mysterioso o fim do homem, como é sagrada, indescortinavel, desconhecida
e insondavel a causa da existencia humana, a razão da vida harmoniosa do
universo, o pensamento supremo, que presidiu a todos estes esplendores,
que se formulam e desenrolam nas magnificencias da creação.
E é o homem, na pequenez da mais miserrima e limitada existencia, na
ignorancia fatal das suas transformações futuras, nas trevas densissimas
do seu porvir, que diz a outro homem--a um irmão seu, ao Abel da sua
raça: «Eu mato-te, assassino-te, á face d'este sol esplendido, em
presença de toda a creação, com a consciencia segura e tranquilla de que
Deus me ouve, me vê, e me escuta, em nome d'umas leis que eu inventei, e
escrevi,--por que eu, homem, pelo facto de ser legislador e juiz
arvoro-me em carrasco, e rasgo e devasso consciencias, analyso e preso
intenções, forjo e imagino crenças, e condemno em nome de Deus vivo, e
da justiça absoluta de que me faço interprete, magistrado e saião!»
Crêmos firmemente que a misericordia divina alcança ainda estas
sinistras e ferozes aberrações dos verdugos e dos algozes.
Perdoai a todos, Senhor, e quando o perdão da vossa infinita bondade,
n'esses effluvios repassados de sentimento, como pai e creador, descer
sobre nós, que a vaidade pharisaica, o orgulho ignobil de todos os
sacerdocios, e de todas as theocracias, scepticismo inconsciente de
todas as ignorancias, e a blasphemia perdoavel, nascida do desespero, e
da miseria, achem, nas pregas do vosso manto d'esquecimento, lugar onde
se abriguem, pela omnipotencia do vosso poder, e pela misericordia
infinita dos vossos designios.
Que a religião do futuro seja um hymno de gloria, um hossana de perpetuo
louvor, onde só a myrrha e o incenso subam aos vossos altares--e que as
carnificinas humanas desde os homicidios nos _dolmens_ dos deicidas até
ás fogueiras do fanatismo catholico desappareçam e se extingam em
presença do verdadeiro culto, que o ente humilde, e inconsciente da sua
missão, na terra, presta á sublime causa, ao Ente que regula e dirige o
universo.
VISCONDE DE OUGUELLA.
CURIOSIDADES ARTISTICAS
No principio d'este seculo, as melhores pinturas ornamentavam as salas
dos marquezes de Borba, de Angeja, de Abrantes, de Tancos, de Lavradio,
de Bellas, e do visconde da Bahia que primava em originaes de grandes
mestres. Manoel Joaquim Collaço e um padre João Chrysostomo, ambos de
Lisboa, e ha muitos annos fallecidos, colleccionaram excellentes
quadros. O possuidor das mais ricas estampas era, por esse tempo, um
José Joaquim de Castro, vulgarmente chamado o _Agua de Inglaterra_, não
sabemos se em razão de a preparar, se por descender do hebreu Jacob de
Castro Sarmento que a inventou.
Fr. José Mayne, confessor de D. Pedro III, legou á academia das
sciencias o seu museu, e não sei se a sua galeria dos melhores pintores
coevos, em que sobresahiam os quadros de Joaquim Manoel da Rocha,
habilissimo na pintura da natureza morta. Tambem fr. Manoel do Cenaculo,
arcebispo de Evora, colleccionou soberbas pinturas, que tiveram variados
e obscuros destinos.
No convento de Bemfica houve um quadro original de Wandyck: era o da
Crucifixão. Presume-se que pouco mais possue Portugal d'aquelle grande
artista. Na sala do marquez de Alegrete (Penalva), havia um quadro de
Raphael. Existia outro na igreja do seminario de Brancannes. Fallamos
sempre no preterito, porque duvidamos que taes preciosidades se
conservem, assalteadas, a um tempo, pelo desamor das artes e pelo amor
ao dinheiro.
No templo de Belem ha tres quadros de Manoel Campello. O que representa
Jesus Christo vergado sob a cruz está na escada principal do extincto
convento. Os outros são o da Coroação dos espinhos e o da Resurreição.
Na tribuna da igreja de S. Roque ha o painel que representa a vinda do
Espirito Santo: é de Gaspar Dias. Em 1740, o celebrado Pedro Guaranti
arrebatou-se na contemplação d'aquella obra prima. É tambem do insigne
pintor o Senhor do Horto que existe em Belem, e o de S. Roque, na
capella da invocação do mesmo santo. São obras de primeira execução.
No refeitorio de Belem, o quadro do nascimento de Jesus é do celebre
Simão Rodrigues. De fr. Marcos da Cruz, coevo de D. João III, havia na
igreja do Carmo, de Lisboa, o painel de Santa Maria Magdalena de Paris.
Os do arco cruzeiro de Jesus, já damnificados no fim do seculo passado,
tambem eram d'elle ou se lhe attribuiam. (Vej. _Mem. hist. do ministerio
do pulpito_, por fr. Manoel do Cenaculo, pag. 135).
De quadros de Vieira Lusitano temos antiga noticia de existirem o de
Santo Agostinho na portaria do convento da Graça, o de S. Francisco na
capella-mór da igreja, o de S. Pedro e S. Paulo em casa dos condes de
Povolide, e alguns na igreja dos Paulistas.
Na casa de Tancos (Atalaias) estiveram oito paineis de Jacob Bassano,
pelos quaes o principe Eugenio (1663-1736) mandou offerecer duzentos mil
cruzados, que foram rejeitados. Entre aquelles inestimaveis quadros
havia um de Leonardo de Vinci, alguns de Corregio, de Miguel Angelo, de
Salviati, e de Antonio Tempesta. Um primoroso Luiz XIV a cavallo era do
famigerado Lebrun.
CANTADA E CARPIDA
A marqueza de Tavora, D. Leonor, justiçada no patibulo em 1759, foi a
mais formosa fidalga das côrtes de D. João V e D. José I.
Morreu aos cincoenta e nove annos. Subiu intrepida ao cadafalso. Parecia
inflexivel ao espectaculo do cutelo. Nem uma lagrima, nem um gemido
supplicante! Mas o meirinho das cadeias e tres algozes tinham ordem de
lhe arrancarem o pranto em um mais doloroso supplicio, que não constava
da sentença.
Começaram, pois, mostrando-lhe, um a um, os instrumentos das execuções,
que se haviam de fazer no marido, nos filhos e parentes: as aspas, em
que deviam ser amarrados, as macetas de ferro com que haviam de ser-lhes
quebrados os ossos dos braços e pernas, as cordas destinadas ao garrote,
e a olandilha com que os desmembrados cadaveres seriam tapados até se
accenderem as fogueiras.
A marqueza então chorou.
Quando o algoz lhe desvelou o collo para a degolar, D. Leonor, com
gentil pejo, murmurou: «Não me descomponhas.»
Testemunhas d'este transe deixaram á escripta e á tradição oral que a
marqueza era ainda magestosa no garbo, na altivez, nas reliquias
admiraveis da belleza, raro permanecente em annos tão adiantados.
Quando tinha cincoenta, acompanhou á India o vice-rei seu marido.
A familia real foi despedil-os até á praia, alli mesmo áquella praia de
Belem, onde, nove annos depois, se passou a horrenda carnagem.
Foi em uma graciosa manhã da primavera de 1750, aos 28 de março.
D'entre os milhares de concorrentes á praia, por onde a heroica marqueza
demandava o bergantim da sua nau, sahiu um poeta dos melhores entre os
pessimos d'aquelle tempo, ajoelhou diante da vice-rainha, e
depositou-lhe na mão, que o levantava da postura humilde, um rolo de
papel atado por laçaria de seda variegada.
A marqueza desenrolou, leu as primeiras linhas, sorriu-se amoravelmente,
e disse:
--Não lhe perdôo a lisonja. Esqueceu-se que tenho cincoenta annos?
--A natureza é que se esqueceu de v. exc.ª depois que lhe aperfeiçoou os
vinte e cinco annos--respondeu o galã.
A poesia constava d'isto:
Á ILL.ma E EXC.ma SNR.ª MARQUEZA DE TAVORA NA HEROICA RESOLUÇÃO DE
ACOMPANHAR SEU QUERIDO ESPOSO, O SNR. MARQUEZ DE TAVORA AOS ESTADOS DA
INDIA.
Vai, ó formosa heroina!
do mar essas ondas sulca;
que, se és Venus na belleza,
Venus nasceu das espumas.
Vai, divindade, não temas
da salgada agua as furias,
que até impera nos mares
a immortal formosura.
Vai ser de Thetis inveja,
ser de Neptuno ventura,
das sereias lindo encanto,
das nymphas formosa injuria.
Os tritões, e as nereidas
sendo alegres testemunhas,
a nau carroça, tu, deusa,
passeia as ondas ceruleas.
Vai, que é pequeno hemispherio
um só mundo ás luzes tuas,
e quem em um só não cabe
justamente o outro busca.
São do sol os diamantes
producção brilhante, e sua;
se produz lá um sol tantos,
tres que farão? Conjunctura.
Vai examinar o Oriente
d'onde sahe a luz mais pura;
verás do teu nascimento
pelo exemplar copia justa.
Vai, que d'esta vez, senhora,
ficará, por tua industria,
a valentia formosa,
a formosura robusta.
Vai, vai só com teu esposo,
tudo o mais creio se escusa;
onde basta a sua fama,
sobeja a sua figura.
Sem violencia no estrago
terão teus raios fortuna;
se ao sol barbaros adoram,
logo que chegas, triumphas.
Interesse, e não fineza
tua heroica acção inculca;
com este excesso que obras
immortal gloria procuras.
Se anima entre os dous corpos
uma só alma, e não duas,
pois a não partes na ausencia,
melhor a vida asseguras.
Á dôr da saudade foges,
tens razão, mostras desculpa
por um estrago suave
trocar uma morte dura.
Agua, e fogo são contrarios,
teu amor naturaes muda;
pois faz em novo milagre
que o incendio ao mar se una.
Vai! Conheça o mundo todo,
mais alto poder divulga,
que o sexo que em ti domina,
o sangue que em ti circula.
* * * * *
As esperanças bem fundadas na sensatez e bravura do marquez de Tavora
não foram menos cantadas que a gentileza da esposa. O regulo Canajá,
infesto devastador de Diu, sentiu-lhe o peso do braço vencedor. Arderam
as esquadras do inimigo, espavoridas ainda do arrazamento da fortaleza
de Neudabel. O Bounsuló e o Marata fugiram-lhe a furia, levantando o
assedio de Neutim. O rei de Sunda perdeu os seus fortes, e as terras de
Pondá e Zambaulim. Em quatro annos de vice-reinado, o marquez de Tavora
ceifára louros que lhe promettiam sombra e gloriosa resalva das
contrariedades da fortuna.
E, apenas devolvidos cinco annos, depois que desembarcára, n'aquella
mesma praia de Belem, que espectaculo! Um algoz lhe mostra os corpos
despedaçados da esposa, dos filhos e do genro. Depois explica-lhe por
miudo a acção dos instrumentos que o vão atormentar. E depois...
Repugnam os sabidos pormenores d'aquelle supplicio.
A descripção previa, feita aos padecentes, diz o snr. Soriano, na
_Historia do reinado d'el-rei D. José I_, que deve com toda a razão ser
attribuida ao cruel e ferocissimo coração de Sebastião José de Carvalho.
Ora, o snr. John Smith, author das _Memorias do marquez de Pombal_, diz
que todas as ferocidades d'aquelle supplicio, constantes e não
constantes da sentença, promanaram directamente do coração de D. José I.
Lá se avenham os dous algozes na presença do Supremo Juiz.
BIBLIOGRAPHIA
(Henry Murger--Pinheiro Chagas)
HENRY MURGER. _Scenas da vida de Bohemia_, traducção de GUSTAVO A.
BARBOSA. _Livraria Internacional_. Porto. 1874, 8.º--424 pag.--É um
romance urdido com os brilhantes fios da mais extravagante, verdadeira e
esplendida vida de uns rapazes francezes que, ha quarenta annos, se
chamavam os _bohemios_, e depois attingiram o galarim das artes e
letras, e encheram o mundo com o seu nome. D'esses, ainda ha poucos
annos, sobreviviam cinco ou seis que voltavam ao passado a vista do
coração--o olhar lagrimoso da saudade--em busca dos alegres convivas,
ceifados pela morte, quando as messes da gloria, o ouro e a consideração
não bastavam a esquecel-os da ridente pobreza da sua mocidade.
Adivinham-se, no romance, os nomes mal disfarçados nos pseudonymos. Os
grandes pintores, os criticos intrepidos, os dramaturgos laureados, os
arrebatados poetas, os historiadores austeros, todos ahi entreluzem de
entre as risonhas ficções, pintadas pelo scintillante estylo de Henry
Murger.
Quanto á versão portugueza, é uma das mais aprimoradas que ainda
vimos--um verdadeiro trabalho de intelligente e consciencioso esmero. O
traductor arcou pertinazmente com as maximas difficuldades do original.
Nenhum neologismo lhe afrouxou o alento na transposição acertada com que
o aproximou da phrase portugueza. Por maneira que, a espaços, não se
estremam bem as indoles das duas linguas, como se, entre nós, corressem
analogas subtilezas no dizer, e as mesmas analogias do pensamento.
Assim, comprehende-se que as traducções sejam thesouros literariamente
portuguezes; e ao esclarecido traductor cabe distincto lugar entre os
sabedores das duas linguas. E, quando de par com o estudo se allia o
deleite do enredo, o livro, que proporciona dous prazeres tão pouco
vulgares, é um livro excellente.
* * * * *
_O Terremoto de Lisboa_, romance historico, por M. PINHEIRO CHAGAS.
Lisboa. _Livraria editora_ de Mattos Moreira & C.ª, 1874.--Haveria razão
para não exigir livros primorosos de escriptor tão fecundo e variado em
differentes ramos das letras; mas, no author d'este livro, manifesta-se
a rara excepção que constitue o engenho distincto. A fertilidade não
lesa o detido cuidado no esmeril da linguagem. Os raptos da imaginação
não descuram a cadencia da linguagem, o torneio da phrase, o decoro e
pompa d'este nosso formoso idioma que só desserve aos que o exercitam
com insufficiente estudo. N'este romance do _Terremoto de Lisboa_,
pautou o snr. Pinheiro Chagas com rigoroso lapis os delineamentos das
figuras historicas. Diogo de Mendonça e Sebastião José de Carvalho
avultam aqui na tela romantica fidelissimos aos originaes da historia.
Todavia, se, por vezes, o louvor tece corôas ao valido de D. José I com
demasiado colorido de flôres salpicadas do sangue de illustres e
innocentes victimas, isso é um modo de ver pela lente da politica, em
cuja apreciação eu não entro, nem me arrogo o jus de contestar ao
excellente romancista a veridicidade dos seus conceitos. As notaveis
bellezas d'este romance assentam na habilidade da contextura, no tino
com que as peripecias convergem para o desenlace justificado pelo
titulo. Pelo que é da excellencia secundaria em uma novella, o estylo,
isso é já de sobra apreciado nos muitos, posto que rapidos, trabalhos de
Pinheiro Chagas. A florescencia é sobria, os atavios não estofam a
penuria da idéa, os ornatos frisam rigorosamente com a conveniencia dos
lances. Denominamos «secundaria» a excellencia do estylo em romances,
porque sabemos, de propria experiencia, que os livros d'esta especie,
mais lapidados, e, no dizer antigo, mais penteados na phrase, são, por
via de regra, os menormente bem-quistos da maioria de leitores que
desadoram palavras que lhes não sejam da maior familiaridade. Tem,
todavia, o snr. Pinheiro Chagas o raro condão de escrever para todos, e
a todos, lidos e não lidos, deve o abalizado escriptor a sua grande
popularidade.
FIM DO 10.º NUMERO