reza assim: «_...e pareceu a todos os votos que o réo pela prova da
justiça e suas confissões estava legitimamente convicto no crime de
heresia e apostasia por se persuadir dos erros do deismo, tolerantismo,
e indifferentismo, tendo para si, e crendo que se salvaria na
observancia da lei natural, como a sua razão e a sua consciencia lhe
ditasse, sem a sujeitar a algumas leis ou preceitos e sem a regular
pelos dogmas da religião revelada que não acreditava; tendo tambem por
injustas e tyrannas as leis com que a igreja obriga os fieis a captivar
os seus entendimentos e a sujeitar os seus discursos em obsequio da fé e
das verdades reveladas que lhes propõem para crerem sem duvida nem
hesitação alguma: persuadindo-se igualmente que qualquer pessoa se
salvaria em toda e qualquer religião que seguisse e fielmente
observasse, capacitado que obrava bem, ainda que errasse, não sendo por
malicia, mas só por falta de conhecimentos_», etc.
A inquisição já não tinha garras n'aquelle anno de 1778. Vinte annos
antes, um réo com menos delictos, seria queimado. José Anastacio orçava
então pelos trinta e quatro annos; era tenente do regimento de
artilheria do Porto, e lente cathedratico da cadeira de geometria na
universidade.
José Monteiro da Rocha, lente de astronomia, figadal inimigo de José
Anastacio, teve o maior quinhão no vingado odio que o perdeu. Em um
debate scientifico degladiado entre os dous sabios, encontro o professor
de geometria assim apreciado por Monteiro da Rocha[5]: _Estes papeis
respiram tanta arrogancia e presumpção, contém tantas falsidades e
imposturas, e desmandam-se em allusões tão satyricas, e dicterios tão
grosseiros, insolentes, e malignos que bem manifestamente dão a conhecer
que o author tem o miolo desconcertado ou damnado o coração._
Se tinha o coração damnado, a inquisição expungiu-lhe o virus
hydrophobo, e Monteiro da Rocha fez uma boa acção proporcionando ao seu
inimigo o ensejo de reconciliar-se com S. Domingos, mediante sete annos
de reclusão e confisco de bens.
O insigne mathematico falleceu aos quarenta e tres annos de idade, na
calçada de Nossa Senhora das Necessidades, nos braços de sua mãi, que
elle adorava extremosamente.
O snr. Innocencio Francisco da Silva publicou em 1839 as _Composições
poeticas do doutor José Anastacio da Cunha_, incluindo n'ellas a _Voz da
Razão_ que não era de José Anastacio. O illustrado bibliophilo
reconheceu depois e confessou o seu engano, por se ater ao boato
publico.
Nas mais completas collecções de poesias ineditas do douto philosopho
não entra a _Voz da Razão_. Prezo-me de ter possuido as suas poesias
completas, e não vi rastro d'esse poema nem d'outros com a mesma
tendencia irreligiosa.
No _Diccionario bibliographico_, tom. IV, pag. 226, o snr. Innocencio
Francisco da Silva, considerando extraviada a maior parte das poesias do
seu biographado, escreve: «... João Baptista Vieira Godinho, outro
intimo amigo de José Anastacio, fallecido no Rio de Janeiro a 11 de
fevereiro de 1811, no posto de tenente-general, teve tambem em seu poder
muitas composições do sobredito; porém, confiando-as algum tempo antes
de morrer ao conde de Linhares, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, ignora-se
o destino que tiveram.»
Podiam ter peor destino. Vieram á minha mão em 1872. É um volume em 8.º
encadernado em marroquim, dourado por folhas. Contém parte 1.ª e parte
2.ª dos versos. É prefaciado por _J. B. V. G._ (João Baptista Vieira
Godinho), que se propõe reunir as poesias _do seu desgraçado amigo_. Não
sei como este volume sahiu da livraria do conde de Linhares. Eu
comprei-o ao livreiro Rodrigues, do Pote das Almas, em Lisboa; e elle
comprou-o aos herdeiros do jurisconsulto Pereira e Sousa. O livro, a
final, entrou no pantheon mais digno que lhe podia occasionar o fado dos
livros que não é sempre o melhor: está na livraria do snr. visconde de
Azevedo, no Porto.
Presumo, todavia, que Vieira Godinho não logrou colligir todas as
poesias do seu amigo. A _Satyra_, que o leitor acabou de lêr, pertence a
outro codice.
Tambem possuo da letra de José Anastacio a versão muito emendada do 1.º
e 3.º acto do _Mafoma de Voltaire_. Diz lá uma nota de Pereira e Sousa
que _aquelles mesmos papeis estiveram no cartorio da mesa do santo
officio_. Por isso eu os guardo com muita veneração, e os beijo
reverentemente, pensando que elles passaram pelos bentos dedos do
cardeal de Cunha, inquisidor geral.
[2] Diogo José da Serra, um escandaloso vadio d'esta cidade, tão
ignorante como devasso. Este homem foi quem induziu á factura da
_Satyra_ o doutor Botija.
[3] Calumnia que os herdeiros de Francisco Dias estimariam que não o
fosse. O poeta arguido de avarento morreu pobrissimo.
[4] Francisco Dias Gomes era de geração judaica.
[5] Documento inedito de que tambem possue traslado o snr.
Innocencio Francisco da Silva.
PREFACIO AO SONHO DO ARCEBISPO
O correspondente lisbonense do _Jornal da Manhã_, indigitando o rastilho
de futuras combustões no arranjo social das cousas portuguezas, malsina,
sem nomeal-os, uns opusculos mensaes, onde se exhibem contra a casa de
Bragança ineditos attribuidos falsariamente a arcebispos. Os opusculos
accusados com injusta malquerença são as _Noites de insomnia_, e os
manuscriptos arguidos de fraude são os dous innocentes dislates de um
illustremente desgraçado talento, cujos autographos offereço a quem, na
duvida, quizer examinal-os.
Em nenhum dos dous artigos (a _Catastrophe_, e _D. Maria Caraca_) é
atacada a dynastia brigantina, e menos ainda a legalidade que assiste á
testa coroada, com que mui jubilosamente me envaideço e sobremodo me
honro, em nome do partido da ordem, cujo estandarte as _Noites de
insomnia_, desde ora avante, desfraldam.
As noticias, historicamente relativas á familia ducal e real de
Bragança, publicadas n'estes livrinhos, não pesam sobre a memoria do
esclarecido arcebispo;--são todas de minha lavra, e de minha
responsabilidade perante os doutos. Todavia, se alguem me rastreia,
n'esse lavor meramente historico, o insidioso plano de aluir o throno,
sou obrigado a declarar que não se acham ainda bastantemente decisivas
as minhas intenções a respeito de sua magestade, nem me parece que
cheguem as cousas a termos de eu ter de desthronar o snr. D. Luiz I. E,
dado que razões imprevistas, mas rijas, me impulsem a exterminar a casa
de Bragança, hei de fazer quanto em mim couber, na hora do maior perigo,
por ter mão... na manta real. Por onde se vê que, em materia de
Coriolanos, Belisarios, e outros, ainda os ha por aqui, na patria dos
Pachecos. Iniquissimamente, pois, me culpa o escriptor referido, quando
me arrola entre os obreiros subterraneos da oligarchia; e ao mesmo tempo
incute pavores no animo d'um alto personagem. Por causa d'estes alarmas,
temos visto a timidez que se denuncia, e denota pouca firmeza de
consciencia, debilidade de espirito, incerteza juridica do lugar que se
occupa, braço inerme para a defensão da real e sagrada propriedade. Se
conhecem a pusillanimidade d'aquelle a quem cumpre ser forte, e até
heroe no cairel da voragem, não lhe mettam espantos na alma com
phantasmas; robusteçam-no para a provação, quando a hora troar, a hora
maldita em que o povo açacala as garras, e golfa das tabernas com
bramidos de leão. Se não querem prevenir as catastrophes, porque não ha
prevenções contra a fatalidade, não se finjam previstos, pondo estas
innocentes _Noites_ a espreitar Cesar pelo olho esquerdo de Bruto.
Quanto ao arcebispo de Mitylene, não se diga que elle me deixou, como
herança de rancores demagogos uns papeis, de que eu estou estillando
petroleo para o holocausto da casa de Bragança. Posto que o celebre
jurisconsulto, depois de alienado, se imaginasse proscripto dos seus
direitos ao ducado brigantino, nunca lhe coou da penna de ferro injuria
contra a familia real, que era, pouco mais ou menos, a d'elle.
Verá o leitor, no seguinte artigo, quanto o vidente de mundos defezos ás
pessoas que se dizem ajuizadas, respeitava seus regios predecessores, e
nomeadamente seu avô o snr. rei D. Manoel, e seu mais remoto avô o snr.
D. Affonso Henriques, que elle viu em Villa-Real, trezentos annos antes
da povoação d'aquella villa.
Verdadeiramente, a gente não sabe se os doudos são os que vêem cousas
estranhas, se somos nós que não vemos senão trivialidades. Gerard de
Nerval pende a crêr que os doudos são os que tem o condão extraordinario
de vêr o invisivel aos parvoeirões. Regra geral: assim que um homem
descamba da linha recta que vai desde o almoço até á cêa através do
jantar, a razão humana desconfia d'elle. Se este homem suspeito,
unicamente, lesa os seus interesses, chamam-lhe, com piedosa
indulgencia, tolo: se, por demasia de espiritualidades, damnifica os
interesses alheios, estigmatisam-o de mentecapto. Qualquer das
qualificações impellem á morte moral. Eu ainda não atinei bem com a
denominação ajustada ao doutor D. Domingos de Magalhães, porque no seu
modo de escrever historia, philosophia e moral, se revela muito mais
acerto, critica e sciencia que nos livros de uns homens que não se acham
bem definidos nas diversas doenças apyreticas do cerebro. Eis aqui um
rapto de luz que elle denominou:
SONHO
(INEDITO DO ARCEBISPO DE MITYLENE, ESCRIPTO NO PERIODO DA ALIENAÇÃO)
No decurso de dezeseis gerações não veio ao mundo nem assomou ao
pensamento de nenhum sabio o que a actual inspiração ensina, e communica
a todos pelo modo mais extraordinario e divino, ou pela fonte mais pura
e heroica do santo e actual desaggravo. A Divina Providencia jámais se
revelou tão benefica e misericordiosa, nem tão solicita e desvanecida
para com a pobre e triste humanidade, que escurece o beneficio e parece
desprezar o seu author divino, só pela torpe e abominavel gloria do seu
desprezado egoismo e da sua indomita soberba. Estava já endurecido o
coração de Pharaó, e não consentiu a sua vil injuria que o infinito
poder da vara e a sua misericordia o livrassem da ira do mar e do justo
castigo das aguas.
O sonho actual é de outro Pharaó, que só viu as sete vaccas gordas, e
não quiz ou não pôde vêr as magras, e as deixou todas para traz e
desprezadas em poder de herejes e de inimigos do santo nome e da fé. Diz
a historia que Pharaó viu primeiramente sete vaccas gordas, e que a
estas se seguiram sete vaccas muito magras e muito definhadas, que mal
podiam sahir do rio aonde se banhavam e bebiam. Ás nossas sete vaccas
são sete seculos de dezeseis gerações, que deixamos para traz das
costas, magros, definhados e proscriptos, que terminaram pela mais
negra, medonha e absoluta penuria de todo o recurso e remedio. A mãi e o
pai comem a carne do filho, os mortos jazem sem sepultura, a impiedade
triumpha, a verdadeira fé anda foragida, a injuria do Senhor substitue o
culto, e sobre as cadeiras de Moysés já não se assentam os escribas e os
phariseus; os mais depravados inimigos perseguem em nome do Senhor todos
os seus santos ministros, e predizem pelas suas obras o fim do mundo, e
a necessidade do ultimo e geral escarmento.
Tal é o quadro da abominavel heresia, e da mais atroz injuria, que se
pode levantar contra o Senhor em nome do demonio sem o proclamar como
Anti-Christo; o vituperio de tão grande affronta avexa os filhos do
Divino Amor, o mais horrivel pesadelo coarcta as suas faculdades, e o
delirio do sonho chama e reclama a necessidade do mais santo esconjuro,
e da mais afouta e intrepida penitencia. Felizes as mulheres estereis, e
mil vezes mais acordado, ou menos infeliz e desprezivel será o aborto,
que não recebeu a agua do baptismo nem chegou a uso de razão para não
soffrer a injuria da maldita geração do peccado, e do seu enorme e
horroroso castigo.
Passados sete seculos como um sonho, quebraram o preito, apagaram a
gloria, e amofinaram o beneficio de seiscentas batalhas e de outras
tantas victorias, riscaram das paginas mais gloriosas da nossa historia
monumentos eternos para escrever o geroglifico da maior vileza que nega
as façanhas aos heroes, e depõe a estatua do seu pedestal para a
substituirem pela mais desprezivel do seculo, e pelo que tiver deixado
nome mais injurioso, conspurcado e escravo.
Descobriram os nossos antigos o Brazil, e fundaram n'elle a maior
colonia do mundo, que se fundou sem o vicio dos perseguidos e dos
emigrados religiosos e politicos; e os que tiveram esta gloria são
desprezados, e os seus herdeiros perseguidos. O usurpador que se fez
possuidor para proclamar o falso principio de independente, e que
entregou os estados ao ouro, e ao poder da Inglaterra foi levantado e
exaltado; porque emprehendeu entre nós a mesma façanha e legou o seu vil
commettimento ao partido mais vil e fementido, atroz e degenerado, que
pode organisar-se em nome de uma seita protestante e heretica para
commetter esta grande aleivosia e diabolico mandato. D. Affonso
Henriques ainda dorme o somno dos seculos; os seus heroicos serviços
ainda não foram julgados pela posteridade; parece que o grande vulto
espera que a fama das suas façanhas o alevante sobre todos os porticos e
sobre a fronteira de todos os templos e igrejas catholicas. Que fará a
mais hedionda e vil injuria d'este sonho abominavel dos herejes? Levanta
o impio e exacerba o catholico, vende a terra da patria; e, para ter
sepultura em paiz protestante, pactua com o demonio a quem entregou a
alma a traição e o aleive; o seu desdouro é o mais abominavel tramite e
caminho do inferno.
Fez em Lisboa injuria ao veneravel corpo e santelmo d'el-rei o snr. D.
Manoel, meu presado avô. Os usurpadores apodrecem em seus sarcophagos, e
os reis legitimos recendem e perfumam a desfeita porque não legaram a
vileza do seu coração, deixaram os estados, os eternos monumentos, os
mosteiros e a maior grandeza do reino, e não roubaram nem atraiçoaram
nem renegaram de Deus nem da patria, nem abandonaram a justiça nem
venderam as suas consciencias.
Como pôde a nação chegar apesar de tão emeritas virtudes e de tão
relevantes serviços ao ultimo estado de degradação e vilipendio? Devemos
presumir que a nação sempre foi perversa, e que os heroes foram poucos
mas estrenuos, e tão briosos e fieis que conquistaram do mundo a maior
fama, do Senhor o mais desusado e grandioso favor e auxilio. São poucos
os heroes? quantos monarchas illustraram o throno? quantos fieis e
valentes venceram em Ourique? quantos foram os mais dignos missionarios
do Oriente? quantos Pachecos e Albuquerques? quantos Castros e
Mascarenhas? quantos Magalhães e Gamas? Aonde estão as suas estatuas?
que é feito do corpo santo de S. Francisco Xavier?
São estas as perguntas que vos dirijo, as invectivas que hei de
fazer-vos até o fim: eis o martyrio que appeteço e a santidade que o
Senhor me concede, como propheta, para vingar a injuria de sete seculos,
o sonho e o pesadelo do mais atroz delirio. Os filhos de S. Francisco,
de S. Domingos, de S. Theotonio, e de Santo Antonio que dormem nos
claustros dos extinctos e abominados conventos; os monges negros de S.
Bento, os inimitaveis de S. Bernardo, toda a familia de Santo Agostinho,
os proceres d'Alcantara e de Bruno fallam pela nossa bocca, e dirigem o
nosso pensamento n'esta humilde e generosa tarefa. Que fizeste, ó impio,
de tanta santidade que perverteste, e da sua grande fama e publica
utilidade?
No sonho de sete seculos não pôde a sabedoria de tão grandes heroes
levantar o eterno monumento do actual desdouro e da sua fatal cegueira?
Somos nós o vingador das injurias, porque o Senhor nos conserva e
defende, afouta e encaminha para o nosso honroso e santo ministerio.
Está por terra o edifficio de nossa grandeza; vê o mundo, admira e
contemplam os anjos a nossa actual miseria e compadecem-se d'este
ruinoso estado: só não se move o povo, só o interdicto dorme o maldito
somno da morte, e não delira nem appetece a eterna felicidade de sua
salvação e liberdade!
Sabemos que o actual abominio tenta exterminar toda a geração d'ourique,
e cassar as promessas do Divino Salvador matando o Promettido e
Desejado; e d'este projecto ri e zomba, e escarnece a nossa fé pela
vaidade do sonho ser digna e merecedora de mais prompto desprezo; mas
não basta que o Senhor defenda uma causa para que se considere heroica:
convém que o homem e o povo eleito e escolhido para a façanha se mostrem
dignos, timbrosos, sobranceiros ao maior perigo e intrepidos e confiados
na justiça do commettimento, e na gloria da Divina Protecção. O sonho,
que desdoura o homem, cerca de terror o timido e fugitivo escravo do
demonio, porque não confia no poder do seu senhor, nem na justiça da
causa nem na certeza do seu delicto.
Todas as vezes que me occorre algum nobre pensamento do Divino Amor e do
seu desaggravo, não posso resistir ao desejo de o exarar. O amor de Deus
é um sentimento imperioso, porque Deus é o summo bem: o que tem a
felicidade de vêr o Senhor não póde deixar de o amar sobre todas as
cousas; porque assim o exige a natureza do bem que nos arrebata. Se o
triste e mesquinho não ama o Senhor sobre todas as cousas, outro
espirito assenhorêa a alma do possesso, e pode dizer-se que impera
n'ella o demonio. Quem não é por mim é contra mim. A manifestação mais
perfeita de amor é o desaggravo da offensa; o que não desaggrava não
ama: porque ao summo bem corresponde o amor mais perfeito: não amando,
aborrece; e, na presença da injuria e do escandalo do desacato, toma
sobre si e á sua conta toda a cumplicidade da offensa, e faz-se digno do
mesmo rigor da pena, e do maior castigo devido á perpetração do delicto.
Os mais revezados delictos maculam a geração actual; é uma herança que
recorda a dureza de Pharaó e a obstinada e cruel memoria de Herodes e
Pilatos. No Egypto a vara do poder, na Judêa o Divino Verbo, que veio ao
mundo para nos regenerar, pesam e sentem a falta de desaggravo, e só
lamentam a dureza do povo e a sua affectada cegueira. É um sonho, que
sempre se repete, e que manifesta bem palpavel n'este mundo das illusões
o irresistivel poder do maleficio, que actua sobre os escravos do
peccado e filhos da ira e da sua perversa condição. Fuja o homem de
commetter o peccado imperdoavel; porque em sua fatal herança não só
deturpa e cega, senão que domina e arrasta a alma para a maior perdição,
e para o fundo do abysmo.
A quantos d'estes póde aproveitar o desaggravo e o martyrio ninguem ha
que ignore, e muitos desejam ser purificados pelos heroicos processos da
santa penitencia da fé, mas ninguem os sujeita, nem ha força que os
violente; e tremem do exito, vivem no fóco da calumnia e do erro, da
perseguição, e d'um para outro dia soffrem a tremenda metempsychose da
furia do dragão. Fallamos ao povo que conserva o direito de propria
consciencia e algum vislumbre de boa fé para que procure e abrace a
salvação da indulgencia e do martyrio, que tem diante.
Quando o fiel d'uma balança pende por força irresistivel para o abysmo,
são felizes os que se lançam na outra concha; porque a força contraria
os impelle e ascende mais do que a natural virtude dos seus corpos
diaphanos. Que bella monção para tão feliz viagem! que bello sonho para
os sete seculos venturosos que se hão de completar na eternidade!
Quando nosso Senhor veio ao mundo era o cordeiro immaculado, e veio para
o eterno sacrificio do Amor Divino. Nasceu em um presepio, e podia
nascer em um monte, que era dado a sua santidade, e fóra do redil aonde
nascem quasi todos os cordeiros, mas nasceu em um presepio para nascer
entre os pastores e bem resguardado dos lobos, que procuravam o
innocente para o matar. Em Bethlem e no templo, quando o menino foi ao
Agrado e esteve entre os doutores, renovaram os insanos judeus as suas
tentativas e machinações; e por isso o meu Senhor fugiu de Bethlem para
o Egypto e d'este a primeira e a segunda vez para a Lusitania; d'onde
finalmente sahiu para a grande e heroica missão, que nos remiu no
calvario. S. Thiago e S. João eram irmãos do Senhor; veio ás Hespanhas o
grande apostolo, e veio tambem S. João, mas nenhum teve o seu martyrio
na Peninsula. S. Thiago foi receber á Judêa a sua promessa. S. João foi
ao imperio dos Cesares, e á terra do paganismo e do amor depravado da
louca e desnudada Venus. Voltaram os seus corpos? que recondito conserva
o virginal de S. João? Este sonho póde condizer com a Rodhoma por ter S.
João recebido no calvario a santa maternidade da Virgem minha Senhora.
Desde que nascemos para o santo ministerio do actual desaggravo de
dezeseis gerações, um presentimento feroz persegue e incita a indomita
heresia para nos matar; o veneno é a sua arma; actualmente só o mais
decidido milagre me podia salvar da furia; eu presagío que o meio
heretico só tende a abysmar os seus altares e instrumentos. O tetrico
sonho da ira impotente subjuga os escravos que se irritam e despedaçam,
como as ondas que quebram contra o invulneravel rochedo, e se abysmam
pela inutil furia do seu audaz commettimento. Os judeus levaram a sua
insania ao cabo, e veio o maior castigo do povo e sobre a terra com a
justa ira do Senhor: o ultimo propheta foi morto entre o templo e o
altar, e a prophecia foi negada para sempre ao judeu, que só tem
actualmente a de Jonas, que foi sempre mandado em missão de Ninive e de
Babylonia aos pagãos e gentios. A Virgem minha Senhora inaugurou no
Carmo o centro da adoração, e transferiu para o novo reino de Sião o
docel de sua prophecia aonde se conserva. Se em vez do culto devido á
santidade do Senhor o nosso reconhecimento hereditario se convertesse em
fel d'injuria, e dessemos ao meu Senhor e á sua Santissima Mãi o calix
da maldição dos judeus--deviamos recear que viesse sobre nós o mesmo
flagello, e que a falta de desaggravo nos equiparasse para a pena do
escarmento ao detestavel povo e aos seus perfidos ministros e traidores.
O nosso centro de desaggravo installou-se na Penha da Estrella e debaixo
do docel e da egide da Virgem minha Senhora. Quantos mezes se
conspiraram para apagar aquella luz sacrosanta, e comprometteram as suas
almas n'este malfadado empenho e ousadia? O seu pensamento era só um, e
a nossa morte o unico desenlace de todos os estratagemas. O ministro
executor do barbaro decreto trepidou, e desde que chegamos a esta villa
até o presente as suas combinações e ardis tem-se resentido da mesma
canha e imbecilidade. O coche funerario que me destinava a tyrannia
converteu-se na traquitana, que me conduziu á estação; o decreto de
despejo que me lançava fóra de casa em Lisboa e d'esta villa ha de
executar-se pelo santo direito do talião divino contra os vergonhosos
authores, porque todos os seus meios eram d'impios sem fé e sem verdade
de juramento, de crueis perseguidores de fieis, e de profanadores dos
templos e de sua maxima santidade.
O sonho, que actualmente nos alevanta de toda a desanimação produzida
pela heresia, é dos sete seculos magros, que hão de ser coroados por
outros sete seculos pingues e ferteis, heroicos e cheios de fartas e de
briosas chronicas, que encerrem as façanhas dos fieis, a succinta
historia dos povos, e o precinto da catholica santidade e igualdade de
todos os filhos e do mesmo Pai santo e commum no céo e na terra. As
casas de Bragança e de S. Bruno sempre foram perseguidas pelos nobres e
falsos fidalgos: todas as suas façanhas tem sido commandadas por pessoas
de familia no fervor do nobre enthusiasmo do povo, executadas pelo
devaneio e pelo assombro do milagre, por ficarem em esquecimento e sem
galardão do mundo e só com o grande e extraordinariamente mais real e
verdadeiro do proprio som e merecimento: por esta razão faltam as
estatuas aos heroes, e vem no meio da enxurrada as obscenas dos mais
tredos e falsos pyrilampos.