Dous mezes depois, vi annunciada a morte do abbade de S. P.

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BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA

NOITES DE INSOMNIA

OFFERECIDAS

A QUEM NÃO PÓDE DORMIR

POR

Camillo Castello Branco

PUBLICAÇÃO MENSAL

N.º 10--OUTUBRO

LIVRARIA INTERNACIONAL

DE

ERNESTO CHARDRON

_96, Largo dos Clerigos, 98_

PORTO EUGENIO CHARDRON

_4, Largo de S. Francisco, 4_

BRAGA

1874

PORTO

TYPOGRAPHIA DE ANTONIO JOSÉ DA SILVA TEIXEIRA

62--Rua da Cancella Velha--62

1874

BIBLIOTHECA DE ALGIBEIRA

NOITES DE INSOMNIA

SUMMARIO

_Beatriz de Vilalva--Se o poeta Bernardim Ribeiro foi commendador--Resposta

de José Anastacio--Prefacio ao sonho do Arcebispo--O ultimo

carrasco--Curiosidades artisticas--Cantada e Carpida--Bibliographia_

BEATRIZ DE VILALVA

I

Era o nome da encantadora bastarda do capitão-mór da Lixa.

Vivia, com sua mãi, na quinta de Vilalva, com que fôra dotada, aos

quinze annos, para casar, aos dezoito, com o morgado de Pildre, Vasco

Pinto de Magalhães.

Isto são cousas antigas. Era no anno de 1834. Ha quarenta annos. Um

seculo d'outras eras, quando vinte annos eram mocidade innocente, e, aos

quarenta, o homem tenteava com timido pé os umbraes do mundo. Agora,

dentro de quarenta annos, fenecem e reverdecem duas mocidades e duas

velhices; o revolutear das variadas paixões, gastando a alma e safando o

cerebro, desmemoría o homem de si mesmo; em cada decada atrophia-se-lhe

o coração com as velhas imagens, e resurgem-lhe, com as imagens novas,

outras faculdades affectivas. Quarenta annos! Eu, quando me lembro que

vi Pedro IV, e por pouco não fui contemporaneo de João VI, entro em

duvidas se conheci o marquez de Pombal, e receio que me peçam noticias

do terremoto de Lisboa, como testemunha presencial.

Beatriz orçava então pelos dezesete. No anno seguinte, devia casar-se

com o morgado de Pildre, que tinha cincoenta e seis annos, e uma casaria

negra, ás cavalleiras de Amarante, com duas torres senhoriaes

escalavradas pela artilheria, no tempo dos francezes.

Aborrecia-o a bastarda do capitão-mór da Lixa; mas obedecia ao pai, que

dava ordens breves e seccas, e condescendia aos conselhos da mãi, mulher

da plebe, que almejava metter sua filha na casa de Pildre, sem se lhe

dar que a morgada a constituisse avó dos filhos do capellão--o menos

escandaloso dos cooperadores anonymos da conservação das varonias e

proseguimento das raças.

Obedecia principalmente Beatriz, porque não amava ninguem, não conhecia

homem nenhum para comparar. Tinha, apenas, a razão a dizer-lhe que um

marido não devia ser velho, e que a sua estrella era má.

N'este tempo, voltaram ás suas casas os frades expulsos. Alli perto de

Vilalva, á casa do Pomar, chegou, vindo do convento da Graça, de Lisboa,

um egresso de vinte e tres annos, com dous apenas de professo. Um guapo

moço, esbelto, rosado, vivo, sanguineo, um frade que rasgára alegremente

o habito, e dera vivas á liberdade quando o mandaram sahir da cella. Eu

conheci-o. Era um donoso velho, a arvore no outono, com a folhagem

amarellida, mas ainda frondosa, copada, recordando as refrigerantes

sombras dos meios dias de julho.

O que não seria elle, o egresso João de Queiroz, aos vinte e tres annos,

ao sahir do convento, a desbordar exuberancias de vida represada, a

desforrar-se da violencia com que lhe desfolharam, como improprias do

homem immolado, as flôres de seis primaveras!

O capitão-mór, quando viu o ex-frade, tão convisinho de Vilalva, mandou

acautelar a filha; e, de passagem, contou á mãi uma duzia de casos

funestos acontecidos com frades, no seio das trinta familias fidalgas de

Amarante, Lixa, Fafe e terras circumjacentes.

A mãi de Beatriz não acautelou bastantemente a rapariga; pareceu-lhe

demasiado o recato do pai, á vista do recolhimento e da gravidade de

padre João, afiançado por todas as mães das mais secias moças da

freguezia, e, sobre tudo, pela compostura do sacerdote, já no altar, já

no pouco trato que tinha com elle no adro da igreja.

Comtudo, se a presumptiva sogra do morgado de Pildre attendesse á

experiencia do capitão-mór e á silva de malfeitorias fradescas que lhe

elle contou, evitaria, quando menos, que Beatriz não andasse sósinha

pelos miradouros da quinta, nem fosse ao fundo da tapada, que embeiçava

na serra, quando ouvia um tiro, e os cães da caça latiam na encosta.

Não sei que alma escrupulosa avisou o capitão-mór dos colloquios de

Beatriz com o egresso, interpondo-se, verdade é, o muro que dividia a

quinta dos montados, por onde o padre esperava a «estranha caça» á

imitação dos menos felizes navegadores de Camões.

O sisudo fidalgo da Lixa, sofreando os impetos do sangue ostrogodo,

absteve-se de immolar á memoria ultrajada dos avós aquelle dom ribaldo

tonsurado. Receoso, talvez, de que o padre, colligado com os

constitucionaes, repellisse qualquer offensa, em desprezo dos

pergaminhos do fidalgo, dicidiu-se a guardar silencio, e apressar o

casamento, conforme á anciosa vontade do morgado.

E, á volta de poucos dias, estava prompto o enxoval, e marcada a

seguinte semana para o consorcio.

Na vespera, porém, do dia prefixo, Beatriz de Vilalva desappareceu,

depois de haver chorado torrentes, pedindo inutilmente á mãi que a não

obrigasse a casar com o detestado velho, se a não queria levar a

matar-se por suas mãos.

Quando se divulgou, na madrugada do dia 3 de setembro de 1834, a fuga de

Beatriz, o capitão-mór remexeu com a authoridade da pessoa e com as

coleras de pai as justiças de Lixa e de Amarante.

A primeira e unica suspeita do rapto foi o egresso; mas o egresso,

quando foi procurado em sua casa, sahiu á sala a receber os officiaes de

justiça com tanta serenidade quanto espanto, ao dizerem-lhe que elle era

o raptor da filha do capitão-mór.

--Eu!--exclamou padre João de Queiroz com as mãos estendidas na

cabeça--eu, senhores! eu raptor de mulheres!...

E, chamando sua velha mãi, disse-lhe com um solemne e brando socego:

--Minha mãi, estes senhores dizem que eu roubei a snr.ª D. Beatriz de

Vilalva.

--Credo!--bradou a velha afflicta.--Credo!...

--Nada de exclamações, minha mãi--atalhou padre João.--O nosso dever é

franquear a estes senhores todos os cantos d'esta casa. Queiram seguir

minha mãi, cuja vida honrada de sessenta annos não permitte que os

senhores a considerem receptadora de meninas roubadas. E, entretanto que

os senhores passam busca, eu vou vestir-me para os acompanhar á presença

de quem aqui os mandou, e não terei grande magoa de entrar na cadeia,

logo que fui ferido por tão perversa calumnia. O mais pungente do

insulto já cá o tenho cravado na alma.

Em quanto os officiaes de justiça cumpriam o mandado, e o padre se

vestia para depois acompanhal-os, um cavalleiro açodado, e que entrára

do lado de Amarante á desfilada, apeou no terreiro da casa do Pomar,

perguntando se alli estavam os meirinhos. A resposta affirmativa, tornou

o emissario do juiz dizendo que sustassem a diligencia, porque á beira

do Tamega se encontrára a capa da menina e um bilhete em que fazia

declarações.

Padre João de Queiroz voltou-se contra o escrivão, e disse placidamente:

--Diga vossa mercê ao snr. capitão-mór da Lixa que eu lhe perdôo.

Os aguazis sahiram quasi edificados, desfazendo-se em satisfações ao

egresso que os despediu com um amoravel e pacientissimo sorriso de

bem-aventurado.

O bilhete de Beatriz declarava que a misera menina preferia morrer a

casar-se á vontade despotica de seu pai, e invocava o testemunho de sua

mãi a quem ella o havia predito com baldadas supplicas. Acrescentava que

lhe rezassem por sua alma, e que morria confiada na misericordia divina.

A mãi, vendo o bilhete e reconhecendo a letra, pegou de berrar que tudo

aquillo era impostura; que a filha lhe tinha dado opio para ella dormir

mais de quinze horas sem acordo; que a sua filha estava escondida; e que

o bilhete e a capa á beira do rio era tramoia de padre João para se

escapar á justiça. E, dadas estas razões que a muita gente pareceram

signaes de demencia, pegou de si, foi-se para a porta do egresso, e

começou a berrar aqui d'el-rei contra elle.

No entanto, gente mais ajuizada procurava entre as ramarias dos

salgueiros, que formavam grutas na ourela do Tamega, o cadaver da

suicida. Depois de laboriosas pesquisas, descobriram no remanso da

corrente que descahia de uma açude, um sapato de cordovão, que uma

criada de Vilalva declarou ser de sua ama.

Como anoitecesse, cessaram as diligencias, e a justiça e o publico

prescindiram do cadaver para dar como praticado o suicidio.

Não obstante, a mãi de Beatriz continuou a gritar contra o roubador de

sua filha, ainda depois que o capitão-mór a removeu d'alli para a sua

quinta de Ovelha, nas vertentes do Marão--sitio azado para qualquer

pessoa desditosa gritar á vontade, e sem grande incommodo dos visinhos.

Corridos seis mezes, o tragico successo estava esquecido, ou apenas era

recordado quando o padre Queiroz apparecia em Amarante, e as pessoas de

bem o apontavam como victima da calumnia, que o teve no gume da

perdição; ao passo que ninguem accusava de assassino de sua filha o

estupido e ambicioso capitão-mór que a quizera atar ao torpe cadaver do

morgado de Pildre.

Padre João apesar de bemquisto e indemnisado pelo respeito das pessoas

honestas, denotava no aspecto profunda tristeza, e aos seus intimos

dizia que tinha saudades da paz do convento; e, logo que se lhe

ageitasse modo, iria parochiar em algum presbyterio rural, bem longe

d'aquella terra onde a aleivosia lhe matára para sempre o contentamento

da liberdade e da familia. Instavam os amigos em despersuadil-o; mas

assim que vagou uma igreja modesta no arcebispado, e nas visinhanças de

Villa Nova de Famalicão, obteve-a de prompto com a sua reputação de

liberal, e mudou-se para lá com immensa magoa dos seus conterraneos.

II

Pouco tempo depois, correram estranhos boatos ácerca do padre e de

Beatriz. Dizia-se que uma mulher de Felgueiras, de má nota, e muito da

casa do Pomar, estando em artigo de morte, dera a perceber que morria

com um grande remorso; e muito apertada pela pessoa a quem revelára os

seus trabalhos de consciencia, começou por dizer que a menina de Vilalva

não se tinha afogado; porém, como as intermittencias no exprimir-se

fossem longas, e o arrancar da vida começasse o seu derradeiro

paroxismo, a moribunda expirára sem dizer mais nada.

E mais se dizia que, por uma noite de lua cheia, uns viandantes da Lixa,

na subida do monte de Santa Quiteria, haviam encontrado um homem a

cavallo em um possante macho, em companhia de uma mulher, por tal

maneira envolta em um capote, que apenas se conhecia ser mulher pelas

andilhas; e que um pouco atraz encontraram um criado a pé, o qual se

retrahira para a sombra de um vallado quando os viu; mas apesar d'isso,

o conheceram, e juravam ser o criado de padre João de Queiroz.

Estas atoardas não provavam nada em juizo; ainda assim, o vigario

capitular oficiou ao prelado para que se devassasse secretamente da vida

do abbade de S. P. de E***[1]. A syndicancia, habilmente dirigida,

elucidou que o egresso abbade vivia exemplarmente. Que a sua familia era

um criado e ninguem mais; que a residencia era só, triste e silenciosa

como um cenobio monastico; emfim, que os freguezes respeitavam o seu

pastor; e que, á excepção da casa do morgado de E***, padre João não

entrava em casa alguma, senão em exercicio das suas obrigações,

religiosissimamente cumpridas.

Depois, mais nada.

Profundo silencio. Os personagens da historia mysteriosa foram morrendo

com a costumada regularidade. A mãi de Beatriz acabou em cheiro de

douda. O capitão-mór morreu mais preoccupado com a derrota do Remechido

que com o desastrado destino da filha. O morgado de Pildre, cuidando que

se despicava do injurioso menospreço de Beatriz casando com uma senhora

geitosa, vinculou-se matrimonialmente com uma sobrinha bonita e pobre;

porém, passados tres annos, quando houve a certeza de que não era pai,

mas sim tio-avô de seu filho, rebentou de paixão exacerbada pela

anasarca. Contavam-se no discorrer dos tempos, estes casos, que faziam

rir. Eu mesmo, ha vinte e seis annos, os ouvira n'aquella casa de

Pildre, quando já era morta a viuva do morgado e fallecido o directo

successor do vinculo, achando-se na administração do morgadio um meu

amigo, já tambem--e ha quantos annos!--sepultado no cemiterio dos

Prazeres em Lisboa.

III

Quando, ha quinze annos, vim, pela primeira vez, a S. Miguel de Seide,

conheci o abbade de S. P. de E***. Procurou-me, pedindo-me que lhe

escrevesse uns versos funebres para a eça de uma senhora de casa

illustre. Não comprehendi logo o destino dos versos. Explicou-me o

abbade que a poesia, copiada em boa letra, seria pregada na eça, e assim

exposta á contemplação do publico. Escrevi duas oitavas com mais

sentimento do que as escreveria se conhecesse a defunta. Eis aqui como

me relacionei com o egresso graciano, ligado á lenda d'aquella menina,

que tivera um nome digno das trovas plangentes de poeta de

soláos--_Beatriz de Vilalva_.

Cincoenta annos contava então o abbade. Rosto de saude e alegria. Poucas

carnes; compleição fina, mas forte; raros cabellos grisalhos; trajo

serio, limpo, elegante; maneiras polidas; dizeres sentenciosos;

anecdotas chistosas, mas decentes; casos do seu convento; tradições

ineditas do seu ex-conventual José Agostinho de Macedo, e d'outros

cerdos que não deixaram tão illustre memoria a ensombrar obscuras

infamias. Era optimo conversador o abbade, e revia, no seu fallar,

alguns signaes de ter estudado applicadamente philosophia. Disse-me que

fôra o primeiro estudante do curso, e que o snr. D. Miguel I, assistindo

ao seu exame de logica, o premiára em publico com a medalha da sua real

effigie. Bom avaliador e juiz! O snr. D. Miguel I foi grandemente

entendido em logica: toda a gente sabe isto, não obstante me asseverar o

abbade que sua magestade não estudara logica; mas premiava os martyres

que a estudavam, a fim de animar os outros votados ao martyrio.

Com o lapso do tempo, relacionei-me com a familia herdeira da defunta

que eu cantei ou chorei. N'esta casa vi algumas vezes o abbade, e outras

na sua igreja. Aconteceu ir eu alli ser padrinho de uma criança

d'aquella familia. Antecipei-me á hora dada. Detive-me a observar a

residencia de padre João de Queiroz--silenciosa como um grande tumulo,

com dous ciprestes á porta, com um rocio coberto de arbustos e herva

espontanea a entestar na escada ingreme do sobrado. Tres janellas de

rotulas fechadas e espessas. As paredes tapizadas de musgo e fetos a

vegetarem das fisgas. Duas pombas pretas a arrulharem na cornija. Um

pardal a sacudir as azas molhadas no beiral do telhado. E á volta d'isto

o rumorejo dos pinhaes circumpostos.

Sentei-me no beiral do adro, a olhar para uma janella interior da

residencia, e a scismar nos vinte e cinco annos que o abbade para alli

trouxera, e nas noites e dias dos outros vinte e cinco alli passados,

com resignação, e até com alegria, tão só e desatado dos agrados da

companhia, e com tantos predicados para dar e receber na convivencia uma

honesta felicidade! Quando esta meditação me estava enlevando áquella

suave tristeza que faz os homens melhores e o fardo da vida mais

leveiro, assomou um rosto de mulher na janella onde eu, sem intenção,

fitára os olhos; e, apenas me viu, retrahiu-se tão de subito como se

dentro tirassem por ella a repelão.

Isto abalou-me. A mulher parecera-me bonita; mas não ha que fiar nos

conceitos da minha vista, que pouco alcança a curta distancia; quer,

porém, fosse feia, figurou-se-me quasi bella: era o bastante para dar

larga tela ao nebrí da poesia, que, lá do alto, crê vêr uma rôla onde ás

vezes está uma cegonha.

N'este comenos, chegou o abbade, e a criança no collo da ama, e o pai

com a madrinha, e o sacristão e as testemunhas, vindo todos da casa do

meu compadre, onde inadvertidamente esperavam que eu fosse.

Finda a ceremonia, o abbade offereceu-me a sua casa por mera civilidade.

Meu compadre acudiu logo, dizendo que nos esperava o almoço. Partimos

para E***, e o abbade acompanhou-nos, depois de ter ido a casa despir a

batina, e revestir-se aceadamente, de casaca preta com habito de

Christo, collete de velludo, bota de verniz, e chapéo alto de brilhante

sêda.

Em quanto elle se demorava, depois de almoço, no quarto de minha

comadre, alegrando-a com apropositadas anecdotas--que as tinha para

tudo--fui eu com meu compadre vêr o pomar de fruteiras peregrinas.

--Gosto muito d'este abbade--disse eu.--Parece-me um bom caracter, pela

satisfação e alegre rosto com que se entrega á sua obscura missão,

podendo com as qualidades que tem aspirar a melhor posição na vida

ecclesiastica!

--Não quer. Affeiçoou-se a isto, e nunca mais d'aqui sahiu. Eu amo-o com

ternura. Já foi elle quem me baptisou. Devo-lhe provas de profunda

estima. Tem sido elle o anjo pacificador das desordens grandes que tem

ameaçado a estabilidade da nossa familia.

--Verdadeiro pastor!--atalhei eu com sincero respeito. E acrescentei,

passados instantes:--A senhora, que vive com elle, é sobrinha?

--A senhora?!--acudiu meu compadre.--Está enganado. Elle não tem mulher

de casta nenhuma em casa. Vive com um criado velho, que já veio com elle

em 1835.

--Perdão! eu vi hoje lá uma senhora na janella que diz para o pateo.

Riu-se meu compadre, e, remoqueando, ajuntou:

--O meu amigo, provavelmente, estava a idealisar castellãs na residencia

que tem ares de castello arruinado, e figurou-se-lhe vêr uma sobrinha do

abbade.

--Compadre--repliquei--eu sei quando vejo castellãs e sei quando vejo

sobrinhas d'abbades. O senhor tem a certeza de que não ha mulher

n'aquella casa?

--Tenho tanta certeza como estar eu com o meu amigo n'este pomar.

--Então, permitta-me dizer-lhe que o seu abbade é um patife.

--Ó compadre!... Um patife?!

--Ou dous patifes em um só abbade. Demonstro: se é sobrinha, e por tanto

uma familiar licita e honesta, não havia razão para escondel-a, nem ella

para se esconder rapidamente de mim: logo, não é sobrinha; e, se não é

sobrinha, é... conclua vossê a demonstração. Que é a mulher que vive com

um abbade, e não quer ser vista?

--Que imaginação! que romancista!--exclamou meu compadre--Desengane-se.

Este homem póde ser que não seja o padre mais virtuoso, nem aspire a ser

canonisado; mas mulher em casa nunca teve alguma, nem, ha vinte e cinco

annos, alguem lh'a conheceu na freguezia ou fóra d'ella. Que mais quer

que eu lhe diga?

--Que me creia; que se convença de que o seu abbade tem na residencia

uma mulher; que esta mulher é bonita; que eu dava n'esta santa hora dous

beijos...

--N'ella?

--Não, em vossê, se me descobrisse o mysterio d'aquella mulher, alli

sequestrada do mundo, e absorvida toda na felicidade de um homem, que a

esconde com tanta avareza, que os seus mais particulares amigos ignoram

que tal creatura exista.

O meu compadre, feita uma longa pausa de reflexão, disse:

--Terá vossê razão!...

--Não é razão: é olhos. Juro-lhe que a vi.

--O que lhe posso dizer é que nunca entrei ao interior da residencia,

nem pessoa alguma que eu saiba. Tem uma saleta onde era d'antes adéga, e

onde recebe as pessoas que o procuram. Quando esteve, ha annos, doente,

e precisava de medico, e de receber mais forçosamente quem o visitava,

passou a cama para a saleta ao rez do pateo. Eu ia lá todos os dias, e

nunca vi ao pé d'elle senão o criado; mas scismava com um rumor de

passos no sobrado superior; e elle dizia-me que eram ratos.

--Eram ratazanas--corrigi eu.

--Pois seriam...--condescendeu o compadre, e prometteu esforçar-se por

satisfazer a minha curiosidade.--Outra cousa,--disse-me elle quando

iamos entrando em casa de volta do pomar.--Aqui vem todos os annos, em

setembro, um rapaz estudante de Coimbra, que é sobrinho do abbade. Este

rapaz dorme lá em cima. É crivel que elle, tão precavido com os outros,

não escondesse a amante das vistas do sobrinho?!

--E quem nós diz a nós que o sobrinho não é filho, e que a amante não é

mãi do tal rapaz?

--Onde isso já vai! Já vossê inventou prole ao homem para ter motivo

para o segundo tomo do romance! Ora, meu amigo... Não me disse que ella

era rapariga e bella?

--Rapariga, não disse.

--Note que o tal rapaz tem vinte e dous annos.

--E ella póde ter quarenta, e ser mãi, e ser ainda bella.

--Isso é verdade. Seja como fôr, estou picado. Hei de esgotar todos os

recursos da minha espionagem; mas com uma condição: o que eu poder

descobrir, dir-lh'o-hei; mas vossê não o divulgará, sob pena de me dar

remorsos de publicar as fragilidades de um homem a quem devo as maiores

finezas.

--Pois se receia que eu, levado do furor romantico, venha a assoalhar os

MYSTERIOS DO SENHOR ABBADE, nada indague, e nada me diga. Eu sou um

homem que conto a minha vida quando não posso, por ignorancia, contar a

vida alheia. Antes quero não saber nada. Passe por cá muito bem o snr.

abbade, e não perturbe vossê a paz d'essa familia, onde bem póde ser que

as lagrimas tenham delido as maculas de muita culpa. Se elle é _padre_,

tambem póde ser _pai_. _Pater, pai, padre._ E _pater_ é _pai_, como diz,

nas _Odes modernas_, o meu amigo Anthero do Quental. Fiquemos n'isto.

IV

Dobraram-se os annos, desde 1861, sem que eu me intromettesse na vida

intima do abbade. Em 1870, ultima vez que o vi, estava elle em

Famalicão, na feira-grande de maio, apostando ao monte com muita

felicidade. Reparei pouco n'esta perfida ventura de quem joga, e dei

grande attenção á rapida velhice do padre. Poucos vestigios conservava

do robusto homem dos cincoenta annos. Estava decrepito, enrugado, curvo,

movia-se arrastando uma perna, trajava negligentemente; o collarinho da

camisa surrado nos vincos revelava a invencivel desconsolação da doença,

a dolorosa convicção de que a morte não merece ser requestada com camisa

lavada.

Deteve-se commigo uns quinze minutos, expondo-me a sua enfermidade, com

tristeza, sem esperança, mas conformado com a previsão da sepultura. A

doença estava acertadamente qualificada: era uma alteração de sangue.

Poucas são as pessoas que podem gabar-se de saber de que morrem.

E então me disse umas palavras que me deram rebates da historia de

Beatriz de Vilalva, consoante a eu ouvira adulterada na casa de Pildre.

Contou-me, ao proposito de um sujeito de appellido _Queiroz_, que

passára cortejando-me, que aquelle sujeito era seu primo em terceiro

grau; por quanto, seu avô era bastardo dos Queirozes Coimbras, e casára

com uma abastada lavradora da casa e quinta do Pomar no concelho de

Felgueiras.

A denominação da quinta suscitou-me a primeira reminiscencia; mas com a

natural indecisão em cousas tão remotas.

Depois, como a conversação descahisse para saudades da mocidade,

notei-lhe o recolhimento subito, e logo um suspiro muito intimo do seio,

e um leve orvalhar de lagrimas.

--A mocidade...--disse elle.--Prouvera a Deus que eu não sahisse do meu

cubiculo antes dos quarenta annos! Eu não saberia a esta hora que tive

mocidade; e, ao termo da vida, olharia sem saudade para o passado, e sem

abalo do porvir.

--Mas...--volvi eu intencionalmente--se não enganam as apparencias, a

vida de v. s.ª correu serenamente e alumiada pela virtude, como os

arroios nas noites do estio prateados pela luz do luar...

--Enganam as apparencias--replicou o abbade, apertando-me

convulsivamente a mão como a despedir-se.--A minha vida teve uma só

tempestade; mas essa durou cincoenta annos. A final, ferrei ancora, e

achei terra; mas terra do sepulcro. A sua curiosidade--bem lh'a vejo no

rosto--ha de ser satisfeita em breve. Espere que a maledicencia, que eu

pude enganar cincoenta annos, se vingue no meu cadaver. O mundo tolera;

mas não perdôa a quem o sabe illudir. Se, a final, se não vinga no vivo,

vinga-se no morto. E adeus. Se eu poder, irei visital-o a Seide, e

conversaremos mais detidamente.

--Se v. s.ª me permitte, irei a sua casa.

--Não vá; que a minha residencia é triste como uma caverna onde não

penetra raio de sol.

Era meu dever não desfiar a lugubre imagem, porque eu bem conhecia os

fios mysteriosos que a teciam. Elle afastou-se, e eu, com tão poucos

dados, fiquei conjecturando se aquelle seria o egresso da lendaria

Beatriz de Vilalva.

V

Era. O leitor, de sobra, sabe que era elle.

Dous mezes depois, vi annunciada a morte do abbade de S. P. de E***.

Estava eu no Porto, e anciei saber as particularidades d'aquelle

trespasse.

Quanto ao morrer, disseram-me que de uma ligeira esfoliação em uma perna

resultára uma rapida gangrena, e a morte seguintemente.

Quando alguns freguezes entraram á residencia, alvorotados pelo dobrar

do sino, viram á beira do morto uma senhora que nunca tinham visto, e o

mancebo que já conheciam como sobrinho do abbade.

Esta senhora tinha os cabellos brancos, as faces cavadas, e a luz dos

olhos embaciada pelas lagrimas. Perguntaram-lhe se era irmã do snr.

abbade. Respondeu que não.

Abriu-se o testamento do defunto, e leu-se que tudo quanto n'aquella

casa existia, tirante os utensilios da igreja, pertenciam á snr.ª D.

Beatriz Pacheco Leite de Menezes, sua herdeira universal. Declarava que

o testamento seria apresentado pela mesma senhora, e os necessarios

esclarecimentos ácerca da idoneidade da herdeira os encontraria quem os

solicitasse confirmados por escriptura na nota do tabellião, que

mencionava.

A herança do abbade montava a doze contos de reis em dinheiro, producto

das heranças provindas de irmãos fallecidos sem descendencia, e de uma

quinta no concelho de Amarante, intitulada _Vilalva_. Por onde se infere

que padre João de Queiroz havia comprado aos herdeiros do capitão-mór da

lixa a casa onde Beatriz tivera o berço, e onde ia encontrar o leito da

morte.

Quando o defunto era conduzido á sepultura, Beatriz de Vilalva sahiu com

seu filho d'aquella casa onde vivera enclaustrada desde 1835 até 1872,

trinta e sete annos sem ouvir de labios estranhos uma saudação.

Acompanhou-os um velho--aquelle mesmo criado que a conduzira á casa de

Felgueiras na noite da fuga, e levára á beira do Tamega a capa com o

escripto, e atirára á corrente os sapatos.

Um dia, amanheceu á porta da quinta de Vilalva aquella familia

desconhecida na terra. O criado abriu as portas. Beatriz correu direita

a um dos quartos da casa. Atirou-se contra um leito, como quem abraça um

cadaver, e chamou a estridentes gritos sua mãi. Ella imaginava que a

douda morrera alli, depois de a ter amaldiçoado. O filho arrancando-a do

quarto escuro, tirou-a para uma sala carinhosamente, e disse-lhe:

--Minha querida mãi, se a senhora não amou quanto devia essa infeliz que

morreu louca, Deus lhe perdoou pelo muito que padeceu sepultando-se viva

para esconder a sua culpa; e eu lhe provarei que Deus teve compaixão da

sua penitencia, enchendo-me o coração do extremoso amor com que farei a

felicidade dos seus ultimos annos.

Beatriz lançou-se a soluçar nos braços do filho, ungindo-lhe o rosto de

lagrimas.

* * * * *

As pessoas antigas d'aquelles sitios não cessam de procurar occasião em

que vejam aquella formosissima Beatriz por cuja alma rezaram, posto que

o parocho lhes dissesse que a alma da suicida havia cahido de chofre e a

prumo no inferno.

E, de feito, lá vêem a miudo passar pelos maus trilhos que conduzem á

casa dos pobres e dos enfermos uma senhora vestida de negro, precedida

do criado ancião que a conduz.

--Bemdito seja o Senhor!--exclamam pondo as mãos as velhas que a

conheceram menina.

E ella acercando-as de si, pergunta-lhes os nomes, recorda-se, chora, e

consola-se, quando alguma d'ellas póde acolher-se ao regaço da sua

beneficencia.

Se Deus lhe não houvesse perdoado, seria feito á imagem do homem.

[1]Certo respeito, demasiado talvez, me cohibe de declarar

extensamente o nome do abbade, e o padroeiro da abbadia. Os

leitores, convisinhos do local onde escrevo, sabem que não estou

phantasiando.

SE O POETA BERNARDIM RIBEIRO FOI COMMENDADOR

Ha bastantes annos que eu sahi com este repto aos biographos do author

das _Saudades_:

«O meu parecer é que Bernardim, e tambem Bernaldim Ribeiro, ou Bernardim

Reinardino Ribeiro, como Faria e Sousa o chama, nem foi governador de S.

Jorge da Mina, nem amou a infanta D. Beatriz, nem sahiu da sua terra,

para Lisboa, senão depois que ella já tinha sahido de Lisboa para

Saboya. Corre-me obrigação de pôr as clausulas d'este meu juizo, tão

encontrado com o de doutos investigadores. Fal-o-hei em pouco, porque

não cabe n'este genero de escriptos grande cavar em terra d'onde o que

sahe, para o commum dos leitores, é pedregulho.

Em primeiro, tenho como provavel que Bernardim Ribeiro, sob o pseudonymo

de Jano, falla de si na ecloga 2.ª Ahi diz elle:

Quando as fomes grandes foram,

Que Alemtejo foi perdido,

Da aldêa que chamam Torrão

Foi este pastor fugido:

Levava um pouco de gado, etc.

E continúa:

Toda a terra foi perdida;

No campo do Tejo só

Achava o gado guarida,

Vêr Alemtejo era um dó;

E Jano para salvar

O gado que lhe ficou,

Foi esta terra buscar, etc.

«Temos, pois, o poeta allegorico do Torrão--naturalidade que todos os

biographos unanimemente dão a Bernardim Ribeiro--em Lisboa no anno das

grandes fomes, que foi em 1522. Ora, D. Beatriz, em 5 de agosto de 1521,

tinha sahido para Saboya.

«Nenhum biographo até agora assignou o anno do nascimento ou o da morte

de Bernardim Ribeiro. Póde, se o meu modo de decifrar a ecloga é

plausivel, marcar-se-lhe o anno do nascimento em 1500, ou 1501 mais

exacto, porque o pastor, n'outro ponto da mesma ecloga 2.ª diz:

Agora hei vinte e um annos,

E nunca inda té agora

Me acorda de sentir damnos... etc.

«Quanto ao governo de S. Jorge, capitania-mór das armadas da India e

commenda de Villa Cova, é tudo isso um equivoco do author da

_Bibliotheca Lusitana_, com o qual se bandeou a boa fé de escriptores de

grande porte. O Bernardim Ribeiro, governador de S. Jorge da Mina,

assistiu em 1526 ao cerco de Mazagão, d'onde sahiu abrasado d'uma

explosão de polvora. (Veja a _Chronica de D. Sebastião_ por D. Manoel de

Menezes).»

* * * * *

O snr. Innocencio Francisco da Silva, no tomo VIII do _Diccionario

bibliographico_, pag. 379, não aceita como bastantemente decisivos os

meus reparos. Traslado as razões do insigne escriptor:

«O snr. Camillo Castello Branco, em uma nota do folhetim que com o

titulo _Dous corações guizados_ publicou..., não só põe em duvida, mas

nega redondamente que Bernardim Ribeiro, author das Saudades, seja o

mesmo a quem os biographos attribuem as qualidades de commendador,

governador de S. Jorge da Mina, e amante da infanta D. Beatriz, etc.

Salvo o respeito devido ao nosso... romancista e meu presado amigo,

parece-me que o juizo definitivo que se haja de assentar sobre estes

pontos depende ainda de ulteriores averiguações. Deixo-as a quem tiver

por ellas o tempo e a paciencia que de presente me faltou.»

Ulteriores investigações que fiz em cartapacios genealogicos e coevos

levaram-me da certeza á evidencia de que Bernardim Ribeiro, o poeta, não

era Bernardim Ribeiro Pacheco, o commendador de Villa Cova da ordem de

Christo e capitão-mór das naus da india, casado com D. Maria de Vilhena,

filha de D. Manoel de Menezes, nem ainda o outro Bernardim Ribeiro,

governador de S. Jorge.

Do poeta, que pertencia a familia nobilissima do Torrão, logo veremos

que não se esqueceram os genealogicos contemporaneos.

Do seu homonymo, para quem Barbosa Machado facilmente usurpou a

immortalidade do outro, sei o nome de paes, de avós e de filhos.

Era filho de Luiz Estevianes Ribeiro, criado e thesoureiro do infante D.

Fernando (filho de el-rei D. Manoel) e fidalgo de sua casa. Nasceu em

Lisboa, junto á ponte de Alcantara, na quinta da Rola, que D. João I

dera a um de seus avós.

Casou com D. Maria de Vilhena, filha de D. Manoel de Menezes.

Assistiu á batalha de Alcacer-Quivir, e ficou captivo. Voltando ao

reino, foi despachado capitão-mór das naus da India em 1589, como paga

de ter votado a favor da successão de Philippe II, e n'esse mesmo anno

teve a commenda de Villa Cova.

Se o poeta Bernardim Ribeiro tinha em 1522 os vinte e um ou vinte e dous

annos que se inferem dos versos citados, orçaria em 1589 pela idade dos

noventa, pouco viçosa para capitanear a frota da India.

Dizem que o Bernardim Ribeiro, poeta, deixára uma filha.

O Bernardim, commendador, deixou dous filhos e uma filha: Luiz, Manoel e

D. Maria de Menezes.

Luiz Ribeiro Pacheco herdou a commenda de seu pai, e serviu-a em Ceuta.

Casou com D. Catharina de Athayde, filha de Francisco de Portugal, e já

viuva de Fernão Gomes Dragão.

Manoel serviu commenda em Tanger, e morreu solteiro.

D. Maria de Menezes casou com Luiz da Cunha, cognominado o _Pequenino_.

De Luiz Ribeiro Pacheco nasceu Bernardim Ribeiro Pacheco, fallecido

antes de casar. Os haveres vinculados passaram para sua tia D. Maria de

Menezes.

Temos ainda outro Bernardim (ou Bernardino) Ribeiro, que era o

governador de S. Jorge da Mina, e sahiu abrasado do cerco de Mazagão em

1526, consoante a _Chronica de D. Sebastião_, por D. Manoel de Menezes.

Tres Bernardins andam, pois, fundidos no cantor da _Menina e Moça_, Deus

sabe com que bullas em affinidades intellectuaes: parentes com certeza

eram.

Se um dos tres amou a filha d'el-rei D. Manoel, de semelhante ousadia é

justo censurar-se o poeta, embora d'ahi lhe promane a sua romantica

immortalidade. Se o matassem na rua Nova os moços do monte d'el-rei,

como dizem as _Memorias ineditas_ de Diogo de Paiva de Andrade, a

catastrophe assim contada no poema, no romance, ou na tragedia maiores

realces daria ao desditoso provençal. Morrer assim, ou morrer

commendador, e macrobio, como querem Garrett, e Costa e Silva e tantos

outros engenhos atilados, são cousas diversissimas para a arte, que

houver de assentar o pedestal do solitario bardo da serra de Cintra.

Mas a verdade é outra.

No principio do seculo XVIII ventilava-se uma questão de vinculos entre

familias do Torrão que se assignavam _Ribeiros_ e _Mascarenhas_, e

appenso aos autos andava um instrumento antigo em que João Ribeiro,

filho de Gonçalo Ribeiro, senhor de Aguiar de Neiva e Couto de Carvoeiro

no almoxarifado de Ponte do lima, provava _ser primo co-irmão de

Bernardim Ribeiro, fidalgo principal e muito conhecido pelos seus versos

intitulados MENINA E MOÇA_. O referido instrumento era passado em 1552,

sendo já fallecido Bernardim Ribeiro.

Dos Mascarenhas, que venceram o pleito, era ascendente Manoel da Silva

Mascarenhas, que servira em Tanger e nas armadas de Castella com o

general D. Fradique de Toledo. Voltando a Portugal em 1640, foi um dos

denunciantes da conjuração de 1641; e em premio d'isso o galardoou D.

João IV com a alcaidaria da Torre de Outão, e ao mesmo tempo exerceu as

funcções de guarda-mór da alfandega de Lisboa. Este Manoel da Silva

Mascarenhas editou em 1645 as poesias do seu parente, mudando o titulo

de _Menina e Moça_ para _Saudades de Bernardim Ribeiro_.

D'este ramo não houve successão que hoje possa gloriar-se de parentesco

remoto com o poeta. Manoel da Silva Mascarenhas foi casado com D. Garcia

Pereira, filha de João Sodré, de Ourem; mas não deixou filhos legitimos.

Teve dous bastardos: um mataram-lh'o em Setubal; do outro não fazem

cabedal os linhagistas. Se o leitor e eu tivessemos pachorra, iriamos

esquadrinhar a circulação sanguinea de nove ou dez gerações até

encontrar globulos muito depauperados do sangue de Bernardim Ribeiro na

familia _Leites Pereiras de Mello_, de S. João Novo, no Porto.

Mas um descobrimento de tão magna valia tanto importa á familia Leite

Pereira, como ao leitor, como a mim,--um dos bons tolos que tem

produzido a heraldica n'este seculo XIX!

RESPOSTA DE JOSÉ ANASTACIO

SATYRA FEITA A FRANCISCO DIAS, TENDEIRO, COM LOJA DE MERCEARIA NA RUA

DAS ARCAS, CHAMADO POR ALCUNHA O DOUTOR BOTIJA, EM RESPOSTA DE OUTRA,

QUE FEZ A UM SUJEITO, DE QUEM NÃO TINHA O MINIMO CONHECIMENTO, NEM O

MENOR ESCANDALO.

Em quanto agora, o rude teu caixeiro

Unta as guedelhas no mofino azeite,

Que sobra do nojento candieiro;

Em quanto se entretem no porco enfeite,

E fervoroso tu lhe estás prégando

Para que nas balanças menos deite:

Ó mofino, meus versos escutando,

Melhor aprende a venerar a gente,

Que os jumentos, quaes tu, sabe ir picando.

Que sequaz te induziu, feio demente,

A romperes c'o a ovelha? que pateta

Nas garras te lançou do mal presente?

Foi talvez o politico de treta,

Humanado morcego, que na escura

Noite, á lambuge sahe da branca e preta[2]?

Calvo peralta, que sem tom murmura:

Venero-o; que é burrinho sustentado

Pelos serviços do defunto cura.

Foi algum minorista relaxado

Heroe dos Ganimedes, padre velho,

Nos dogmas de Lieu controversado?

Bibliographico vão de alto conselho:

Governa-te por esse moralista,

Que vende em praça o gato por coelho.

Nem estes, nem o secco rabulista,

Aguia manhosa, que folgando espera

Comer, nas garras, quem tentar na alpista.

De que hoje te arrepelles defendera,

Por chamares ao circulo um amigo

Que de asnos despicar-se não quizera.

Eia commigo, pedantão, commigo,

Que da Laconia os cães excedo na arte,

Com que em vereda os lobos maus persigo.

Não determino os versos censurar-te;

Supposto manifestem que os favores

Calliope comtigo não reparte.

Nem respondo tão pouco aos rimadores,

Que dão ás aguas de Hyppocrene o gosto

N'um cantar, como aos echos dos tambores.

Phebo a taes ignorantes volta o rosto:

Das lyras que no Olympo ouvir estima,

N'um _ão_ com um _ão_ o gosto não tem posto.

Nem menos aos exemplos teus da rima:

Sem ella os campos lacios, e os da aurora,

Deram plectros, que a todos vão de cima.

Nos mil volumes, creio lês por fóra;

Mas excede na orelha um mau jumento

Quem de Apollo as acções assim decóra.

Menos respondo ao baixo atrevimento,

De me accusares por fallar das artes,

Em meio de qualquer ajuntamento.

Comtigo n'isto a injuria bem repartes;

O sabio no lugar onde apparece

Das mãos não larga Homéro, nem Descartes.

Ditoso quem no mundo isto conhece!

Ditoso aquelle, que d'um n'outro errando,

Vagueia, té que a aurora lhe amanhece!

Cada um na sua herdade anda lavrando:

Tu desvelas-te em ser rico tendeiro,

Eu em andar nas artes estudando.

Nenhum d'estes defeitos, eu requeiro

Para abaixar-te a longa orelha; emprégo

Outro arrocho maior, maior fueiro.

Por isso de outros erros te não prégo:

Qual é o de seguires que entre os homes

O lynce represente ser um cego.

Teme-os embora tu, que d'elles comes;

Mas olha que ao cobarde a espada corta:

Nunca livre obra, quem receia fomes.

Quem te mette a induzir na estrada torta,

O que voar pretende além dos céos?

A porta da virtude é estreita porta.

Pondera, se com taes descuidos teus,

Não podia opprimir-te, envergonhar-te,

Se vergonha consente o mal nos seus.

Vê se bastante era isto a depennar-te,

D'essa vaidade, com que te apresentas

Decidindo de leve em qualquer parte.

Bem como as aves já de orgulho isentas

A gralha depennaram, que entendia

Encobrir suas plumas macilentas.

Que mal c'o as do pavão se revestia,

Eis lh'as depennam logo, e perseguindo

Vão todas a infeliz, que lhes fugia.

Hoje atravessa os mares repetindo:

Ao vaidoso mui mal serve a vaidade:

E de echo o exemplo teu lhe está servindo.

Se não tiveste geito para abbade,

Nem para leigo ser da Estremadura,

Quem te mette a inculcar letras de frade?

A natura não é contra natura:

Para Minerva, e Clio não tens ara,

Que um bom senso, não soffre má figura.

Qual das celestes musas não julgára,

Se teus metros Apollo a lêr vos dera,

Que em seu presidio Circe te hospedára?

E que tornar-te em burro pretendera,

Com mania de versos maus fazeres,

Como n'outros por magica fizera?

Para o que seus veneficos poderes,

Ajuntando, com vara diamantina

Te deu, ferindo o chão, a orelha a veres?

Mas Phebo a cousas taes me não destina.

Só na grandeza enorme da ambição,

Que te occupa, meu rude plectro afina.

Já sinto se me inflamma o coração,

Ah! Menippo cruel da mercearia,

Nas tramoias da tenda sabichão!

Onde férvido corres á porfia,

Uns dinheiros, sobre outros encofrando,

Sem afrouxares nunca em tal mania[3]?

Não vês que eterno mal estás cavando

A vida, que respiras, praguejada

Pela miseria dos que estão penando?

Quem te encontra de capa esfrangalhada,

Surdindo já pelo sapato o dedo,

Porcas as mãos, a cara besuntada,

O ar do rosto, de quem come azedo,

As melenas hirsutas, mal corridas,

Figura, que promove o nojo e medo:

Diria: «que mal correm as medidas

A este pobre!» a não te conhecer

Pelo mais traficante busca-vidas.

Com que razão, te intentas defender,

Sendo não só nos males teus culpado,

Mas nos de quantos menos podem ter?

Não sei como respiras socegado

Encontrando no mundo a cada passo

O triste, que tu fazes desgraçado!

Podes voltar as costas, ó escasso,

Á vista da miserrima figura,

De quantos mata o famulento laço?

Do pobre, que esforçar-se em vão procura,

Contra o peso dos annos, que servindo

Lhe estão de açoute, até á sepultura?

Do enfermo, que o grave mal sentindo,

Olha, e vê a terrivel desnudez

Estar-lhe aos pés a fria cova abrindo.

Presumo que em tal scena te não vês,

Ignorante selvage inda peor,

Que os mouros de Marrocos, ou de Fez.

Não te abrandam os echos do clamor

Da misera viuva, rodeada

Dos tenros fructos do passado amor,

Que rota, lacrimosa, esguedelhada,

Um dia vê raiar, vê outro dia,

Sem que lhe digam: «toma, desgraçada!»

Avaro sabichão da Barberia,

Aos golpes morrerás dos crueis damnos,

Que aos tristes motivar tua mania.

Pondéra meus sinceros desenganos,

Que de outro peso são, que os palavrosos

Discursos teus, errados, e profanos.

Fizeram na terra o mal os cobiçosos;

N'elles origem teve este direito,

Que faz o rico, e faz os desditosos.

N'elles é que se viu o homem sujeito:

N'elles a causa da ignorancia existe,

Pois ninguem conhecer quer seu defeito.

Porque de erros tão feios não sahiste,

Se ser tentavas critico dos homes?

N'um bom exemplo a boa lei consiste.

Outra vereda é licito que tomes;

Seja essa a de tendeiro, em que nasceste

Entre os exemplos já, de unhas de fomes.

Olha a quanto por nescio te expozeste!

A perderes do ser de humano a gloria,

Porque outro avaro Midas te fizeste!

Na terra gravarão triste memoria

Teus vicios, e acções escandalosas

Nunca sonhadas na mais vil historia.

Com que horror te olharão castas esposas,

Sabendo que aprouveste á tua dar

Um tostão, vendo-a enferma? E que repousas!

Com que odio chegarão a recordar

Não seguiste as leis do deus vendado,

Por mais cobres na burra accumular?

Morrendo viva o mal aventurado;

(Dirão ellas) nem d'elle se encarregue

O Charonte no Averno ao remo usado.

De Ixion, e Tantalo aos trabalhos chegue;

Nas garras das harpias monstruosas

Com elle, a grã discordia irada prégue.

Cáia aos pés das Euménides raivosas,

Que as cabeças de viboras povoadas

Cingem de escuras fitas sanguinosas.

Gema nas mãos das funebres e iradas

Scyllas biformes, cuja enormidade

As montanhas assombra inanimadas.

Que inda pequena é calamidade

Para quem dobra aos pés uma innocente

Dos vicios, que disfarça em castidade.

Ah! mofinento critico, indolente,

Para opprobrios respiras n'este mundo,

Alvo já dos rapazes, e da gente!

Vê porque nome trocas o profundo

Socego da virtude, tão querido,

Menippo turbulento, vil, e immundo!

Vê porque gloria vives opprimido,

Querendo bravo dar a conhecer-te,

Pela besta maior que tem nascido!

Sahe vacillante quem chegou a vêr-te

Sobre côxo banquinho repimpado

Ao canto do balcão, sem nunca erguer-te.

Quando ao mais alto o dia tem chegado

Ergueres essa cara agolfinhada,

Isto dizendo ao caixa enlabuzado:

«Ouves, tratante, uma hora é já passada:

Vai vêr no Talaveiras se sobeja

Alguma cousa, muito acommodada.

Senão, á cêa basta que isto seja;

Que eu por mim, te confesso, estou impando:

Inda a sardinha de hontem cá branqueja.»

Sahe aturdido quem te viu ceando

Negra bolacha, e na herva mal cozida,

Pingo e pingo o azeite alto deitando.

Mosca que ao prato vem, dobra a lambida

Mesa de cão; e ao longe teu caixeiro

Comendo está n'um canto por medida.

Mofino, que avançado no terreiro

O mundo desafias, teme agora

Morrer na espada do feroz Rogeiro.

Teme, teme os clamores, muito embora,

Da grã calamidade, que gemendo

Triste escrava do avaro, amarga chora:

Da grã calamidade, que volvendo

Os olhos para os céos, efficazmente

Expondo o mal, que á força está fazendo.

Eterno Padre, Justo, Omnipotente,

(Diga, vendo-se toda rodeada

Da miserrima, triste, e pobre gente)

Não posso respirar mais subjugada.

Aos erros da avareza repetidos

Por cujas mãos tyrannas fui criada.

Mil vezes entre funebres gemidos,

Vi abraçar os pés aos avarentos

Homens, estes que trago perseguidos.

Dizendo-lhes com ais, e pensamentos

Que as montanhas curvavam de gemer:

Ó vós, causas crueis d'estes tormentos!

Já que os templos dos numes soffreis vêr

Desornados, dos numes que piedosos

Vos deram vida, humanidade e ser:

Já que os olhos cerraes aos magestosos

Preceitos seus, no coração gravados;

Já que abusaes de serem generosos,

Ao menos vos commovam, desgraçados,

Miseros gostos nossos, innocentes

Combatidos da fome, e destroçados.

Não sejaes fortes com as humildes gentes:

Possa-vos compungir esta lembrança:

Que sois co' os irmãos vossos, inclementes.

Possa abalar-vos da primeira usança

As leis, restituindo á natureza

A gloria, os bens, o ser, a segurança.

Nada, ó Jove, abrandou sua dureza;

As razões todo o vicio aos homens tiram;

Mas a razões não olha o da avareza.

Ah! fulminante deus, quanto sentiram

Esses que desthronar-te já quizeram,

Que as penhas sobre penhas enxeriram!

Desata sobre avaros, que offenderam

Da natureza as leis n'um semelhante;

Que commetter mil males me fizeram.

Desata já das nuvens coruscante

Raio que envolva em subtil cinza quantos

Mofinos tem o mundo, ó deus tonante,

E dizendo isto, cáiam mil e tantos

Coriscos logo, serpenteando os ares,

Que te acabem entre horridos espantos.

Eis, clamarás então: santos altares,

Valei, valei!--porém mal acabando,

Tornado em cinzas te verão ficares.

Oh! quanto os teus, teus males alegrando

Correndo logo em turba, o cofre abrindo,

Vejo as mãos para os céos alevantando!

Uns o arroz da tenda já medindo,

Outros de um ar choroso mascarados

De quando em quando para um canto rindo!

A fama de improviso aos desgraçados

Corre, e por cem boccas apregoa,

Teus fins terriveis, mal aventurados.

Nenhum mais se entristece, nem magôa.

É justo o céo, é justo, pois castiga

Os avaros. Eis quanto n'elles sôa.

Pedante, não maltrates a barriga,

Entre saccos, e saccos de alimentos;

Não sejas mais avaro que a formiga.

Não queiras ser com muitos avarentos

Semelhante a Lycurgo, rodeado

De cofres, expirando nos tormentos.

Vive de tua esposa acompanhado,

Tendeirinhos pequenos fabricando,

Que bem obra quem segue o decretado.

Vai as medidas tu satyrisando,

Que para bocca d'asno o mel não é;

Deixa de andar as musas inquietando.

Para critico seres, tens mau pé:

Não murmures de outeiros, que em verdade,

N'elles Apollo o bom, e ruim vê.

E se fumos desejas ter de abbade,

Mostrando-te doutor de mitra, e toga,

Com primazias de robusto frade;

Aos ratos deixa a tenda, e desafoga:

Segue do Paiz Baixo essa mofina

Estrada; e vai firmar-te á synagoga.

Porque entre os phariseus da lei rabina,

Te inculcarás mui bem, já me percebes[4];

A natureza mais do que a arte ensina.

Entre nós os do Luso, não recebes

Louvor algum; olham-te mau tendeiro,

Um vil que na ambição nunca assás bebes.

Não saques mais as gentes a terreiro,

Que aos maus sou formidavel, arrebato

Nos cornos a capinha mais ligeiro.

As virtudes abraça de barato;

Olha que serás mais atassalhado,

Que na bocca do cão raivoso, o gato.

Sou semelhente ao genro desprezado

Por Licambo, ou bem ao inimigo

Vingativo do bufalo malvado.

Vende o bom bacalhau, o melhor figo:

Argumenta c'o teu almotacé:

Detesta os vicios, anda só comtigo,

O Alcorão não sigas de Mahomet.

* * * * *

A mais completa noticia que temos de José Anastacio da Cunha deve-se ao

esclarecido investigador, o snr. Innocencio Francisco da Silva (_Dicc.

bib._, t. IV, pag. 221-231). Aqui encontramos pela primeira vez a

sentença inquisitorial que condemna José Anastacio da Cunha a ouvil-a no

auto publico de fé, com habito penitencial. A sentença confisca-lhe

todos os bens, encerra-o por tres annos na congregação do oratorio, com

dous dias de penitencia em cada mez no primeiro anno; findo o triennio

da reclusão, desterra-o por quatro annos para Evora, e veda-lhe

perpetuamente o ingresso em Coimbra e Valença.

Concluidos os tres annos de reclusão, José Anastacio requereu á mesa do

santo officio que lhe commutasse o degredo dos quatro annos em

residencia na congregação do oratorio. A inquisição condescendeu.

Noites de insomnia, offerecidas a quem não póde dormir. Nº 10 (de 12) · 第 1 / 4 段