MONUMENTOS PATRIOS

1838

I

Diz-se que uma das mais bellas missões da imprensa é defender a boa

razão, a arte, e a honra e gloria da patria. Imagina-se ampla colheita

de renome, de bençãos, de vantagens de toda a especie para o escriptor

que alevanta a voz a favor do bom, do justo e do bello, se a voz do que

escreve é assás poderosa para se esperar que mova os animos dos seus

concidadãos. E com effeito, indicar a estes o recto caminho, quando

transviados; tentar affeiçoá-los a nobres e puros sentimentos; fazê-los

amar o solo natal; despertar-lhes affectos pelo que foi grande e nobre

na historia do paiz, parece que deveria produzir fructos de benção para

o escriptor que o tentasse. Não é, todavia, assim. Ha para isso um

obstaculo quasi insuperavel; a superstição pelas idéas e tendencias do

presente, mais cega que a superstição pelas crenças do passado. As

paixões são mais energicas do que as reminiscencias, as aspirações que

as saudades. Gloria, lucro, respeito, bençãos são para aquelle que afaga

com palavras mentidas as preoccupações populares; para aquelle que, sem

discrime, louva, adorna ou repete como echo as opiniões que ao redor

delle, talvez por cima delle, esmagando-lhe a consciencia, passam como

torrente. Tumultua o genero humano correndo ao longo dos seculos: o

louvador, ás vezes o promotor do tumulto, se a natureza lhe concedeu

imaginação e talento, vai adiante como capitão e guia da geração que

corre ebria: incita-a, arrasta-a, deslumbra-a. As corôas voam-lhe do

meio do tropel sobre a cabeça. Verdade é que ao cabo do tanto lidar elle

se despenhará com essa geração no abysmo do passado; verdade é que o

abysmo se fechará para elle com o sêllo da reprovação de cima, e que,

porventura, não tardará que o futuro passe por ahi a sorrir, ou se

afaste com tedio do sepulchro dealbado do erro ou da villania. Mais isso

que importa? O homem que vendeu ao seculo a consciencia e o engenho, que

Deus não lhe deu para mercadejar com elle, foi bemquisto e glorificado

emquanto vivo; foi antesignano do progresso, embora este seja avaliado

algum dia como progresso fatal!

Mas que póde esperar aquelle que, nessa longa e ampla estrada do tempo,

por onde o genero humano corre desordenado, quizer vir, do lado do

futuro e em nome do futuro, dizer á geração a que pertence:--parae lá--?

Embora a sua voz troveje: embora as suas palavras devam fazer vibrar

todas as cordas do coração e despertar todas as convicções da alma: não

espere ser ouvido. As multidões continuarão a passar desattentas.

Escarnecido, amaldicçoado talvez, dormirá esquecido na morte, e os

sabios e prudentes cultores de uma philosophia corrompida e egoista

dirão, com insultuosa compaixão, ao passar pelo que jaz no pó:--Pobre

louco, recebeste o premio de querer contrastar o seculo!

O que havemos dito é crua verdade; mas é a verdade. Ha nesta epocha dous

caminhos a seguir; um, estrada larga, batida, plana, sem precipicios,

mas que conduz á prostituição da intelligencia; outro, vereda estreita,

tortuosa, malgradada, mas que se dirige ao applauso da propria

consciencia. Aquelles cujas esperanças não vão além dos umbraes do

cemiterio e que ahi veem, não o termo da sua perigrinação na terra, mas

o remate da existencia, que sigam a facil estrada. Nós, porém, que

guardâmos para além da vida as nossas melhores esperanças, tomaremos o

bordão do romeiro e iremos rasgar os pés pela vereda d’espinhos.

Resignar-nos-hemos nos desprezes e, como os soldados do eremita Pedro,

que, pondo a cruz vermelha no hombro para irem morrer na Palestina,

clamavam--«Deus assim o quer! Deus assim o quer!»--diremos

tambem:--«soffrâmos o menoscabo e o vilipendio: soffrâmos que assim o

quer Deus.»

É contra a indole destruidora dos homens de hoje que a razão e a

consciencia nos forçam a erguer a voz e a chamar, como o antigo eremita,

todos os animos capazes de nobre esforço para nova cruzada. Ergueremos

um brado a favor dos monumentos da historia, da arte, da gloria

nacional, que todos os dias vemos desabar em ruinas. Esses que julgam

progresso apagar ou transfigurar os vestigios venerandos da antiguidade

que sorriam das nossas crenças supersticiosas; nós sorriremos tambem,

mas de lastima, e as gerações mais illustradas que hão de vir decidirão

qual destes sorrisos significava a ignorancia e a barbaridade, e se não

existe uma superstição do presente como ha a superstição do passado.

A mais recente quadra de destruição para os monumentos, tanto artisticos

como historicos, de Portugal, póde dividir-se em duas epochas bem

distinctas. Acabou uma: a outra é aquella em que vivemos.

A ultima metade do seculo XVIII e os annos já decorridos deste seculo

tem sido um periodo de reforma ou antes de revolução. A revolução não é

de hontem. Quasi sempre as manifestações ruidosas e, digamos assim,

externas das epochas de grandes transformações vem muito depois de

iniciadas estas. No seio da formula social que vai fenecer ha a gestação

da formula social que surge. Quando as labaredas rompem pelas janellas

do edificio, ha muito que o incendio lavra pelo interior dos aposentos.

Entre nós, as reformas começou-as um homem grande, mas que era homem do

seu tempo. Genio positivo e mui pouco especulativo, ministro de um rei

absoluto, e sabendo que, se não caminhasse depressa, ficaria no caminho,

o marquez de Pombal fez resurgir de salto sciencia, artes, industria e

administração. A maioria do paiz obedecia ás reformas, mas sem as

comprehender. O circulo dos individuos que alcançavam o valor dellas e o

influxo que deviam ter no futuro, era assás limitado. A iniciação estava

feita, mas o fogo tinha de lavrar muito tempo debaixo da cinzas.

Exteriormente, a maior parte das reformas, destoando de habitos

inveterados, repugnando não raro a opiniões vulgares, devendo ter

resultados remotos, que o commum dos espiritos não sabiam antever, nem

podiam apreciar, definharam-se ou morreram logo que se quebrou o braço

de ferro que as realisára e mantivera, sorte ordinaria de todos os

commettimentos sociaes que antecedem a diffusão das idéas que

representam. O conde de Oeiras, pondo os estudos ao nivel dos do resto

da Europa, fez acceitar o movimento scientifico desta; mas as

intelligencias reconduzidas de salto ao bom caminho, sem transições

graduaes, acceitaram mais as fórmas do que comprehenderam o espirito.

O que succedeu na sciencia succedeu na litteratura. Acabaram os

acrostichos, os restos do gongorismo, os sermões de antitheses e

argucias, os elogios e conferencias palavrosas e retumbantes da Academia

da Historia, onde o proprio reformador tambem peccara: ficámos, porém,

com a litteratura á Luiz XIV, cuja influencia em Portugal começara a

despontar no horisonte desde o começo daquelle seculo e que, depois, os

nossos innocentes Arcades acceitaram como emanação legitima da arte

grega e romana. Peior do que na sciencia, a regeneração litteraria,

desprovida de nacionalidade, alheia ás tradições portuguesas, nascia,

digamos assim, morta. O mau gosto desapparecera, mas em logar delle

ficava cousa que pouco mais valia; a inspiração pautada, o estro

convencional e a vacuidade da idéa escondida debaixo da opulencia da

fórma.

Se, em parte, as sciencias e a industria foram introduzidas, ou como

inventadas, no reinado do marquez de Pombal, as artes plasticas, e

principalmente a architectura, cuja historia, mais do que a de nenhuma

arte, neste momento nos importa, já anteriormente existiam. A epocha de

D. João V foi uma epocha de luxo e riqueza lançados sobre um paiz

miseravel, como alfombra preciosa em pavimento carunchoso e podre. Esse

luxo e riqueza, que brotavam das minas da America, foram favoraveis aos

artistas. As obras magnificas do nosso Luiz XIV, ou antes do simia de

Luiz XIV, e mais que tudo a edificação do fradesco palacio de Mafra

fizeram apparecer estatuarios, esculptores, architectos. Achou-os o

conde de Oeiras, e deu aos seus talentos nova applicação. Ao gosto

corrompido da architectura italiana, que era a seguida em Portugal, fez

substituir um gosto mais severo, mais util e mais mesquinho. Era o homem

politico, o homem da vida practica dirigindo as artes: eram as artes

reduzidas pura e simplesmente a um ramo de administração. Compare-se o

caracter geral do convento de Mafra com o das grandes obras do marquez

de Pombal, o plano da nova Lisboa, o Terreiro do Paço, a Alfandega, o

Arsenal da Marinha, a parte moderna dos edificios da Universidade de

Coimbra. Em Mafra, achar-se-hão a exageração de ornatos e os primores do

cinzel, mas nenhuma inspiração verdadeiramente nobre e grande;

achar-se-ha o desmesurado supprindo o sublime: nas obras do marquez, só

se encontram largas moles desadornadas, edificios monotonos, postoque

uteis ou necessarios, uma praça magnifica, onde campeiam monolithos

enormes e que seriam admiraveis se não estivessem cobertos de remendos e

parches, e cujas paredes se pintaram de ochre para poupar alguns palmos

de silharia, alguns palmos de marmore n'uma collina de marmore. O plano

de qualquer obra publica desta epocha dir-se-hia sempre traçado na mente

de um negociante hollandês. O despotismo ignorante e presumido estragara

a arte com a puerilidade; o despotismo illustrado estragou-a com a

razão. Mafra é um poema da Fenix-Renascida: a Lisboa do marquez de

Pombal um soneto de Diniz ou uma ode de Garção. A cidade depois do

convento é o Novo-methodo do padre Pereira expulsando das escholas

latinas a grammatica do padre Alvares.

Morreu D. José I, facto insignificante em si, mas grave pelas suas

consequencias. Com a morte desse homem desappareceu da scena politica o

forte espirito que reinara em vez delle. Portugal soçobrou então; apenas

sobre o seu vortice de perdição boiaram por algum tempo as letras e a

sciencia sustentadas ao de cima pelo braço do duque de Lafões. A

architectura, que n'um paiz pequeno e pobre, como o nosso, depende quasi

exclusivamente do governo para existir, não decahiu porque estava já

decadente: o que fez foi retroceder das fórmas mesquinhas, mas graves e

simples, que adoptara, para os fogaréus e burriés e repolhos e espiraes

e grinaldas da epocha anterior. Quereis saber o que ella foi d'ahi

ávante? Olhae para o mais notavel edificio do subsequente reinado, para

o convento do Coração de Jesus. Como o pensamento unico do governo era

desmentir o bom, o mau, o indifferente, tudo, em summa, quanto se fizera

no antecedente reinado, buscou-se restaurar a architectura de Mafra,

menos a vastidão, menos a opulencia. Caricatura de caricatura. Aquelles

portaes microscopicos, aquellas columnas disformes e deformes,

encostadas á portada da igreja, especie de polypos de pedra, guardados

alli para servirem de pilares em outro monumento que delles viesse a

carecer; aquelle atrio que recorda o _vomitorium_ dos amphitheatros

romanos; aquellas torres onde não se pouparam nem columnellos inuteis,

nem franjas e avellorios de marmore; tudo isso é amostra do gosto da

epocha, gosto que tem durado e que ainda campeia nas fachadas de varios

armazens ao divino construidos nos ultimos sessenta annos e baptisados

com a pomposa denominação de templos.

Tal foi em Portugal a architectura durante seculo e meio. O

renascimento, que condemnou em peso, como barbaras, as origens das

nações modernas e especialmente o que desdizia das diversas

manifestações da civilisação grega e romana, envolveu n'esta

condemnação, em muitos casos injusta ou inepta, os admiraveis monumentos

de arte que a idade media legara aos tempos modernos. As gerações

subsequentes, educadas n'uma adoração irreflexiva de tudo quanto viera

da Grecia e de Roma pagans, não podiam comprehender a sublime magestade

e, digamos assim, o espiritualismo da arte christan. Os paços, os

castellos, as pontes, os cruzeiros, as galilés das praças, as portas, as

torres, os pelourinhos das cidades e villas, construidos desde o XI até

o XV seculo quasi que desappareceram. Conservaram-se alguns mosteiros e

sanctuarios, algumas cathedraes e parochias, não por serem obras da

arte, mas por serem logares consagrados a instituições religiosas, e

talvez por terem faltado os recursos para os substituir por novas

edificações.

Ainda assim, restar-nos-hiam hoje em mosteiros, em cathedraes e em

outros edificios consagrados ao culto inestimaveis monumentos, se nesta

terra, desamparada de Deus e da arte, tivesse havido sequer um vislumbre

de gosto e de veneração pelo passado, e não fosse justamente entre o

clero, isto é, entre os guardadores naturaes desses mesmos monumentos,

que surgissem os seus mais funestos adversarios. Porém os bispos sabiam

theologia e direito canonico; os conegos e parochos, alguns sabiam

latim; os frades, pelo menos os membros das antigas ordens monachaes,

eram eruditos e homens de letras; mas nem os bispos, nem os conegos e

curas d'almas, nem os frades entendiam de architectura. Entregaram tudo

aos architectos e mestres de obras, que estragaram tudo. Quasi que

escaceiava a pedra para se converter em cal. Os batefolhas não tinham

mãos a medir. Columnas, capiteis, abobadas, torres, portaes, arcarias,

claustros, tudo foi caiado, dourado, enfeitado, estragado. Procurae na

maior parte das nossas sés, das nossas collegiadas, das nossas velhas

parochias, um desses pilares polystylos, desses capiteis e cimalhas

rendadas, desses bocetes e penduroes variados, dessas gargulas ás vezes

insolentes, ás vezes terrificas, ás vezes finamente epigrammaticas, e

nada achareis do que foi. Aquelles livros de pedra, complexos como os

poemas de cavallaria, ingenuos como os poemas do Cid ou dos Nibelungen,

converteram-se em palimpsestos donde se raspou a historia das crenças,

dos costumes, dos trajos, das alfaias de antigas eras; onde se apagaram

os vestigios de successos notaveis, de dramas populares, de lendas

poeticas, e até retratos unicos de varões singulares. Nesses livros

preciosos, em vez do seu primitivo conteúdo, só achareis as rasuras que

mãos ineptas ahi fizeram e os caracteres que sobre essas paginas,

outrora eloquentes, traçou a peior das barbarias, a barbaria pretenciosa

e civilisada. Passou por lá o picão do reformador, a colher do

estucador, o mordente do dourador. Paredes, pilares, capiteis, laçarias,

ogivas estão rebocados, alvos, polidos, dourados. A luz do sol já não

bate no pavimento do templo convertida em luz baça e saudosa pelos

vidros córados das frestas esguias, dos espelhos circulares: agora alaga

em torrentes essas paredes brancas e lisas, que fingem ás vezes

absurdamente pedras impossiveis estendidas pela colher do alveneu sobre

a face rugosa, mas secular e veneranda, da verdadeira pedra. O templo de

Deus é como a sala do baile, como a sala dos legisladores, como a sala

do theatro, como a praça publica, sem mysterios, sem tradições, sem

saudades.

Mas se a culta barbaria dos nossos avós e de nossos paes forcejou por

cobrir com remendado véu os monumentos dos primeiro seculos da

monarchia, deixou em muitos delles ao menos, os seus formosos e ideaes

perfis, as suas linhas architectonicas. O pensamento que inspirou essas

concepções grandiosas como que se alevanta d'entre as devastações

perpetradas pelo camartélo, pela picareta e pelos boiões de cal delida,

e apesar de se haverem dirigido sem tino, sem gosto, sem harmonia as

restaurações dos edificios que as injurias do tempo em parte haviam

arruinado, resta ainda muito que estudar e admirar nesses monstros. Até,

em alguns delles, é possivel supprimir, pela imaginação, o moderno e pôr

em logar deste o antigo. A poesia ainda não desamparou de todo o

mutilado monumento.

Mas durarão por muito tempo esses restos da mais formosa e magnifica de

todas as artes? Não o esperamos; mas lavraremos aqui, ao menos, um

protesto contra o vandalismo actual. Nossos paes destruiram por

ignorancia e ainda mais desleixo: destruiram, digamos assim,

negativamente: nós destruimos por idéas ou falsas ou exageradas;

destruimos activamente; destruimos, porque a destruição é uma vertigem

desta epocha. Feliz quem isto escreve, se podesse curar alguem da febre

demolidora; salvar uma pedra, só que fosse, das mãos dos modernos hunos!

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 02 · 第 9 / 21 题