e exigem que o novo heroe seja o mesmo comicio, e a centuria, que
defender o templo e desvanecer o seu culto. É necessario que a Terra
Santa reuna o povo mais digno, e que a authoridade e o poder divino unam
o capitel e a cimalha do novo edifficio, e commandem a pureza da fé e a
sua excellente doutrina com o mais sonoro e metallico alarido de
desaggravo e de arguição. Todas as nossas instituições tendem ao valente
ensejo d'esta restauração do povo para o fazer nobre e para o exaltar
pelo martyrio e por meio da virgindade e da santidade da crença; a
corrupção corre em veias e carcome o amago do tronco que apodrece e
cahe: a nova arvore estende as suas raizes por todo o mundo e ha de
cobrir com os seus copados ramos todas as plagas, e zonas da esphera: o
castello que era do procere o do conde ou do rei e senhor, será de Deus
e do padre santo, do fiel e do mais devoto e digno de seu sublime culto.
Todos os heroes rivalisarão com os filhos de Javão, e dar-se-ha o premio
ao que desvanecer maior virtude e sacrificio com mais encarecidas
provas, e com mais heroico desinteresse.
O snr. D. Affonso Henriques vestia o talar ecclesiastico para fallar do
pulpito, e para narrar as maravilhas de todas as suas victorias, se
vinha ao reino algum rei ou principe estrangeiro convidado pelo desejo
de estudar as nossas proezas e façanhas e para se informar do seu
alarido: o grande monarcha não desejava fallar de assento sem subir ao
pulpito, porque n'esta cadeira de verdade recebia as suas inspirações e
mais fortes commoções e graças. Todos os estrangeiros estranhavam o
monarcha, e o seu habito de paz, que era o talar, senão a batina de
estudante: quando o viam subir ao pulpito alguns riam; depois que
sentiam as commoções de sua eloquencia e persuasão louvavam o orador e
choravam quando o orador chorava, commoviam-se e aplaudiam segundo o
costume do tempo com tão fortes demonstrações e signaes, que chegavam a
interromper o discurso. N'este emphase de sua justa admiração pediam ao
rei que repetisse, e como nada levava estudado progredia ao acaso e
sempre com o maior espanto e alarido deixava o auditorio, e corriam a
tomar o seu supplicio e disciplina pelo desacato que os mouros
commetteram em Ourique na occasião da batalha contra o Santissimo
Sacramento, que estava na ermida de Nossa Senhora do Monte.
Qual é o povo perdido? é o gentio de todos os seculos; que corre com os
que correm, que dorme com os que dormem, que se deixa corromper pelos
corruptos e se faz perverso por falta de sal e de doutrina que o
preserve e conserve. A sociedade de homens notaveis e dos falsos
proceres correu atraz da illusão, e levou comsigo e arrastou o maior
numero; vive no meio do fôro a parte sã e sensata. Quem acordará os
dormintes e levantará do pó os que jazem feridos pela scentelha do maior
erro e catastrophe? Só o Senhor nos póde acudir e soccorrer: levantai as
vossas vistas, exaltai o vosso pensamento, fazei-vos fortes no reducto
das vossas consciencias do desaggravo e esperai do santo alfageme o
milagroso remedio e toda a sua recompensa.
Estes são os nossos sonhos. Pensava no sonho de Pharaó o santo José
filho de Jacob, e só o Senhor alevantou o véo do mysterio, e deu ao
mysterioso numero a sua santa e verdadeira significação. Ha sete
peccados mortaes, e contra estes outras sete virtudes, mas vem primeiro
os peccados ao mundo antes que venha o remedio da virtude que supprime o
peccado correspondente: a sabedoria consiste em desvanecer a virtude
para que não tenha lugar o peccado, que a escurece e affronta. Este terá
sido o sonho e o constante pensamento da casa de Bragança no decurso de
dezeseis gerações? é certo que só o Senhor nos concede o mysterio d'este
desvanecimento e a sua gloria futura; venha o povo, e furte a virtude ao
merito, e deixe a torpeza dos bens aos vis forasteiros, que surgem do
inferno por tão negro e absurdo estipendio, e usurpação.
No meio dos seus sonhos e prophecias o santo rei d'Ourique previa e
affirmava, que o seu successor da 16.ª geração havia de ser rei e papa,
e era tão firme n'esta sincera e antecipada previsão, que algumas vezes
via a propria figura, e se compadecia das tramas e desgraças que o
haviam de perseguir, e dos males que haviam de sobrevir ao reino, e das
heresias em que já o via e considerava submerso e como amortecido pelo
diuturno interdicto e geral perdição. S. Affonso devia aos estrangeiros
e ás cruzadas extraordinarios favores; o seu pensamento de grande
estadista e o grande desejo que teve de ser util á santa causa da fé,
fez com que pedisse e solicitasse de sua santidade um decreto para que o
nosso reino fosse considerado reino da cruzada com todas as suas
indulgencias que obteve a grande contentamento de todos os cavalleiros
da cruz, e com grande desgosto e tristeza de todos os falsos monstros do
culto, e membros podres da nobreza. Este decreto causou grande alarma, o
povo defendeu a medida, que até os ecclesiasticos combatiam com muito
alarido de fingido zelo pelo bem da Igreja. Este conflicto ameaçou o
reino nascente, veio o nuncio de Roma, lançou interdicto, e triumphou o
rei com o povo, porque seu coração era real e tão recto e justo, que não
soffria a menor injuria do templo, e desaggravava os desacatos dos
mouros com o mais cruel supplicio de seu corpo e quasi á vista do povo e
para o edifficar como exemplo. A este tempo já muitos ecclesiasticos
seguiam o ocio da paz e principiavam a gozar e appetecer as delicias de
Capua: os simoniacos engordavam capões e perús para as festas do anno e
deixavam nús os pobres, e desamparados os orphãos e as viuvas; que faria
o rei? mendigar o soccorro do padre santo e a virtude de sua santa
indulgencia e receber do Divino Salvador a inauferivel do futuro remedio
e prophecia, e de Roma a anachronica certeza dos males que principiavam
a devorar a santidade da curia e a corcomer o corpo d'aquella santa e
bemfazeja arvore.
A prophecia é dada ao rei; foi David propheta e Salomão, Pharaó sonhava,
e o rei até quando sonha deve prophetisar para que o povo descance e
confie na sua sabedoria e providencia. Todos os prophetas tiveram honras
reaes e de santos, recebiam corôa de martyres e eram mandados ao povo,
ou por causa do povo aos seus reis e ministros do governo.
Se o rei for santo certamente ha de ser propheta; porque todos os reis
legitimos são constituidos por causa do povo; e por isso bem decidiu a
santa sé pontificia quando deixou o complemento da santidade de S.
Affonso reservada para o computo da 16.ª geração: mas pareceu-nos que a
ultima prova se devia presumir e dar por existente ou por verificada e
cumprida como promessa divina, ou desnecessaria e superabundante.
Assim aconteceu sempre em Roma com o milagre d'Ourique; mas nem sempre o
povo recebeu a fé viva d'este santo milagre: os que vivem da falsa
opinião e exploram as más disposições erram e perdem as suas almas, e
não cessam de condemnar as alheias; estes iracundos da propria alma
tramam e conspiram com todos os aventureiros, para levantar o idolo de
suas paixões e sensuaes appetites: não vos pareça menor o numero dos
defensores da boa e santa causa, nem deis por perdida a mais arriscada e
perigosa do juizo humano em quanto se conservar pura da fé, isenta de
contagio, estrenua e airosa pela virtude do desaggravo, e pela mais
sublime e divina da sua penitencia e martyrio: se fôr desvanecido por
virgens, se não tolerar o desacato, nem a vil affronta do impio, nem o
sarcasmo do judeu e do protestante, nem a simonia do falso e perfido,
nem a atrophia das almas sem as marcar com o ferrete, e sem as entregar
ao indefectivel juizo da santidade e da fé.
O nosso sonho foi uma visão ou previsão de S. Affonso, que se verificou
em Villa Real, n'esta antiga villa ou cidade: nós vimos em sonho o que
S. Affonso no seu tempo previu como propheta: o sonho tem uma historia
necessaria para a sua explicação; e como vem os factos traçados e
encaminhados para este mesmo fim, temos unicamente a acrescentar o
seguinte.
S. Affonso foi rei d'Ourique por justa e divina acclamação, as côrtes e
os poderes do estado applaudiram a eleição, juraram seus preitos, e
deram todos os documentos de boa fé e de cordial testemunho, do sincero
empenho e da resolução em que estavam de todos os sacrificios para
sustentar a acclamação e para continuar a guerra aos infieis. S. Affonso
pretendeu o voto universal por ser causa de milagre e de grande
sacrificio e do maior testemunho, e muitos ecclesiasticos que viviam nos
prazeres do ocio, e que sentiam vêr retaliados pela guerra os campos das
suas prebendas e passaes, e muitos ignobeis e falsos nobres, que seguiam
a lei de seu egoismo, e d'estes em o maior numero commentavam a
acclamação desfavoravelmente e persuadindo o povo a que não aceitasse o
rei porque esta acclamação havia de causar grande descontentamento em
Hespanha e traria comsigo algum maior dissabor da parte do supremo
pontifice.
Havia com effeito da côrte de Roma duas exigencias muito fortes e
constantes perante a côrte de Portugal: a primeira por causa do fôro de
S. Pedro que é de morgadio do Divino Salvador, e a segunda por causa das
cruzadas; por se dizer, que não irão do reino as cruzadas á Terra Santa,
como eram obrigados todos os fieis. Sempre o conde-rei se tinha
desembaraçado d'estas interpellações com muito favor, e não cessava a
intriga de urdir novos ardis; por virem de fonte conhecida e poderosa,
que era a côrte de Hespanha: mas obteve S. Affonso a bulla, que
declarava o nosso reino Terra Santa e reino de cruzada, o seu rei como
benemerito filho da santa Igreja e como antigo cruzado da Terra Santa de
Palestina, e applicasse o fôro do Divino Salvador para as despezas da
guerra. E logo a invicta monarchia obteve o suffragio e principiou a
julgar-se invencivel: mas os seus inimigos não dormiam, e agora veremos
o que urdiram em Roma mais calumnioso e atroz.
Formaram em Hespanha um processo secreto contra o rei com muitas
testemunhas de Portugal, gente vil, desconhecida e de negra e atroz
calumnia: os seus depoimentos recheados de torpezas e de peccados
phantasticos que attribuiam ao rei, e com o principal artigo d'esta
infame accusação que o monarcha a quem davam titulo de ambicioso seguia
a falsa lei da polygamia, e que era no seu modo de viver semelhante aos
reis mouros, e que tinha uma e duas mulheres em cada terra e que
obrigava os meninos a beijar-lhe a mão como pai de todos, ou como papa;
e que não havia mulher casada que não tivesse algum filho parecido com o
rei, e que estava o reino cheio de malhados, e que por este signal se
conheciam em melhor sombra do que os filhos dos negros. E mais diziam,
que o rei só era generoso e de real doação para as mulheres, e que os
homens andavam diante do soberbo califa como escravos d'harem. Levavam
este recado os malignos tão bem encadeado, como se fosse verdadeiro: o
demonio os ensinava a mentir a Deus e a jurar falso; verdadeira mentira
é todo o engano, que se faz ao padre santo, que é vigario do Senhor.
E com o mesmo intuito e abominavel pensamento de homens de consciencia
perdida, por terem paz occulta com os mouros e longas tregoas, e por não
quererem renunciar aos commodos e seu egoismo, acrescentava a calumnia,
dizendo que S. Affonso era hereje, e pretendia provar a accusação com
tres factos: primeiro, por subir ao pulpito de habito talar e de cota,
para prégar como prégava a favor do divino apparecimento, que os
calumniadores impugnavam e davam por fabuloso, dizendo que nenhum bispo
portuguez se jactava do milagre, nem prégava a favor da sua existencia,
e que os seus padres tambem não prégavam tal façanha, e por isso subia o
rei ao pulpito para o seu falso ministerio. O segundo facto que ligava
ao primeiro consistia em dizer que distrahia das cruzadas os seus
cavalleiros, e que os convidava para ficar no reino, e angariava para a
deserção das suas bandeiras nacionaes com grandes promessas e doações de
terras, que tirava á santa Igreja, e que n'este numero admittia sem
escolha muitos e grandes herejes da mesma falsa escola dos homens mais
ambiciosos, e que este D. Affonso era tão sofrego de ambição que tinha
guerreado com sua mãi, e que a tivera presa até que morreu no castello
de Lanhoso.
E ligavam a estes factos outro de maior atrocidade; porque directa e
indirectamente offendia a santidade do summo pontifice, mas a nada
d'isto attende a calumnia, quando vem proferida pelo maligno espirito
contra a maxima verdade divina; e diziam os calumniadores e verdadeiros
herejes que S. Affonso obtivera a bulla do privilegio pontificio do
reino por meio de grande e manifesta obcecação e por falsa causa que
allegou, e que era o maior inimigo das santas cruzadas, e que no seu
lidar e batalhar era semelhante ao demonio, e que jámais deixava de
ferir o seu adversario, e que ás vezes o feria pela malha com a sua
espada quatro e cinco vezes superior á abertura da malha ou rede de
ferro, e que este milagre era do demonio; e que elle tinham vencido em
Ourique contra a opinião dos seus generaes por ingerencia do demonio e
por ser grande hereje.
O processo era secreto, e D. Affonso não pôde prevenir o exito da
injuriosa e negra calumnia; andava lidando com mouros ao pé de Cintra,
aonde tinha castello fronteiro, e tinham os mouros o seu sustentado
pelos seus navios, e gente de mar e chegavam com as suas correrias até
Lisboa e talavam os campos, matavam e roubavam; e alli vivia ao pé S.
Affonso solicito do modo porque havia de extinguir o covil, e já tinha
certa a sua presa, quando o surprehendeu a noticia que vinha de
Traz-os-Montes vencendo leguas e horas, de que andava um nuncio de Roma
pelas igrejas principaes das villas e terras do reino a publicar um
interdicto contra o rei e contra os seus soldados, se não abandonassem o
rei no mesmo momento.
Apenas recebeu a tristissima noticia com todas as certezas do que se
publicava e ordenava, o rei chorou por tres causas: pela futura sorte do
reino; pelo erro d'aquelles perfidos calumniadores; e pela fraqueza
humana que sujeitava o vigario do Divino Salvador a tão capciosa e
calumniosa illusão. Fallou aos seus, e nenhum o deixou só n'aquella
altura; e contra a opinião dos que julgaram que devia aceitar uma tregoa
proposta pelos mouros pela causa principal do perigo em que viu aquelle
castello de Cintra, resolveu tomar o castello na mesma noite, e o mesmo
foi que ser o rei o primeiro a saltar dentro--ainda havia luz--e tomou o
castello em duas horas. Deu immediatamente as suas providencias, e
partiu para Traz-os-Montes e correu na distancia de mais de sessenta
leguas a outro maior perigo, por vir de Hespanha o nuncio, e de Roma,
d'onde menos se devia esperar, o flagello. O providente monarcha deixou
a tregoa com o castello tomado; os mouros já não lucravam o armisticio,
mas tinham proposto a suspensão, e não podiam recusar o arbitrio.
Chegou D. Affonso em menos de tres dias e de tres noites sempre armado
de ferro, com a morte de alguns cavallos que deixou estafados para tomar
outros, e já ninguem o acompanhava quando entrou em Villa Real, aonde o
nuncio tinha publicado o abominavel interdicto, e já ia no caminho de
Lamego em direcção a Coimbra. O rei manda prevenir o legado de que
estava em Villa Real para fallar com elle e de que o esperava n'aquella
capital para o receber com todas as honras devidas á sua alta categoria
e jerarchia. O nuncio era o principe real d'Hespanha.
Com esta providencia mandou tocar os sinos de alarma. A tropa que estava
na terra reuniu para um lado, para o outro reuniu todo o collegio das
humanidades com os seus balandraus e opas, mas sem cruz e sem nenhum
ecclesiastico, porque estes se reuniram e assentaram por votos da
maioria, que não deviam apparecer ao monarcha nem concorrer ao templo. O
rei só com o seu talar á porta da igreja que estava n'esse tempo no
sitio aonde está actualmente o templo incompleto da Senhora do Carmo
esperava o concurso no meio de maior anciedade, e nenhum se resolveu a
entrar. A irmandade e a tropa ouviam grandes vivas ao rei, e cada um
sonhava que eram os vivas do outro bando, e não se moviam: o rei já não
podia esperar, porque recebeu a certeza de que o nuncio não voltava a
Villa Real, antes havia de acclamar a sua desgraçada e infausta
commissão até Lisboa.
Que faria? Chorava aquella desgraça e tendo resolvido correr atraz do
nuncio para o informar e para pedir recurso do interdicto por não ter
sido ouvido nem convencido de tão graves causas, via-se só á porta da
igreja; olhou e viu a distancia o successor de dezeseis gerações, que
caminhava para o templo com o poder do summo pontifice e do provigario
do divino Salvador, entrou, despiu o habito talar e partiu.
Nós vimos a scena que S. Affonso viu e previu, mas de que modo? Ouvimos
os vivas, reconhecemos os dous bandos, vimos a porta meia aberta do
templo, a estatua do homem ou do heroe, e sentiamos que se recolhia por
nos vêr; marchamos só para o ministerio do templo, e os bandos receosos,
desconfiados, mas desejosos de nos acompanhar não se moviam: perguntei
de quem era o busto? que motivo tinha o povo e o exercito para se
conservar em tão grande espectação, e recolhi a historia, que fica
narrada, por muito santa e por muito verdadeira.
Antes de me dirigir ao convenio, estava eu no meio de muitos individuos
contemporaneos, que ora me convidavam para o fumo de tabaco, ora para
assistir a algum funeral; ora me assustavam com o perigo de grandes
traições que se armavam contra nós, e como as desprezei? deixando-os e
ficando só.
E como levamos a narração de interdicto a esta altura devemos
acrescentar em poucas palavras o que mais occorreu. D. Affonso devia
estar cançado da lida e da jornada, o que mais tinha mortificado aquella
indomita vontade com o receio do perigo que ameaçava o estado; apenas se
confirmou no seu nobre intento com a previsão de santo remedio, cahiu
cançado. Tinha em Villa Real um filho semelhante aos que trazia em
outras terras, só este o acompanhava e seguia: com um afilhado que
trazia nos estudos para adiantar o pobre mais esperançoso, porque d'isto
tinha elrei cuidado e geral intendencia; e o encarregou de lhe trazer
alguma comida, e apenas comeu logo partiu para Lamego, e o acompanhou
aquelle mancebo, que veio a ser conde de muito e grande merecimento no
reino da Galliza.
Em Lamego tinha o nuncio repetido o enganoso interdicto, e partiu logo
para Vizeu, seguiu o rei aquella falsa e perfida colera de mal avisado
vaticinio até Vizeu, aonde viu a mesma parodia de Villa Real e a scena
de Lamego, e preparou-se de prevenir o nuncio em Coimbra: o que
conseguiu matando-se com trabalho, d'indomito e de invencivel lidador.
Em toda a parte o rei encontrava ciladas de traição e de morte que o
povo logo descobria; e como julgava estes odios vindos d'Hespanha,
matava immediatamente os traidores; e dizia: «Assim como o nosso rei
está interdicto, nós faremos justiça.»
Em Coimbra preveniu o nuncio, e convenceu-o facilmente da injustiça que
commettia pelos principios do direito, e até á vista dos poderes que
trazia de sua santidade; e reuniu um conselho de sabios, que accordou no
meio que se devia seguir; o nuncio pareceu accordar, mas trahiu a sua
missão; de madrugada affixou interdicto e fugiu. Então foi apanhado pelo
rei com tres matadores d'Hespanha, e d'estes não ficou um.
O ULTIMO CARRASCO
Luiz Negro é o nome, terrivelmente adjectivado, do ultimo carrasco
legal, que morreu no Limoeiro, ha poucos mezes.
Na provincia transmontana contam-se ainda, nos saraus aldeãos, as lendas
sinistras do facinoroso soldado de dragões de Chaves.
O _Ultimo carrasco_ é o bosquejo d'esse personagem, tão decahido da sua
antiga importancia, mas tão considerado ainda no funccionalismo, que lhe
concederam as honras, quando o desbalizaram do ordenado.
O snr. visconde de Ouguella possue, do proprio pulso de Luiz Negro, o
escorço dos factos que o constituiram homicida legal, com estipendio;
todavia, não podemos favorecer a memoria d'este executor da justiça,
asseverando que elle cumpriu os seus deveres; por quanto, do contexto da
obra vêr-se-ha que Luiz Negro, quando tinha de enforcar, pagava a quem o
substituisse.
No prologo do _Ultimo carrasco_, no recamado estylo com que todos os
seus escriptos se opulentam, o snr. visconde de Ouguella detem-se na
antiga idéa de abolição da pena de morte. Entre os mais energicos
apostolos d'essa humanissima missão, está Carlos Ramires Coutinho, desde
que passou dos bancos da universidade para a tribuna forense.
Os primeiros brados, que resoaram na imprensa, nos tribunaes e na
consciencia publica, sahiram da alma liberrimamente generosa d'aquelle
moço. Os annos volveram-se, os attritos do desengano desbotaram-lhe o
verniz de muitas e queridas illusões; mas o sentir profundamente
humanitario lá se lhe insurge, apesar dos dissabores, em pró das classes
cuja emancipação os preconceitos retardam. Nem as insignias titulares,
nem o egoismo tão irmanado com os bens da fortuna enervaram a alliança
que travou o visconde de Ouguella com as aspirações da democracia. Para
elle o titulo não é a inerte e absurda indifferença de fidalgo, nem da
superabundancia de meios surtiu a atrophia dos fidalgos sentimentos que
a pobreza, talvez, obrigasse a transigir com a fatalidade das
circumstancias.
Queremos dizer que dos escriptos do visconde de Ouguella reveem,
principalmente, os impulsos liberaes de um animo que não enfraquece nem
descança na lucta. No prefacio, que vai lêr-se, do _Ultimo carrasco_
resaltam um altissimo condoimento da ignorancia, que sob-põem o collo ao
jugo, e uma vehemente invectiva aos que, se podessem, apagariam a
immensa luz que lhes abriu caminho por onde se passaram dos tamboretes
de couro para os flaccidos sophás.
O ULTIMO CARRASCO
INTRODUCÇÃO
É dolorosa a tarefa.
São pungentes, tambem, as recordações.
Todavia a feição singular d'este nosso seculo exige imperiosamente estas
luctas, e obriga-nos a estas pugnas, as mais das vezes, inglorias.
Seja assim.
Tão rapidamente se photographam, hoje, as metamorphoses dos apostolos,
allucinam-se com tanta promptidão os espiritos, e desvairam-se as
consciencias em tão loucas vertigens, que temos nós--nós, os
exploradores obscuros, e audazes obreiros--de lidar e mourejar
constantemente, para affirmar, a cada hora, estes principios
sacrosantos, que consubstanciam, e determinam a religião do dever.
Ainda ha pouco, uma das mais esplendidas intelligencias da peninsula,
rica de todas as opulencias d'este nosso sólo do occidente, marcada com
o sello divino, precursora da boa nova, sentinella e espia vigilante das
mais puras crenças em que se basêa a democracia, esqueceu, nos delirios
que dá o mando e o poder, todas as inspirações, e toda a religião do
povo--religião das massas, que, elevando-o, o engrandeceram e
divinisaram--e, acommettido pelas vaidades pueris dos Nabuchos de todos
os tempos, exilou, deportou, e fusilou como se fôra elle--elle, o
tribuno das escolas e dos congressos--um duque d'Alva nas ferocidades
das conquistas do imperio de Carlos V, ou um deploravel Telles Jordão,
nascido para sicario de todas as reacções.
É triste, é lamentavel, é afflictivo, que o Demosthenes da peninsula
hispanica, berço na actualidade da familia mais heroica da raça latina,
deslembre e olvide, nas allucinações, que ensombram o fastigio do poder,
principios inconcussos e sagrados, e venha dar senão razão, pelo menos
pretexto a essas hordas barbaras de hunos, vandalos ou não sabemos se de
bandoleiros, que atravessam e devastam as Vascongadas, a Navarra, e a
Catalunha, missionando crenças, que seriam ridiculas e apenas abjectas,
n'este seculo, se um rasto de sangue, de fogo, e de metralha não
enchesse de terror e de luto as povoações por onde caminham e perpassam.
Não ha razão d'estado, não ha lei de salvação popular, não ha causa
nenhuma, por mais ardilosa, machiavelica ou especiosa que seja, que
consagre nunca, e em caso nenhum, uma offensa feita ás leis geraes por
que se rege a humanidade.
A vida humana é inviolavel sempre, e para todo o sempre.
Errem os homens--embora!--Succumbam momentaneamente as idéas grandiosas
de emancipação dos povos--resignemo-nos, e esperemos. Mas salvemos todos
esta arca santa, este sacrario das mais nobres aspirações da democracia.
Dêmos ao _sacer esto_ das doze taboas a unica e verdadeira interpretação
das sociedades modernas.
Não votemos o criminoso, qualquer que seja o seu delicto ou a penalidade
em que incorreu, aos deuses infernaes. Rehabilitando-o, votemol-o á
sociedade, ás verdadeiras crenças, á familia, e á patria.
A Vida do homem é sagrada.