admiraveis em pôvo Africano.
Tôdos os homens vinham armados de arco e frechas; alguns traziam
azagaias, e muitos, àlém das armas gentìlicas, compridas carabinas de
silex, de fàbrica Belga.
[Figura 83.--O vao do cuchibi.]
Entre os Ambuelas, homens e mulheres cortam um triàngulo nos dois dentes
incisivos da frente, mas em àngulo muito mais aberto do que entre os
Quimbandes.
As suas armas sam fabricadas por elles, sendo muito imperfeito o
trabalho do ferro, que extrahem em minas a jusante da confluencia do
Cuchibi e Cuando.
Os Ambuelas que usam espingardas só querem, como eu já disse, as armas
lazarinas hôje fabricadas na Bèlgica, e a cada peça de caça que matam,
enrolam em tôrno do cano um bocado de pelle do animal, o que dá logar,
pela simples inspecção da arma, a saber quantas vìctimas ella tem feito.
Isto deforma a arma, e impede de apontar; mas, como elles só arriscam um
tiro a dez passos, acontece matarem.
O caçador que vi ali tendo morto mais caça tinha dez bocados de pelle em
tôrno do cano da espingarda.
Aquella pobre gente, sem as armadilhas do mato, não teria pelles para
cobrir a sua nudez.
Pòlvora é rara ali, onde apenas de annos a annos apparece um sertanejo
Biheno, que lhe vende pouca, e por isso tem subido valor.
[Figura 84.--Azagaias dos Ambuelas.]
Entre os Ambuelas que viéram ao meu campo appareceu um muito engraçado,
que por tôdos os modos procurava convencer-me a dar-lhe uma carga de
pòlvora por um gallo grande que trazia. Divertio-me muito com o modo
engraçado por que tentava convencer-me a fazer a transacção, até que eu
lhe disse, que faria o negocio, se elle matasse o gallo a cincoenta
passos com uma frecha.
Elle aceitou, e eu medi a distancia.
[Figura 85.--Ferros de frechas dos Ambuelas.]
Collocado o gallo convenientemente disparou-lhe oito frechas que trazia,
fazendo pèssimos tiros.
Outros indìgenas enthusiasmáram-se com o divertimento, e começou um
chuveiro de frechas em tôrno do pobre animal, e ainda que alguns se
acercáram a quarenta passos, foi de meio metro distante do alvo o tiro
mais certeiro. Eu então disse aos Bihenos que dava o gallo a quem o
matase. Viéram os melhores atiradores de frecha da comitiva, e quem
melhores tiros fez foi o prêto Jamba, de Silva Porto, que chegou a
cravar uma seta a cinco centìmetros do gallo, que ficaria vivo, se eu o
não matasse com um tiro da minha carabina Winchester.
No mato em que estava acampado havia uma enorme quantidade de aranhas
brancas, com o côrpo volumoso como uma ervilha, que mordiam, causando
uma dôr violenta mas passageira.
O acampamento estêve sempre cheio de mulheres, talvez por estarem ali
comigo as filhas do règulo. Usam ellas grande nùmero de manilhas de
ferro da espessura de dois a três millimetros de secção quadrangular,
tendo as duas arestas exteriores picadas.
Quando dançam (e dançam muito as Ambuelas), só o tinir das manilhas é
uma mùsica.
Ellas comprimentam-se umas ás outras batendo repetidas vezes com as mãos
abertas nos peitos nús.
Um costume que encontrei entre tôdos os povos Ganguelas, mas mais
rigorosamente cumprido no Cuchibi, é o modo de falar aos sovas ou
sovêtas.
A pessôa que fala, diz o que quer dizer ao sova, a um dos prêtos que
elle tem a seu lado; este repete o recado a um segundo prêto, que o
transmitte ao sova. A resposta segue pelas mesmas vias.
A explicação que me déram d'isto foi a seguinte:--A pessôa que dá o
recado, ouvindo repetir depois duas vezes o que disse, pode corrigir
alguma interpretação errònea que houvesse da sua idéa, e o mesmo se dá
com quem responde.
Eu supponho, porem, que ha ali mais alguma cousa, e que os sovas
estabelêceram o uso, para durante a repetição trìplice da arenga, terem
tempo de preparar a resposta.
De Lionzi fui dar um passeio de caça pelo rio até á sua confluencia com
o Cuando, cuja posição marquei grosseiramente, por não ter podido fazer
observações, mas que, ainda assim, não deve ter grande erro, por haver
eu determinado perfeitamente a posição de Lionzi.
Junto á confluencia do Cuchibi, encontrei duas grandes povoações
Ambuelas, Linhonzi e Maramo, e entre ellas e Lionzi, uma grande
povoação, Chimbambo.
Na confluencia do rio Queimbo está situada a povoação de Catiba,
governada por um prêto da povoação de Caú-eu-hue, e sujeito ao sova do
Cuchibi.
De volta ao meu campo, vim encontrar a minha gente de tal modo entregue
ás delicias de Càpua, que não havia fôrça para os arrancar dos braços
das formosas filhas desta nova Ninive Africana.
A embriaguez do _Bingundo_ e a embriaguez do amor, tornavam surdos os
meus homens a rogos e a ameaças.
O sovêta do Lionzi veio ao meu campo, e trouxe comsigo um Mucassequer,
seu hòspede. Eu entendi-me logo com o Mucassequer, para elle ser guia
até ás nascentes do rio Ninda, que eu queria ir demandar; e estando
n'esse dia de muito bom humor, chamei os pombeiros e disse-lhes, que ia
seguir com os Ambuelas e os meus muleques, e que ficassem elles se
quizessem, mas que eu lhes levava tôdos os mantimentos.
Puz-me logo a caminho, guiado pelo Mucassequer e acompanhado das filhas
do sova e sua gente.
Os meus Quimbares, vendo-me partir, deixáram tambem o campo, e
seguíram-me, ficando tôdos os Quimbundos e os muleques do Verìssimo.
Depois de uma difficil marcha de seis horas a travez de floresta
emmaranhada, e onde se não encontra àgua, alcançámos a margem direita do
rio Chicului, abrasados de sêde.
Este rio corre em uma planicie deserta e apaülada, de 1600 a 2000 metros
de largo, e a floresta sempre espêssa vem terminar onde começa o paúl.
Durante a noute os leões e leopardos rondáram sem cessar o meu
acampamento, rugindo em côro infernal.
No dia immediato, decido logo de manhã passar á outra margem.
Passei o rio n'uma ponte, de certo construida outrora, por comitivas
Bihenas, que eu reconstrui, e que me deu facil passagem; mas não foi
igualmente facil alcançar a floresta da margem esquerda, porque havia a
atravessar a planicie lodosa, onde nos enterràvamos até por cima da
cintura.
O meu Pépéca por vezes ficou só com a cabêça de fóra, e deu trabalho a
desenterrar.
Fôram 1500 metros de travessia difficil e fatigante.
O rio tem 15 metros de largo por 4 a 5 de fundo, com uma corrente de 40
a 45 metros por minuto. Vi n'elle muito peixe grande e pequeno, e alguns
crocodilos de pequeno talhe.
Depois de passar o rio, vi a um kilòmetro jusante, uma grande manada de
songue, e indo logo ali encoberto pelo mato, consegui matar três.
A minha cabrinha Córa não se separa um momento de mim, e anda em
contìnuo sobresalto desde que sentio os leões.
Os meus prêtos apanháram muitas aves, variedade de codornizes, com uma
poupa branca, e pernas brancas.
Pela uma hora n'esse dia, chegáram os meus Quimbundos, e os pombeiros,
de orêlha baixa, viéram pedir-me mil perdões de não terem seguido na
vèspera.
Eu andava então de tal modo satisfeito, que tudo perdoei, indo em
seguida pescar com um enorme tresmalho que levava, e com o qual apanhei
innùmeros peixes muito semelhantes aos mugens ou taïnhas dos nossos
rios.
Esta rêde, tresmalho ou barbal, como lhe chamam os pescadores do rio
Douro, foi um presente que me fez meu pai, e que, em muitas
circunstancias, foi o ùnico recurso que tivémos para matar a fome.
A doença grave de um dos meus prêtos fez-me demorar dois dias n'aquelle
ponto; o que me contrariou em extremo, porque, tendo comigo numerosos
Ambuelas, as provisões que eu tinha trazido do Cuchibi desappareciam
ràpidamente, e eu tinha diante de mim um enorme paiz a atravessar até ao
Zambeze, onde nenhum recurso encontraria, àlém da caça, sempre
problemàtica em Àfrica.
Em um dos dias, os Ambuelas fôram á floresta em busca de mel, guiados
pelos _indicators_ ("indicadores"), e d'elle fizéram grande colheita.
Muitos naturalistas notaveis, desde Sparmann e Leveillant, os primeiros
que estudáram esta curiosa ave, até os mais modernos exploradores que
t[~e]m descripto os seus hàbitos, que me perdoem ainda aqui falar
d'ella, e lhes diga, na minha humildade, o que concluí do muito que
observei os seus costumes em Àfrica.
Que o _indicator_ seja ou não um cúco é coisa de que não faço questão,
deixando isso á autoridade dos Bocages e dos Günthers.
Que elle se dêva chamar _Cuculus albirostris_, como queria Temminck, ou
sómente indicátor, como querem outros, é nova questão, em que não entro.
Descrevel-o, sendo profano em ornithologia, seria pedantismo; e por isso
limitar-me-hei a contar o que lhe vi fazer, e a tirar uma conclusão
minha.
Logo que o homem penetra em uma floresta dos sertões d'Africa Austral,
apparece-lhe o _indicator_ saltitando de ramo em ramo, e chegando a
aproximar-se, sempre com o seu chilrear monòtono. Logo que lhe damos
attenção, levanta elle o seu vôo pesado, e vai pousar mais longe,
vigiando se o seguimos.
Se o desprezamos, volta elle para junto de nós, e continua a saltar e a
chilrar, voando outra vez, e formulando muito pronunciadamente o convite
de o seguirmos. Cedemos a final e acompanhamos a ávezinha, que de ramo
em ramo, com vôos curtos para nos não perder de vista, nos vai guiando a
travez da floresta, a maior parte das vezes até junto de um ninho de
abelhas.
Este caso é o mais vulgar, e é sempre aproveitado pelos indìgenas
buscadores de cêra.
Alguns exploradores, e entre elles o nosso Gamito, dizem, que elle
conduz tambem o homem junto do antro da fera. Esse caso nunca se deu
comigo, que segui dezenas de _indicators_, e nunca encontrei indìgena
que m'-o affirmasse.
Conduzir-me junto do cadaver de caça já em putrefacção, a um acampamento
abandonado de ha pouco, a uma lagôa, junto de outra gente, isso me
aconteceu a mim, e acontece a tôdos os que seguem o buliçoso passarinho.
E contudo elle nada lucra em guiar os passos do homem para ali.
O que é facto é, que elle leva o homem quasi sempre ao mel, e eu
supponho que o quer levar sempre, e que sam occasionaes os outros
encontros, que t[~e]m feito impressão a muitos viajantes; encontros nada
de estranhar em florestas Africanas.
É mesmo possivel, que no caminho para o enxame encontremos o leão, sem
que a intenção do pàssaro seja a de nos fazer devorar pela fera.
Se porem a regra geral, de ir indicar as abelhas, tem excepções, sam
ellas tantas e tão variadas, que eu atrevo-me a dizer, que o _indicator_
é o verdadeiro apodador da humanidade.
Encontrei junto ao rio Chicului uma pelle de cobra de sete metros de
comprido por 40 centìmetros de largo, affirmando-me os indìgenas que as
ha ali maiores.
Pude finalmente seguir a 9 de Agosto, já desejoso que as filhas do sova
do Cuchibi voltassem com a sua gente, porque os mantimentos que
trazìamos desappareciam a olhos vistos, e já não era pequeno o meu
cuidado pensando no futuro.
Depois de marcha de três horas, encontrei um ribeiro, correndo a S.S.E.,
e depois de atravessarmos a vao, encontrámos uma lagôa de duzentos
metros, que tivémos de vadear com àgua pela cintura.
Este ribeiro, que entra no Chicului perto da sua foz, é o Chalongo,
provavelmente o que nas cartas apparece com o nome de Longo, e que, por
uma errada informação, os cartògraphos t[~e]m feito correr ao Zambeze.
Durante a passagem da lagôa, vimos alguns abutres descendo com
persistencia em um mesmo logar, a meio kilòmetro de nós. Fui ver o que
atrahia ali os repugnantes rapaces, e ao longe vi uma nuvem d'elles
esvoaçando sôbre um corpo volumoso cercado de hyenas, que fugíram sem
que eu lhes podesse atirar. Aproximei-me, e encontrei uma enorme Malanca
(_Hippotragus equinus_) recentemente morta pelo leão.
[Figura 86.--Malanca.]
A pelle do soberbo antìlope estava rasgada em tiras pelas garras da
fera, e, cousa notavel, que eu não pude explicar, as unhas das patas
estavam completamente roïdas.
Os olhos tinham sido arrancados das òrbitas, de certo pelas aves
rapaces.
Os meus Quimbundos, logo que víram a Malanca, corrêram sobre ella, e com
unhas e dentes disputáram uns aos outros os restos d'aquella carne
bafejada pelas hyenas, em mais repugnante espectàculo do que, minutos
antes, me tinham offerecido as proprias hyenas e abutres. Mais pareciam
feras do que homens.
E note-se, que então não havia necessidade, porque eu tinha môrto caça,
e as provisões feitas no Cuchibi nos tinham em abundancia.
Os meus proprios Quimbares não resistiram á tentação, e juntáram-se aos
Quimbundos no repugnante espectàculo.
Metti em ordem a caravana, e fiz seguir ávante. Pelo caminho fui
pensando no poder que tem a vida selvagem sôbre o prêto.
[Figura 87--1. Cornos vistos de frente.
2. Rasto da Malanca]
Os meus Quimbares, gente meio-civilizada de Benguella, já igualam os
Quimbundos em selvageria e embrutecimento.
Eu ás vezes penso, que isto, que se afigura possivel a muita gente na
Europa, de civilizar o prêto em Àfrica, é simplesmente absurdo.
O elemento civilizador será por ora tão pequeno junto do elemento
selvagem, que este predominará em quanto aquelle não tomar proporções
enormes.
É preciso que em Àfrica haja por cada prêto um branco para se realizar
esse sonho de muitos espìritos elevados do velho mundo; porque só então
o elemento civilizador equilibrará com o selvagem, e poderá vencel-o.
Temos até um exemplo d'isto com os Böers do Transvaal, que, Europêos de
origem, em um sèculo apenas, perdêram tudo que de civilização trouxéram
da Europa, fôram vencidos pelo elemento selvagem do meio em que viviam,
e hôje, se sam Europêos pela côr e pela religião de Christo que
professam, sam bàrbaros pelos costumes que tiráram do paiz.
O notavel era, ter eu atravessado tantos povos bàrbaros, onde nunca
chegou o menor elemento civilizador, e não ter encontrado pôvo algum
peiór do que o Biheno, que está em contacto com a civilização da Costa
de Oeste.
Ao caminhar pensava eu n'isso, e repetia a phrase que tantas vezes me
tinha repetido o meu amigo Silva Porto: "Olhe que os melhores Bihenos
sam incorrigiveis, firme-se n'este principio e marche com elles."
Depois que eu entendia o Hambundo é que bem podia avaliar o que elles
eram.
Ás vezes, á noute, na minha barraca, eu escutava as conversas que se
falavam em tôrno de mim, e não se calcula o que eu ouvia.
Uma noute, escutava eu episodios de uma guerra que um anno antes tinha
havido no Bihé, contra gente Bihena que não reconhecia a autoridade do
sova Quilemo, e entre outros ouvi o seguinte, no meio das gargalhadas e
dos signaes de approvação que os ouvintes dispensavam ao narrador:--
Contava elle, que uma noute fizera dois prisioneiros, um muleque e uma
rapariga pequena, e que, como a pequena chorasse e gritasse por elle lhe
ter amarrado fortemente os braços, elle cortou-lhe uma orêlha com o
machado, e depois deu-lhe com o mesmo machado no pescôço, mas de vagar
para a não matar logo. Elle descrevia ao auditorio as contorções e
gritos da vìctima, com grande applauso dos companheiros, até que narrou
o modo porque a tinha morto; coisa de que depois se arrepêndera muito,
porque a familia d'ella, que não sabia do occorrido, veio offerecer-lhe
em resgate três escravos, com que elle poderia ter começado um pequeno
negocio.
Não quero narrar mais d'estas scenas repugnantes, e direi apenas, que se
deve avaliar bem, como o chefe de bandidos na Europa não precisa, para
sustentar a disciplina em sua orda de rèprobos, ter mais energia do que
o Europeo que em Àfrica tem de commandar tal gente.
Fui acampar á nascente de um còrrego chamado Combule, que, a uma milha
da sua fonte, vai lançar, para o Oeste, no rio Chicului, as suas àguas,
que ainda ali não seriam sufficientes para mover uma azenha.
Convenci as filhas do sova a voltarem aos seus lares, e fizemos as mais
cordiaes despedidas. Ainda Opudo arriscou com timidez o pedido, de eu
voltar para o Cuchibi, e ir viver entre elles, e Capêu fez-me, mais
eloquente ainda, a sùplica, com um olhar de mulhér, um d'esses olhares
que sam a verdadeira força d'ellas, porque sam espontaneos, e não
aprendidos na escola da garridice.
Não foi sem pesar que vi partir aquellas duas bôas raparigas, as duas
ùnicas amizades que percebi em indìgenas Africanos.
Ao separarmo-nos, chegou-se a mim o meu guia Mucassequer, e disse-me:--
"Eu tenho passado a minha vida no caminho que vais seguir d'aqui ao
Limbai, e por isso conhêço bem o paiz. Leva sempre prompta a tua melhor
espingarda, e desconfia de tudo no mato, porque vais viver muitos dias
entre feras. Toma cautela sôbre tudo com os bùfalos do Ninda, no caminho
has de ver sepulturas de gente morta por elles, e mesmo de brancos. Eu
sou teu amigo, porque não me fizeste mal, e deste-me pòlvora e
missangas, por isso te previno."
Depois da partida dos Ambuelas, fiquei só com a minha gente, e
verifiquei, não sem algum sobresalto, que tinha havido uma reducção
enorme nos vìveres.
No dia immediato, embrenhei-me em uma enorme floresta espinhosa, e onde
era a miüdo preciso abrir caminho para seguir ávante.
Depois de uma fatigante marcha de 5 horas, a mais difficil e atroz que
fiz em Àfrica, acampei á nascente do rio Ninda, tendo deixado uma grande
parte do fato nos espinhos da floresta. Meia hora depois de chegar,
estava convertido em verdadeira caricatura, porque estava coberto de
bocados de tafetá inglez, onde os espinhos me haviam rasgado as carnes.
Estava pois á nascente do rio Ninda, afamado pela ferocidade dos
habitantes das suas margens. Os leões ainda me não tinham devorado; mas
cheguei a pensar, que se o quizessem fazer tinham de se apressar, para
encontrarem alguns restos do que deixassem milhares de insectos que
dirigiam um ataque encarniçado contra mim.
Ao cahir da tarde, uma nuvem de môscas, tão pequenas que não tinham mais
de um milimetro, cahio sôbre o acampamento, e n'um louco esvoaçar,
entravam pelo nariz, pela bôca, pelos ouvidos, e enchiam-nos os olhos,
dando-nos um verdadeiro supplicio, verdadeira praga.
O acampamento foi rodeado de fortes palissadas e enormes abatizes,
tomando-se todas as precauções para que ficàssemos ao abrigo de um
ataque das feras.
Eu fui acommettido por um violento accesso de febre, o que não impedio
que, durante a noute, por mais de uma vez sahisse da minha tenda a
investigar porque ladravam os cães.
Os leões rugíram toda a noute em volta do campo, e sôbre a madrugada, um
côro de hyenas veio completar aquella mùsica infernal.
Não posso deixar de declarar aqui, áquelles que no enthusiasmo de uma
coragem temeraria se fazem illusões sôbre as bellezas da vida das
selvas, que a vida entre feras é positivamente desagradavel.
[Figura 88.--O bùfalo africano.]
No dia immediato, demorei-me até á tarde, para poder determinar aquella
posição, e mudei o meu acampamento para uma milha mais a leste.
Junto do sitio onde acampei ficava a sepultura de um Portuguez, o
sertanejo Luiz Albino, morto n'aquelle ponto por um bùfalo. Na minha
comitiva estava o prêto de confiança de Luiz Albino, o velho Antonio de
Pungo Andongo, aquelle que eu fiz alfayate do sova Mavanda.
Luiz Albino sahira do Bihé com uma grande factura que vinha negociar ao
Zambeze, e em uma das suas etapes, veio acampar no mesmo ponto onde eu
estava acampado n'aquelle dia. Sahio a caçar, e deu um tiro em um
bùfalo, ferindo-o na articulação de um pé. Já se vê que atirava mal,
porque não se fere um bùfalo em um pé.
Voltou ao acampamento, e chamou o velho Antonio (que então era nôvo),
dizendo-lhe, que tinha ferido um bùfalo mortalmente, e que chamasse
gente para o irem buscar.
Os Bihenos, sempre cautelosos, não quizéram ir, e elle, chamando-lhes
cobardes, foi só com o prêto Antonio. Chegado ao mato, o bùfalo, que,
como tôdos os bùfalos feridos, queria vingança e o esperava, correu
sôbre elle. Luiz Albino disparou-lhe os dous tiros da espingarda sem lhe
acertar, e foi em seguida colhido pela fera, que com uma cornada lhe
rasgou o baixo ventre.
Antonio disparou contra o feroz ruminante, e o cadaver da fera foi cahir
sôbre o cadaver do branco.
Hôje, uma forte estacada de madeira, cercando um quadrado de cinco
metros de lado, fêcha um recinto, onde se levanta uma cruz tôsca de
madeira; e lembra ao caminhante, que é preciso ter prompta a carabina e
ôlho á mira para viajar ali.
Tinha chegado ao primeiro ponto da minha viajem onde apparecem
elephantes, e por isso mandei alguns homens á descoberta, mas os
exploradores voltáram tendo apenas encontrado alguns rastos antigos. Eu
fui dar uma volta pelo mato, mas nada vi em que podesse dar um tiro.
No dia immediato, segui viagem, sempre na margem direita do Ninda, sem
que algum facto extraordinario viesse perturbar a marcha.
A 13 de Agosto, fui estabelecer um nôvo acampamento dez milhas para
leste do da vèspera. Um vago receio já me perturbava o espìrito. Os
vìveres diminuiam ràpidamente, e eu estava ainda longe de paiz de
recursos. Tentei caçar, mas sem resultado percorri a floresta, ainda que
vi muitos rastos frescos e cheguei mesmo a perceber caça, mas tão longe
e esquiva que nada fiz.
No dia 14, tinha eu, sòzinho com o meu Pépéca, tomado a dianteira á
caravana, quando, ao chegar ao sitio onde resolvi terminar a marcha
d'aquelle dia, percebi um enorme bùfalo que pastava tranquillamente.
Pude, ao abrigo do mato, aproximar-me d'elle, e atirei-lhe a trinta
metros, apontando á espàdua, porque me ficava atravessado. O animal
cahio fulminado, com grande espanto meu, porque o sitio onde atirei era
para fazer uma ferida mortal, mas não produzir morte tão ràpida como a
que eu vi produzir. Abeirei-me d'elle, e ¡como não fiquei espantado,
vendo que a bala, em logar de ferir o ponto a que a dirigi, subio perto
de vinte centímetros na mesma vertical, indo cortar-lhe as vèrtebras, e
produzindo a morte instantanea, pela solução de continuidade da espinal
medula!
Este caso fez-me profunda impressão, porque um tal desvio da bala podia,
em qualquer circunstancia, ser causa da minha perda; e logo que
estabeleci o meu campo, tratei de alvejar a carabina a 25 metros.
O desvio vertical revelado no tiro ao bùfalo continuava a manifestar-se.
Era a minha carabina Lepage, de grande calibre e balas d'aço.
Sendo a sua trajectoria muito curva, o armeiro calculou a ùltima ranhura
da alça para 80 metros; e como eu não tinha ainda com aquella arma
atirado a menor distancia, não tinha ainda advertido no perigo que
corria fazendo um tiro de 20 a 30 metros. Assim, pois, a estas
distancias, ainda que eu pela ranhura mal percebêsse o ponto culminante
da mira, o desvio vertical era constante.
Cuidei logo de remediar o defeito, e por tentativas, fui profundando a
ranhura da alça, até que obtive a maior precisão á pequena distancia
requerida.
Este episodio, que registei no meu diario e que hôje descrêvo aqui,
ainda que seja de interesse nullo para a maioria dos meus leitores, é
uma prevenção áquelles que me seguirem em Àfrica, prevenção que lhes
pode ser de subida utilidade.
O rio Ninda corre n'uma planicie levemente inclinada a leste, e que me
afirmam se estende ao sul até á juncção do Cuando e Zambeze.
Até ao ponto em que eu estava acampado, a floresta desce espêssa até á
margem do rio; mas d'ali em diante forma apenas tufos de àrvores,
semeados aqui e àlém n'uma planicie enorme.
Ali o Ouco é àrvore corpulenta, e tão abundante, que por espaço de horas
o caminhante vive n'uma atmosphera embalsamada pelo suave perfume das
suas flores.
No dia immediato, sustentei marcha de seis horas, e desviei-me um pouco
da margem do rio, cujo canavial espêsso era obstàculo ao caminhar; indo
acampar junto de uma lagôa de bôa àgua, não longe da pequena povoação de
Calombeu, pôsto avançado do règulo do Barôze.
Nada nos quizéram vender, e já começavam a escacear os mantimentos.
Não achando bôa a minha posição, e não podendo seguir no dia immediato,
por ter muitos doentes, mudei o campo para uma milha mais a leste,
continuando a tirar àgua da mesma lagôa, ou antes paúl, que melhor lhe
cabe este nome.
Estava na enorme planicie do Nhengo, planicie elevada mil e doze metros
ao nivel do mar, que se estende a leste até ao Zambeze, e ao sul até á
confluencia do Cuando.
O terreno enxuto na apparencia, é encharcado e esponjoso, e cede
lentamente á pressão do côrpo, deixando infiltrar àgua do seu seio
alagado.
Nas noutes que ali dormi, deitei-me em leito sêco de ervas cobertas de
pelles, para acordar n'un charco.
Começava ali para mim uma nova vida de tormentos, porque nem á noute um
sono reparador podia vir mitigar as fadigas do côrpo, e adormecer as
aprehensões do espìrito.