III

Os xeques da tribu arabe de Bka estavam um dia, pela volta da tarde,

assentados juncto das columnas de um templo, na extremidade oriental da

acrópole de Balbek.

D'aqui, pondo a mão sobre os olhos para os resguardarem do sol que os

deslumbrava, os chefes da tribu de Bka alongavam a vista para a banda do

poente.

E o sol, que descia rapido, mandava a sua luz suave atravez daquellas

arcarias gigantes o immensas; daquellas columnas monolithas, a menor das

quaes os braços de dez mil árabes não valeriam a erguer.

A hora era de meditação e de melancholia, e os xeques olhavam com

aspecto carregado para a ossada grandiosa da erma cidade, que é como um

olhar de desdem com que o mundo antigo contempla o mundo moderno, e é ao

mesmo tempo demonstração solemne da vaidade disso a que se chama poderio

e gloria, cuja duração se confunde na eternidade com a duração de um

dia.

E por entre aquellas rumas de mármores e de syenites viam-se passar,

buscando as suas leves e moveis habitações, dispersas entre as ruinas,

os arabes do deserto, semelhantes aos gusanos que refervem no cadaver

meio apodrecido do elephante abandonado pelos caçadores nas margens

solitarias do Zambeze.

E depois de largo silencio, um dos xeques abaixou os olhos e, com voz

presa de furor intimo, disse para os companheiros:

«Porque consentiremos nós, os filhos do Propheta, que estes gigantes de

pedra estejam continuamente assoberbando a tenda humilde do arabe, que

passa livre no mundo?

Se a nossa vida é um instante, o homem não deve construir edificios

destinados a transpor seculos. É quasi blasphemia revestir o transitorio

com o trajo da eternidade. A eternidade não é da terra; é do paraiso.

Porque haviam de querer os que já não são immobilisar no deserto para os

seus ultimos netos esse arraial quasi interminavel de tendas de pedra?

Para que semeiaram as gerações passadas uma seara immensa de abysmos

pelos pendores do Ante-Libano, arrancando delle pedreiras macissas, como

se fossem os grãos de areia, com que ergue collinas movediças o sopro do

Simúm quando varre o deserto?

Que temos nós com os tempos que já passaram, para que elles venham

increpar-nos com a muda insolencia dos monumentos o nosso livre e solto

viver, e instituir parallelos offensivos entre a decadencia actual e o

esplendor das artes e a magnificencia laboriosa e incommoda daquellas

eras de grandeza e poderio?

Que importa que então saissem da Assyria os conquistadores da Asia e as

frotas que descobriam novos céus e novos mares, ou que os poetas de

então tivessem para cantar lendas de façanhas quasi incriveis?

Em vez das conquistas, a liberdade. Hoje não ha acto que seja defeso ao

arabe do deserto. Corremos livres por livres descampados. Embora o

reluzir do sabre de um spahi de Ibrahim faça fugir aterrados cem

cavalleiros nossos, e o frangue do occidente nos despreze como barbaros.

Saboreamos quietamente o pão esmolado ou arrebatado ao que o cultivou

para nós. Da bolsa do viandante o ouro cai-nos aos pés com seu dono. O

nosso trabalho é apenas erguer aquelle quando este cai. Depois de uma

vida sem sacrificio, sem amarguras, que nenhum monumento contará aos

vindouros, dormiremos na paz do esquecimento, porque não deixaremos

vestigios da nossa jazida. Não se revolvem os ossos dos mortos, quando o

seu ultimo abrigo é a amplidão do nosso oceano de areias, que não

consente nem lapides, nem inscripções, nem edificios na sua face

tristemente pallida.

Porque, pois, continuarão eternamente erguidos estes templos, estes

palacios, estas muralhas, reprehensão ou antes injuria perpetua ao nosso

viver?

Que se ajunctem os filhos das profundas solidões do deserto, e que, dia

a dia, vão esboroando uma parte, minima que seja, desses pannos de muros

de cem covados, formados de poucas pedras; dessas columnatas, sobre

cujos frizos e arestas pousa á noite o abutre, como costuma pousar sobre

a cumiada de longa serrania, a que essa obra de homens se assemelha.»

Callou-se o xeque. Os outros abaixaram as cabeças com lento meneio, como

quem approvava o dicto.

Se eu, se vós, chegassemos neste momento ao pé do velho templo de Balbek

e ouvissemos o discursar do beduino, o que diriamos no primeiro impeto

de justissima indignação?

Diriamos que o xeque era uma vibora, que, esmagada debaixo de vinte

seculos, queria voltar contra a historia os dentes envenenados, como se

a peçonha da sua colera podesse anniquilar a historia.

E antes que a nefanda obra que elle traçava e os demais applaudiam

começasse a ser executada, falariamos assim áquelles loucos:

«Vós outros quereis derribar a memoria das gerações que foram, porque a

magestade do passado pesa mais sobre a vossa consciencia do que pesam

sobre esse chão que parece acurvar-se e gemer debaixo de tantas

grandezas, os pylones macissos, as sphinges gigantes, as arcarias

profundas, as pedras de dez covados inseridas em muralhas

indestructiveis. Melhor fora que forcejasseis por ser tambem grandes,

convertendo-vos á virtude antiga, e que, em vez de constituir um bando

de miseraveis, vos tornasseis n'uma nação illustrada e forte, capaz de

legar á posteridade monumentos como estes, quando lhe chegasse a sua

ultima hora; porque a morte abrange todas as sociedades, todas as

civilisações, como abrange todos os individuos.

Credes que a luz do sol occidental, batendo nas columnas avermelhadas do

velho templo, vos reflecte nas faces envilecidas o rubor que as tinge?

Não sentis o sangue que estas palavras vos fazem subir do coração ao

gesto? É o sangue e não o marmore; é que, mau grado vosso, ellas foram

despertar uma voz que não podeis soffocar, a da consciencia, que vos

reprehende da actual decadencia. A vermelhidão que surgiu nessas faces

crestadas não reflecte da pedra lisa; reflecte-se das almas que se

rebellam contra si mesmas.»

Ouzariamos nós, em verdade, dizer isto aos beduinos, sem que tambem o

rubor viesse tingir-nos as faces?

Não; porque somos como elles; porque, bem como elles, nos persuadimos de

que, varrendo todos os vestigios do Portugal antigo, poderemos esconder

aos estranhos a nossa decadencia actual; porque, além disso, cremos que

para ser deste seculo, é preciso renegar dos antepassados.

Todavia, ainda ha quem deplore a destruição das memorias venerandas de

melhores tempos; ainda ha quem lucte contra a torrente de barbaria que

alaga este paiz tão rico de recordações, recordações que tantos animos

envilecidos pretendem fazer esquecer. Sabemos que os nossos brados de

indignação acham echo em muitos corações. Temos visto e recebido cartas

acerca deste assumpto escriptas com a eloquencia da convicção e de

profundo despeito. São protestos solemnes de que nem todos os filhos

desta terra venderam a alma ao demonio da devastação. Provam ellas que o

ruido dos alviões e picaretas não basta para afogar os brados da razão,

da consciencia e do amor patrio. Lendo-as, o sangue referve nas veias

contra essa idéa fatal que entrou na maioria dos espiritos, de que tudo

quanto é antigo é mau ou insignificante, quando a peior cousa que ha é

essa idéa, a mais insignificante a cabeça onde se aninha, a mais

destestavel a mão que a traduz em obras, estampando sobre a terra da sua

infancia a inscripção que o atheismo decreta para os sepulchros:--aqui é

a jazida do nada.

É singular, por exemplo, a historia das recentes vicissitudes por que

tem passado a collegiada de Sancta Maria da Oliveira em Guimarães.

Guimarães parece fadada para victima desta especie de escandalos. A

igreja da collegiada de Guimarães era um dos mais bellos monumentos de

architectura ogival. O seu tecto de grossas vigas primorosamente

lavradas constituia com o da sé do Funchal e poucas mais toda a riqueza

de Portugal neste genero, porque, durante a idade média, empregava-se

geralmente a abobada de pedra nas edificações sumptuosas. Além disso, as

bem proporcionadas arcarias, os capiteis adornados de esculpturas

variadas e subtis, as tres naves magestosas divididas por elegantes

columnas, inspiravam em subido grau aquelle respeito melancholico e

saudoso que é um segredo das igrejas chamadas gothicas. Os annos não

tinham deslisado em vão por cima do monumento: arruinado em partes,

carecia de reparos. O cabido ajunctou para isso grossas sommas.

Chamaram-se obreiros, e ha sete ou oito annos que estes lidam por apagar

todos os vestigios da antiga arte. Quebraram-se os lavores dos capiteis

e cornijas: substituiram-se com pedras lisas: estas pedras cubriram-se

de madeira: esta madeira dourou-se, pintou-se, caiou-se. O templo do

Mestre d'Aviz lá está alindado; lá está cuberto de arrebiques. Os que

deviam manter-lhe a magestade das cans; os que deviam dispender seus

thesouros accumulados, não em remoçá-lo, mas em conservar-lhe o

venerando aspecto e as rugas dos seculos, fizeram da casa do Senhor um

velha prostituta que esconde debaixo do caio e do carmim a flaccidez do

gesto. Blasphemaram de Deus, não com blasphemias de palavras, mas com a

blasphemia das obras. Deram emfim documento indubitavel de que não havia

alli quem soubesse a harmonia que existe entre a architectura e a

religião; que se lembrasse de que o livro da lei e o templo são dous

typos sensiveis, dous verbos que inspiram, um directamente ao espirito,

outro symbolicamente aos olhos, as relações entre o homem e Deus, e de

que não só é impiedade negar ouvidos ao verbo escripto, mas que tambem é

impio rasgar o livro de pedra.

E que disseram os habitantes de Guimarães durante oito annos em que os

vermes andaram a roer naquelle cadaver?

Louvaram o _bonito_ da obra. O longo tasquinhar do cabido

despertou-lhes, até, o appetite. Alguns lembram-se já de demolir as

muralhas da villa reconstruidas por D. Dinis. Talham ainda banquete mais

lauto. Tentam arrasar as paredes que restam dos paços do conde Henrique;

dos paços onde Affonso I nasceu. A gloria dos conegos de Santa Maria da

Oliveira, tão dispendiosamente conquistada, offuscar-se-hia, assim, por

pouco dinheiro, como a luz pallida da lua nos esplendores do surgir do

sol.

Arrasados, pois, os muros reconstruidos pelo rei lavrador, apagados os

ultimos vestigios dos paços dos nossos primeiros monarchas, raspado e

serapintado o interior da igreja de Santa Maria, Guimarães, em vez de

ficar antiga, ficará velha garrida. Unicamente, para a trahir, lhe

restará uma ruga na face: o frontispicio da collegiada. Mas se a

picareta do municipio pretender humilhar, como sacrilegamente se cogita,

o colherim, as tigellas de ochre e vermelhão e as broxas canonicaes,

vingue-se o illustrissimo cabido arranjando mais alguns vintens, e

mandando á custa delles picar e caiar aquelle frontispicio. Depois, para

esmagar de todo as audazes emulações burguesas, enfeite triumphantemente

a frontaria da sua igreja com um rodapé encarnado.

Mas haverá um governo que tolere tantos desvarios, tantas devastações

brutaes? Póde haver, e ha. Não seria difficil encontrar ministros e

administradores geraes, que, se não fora o defeito de lerem sem

soletrar, symptoma altamente suspeito para os eleitores, dariam

excellentes vereações aos concelhos desta terra, onde o sangue dos

conquistadores suevos parece ter ficado predominando nas veias dos seus

habitantes. Mais de um governo tem disputado ás camaras municipaes

primores de barbaridade. Já alludimos á igreja de S. Francisco do Porto

convertida em armazem da alfandega; ao claustro de Belem convertido em

dormitorio; ao abandono dos conventos de Thomar, da Batalha e de

Alcobaça. Ha, porém, mais. Vede essa igreja de S. Domingos de Santarem.

As suas velhas e grossas portas estão fechadas e o convento está vazio

dos seus antigos habitadores. Não é, todavia, provavel que o templo

mandado edificar pelo malfadado Sancho II e de cuja primitiva fabrica

ainda resta inteira a capella mor, ficasse deserto de culto, como o

convento ficou ermo de frade. A suppressão das ordens monasticas não foi

a abolição das solemnidades religiosas. Vede, pois, o templo, que, se

agora está fechado, não tardará a ecchoar com orações e psalmos.

Transportae-vos pela imaginação para o interior da igreja na hora em que

os canticos e o incenso se alevantam ante o altar; em que o orgam sólta

a sua voz melancholica; em que a nave está cheia de povo e o sacerdote

ora por elle e com elle; na hora em que o sol coado através das esguias

janellas reflecte pelas pedras que o tempo amarelleceu uma luz

suavemente pallida; imaginae essa hora, e vereis que, se o convento se

despovoou, nem por isso ficou despovoado o templo. A oração do

dominicano não é necessaria nas solemnidades da igreja. Não o abandonou

á soledade a pia sollicitude dos fieis. De noite, as lampadas,

penduradas ao longo da nave, ou brilhando na escuridão das capellas,

como estrellas engastadas em céu profundo, despedem frouxos raios que

vão quebrar-se por cima de campas onde se divisam, em caracteres

confusos e gastos nomes de varões illustres que alli vieram repousar das

lidas da vida á sombra da cruz. Lá estão os sepulchros de Gil e de

Martim d'Ocem, cuja voz exprimia a summa razão e a summa sciencia nos

conselhos dos reis; lá alveja o jazigo do infante D. Affonso, filho de

Affonso IV, e o de Fernando Sanches, a quem Fr. Luiz de Sousa chama

_bastardo querido_ de D. Dinis. Por ahi dormem muitos pobres frades,

cuja vida obscura, mas cuja morte foi invejada. Misturam-se alli os

ossos dos que foram grandes na terra com os dos que reputamos grandes no

céu; e uns e outros são como testemunhas que tornam mais solemne o

culto, esse laço que liga ao céu a terra. Mas as portas do edificio

sagrado rangem nos quicios de ferro, para se abrirem de par em par.

Ondas de povo vão precipitar-se pelo estreito ádito e espraiar-se até

juncto do altar. O sacerdote vai começar o sacrificio incruento, e o

orgam acompanhar as orações com as suas harmonias. Entremos.

Não! Refujamos! Orações, psalmos, harmonias, luzes, incenso, sacerdotes,

povo, nada disso ha ahi. Há só as trevas da nave pesando sobre as trevas

dos sepulchros. O velho templo é um palheiro do Commissariado...

E quem fez isso? Foi o vereador boçal de um concelho obscuro? Não. Foi o

governo de uma nação que se diz civilisada, ou que pelo menos toma

assento no convivio das nações da Europa.

Quasi contiguo á igreja palheiro existe outra, modelo em muitas cousas

da mais elegante architectura ogival. É a do extincto convento de S.

Francisco. Lá, na parte da nave sobposta ao côro, o tumulo da infanta D.

Constança, cujos lavores se vão diariamente quebrando e oblitterando,

serve de cabide a sellins e arreios de cavallaria. Applicação igual e

igual fim vai tendo o del-rei D. Fernando, que anteriormente os frades

tinham transferido da nave para o côro.

Com estes exemplos do governo não é de admirar que ahi mesmo em Santarem

se derribem as portas das velhas muralhas para calçar as ruas, ou que na

antiga villa da Torre-de-Moncorvo, hoje Moncorvo só, a antiquissima

torre que dera origem e nome á povoação, fosse deitada por terra com o

mesmo intuito; que, emfim, se tracte de dar ás muralhas da Guarda

identico destino. Aqui o vandalismo confunde-se com a demencia. Na

Guarda, ninho d'aguias, collocado no cimo de um cerro de granito, a

pedra vai calçar a pedra. D'antes, no inverno, o viver alli era bem

duro, quando os edificios estavam abrigados atraz da solida cerca.

Agora, o vento gelado que passa pelas cumiadas da serra da Estrella virá

precipitar-se rugindo por aquellas ruas meio desertas e tornar

inhabitavel a povoação. A Guarda, que em si propria é um monumento, e

que encerra uma cathedral magnifica, estará no decurso, talvez, de

poucas décadas convertida n'um covil de féras.

Dos males que os seculos passados legaram ao presente nenhum foi tal

fatal como a ignorancia em que deliberadamente se conservavam as

multidões. Essa ignorancia que ha de levar annos, talvez seculos, a

dissipar, era incomparavelmente menos nociva em epochas de servidão,

quando o poder absoluto, concentrado em poucas mãos, podia facilmente

reunir n'um foco as luzes intellectuaes do paiz e aproveitá-las

desassombradamente na solução das questões de administração. Hoje que o

vassalo se converteu em cidadão; hoje que os erros e preoccupações das

intelligencias incultas se despenham de todos os lados na torrente da

opinião publica e se confundem de modo inextricavel com as idéas

sensatas; hoje, finalmente, que é necessario não afrontar essa torrente,

nem querer fazê-la refluir á força, os resultados fataes da ignorancia

são incomparavelmente mais difficeis de evitar e remediar. Se as portas

dos ministerios estivessem fechadas para os arrasadores professos, e

fosse exigivel dos pretendentes a pastas uma justificação de que, nem

pelo lado paterno, nem pelo materno, descendiam de algum soldado de

Genserico, ainda assim, dada a competencia dos magistrados municipaes, e

o valor moral que resulta para os seus actos da sua origem electiva, um

governo illustrado, mas que não quizesse ultrapassar os limites da

propria auctoridade, não poderia talvez reduzir completamente ao

silencio o fragor das demolições que reboa por todos os angulos do

reino. O camartello é o enlevo, o bezerro d'ouro, o Moloch, o Baal da

nossa burguesia. Um camartellão deitado sobre uma ara de pedra em frente

dos paços do concelho deveria substituir os seculares pelourinhos

(tambem já, em parte, roidos ou despedaçados), como symbolo do poder

municipal.

Imaginemos, de feito, cinco, seis, ou mais figurões assentados ao redor

d'uma banca, falando sem juizo, ás vezes sem decencia, sempre sem

grammatica, sobre a administração do municipio, e ponderando os

proveitos e aformoseamentos que para este hão-de resultar da destruição

de um monumento da arte ou da historia. Lá pede a palavra um delles,

logista gordo, ensebado, vermelho, quasi-virtuoso, e cujas unhas e cuja

barba estão accusando a tesoura e a navalha de vergonhoso desleixo no

desempenho das respectivas funcções. É o Demosthenes do conciliabulo.

Aprendeu a ler pela Historia de Carlos Magno e dos Doze Pares, e é

assignante das traducções de Paul de Kock, para se exercitar. Um

palacio, um muro, uma igreja de eras remotas fazem-no estremecer de

horror. Ao lado de cada ameia do castello ermo lhe parece enxergar um

cavalleiro cuberto de armas ferrugentas; em cada torre crê ouvir soar as

badaladas da campa feudal. Escutam com assombro os outros cidadãos

vereadores o Mirabeau logista. Os animos commovem-se: os cabellos

arripiam-se. A sentença contra o monumento vai ser fulminada. Ha um

instante de terrivel silencio. O presidente pede votos.--«A terra»:--diz

o homem gordo.--«A terra»:--vão repetindo com voz solemne os outros

membros do sanhedrim. Então o secretario lavra o fatal accordam. Por

entre aquellas letras, logo á nascença amarellas, e escriptas com penna

de duvidosa classificação ornithologica, surge magestosa no meio de cada

palavra uma letra capital, como que protegendo as que a precedem e

seguem. Acabou-se emfim a magistral composição: o erudito secretario

estende o papel ao presidente, que, enlevado na voz melodiosa da

consciencia a asseverar-lhe que fez desmarcado serviço á patria, o

recebe ás avessas, e lhe lança no topo, com ademan desdenhoso, a cruz de

seu signal. Passa aos outros juizes a acta fulminante. O logista que,

por incessantes exercicios gymnasticos nas paginas de Paul de Kock, já

soletra com rapidez vertiginosa, e conhece n'um relance o erro do

presidente, cujo pundonor litterario não ousa, aliás, ferir advertindo-o

do lapso, escreve o proprio nome, em menos de dez minutos, no seu devido

logar, e debaixo da garatuja do Mirabeau burguês, os outros magistrados

municipaes vão plantando as respectivas cruzes n'um devoto calvario.

Emfim, o secretario assigna, e o crime está consummado.

Torre, muro, paço, ou o que quer que sejas, cuja ruina foi decretada,

para ti já não ha salvação. Amanhan, nos teus lanços desconjunctados, no

teu cimento desfeito, nas tuas pedras estouradas, nos teus fundamentos

revoltos, estará escripto á ponta de picareta e de alavanca a palavra

fatal--«a terra!»--extrahida do calvario municipal.

Mas--dir-se-ha--que quereis que se faça ácerca dos monumentos? Que

queremos que se faça?! Que se deixem em paz. Não pedimos museus; porque

estes não são, digamos assim, senão necropoles, em relação á

architectura. Depois, em muitos casos, os monumentos não se transportam,

nem cabem lá. Os fragmentos de um edificio, tirados do seu logar, sem

destino, sem união, são mortos; são cinza e pó de cadaveres. Reunam-se

em bibliothecas e em galerias os livros e os quadros que não foram

roubados, estragados ou abandonados por ignorancia crassissima; mas as

pedras só pedem repouso. Que os representantes do paiz lhe salvem os

seus titulos mais nobres. Haja no seio do parlamento uma voz que se

alevante energica a favor do passado. Essa voz achará eccho em todos os

districtos do reino, porque em todos elles há homens sisudos e peitos

generosos. Appareça uma lei ácerca do assumpto, efficaz pela sancção do

castigo, já que, n'um seculo corrompido e de decadencia, as

palavras--pundonor e gloria--vão insensivelmente passando para o

glossario dos archaismos. Entenda-se, emfim, que nenhum monumento

historico pertence propriamente ao municipio em cujo ambito jaz, mas sim

á nação toda. Por via de regra, nem a mão poderosa que o ergueu regía só

esse municipio, nem as sommas que ahi se despenderam sairam delle só,

nem a historia que transforma o monumento em documento é a historia de

uma villa ou cidade, mas sim a de um povo inteiro. Se, por exemplo, aos

habitantes de Guimarães, de Coimbra, do Porto ou de Lisboa não importa

que desappareçam as mudas testemunhas dos factos que ahi se deram, dos

homens que ahi passaram; se não lhes importa que o viajante vá examinar

os monumentos que os livros dizem existir ahi, e que, achando-os

convertidos em pavimentos das ruas, fuja espavorido temendo alguma

fréchada ou azagaiada, suppondo-se, por illusão momentanea, nos sertões

invios da Cafraria; se não curam da propria reputação, consentindo que

os seus eleitos vão assentar praça posthuma nas extinctas legiões

d'Attila, e que o seu clero se filie na seita dos modernos iconoclastas,

ao menos que o governo e o parlamento não deem ao mundo documento de

igual ignorancia e barbaria, mas acudam ao que ainda resta. Que uma lei

salvadora aposente de vez os picões e alviões e alavancas que tantas

esculpturas tem roçado, tantas campas profanado, tantas columnas

quebrado e tantas torres, muros, ameías, campanarios, arcarias, galilés

derribado e desfeito.

DA PROPRIEDADE LITTERARIA E DA RECENTE CONVENÇÃO COM FRANÇA AO VISCONDE

D'ALMEIDA GARRETT

1851

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 02 · 第 11 / 21 题