II

Falámos da decadencia da architectura durante seculo e meio; porque as

manifestações dessa decadencia foram sempre as mesmas em tão largo

perido. Vê-se a arte na sua lenta agonia rodeiada de curandeiros que se

propõem sará-la, mas que a transfiguram, sem alcançarem qual é o achaque

intimo que a devora: vêmos acumular columnas a proposito e

desprositadamente: vêmos gesso, ouro e talha: vêmos converter os velhos

monumentos em monstros de Horacio; pôr ao lado da torre ou do curucheu

gothico zimborios á Buonaroti ou portadas á Barrozio; enxertar a capella

do seculo XVIII na parede de nave do seculo XIV semelhante a um viveiro

de cogumélos, nascidos por entre as fisgas humidas da pedraria, a favor

da meia obscuridade daquellas profundas arcadas: vêmos alteiar edificios

que representam o gosto architectonico do mercador de retalho, e erguer

templos cujo indecente e ridiculo elogio é o de serem _bonitos_: vêmos

as grandes praças de Lisboa, bem esquadriadas, bem symmetricas, bem

prosaicas: vêmos igrejas, como a da Encarnação ou a dos Martyres,

caiadas, pulidas, alindadas, onde não móra um só pensamento de Deus. A

arte entendeu-se assim por largos dias. Ao passo que se imprimia a

Poetica do padre Freire, que se coroava a Osmia, e que se publicavam por

ordem superior as poesias, assim chamadas, de Ribeiro dos Sanctos,

encostavam-se columnas disformes pelas paredes de um pio armazem,

conhecido vulgarmente pelo nome de igreja de S. Domingos, ladeiavam-se

com ellas os portaes dos edificios publicos e as frestas do atrio tyscio

do convento do Coração de Jesus. No meio daquellas semsaborias

architectonicas parecia sentir-se uma tendencia instinctiva para a

regeneração; mas essa tendencia, que buscava uma solução ao problema nas

tradições da arte romana ou antes grega, não podia lá encontrá-la. Fora

o renascimento; fora a admiração dessas tradições, até certo ponto

justa, mas exagerada depois, que dentro de pouco mais de cem annos

chegara, de modificação em modificação, até a architectura do seculo

XVII, á architectura da Sé nova de Coimbra, do Seminario de Santarem, á

architectura jesuita. Não só a regeneração litteraria e a politica, mas

tambem a da arte devia consistir em considerar o renascimento, não como

phase, mas como lacuna na vida das nações christans, das sociedades

novas; em descer logicamente do crer e sentir da sua idade viril. Embora

a arte seja uma só; embora seja sempre e em toda a parte a expressão

sensivel do ideal, tanto este como as suas manifestações é que são

diversos nas diversas epochas e em sociedades differentes. Naquelle

dilatado periodo de decadencia o que sobretudo faltava á architectura

era a luz, o horisonte, a atmosphera respiravel, em que podesse viver e

produzir.

A decadencia, porém, na epocha em que vivêmos é outra, e mais profunda.

Já não ha a corrupção do gosto, o inapplicavel das theorias, o erro do

entendimento. Agora é o instincto barbaro, a malevolencia selvagem, a

philosophia da brutalidade. Dura ha poucos annos; mas esses poucos annos

darão maior numero de paginas negras á historia da arte do que lhe deu

seculo e meio. O picão e o camartello só ha bem pouco tempo que podem

dizer--triumphámos. Até então escaliçavam-se paredes, roçavam-se

esculpturas, faziam-se embréchados; mas agora derribam-se curuchéus,

partem-se columnas, derrocam-se muralhas, quebram-se lousas de

sepulturas, e vão-se apagando todas as provas da historia. Faz-se o

palimpsesto do passado. Corre despeiado o vandalismo de um a outro

extremo do reino, desbaratando e assolando tudo. Comico perfeito,

desempenha todos os papeis, veste todos os trajos. Aqui é vereador, alli

administrador de concelho: ora é ministro, logo deputado: hoje é

escriptor, ámanhan funccionario. Corre na carruagem do fidalgo, faz

assentos de debito e credito no escriptorio do mercador, dá syllabadas

em latim de missaes, préga nos botequins sermões d'economia politica e

do direito publico, capitaneia soldados, vende bens nacionaes, ensina

sciencias; em summa, é tudo e mora por toda a parte. Attento ao menor

murmurio dos tempos que foram, indignado pela mais fugitiva lembrança

das gerações extinctas, irrita-se com tudo que possa significar uma

recordação. Assim excitado, argumenta, ora, esbraveja, esfalfa-se. O

eretismo dos nervos só póde affrouxar-lho, como as harmonias

melancholicas de harpa eolia, o ruido de algum monumento que desabe.

Apesar da ferocidade nervosa do vandalismo, não se creia, todavia, que

elle é desalinhado no vestuario, carrancudo na catadura, descomposto nos

meneios. Nada disso. O vandalismo é aprimorado no trajo, lhano e grave a

um tempo no porte, pontual na cortezia. Encontrá-lo-heis nas sallas

requebrando as damas, dançando, tomando chá; no theatro palmeiando com

luvas brancas os lances dramaticos. Entende francês e leu jà Voltaire,

Pigault-Lebrun e os melhores tractados do wisth: quasi que sabe ler e

escrever português. O vandalismo é culto, instruido, civil, affavel.

Tirem-lhe de diante os monumentos; será o epilogo de todos os dotes e

boas qualidades; será a mansidão incarnada.

Mas, infelizmente para elle, o velho Portugal estava cuberto de

recordações do passado. Cada facto historico tinha uma igreja, uma casa,

um mosteiro, um castello, uma muralha, um sepulchro, que eram os

documentos perennes desse facto e da existencia dos individuos que nelle

haviam intervindo. Encontrando tantas injurias mudas á decadencia

presente, o vandalismo irritou-se, ergueu-se e falou em feudos, em

dizimos, em corrupções fradescas, em maninhádegos, em servos de gleba,

em direitos de osas, em superstições; catou, em summa, todas as

vergonhas e deshonras do passado que pôde e soube, entresachando-as com

sentenças e logares communs do cathecismo politico de Ramon Salas e, por

uma logica incomprehensivel, por uma logica sua, chamou os homens do

alvião e da picareta e começou a derribar, victoriado pelo povo. Só

elle, immovel no meio da mobilidade do nosso tempo, no meio das opiniões

encontradas, das luctas, das commoções, tem apontado constante ao seu

alvo, a demolição indiscriminada do passado. Assim, pertence a todos os

bandos politicos, acceita todos os principios, curva-se a todos os

jugos, comtanto que o deixem roer os testemunhos da historia e da arte;

que o deixem fazer-nos esquecer da gloria nacional e de que somos um

povo de illustre ascendencia. Este pensamento é o seu pensamento unico,

perpetuo, inabalavel.

Ha pouco que que da villa de Peniche nos escreviam o seguinte: «Tendo

havido quem ousasse revolver e desfazer o tumulo em que jazia o cadaver

de D. Luiz de Athaide, na igreja do extincto convento do Bom-Jesus desta

villa, o facto excitou nos que concorreram a observar os despojos

mortaes daquelle heroe vivos desejos de ouvirem falar da sua vida e

feitos.» Não nos fallecem cartas em que se contenham noticias de

analogas profanações. De todos os angulos do reino se alevantam brados

de homens generosos, que lamentam a ruina dos velhos edificios, a

profanação das sepulturas, a destruição de todas as memorias da arte e

da historia. Quem hoje quizesse escrever as biographias dos nossos

homens illustres, talvez já não podesse dizer onde actualmente jazem os

restos da maior parte delles. O braço omnipotente do vandalismo

estendeu-se para os sepulchros; as campas estalaram e os ossos de nossos

avós lançaram-se aos cães e rolam pelo pó das estradas e pelas

immundicies das ruas. As inscripções lapidares vão-se enterrando por

alicerces e paredes, não á face destas, porque ahi alguem ainda poderia

lê-las; mas no fundo dos cavoucos ou no amago dos muros. Sem isso, não

nos vangloriariamos com inteira justiça de ter completamente renegado de

nossos maiores.

Referiu-nos um respeitavel viajante hespanhol que, entre os entulhos do

convento de S. Domingos de Lisboa, vira uma lagea onde se lia o

epitaphio de Fr. Luiz de Granada. Sollicitou dos demolidores que a

tirassem do meio das ruinas, porque essa pedra era valiosa memoria.

Provavelmente os economistas da alavanca, os philosophos da picareta

riram a bom rir do desvario daquelle hespanhol fanatico. A lapide

sepulchral de um dos homens mais sabios e eloquentes que a Peninsula

gerou lá jazerá a estas horas nos fundamentos de algum edificio, cujo

rendimento, abatidos decima e concertos, o vandalismo e o dono acharão

de certo preferivel á gloria de Fr. Luiz de Granada.

Oh, civilisação!

Levaram-nos a Coimbra em 1834 obrigações de serviço publico. Residiamos

ahi quando foi supprimido o mosteiro de Santa-Cruz. Correu então a

noticia de que se pretendia pedir ao governo que esse bello edificio

fosse doado ao municipio. Mas, para que? Para a camara o arrasar e fazer

uma praça. Não se realisou o nefando alvitre; mas os bons desejos não

faltaram. Uma praça no logar onde estivera Sancta-Cruz; uma praça

calçada com os fragmentos dos rendados umbraes do velho templo, com as

lageas quebradas dos tumulos de Affonso Henriques e de Sancho I e dos

demais varões illustres que alli repousam! Ha ahi, porventura, quem

avalie a sublimidade de tal pensamento e meça a incommensuravel

distancia que vai d'um edificio monumento, onde apenas ha historia,

arte, poesia, religião, a um terreiro amplo, bem amplo, onde a vadiagem

possa estirar-se regaladamente ao sol? Infelizmente; a cidade

litteraria, a _alma mater_, ficou privada deste documento ineluctavel da

sua illustração.

Pelas largas que tem tomado o vandalismo, podemos assegurar que dentro

deste seculo não haverá em Portugal um monumento. O Mexico ufanar-se-ha

do seu templo de Palenque, da sua pyramide de Tehuantepec; a India dos

subterraneos de Ellora e de Elephanta, e até, os habitantes barbaros da

Australia terão que mostrar aos estrangeiros os _moraes_ dos seus

antigos deuses. Só nós os portugueses não lhes poderemos dizer:--«eis os

testemunhos indubitaveis de que fomos uma nação antiga e gloriosa».

Correi as principaes cidades do reino; buscae os mais veneraveis

edificios. Ou jazem por terra ou foram applicados a usos que lhes estão

produzindo a ruina. A bella e grandiosa igreja de S. Francisco do Porto,

único monumento importante do seculo XV que possuia aquella cidade, foi

consagrada a armazem da alfandega. O mosteiro dos Jeronymos em Belem,

obra prima da architectura média entre ao néo-gothica e a da chamada do

renascimento, edificio magnifico de uma epocha de transição na arte,

como Sancta Sophia de Constantinopla o é de uma epocha analoga, foi

deturpada, não nos importa por quem, e o seu maravilhoso claustro

ludibriado com tapumes caiados e convertido em dormitorios forçamente

humidos e malsãos. A Batalha, Alcobaça, o convento da ordem de Christo

em Thomar cáhem em ruinas, e diz-se--«que importa?» Barbaros! Importa a

arte, as recordações, a memoria de nossos paes, a conservação de cousas

cuja perda é irremediavel, a gloria nacional, o passado e o futuro, as

obras mais admiraveis do engenho humano, a historia, a religião. Vós,

homens da destruição, dos alinhamentos, dos terreiros, da civilisação

vandalica, é que importaes bem pouco; porque, semelhantes a vermes,

roeis e não edificaes; porque não deixareis rasto no mundo depois de

apagar tantos vestigios alheios; porque nada valendo, menoscabaes os que

valeram muito; porque se um templo, um mosteiro, um castello duraram

seis ou oito seculos e durariam, sem vós, outros tantos, as vossas

picaretas, as vossas alavancas, os vossos camartellos estarão comidos de

ferrugem e informes antes de vinte annos, e são essas as unicas e

tristes memorias da vossa ominosa passagem na terra.

Desprezar os monumentos é brutal; persegui-los é impio e sacrilego. Os

que os desprezam fazem o que faziam os lombardos, apoderando-se da

Italia, ás formosas obras da architectura greco-romana. Deixavam-nas

perecer; porém não as destruiam. Os que as arrasam ou mutilam são

adeptos de uma velha heresia que resurge; são iconoclastos redivivos.

Procurae hoje, por exemplo, em Lisboa as antiquissimas igrejas

parochiaes de Sancta Marinha e de S. Martinho: achareis os logares onde

estiveram, e achá-los-heis, porque aos hunos encapados em lemiste não é

dado supprimir um fragmento do orbe terraqueo. Os homens desta Lilliput

da intelligencia estão desentulhando aquelles terrenos para fazerem

casas. Onde haviam elles de morar, senão fizessem alli mais umas casas?

Sancta Marinha encerrava memorias anteriores á monarchia, e a parochia

de S. Martinho prendia-se com a historia da grande crise por que

Portugal passou nos fins do XIV seculo. Mas de que momento é essa

consideração, se attendermos a que lá, onde estiveram os dous templos

ricos de idade e de tradições, se podem construir duas moradas bem

pintadas, bem alvas exteriormente, com sua beirada vermelha e seu rodapé

amarello? Que importa que se dispersem os ossos do conde Andeiro ou se

desfaça a sepultura do conde de Alvor? As cinzas dos mortos podem jazer

tão tranquillas debaixo do balcão de uma taberna, como aos pés de um

altar, á sombra da eterna cruz. Bemdicta sejas tu, geração philosophica,

geração arrasadora, geração camartelladora! O futuro, está certa disso,

ha de fazer-te justiça.

Uma das mais notaveis obras do seculo XIV foi, sem duvida, a muralha com

que el-rei D. Fernando cingiu Lisboa. Todos julgavam impossivel a sua

edificação, dizem os chronistas, porque suppunham que levaria cem annos

a construir: aquelle principe soube, porém, acabá-la em dous. Os povos

foram chamados de grandes distancias a trabalhar nella, fazendo-se

aliás, todas as prevenções para suavisar aquella especie de anudúva

extraordinaria. A esta muralha deve hoje Portugal não ser uma provincia

d'Hespanha, porque salvou Lisboa de cahir nas mãos d'el-rei de Castella.

Se isto se tivesse realisado, o reino estava perdido. Considerada a

semelhante luz, a muralha de D. Fernando era, talvez, o nosso mais

importante monumento historico. O progressivo accrescimo da capital

tinha-a em grande parte destruido; mas restava ainda, além de outros, um

lanço importantissimo. Era o angulo que fechava a cidade pelo lado do

bairro dos judeus. Por este angulo, onde houvera uma porta e onde ainda

restavam os vestigios de uma torre que a defendia, a torre de Alvaro

Paes, se podia delinear quasi exactamente a direcção que seguiam os dous

lanços de norte e de oeste. Era, assim, uma especie de padrão que

indicava os limites septemtrionaes e occidentaes da povoação, e uma

reliquia que demonstrava a grossura e solidez da antiga muralha, mui

superior á de outras porteriormente construidas em epochas mais ricas e

mais civilisadas.

Este angulo, este fragmento, testemunha do periodo mais glorioso da

nossa historia, lá se está derribando para se fazer uma praça quanto

possivel ampla. Homens gigantes, como nós, não cabem onde couberam

nossos avós, pygmeus conquistadores da Africa e da India. Far-se-ha pois

uma praça, que, se não prestar para mais nada, poderá servir de mercado

de hortaliça. Uma pyramide de repolhos substituirá o adarve, por onde,

em noite sem lua, se viam a espaços scintillar as armaduras dos

escudeíros ou cavalleiros idos em sobrerolda a vigiar as roldas dos

besteiros do conto da cidade, quando pela terceira vez no reinado de D.

Fernando os castelhanos a accommettiam com grande poder. Alli, no sitio

daquella porta, por onde o, depois tão celebre, Nunalvares sairia muitas

vezes nessa conjuctura a espalhar o terror e a morte entre os homens de

armas inimigos, venha a lide incruenta sobre o preço da couve, sobre o

viçoso ou murcho das favas, substituir o grito clamoroso de S. Jorge,

que chamava nosso avós, os rudes burgueses do seculo XIV, aos combates

em defesa da patria.

O que estes netos de Attila, de collarinhos e peitilhos engommados, são,

sobretudo, é ridiculos.

Vergonha é confessá-lo: os estrangeiros tem mostrado maior veneração

pelas antiguidades do nosso paiz do que os portugueses. Um estrangeiro

salvou no convento dominicano de Bemfica a antiga capella de D. João de

Castro. Ha pouco ouvimos outro, em cujos olhos chammejava a indignação,

clamar altamente contra a barbaria com que se deixavam estragar no

mosteiro de Belem varios quadros magnificos de eschola portuguesa, nos

quaes os passaros, entrando pelas frestas mal reparadas do edificio, vão

amontoando as immundicies. Mas estes estrangeiros são homens que sabem

qual seja o valor dos monumentos da arte e da historia. Nós é que temos

perdido o sentimento e a intelligencia para apreciar essas cousas.

Se com a nossa incuria aggressiva e com a nossa raiva assoladora

desmentimos o passado, para darmos em tudo documento de insipiencia

desmentimos, até, essas mesmas opiniões e tendencias do presente, a que

recorremos para condemnar em nome do progresso, sem distincção nem

juizo, o mau e o bom de eras antigas. É a economia politica a sciencia

do nosso tempo: todos falam em capitaes, em industria, em riquezas

sociaes, em valores. Mas que serão os monumentos? Que serão essas

admiraveis aggregações de marmore ou de granito? São o resultado ou

_producto_ da concepção, da applicação e da execução: vem a ser,

portanto, uma riqueza social. E por quê e para quê annullaes vós essa

riqueza? Dado que representasse um capital improductivo, com que intuito

o deitaes fóra? Não o são, porém, na sua maxima parte, os monumentos.

Quando a arte ou os factos historicos os tornam recommendaveis,

convertem-se em capital productivo. Calculae quantos viajantes terão

atravessado Portugal neste seculo. De certo que não vieram cá para

correrem nas nossas commodas diligencias pelas nossas bellas estradas,

ou navegarem nos nossos rapidos vapores pelos nossos amplos canaes; de

certo que não vieram para aprenderem a agricultar com os nossos

agricultores, nem a fabricar com os nossos fabricantes; mas para

admirarem os mosteiros da Batalha, de Alcobaça e de Belem, a sé velha

Coimbra, a cathedral, a igreja de S. Francisco e o templo romano de

Evora, a matriz de Caminha e a collegiada de Guimarães, os castellos da

Feira e de Almourol, e emfim, tantas obras primas de architectura que

encerra este cantinho do mundo. Crêdes que esses romeiros da arte voltam

da romagem aos seus lares sem dispender muito ouro, e esqueceis que esse

ouro ficou por mãos portuguesas? E falaes de economia politica, e

anniquilaes o capital dos monumentos? Adoradores do camartello, por

qualquer lado que se observe a vossa obra, não se descobre senão o

absurdo.

Quizeramos que os homens deste paiz que tem coração português fizessem

uma associação, cujo trabalho de patriotismo ligasse os seus membros

dispersos por todo o reino; que os residentes em Lisboa constituissem

uma especie de juncta, á qual os das provincias, logo que á sua noticia

chegasse a demolição de algum monumento da historia ou da arte,

remettessem uma breve nota, individuando as circumstancias do edificio

destruido e o nome do arrasador, quer este fosse magistrado ou

funccionario publico ou municipal, quer fosse individuo particular.

Quizeramos depois que essa breve nota, sem reflexões, sem affrontas,

estampada em todos os jornaes, se legasse á posteridade. Nenhuma lei

prohibe que se narre, singelamente e sem o qualificar, um facto que o

seculo julga indifferente. Ninguem, por certo, teria a queixar-se de

semelhante publicação. Eram simplesmente factos que se transmittiam á

apreciação da posteridade; era apenas um trabalho historico.

«Mas isso provocava as maldicções dos vindouros.--E que importam as

maldicções dos vindouros ao que não cura nem da arte, nem do passado,

nem do futuro, nem da gloria nacional, nem da memoria de seus avós, nem

dos sepulchros, nem das tradições, nem sequer, emfim, dos interesses

materiaes que resultam e hão de resultar da conservação dos monumentos?

Que importa isso áquelles para quem os horisontes da vida são

exclusivamente os horisontes da terra? Nada. Ririam desse corpo de

delido de terrivel processo. Mas, talvez, seus filhos e netos não

rissem, vendo-se obrigados a renegar de um nome, no qual gerações mais

allumiadas e mais nobres haviam forçosamente de imprimir o ferrete de

perpetua deshonra.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 02 · 第 10 / 21 题