Os delictos do condemnado estão substanciados no exordio da sentença que

reza assim: «_...e pareceu a todos os votos que o réo pela prova da

justiça e suas confissões estava legitimamente convicto no crime de

heresia e apostasia por se persuadir dos erros do deismo, tolerantismo,

e indifferentismo, tendo para si, e crendo que se salvaria na

observancia da lei natural, como a sua razão e a sua consciencia lhe

ditasse, sem a sujeitar a algumas leis ou preceitos e sem a regular

pelos dogmas da religião revelada que não acreditava; tendo tambem por

injustas e tyrannas as leis com que a igreja obriga os fieis a captivar

os seus entendimentos e a sujeitar os seus discursos em obsequio da fé e

das verdades reveladas que lhes propõem para crerem sem duvida nem

hesitação alguma: persuadindo-se igualmente que qualquer pessoa se

salvaria em toda e qualquer religião que seguisse e fielmente

observasse, capacitado que obrava bem, ainda que errasse, não sendo por

malicia, mas só por falta de conhecimentos_», etc.

A inquisição já não tinha garras n'aquelle anno de 1778. Vinte annos

antes, um réo com menos delictos, seria queimado. José Anastacio orçava

então pelos trinta e quatro annos; era tenente do regimento de

artilheria do Porto, e lente cathedratico da cadeira de geometria na

universidade.

José Monteiro da Rocha, lente de astronomia, figadal inimigo de José

Anastacio, teve o maior quinhão no vingado odio que o perdeu. Em um

debate scientifico degladiado entre os dous sabios, encontro o professor

de geometria assim apreciado por Monteiro da Rocha[5]: _Estes papeis

respiram tanta arrogancia e presumpção, contém tantas falsidades e

imposturas, e desmandam-se em allusões tão satyricas, e dicterios tão

grosseiros, insolentes, e malignos que bem manifestamente dão a conhecer

que o author tem o miolo desconcertado ou damnado o coração._

Se tinha o coração damnado, a inquisição expungiu-lhe o virus

hydrophobo, e Monteiro da Rocha fez uma boa acção proporcionando ao seu

inimigo o ensejo de reconciliar-se com S. Domingos, mediante sete annos

de reclusão e confisco de bens.

O insigne mathematico falleceu aos quarenta e tres annos de idade, na

calçada de Nossa Senhora das Necessidades, nos braços de sua mãi, que

elle adorava extremosamente.

O snr. Innocencio Francisco da Silva publicou em 1839 as _Composições

poeticas do doutor José Anastacio da Cunha_, incluindo n'ellas a _Voz da

Razão_ que não era de José Anastacio. O illustrado bibliophilo

reconheceu depois e confessou o seu engano, por se ater ao boato

publico.

Nas mais completas collecções de poesias ineditas do douto philosopho

não entra a _Voz da Razão_. Prezo-me de ter possuido as suas poesias

completas, e não vi rastro d'esse poema nem d'outros com a mesma

tendencia irreligiosa.

No _Diccionario bibliographico_, tom. IV, pag. 226, o snr. Innocencio

Francisco da Silva, considerando extraviada a maior parte das poesias do

seu biographado, escreve: «... João Baptista Vieira Godinho, outro

intimo amigo de José Anastacio, fallecido no Rio de Janeiro a 11 de

fevereiro de 1811, no posto de tenente-general, teve tambem em seu poder

muitas composições do sobredito; porém, confiando-as algum tempo antes

de morrer ao conde de Linhares, D. Rodrigo de Sousa Coutinho, ignora-se

o destino que tiveram.»

Podiam ter peor destino. Vieram á minha mão em 1872. É um volume em 8.º

encadernado em marroquim, dourado por folhas. Contém parte 1.ª e parte

2.ª dos versos. É prefaciado por _J. B. V. G._ (João Baptista Vieira

Godinho), que se propõe reunir as poesias _do seu desgraçado amigo_. Não

sei como este volume sahiu da livraria do conde de Linhares. Eu

comprei-o ao livreiro Rodrigues, do Pote das Almas, em Lisboa; e elle

comprou-o aos herdeiros do jurisconsulto Pereira e Sousa. O livro, a

final, entrou no pantheon mais digno que lhe podia occasionar o fado dos

livros que não é sempre o melhor: está na livraria do snr. visconde de

Azevedo, no Porto.

Presumo, todavia, que Vieira Godinho não logrou colligir todas as

poesias do seu amigo. A _Satyra_, que o leitor acabou de lêr, pertence a

outro codice.

Tambem possuo da letra de José Anastacio a versão muito emendada do 1.º

e 3.º acto do _Mafoma de Voltaire_. Diz lá uma nota de Pereira e Sousa

que _aquelles mesmos papeis estiveram no cartorio da mesa do santo

officio_. Por isso eu os guardo com muita veneração, e os beijo

reverentemente, pensando que elles passaram pelos bentos dedos do

cardeal de Cunha, inquisidor geral.

[2] Diogo José da Serra, um escandaloso vadio d'esta cidade, tão

ignorante como devasso. Este homem foi quem induziu á factura da

_Satyra_ o doutor Botija.

[3] Calumnia que os herdeiros de Francisco Dias estimariam que não o

fosse. O poeta arguido de avarento morreu pobrissimo.

[4] Francisco Dias Gomes era de geração judaica.

[5] Documento inedito de que tambem possue traslado o snr.

Innocencio Francisco da Silva.

PREFACIO AO SONHO DO ARCEBISPO

O correspondente lisbonense do _Jornal da Manhã_, indigitando o rastilho

de futuras combustões no arranjo social das cousas portuguezas, malsina,

sem nomeal-os, uns opusculos mensaes, onde se exhibem contra a casa de

Bragança ineditos attribuidos falsariamente a arcebispos. Os opusculos

accusados com injusta malquerença são as _Noites de insomnia_, e os

manuscriptos arguidos de fraude são os dous innocentes dislates de um

illustremente desgraçado talento, cujos autographos offereço a quem, na

duvida, quizer examinal-os.

Em nenhum dos dous artigos (a _Catastrophe_, e _D. Maria Caraca_) é

atacada a dynastia brigantina, e menos ainda a legalidade que assiste á

testa coroada, com que mui jubilosamente me envaideço e sobremodo me

honro, em nome do partido da ordem, cujo estandarte as _Noites de

insomnia_, desde ora avante, desfraldam.

As noticias, historicamente relativas á familia ducal e real de

Bragança, publicadas n'estes livrinhos, não pesam sobre a memoria do

esclarecido arcebispo;--são todas de minha lavra, e de minha

responsabilidade perante os doutos. Todavia, se alguem me rastreia,

n'esse lavor meramente historico, o insidioso plano de aluir o throno,

sou obrigado a declarar que não se acham ainda bastantemente decisivas

as minhas intenções a respeito de sua magestade, nem me parece que

cheguem as cousas a termos de eu ter de desthronar o snr. D. Luiz I. E,

dado que razões imprevistas, mas rijas, me impulsem a exterminar a casa

de Bragança, hei de fazer quanto em mim couber, na hora do maior perigo,

por ter mão... na manta real. Por onde se vê que, em materia de

Coriolanos, Belisarios, e outros, ainda os ha por aqui, na patria dos

Pachecos. Iniquissimamente, pois, me culpa o escriptor referido, quando

me arrola entre os obreiros subterraneos da oligarchia; e ao mesmo tempo

incute pavores no animo d'um alto personagem. Por causa d'estes alarmas,

temos visto a timidez que se denuncia, e denota pouca firmeza de

consciencia, debilidade de espirito, incerteza juridica do lugar que se

occupa, braço inerme para a defensão da real e sagrada propriedade. Se

conhecem a pusillanimidade d'aquelle a quem cumpre ser forte, e até

heroe no cairel da voragem, não lhe mettam espantos na alma com

phantasmas; robusteçam-no para a provação, quando a hora troar, a hora

maldita em que o povo açacala as garras, e golfa das tabernas com

bramidos de leão. Se não querem prevenir as catastrophes, porque não ha

prevenções contra a fatalidade, não se finjam previstos, pondo estas

innocentes _Noites_ a espreitar Cesar pelo olho esquerdo de Bruto.

Quanto ao arcebispo de Mitylene, não se diga que elle me deixou, como

herança de rancores demagogos uns papeis, de que eu estou estillando

petroleo para o holocausto da casa de Bragança. Posto que o celebre

jurisconsulto, depois de alienado, se imaginasse proscripto dos seus

direitos ao ducado brigantino, nunca lhe coou da penna de ferro injuria

contra a familia real, que era, pouco mais ou menos, a d'elle.

Verá o leitor, no seguinte artigo, quanto o vidente de mundos defezos ás

pessoas que se dizem ajuizadas, respeitava seus regios predecessores, e

nomeadamente seu avô o snr. rei D. Manoel, e seu mais remoto avô o snr.

D. Affonso Henriques, que elle viu em Villa-Real, trezentos annos antes

da povoação d'aquella villa.

Verdadeiramente, a gente não sabe se os doudos são os que vêem cousas

estranhas, se somos nós que não vemos senão trivialidades. Gerard de

Nerval pende a crêr que os doudos são os que tem o condão extraordinario

de vêr o invisivel aos parvoeirões. Regra geral: assim que um homem

descamba da linha recta que vai desde o almoço até á cêa através do

jantar, a razão humana desconfia d'elle. Se este homem suspeito,

unicamente, lesa os seus interesses, chamam-lhe, com piedosa

indulgencia, tolo: se, por demasia de espiritualidades, damnifica os

interesses alheios, estigmatisam-o de mentecapto. Qualquer das

qualificações impellem á morte moral. Eu ainda não atinei bem com a

denominação ajustada ao doutor D. Domingos de Magalhães, porque no seu

modo de escrever historia, philosophia e moral, se revela muito mais

acerto, critica e sciencia que nos livros de uns homens que não se acham

bem definidos nas diversas doenças apyreticas do cerebro. Eis aqui um

rapto de luz que elle denominou:

SONHO

(INEDITO DO ARCEBISPO DE MITYLENE, ESCRIPTO NO PERIODO DA ALIENAÇÃO)

No decurso de dezeseis gerações não veio ao mundo nem assomou ao

pensamento de nenhum sabio o que a actual inspiração ensina, e communica

a todos pelo modo mais extraordinario e divino, ou pela fonte mais pura

e heroica do santo e actual desaggravo. A Divina Providencia jámais se

revelou tão benefica e misericordiosa, nem tão solicita e desvanecida

para com a pobre e triste humanidade, que escurece o beneficio e parece

desprezar o seu author divino, só pela torpe e abominavel gloria do seu

desprezado egoismo e da sua indomita soberba. Estava já endurecido o

coração de Pharaó, e não consentiu a sua vil injuria que o infinito

poder da vara e a sua misericordia o livrassem da ira do mar e do justo

castigo das aguas.

O sonho actual é de outro Pharaó, que só viu as sete vaccas gordas, e

não quiz ou não pôde vêr as magras, e as deixou todas para traz e

desprezadas em poder de herejes e de inimigos do santo nome e da fé. Diz

a historia que Pharaó viu primeiramente sete vaccas gordas, e que a

estas se seguiram sete vaccas muito magras e muito definhadas, que mal

podiam sahir do rio aonde se banhavam e bebiam. Ás nossas sete vaccas

são sete seculos de dezeseis gerações, que deixamos para traz das

costas, magros, definhados e proscriptos, que terminaram pela mais

negra, medonha e absoluta penuria de todo o recurso e remedio. A mãi e o

pai comem a carne do filho, os mortos jazem sem sepultura, a impiedade

triumpha, a verdadeira fé anda foragida, a injuria do Senhor substitue o

culto, e sobre as cadeiras de Moysés já não se assentam os escribas e os

phariseus; os mais depravados inimigos perseguem em nome do Senhor todos

os seus santos ministros, e predizem pelas suas obras o fim do mundo, e

a necessidade do ultimo e geral escarmento.

Tal é o quadro da abominavel heresia, e da mais atroz injuria, que se

pode levantar contra o Senhor em nome do demonio sem o proclamar como

Anti-Christo; o vituperio de tão grande affronta avexa os filhos do

Divino Amor, o mais horrivel pesadelo coarcta as suas faculdades, e o

delirio do sonho chama e reclama a necessidade do mais santo esconjuro,

e da mais afouta e intrepida penitencia. Felizes as mulheres estereis, e

mil vezes mais acordado, ou menos infeliz e desprezivel será o aborto,

que não recebeu a agua do baptismo nem chegou a uso de razão para não

soffrer a injuria da maldita geração do peccado, e do seu enorme e

horroroso castigo.

Passados sete seculos como um sonho, quebraram o preito, apagaram a

gloria, e amofinaram o beneficio de seiscentas batalhas e de outras

tantas victorias, riscaram das paginas mais gloriosas da nossa historia

monumentos eternos para escrever o geroglifico da maior vileza que nega

as façanhas aos heroes, e depõe a estatua do seu pedestal para a

substituirem pela mais desprezivel do seculo, e pelo que tiver deixado

nome mais injurioso, conspurcado e escravo.

Descobriram os nossos antigos o Brazil, e fundaram n'elle a maior

colonia do mundo, que se fundou sem o vicio dos perseguidos e dos

emigrados religiosos e politicos; e os que tiveram esta gloria são

desprezados, e os seus herdeiros perseguidos. O usurpador que se fez

possuidor para proclamar o falso principio de independente, e que

entregou os estados ao ouro, e ao poder da Inglaterra foi levantado e

exaltado; porque emprehendeu entre nós a mesma façanha e legou o seu vil

commettimento ao partido mais vil e fementido, atroz e degenerado, que

pode organisar-se em nome de uma seita protestante e heretica para

commetter esta grande aleivosia e diabolico mandato. D. Affonso

Henriques ainda dorme o somno dos seculos; os seus heroicos serviços

ainda não foram julgados pela posteridade; parece que o grande vulto

espera que a fama das suas façanhas o alevante sobre todos os porticos e

sobre a fronteira de todos os templos e igrejas catholicas. Que fará a

mais hedionda e vil injuria d'este sonho abominavel dos herejes? Levanta

o impio e exacerba o catholico, vende a terra da patria; e, para ter

sepultura em paiz protestante, pactua com o demonio a quem entregou a

alma a traição e o aleive; o seu desdouro é o mais abominavel tramite e

caminho do inferno.

Fez em Lisboa injuria ao veneravel corpo e santelmo d'el-rei o snr. D.

Manoel, meu presado avô. Os usurpadores apodrecem em seus sarcophagos, e

os reis legitimos recendem e perfumam a desfeita porque não legaram a

vileza do seu coração, deixaram os estados, os eternos monumentos, os

mosteiros e a maior grandeza do reino, e não roubaram nem atraiçoaram

nem renegaram de Deus nem da patria, nem abandonaram a justiça nem

venderam as suas consciencias.

Como pôde a nação chegar apesar de tão emeritas virtudes e de tão

relevantes serviços ao ultimo estado de degradação e vilipendio? Devemos

presumir que a nação sempre foi perversa, e que os heroes foram poucos

mas estrenuos, e tão briosos e fieis que conquistaram do mundo a maior

fama, do Senhor o mais desusado e grandioso favor e auxilio. São poucos

os heroes? quantos monarchas illustraram o throno? quantos fieis e

valentes venceram em Ourique? quantos foram os mais dignos missionarios

do Oriente? quantos Pachecos e Albuquerques? quantos Castros e

Mascarenhas? quantos Magalhães e Gamas? Aonde estão as suas estatuas?

que é feito do corpo santo de S. Francisco Xavier?

São estas as perguntas que vos dirijo, as invectivas que hei de

fazer-vos até o fim: eis o martyrio que appeteço e a santidade que o

Senhor me concede, como propheta, para vingar a injuria de sete seculos,

o sonho e o pesadelo do mais atroz delirio. Os filhos de S. Francisco,

de S. Domingos, de S. Theotonio, e de Santo Antonio que dormem nos

claustros dos extinctos e abominados conventos; os monges negros de S.

Bento, os inimitaveis de S. Bernardo, toda a familia de Santo Agostinho,

os proceres d'Alcantara e de Bruno fallam pela nossa bocca, e dirigem o

nosso pensamento n'esta humilde e generosa tarefa. Que fizeste, ó impio,

de tanta santidade que perverteste, e da sua grande fama e publica

utilidade?

No sonho de sete seculos não pôde a sabedoria de tão grandes heroes

levantar o eterno monumento do actual desdouro e da sua fatal cegueira?

Somos nós o vingador das injurias, porque o Senhor nos conserva e

defende, afouta e encaminha para o nosso honroso e santo ministerio.

Está por terra o edifficio de nossa grandeza; vê o mundo, admira e

contemplam os anjos a nossa actual miseria e compadecem-se d'este

ruinoso estado: só não se move o povo, só o interdicto dorme o maldito

somno da morte, e não delira nem appetece a eterna felicidade de sua

salvação e liberdade!

Sabemos que o actual abominio tenta exterminar toda a geração d'ourique,

e cassar as promessas do Divino Salvador matando o Promettido e

Desejado; e d'este projecto ri e zomba, e escarnece a nossa fé pela

vaidade do sonho ser digna e merecedora de mais prompto desprezo; mas

não basta que o Senhor defenda uma causa para que se considere heroica:

convém que o homem e o povo eleito e escolhido para a façanha se mostrem

dignos, timbrosos, sobranceiros ao maior perigo e intrepidos e confiados

na justiça do commettimento, e na gloria da Divina Protecção. O sonho,

que desdoura o homem, cerca de terror o timido e fugitivo escravo do

demonio, porque não confia no poder do seu senhor, nem na justiça da

causa nem na certeza do seu delicto.

Todas as vezes que me occorre algum nobre pensamento do Divino Amor e do

seu desaggravo, não posso resistir ao desejo de o exarar. O amor de Deus

é um sentimento imperioso, porque Deus é o summo bem: o que tem a

felicidade de vêr o Senhor não póde deixar de o amar sobre todas as

cousas; porque assim o exige a natureza do bem que nos arrebata. Se o

triste e mesquinho não ama o Senhor sobre todas as cousas, outro

espirito assenhorêa a alma do possesso, e pode dizer-se que impera

n'ella o demonio. Quem não é por mim é contra mim. A manifestação mais

perfeita de amor é o desaggravo da offensa; o que não desaggrava não

ama: porque ao summo bem corresponde o amor mais perfeito: não amando,

aborrece; e, na presença da injuria e do escandalo do desacato, toma

sobre si e á sua conta toda a cumplicidade da offensa, e faz-se digno do

mesmo rigor da pena, e do maior castigo devido á perpetração do delicto.

Os mais revezados delictos maculam a geração actual; é uma herança que

recorda a dureza de Pharaó e a obstinada e cruel memoria de Herodes e

Pilatos. No Egypto a vara do poder, na Judêa o Divino Verbo, que veio ao

mundo para nos regenerar, pesam e sentem a falta de desaggravo, e só

lamentam a dureza do povo e a sua affectada cegueira. É um sonho, que

sempre se repete, e que manifesta bem palpavel n'este mundo das illusões

o irresistivel poder do maleficio, que actua sobre os escravos do

peccado e filhos da ira e da sua perversa condição. Fuja o homem de

commetter o peccado imperdoavel; porque em sua fatal herança não só

deturpa e cega, senão que domina e arrasta a alma para a maior perdição,

e para o fundo do abysmo.

A quantos d'estes póde aproveitar o desaggravo e o martyrio ninguem ha

que ignore, e muitos desejam ser purificados pelos heroicos processos da

santa penitencia da fé, mas ninguem os sujeita, nem ha força que os

violente; e tremem do exito, vivem no fóco da calumnia e do erro, da

perseguição, e d'um para outro dia soffrem a tremenda metempsychose da

furia do dragão. Fallamos ao povo que conserva o direito de propria

consciencia e algum vislumbre de boa fé para que procure e abrace a

salvação da indulgencia e do martyrio, que tem diante.

Quando o fiel d'uma balança pende por força irresistivel para o abysmo,

são felizes os que se lançam na outra concha; porque a força contraria

os impelle e ascende mais do que a natural virtude dos seus corpos

diaphanos. Que bella monção para tão feliz viagem! que bello sonho para

os sete seculos venturosos que se hão de completar na eternidade!

Quando nosso Senhor veio ao mundo era o cordeiro immaculado, e veio para

o eterno sacrificio do Amor Divino. Nasceu em um presepio, e podia

nascer em um monte, que era dado a sua santidade, e fóra do redil aonde

nascem quasi todos os cordeiros, mas nasceu em um presepio para nascer

entre os pastores e bem resguardado dos lobos, que procuravam o

innocente para o matar. Em Bethlem e no templo, quando o menino foi ao

Agrado e esteve entre os doutores, renovaram os insanos judeus as suas

tentativas e machinações; e por isso o meu Senhor fugiu de Bethlem para

o Egypto e d'este a primeira e a segunda vez para a Lusitania; d'onde

finalmente sahiu para a grande e heroica missão, que nos remiu no

calvario. S. Thiago e S. João eram irmãos do Senhor; veio ás Hespanhas o

grande apostolo, e veio tambem S. João, mas nenhum teve o seu martyrio

na Peninsula. S. Thiago foi receber á Judêa a sua promessa. S. João foi

ao imperio dos Cesares, e á terra do paganismo e do amor depravado da

louca e desnudada Venus. Voltaram os seus corpos? que recondito conserva

o virginal de S. João? Este sonho póde condizer com a Rodhoma por ter S.

João recebido no calvario a santa maternidade da Virgem minha Senhora.

Desde que nascemos para o santo ministerio do actual desaggravo de

dezeseis gerações, um presentimento feroz persegue e incita a indomita

heresia para nos matar; o veneno é a sua arma; actualmente só o mais

decidido milagre me podia salvar da furia; eu presagío que o meio

heretico só tende a abysmar os seus altares e instrumentos. O tetrico

sonho da ira impotente subjuga os escravos que se irritam e despedaçam,

como as ondas que quebram contra o invulneravel rochedo, e se abysmam

pela inutil furia do seu audaz commettimento. Os judeus levaram a sua

insania ao cabo, e veio o maior castigo do povo e sobre a terra com a

justa ira do Senhor: o ultimo propheta foi morto entre o templo e o

altar, e a prophecia foi negada para sempre ao judeu, que só tem

actualmente a de Jonas, que foi sempre mandado em missão de Ninive e de

Babylonia aos pagãos e gentios. A Virgem minha Senhora inaugurou no

Carmo o centro da adoração, e transferiu para o novo reino de Sião o

docel de sua prophecia aonde se conserva. Se em vez do culto devido á

santidade do Senhor o nosso reconhecimento hereditario se convertesse em

fel d'injuria, e dessemos ao meu Senhor e á sua Santissima Mãi o calix

da maldição dos judeus--deviamos recear que viesse sobre nós o mesmo

flagello, e que a falta de desaggravo nos equiparasse para a pena do

escarmento ao detestavel povo e aos seus perfidos ministros e traidores.

O nosso centro de desaggravo installou-se na Penha da Estrella e debaixo

do docel e da egide da Virgem minha Senhora. Quantos mezes se

conspiraram para apagar aquella luz sacrosanta, e comprometteram as suas

almas n'este malfadado empenho e ousadia? O seu pensamento era só um, e

a nossa morte o unico desenlace de todos os estratagemas. O ministro

executor do barbaro decreto trepidou, e desde que chegamos a esta villa

até o presente as suas combinações e ardis tem-se resentido da mesma

canha e imbecilidade. O coche funerario que me destinava a tyrannia

converteu-se na traquitana, que me conduziu á estação; o decreto de

despejo que me lançava fóra de casa em Lisboa e d'esta villa ha de

executar-se pelo santo direito do talião divino contra os vergonhosos

authores, porque todos os seus meios eram d'impios sem fé e sem verdade

de juramento, de crueis perseguidores de fieis, e de profanadores dos

templos e de sua maxima santidade.

O sonho, que actualmente nos alevanta de toda a desanimação produzida

pela heresia, é dos sete seculos magros, que hão de ser coroados por

outros sete seculos pingues e ferteis, heroicos e cheios de fartas e de

briosas chronicas, que encerrem as façanhas dos fieis, a succinta

historia dos povos, e o precinto da catholica santidade e igualdade de

todos os filhos e do mesmo Pai santo e commum no céo e na terra. As

casas de Bragança e de S. Bruno sempre foram perseguidas pelos nobres e

falsos fidalgos: todas as suas façanhas tem sido commandadas por pessoas

de familia no fervor do nobre enthusiasmo do povo, executadas pelo

devaneio e pelo assombro do milagre, por ficarem em esquecimento e sem

galardão do mundo e só com o grande e extraordinariamente mais real e

verdadeiro do proprio som e merecimento: por esta razão faltam as

estatuas aos heroes, e vem no meio da enxurrada as obscenas dos mais

tredos e falsos pyrilampos.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 10 (de 12) · 第 2 / 4 段