Estes meios, sem exceptuar os proprios milagres, e além delles outros,

taes como os trabalhos occultos da sociedade cujos gremios se denominam

_capellas_, especie de maçonaria ao divino, de ha muito organisada, ou

como as invectivas diarias de certa parte da imprensa ignobil e da

imprensa politica, dirigidas contra as instituições liberaes, e ainda

alguns desabafos, mais ou menos violentos, na imprensa litteraria, a

proposito deste seculo ferreo, que não desconjuncta no potro, não

pendura no patibulo, não esquarteja nem queima ninguem pelos erros ou

acertos da sua intelligencia; tudo isso eram e são manifestações da

reacção que vai lavrando; mas o partido liberal podia e devia

tolerá-las, embora nem sempre fossem alheias á sancção do codigo penal.

Era ao governo que pertencia submetter esses factos á apreciação dos

tribunaes; e todavia, não queremos invectivá-lo pelo seus desleixo ou

indolencia nesta parte. Se ha alguma circumstancia em que aos

magistrados se deva perdoar a frouxidão no cumprimento de leis, ás vezes

demasiado severas, é quando a applicação dessas leis póde comprometter

aos olhos da consciencia publica a doutrina evangelica e liberal da

tolerancia. Mas ao lado destas diversas manifestações ostensivamente

desconnexas, e mais ou menos particulares, appareceram outras de maior

gravidade, porque mostravam que o mal havia invadido tambem as regiões

officiaes. Uma das primeiras em data e em ponderação foi o convenio de

21 de outubro de 1848, monumento de subserviencia, onde o

plenipotenciario português tolerava que o ministro do governo papal

escrevesse a insolente qualificação de _odiosa_ em relação a uma lei

vigente do reino; onde se pactuava um compromisso vergonhoso ácerca do

arcebispo de Goa, que se houvera com valor repellindo as doutrinas

subversivas e as espoliações brutaes dos agentes da Propaganda na sua

provincia do oriente; onde a curia ousava fixar, não só congruas a

membros da jerarchia ecclesiastica da igreja portuguesa, mas, até, a

remuneração de simples funccionarios; onde se estatuia a manutenção de

corporações religiosas e a faculdade de novas profissões, em

contraposição ás leis do reino; onde, finalmente, se consentia que o

nuncio chamasse _escandalo_ a annunciar-se a venda dos bens nacionaes,

que tinham pertencido ás corporações de mão morta, acceitando-se a

validade das doutrinas ultramontanas a tal respeito, e conculcando-se a

auctoridade legitima do poder civil. Neste acto, porém, a reacção não

medira bem a extensão dos seus recursos. O governo viu-se constrangido a

enganar o parlamento, escondendo-lhe as condições mais repugnantes desta

deploravel negociação[9].

Entretanto a curia romana e com ella o partido reaccionario tinham dado

um grande passo; tinham feito amaldicçoar os principios que haviam

presidido á grande revolução social de 1834, por um governo cuja

legitimidade moral e, portanto, cuja força derivavam justamente do

predominio desses principios. Seguir com prudencia a victoria é de

general habil. O arcebispo de Goa foi compellido a condemnar perante o

papa tudo quanto dissera e fizera na India em defesa dos seus

irrefragaveis direitos metropoliticos, comprando por esse preço a

coadjutoria e futura successão da mitra de Braga. Estatuira-se que se

creasse uma delegação da nunciatura em todas as camaras ecclesiasticas,

e esta novidade realisou-se, ao menos em parte. Os proventos moraes da

bulla da cruzada, das dispensas de Roma, e de outras concessões

igualmente importantes cahiram como chuva benefica sobre o solo arido de

Portugal. Os proventos materiaes, esses cahiram cá e em Roma, mas com a

devida selecção de favorecidos. O ultramontanismo ganhara muito, e as

cousas ficavam encaminhadas para novos triumphos; mas era preciso contar

com um elemento indispensavel, o tempo. Era preciso deixar funccionar o

mysticismo francês, as confrarias romantico-religiosas, a imprensa

temente a Deus, os milagres, os padres emigrados, a associação da

propagação da fé: era preciso augmentar o producto bruto da bulla da

cruzada, e o producto liquido das sanações e dispensas; a reacção bem

sabia para que[10]. Era preciso, sobretudo, ir viciando, gangrenando

systematicamente o partido liberal, adquirindo nelle patronos e agentes

occultos, illudindo os bons e inexpertos com as esperanças da

restauração da moralidade, e comprando os ambiciosos, que estavam nesta

campo só porque não estavam no outro, com o prospecto de uma victoria

definitiva, que, restabelecendo os vexames e espoliações do povo, e as

sinecuras e esplendores que a revolução de 1833 tinha destruido, podesse

amplamente satísfazer tanto as grandes como as pequenas cubiças. Quando

todo este conjuncto de elementos deleterios tivesse produzido

sufficiente effeito, então poder-se-hia arrojar a mascara, e não se

passar, como em 1849, pela humilhação de calar diante do parlamento as

vantagens adquiridas.

Uma tentativa que por muito tempo ficou occulta, apesar do seu bom

resultado, deu á reacção, tempo depois, a medida dos progressos que

havia feito nas regiões officiaes. A audacia dessa tentativa, pura e

exclusivamente ultramontana, está indicando que era uma experiencia.

Acertando o golpe, a reacção clerical tirava d'ahi duas vantagens; obter

uma nova victoria, e obtê-la no mesmo terreno onde sempre fora repellida

pelo seu recente alliado, o absolutismo, quando o absolutismo era o

poder civil. Ficava assim este advertido de que no dia do commum

triumpho, se tal dia tivesse de raiar, lhe cumpria ser mais docil para

com as pretensões do ultramontranismo. Achava-se vaga a diocese de

Aveiro, não existia alli cabido, a nomeiação do vigario capitular

devolvia-se, por isso, ao metropolitano, o arcebispo de Braga. Appareceu

então uma bulla pontificia auctorisando o metropolita _como delegado da

sé apostolica_ para fazer aquella nomeiação. Uma tal bulla, que

constituia um attentado contra o direito canonico recebido no reino, que

offendia por mais de um modo as liberdades da igreja portuguesa, que

vilipendiava a primeira, a mais illustre metropole do reino, apresentada

ao governo na epocha do absolutismo, teria dado em resultado a saída do

nuncio de Lisboa dentro de quarenta e oito horas; no governo liberal

teve a confirmação regia, o _placet_. _Placet_ a derogação virtual do

direito ecclesiastico; _placet_ a quebra dos fóros da igreja portuguesa;

_placet_ a affronta do soberano protector e defensor dessa igreja;

_placet_ a confissão de que Roma triumphou emfim n'uma lucta de sete

seculos. Politicamente, o governo que sanccionou semelhante escandalo,

era responsavel por elle; moralmente não. Não ha responsabilidade desta

especie onde não existe a faculdade de apreciação.

Coincidindo com este facto, facto gravissimo, não tanto pelo seu objecto

como pela sua significação, caminhava-se nas trevas para se realisar

outro de igual significação, mas cuja importancia material era sem

comparação maior. Falamos da concordata sobre o nosso padroado do

Oriente. É um facto assás recente e assás estrondoso para estar na

memoria de todos. Na imprensa e no parlamento fez-se conhecer de modo

innegavel a monstruosidade dessa convenção desastrosa. Nunca o

ultramontanismo havia obtido mais decisivas vantagens. Repetir aqui as

ponderações que opportunamente se fizeram a este respeito fora escusado.

O que importa agora é notar com certa individuação o que nas discussões

que então se alevantaram e que induziram a camara dos deputados a

inutilisar a concordata, rejeitando algumas das suas provisões mais

escandalosas, não se fez sentir senão accidentalmente, isto é, a

influencia que tinha na politica geral da Europa aquella nova e mais

audaz tentativa da reacção ultramontana. O pensamento da concordata

reduzia-se, na sua expressão mais simples, a deixar subsistir na

incerteza o exercicio do nosso direito de padroado nas igrejas

catholicas da India, e a privar-nos desse direito nas regiões

transgangeticas, especialmente na China. Na India, as luctas do clero

português com o clero ultramontano perturbavam a paz publica no

territorio inglês, e as decisões dos tribunaes ingleses, quando questões

dessa ordem eram levadas perante elles, decididas sempre a nosso favor e

conforme a justiça, não podiam obstar á repetição das desordens, que a

associação da propagação da fé de Paris e Lyão e a Propaganda de Roma

indirectamente alimentavam e alimentam com toda a especie de auxilios

que enviam aos seus agentes naquellas partes. Na India, a conservação do

_statu quo_ era uma vantagem para a reacção, porque as turbulencias que

suscita a contenda tem tres resultados importantes: disfructar o partido

ultramontano, por pouco ou por muito tempo, os bens e rendimentos de

igrejas numerosas e em grande parte opulentas, incommodar uma nação

liberal e catholica no exercicio de um direito que com justiça se lhe

não póde disputar, e manter mais um elemento de desordem nos estados

indicos da Grã-Bretanha liberal e protestante. Na China, a questão

revestia-se de outras circumstancias, e tomava diversa fórma. Ahi era

necessario destruir a influencia moral dos nossos bispos e missionarios;

influencia antiga, radicada e até acceita na propria côrte de Pekin,

onde mais de uma vez esses bispos e missionarios tinham sido revestidos

de cargos importantes na jerarchia dos funccionarios civis. A nossa

influencia na China não podia de certo ser util ao anglicanismo; mas

era-o sem duvida aos interesses materiaes da Inglaterra. Nação pequena e

por consequencia inhabilitada para disputar preponderancia e

preferencias politicas naquella vasta e populosa região, que se acaba de

abrir ao commercio e ás combinações diplomaticas dos estados da Europa,

não podia a influencia moral que alli houvessemos de exercer por meio da

religião ser adversa aos intuitos commerciaes e politicos da Inglaterra.

A alliança sincera de Portugal com a patria de Nelson e de Wellington é

indestructivel, porque procede, não só das tradições historicas e da

analogia de instituições politicas, mas tambem da força das

circumstancias actuaes. A origem dessa intima alliança tem a data

escripta no mais grandioso monumento do paiz. A Batalha recorda-nos que

ha um pacto perpetuo asselado com sangue entre Portugal e a Inglaterra.

Quando o povo português deixar de ser o irmão e o amigo do povo inglês,

tem que derribar primeiro o templo de Sancta Maria da Victoria, e de lá,

de cima das suas ruinas, sobre os ossos de D. João I, o arauto da

discordia, tem a annunciar ao mundo que esse velho pacto expirou. Ha

perto de quatro seculos, nos campos de Aljubarrota e em frente dos

esquadrões franceses e castelhanos, a invencivel infanteria inglesa

jurava com os cavalleiros portugueses que esta terra seria livre, e uns

e outros cumpriam heroicamente o seu voto. Nesta épocha, porém, de

actividade, de industria, de trabalho ligam-nos aos alliados do mestre

d'Aviz, do rei mais nobre e mais português da nossa historia, não só as

reminiscencias do passado, mas tambem os interesses materiaes do

presente. A Inglaterra é a consumidora dos nossos productos; nós os

consumidores de uma pequena parte da immensa producção industrial

inglesa: nós levamos ao mercado de vinte e sete milhões de individuos a

melhor parte do que nos sobeja da nossa producção agricola; elles

entregam n'um mercado de quatro milhões de homens em productos da sua

industria ou em metaes preciosos o equivalente do que nos convem

vender-lhes. A nossa vida economica tem uma relação tão intima com a

vida economica da Grã-Bretanha, que não se comprehende sequer como se

poderiam hostilisar os interesses dos dous povos na extremidade da Asia,

ainda suppondo que coubesse nas nossas forças contrastar ali o poder

collossal da Inglaterra.

Assim a reacção sabia que as influencias religiosas, influencias mais

efficazes naquellas regiões remotas do que geralmente se cuida, não as

podia empregar em damno da Grã-Bretanha, da sua mortal inimiga, se o

nosso direito de padroado nas igrejas catholicas da China fosse

respeitado. Espoliava-nos, pois, desse direito, com a acquiescencia dos

seus adeptos em Portugal, emquanto centenares de lazaristas, de jesuitas

e não sabemos de que outras congregações italianas e francesas velejavam

para o oriente ao lado das esquadras britannicas que iam abrir aquelle

immenso mercado ás especulações da Europa. Se o governo de Inglaterra

não comprehendeu então o que significava a espoliação do padroado do

Oriente feita ao seu antigo alliado, o povo inglês ficará algum dia

sabendo á sua custa a connexão que esse negocio tinha com os seus

futuros interesses.

Taes foram os mais notaveis factos do que ha muito denunciavam a obra

reaccionaria nas regiões do poder. Estas tendencias ultramontanas e

anti-liberaes tem tal permanencia, constituem uma serie de actos tão

logicos e concatenados entre si, atravez de todas as modificações de

homens e de partidos proprias do governo representativo, que se torna

facil chegar a uma triste illação. É que esses factos não procederam das

diversas administrações que tem succedido umas às outras no decurso de

dez ou doze annos. A culpa real dos individuos a quem cabe a

responsabilidade politica de tantos erros e vergonhas é unicamente a de

terem ambicionado ou de terem acceitado funcções superiores á sua

capacidade. A idéa, o intuito inflexivel e fatal residia e reside

forçosamente em funccionarios menos elevados, porém mais permanentes, ou

em influencias occultas, que actuam constantemente na gerencia dos

negocios publicos, e que reproduzem ahi de modo mais serio as outras

manifestações, na apparencia irregulares e desconnexas, da reacção.

É d'estes precedentes que principalmente deriva a gravidade do facto da

introducção das irmãs de caridade francesas em Portugal, introducção

que, segundo já mostrámos e continuaremos a mostrar, não se póde reputar

alheia á conspiração organisada neste paiz contra a liberdade; que não

é, que não póde ser senão uma nova phase della. Nada mais logico da

parte dos reaccionarios do que, ao passo que aggrediam a sociedade

actual, começarem a preparar o terreno para futuras victorias

apoderando-se da educação. Havia tempos que se dera principio á empreza

inspirando a pessoas piedosas e collocadas em alta jerarchia o desejo de

sollicitarem do governo, não a permissão de augmentar e organisar melhor

o instituto português das irmãs de caridade, porque este apenas serviria

para satisfazer aos preceitos de utilidade practica da regra de S.

Vicente de Paulo, mas sim a admissão de irmãs de caridade francesas,

instrumentos cegos dos lazaristas, muitos dos quaes pouco depois se

dirigiam ao Oriente para recolher o fructo da expulsão do clero

português de uma parte das nossas igrejas da Asia. O mais difficultoso

do negocio era que essas pobres mulheres deviam, em conformidade com a

disciplina da ordem, ser acompanhadas de alguns daquelles membros da

congregação das missões que se não tinham reputado necessarios para

combater em regiões longinquas o nome português e os direitos da corôa

de Portugal, paiz que aliás a corte de Roma declarava officialmente

schismatico, n'uma especie de circular aos vigarios apostolicos da

India[11], na mesma conjunctura em que, por intervenção do seu nuncio em

Lisboa, negociava comnosco a famosa concordata que tinha por fim

principal hostilisar o predominio da Inglaterra na Asia. Diz-se que

houve resistencias á nova pretensão, mas cedeu-se por fim a poderosas

influencias, e as irmãs de caridade francesas, acompanhadas dos seus

mentores, não tardaram em chegar a Portugal, em parte para tomarem conta

do novo asylo de orphãos que se creara, em parte com o pretexto do

serviço dos hospitaes. A reacção ganhara outra victoria, na apparencia

mais obscura, mas a mais importante de todas nos seus resultados.

Temendo, todavia, a irritação publica, o partido ultramontano appellava

para a imprensa, não só para a imprensa ignobil e para a imprensa

politica, mas tambem para a litteraria. Apotheoses das irmãs de caridade

e dos lazaristas franceses precediam e acompanhavam a sua entrada no

reino, e essas apotheoses, espalhadas pelas columnas dos jornaes,

tomavam ás vezes a fórma de livro, e apresentavam-se ao mundo com

pretensões de estylo e de philosophia. Ahi o liberalismo, verberado

despiedadamente, era confundido e anniquilado. Ponderavam-se os serviços

das irmãs de caridade nos tumultos de Paris e nos arraiaes da Criméa, e

dessas premissas concluia-se, com logica admiravel, que ninguem era mais

apto do que ellas para educar a infancia e regenerar a mulher em

Portugal. Taes escriptos não passavam de um tecido de puerilidades; mas

provavam ao menos, pela data em que começaram a apparecer, e pela épocha

em que se espalharam debaixo de outra fórma, que, se á reacção faltavam

recursos intellectuaes para tornar plausiveis as suas doutrinas, não lhe

falleciam bons desejos de as inculcar.

Apesar de ter esse lado ridiculo, a questão não perdia nem a sua

importancia, nem a sua gravidade. Certas associações, compostas de

pessoas respeitaveis pela pureza das suas intenções, mas altamente

incompetentes para apreciarem o valor dos factos á luz dos grandes

interesses sociaes, tinham experimentado subitamente, synchronicamente,

e em logares do reino assás remotos entre si, um sentimento, uma

convicção profunda e irresistivel da urgentissima necessidade da

introducção do lazarismo em Portugal. Se não supposermos quasi um

milagre, como acreditar na espontaneidade desta inspiração simultanea?

Evidentemente na penumbra dessas diversas associações havia uma

entidade, uma idéa, um designio, que as illudia e as inspirava. E o que

podia ser, senão a reacção, já em tantas questões e por tantos modos

manifestada?

Não é a esta Associação que pertence accusar, nem pedir a

responsabilidade das diversas administrações que serviram de doceis

instrumentos ao partido ultramontano. Essa responsabilidade vem de

longe. Temos fé nas instituições. Incumbe ao parlamento manter a fiel

execução das leis do reino; pertence-lhe a manutenção dos principios

politicos que o regem. Não nos associámos para o substituir. O partido

liberal o que faz é preparar-se para uma lucta a que foi longamente

provocado, e que as instituições lhe permittem acceitar. Se os

parlamentos passados, se o parlamento presente tem até hoje julgado

opportuno oppôr apenas resistencia passiva ás entreprezas da reacção, é

possivel que ámanhã se erga tremendo e inexoravel para punir mais de um

culpado. Como cidadãos, os membros desta Associação são tambem juizes

dos representantes do paiz na imprensa e juncto da urna; mais como

corporação, os seus deveres e os seus direitos estão limitados,

circumscriptos pelos fins que se proposeram. A reacção está illudida, se

pensa, com os seus clamores, fazer-nos ultrapassar esta meta.

Entretanto a historia é do dominio commum, e os factos consummados são

do dominio da historia. As leis do reino e o instituto das irmãs de

caridade francesas são antinomicos, antinomicos na letra, e ainda mais

na espirito. Antes de deferir ás supplicas em que se pedia que as leis

fossem infringidas, o governo consultou alguns prelados. Era uma

exorbitancia. O governo não tinha que consultar senão o codigo dos seus

deveres, que imprudentemente rasgou á vista das informações dos bispos.

Deploramos o procedimento do poder executivo: não deploramos menos que

as consultas dos prelados fossem publicadas, porque nos doe que o clero

hierarchico, que os legitimos pastores possam subministrar á

malevolencia suspeitas de fraqueza diante de influencias mundanas.

Dizendo ao governo que as irmãs de caridade francesas não vinham

estabelecer um instituto regular, os prelados não previam que os factos

haviam em breve de desmenti-los. Affirmando que os membros da

congregação da missão, visto prestarem obediencia ao ordinario, e delle

receberem jurisdicção quanto aos actos externos do officio sacerdotal,

podiam ser admittidos neste paiz, ultrapassavam os limites da sua

competencia, invadiam as attribuições do procurador geral da corôa, e

enredavam-se a si e ao governo n'um sophisma cujas consequencias tambem

não previam. A questão não era se os lazaristas reconheciam a

auctoridade do diocesano. Fazem-no assim hoje, porque sempre o fizeram.

Impõe-lhes o cumprimento desse dever a propria regra[12]; e se tanto

bastasse, poderiam admittir-se no reino os jesuitas, cujo instituto

igualmente os obriga a reconhecer a jurisdicção diocesana[13]. A questão

era se a base dos estatutos dos lazaristas e da congregação do sexo

feminino, que elles dirigem, é ou não a obediencia cega, illimitada,

absoluta, a uma chefe para nós estrangeiro; se os individuos que

professam esses estatutos podem entender a sujeição aos diocesanos de

outro modo que não seja até o ponto em que ella se não ache em collisão

com a vontade, ou simplesmente com os intuitos do geral, que para elles

deve ser como um Deus na terra[14]. A questão era se a lei que aboliu em

Portugal os regulares, e entre elles a congregação da missão, não é

offendida quando se admittem neste paiz, para nelle permanecerem, homens

que publicamente se proclamam membros de uma sociedade abolida, que

publicamente usam dos trajos e de todos os signaes externos da sua

ordem, e que assim affirmam a existencia de uma sociedade que a lei

nega. O direito natural e a constituição do estado dizem que a

manifestação do pensamento é livre, livres todas as acções que não

penetram na esphera da livre acção dos outros, que a lei civil é

destinada a garantir; e a existencia dos lazaristas no meio de nós é uma

affirmação publica de que são licitos pactos de escravidão mental

contrarios ao direito natural e aos nossos principios constitutivos. O

estrangeiro que vem viver no meio desta sociedade tem jus á sua

protecção, mas tem tambem a obrigação de a reconhecer e de a respeitar.

No foro intimo, na vida domestica, estrangeiros e portugueses podem ser

jesuitas, mormons, lazaristas, ou o que bem lhes parecer: o foro intimo

e a vida domestica são sanctuarios onde os poderes publicos não

penetram. Mas essa condição fundamental da existencia de um povo livre

não auctorisa ninguem para saír á rua, proclamando com as suas

declarações officiaes, com os seus actos, e até com os seus trajos, que

o direito natural não é imprescriptivel, que a constituição e as leis

não tem validade moral. A providencia legislativa que supprimiu as

corporações regulares não aboliu só os gremios compostos de um certo

numero de individuos: aboliu a instituição, aboliu os estatutos, aboliu

as regras. Quem se accingir publicamente a esses estatutos, a essas

regras, seja um, sejam mil, está em contravenção com a lei.

Nem se diga que um ou muitos membros de congregações religiosas podem

ter necessidade de vir a este paiz sem que o poder publico haja de lhes

tolher a entrada, ou de os obrigar a sairem antes de concluirem os

negocios que os compelliram a habitar temporariamente entre nós. De

certo, nenhum governo de nação civilisada procederia de tal modo; mas o

primeiro cuidado desses individuos, se forem prudentes e honestos, será

absterem-se de contrastar por manifestações externas as leis e os

costumes da nação cujos hospedes são. Se procedessem de diversa maneira,

o executivo, que tem o dever e o direito de exercer vigilancia sobre a

ordem publica e sobre a execução das leis, teria o dever e o direito de

os cohibir ou de os expulsar do paiz.

Póde, porém, a existencia de lazaristas e de irmãs de caridade francesas

em Portugal considerar-se como um facto accidental e temporario? Os

prelados, nas consultas que dirigiam ao governo sobre este assumpto,

buscavam attenuar, sem effectivamente o conseguirem, os graves

inconvenientes da entrada simultanea dos lazaristas e das irmãs de

caridade, o que indica não julgarem possivel a separação dos dous

factos. E de feito, é geralmente sabido que essa entrada se negociou

primeiro com o geral dos lazaristas; que elle veio a este paiz tractar

do assumpto; que delle partiu a permissão da vinda daquellas mulheres.

Emfim, o prelado de Lisboa dizia expressamente na sua consulta, que as

irmãs de caridade francesas estão sujeitas ao geral da congregação da

missão. Os defensores do lazarismo asseveram, portanto, com fundamento,

que os dous institutos são inseparaveis. A existencia, a permanencia, a

perpetuidade dos lazaristas em Portugal são consectarios forçados da

existencia, da permanencia, da perpetuidade da congregação lazarista do

sexo feminino. Assim a questão simplifica-se. Reduz-se a uma

pergunta:--A admissão e a residencia em Portugal das irmãs de caridade

do instituto francês é accidental e temporaria, ou importa o

estabelecimento de um instituto permanente?

Se é uma residencia accidental e temporaria, onde estão as vossas

magnificas promessas de regeneração moral para esta terra, onde a

educação para a infancia, a conversão para a degenerada mulher

portuguesa, a luz para nós todos, povo de ignorantes, de impios, de

barbaros? É com seis mulheres que haveis de fazer essas maravilhas? Ou

quereis que o geral da congregação da missão despovoe successivamente a

França das irmãs de caridade e dos seus directores para nos restituir a

luz da fé, a pureza dos costumes, a educação christã, que, segundo

parece, os successores dos apostolos, os successores dos discipulos, os

representantes dos doutores primitivos, os pastores, em summa, de

instituição divina deixaram perder, e que são, conforme dizeis,

incapazes de restaurar? Não; vós não quereis collocar o chefe do

lazarismo na dura collisão de arriscar a patria a novas invasões de

impiedade, para dedicar os inexgotaveis thesouros do seu amor do proximo

a gente peregrina e rude, que talvez não lh'o agradeça. Não; vós quereis

plantar entre nós ao mesmo tempo ambos os institutos de S. Vicente de

Paulo; quereis edificar para os seculos. É a modestia que vos obriga a

envolver no mysterio os vossos generosos designios. A salvação das

gerações futuras merece-vos tanta sollicitude como a das gerações

presentes.

Um facto decisivo demonstra que isto é assim, e que os prelados

comprometteram a propria veracidade affirmando o contrario. Entre nós

existia uma congregação de irmãs de caridade sujeitas á auctoridade

diocesana e só a ella, em conformidade das leis do reino. O titulo da

sua instituição era legitimo, viviam em commum, tinham habito proprio,

bens proprios. Era uma casa regular no rigor do termo. Esta congregação

desappareceu. Nem a auctoridade civil nem a ecclesiastica podiam

aboli-la. Só a lei o podia, e não a aboliu. Dissolveu-se, extinguiu-se

por si? Então a fazenda nacional deve ter tomado posse da casa da rua de

Santa Martha e dos poucos bens a ella annexos. Não aconteceu nada disso.

Foi só que transformaram a congregação portuguesa em congregação

francesa, e incorporaram aquellas pobres mulheres com as recem-vindas.

Commetteram simplesmente um crime[15]. Que é o fizeram, que é o que

constituiram, senão uma casa regular? É ou não é essa casa sujeita ao

geral dos lazaristas franceses? A lei qualifica de rebellião o acto de

se reconhecer em qualquer corporação religiosa um prelado maior que não

seja o bispo diocesano, e impõe aos contraventores a pena da sua

rebeldia.

O crime é aqui aggravado pela circumstancia de ser esse prelado um

estrangeiro. A reacção amotinou-se contra as leis; estamos em plena

revolução. A èpocha de 1832 a 1834 foi condemnada, e amaldicçoado o nome

do grande principe que a fez surgir. Velhos soldados do duque de

Bragança, sois já poucos para defender as suas cinzas; sois ainda

sobejos para morrer ao pé dellas. Soldados de Mindelo rodeiae o tumulo

do imperador!

A capital deste paiz, remido para a liberdade ha vinte e cinco annos á

custa de torrentes de sangue, presenciou com assombro um espectaculo

digno dos bons tempos da tyrannia. Quando em carruagens esplendidas

passavam, commodamente reclinados, os confrades daquelles que, no

extremo Oriente, andam occupados em apagar os vestigios dos nossos

martyres; quando, ao lado delles, se viam essas pobres mulheres enviadas

de Paris para instrumentos dos planos de ultramontanismo, o lodo das

ruas espadanando debaixo das suas carruagens ia salpicar a estamenha

monastica, o grosseiro crucifixo de metal de outras mulheres que

perpassavam com a fronte inclinada para o chão, com as faces retinctas

na pallidez que ahi tinha imprimido o longo padecer de longas miserias.

Eram as irmãs de caridade portuguesas, declaradas schismaticas pelo

synedrio da rua de S. Lazaro em Paris, como a sua patria era declarada

schismatica pela congregação da Propaganda, não sabemos de que rua de

Roma. As irmãs portuguesas estavam irregulares: tinham obedecido aos

bispos instituidos apenas por Christo, e não ao geral dos lazaristas

creado por ninguem menos do que por Urbano VIII: tinham apenas seguido à

risca por trinta ou quarenta annos os preceitos da caridade evangelica;

mas não tinham chegado a comprehender todos os aperfeiçoamentos do

evangelho, que as cartas patentes de Luiz XIV haviam em 1658 revelado à

França[16]. Vacillavam quasi á borda do atheismo. Era por isto que o

zelo com que haviam sido instituidas esfriara em quasi todos os animos

devotos: era por isto que, á porta dos palacios sumptuosos, raramente o

lacaio grosseiro lhes atirava ao regaço alguma esmola mesquinha. As

economias da devoção era necessario enthesourá-las para tornar commodas

as carruagens que tinham de servir aos verdadeiros agentes da exaltação

da fé. Vinha a ser o mesmo que enthesourá-las no céu.

O povo soltou um gemido de dor e de indignação olhando para suas irmãs;

porque as mulheres macilentas que passavam a pé, ao lado das carruagens

dos lazaristas, eram irmãs do povo. Do alto da tribuna respondeu-lhe a

injuria. Houve quem receiasse que o gemer se convertesse em rugido.

Enganavam-se. O povo é paciente, porque é christão, e porque tem a

força. Calumniaram-no então. Affirmaram que elle insultara as mulheres

estrangeiras. A regra de S. Vicente de Paulo diz: «Se a congregação ou

qualquer das pessoas a ella sujeitas for perseguida ou calumniada,

abster-nos-hemos cuidadosamente de tirar disso a menor vingança, de

maldizermos o offensor, e até do minimo queixume.» Conseguintemente o

lazarismo foi a casa da policia, denunciou intenções, e pediu vingança.

A policia saiu, correu, espreitou, inquiriu e veio, desconsolada e

triste, declarar ao lazarismo que mentia. A policia tornava-se

evidentemente impia. Era deploravel. Os adeptos consolaram-se com um

grande e honrado triumpho que haviam entretanto obtido. A auctoridade

ecclesiastica descera ao humilde retiro das mulheres macilentas, e com

gesto severo imposera-lhes o dever de vestirem o novo trajo que chegara

de França. Era a salvação. Obedeceram caladas. Aquelle escapulario, que

bebera tantas vezes o suor da agonia na fronte do moribundo encostada ao

peito da mulher do evangelho; aquella vestidura, cuja fimbria tinham

regado tantas lagrymas de creancinhas abraçadas aos joelhos da mulher

macilenta, ao pé da enxerga da mãe expirante; aquella estamenha,

thesouro das pobres enfermeiras dos desvalidos, porque lhes era

esperança no ceu e mortalha na terra, disseram-lhes que a despissem,

porque sem certos trajos franceses não havia irmãs de caridade. Trinta

ou quarenta annos de privações, de insomnias, de abnegação, de preces,

de lagrymas, tudo isso fora vão e mentido diante de Deus. Não sabemos se

aquelles velhos habitos se venderam vantajosamente para a congregação.

Sabemos só que o homem do povo, quando os for encontrar no mercado dos

andrajos, deve salvá-los, guardando-os como uma memoria sancta entre as

memorias dos seus, sob pena de ser ingrato.

As pobres mulheres do evangelho tinham tido o seu pretorio, a sua

chlamyde coccinea e a sua corôa de espinhos. Ignoramos se, antes disso,

lhes haviam apontado para as carruagens esplendidas do lazarismo, e

repetido em voz baixa as palavras de um livro chamado a Biblia, de que é

possivel terem noticia certos defensores da religião: _Haec omnia tibi

dabo, si cadens adoraveris me_.

As leis, os poderes publicos, a auctoridade administrativa, tudo curva a

cabeça, tudo se esconde para deixar desembaraçado o caminho á reacção,

que no seu impeto revolucionario passa radiosa. Vilipendiado o direito

canonico recebido nestes reinos, em que se estriba a jurisdicção

immediata dos prelados diocesanos nas respectivas dioceses, violadas as

leis que mantem esse direito e punem como criminosos d'estado os seus

infractores, abrogadas pela vontade privada as condições legaes com que

as irmãs de caridade existiam entre nós como corporação reconhecida,

restava escarnecer das leis, que regem a educação publica, e que não

são, na sua essencia, senão a expressão das doutrinas dominantes nas

leis analogas de uma grande parte dos paizes civilisados. As leis e

regulamentos de instrucção publica exigem habilitação para o magisterio,

tanto publico como livre, e fixam as condições, as fórmas dessa

habilitação. Os governos relaxados que ha muito dirigem os negocios do

paiz haviam tolerado abusos na educação privada, que, sem deixarem de

ser perniciosos, não tinham, todavia, inconvenientes politicos. No

relatorio dos fins de 1856 o commissario geral dos estudos em Lisboa

assignalava esses abusos, e pedia a sua repressão: «Os mestres e mestras

das casas de asylo da infancia desvalida--dizia elle--exercem alli o

magisterio sem prévio exame feito perante esta commissão. Quem os póde

exemptar dessa obrigação? Ninguem: a lei é clara e terminante. E não

virá daqui em grande parte o nenhum progresso de taes escholas? Creio

que sim.» Inquieto com as manifestações do desgosto publico, o governo

ordenava em setembro de 1858 áquelle zeloso funccionario que visitasse

as escholas do asylo dos orphãos da Ajuda, dos asylos da infancia

desvalida[17] e do hospicio de Sancta Martha, e que posesse ahi em vigor

as leis e regulamentos d'instrucção publica. Devia terminar o exame, que

aliás era obrigação do seu cargo, por um relatorio, em que proposesse as

providencias que excedessem a sua alçada, e fossem precisas para se

verificar o exacto cumprimento da lei. Fez-se o exame: os abusos

existiam; o relatorio não podia deixar de ser accorde com as instantes

representações feitas pelo commissario dous annos antes. Se o mal era

profundo até ahi por falta de sufficientes habilitações litterarias nos

mestres e mestras das casas de asylo, os inconvenientes actuaes, ainda

abstrahindo de todas as considerações politicas, eram sem comparação

maiores. As irmãs de caridade não só careciam de habilitações legaes,

mas tinham, até, sido exemptas de concurso. Chegavam de Paris para

ensinar a ler e escrever português: vinham explicar á infancia as

verdades fundamentaes da religião n'uma lingua que lhes era extranha,

quando é sabido que na doutrina catholica uma palavra trocada, uma

phrase inexactamente empregada podem converter um dogma n'uma heresia.

No excesso do abuso associava-se o perigoso ao ridiculo, o illegal ao

inconveniente. O relatorio do habil funccionario fez de certo sentir ao

governo toda a extensão do mal. O commissario dos estudos sería indigno

das funcções que exercitava, trahiria ignobilmente a sua consciencia,

se, pondo de parte as doutrinas de legalidade que invocava dous annos

antes, não ordenasse, dentro da esphera das sua attribuições, remedio a

tantos desconcertos, e não sollicitasse do governo as providencias que

ultrapassavam a sua jurisdicção. Por certo ordenou: por certo pediu. E

todavia a situação monstruosa e illegal dos estabelecimentos da Ajuda e

de Sancta Martha não mudou. Os preceitos do commissario dos estudos não

foram respeitados, a lei não se cumpriu, e o governo, que a mandara

executar rigorosamente, abaixou a cabeça em profundo silencio. Como

explicar phenomenos taes, senão pela vontade energica da reacção,

preponderante já, postoque occulta, na esphera dos poderes politicos?

É diante dos factos que temos ponderado; é diante de signaes tão

evidentes, de manifestações tão positivas de uma vasta conspiração

contra a liberdade; e quando as descargas cerradas da reacção fuzilam na

imprensa periodica, nos livros, nas associações, nas secretarias, na

tribuna, nas regiões diplomaticas, nas alturas da jerarchia civil e da

jerarchia ecclesiastica, nos pulpitos das aldeias e nas escholas da

infancia, que a insipiencia e a perfidia nos accusam de combater contra

seis mulheres e dous frades! Quando apontamos para as leis rasgadas,

para os principios postergados, para os canones e para as liberdades da

igreja nacional vilipendiados, para a mulher portuguesa insultada e

calumniada, accusam-nos de rancorosos e de violentos! A violencia está

da nossa parte. A Europa indigna-se, porque o fanatismo rouba um filho a

seu pae para o educar n'uma religião, embora verdadeira, em que este não

crê. A nós não nos é permittida a indignação quando aos que dormem

debaixo da terra, feridos pelo flagello de Deus, se lhes entregam os

filhos, que elles não podem defender, a que affeiçoe aquelles espiritos

innocentes aos intuitos da reacção ultramontana e absolutista; aos

intuitos desses mesmos homens, cuja audacia fanatica a Europa

solemnemente acaba de condemnar. Não nos é licito oppormo-nos a que as

novas gerações se eduquem no odio dos principios que regem a terra

patria, e pelos quaes a geração presente padeceu e combateu longamente.

Não valerão, proventura, nada os principios, quando se tracta da

innocencia desamparada, depois que sobre os labios frios dos seus

naturaes defensores se estampou o sello da morte?

No meio de tantos delirios, uma das cousas que repugnam mais á razão, á

consciencia e á verdadeira piedade, é a blasphemia que se encobre

debaixo do diluvio de phrases com que se exaltam, sobre as ruinas da

jerarchia ecclesiastica e da divina missão dos pastores, essas

congregações religiosas de ambos os sexos nascidas ha dous dias,

jesuitas, lazaristas, irmãs de caridade, e não sabemos que mais

invenções modernas do ultramontanismo, desconhecidas durante quinze

seculos da igreja. O bispo, o parocho, aquelles que o Salvador instituiu

para ensinarem a lei e a salvação; aquelles que o Divino Mestre julgou

sufficientes para manterem a pureza da fé, para serem o sal da terra e a

luz do mundo, são declarados inhabeis ou insuficientes para exercerem as

funcções que exclusivamente lhes foram commettidas, e muitos delles não

hesitam em subscrever ao pensamento impio, escondido como o aspide nos

morraçaes da algaravia devota. A congregação tende irresistivelmente a

supprimir o episcopado e a ordem inferior dos pastores, como uma

inutilidade. Do mesmo modo que dimitte a historia, a reacção dimitte a

igreja. Se escapa aquelle que nós todos reconhecemos como o primeiro

entre os seus irmãos, como o metropolita dos metropolitas, como o chefe

espiritual do catholicismo, é para o converterem n'um despota; para

precipitarem o reino Deus das alturas do céu no abysmo da terra; para

collocarem a thiara, nas relações temporaes, acima do poder civil; para,

emfim, resolverem de modo definitivo o tremendo problema proposto por

Gregorio VII á sociedade christã.

A estes intuitos a existencia ou, pelo menos, a auctoridade da ordem

superior e da ordem inferior do clero legitimo há-de ser sempre um

obstaculo, senão insuperavel, ao menos altamente incommodo. Sempre ha-de

haver uma parte delle que saiba a sua origem, que creia na sua missão

divina, e que ouse protestar contra o despotismo da curia romana. Se a

influencia dos chefes das congregações sobrepujar a dos prelados, não

resta a estes senão uma energica e legitima resistencia, a não quererem

a desauctoração do proprio caracter e a dissolução da igreja. Aquelles

chefes, porém, cujos subditos devem ser diante delles como o cadaver,

como o baculo na mão do cego, como a lima na mão do obreiro, e cujo

despotismo, não podendo estribar-se no céu, foi buscar sanctificação em

Roma; esses, de certo, nunca hão-de protestar contra a applicação á

sociedade christã e á sociedade civil de um principio que é a essencia

do proprio poder.

O antigo monachato, na singeleza da sua origem, nem era um perigo para

as instituições sociaes, nem seria uma ameaça para a liberdade. O

monachato, como elle nos apparece nos primeiros seculos christãos,

representava os profundos desenganos, o cansaço e o tedio do viver

civil. O monge desposando a solidão firmava um acto de divorcio com a

sociedade. Esta não seria nem tolerante nem justa se perguntasse ao que

se collocava além della, que nada lhe pedia, nem impunha, nem offerecia,

nem acceitava, qual era a norma da sua existencia. O mosteiro nos

desvios selvaticos devia ser uma sanctuario talvez ainda mais immune que

a familia. Nesses tempos, nem sequer existia nexo entre cenobio e

cenobio, embora ente elles houvesse uma regra commum. Para adquirir o

alimento pelo trabalho e o céu pelo sacrificio não era preciso

transportar para o deserto o mechanismo de uma organisação complicada,

nem vestir a cogulla ao despotismo. Um chefe electivo mantinha em cada

gremio a disciplina indispensavel para a quietação de todos. Nas

relações puramente espirituaes, esses homens pios nem sequer imaginavam

que o sacerdocio devesse associar-se como o ermo, e se abandonavam a

sociedade civil, não deixavam por isso de acceitar e reconhecer a

igreja. Nunca se persuadiram de que a instituição divina dos pastores

fosse insufficiente para apascentar o rebanho. Na sinceridade do seu

coração não suspeitavam, sequer, que viriam tempos, em que os homens

achassem incompleto o christianismo, e quizessem aperfeiçoar a jerarchia

e o governo da igreja, immutaveis na essencia, como a sua doutrina.

Os institutos monasticos dilataram-se, prosperaram, degeneraram

regressando ao mundo social, decahiram e pereceram, ou vejetam apenas

n'um triste crepusculo. O liberalismo olha-os com suspeitas que os

factos justificam. Entretanto a sua condemnação completa não se escreveu

ainda. Talvez um dia, quando a liberdade for por toda a parte uma

condição impreterivel da civilisação e da existencia das nações

christãs, o monachato resurja na sua primitiva pureza. Ha dores para as

quaes a vida civil não tem balsamo, desalentos para que não tem

conforto, desesperanças para que não tem illusões, amarguras que não

cabem nella. Além das suas fronteiras, dos seus asylos para os

infortunios vulgares, porque se não deixará construir um refugio de

preces e de lagrymas para as miserias moraes incuraveis, e para as

situações insoluveis e extremas?

Mas que ha commum entre isto e as congregações modernas, que se

organisam pelo ideal do despotismo, e que, regidas por esse principio,

tão odioso e brutal como energico, penetram no amago da sociedade como o

ferro do machado no cerne do roble? Quando ellas pedirem ao povo o

coração da mulher para o dirigir, e a debil intelligencia da infancia

para a affeiçoar, o povo, se não for insensato, há-de forçosamente

replicar-lhes:--«Para que pedis isso? Vindes do despotismo: não podeis

senão arrastá-los para o despotismo; para o despotismo na igreja, e para

o despotismo no estado.»

A introducção das irmãs de caridade francesas não é senão o prodromo do

restabelecimento das congregações, que, longe de buscarem os ermos, só

tem em mira apoderar-se da sociedade. A reacção sabe que ás vezes é

melhor ir de roda para chegar mais depressa.

N'um documento official allegaram-se os serviços das irmãs de caridade

francesas no Oriente, principalmente nos arraiaes da Criméa, para

legitimar a admissão daquelle instituto no reino, quando o principal fim

ostensivo dessa admissão era o gravissimo negocio de educação da

infancia. Vinha a ser a melhor allegação, sendo pessima. Naquelle

documento dimittia-se a logica; e convertia-se a enfermaria em eschola

normal. A reacção, tão astuta de ordinario, tem suas puerilidades. A

capacidade das irmãs de caridade francesas para o magisterio talvez

ainda venha a inserir-se como dogma no catecismo. Por emquanto está

sujeito á discussão. A regra de S. Vicente de Paulo não encerra em si a

demonstração de tal capacidade, e os factos ainda tambem não a

demonstraram. Ensinar não é synonimo de ensinar bem. Permittam-nos,

pois, que entretanto duvidemos da virtude pedagogica dessa regra,

virtude que seria mais um milagre dos officiaes deste genero de

producto, porque não resulta de nenhuma das sua disposições positivas. A

caridade poderá, talvez, só por si fazer uma boa enfermeira; o que de

certo não faz é uma boa mestra.

O instituto das irmãs de caridade cerca-se de uma auréola facticia,

porque é um instrumento de reacção. Admitti que a dedicação, aliás

louvavel, dessas mulheres seja um titulo que suppra a sciencia, que

inutilise a intervenção do estado na educação, e diante do qual devam

ceder os principios, as leis, os regulamentos, e achar-vos-heis em breve

nas regiões do jesuitismo. Que vale a historia, mais ou menos

exaggerada, dos sacrificios, do zelo, da constancia das irmãs de

caridade ao lado dos sacrificios, do zelo, da constancia dos jesuitas,

não neste ou naquelle paiz da Europa, mas no mundo conhecido? Depois, o

jesuitismo tem titulos de sciencia bem diversos do que podem invocar as

irmãs de caridade e a ordem que as dirige. Entregae, portanto, a

educação e a instrucção, não só da puericia, mas tambem da mocidade, á

companhia de Jesus.

Lá chegaremos, se não estivermos precavidos contra os sophistas.

O furor dimissorio da reacção não pára, nem na historia, nem na

jerarchia christã, nem nos canones da logica: vai até a Providencia e

até o Evangelho. Que ha particular e exclusivo na regra de S. Vicente de

Paulo para produzir os resultados beneficos daquella associação como

está constituida em França? A força impulsiva da vontade absoluta de um

só homem é na verdade um elemento efficaz, postoque vulgar. O despotismo

produz ás vezes o bem, aindaque em regra só produza males. Mas os

effeitos dessa organisação, innegavelmente poderosa, acabam ahi. O resto

operam-no a indole da mulher e a luz immortal do Evangelho. Quem ha que

não visse, ao menos alguma vez, na obscuridade da vida domestica, uma

irmã de caridade assentada á beira do leito da dor ou da ultima agonia?

Onde está a mulher está a irmã de caridade. O seu espirito adeja em

volta do padecer humano, para se precipitar nelle, como a mariposa á

roda da luz. É o seu instincto, a sua indole, o seu destino. O amor, a

amizade, a affeição filial ou fraterna, a maternidade escondem aos olhos

dos outros e a seus proprios olhos as tendencias irresistiveis que a

arrastam para levar um affecto aonde quer que sôa um gemido. Acima de

todos os votos que se lhe podem ou pedir ou impor em nome do céu, ella

tem dous, escriptos lá dentro, que a seguem do berço ao tumulo, a

piedade e a paixão do sacrificio. Impellidas pelo sentimento religioso,

essas tendencias vão até o sublime da abnegação: vão mais longe do que a

irmã de caridade; vão até a mulher que se precipita na fogueira dos

funeraes do Indostão. Essa mulher, como a irmã de caridade na Europa,

representa a suprema devoção pelo sacrificio. A differença, porém, não

está na regra de S. Vicente de Paulo: está em que na Europa a mulher

educa-se á luz esplendida do Evangelho; no Indostão ao crepusculo triste

dos Védas.

Sem a sujeição aos lazaristas, o que a regra de S. Vicente de Paulo póde

fazer é dar unidade e ordem aos admiraveis instinctos da mulher

sanctificados pela religião; é estender o que ha mais bello no mundo, as

consolações do affecto domestico juncto de um leito de dores, aos que

não tem familia que lhas possa dar, ou aos que a miseria e a doença

entregaram á caridade official. Mas attribuir á virtude do instituto o

que principalmente provém da natureza e da religião, é depôr a

Providencia e o Christianismo para enthronisar um homem: é suppor que a

sua obra vale mais que a obra de Deus: é a blasphemia da superstição.

Com o predominio, porém, do lazarismo; com uma obediencia cega a

individuos que abnegam, diante de um chefe supremo, a vontade, a razão e

a consciencia, as irmãs de caridade não são senão mais um perigo para a

sociedade debaixo de apparencias illusorias. O bem que ainda assim fazem

nem remotamente compensa os males que podem produzir. Instrumentos,

provavelmente inscientes, do ultramontanismo, são como os maus actores,

que se limitam a estudar o respectivo papel, sem conhecerem nem o

enredo, nem os effeitos do drama.

Os serviços feitos á humanidade na guerra do Oriente pelas irmãs de

caridade francesas, texto fecundo das pareneses da imprensa

reaccionaria, e que tão pouco a proposito figuram em documentos que

deveriam ser graves, tem acaso o valor e a significação que se lhes

attribue? A guerra do Oriente foi emprehendida por duas das mais

poderosas nações, uma d'ellas a mais opulenta e illustrada da Europa. As

miserias e desgraças ordinarias da guerra são faceis de prever, e os

governos dessas nações tinham-nas previsto: tínham-se preparado para

ellas. Facultativos, hospitaes, enfermeiros, remedios, os confortos, em

summa, que são compativeis com a dura e aventurada vida do soldado, não

tinham sido predispostos com mão avara. Aquelles para quem esses

immensos soccorros se destinavam eram homens no vigor da existencia,

educados para affrontar virilmente as privações, a dor e a morte. As

calamidades imprevistas não foram, nem podiam ser combatidas com menor

energia. As inspirações da simples humanidade eram avivadas pelo

interesse de manter a força material e moral dos exercitos, n'uma

campanha onde se decidia o duello entre as sociedades do Occidente e os

netos de Attila. Quanto a sciencia, a industria, a riqueza e a

actividade administrativa podiam suggerir e applicar para allivio dos

males inseparaveis da guerra, tudo se achava ao lado do homem robusto

que padecia nos arraiaes da Criméa. Imaginar que cincoenta ou cem

mulheres distribuidas pela vastidão dos hospitaes militares, suppriam,

modificavam sequer as privações e os incommodos nascidos da falta

accidental de recursos, ou das desordens imprevistas da natureza, é um

paradoxo, que pedimos licença para não acreditar, embora tenha a seu

favor o testemunho _insuspeito_ de generaes que haviam metralhado a

liberdade por conta da reacção, e que se ufanavam com a intimidade dos

chefes do jesuitismo; embora se estribe nos elogios gratuitos de

funccionarios collocados n'uma situação elevada, mas dependente desses

pios generaes, e que nada perdiam em exaggerar, á vontade delles, os

serviços dos jesuitas, dos lazaristas, das irmãs de caridade, ou de

outras quaesquer corporações, que elles pretendessem exaltar.

Os pomposos relatorios das maravilhas practicadas pelas irmãs de

caridade no Oriente o que provam de modo peremptorio é que a reacção é

hábil. Sabeis o que se passava então no paiz que ellas abandonavam para

supprir as insufficiencias dos governos da Inglaterra, da França, da

Sardenha e da Turquia? Dir-vo-lo-hemos. Em França, dos doze milhões de

desgraçados cuja alimentação consiste apenas em centeio, batatas e agua,

e que em grande parte vivem em casebres infectos[18], morriam de fome e

de miseria oitenta mil pessoas, só no decurso de 1855! É uma auctoridade

insuspeita, o chefe actual da repartição de estatistica em França, que

no-lo assegura[19]. Onde era o posto da irmã de caridade francesa no

meio de tantos infortunios? Era na patria, ou nos acampamentos do

Oriente? Era ao pé do soldado, ferido ou doente, mas de constituição

robusta e de animo féro, vigiado, acariciado pela previdencia sollicita

dos poderes publicos, ou na aldeia, no casal solitario, na agua furtada

do operario fabril, ao pé da enxerga do velho, da mulher, do infante,

nús, esfaimados, esquecidos do mundo, abandonados pela caridade publica,

e enviando, talvez, no ultimo alento um grito de maldicção á sociedade?

Se, educadas antes de se descobrir em França, que toda a mulher deve

aprender nos primeiros annos a executar os artefactos proprios do seu

sexo, não podiam trabalhar de noite e dia para ministrar aos extenuados

e quasi moribundos, não confortos, não carinhos, não suavidades, mas

simplesmente um bocado de pão negro que devorassem assentados no atrio

da morte, podiam ao menos forcejar para que o ultimo suspiro delles não

fosse um grito de desespero, mas um murmurio de resignação; podiam ir

pelas portas do palacios sumptuosos implorar a piedade dos ricos; pelas

moradas da devoção opulenta pedir-lhe que fechasse por minutos o _Mez de

Maria_, para ler algumas paginas d'um livro plebeu chamado o Evangelho,

que bastou para inspirar todas as virtudes, todos os heroismos do mais

ardente amor do proximo nos seculos primitivos do christianismo. Os

preceitos do livro plebeu podiam cumprir-se em França. Não sabemos se

foram cumpridos no Oriente.

O que sabemos é que a piedade com o infortunio, exercida obscuramente,

no casebre, na mansarda, nos recèssos onde se occultam as grandes

miserias, vê-a sómente Deus. A Criméa, Athenas, Varna, Gallipoli eram

proscenios diante quaes se assentava espectadora a Europa, e a reacção

sabe o que valem as artes scenicas. O theatro tentava! Se não servia

excessivamente a humanidade enviando as irmãs de caridade ao Oriente, o

lazarismo escrevia um magnifico thema para as pareneses dos seus

missionarios, quando tractasse de as introduzir e de se introduzir, á

sombra dellas, em qualquer paiz, onde a reacção carecesse do seu

auxilio.

Aggredida, não só desde o primeiro dia da sua existencia, mas, até,

ainda antes de se constituir, a Associação Popular Promotora da Educação

do Sexo Feminino precisava de mostrar a sua opportunidade, a sua indole

e os seus fins. Para isto cumpria traçar rapidamente a historia da

reacção nos ultimos dez annos. Essa historia revela o progresso

constante da idéa reaccionaria, a sua pertinacia e as suas victorias. Os

factos provam que o partido liberal necessita, emfim, de acordar do seu

longo torpor, e essa necessidade justifica a existencia desta

Associação. Os anteriores triumphos dos sectarios de toda a especie de

despotismo tem sido daquelles que um governo firme e esclarecido póde

facilmente inutilisar em qualquer tempo. A perversão, porém, das

gerações novas, sobretudo a perversão do espirito das mulheres, produz

consequencias fataes, duradouras, e difficeis de extirpar. No homem, a

instrucção superior e a experiencia do mundo corrigem às vezes as idéas

falsas, as más tendencias da primeira educação. Á mulher faltam de

ordinario esses dous auxilios. Vehiculo seguro da peçonha que lhe

instilou no entendimento a maldade, vai, sem o saber nem o querer,

propiná-la no seio da familia aos que entranhavelmente ama. Persuadida

uma vez de que as abusões e os actos mais contrarios à indole grave e

servera do christianismo são condições da vida religiosa, não ha

superstição, nem crendice que não imprima, com a quasi

indestructibilidade das primeiras impressões, em animos innocentes, que

ella, na sinceridade do seu coração, crê guiar pelo caminho do céu.

Corrompe, logo a dous passos de berço, o infante regenerado pelo

baptismo; torna moralmente rachitico o que, como christão e como homem

social, deve ser moralmente forte. Da juventude até a velhice vai

semeando na terra o mal e o erro, e morre tranquilla. Morre tranquilla

com razão; porque foi apenas o baculo na mão do cego, a lima na mão do

obreiro, o punhal na mão do assassino.

É da educação que póde dar e receber a mulher que a reacção tende a

apoderar-se introduzindo em Portugal as irmãs de caridade francesas. Nos

asylos da primeira infancia a mestra substitue a mãe; na eschola do sexo

feminino educam-se as que hão de ser mães. Entregae esse asylo e essa

eschola á influencia de congregações fortemente constituidas, e hoje

arregimentadas para combater o liberalismo, e calculae como pensarão

daqui a vinte annos as gerações novas, e o que será feito, d'ahi a

outros vinte, da liberdade politica e do verdadeiro christianismo.

A Associação Popular Promotora da Educação do Sexo Feminino deplora a

fraqueza dos poderes publicos diante dessa tentativa audaz; lamenta que

não haja nesta terra quem fale em nome do direito natural, da

constituição, das leis e da sociedade; que os Thomés Pinheiro da Veiga,

os Josés de Seabra, os Pereira Ramos não tivessem successores; que não

se alevante uma voz auctorisada pelo seu cargo para revocar os governos

e os funccionarios ao sentimento do proprio dever. Pessoa moral

particular, composta de simples cidadãos, esta Associação não póde nem

quer substitui-los; limita-se a repellir o empenho ultramontano na

esphera de acção que as instituições lhe concedem. Busca oppor o asylo

liberal, a eschola liberal, ao asylo ultramontano, á eschola

ultramontana. A lucta não é nem facil, nem ingloria. Independente das

suas allianças, publicas e secretas, e do pensamento politico que

servem, os humildes missionarios de S. Vicente de Paulo não são

adversarios de desprezar. Se não brilham, como nunca brilharam, pela

sciencia, tem outra força que a vale. Rotschilds das congregações

religiosas, dispõem de milhões, prudentemente empregados nos fundos

publicos de diversas nações da Europa, e adquiridos nas pias

especulações do commercio e da industria[20]. Não é inglória a lucta

para manter o _escandalo_ de não ser representada nas assembléas geraes

da congregação lazarista a _provincia_ de Portugal[21].

Dizem-nos que viemos tarde; que outras associações nos precederam no

empenho da educação. Cremos, apesar disso, que viemos a ponto. Não temos

a pretensão de havermos inventado a eschola; não temos mais enthusiasmo

pelas escholas do que por outro qualquer meio de civilisação moral ou

material. Não nos associámos até aqui para as fundar, pela mesma razão

porque não nos associámos para construir estradas, ou caminhos de ferro,

ou caixas economicas, ou bancos ruraes, ou presepes da infancia no

berço. A lei do paiz impõe a todos os cidadãos o dever de mandar seus

filhos á eschola, e obriga, portanto, o estado a subministrar-lha.

Pagamos os tributos, e nunca prohibimos aos nossos mandatarios que

votassem amplamente os recursos pedidos para quaesquer institutos de

educação publica que reputassem necessarios ou uteis. Fiámo-nos nas

leis, nos governos, nos parlamentos. Podiamos instituir escholas como

especulação: não quizemos especular no genero. Se intentamos fundá-las

hoje, é como instrumento politico; é porque a reacção caminha ha dez

annos de conquista em conquista, e aggride agora a liberdade por um lado

perigosissimo. O procedimento dos poderes publicos durante dez annos e

as suas tristes hesitações na actual conjunctura legitimam, sanctificam

a nossa resolução; porque se tracta do envenenamento moral da sociedade

pelo envenenamento moral da familia. Uma lei desta terra, uma lei de

sete seculos, uma lei cuja duração representa um profundo sentimento de

honra, diz que se póde ser homicida sem crime quando a prostituição do

adulterio vai ennodoar o seio da familia[22]. É que a familia é a

molecula social, e gangrenada ella, a sociedade esphacela-se n'um monte

de podridão. Vamos muito menos longe que a lei. E todavia o perigo é

maior; porque nos seminarios da reacção não se hostilisa só a liberdade:

ensina-se tambem a revelar á donzella e á mãe de familia delictos mais

monstruosos que o adulterio. Defendemos nossas mulheres, nossas irmãs

nossas filhas: defendemos as mulheres, as irmãs e as filhas dos que hão

de vir depois de nós. Onde estará aqui o crime, a violencia, o erro, o

motivo sequer de suspeição? Não dissimulamos, não tergiversamos; a nossa

linguagem é simples e explicita como as nossas intenções.

E diz-se-nos que eduquemos por educar, e instruamos por instruir; que

instituamos cidadãos aptos para todas as fórmas de governo; que

ensinemos a ler e escrever e a doutrina christã, e não curemos de mais

nada. Todos esses conselhos não chegam a ser absurdos: ficam aquém; na

demencia. Educar por educar! Instruir por instruir! Só ha uma cousa nas

obras humanas que tenha em si mesma a sua causa final; é a arte. Tudo o

mais tem por objecto a sociedade ou o indivíduo. A educação não é nenhum

poema, nenhum quadro, nenhuma partitura: a educação e a instrucção são o

acto pelo qual uma geração transmitte a outra os thesouros de progresso

moral e intellectual que herdou e augmentou; são uma grande questão

social, e é por isso que o estado exerce nellas intervenção tão ampla.

Se não fosse assim, a lei que, em todos os paizes cultos, fórça os

individuos a receberem na eschola esse baptismo da civilisação, fora

tyrannia; fora tyrannia a inspecção do estado na educação livre. Crear

cidadãos aptos para todas as fórmas de governo! Mas ha fórmas de governo

que vos pedem vassalos, que vos pedem servos, que vos pedem escravos,

mas que não vos acceitam cidadãos. Se quereis subministrar-lhes o que

elles pedem, fazei-o: nós não queremos. Nós forcejamos para que a

geração que vier após nós seja uma nobre raça de homens livres; que

odeie, não o reaccionario, que póde estar involutariamente no erro, mas

o despotismo e a servidão; queremos affeiçoar uma geração nova

rancorosa, mais rancorosa do que nós. Que ensinemos a ler, a escrever, a

contar, e a doutrina christã sómente. Ensinae-o, se podeis, a uma

creança sem lhe imprimir no espirito, cincoenta, cem, mil vezes mais

idéas do que as necessarias para possuir esses elementos de cultura.

Metade do que conhece do mundo material e moral a mais vasta

intelligencia adquiriu-o na infancia. É nessa épocha da vida que a

torrente das idéas, boas ou más, exactas ou inexactas, accumuladas pela

tradição humana, se precipita com mais força no nosso espirito. O ensino

voluntario e previsto é, sem comparação, menor do que o involuntario e

desapercebido, que do educador ou do mestre recebe o educando ou o

discipulo. As preoccupações e os erros de facto ou de apreciação passam,

com a mesma facilidade que as idéas sans, de um para outro espirito, e

passam, a cada hora, a cada momento, com uma auctoridade, com um

prestigio, que não tem as transmittidas pelos outros individuos que

revelam ao homem na infancia o mundo em que vai viver. Estas verdades

triviaes, elementares, só as ignora quem as quer ignorar. A reacção póde

fazer com que as affoguem em phrases oucas e em paradoxos; mas próva de

sobejo, pelos seus actos, que sabe o que ellas valem. Tambem nós o

sabemos; e nessas phrases e nesses paradoxos não vemos senão uma injuria

á recta razão do paiz.

No meio das puerilidades, das affrontas, das calumnias, das maldicções,

nós proseguiremos ávante nesta cruzada sancta da civilisação e da

liberdade. Chamamos a ella todos os homens sinceramente liberaes, que

não estão resolvidos a transigir com genero algum de absolutismo, nem no

estado, nem na igreja. Esses homens são os que querem as consequencias

da restauração de 1833, restauração que foi ao mesmo tempo uma grande

revolução, ou antes a unica revolução verdadeiramente importante deste

paiz. A guerra da reacção é dirigida ainda mais contra as conquistas

sociaes que então fizemos do que contra o governo parlamentar, embora

tambem este seja aggredido. Querem-se os dizimos, os bens da corôa, os

direitos de foral, os privilegios de casta ou de classe, os officios

hereditarios, as rendosas capitanias-móres, as mitras opulentas, as

ricas abbadias, os beneficios patriarchaes, a magestade do throno

calumniada pela rapacidade cortezã, a suppressão da imprensa, methodo

facil de moralisar, que consiste em fazer silencio ao redor da

corrupção. A liberdade tornou-se incommoda, não só para os que perderam

com os successos de 1833, mas tambem para muitos daquelles que mais

ganharam com elles. Os que esgotaram o que a nova situação tinha para

dar, vêem agora que o absolutismo dispunha de instrumentos mais

efficazes para sugar da riqueza publica, do fructo do trabalho honesto,

a quota do luxo e da devassidão dos escolhidos. Todas essas deplorações

sobre a decadencia da moral e da religião; todos esses esforços para

restaurar instituições derrocadas, são calculos de cubiça. O fanatismo é

raro: o que está sendo vulgar é a hypocrisia. As comparações que se

fazem do presente com o passado são falsas. Sem desconhecer que os

costumes estão corrompidos, protestamos, com a historia nas mãos, que a

decadencia moral dos seculos de absolutismo era muito maior do que a

nossa. O remedio do mal presente não está em approximarmo-nos delles,

está em affastarmo-nos. Os que pensam o contrario illudem-se; os que

fingem pensá-lo são os que querem lucrar com as especulações ao divino.

Deploramos que, semelhantes ás facções religiosas do Baixo-Imperio,

anathematisando-se mutuamente dentro dos muros de Constantinopola

assediada pelos mussulmanos, as parcialidades liberaes não ouçam, no

meio das suas discordias, o estrepito da reacção que marcha de victoria

em victoria. Extranha a essas parcialidades, sem compromissõs

anteriores, esta Associação a nenhuma tem de servir, nem de combater.

Não busca para si um logar no meio dos grupos que pleiteiam na urna, no

parlamento, e na imprensa um poder ephemero. Não tem ninguem a quem o

offerecer. Que o partido liberal não abdique; ficará satisfeita. Todos

os governos devem estar tranquillos ácerca da influencia maior ou menor

que ella possa exercitar, porque não ha de empregá-la senão contra os

homens que se mostrarem deliberadamente favoraveis ás tentativas

reaccionarias. Esses, se um dia se acharem no poder, contem com uma

hostilidade implacavel da parte della. Persigam-na, que é do seu

interesse fazê-lo. Hoje constitue-se para fundar escholas e asylos; póde

amanhã alargar a esphera da sua acção, ou transformar-se. As phases da

lucta determinarão o seu proceder. Se por emquanto só tracta de atalhar

o perigo presente, porque é gravissimo, não se infira d'ahi que cruzará

os braços quando qualquer outro perigo igualmente grave ameaçar a

sociedade nova, e a aggredir nas suas tendencias, na sua indole, ou nas

suas tradições. Se a aggressão é ainda mais social que politica, a

defesa hade ter os mesmos caractéres.

Como os antigos templarios, cujas preceptorias se collocavam nos confins

dos paizes remidos para o christianismo e na frontaria dos sarracenos,

nós vamos plantar as nossas tendar de guerra juncto aos marcos que

dividem os dominios da reacção dos dominios da liberdade. Vigiaremos

emquanto outros dormem: combateremos emquanto outros disputam. Quando

algum de nós cahir, os seus companheiros perguntarão quem rege os

arraiaes da liberdade; perguntá-lo-hão para pedir sete palmos de terra

livre que dê asylo ao que cahiu. Se os houver para no-los darem, não

indagaremos como se chamam os que no-los concederam. Sabemos que esses

sete palmos não podem estar encravados em terra de servos. Eis o facto

importante, e o fim supremo desta Associação. É o titulo da melhor

herança que temos de legar a nossos filhos.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 02 · 第 19 / 21 题