas nem mais sublimes do

que nas mathematicas.

Combatendo-lhe a sua antipathia pela sciencia das quantidades, tenho

ainda em vista atacar o preconceito, entre nós infelizmente

vulgarissimo, de que o estudo das mathematicas esterilisa a imaginação,

mata o sentimento artistico e torna o espirito pesado e sorna como a

quarta pagina do _Times_.

Não ha com effeito estudantinho de lyceo que tenha lido, em traducção

mascavada, os _Tres Mosqueteiros_ ou a _Menina do 4.º andar_, que se não

julgue victima da mais cruel das tyrannias paternas quando se lhe impôe

a obrigação de estudar um poucochinho do Manso Preto ou do Sousa Pinto.

Conheci no meu tempo d'estas victimas imberbes do romantismo fazerem

gala de serem reprovados em mathematicas elementares, para se darem ares

de Esproncedas em promessas, de Byrons em projectos, de rapazes

esperançosos, de moços cujo talento se não podia amoldar, pela grandeza

e pela impetuosidade, aos estreitos limites da arithmetica, da algebra

ou da geometria.

É verdade que depois estes interessantes mocinhos demonstraram ter na

mesma conta da arithmetica tudo o que os obrigasse a duas horas de

trabalho sério, e iam a final, cobertos de rapozas e inutilisados

physica e moralmente pela devassidão e pela ociosidade, parar aos

corredores das secretarias d'estado, ás ante-camaras dos ministros ou ás

salas de espera dos influentes eleitoraes mendigando um emprego publico,

onde podessem emfim applicar a sua actividade gasta nos prostibulos, nos

cafes e nos passeios publicos.

Assim como ha porém intelligencias com aptidão singular e admiravel para

a comprehensão das sciencias exactas, ha tambem boas e prestadias

intelligencias, e d'esse numero é a do meu amigo, que tomam á conta de

repugnancia invencivel pela mathematica o que n'essas intelligencias é

apenas amor e enthusiasmo por outra ordem de verdades. O Julio de

Castilho dizia-me em Lisboa, com aquelles seus ares candidos e virginaes

de pintor biblico da renascença, que não comprehendia como eu, que fazia

versos, conseguira encarar nas mathematicas sem ficar logo alli

empedrado de horror. Elle, como o meu amigo, quando lhe disseram que

havia de estudar arithmetica, parece que escreveu uma apologia

apocalyptica do suicidio e que esteve meio resolvido a ir esconder o seu

asco aos numeros no fundo do Tejo. Deixe-me fallar-lhe ainda de mim para

demonstração d'uma verdade acima enunciada. Eu quando principiei a

estudar mathematicas tinha o espirito azedo e derrancado com a leitura

d'uns detestaveis romances francezes que por ahi andam na mão de todos

os meninos e meninas. Aterrado com o desimaginoso estylo do 1.º tomo do

_Francoeur_ disse de mim para mim, para me desculpar da propria

mandriice, que o meu talento não nascera para digerir taes bagatelas e

alistei-me galhardamente na numerosa ala dos _mergulhadores_, meus

condiscipulos e consocios na guerra ao estylo do filho espurio da grande

actriz Lecouvreur, segundo contam as más linguas. O resultado d'este meu

incipiente mau gosto litterario foi perder o anno, poupando assim o snr.

Pinto d'Aguiar ao trabalho de me premiar a _loureirice_ com tres

rapozas, vêr com muita inveja e muito desgosto de mim proprio parte dos

meus condiscipulos alcançar com a approvação o premio dos seus esforços,

ir para ferias grandes com uma cara tola de homem que se reconhece

inutil e mandrião aos proprios olhos, e, por sobre tudo, apresentar-me a

meu pai, que tanto me estremecia, com a consciencia de lhe ter roubado

perto de trezentos mil reis, que fui tirar ao patrimonio sagrado de

minhas irmãs, sem receber d'elle uma reprehensão, o que era o peor de

todos os castigos.

Senti-me deveras e profundamente abjecto diante de mim mesmo.

Em outubro voltei ao Porto e comecei a estudar regularmente n'esse anno

e nos que se seguiram, até completar a minha educação profissional.

Nunca porém me pude vêr livre completamente dos maus habitos adquiridos

na convivencia da mocidade imaginosa e revolucionaria, que me fôra

companheira das tolices do primeiro anno. Ainda hoje estou combatendo

essas influencias de romantismo futil e estouvado que nos tem para cá

vindo nos enxurros da litteratura franceza.

O precioso tempo que gastei a fazer versos e folhetins, com que nem eu

nem as letras ganhamos pouco nem muito, podia tel-o empregado bem

melhor a estudar conscienciosamente o que hoje me vejo obrigado a

compulsar de novo, para não exercer a minha profissão do mesmo modo que

fiz o papel de poeta e de folhetinista.

Com a propria experiencia pois lhe afianço que o estudo das mathematicas

nem esterilisa a imaginação nem atrophia o sentimento artistico.

Deixe-me dizer-lhe mais: Das grandes manifestações do espirito humano só

a musica me tem causado tão intimas sensações de contentamento, de

felicidade interior e de enthusiasmo como as que experimentei com as

mathematicas, apesar de as haver estudado superficialmente e de apenas

lhes ter entrevisto a sublimidade e a elevação. Lastimo-o se nunca

sentiu os jubilos intimos, o puro contentamento que se apodera de nós

quando chegamos á posse plena d'uma verdade mathematica. É então que se

comprehende bem que o homem não vive sómente de pão mas de verdade.

Sente-se a gente orgulhoso d'este orgulho fidalgo de pertencer á nobre

familia dos seres que tirou do fundo do seu espirito taes sublimidades.

E depois, meu amigo, que idéa se ha-de fazer da arte, se fôrmos apregoar

que as sciencias exactas, que é onde a verdade mais luminosa se

apresenta, são inimigas irreconciliaveis da poesia? Em que conceito se

ha-de ter a litteratura, se se acreditar que ella odeia o rigor logico

dos raciocinios, a actividade energica e regalada do espirito, os

exercicios olympicos da intelligencia? Victor Hugo diz no prefacio de

não sei qual dos seus livros que a algebra é uma poesia. É um acerto

isto. Diz-se tambem que as mulheres da Africa dão a comer aos filhos

coração de leão para os tornar robustos e corajosos. O coração do leão

para o espirito é o estudo das mathematicas. Não ha nada mais sadio nem

mais nutritivo.

É uma atmosphera de verdade onde a alma humana respira a pleno peito o

ar da vida. É a agua lustral que nos lava dos preconceitos da educação,

e que nos levanta o entendimento áquella altura d'onde se não podem já

enxergar umas certas cousas mesquinhas e tolas que ahi andam ataviadas

com os ouropeis da phantasia, e que são tão futeis e tão ridiculas, como

os interesses que sustentam.

Nas sciencias mathematicas ha sobre todos um ramo, com o qual, no meu

entender, não póde competir nem em grandeza nem em sublimidade poetica

nenhuma outra ordem de conhecimentos humanos; é a Astronomia. Galileu,

Kepler, Newton e Laplace são poetas de mais alto cothurno que Homero e

Shakspeare e Goethe e Victor Hugo. Não grite á d'el-rei contra a

blasphemia litteraria; olhe que é verdade isto que lhe digo. Se tirar

aquelles grandes vultos da sciencia a imaginação, o enthusiasmo, a

intuição prophetica da verdade, as allucinações do ideal, este exaltado

lyrismo que o amor sofrego da verdade produz nas intelligencias

privilegiadas, se lhes tirar todas estas qualidades de espirito que

fazem os grandes poetas, reduz-me aquelles homens á craveira vulgar de

quatro mathematicos mais ou menos obscuros, mas não m'os eleva nunca á

altura de espiritos creadores, de genios, de poetas finalmente.

Que litteratura ha no universo que possa sustentar as pretenções de

possuir uma obra litteraria capaz de se medir em grandeza de concepção e

em sublimidade de idéas com a theoria da attracção universal de Newton

ou com a hypothese sobre a formação dos mundos de Laplace?

Que nome senão o de poeta quer o meu amigo dar a um homem como Leverrier

que encontra um planeta desconhecido e nunca visto por olhos humano na

ponta da sua penna, fechado no seu gabinete de trabalho? Diga-me: se

fosse millionario não pagaria por bem maior preço os calculos originaes

de Leverrier do que o autographo mais precioso do Dante?

E não me diga que esta poesia da sciencia só é accessivel aos espiritos

iniciados n'ella. Reuna em volta de si duas ou tres mulheres de talento

e de gosto litterario, lêa-lhes o melhor trecho do _Hamlet_, o melhor

canto do _Inferno_, a melhor composição da _Lenda dos Seculos_, e depois

faça-lhes uma exposição singela do systema dos mundos, narre-lhes a

historia da descoberta da velocidade da luz ou conte-lhes o prodigioso

romance do apparecimento no mundo da sciencia do planeta Neptuno, e verá

qual das cousas as deixou mais allucinadas, se a poesia dos versos ou da

palavra, se a poesia dos mundos ou da sciencia.

Em si, que é um espirito serio e estudioso, não quero eu vêr no seu

horror as mathematicas mais do que um gracejo de folhetinista; mas é que

nós padecemos d'uma profunda doença social que se revela muito n'esse

desprezo pelos estudos serios, n'esse fastio pela verdade singela, pela

logica vigorosa e pelos methodos de raciocinio verdadeiramente

scientificos. Nutra-me o espirito publico de conhecimentos exactos, de

methodos seguros de raciocinio, e ha-de vel-o não se contentar tão

facilmente com os sonhos com que o andam por ahi embalando os

especuladores da causa publica, todos estes prudentes da occasião que

trazem os principios chumbados ao marmore da rotina, que teem a

consciencia adstricta á gleba dos empregos publicos, e toda a alma

enfeudada aos preconceitos da opinião do maior numero. Olhe que é seria

esta questão. Dê-me á França mais mathematicos e menos romancistas, mais

arithmetica e menos versos, e Sedan é impossivel e os incendios de Paris

serão irrealisaveis. A victoria é o resultado da superioridade dos

vencedores; mas a superioridade dos vencedores suppõe a inferioridade

dos vencidos.

O espirito serio e pratico da nova Allemanha havia de mais tarde ou mais

cedo derrotar o genio romantico e futil da França contemporanea. Era uma

guerra fatal aquella com um resultado previsto ha muito. Pergunte por

isto ao snr. Pedro d'Amorim Vianna, que talvez o encontre disporto a

dizer-lhe umas cousas sublimes que elle sabe, _apesar_ de saber tambem

mathematica como poucos.

E, já que tem a felicidade de ter uma filha, meu amigo, ensine-lhe a

admirar Soares de Passos, e em Soares de Passos a poesia _O Firmamento_,

cuja inspiração elle foi beber a um dos ramos d'essa vasta sciencia dos

numeros, que muita gente suppõe arida e esterilisadora como um livro de

conta corrente. Depois nutra-lhe o espirito com o alimento sadio e

robusto das verdades scientificas; leve-a pela mão aos grandes templos

da vida moral; ensine-lhe a historia, que é a epopêa da humanidade;

ensine-lhe a geologia, que é a historia da terra; ensine-lhe a

astronomia, que é o poema heroico do universo. Diga-lhe que por baixo da

lousa fria do tumulo, onde lhe mandar esparzir rosas de saudade, ha

apenas os restos inertes d'uma cousa grande, que é o homem; a alma

d'esse homem, essa, que a não procure n'esses restos, mas no proprio

espirito d'ella, na memoria das suas boas acções, na recordação, que

ella deve ter sempre viva da sua dedicação á familia, do seu amor ao

trabalho, da sua paixão pelo estudo, da sua coragem nos revezes, da sua

modestia nas alegrias, do seu respeito á virtude, da sua aspiração ao

bem, do seu culto ao bello, das suas qualidades como esposo, como pai e

como cidadão, pois que n'essa recordação na alma ingenua d'uma filha vai

a melhor immortalidade a que um homem honrado pode aspirar.

Creio que abusei muito da sua paciencia, não abusei? Que quer?...

custou-me ouvir-lhe dizer mal das mathematicas.

Não torne, olhe que eu estou de atalaia, e então ai da sua paciencia.

Até lá e sempre creia-me

seu amigo e admirador,

Bragança, 22 de Janeiro de 1871.

_Alexandre da Conceição._

[5] As paginas antecedentes sahiram com este titulo em

folhetins do _Jornal do Porto_, de dezembro de 1871 a março de 1872.

* * * * *

Resposta do author ao snr. Alexandre da Conceição

_Meu bom amigo:_

Fez-me a honra de replicar amavelmente ao ultimo d'estes despretenciosos

folhetins que tenho publicado no _Jornal do Porto_ sob o titulo de

_Cartas do Inverno_, e eu apresso-me a responder-lhe para inteira

conservação das nossas relações amigaveis e litterarias.

Sahiu o meu amigo _pela honra do seu convento_, levantando umas ligeiras

insinuações com que eu não esperava offender a mathematica e muito menos

melindrar um só mathematico.

Enganei-me, e em boa hora me enganei, porque a sua carta significa para

mim uma honra, posto que immerecida, bem vinda, e porque me apraz

digladiar com luctador assim digno como leal.

Foi seu proposito mostrar que a mathematica não póde deixar de ministrar

á litteratura o vigor logico do raciocinio, quer dizer, o machinismo

scientifico de que se serve o homem para chegar ás convicções profundas.

E cita o meu amigo uma pleiade d'homens illustres que foram ao mesmo

tempo grandes mathematicos e grandes poetas, uns titães celeberrimos que

se levantaram a uma altura a que não poderam chegar os gigantes da fabula.

Falla-me de Galileu, de Kepler e de Laplace. Não me falle d'esses, que

foram os poetas da mathematica, que viveram embriagados no lyrismo da

sciencia, e que por uma privilegiada intuição souberam deletrear as

bellezas infinitas da epopêa dos astros. Não me falle dos grandes genios

da astronomia, sciencia quasi divina, porque estuda o céo.

Herschell, cuja vasta intelligencia passou pelo baptismo da musica,

antes de se remontar ás eminencias olympicas, tem no firmamento um

epitaphio eterno para o qual não ha honras nem grandezas comparaveis. O

rei Jorge III, que lhe fez mercê d'uma pensão da trezentos guineus e de

uma vivenda no burgo de Slough, quasi concedeu um galardão irrisorio ao

homem que devia ter o céo por tumulo e Uranus por epitaphio. Estas são

as aguias audazes que roçaram as azas pela tela azul do firmamento,

visitando os archipelagos de mundos, que, na phrase do materialista

Buchner, infinitamente distantes uns dos outros, povoam o immenso

deserto das alturas. D'esses não fallava eu, porque os respeito tanto,

quanto me é vedado conhecel-os. Fiquem estes e outros mathematicos para

logo; fallemos por agora da mathematica.

Eu não nego nem discuto que a mathematica seja um instrumento da

verdade; assumpto é esse estranho á minha competencia e ao meu intento.

Se o fizesse, poder-me-hia encostar a talentos sobremodo abalisados;--a

Hobbes que escreveu contra a certeza da sciencia que se tinha á conta de

mais certa; ao padre Castel que falla n'este diapasão: «Em geral

estimam-se muito ás mathematicas. A geometria tem verdades nebulosas,

objectos vagos, pontos de vista vaporosos. Por que dissimulal-o? Tem

paradoxos; apparencias de contradicção, conclusões de systema e de

concessão, opiniões de seitas, conjecturas e paralogismos»; a Buffon,

finalmente, que ponderou que as verdades mathematicas se reduziam a

entidades d'idéas, e eram baldas de realidade. Se eu lançasse mão d'esta

arma, movido de proposito ou convicção, responder-me-hia o meu amigo com

numerosas e respeitabilissimas opiniões tendentes a encarecerem a

verdade mathematica. Alardeariamos sciencia, mas não passaria a cousa

d'uma cegarrega causticante para o leitor e para nós.

Não combati o estudo da mathematica nem combato; cada um estuda o que

quer ou o que póde. Peço vista ao meu folhetim que despertou a sua

replica. Não aconselhei tambem a leitura da mais edificante novella de

preferencia ao mais arido compendio d'arithmetica. O que eu fiz foi

penitenciar-me publicamente do meu desamor aos numeros e, como eu sou

d'uma sinceridade rude, permitti-me dizer que dormiria mais descansado o

somno da morte, se minha filha, em vez de assignalar a minha sepultura

com uma lousa numerada, levasse frequentes vezes ao meu cómoro um ramo

de flôres. Isto é o que o meu amigo não póde nem deve discutir, apesar

da sua vasta intelligencia, que eu aprecio na devida conta. É licito a

cada um dizer como quer ser sepultado. O meu testamento, no que respeita

a esta disposição, é publico.

Nervosos, Lymphaticos e Sanguineos · 第 3 / 9 段