CARTA AOS ELEITORES DO CIRCULO DE CINTRA

1858

Senhores eleitores do circulo eleitoral de Cintra.--Acabaes de me dar

uma demonstração de confiança, escolhendo-me para vosso procurador no

parlamento: sinto que me não seja permittido acceitá-la.

Se tal escolha não foi um daquellas inspirações que vem ao mesmo tempo

ao espirito do grande número, o que é altamente improvavel, porque o meu

nome deve ser desconhecido para muitos de vós; se alguem, se pessoas

preponderantes nesse circulo, pelo conceito que vos merecem, vos

apresentaram a minha candidatura, andaram menos prUdentemente, fazendo-o

sem me consultarem, e promovendo uma eleição Ínutil.

Ha annos que os eleitores de um circulo da Beira, na sua muita

benevolencia para comigo, pretenderam fazer-me a honra que me fizestes

agora. Um delles, um dos mais nobres, mais puros e mais intelligentes

caracteres dos muitos que conheço, sumidos, esquecidos, nessa vasta

granja da capital chamada--as provincias, encarregou-se de vir a Lisboa

consultar-me. Respondi-lhe como a consciencia me disse que lhe devia

responder, e o meu nome foi posto de parte. De Cintra a Lisboa é mais

perto, e a communicação mais facil, do que dos remotos e quasi impervios

sertões da Beira.

Duas vezes nos comicios populares, muitas na imprensa tenho manifestado

a minha intima convicção de que nenhum circulo eleitoral deve escolher

para seu representante individuo que lhe não pertença; que por larga

experiencia não tenha conhecido as suas necessidades e miserias, os seus

recursos e esperanças; que não tenha com os que o elegerem communidade

de interesses, interesses que variam, que se modificam, e até se

contradizem, de provincia para provincia, de districto para districto, e

ás vezes de concelho para concelho. Esta doutrina, postoque tenha

vantagens no presente, reputo-a sobretudo importante pelo seu alcance,

pelos seus resultados em relação ao futuro. É, no meu modo de ver, o

ponto de Archimedes, um fulcro de alavanca, dado o qual, as gerações que

vierem depois de nós poderão lançar a sociedade n'um molde mais

português e mais sensato do que o actual, inutilisando as copias, ao

mesmo tempo servis e bastardas, de instituições perigrinas, que em meio

seculo tem dado sobejas provas na sua terra natal do que podem e do que

valem para manterem a paz e a ordem publicas, e mais que tudo uma

honesta liberdade.

Durante meses, no decurso de dous annos, tive de vagar pelos districtos

centraes e septemtrionaes do reino. Pude então observar amplamente

quantas miserias, quanto abandono, quantos vexames pesam sobre os

habitantes das provincias, principalmente dos districtos ruraes, como o

vosso, que constituem a grande maioria do paiz. Vi com dor e tristeza

definhados e moribundos os restos das instituições municipaes que o

absolutismo nos deixara: vi com indignação essas solemnes mentiras a que

impiamente chamâmos a agricultura, a verdadeira industria de Portugal,

lidando inutilmente por desenvolver-se no meio da insufficiencia dos

seus recursos; vi, em resultado dos erros economicos que pullulam na

nossa legislação, a má organisação da propriedade territorial e a

desigualdade espantosa na distribuição das populações ruraes, procedida

da mesma origem, e dando-nos ao sul do reino uma imagem das solidões

sertanejas das America, e ao norte uma Irlanda em perspectiva: vi a

injusta repartição e a peior applicação dos tributos e encargos: vi a

falta de segurança pessoa e real, especialmente nos campos, onde o homem

é obrigado a confiar só em si e em Deus para a obter: vi um systema

administrativo máu por si e pessimo em relação a Portugal, com uma

jerarchia de funccionarios e uma distribuição de funcções que tornam

remotas, complicadas, gravosas, e até impossiveis, a administração e a

justiça para as classes populares, e incommodas e espoliadoras para as

altas classes: vi, sobretudo, a falta da vida pública, a concentração do

homem na vida individual e de familia, que é ao mesmo tempo causa e

effeito da decadencia dos povos que se dizem livres: vi todos esperarem

e temerem tudo do governo central; confiarem nelle, como se fosse a

Providencia; maldizerem-no, como se fosse o principio máu: idéas

completamente falsas, postoque bem desculpaveis num paiz de

centralisação; idéas que significam uma abdicação tremenda da

consciencia de cidadão, e da actividade humana, e que são o symptoma

infallivel de que os males públicos procedem, não da vontade deste ou

daquelle individuo, da indole particular desta ou daquella instituição,

mas sim do estado moral da sociedade e da indole em geral da sua

organisação.

E isto que vi perspicuamente, apesar de uma observação transitoria,

vêem-no todos os dias, palpam-no, e, o que mais é, padecem-no centenares

de homens honestos e intelligentes que vivem obscuramente por essas

villas e aldeias de Portugal. Como os seus vizinhos, elles são victimas

da nossa absurda organisação; disso a que por antiphrase chamamos

administração e governo. É entre taes homens que os circulos deveriam

escolher os seus representantes: é entre elles que os escolherão por

certo no dia em que comprehenderem que o direito eleitoral é uma espada

de dous gumes com que os cidadãos estão armados para se defenderem a si

e a seus filhos, mas com que tambem podem assassinar-se e assissiná-los.

Foi o que disse a todos aquelles, e não foram poucos, que durante a

minha peregrinação pareceram confiar, senão no valor das minhas

opiniões, ao menos na sinceridade d'ellas. Interrogado ácerca do

lenitivo que suppunha possivel para os males que presenciava, indiquei

sempre, não como remedio definitivo, mas como preparação para elle, como

instrumentos de uma reforma futura, a eleição exclusivamente local e os

esforços constantes para obter, contra o interesse das facções, dos

partidos e dos governos, a reducção dos grandes circulos a circulos de

eleição singular, que um dia possam servir á restauração da vida

municipal, da expressão verdadeira da vida publica do paiz, e de

garantia da descentralisação administrativa, como a descentralisação

administrativa é a garantia da liberdade real.

Fortes tendencias para a eleição da localidade se manifestam já por

muitas partes, e os governos e as parcialidades vêem-se constrangidos a

transigir com esse instincto salvador. Se não me é licito gloriar-me de

ter contribuido para elle se desenvolver, ser-me-ha licito, ao menos,

applaudi-lo. É o primeiro passo dado no caminho do verdadeiro progresso

social: cumpre não recuar.

Mas, pensando assim, como poderia eu, sem desmentir a minha consciencia

e as minhas palavras; sem trahir a verdade, sem vos trahir a vós

proprios, acceitar em silencio o vosso mandato? É honroso merecer a

confiança dos nossos concidadãos, mas é mais honroso viver e morrer

honrado.

Não haverá no meio de vós um proprietario, um lavrador, um advogado, um

commerciante, qualquer individuo, que, ligado comvosco por interesses e

padecimentos communs, tenha pensado na solução das questões sociaes,

administrativas e economicas que vos importam; um homem de cuja

probidade e bom juizo o tracto de muitos annos vos tenha certificado?

Ha, sem dùvida. Porque, pois, não haveis de escolhê-lo para vosso

mandatario?

Os que não vêem como eu nesta idéa da representação exclusivamente local

o primeiro élo de uma cadeia de transformações, que serão ao mesmo tempo

administrativas e politicas, podem, sem desdouro, não só acceitar, mas

até sollicitar os vossos votos. Ninguem deve afferir os seus actos

livres senão pelas proprias opiniões, pelas doutrinas que tem

propugnado. Afferir pelas minhas idéas o meu proceder é o que unicamente

faço.

Recusando o vosso favor, nem por isso vo-lo agradeço menos; e a prova é

que vo-lo retribuo com estes conselhos, que não serão bons, mas que

evidentemente são desinteressados. Da confiança que mostrastes ter em

mim deriva o meu direito a dar-vo-los.

Aconselho-vos, como acabaes de ver, uma cousa para a qual os estadistas

de profissão olham com supremo desprezo, a eleição de campanario, só a

eleição de campanario, a eleição de campanario, permitti-me a expressão,

até a ferocidade.

Não sei se podereis soffrer o affrontoso ridiculo que anda associado á

doutrina que vos inculco. Eu posso. Em mim este alto esforço é o habito

que resulta do longo tracto. A aguda e graciosa invectiva de deputado de

campanario tem cãs veneraveis. Conheço-a ha muitos annos. Além dos

Pyrenéos andava já em serviço dos ambiciosos, dos officiaes de politica

ha bem meio seculo. Os nossos politicos encartados traduziram-na para

seu uso. É que, assim como traduzem leis, traduzem o mais, postoque, se

me é licito dizê-lo, o façam mal, muito mal, de ordinario.

Indubitavelmente este paiz trasborda de homens grandes, de profundos

estadistas. Aqui o estadista nasce, como nasce o poeta: precede a

escóla: dispensa-a, até. Sou o primeiro em confessá-lo. E a paixão dos

homens grandes, dos profundos estadistas, é a salvação da patria: é a

sua vocação, o seu destino, a sua suprema felicidade. Esses varões

illustres pertencem, porém, ao paiz: é do paiz que devem ser deputados.

Entendem-no elles assim, e parece-me que entendem bem. Em tal caso,

eleja-os o paiz. Quando algum vos mendigar de porta em porta, e com o

chapéu na mão, os vossos votos, respondei-lhe, como os eleitores dos

diversos circulos do reino lhe responderiam, se o são juizo fosse uma

cousa desmesuradamente vulgar:

«Somos uma pobre gente, que apenas conhecêmos as nossas necessidades, e

querêmos por mandatario quem tambem as conheça e que n'ellas tenha

parte; quem seja verdadeiro interprete dos nossos desejos, das nossas

esperanças, dos nossos aggravos. Se os deputados dos outros circulos

procederem de uma escolha analoga, entendemos que as opiniões

triumphantes no parlamento representarão a satisfação dos desejos, o

complemento das esperanças, a reparação dos aggravos da verdadeira

maioria nacional, sem que isto obste a que se attenda aos interesses da

minoria, que ahi se acharão representados e defendidos como se

representa e defende uma causa propria. Na vulgaridade da nossa

intelligencia, custa-nos a abandonar as superstições do nossos páes:

cremos ainda na arithmetica, e que o paiz não é senão a somma das

localidades. Homem do absoluto, das vastas concepções, se a vossa

abnegação chega ao ponto de sollicitar a deputação do campanario, fazei

com que vos elejam aquelles que vos conhecem de perto, que podem

apreciar as vossas virtudes, o vosso caracter. Certamente vós habitaes

n'alguma parte. Se não quereis abater-vos tanto, arredae-vos da sombra

do nosso presbyterio, que offusca o brilho do vosso grande nome. Sêde,

como é razão que sejaes, deputado do paiz. Não temos para vos dar senão

um mandato de campanario.»

A resposta dos eleitores aos estadistas parece-me que deveria ser esta.

A eleição de campanario é o symptoma e o preambulo de uma reacção

descentralisadora, a descentralisação é a condição impreterivel da

administração do paiz pelo paiz, e a administração do paiz pelo paiz é a

realisação material, palpavel, effectiva da liberdade na sua plenitude,

sem anarchia, sem revoluções, de que não vem quasi nunca senão mal. Para

obter este resultado, é necessario começar pelo principio; é necessario

que a vida pública renasça.

Na verdade, a doutrina de que o excesso de acção administrativa, hoje

acumulada, deve derivar em grande parte do centro para a circumferencia

repugna aos partidos, e irrita-os. Sei isso, e sei porque. Os partidos,

sejam quaes forem as suas opiniões ou seus interesses, ganham sempre com

a centralisação. Se não lhes dá maior numero de probabilidades de

vencimento nas luctas do poder, concentra-as n'um ponto, simplifica-as,

e obtido o poder, a centralisação é o grande meio de o conservarem.

Nunca esperem dos partidos essas tendencias. Sería o suicidio. D'ahi vem

a sua incompetencia, a nenhuma auctoridade do seu voto n'esta materia. É

preciso que o paiz da realidade, o paiz dos casaes, das aldeias, das

villas, das cidades, das provincias acabe com o paiz nominal, inventado

nas secretarías, nos quarteis, nos clubs, nos jornaes, e constituido

pelas diversas camadas do funccionalismo que é, e do funccionalismo que

quer e que ha de ser.

A centralisação tem ido até as saturnaes. A jerarchia administrativa

chegou já, por exemplo, a arrogar-se o direito de declarar suspensas ou

em vigor as leis civís e criminaes do reino e a acção dos tribunaes.

Lêde o artigo 357.^o do codigo administrativo e estudae a sua

jurisprudencia, que haveis de ficar edificados. Vêde se algum governo,

se algum grande estadista, saído de qualquer parte, propôs a sua

revogação. Não o espereis jámais.

O poder que pela immunidade do funccionario criminoso, que pelo

monopolio na distribuição de todas as funcções retribuidas, que pela

monstruosa invenção do contencioso administrativo, que pelas mais ou

menos disfarçadas dictaduras, cuja necessidade elle mesmo cria, que por

mil concessões arrancadas á fraqueza ou á condescendencia parlamentar,

acha grandes facilidades para penetrar na esphera dos outros poderes,

deve ir longe na propria esphera. E vai.

Quereis encontrar o governo central? Do berço á cova encontrae-lo por

todas as phases da vossa vida, raramente para vos proteger, de continuo

para vos incommodar. Nada, a bem dizer, se mover na vida collectiva do

povo, que não venha de cima o impulso, ou que pelo menos o governo se

não associe a esse impulso. Entrae, por exemplo, no presbyterio da

primeira aldeia que topardes. Vereis ahi um homem enchendo a pia da agua

benta, apagando ou accendendo as vélas, arrumando os cereaes. É o

governo central. O sacristão, exornado com o titulo pomposo de

thesoureiro, é seu funccionario; é a mão delle estendida até o gavetão

das vestimentas. Esse personagem tem carta pela secretaria de estado.

Isto é impossivel que seja racional, sensato. Essa immensa tutela de

milhões de homens por seis ou sete homens é forçosamente absurda. Deve

haver um dia em que a sociedade, como os individuos, chegue á

maioridade.

Não receeis que a descentralisação seja a disgregação. O governo central

ha de e deve ter sempre uma acção poderosa na administração pública; ha

de e deve cingi-la; mas cumpre restringir-lhe a esphera dentro de justos

limites, e os seus justos limites são aquelles em que a razão pública e

as demonstrações da experiencia provarem que a sua acção é inevitavel. O

ambito desta não deve dilatar-se mais.

A centralisação, na cópia portuguesa, como hoje existe e como a

soffremos, é o fidei-commisso legado pelo absolutismo aos governos

representativos, mas enriquecido, exaggerado; é, desculpae-me a phrase,

o absolutismo liberal. A differença está nisto: d'antes os fructos que

dá o predominio da centalisação suppunha-se colhê-los um homem chamado

rei: hoje colhem-nos seis ou sete homens chamados ministros. D'antes os

cortezãos repartiam entre si esses fructos, e diziam ao rei que tudo era

d'elle e para elle: hoje os ministros reservam-nos para si ou

distribuem-nos pelos que lhes servem de voz, de braços, de mãos; pelo

partido que os defende, e dizem depois que tudo é do paiz, pelo paiz, e

para o paiz. E não mentem. O paiz de que falam é o seu paiz nominal; é a

sua clientella, o seu funccionalismo; é o proprio governo; é a traducção

moderna da phrase de Luiz XIV _l'état c'est moi_, menos a sinceridade.

Não accuso alguem em particular; descrevo um facto geral; não sirvo, nem

combato nenhum partido: pago-vos com a franqueza um pouco rude da minha

linguagem a vossa benevolencia. Se accusasse, accusava-me tambem a mim,

e talvez a vós. Ninguem está acima das paixões, dos preconceitos, das

fórmulas, da indole da sua épocha. Nem sequer, e muito é, os estadistas

o estão, se me é concedido avaliar essas altas capacidades. A carne é

fraca. Sejam quaes forem as nossas aspirações, as nossas theorias, e se

quizerem, os nossos sonhos quanto ao futuro, vivemos no presente, e

quando não nos abstemos da politica, enfileiramo-nos nos partidos, ás

vezes, até, sem o querermos, sem o sabermos. Como tive a honra de vos

fazer notar, a questão da liberdade na sua plenitude e na sua existencia

real está fóra, ou antes, acima dos partidos. Se, conforme creio, a

eleição na qual quizestes que eu tivesse uma parte honorifica manifesta

as vossas propensões para manter o ministerio actual, não se deduz do

que vos digo a necessidade de mostrar propensões contrarias. Por ora não

se tracta senão de adoptar um principio, uma regra, cujas consequencias

verdadeiramente importantes virão mais tarde. Não importa, em relação a

essas consequencias, que escolhaes n'este ou n'aquelle partido: o que

importa é que escolhaes d'entre vós; o que importa é que os circulos

ruraes não obriguem algum homem grande a consummir dez minutos em

procurar no mappa do reino a situação relativa do districto que

representa, e muitas horas em soletrar os nomes romanos, gothicos,

mouriscos, barbaros, que n'esse mappa designam rios, montes, logarejos,

aldeias, freguezias, concelhos, em que nunca ouviu falar. Pelos recostos

das vossas pintorescas montanhas, pelos vossos valles frondosos, pelas

quintas e granjas mais remotas, no campo ou nas povoações, deve habitar

algum amigo de ministerio que mereça os vossos votos. Dae-lh'os, se

entendeis que os homens que estão no poder são menos máus do que os seus

adversarios.

Não me consentindo a brevidade do tempo e a urgencia de outras

occupações expôr-vos todos os motivos por que dou tanta importancia á

doutrina eleitoral que submetto á vossa consideração, não tenho direito

a insistir em que a sigaes com a inabalavel firmeza com que intimamente

creio que a deverieis seguir. N'essa hypothese, se vos apresentarem

candidaturas de individuos extranhos ao vosso circulo, cujo caracter não

possaes avaliar por vós mesmos, consenti em que vos lembre um arbitrio

para não serdes ludibriados. Consultae aquelles que pessoalmente os

conhecerem, mas só aquelles, que, pagando tributos, e não

disfructando-os, viverem no meio de vós ha longos annos do producto do

seu trabalho ou da sua propriedade, e que gosarem de solida reputação de

intelligencia e de probidade. Como homens de bem, e como tendo

interesses analogos aos vossos e confundidos com os vossos, elles não

podem enganar-vos. Escolhei o que elles escolherem; regeitae o que elles

regeitarem. Vença qual partido vencer, tereis ao menos um procurador

honesto; porque todos os partidos tem no seu seio gente honrada.

Escusado é dizer-vos o que n'isso haveis de ganhar.

Depois, quando alguem, que accidentalmente se ache no meio de vós, sem

casa, sem bens, sem familia, sem industria destinada a augmentar com

vantagem propria a riqueza commum, e só porque o seu talher na mesa do

tributo ficou posto para esse lado, se mostrar demasiado sollicito em

nobilitar o vosso voto pela escolha de algum celebre estadista, em que

nunca talvez ouvistes falar, ou em livrar-vos de elegerdes algum máu

cidadão, cujas malfeitorias escutaes da sua bôca pela primeira vez,

voltae-lhe as costas. Padre, militar, magistrado, funccionario civil,

seja quem for, esse homem que tanto se agita, afflicto pela vossa honra

eleitoral, pelos vossos acertos ou desacertos politicos, póde ser um

partidario ardente e desinteressado; mas é mais provavel que seja um

hypocrita, um miseravel, que já tenha na algibeira o preço do vosso

ludibrio, ou que, por serviços abjectos, espere obter, ou dos que são

governo, ou dos que querem fazer o immenso sacrificio de o serem, a

realisação de ambições que a consciencia lhe não legitima, e ácerca das

quaes só podeis saber uma cousa: é que as haveis de pagar.

Permitti-me, senhores eleitores, que termine esta carta, já demasiado

extensa, reiterando-vos os protestos da minha gratidão pela vossa

bondade para comigo, e assegurando-vos que, se me fallece ambição para

acceitar os vossos votos contradizendo as minhas opiniões, sobeja-me

avareza para buscar não perder jámais um ceitil da vossa estima.

MANIFESTO DA ASSOCIAÇÃO POPULAR PROMOTORA DA EDUCAÇÃO DO SEXO FEMININO

AO PARTIDO LIBERAL PORTUGUÊS

1858

Muitos cidadãos de Lisboa pertencentes ás diversas fracções do partido

liberal, movidos por um sentimento de perigo commum, tendo-se congregado

para deliberarem sobre o modo de obviar a esse perigo, que reputam mais

ou menos grave, mais ou menos imminente, mas indubitavel, resolveram

constituir uma associação, que, crescendo e dilatando-se pelo reino,

possa combatê-lo com vantagem. O laço principal d'esta associação

consiste na unidade de idéas, e na unidade de esforços para annullar,

sem sair da estricta legalidade, as tentativas de reacção anti-liberal,

cuja manifestação mais importante é o empenho de transviar a educação

popular, entregando-a a congregações religiosas, não só estrangeiras,

mas tambem regidas por principios oppostos às instituições do estado.

A Associação, desejando firmar bem a sua bandeira, e habilitar o paiz

para a favorecer, ou para a condemnar, ordenou que em seu nome se

publicasse o presente escripto, onde amplamente se exposessem os motivos

da sua existencia e o alvo em que põe a mira.

Os acontecimentos de 1848, que agitaram a Europa, deram origem a

exaggerações e desconcertos, que, ferindo não só os interesses ligados á

manutenção do passado, o que pouco importava, mas tambem, o que era mais

grave, os interesses das numerosissimas classes que unicamente vêem o

progresso no lento e prudente desenvolvimento das idéas e das

instituições representativas, produziram temores que, podendo

justificar-se a principio, não tardaram a ultrapassar os limites do

justo e a precipitar-se n'um systema de reacção, que se confundiu com o

dos partidos anterior e absolutamente adversos á liberdade legitima e

honesta, procedimento não menos absurdo que o d'aquelles que se haviam

declarado inimigos da sociedade.

No meio do estampido das revoluções, das peripecias dos thronos e das

gentes, das luctas e das desgraças publicas, algumas nações, ancoradas

no porto das instituições liberaes, e forcejando pacificamente por

obterem o progresso pelos meios que subministra o governo parlamentar,

haviam-se abstido de se associarem ao movimento revolucionario da

Europa, visto que disso não careciam para assegurar os seus destinos

futuros. Tal fora a Inglaterra, a civilisadora do mundo, esse paiz

modelo, essa terra da nobre raça anglo-saxonia, defensora natural dos

povos livres menos poderosos: taes haviam sido Portugal e a Belgica.

Outras, por um accordo generoso entre o soberano e os subditos, souberam

tirar da grande agitação europêa só as consequencias justas, e vieram

associar-se, emfim, pacificamente ao gremio das sociedades livres. Tal

foi o Piemonte, tão moderado nos dias prosperos, como tinha sido nobre

nos da adversidade, e que a Providencia collocou nos pendores dos Alpes

e dos Apeninos como pharol e ultima esperança da Italia.

Ha annos que estas nações respondem triumphantemente com a eloquencia

dos factos ás accusações da reacção contra a liberdade: ha annos que

apontam a povos que se reputavam mais allumiados do que ellas, e que só

sabemos terem sido ou mais imprudentes ou mais infelizes, a lei moral do

futuro, as condições impreteriveis de vitalidade para as instituições

representativas; isto é, a moderação e a firmeza. Foragidos de todos os

paizes, que no seio dellas tem vindo reclinar a cabeça e respirar a

atmosphera da liberdade, voltando algum dia á patria não esquecerão as

salutares licções que receberam, e amestrarão os menos experientes para

não confundirem o desacato do direito com o direito, a revolta com a

resistencia legitima, a licença com a liberdade.

Protesto vivo contra a reacção, a fórma da existencia politica d'estas

nações devia ser profundamente odiosa aos que sonham na restauração do

passado. Absorvê-las, affeiçoá-las pelo proprio pensamento, desmentir a

sua muda linguagem, era para a reacção um postulado importante. Na

Grã-Bretanha a empreza seria impossivel. Do mar das Hebridas a canal da

Mancha, a luz da liberdade que fulgura no céu da Inglaterra é demasiado

intensa. A reacção ficaria deslumbrada passando além da penumbra do

continente. Mas a Grã-Bretanha, physicamente insulada, podia sê-lo

moralmente, se lhe destruissem as affinidades continentaes que ainda

conserva.

No Piemonte a reacção apresentou-se audaz, e a lucta foi renhida; mas a

firmeza moderada dos poderes constitucionaes tem bastado para a

reprimir. Não evitou a Belgica ser convertida em campo de batalha,

postoque o partido liberal alevantasse energicamente a luva que se lhe

atirava ás faces. A prudencia, porém, de um monarcha verdadeiramente

constitucional, grande pelos dotes da intelligencia, mas ainda maior

pela sabedoria que dá a longa experiencia, impediu até agora que o fogo,

nem sempre latente, se convertesse em assolador incendio.

Portugal não podia fugir á sorte commum. Ha annos que os annuncios da

procella assomavam nos horisontes; que nuvens fugitivas offuscavam os

ares. Não faltou quem o advertisse; mas a advertencia passou

despercebida. Debalde em publicações assás conhecidas se chamou a

attenção do paiz para certas tendencias que se manifestavam: debalde a

imprensa periodica mais de uma vez as assignalou tambem. Foi necessario

para o espirito publico despertar, que essas tendencias assustadoras se

convertessem em actos demasiado positivos e palpaveis, e que, com o

pretexto de se crearem os meios de dirigir melhor a educação publica, se

fizesse uma grave injustiça á moralidade e á intelligencia nacionaes,

introduzindo-se em Portugal mestras estrangeiras, pertencentes a uma

corporação do sexo feminino, que, conservando a sua organisação actual,

é incompativel com as leis e instituições do paiz.

Deste despertar da attenção publica nasceu esta Associação. Não foi o

pensamento de um ou de alguns homens que a creou. Foi uma idéa que

brotara ao mesmo tempo no commum dos espiritos; uma destas illuminações

subitas que o povo tem ás vezes na hora dos grandes perigos. O que se

chama de ordinario o instincto do povo não é senão um raciocinio; mas

raciocinio obvio, simples, claro, accessivel a todos os entendimentos, e

irresistivel para a consciencia de todos. A reacção ameaçava a

liberdade, não só no presente, mas tambem no futuro; dava um dos passos

mais importantes para a conquista, senão da sociedade que é, ao menos da

sociedade que ha de ser. E o partido liberal uniu-se e marchou ao

encontro do inimigo no terreno em que elle lhe apresentava o combate.

De certo que nem todas as pessoas envolvidas nesta deploravel

manifestação dos planos reaccionarios podem com justiça ser taxadas de

favorecerem de proposito deliberado os intentos da reacção. Não tendo

provavelmente estudado a historia dos progressos desta na Europa, dos

seus esforços e artificios, dos seus triumphos e dos seus desastres nos

ultimos trinta ou quarenta annos, deixaram-se embaír pela sua linguagem

devota, pelos seus ademanes modestos, pelo seu apparente zêlo da moral e

da ordem publica. Ignoravam quantas vezes ella tem soltado rugidos de

colera e de ameaça; quantas vezes se tem trahido a si propria, e

revelado o seu intimo pensamento: ignoravam como certos homens, cujo

caracter religioso e austero, e cuja moderação de opiniões politicas

estão acima de qualquer suspeita, tem julgado o partido cujas tendencias

esta Associação é destinada a combater, e que por toda a parte se

manifestam principalmente no desvelado affinco com que esse partido

procura apoderar-se dos animos feminis e de affeiçoar aos seus intuitos

as gerações novas. Cremos que eram nobres e puras as intenções das

pessoas sinceramente liberaes que, sem o saberem, sem o quererem,

ampararam com o seu nome, com a sua bolsa, e com a sua influencia o

pensamento da reacção, ou della se tornaram instrumentos. Mas nem a

respeitabilidade do seu caracter as tornaria infalliveis, ainda em

materias nas quaes fossem mais competentes, nem essa respeitabilidade

póde obrigar-nos a submetter-lhes o nosso alvedrio, a nossa

intelligencia e a livre manifestação das proprias convicções. O nosso

unico dever para com ellas é uma justiça indulgente; é não accusar as

suas intenções, que não o merecem, nem reputar irremissivel o seu erro.

A essas pessoas só pediriamos, quando certos resentimentos infundados

chegassem a acalmar, que reflectissem n'um phenomeno que tem diante dos

olhos; que, digamos assim, as rodeia por todos os lados, e que é de uma

significação indubitabel e immensa. Depois de terem reflectido,

pedir-lhes-hiamos sómente que seguissem, não o que lhes dictasse o peior

dos conselheiros, o amor proprio offendido, mas a voz intima de uma

honesta consciencia.

Existe em Portugal um partido numeroso, dirigido por homens

intelligentes, que ha vinte e cinco annos está organisado e

disciplinado; partido moralmente tão legitimo como o partido liberal,

mas que professa francamente o seu amor exclusivo ao passado, e cujos

escriptores, usando dos fóros de cidadãos de um paiz livre, affirmam ha

vinte e cinco annos perante Deus e o mundo o direito de o não serem, ou,

para melhor dizer, o direito de não se lhes tolerar que o sejam. Na

grande questão agita o paiz, e que nós cremos importar uma grave

manifestação do pensamento reaccionario, ninguem mais do que esse

partido tem mostrado zêlo ardente pela educação peregrina, e por tanto

lançado com mais violencia o stygma de incapacidade moral e intellectual

sobre as pessoas do sexo feminino nascidas nesta terra que possam

dedicar-se ao magisterio. No symbolo daquelle partido, uma adoração

supersticiosa da nacionalidade figurara entre os seus artigos

fundamentaes por vinte e cinco annos; e quando, não esta ou aquella

mulher, mas a mulher portuguesa, em geral, é vilipendiada, amaldicçoada,

condemnada na sua capacidade moral e intellectual de mãe (porque a

educadora é verdadeira mãe da infancia que lhe é confiada), esse partido

apaga aquelle artigo fundamental do velho symbolo, e saúda a invasão

estrangeira! E não a saúda só; declara-a a táboa de salvação das novas

gerações. Não acha que apoderarem-se de orphãos adoptados pela patria

seis mulheres e dous ou tres frades estrangeiros seja um facto

insignificante ou indifferente. É que os homens eminentes desse partido

tem estudado a historia. No seio delle não ha uma voz que se alevante

para protestar contra a suppressão da mais exaggerada sentença do seu

credo; não ha quem não marche alegremente ao combate. No meio das

profundas fileiras do lazarismo, ou do jesuitismo, ou do

ultramontanismo, ou como quizerem chamar-lhe, os vultos liberaes apenas

raramente se descortinam, perdidos entre a multidão dos combatentes que

detestam a liberdade. Sería o partido que sempre se mostrou tão leal,

tão francamente e, não duvidamos dizê-lo, tão nobremente reaccionario,

porque póde haver nobreza até no erro e no mal, seria esse partido assás

insensato para fazer sacrificios taes, se não estivesse empenhado nisso

o seu dogma supremo, a reacção? Valeria para elle a pena de se agitar,

colerico e impaciente, por causa de seis mulheres e dous frades, e de

combater com tanto azedume os que repellem essa importação estrangeira;

elles, os homens da nacionalidade exaggerada? Se tal facto não disser

nada aos transviados do campo liberal, então só nos resta deplorar a sua

irremediavel cegueira.

Ha tres seculos que tambem dous frades de um instituto novo, chamado a

Companhia de Jesus, entravam sósinhos em Portugal. Um delles abandonava

logo este paiz para atravessar o oceano e ir embrenhar-se entre as

gentilidades da Asia. Ficou o outro. Foi o que bastou para nucleo de uma

associação, que em breve dominou tudo. A mocidade é amiga de novidades.

Mancebos saídos do seio das mais nobres familias, outros nascidos entre

o povo e entre a burguesia correram a alistar-se no gremio nascente, ao

passo que os reforços estrangeiros chegavam pouco a pouco. Vinham,

dizia-se, moralisar o paiz e instrui-lo pela religião. Homens de estado

conspicuos, a universidade de Coimbra, a parte mais illustrada da

sociedade era-lhes adversa, e fazia sinistras predicções, que o tempo se

encarregou de justificar. O poder estava, porém, nas mãos do fanatismo,

da hypocrisia, e sobretudo da imbecilidade intellectual. A liberdade da

palavra, a liberdade do pensamento escripto, a liberdade de associação

não existiam. Ponderavam-se os fins tão uteis do sancto instituto, o bem

que tinha feito fóra do paiz, como por toda a parte o acolhiam. As

reluctancias, estereis porque sem nexo, esmoreceram e calaram-se. A

instituição estrangeira venceu, enraizou-se, dilatou-se e dominou. A

historia politica, social e litteraria do paiz durante duzentos annos

está ahi para responder aos que perguntarem quaes foram os resultados da

influencia incontrastada e incontrastavel dos jesuitas.

Este exemplo memoravel e de triste recordação domestica deve ser inutil

para nós? As apprehensões actuaes serão menos justificadas do que as dos

homens instruidos, sisudos e experientes do meiado do seculo XVI? Ha

quem diga que sim; ha quem pense que a historia serve só para pasto de

uma curiosidade van; quem supponha que as leis da humanidade não são

sempre as mesmas; que onde se derem causas identicas não se hão de

repetir os mesmos effeitos. Deploremos a intelligencia dos que assim

pensam. Dizem-nos que o espirito das congregações religiosas é diverso

do que foi; que ellas não exercerão a perniciosa influencia que

exerceram n'outras epochas, ao passo que podem ser grandemente uteis á

illustração e á moralidade. Affirmam-nos que é preciso retemperar os

antigos instrumentos de religiosidade para os oppor á irreligião do

indifferentismo que invadiu as sociedades, e para fortificar o elemento

christão, unico que póde combater com vantagem os delirios das novas

escholas que poem em questão a propriedade e a familia, principios

vitaes da existencia civil. A educação, dizem-nos, está fóra da esphera

dos partidos: educae e instrui só por educar e instruir, e não cureis de

saber qual será o destino politico das novas gerações. Ensinae-lhes os

elementos da instrucção geral, a religião e a moral, de modo que depois

se adaptem a todas as fórmas de governo, a todas as situações da

sociedade.

Diz-se isto, escreve-se, proclama-se. Os que assim falam são os

reaccionarios occultos, os transfugas do campo liberal, e tambem

aquelles que devemos considerar como suas victimas, os que se deixam

illudir pelos sophismas desses homens de trevas, que, não tendo a nobre

ousadia de declarar lealmente que abandonaram os seus estandartes,

calumniam a liberdade para a trahirem sem trahirem os proprios intuitos,

e sem sacrificarem os proventos que lhes resultam da sua supposta

permanencia na fileiras em que andavam alistados. Comparada com a

linguagem destes, a dos reaccionarios puros é nobre, porque é franca e

sincera. O mal, na sua opinião, não consiste nas aberrações do

liberalismo; consiste no proprio liberalismo. As doutrinas liberaes

conduzem logicamente, forçadamente, os povos aos desvarios anarchicos, á

negação absoluta da ordem social. É precioso restaurar o passado nas

fórmas mais absolutas, nas maximas extremas da igreja e do estado;

expungir todos os axiomas, todas as idéas de progresso civil e politico

dos ultimos dez ou doze lustros, todas as instituições d'ahi derivadas.

Os progressos materiaes deste seculo são acceitaveis: nada mais. O molde

social novo cumpre quebrá-lo, repondo as sociedades no antigo, unico em

que podem salvar-se.

Entre este partido e o nosso está dicto tudo. Somos radicalmente

adversarios. Podemos combater sem mutuamente nos desprezarmos; podemos

ser mais ou menos violentos na lucta, sem que, em regra, em principio,

nos accusemos de deslealdade. Não é esse partido, que nos obriga a

defender esta Associação, e a expôr na imprensa os motivos da sua

existencia, a sua indole, o pensamento que dirige todos os seus actos.

As accusações d'alli vindas serão o seu melhor titulo para grangeiar a

confiança do partido sinceramente liberal; porque os dous campos estão

estremados e circumscriptos. O que importa é precaver-nos contra o mal

que lavra nos proprios arraiaes; contra os inimigos que nos querem

introduzir nelles como alliados. O fim dos nossos esforços deve ser

repellir doutrinas que se vão pedir emprestadas ás theorias dos

adversarios para se nos darem como idéas progressivas; deve ser repellir

taes doutrinas principalmente nas suas applicações practicas.

Dizem-nos que estamos n'uma épocha de progresso, e não podemos

retrogradar; que a publicidade, a discussão, a liberdade bastam para

preservar a sociedade das aggressões da reacção. São phrases oucas, sem

valor, nem alcance na questão que deu origem a esta Associação, porque

não determinam nenhum facto especial. De certo que o genero humano

progride no seculo presente; porque o progresso é uma condição

impreterivel da sua existencia: progride neste seculo, como progrediu em

todos desde as mais remotas eras. Nem os tempos tormentosos das invasões

dos barbaros deixaram de ser uma épocha de progresso. Demonstra-o a

historia. Mas tem esse grande facto de genero-humano impedido que, n'um

ou n'outro paiz, domine a tyrannia depois da liberdade; que os fóros do

homem tenham sido desprezados; que as nações tenham sido individualmente

opprimidas, desmoralisadas, barbarisadas, dissolvidas, anniquiladas como

entidades politicas? Concluir do progresso constante da civilisação

geral que um povo não póde retrogradar, e que portanto não deve

premunir-se contra a reacção que o aggride, é aconselhar ao homem que se

não previna contra as causas ordinarias da morte, porque a raça humana

tem por condição a perpetuidade.

A liberdade do pensamento, a discussão, a publicidade, as garantias, em

summa, de um paiz livre bastam á defesa da sociedade. Mas então porque

se acha extranho que pensemos livremente, que discutamos, que nos

associemos, que usemos, dentro da estricta legalidade, d'esses meios que

as instituições facultam aos cidadãos, para affastarmos um perigo que

cremos sério e imminente? Porque a injuria, a colera, a calumnia?

Dir-se-hia, ao ver os sanctos furores que se alevatam em regiões mais

que suspeitas, que os nossos temores não são tão infundados, as nossas

prevenções tão inuteis como se affirma, e que o perigo é verdadeiro e

real.

A reacção não póde vencer-nos: cruzemos os braços! Como se julgaria o

homem, que n'uma praça sitiada, mas defendida por centenares de canhões

e por uma guarnição numerosa e aguerrida, clamasse aos soldados no

momento do ataque:--«Não assesteis a artilheria: não marcheis para as

muralhas; confiae na efficacia dos nossos recursos; cruzae os braços,

porque a praça é inexpugnavel.»--Este homem não chegaria a ser reputado

traidor: te-lo-hiam apenas por mentecapto.

Dizem-nos que a aggressão não existe; que a importação de um instituto

estrangeiro, repugnante pela sua indole, pela sua regra, ás instituições

do paiz, não é um symptoma, e mais do que um symptoma, um acto de

reacção organisada. Examinemos esse facto em si: procuremos a sua causa.

Uma calamidade publica determinou subitamente na capital do reino a

existencia de um grande numero de orphãos, que foram perfilhados pela

compaixão publica. Sem aquella calamidade, esses individuos teriam

recebido a educação no seio das suas familias, ou nos estabalecimentos

de educação já existentes, e a sociedade não teria visto n'isso um

grande mal. Eram os estabelecimentos publicos e privados, já instituidos

no reino, e destinados á educação da infancia e da puericia,

radicalmente incapazes de preencher o seu fim? Onde estão as provas?

Cumpria crear um estabelecimento de educação diversamente organisado? Se

assim era, as pessoas que tinham dirigido, mantido, protegido parte dos

já existentes, o parlamento e o governo que mantinham e dirigiam outra

parte, todos se haviam enganado, ou enganavam o paiz. Em perto de um

milhão de mulheres portuguesas, não havia cinco ou seis que se podessem

encarregar da sancta e nobre missão de serem as mães adoptivas dos

orphãos tutelados pela commiseração publica? A sciencia da educação

inspira-a Deus por metade ao coração da mulher, porque o destino

providencial desta é a maternidade: a outra metade dão-lh'a as tradições

domesticas, as recordações dos primeiros annos, o ensino dos livros e

dos mestres e a observação da sociedade. Tinha-se Deus esquecido de nós?

A mulher portuguesa ignorava, porventura, esses delicados affectos, essa

arte instinctiva, com que o espirito feminil attrahe para o bem a

infancia desprevenida, e lhe suavisa as asperezas inevitaveis do

primeiro ensino? Dir-se-hia, acaso, que o typo da mulher mãe e mestra

não existia em Portugal, ou existia em regiões tão elevadas, e por

excepção tão singular, que descobrir no paiz quem podesse desempenhar as

graves funcções de educadora seria um problema insoluvel? Se assim

fosse, a familia não existiria entre nós senão por excepção, porque, a

primeira e impreterivel qualidade da mãe de familia é possuir o

instincto e os dotes de educadora. Onde se não dá essa condição, a

familia não passa de uma juxta-posição de pessoas. Acreditar que esta

fosse a nossa situação; que poderia ser a situação de alguma povo, seria

presuppor um absurdo. Não se partiu, de certo, de semelhante hypothese

para a introducção em Portugal das irmãs de caridade francesas. E se

assim foi, digam-nos que meios empregaram para verificar a existencia de

tão monstruoso facto?

Foi essa introducção apenas um capricho, uma puerilidade? Capricho,

leveza pueril, poderia ter-se reputado, se a indignação, manifestada

desde logo pelo sentimento nacional ferido, houvera ensinado a

prudencia. Mas o sentimento publico só despertou coleras indiscretas e

declamações apaixonadas. Isto prova que o facto não nascera de

irreflexão; que fora calculado, discutido, apreciado, nos seus motivos e

nas suas consequencias. Buscava-se o bem ou o mal; mas buscava-se alguma

cousa importante. Podiam as pessoas que figuravam naquelle empenho não

medir o seu alcance; mas atraz dellas estava decerto quem o medisse, e

que talvez guardasse para si previsões e esperanças que não lhes

revelava.

Nasceria o facto do desejo de dar a conhecer ao paiz systemas e methodos

mais perfeitos de educação physica e intellectual? Cremos que se devem

estudar os systemas de educação estrangeira, e adoptar aquillo que

nelles for verdadeiramente util e applicavel a Portugal. Mas para isto

não bastam nem servem algumas irmãs de caridade francesas collocadas á

frente de um asylo-eschola. Suppondo que a França fosse o paiz classico

da pedagogia, o que é mais que duvidoso[5], seria das escholas normaes

de metras que alumnas nossas poderiam trazer a Portugal os

aperfeiçoamentos de que carecessemos, ou alumnas dessas escholas vir

introduzi-los, não n'um asylo-eschola, mas n'uma eschola normal.

A lei francesa de 15 de março de 1850, promulgada no meio do terror do

socialismo, lei organica do artigo constitucional que proclamava a

liberdade do ensino, permittiu ás congregações religiosas o magisterio

sem a habilitação das escholas publicas. Queria-se oppôr o ensino

clerical ao do professorado secular, que, na escala inferior, tendia,

conforme se affirmava, para as idéas socialistas.

O titulo de capacidade das irmãs de caridade francesas para o magisterio

está nas prescripções dessa lei de reacção fundada no medo, prescripções

que, aliás, qualificam do mesmo modo os individuos de ambos os sexos

pertencentes a quaesquer outras cengregações religiosas. Especialmente,

as irmãs de caridade não tem habilitação alguma official como

educadoras: tem apenas as provisões geraes da sua regra; mas nem essa

regra indica systema algum de ensino, nem temos meio nenhum de verificar

a bondade dos que seguem, se alguns seguem, a não ser a auctoridade da

congregação lazarista, e as vagas affirmativas dos partidarios da

educação clerical.

Que se póde esperar das congregações religiosas como instrumentos da

educação? A circular do ministro de instrucção publica em França, de 19

de agosto de 1850, diz:--«Pelo que respeita á creação de mestras, as

escholas normaes e os cursos normaes que existem tem feito serviços

assás positivos para não se poder duvidar de que os recursos para manter

essas escholas sejam facilmente votados»--e o commentador da lei de 15

de março. Rendu, accrescenta:--«A utilidade destas escholas normaes é

tanto mais apreciada quanto é certo que em quasi todos os departamentos

ha falta de mestras, falta provada pela experiencia diaria.»--O governo,

portanto, que procurou entregar quanto fosse possivel a educação ao

clero, appella especialmente para os antigos institutos seculares, e põe

nelles a sua esperança de poder subministrar á França mestras habeis, ao

passo que um dos homens mais competentes na materia nos revela que ellas

faltam em quasi todos os districtos administrativos do imperio. Mas que

fazem essas vinte ou trinta congregações a quem se tiram todas as

restricções no ensino, e que devem salvar as gerações futuras da impia

educação secular? A regra de S. Vicente de Paulo não excluiu o

patriotismo. Enviando a este paiz inhospito e barbaro seis irmãs de

caridade habilitadas para educadoras, o geral dos lazaristas privou a

França dos seus serviços e trahiu o próprio dever, senão para com Deus,

de certo para com a patria.

O que, porém, na realídade a circular do ministro e as palavras de Mr.

Rendu provam é que o progresso da educação em intensidade e em extensão

não ha de nem póde vir de se entregar o magisterio ás corporações

religiosas, cuja impotencia no meio da liberdade de ensino que se lhes

concedeu, sem garantias sequer para a sociedade, os factos estão

demonstrando. Póde e ha de vir de institutos seculares liberal e

fortemente organisados. A civilisação gradual e crescente das sociedades

pela educação popular é uma das primeiras questões de governo, e não uma

intriga de sacristia. Se ha paizes onde as paixões politicas a

reduzissem a essas dimensões, deploremos os seus destinos, mas

abstenhamo-nos de os imitar.

Assim, considerada pelo lado pedagogico, a introducção das irmãs de

caridade francesas não correspondeu a nenhuma idéa de progresso; não

satisfez a nenhuma necessidade da educação popular. Fugir-se-ha desta

questão suprema para a de simples caridade? Dir-se-ha que o

estabelecimento que serviu de pretexto á introducção desses frades e

dessas mulheres não é propriamente um instituto de ensino, mas de

beneficencia? Todos os absurdos se podem dizer quando se defende uma

ruim causa, mas, em tal caso, porque excluir a mulher portuguesa? Porque

reputá-la incapaz de carinho, de aceio, de religião, de moralidade? É

licito, porém, admittir-se que o asylo entregue ao lazarismo seja apenas

um abrigo para a indigencia material? As casas de asylo são

essencialmente instítutos de educação. O mais superficial exame da sua

indole o está provando. Se os homens da reacção ignoram até isso,

citar-lhes-hemos uma auctoridade insuspeita para elles, a do actual

governo francês. O decreto do imperador Napoleão de 21 de março de 1855

diz:--«As casas de asylo, quer publicas, quer livres, são institutos de

educação»,--e a circular de Mr. de Fortoul de 18 de maio do mesmo anno

declara-as--«casas de educação primeiro que tudo.»--De certo não seriam

nem o senso commum, nem a opinião que prevalece em França que

auctorisariam os fautores de educação lazarista a considerar o asylo

confiado ás irmãs de caridade como simples instituto de beneficencia.

Se accusar as mulheres de um paiz em peso de falta de capacidade natural

para a educação da infancia equivale a negar a possibilidade da

existencia da familia, e portanto da sociedade, proposição de tal modo

absurda que por si propria se refuta; se manifestações inequivocas nos

provam que a introducção das irmãs de caridade francesas não foi um acto

de capricho ou de inconsideração; se nem as doutrinas nem os factos

relativos a tão grave assumpto legitimam aquella importação estrangeira

no interesse do progresso do ensino, que resta para a explicar senão um

pensamento de reacção social, pensamento que se tem, em assumptos

analogos, manifestado na Belgica e no Piemonte, e que triumpha por

outras partes?

Mas o que quer esta reacção? Para onde caminha? Até onde vai? É o

sentimento christão que se pretende avivar, restaurando por elle a moral

positiva e practica? É a fé amortecida no animo das multidões, que por

um impulso sublime de caridade se lhes quer restituir em toda a sua

benefica energia, com guia, consolação e esperança, no meio das miserias

da vida? Não é nada d'isso. Se o fosse, esta Associação, justamente

porque é composta de liberaes sinceros, de homens de ordem, de justiça e

de paz, seria tambem reaccionaria. A reacção é o catholicismo posto ao

serviço dos interesses mundanos; é uma parte importante do clero que se

deixa assoldadar pelo absolutismo com a esperança de que fazendo

retroceder os povos até o estado social que precedeu a liberdade, poderá

um dia recuar ainda mais longe e restabelecer a supremacia clerical

sobre o poder civil. É, por outro lado, o absolutismo, que, servindo-se

dessa parte do clero, e da poderosa arma da religião, procura restaurar

o proprio predominio, persuadido de que, depois de obtido o triumpho,

conterá o seu perigoso alliado pelos mesmos meios que outr'ora empregou

para o domar, a resistencia energica ás suas pretenções, e a

participação generosa nos proventos dos abusos, violencias, espoliações

e vexames com que por seculos flagellou a humanidade. A reacção é o

abraço refalsado de dous poderes que se hostilisaram, que se

perseguiram, que alternadamente se esmagaram muitas vezes durante

seculos, e cuja paz nos ultimos tempos era apenas uma tregua que

tacitamente ajustara a corrupção. O direito divino da monarchia absoluta

e a supremacia do chefe da igreja sobre os monarchas são duas idéas que

repugnam entre si; que ainda hoje mutuamente se condemnam na região das

theorias, como durante sete seculos os seus representantes se tinham

amaldicçoado, injuriado, despedaçado mutuamente, em nome de dous

principios contradictorios, que se diziam ambos emanados do céu. O

absolutismo e o ultramontanismo, dando um abraço fraterno dimittiram a

historia. A desgraça aconselhava-lhes a união. Guardaram para tempos

mais prosperos os odios mutuos, filhos de mutuos aggravos, e no vacuo

que lhes deixava nos corações aquelle antigo sentimento ficou mais á

larga o rancor contra a liberdade. Na lucta gigante que emprehenderam,

para fazer retroceder a torrente impetuosa das gerações e das idéas,

empregam a arte e a dissimulação onde lhes falta a força; a força onde a

arte e a dissimulação se escusam. Onde e quando cumpre, o absolutismo

prostitue e compromette a monarchia em serviço do recente alliado; o

ultramontanismo prostitue e compromette a religião em vantagem do seu

implacavel adversario de outr'ora. Os defensores do throno absoluto

somem cuidadosamente debaixo dos degraus delle os processos, as

sentenças, as providencias, as leis, com que, unanimes, os tribunaes

catholicos e os soberanos da Europa fulminaram e anniquilaram a

sociedade dos jesuitas, como um gremio de homens corruptos e criminosos:

o jesuitismo esconde nos recéssos mais escusos das casas-professas as

vastas bibliothecas da litteratura do regicidio, os volumes

pulverulentos de Bellarmino, de Suares, d'Escobar, de Molina, de

Juvenci, de Busenbáum, de Lacroix, de Mazotta, e dos outros escriptores,

dos bons tempos da companhia de Jesus. A sancta alliança póde não ser

duradoura, porque as reservas casuisticas estão atraz della; mas é

intima e forte. Abonam-na os custosos sacrificios feitos pelos dous

alliados sobre o altar da concordia.

Um homem de estado dos maiores da Europa, o maior talvez do seu paiz,

cujos destinos dirigiu largos annos, tão probo e moderado como

escriptor, quanto o foi na vida publica, descreveu com rapidos traços,

n'um livro recentissimo, o caracter da reacção clerical e absolutista a

que impiamente foi sacrificado o sentimento religioso que renascia em

França. «O mal que ainda dura--diz Mr. Guizot-–apesar de tantas

procellas e de tanta luz vertida, é a guerra declarada por uma porção

consideravel da igreja catholica de França á sociedade francesa actual,

aos seus principios, à sua organisação plitica e civil, ás suas origens

e às suas vocações... Em nenhum tempo houve guerra de tal natureza mais

desarrazoada e inopportuna... O movimento que reconduzia a França para o

christianismo era sincero e mais grave do que parecia... Entregue a si,

e sustentado pela influencia de um clero que só se preoccupasse de

renovar a fé e a vida christã, aquelle movimento teria grandes

probabilidades de se propagar, e de restituir á religião o seu legitimo

imperio. Mas, em vez de se conservarem nesta alta esphera, muitos

membros do clero catholico e seus cegos partidarios desceram a questões

mundanas, e mostraram-se mais ardentes em repôr no antigo molde a

sociedade francesa, com o intuito de restituir á igreja a anterior

situação, do que em reformar e dirigir moralmente os espiritos[6].»

Esta sentença fulminada por uma altissima intelligencia, por um nobre

caracter, collocado por muitos annos n'uma posição sem igual para

ajuizar com segurança das tendencias e fins de todas as parcialidades do

seu paiz; esta affirmativa tremenda de um homem de bem assentado na

borda do tumulo, é tão verdadeira, como triste para nós os que, sem

intenções reservadas, amamos o catholicismo, como crença de nossos paes,

como religião unica na constancia e unidade de doutrina, e cujos dogmas,

precisos, indubitaveis, completos, se tem conservado immutaveis por mais

de dezoito seculos, desde os tempos apostolicos até agora, no meio das

heresias, das variações, das superstições, nascidas hoje para se

desmentirem, se alterarem ou desapparecerem ámanhã. O facto descripto

pelo grande historiador da civilisação repete-se em Portugal.

Perverteram-se aqui como lá as tendencias christãs, que se manifestaram

depois dos graves acontecimentos de 1833, para se ir tentando

gradualmente a restauração de certas formulas sociaes e politicas, de

certos abusos escandalosos condemnados e destruidos irrevogavelmente.

Faz-se guerra á sociedade portuguesa actual, aos seus principios, á sua

organisação politica e civil, ás suas origens e ás suas vocações. Faz-se

intervir a religião em questões mundanas, e pensa-se mais em repôr no

antigo molde a sociedade portuguesa do que em reformar e dirigir

moralmente os espiritos.

A corrupção de uma parte preponderante do clero, a sua participação nas

rapinas, nas violencias, nas extorsões fiscaes dos antigos tempos, a sua

devassidão, o seu luxo, e por fim os seus esforços insensatos a favor do

absolutismo, levados até a cooperação armada, fizeram com que elle se

achasse debaixo das ruinas do edificio que a liberdade desmoronou no dia

assignalado pela justiça de Deus. O partido liberal não desejava

encontrar lá o clero; mas tambem não perguntou quem tinha ido abrigar a

cabeça debaixo do tecto maldicto. Confundem facilmente os espiritos

vulgares a idéa com a manifestação, a doutrina com o homem. O povo

confundiu até certo ponto o altar com o ministro, e confundiu-o,

justamente, porque por muitos annos a porção corrupta do clero fizera

escudo do altar. O sentimento religioso esmorecera. A mocidade

intelligente ousou então pedir paz para o innocente, perdão para o

culpado, respeito para a cruz. Uma parte dos vencedores riram-se, e

todavia a supplica era justa. Suspeitosos de nós, os vencidos sorriram

tambem; e todavia a supplica era sincera. Ouviu-a Deus. No fim de tempos

o sentimento christão dominava no liberalismo. A litteratura de quinze

annos, e a imprensa periodica desta épocha ahi estão para responder por

nós quando o futuro tiver de julgar a reacção e a liberdade. Os

espiritos mais nobres e mais illustrados do partido do progresso social

comprehendiam, emfim, uma verdade simples, que as paixões haviam

offuscado; comprehendiam que o christianismo e a liberdade eram a

prolação do evangelho; eram dous irmãos que os maus tinham inimizado, e

que cumpria reconciliar. De todas as obras do pregresso, a mais grave, a

mais fecunda, a mais civilisadora era esta. Mas, incorrigivel aqui, como

em França, como por toda a parte, o velho partido da corrupção na

igreja, que fizera já uma vez paz com o absolutismo, porque o

absolutismo tinha ouro, tinha grandezas, tinha esplendores para o

saciar, apertou mais energicamente os laços que o ligavam a elle.

Aterrava-o a idéa de que a religião podesse erguer-se pura e illesa do

seio das revoluções sociaes. Rendia pouco uma religião assim. Correi as

publicações chamadas religiosas feitas n'este paiz ha vinte cinco annos;

vereis que as suas tendencias, as suas manifestações de sympathia são,

talvez sem excepção, para o ultramontanismo, isto é, para o despotismo

na igreja, e para a monarchia de direito divino, isto é, para o

despotismo na sociedade. Excluem-se os dous principios em theoria;

excluiram-se por seculos nos factos: mas que importa isso aos grandes

incredulos chamados os defensores da religião? Se gosarem dous dias

n'este mundo, que lhes importam os males futuros dos povos? Que lhes

importa que d'aqui a cem annos a thiara role no lodo aos pés do throno

dos reis, ou que as coroas se revolvam no pó aos pés do solio

pontifical?

D'ahi veio a guerra implacavel e tenaz feita á liberdade. Onde esta se

debilitou pelo excesso temporario de vida, até degenerar em licença e em

ameaça á sociedade, a reacção, que fora até então vencida, venceu a

final. E tão completamente venceu, que já nos horisontes apparecem, como

consequencias inevitaveis dessa victoria, os primeiros signaes da lucta

entre o sacerdocio e o imperio, ou antes entre os dous despotismos, que,

por força da propria indole, são obrigados a aggredir-se desde que se

equilibram. Nos paizes onde a liberdade é forte, porque é moderada, como

na Belgica, no Piemonte e em Portugal, o definitivo triumpho será mais

difficil para os reaccionarios, se o partido liberal, sejam quaes forem

as suas dissensões intestinas, não cahir nas exaggerações politicas, e

se conservar unido em frente da reacção.

Por muito tempo foi esta apreciada mal entre nós, porque as suas

manifestações eram desconnexas, intermittentes. Appareceram,

desappareceram, renovaram-se certas confrarias e associações do sexo

feminino, nas quaes um singular perfume de mysticismo se accommoda aos

habitos e costumes luxuarios que dá a opulencia. A devoção é ahi

diversão de certas classes, a quem o berço e a fortuna habilitaram para

se esquivarem á dura comminação do trabalho imposta no Génesis.

Publicações devotas e quasi romanticas, traduzidas do francês, e onde

nem, sempre a pureza severa da crença catholica é respeitada, feitas com

a elegancia typographica dos prelos franceses vieram expulsar do mercado

aristocratico o antigo livro de resas português, grosseiro na fórma,

rude no aspecto, singelo na phrase. A reacção civilisa-se. Alguns dos

verdadeiros amigos do altar e do throno, que, refugiados em Paris,

vertiam ou architectavam, em lingua proximamente portuguesa, essas

maravilhas do mysticismo francês, já foram recompensados por prelados

nossos dos seus serviços á boa causa politica e á boa causa religiosa.

Aquelles varões apostolicos não recusaram o amplexo fraterno á igreja

lusitana arrependida. Esperemos que os mais colericos e pertinazes não

continuem a negar ao arrependimento o osculo de paz. O povo não esqueceu

á reacção: a caridade desta estende-se a todos e a tudo. Trovejando

contra a sociedade moderna, missionarios analphabetos sobem aos pulpitos

dos povoados e dos campos, e ora se occultam, ora resurgem como fogos

fatuos. Os milagres tinham militado no campo da reacção em França, na

Allemanha, e na Italia: não podiamos por isso dispensá-los. Os milagres,

porém, entre nós foram de máu gosto: os fabricantes eram inexpertos, e a

impiedade da sciencia inutilisou a obra[7]. Reconheceu-se que eram

soldados de pouco prestimo. Mas a agencia da associação francesa da

propagação da fé fazia alistamento de tropas mais solidas; e se

inferirmos da verba total da contribuição paga por Portugal áquelle

instituto, attendendo á exiguidade da quota, não se podem calcular os

seus adeptos neste paiz em menos de quatorze ou quinze mil

individuos[8]. O nexo apparente que une esta vasta associação é a

contribuição para as missões francesas e a leitura dos _Annaes da

Propagação da Fé_, tecido de embustes, já desmascarado por um

missionario, o padre Gabet, e por outros escriptores. Os _Annaes_,

especie de Carlos-Magno da reacção, servem para manter com patranhas a

confiança dos adeptos na influencia da associação, na grandeza dos seus

recursos, e no zêlo dos seus missionarios, mas ainda mais lhe devem

servir para calcular as forças de que póde dispor em cada paiz, e para

manter sem custo por toda a parte uma jerarchia de agentes, cujos

serviços utilize nas occasiões opportunas, como, por exemplo, em

grangeiar assignaturas a favor de alguma tentativa reaccionaria.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 02 · 第 18 / 21 题