A falta de vìveres, que não tardaria a chegar; a difficuldade que me

apresentava o paiz; a minha saude que eu sentia profundamente afectada;

e a minha propria comitiva que começava a dar signaes de insobordinação,

traziam o meu espìrito perturbado, perturbação que se traduzia por um

mao-humor contìnuo.

No dia 16 de Agosto, tive um momento de desespêro. Estavia só,

completamente só.

Não havia um homem na minha comitiva que tivesse um pouco de energia.

Àlém das difficuldades que se erguiam diante de mim, tôdos me creavam

difficuldades. Eu tinha de decidir, de intervir em tudo, até nas mais

pequenas cousas de que nunca me deveria occupar.

Algumas dedicações me rodeavam, não o duvidava, mas dedicações sem

energia, em gente capaz de cumprir uma ordem, mas incapaz de fazer

cumprir a outros as que lhe transmittia.

O Verissimo não é cobarde, mas espìrito acanhadissimo, sem vontade

propria, e irresoluto, não tinha a fôrça sufficiente para se impor no

commando. Àlém d'isso, aparentado com alguns dos pombeiros, era por

elles desattendido.

Via-me forçado até a fazer cumprir as ordens que dava!

No meu diario escrevi então alguns perìodos, que vou transcrever aqui

textualmente, e que traduzem o meu soffrimento de então.

"Isto desnortea-me, e traz-me de pèssimo humor. ¡Meu Deos! ¡quanta

vontade, quanta persistencia, quanta energia é precisa a um homem que

só, rodeado de difficuldades, rios proprios que o cercam as encontra,

para proseguir na missão que se impoz! Hôje sózinho no meio d'Àfrica,

tendo uma missão a cumprir, e tendo de sustentar a honra da bandeira da

minha pàtria, ¡quanto eu soffro! ¡e quanto eu tremo por ella! Preciso de

ser um anjo ou um demonio, e chêgo a crer que sou ás vezes uma e outra

cousa."

N'este dia já tive de dar comida á ração, e só milho já havia.

Sentado á porta da minha barraca, ao cahir da tarde, terminava a minha

parca refeição, e olhava em roda os meus carregadores, que comiam em

silencio.

Parecia que uma tristeza profunda havia cahido sôbre o meu campo,

apossando-se de tôdos os espìritos.

De repente os meus cães levantáram-se e corrêram ao mato ladrando

furiosos.

Um homem desconhecido, seguido por uma mulhér e dois rapazes, sahio do

mato, e sem fazer caso dos cães, entrou no acampamento, que percorreu

com um ràpido olhar, vindo sentar-se a meus pés.

Era um prêto coberto de andrajos. Um panno esfarrapado mal encobria a

sua nudez. Um casaco completamente despedaçado pendia-lhe dos hombros

nús. Na cabêça uma cousa que muito esfôrço de imaginação faria suppor os

restos de um chapéo braguez, e na mão um pao.

As suas armas eram trazidas pelos dois muleques que o seguiam.

A physionomia enèrgica, o olhar, andar e os modos decididos, do

indìgena, prendêram logo a minha attenção.

Perguntei-lhe quem era, e o que queria.

Elle respondeu-me em Hambundo: "Eu sou Caiumbuca, e venho procural-o."

Ao ouvir o nome de Caiumbuca, não pude conter a minha emoção.

Tinha diante de mim o mais audaz dos sertanejos do Bihé. Do Nyangue ao

Lago Ngami é conhecido o nome de Caiumbuca, o antigo pombeiro de Silva

Porto.

Em Benguella dissera-me Silva Porto: "Chame para junto de si a

Caiumbuca, e terá o melhor immediato que pode encontrar em tôda a Àfrica

Austral."

Procurei-o debalde no Bihé, onde não me soubéram dar noticias d'elle.

"Anda no sertão, e nunca se sabe bem onde elle anda--" foi a resposta

que obtive de tôdos.

Caiumbuca estava no Cuando abaixo da confluencia do Cuchibi, e sabendo

da minha passagem, viera, só com uma mulhér e dois muleques,

procurar-me.

Conversei a sós com elle por espaço de uma hora, li-lhe mesmo uma carta

que Silva Porto me tinha dado em Benguella para elle, fiz-lhe as minhas

propostas, e ao cahir da noute, reuni os meus carregadores e

apresentei-lhes o meu immediato.

A 17 de Agosto, forcei marcha de seis horas, porque os vìveres estavam

no fim, e era preciso alcançar as povoações.

Acampei na margem direita do rio Nhengo, que é o Ninda depois de receber

do norte um affluente volumoso, o Loati.

O Nhengo tem de 80 a 100 metros de largo, por 4 e mais de fundo, com uma

corrente quasi insensivel. Ás vêzes parece uma comprida lagôa, onde

vegetam milhares de plantas aquàticas. Nas suas margens ha uma forte

vegetação arbòrea, vegetação que por vêzes estende os seus ramos

vigorosos por sôbre as àguas, e de uma e outra margem v[~e]m dar um

abraço fraternal a meio-rio.

Este grande affluente do Zambeze corre na enorme planicie de que já

disse duas palavras, a planicie que d'elle toma o nome, planicie hùmida,

onde não é encharcada ou verdadeiro paúl. Ali milhares de moluscos

terrestres arrastam a sua casa espiral por entre a herva curta e

rachìtica.

Alguns càgados e muitas tartarugas de lagôa (_Emydes_), vivem na

campina, onde já, aqui e àlém, algumas palmeiras, as primeiras que

encontrava desde Benguella, balançam ao vento as suas copas elegantes.

Os meus prêtos fizéram colheita de tartarugas (_Emydes_), que a fome

lhes fez devorar, a pesar do repugnante cheiro que rescendem estes

pequenos Cheloneas carnìvoros.

Tendo-me dito Caiumbuca, que, a pequena distancia do acapamento, haviam

algunas povoações, decidi demorar-me ali um dia, para obter vìveres.

Foi debalde que, no dia immediato, enviei gente ás povoações a pedir

mantimentos; o gentio muito esquivo fugia, e não attendia razão nem

offertas.

A nossa posição tornava-se muito séria, porque já nada havia que comer

para êsse dia, e as tentativas de caça e pesca não déram o menor

resultado.

Um pequeno bando capitaneado pelo meu Augusto, entrou no campo,

perseguido por um bando de leões, que só retiráram ao perceber o ruido

do acampamento.

Conferenciei com Caiumbuca, e decidímos fazer, no dia seguinte, marcha

grande, para alcançar umas povoações a que elle chamava Cacapa, e onde

me disse que poderìamos obter vìveres.

Seguímos pois no dia 19, tendo comido pela ùltima vez a 17 de manhã.

A marcha foi sustentada por oito horas, indo acampar perto de uma lagôa,

porque tìnhamos deixado a margem do rio, para nos aproximarmos das

povoações.

Apesar da fadiga da jornada e da fraqueza produzida pela fome, enviei

gente a procurar vìveres, indo entre elles o proprio Caiumbuca. Voltáram

ao anoutecer com as mãos vazias. Nada, absolutamente, o gentio lhes

quizera ceder, mostrando-se até hostil!

A nossa posição era grave. Tentar outra marcha, no estado de fraqueza em

que estàvamos, era arriscàrmo-nos a ficar tôdos mortos de inanição.

Reuni os pombeiros, a quem expuz as circunstancias precàrias da

caravana, e de tal modo os encontrei desalentados, que nenhum alvitre me

foi propôsto.

Chamei alguns dos prêtos que tinham ido ás povoações e perguntei-lhe,

¿se effectivamente ali haveria mantimentos? e tendo-me elles respondido

afirmativamente, eu tomei uma resolução immediata. Disse aos pombeiros,

que fôssem animar a sua gente, porque no dia immediato de manhã terìamos

de comer em abundancia.

Ficando só com Caiumbuca, communiquei-lhe a resolução que tinha tomado,

de ir no dia immediato fazer provisão de alimentos ou por bem ou por

mal.

Na madrugada de 20, mandei de nôvo o Augusto com alguns prêtos ás

povoações, pedir que me vendêssem milho ou mandioca, e expor as

circunstancias em que nos encontràvamos.

A ùnica resposta que obtivéram os meus enviados foi uma aggressão

insòlita.

Então reuni tôdos aquelles a quem a fome não tinha completamente

prostrado, e pude ter oitenta homens, semi-vàlidos.

Puz-me á sua frente, e assaltei a povoação do chefe, que, depois de um

curto tiroteio sem consequencias, se rendeu á discrição.

Corri logo aos celeiros, que estavam cheios de batata dôce, e tirei

tanta quanta me era precisa para matar a fome da minha gente,

regressando ao campo, com o chefe e mais alguns prêtos prisioneiros. Dei

a estes o valor das batatas em missanga e pòlvora, e pul-os em

liberdade, fazendo-lhes ver, que era melhor tratar as cousas por bem

d'ali em diante. Elles agradecêram muito a minha generosidade, e

prometêram fornecer-me aquillo que tivessem logo que eu lh'-o mandasse

pedir.

N'esse dia, á 1 hora e meia, estando o ceo limpo, apenas com espêssa

barra no horizonte, cahio um tufão vindo do N., que, depois correu a

S.O., o foco passou um kilòmetro a O. de mim, arrancando àrvores e

destruindo tudo na sua passagem.

No meu campo, o vento soprou tão rijo, que tivémos de nos deitar por

terra em quanto durou a sua maior intensidade.

O thermòmetro subio de 20 a 32 graos, e o baròmetro desceu de 667^{mm.}

a 663. Foi esta a mais violenta oscillação baromètrica que observei na

Àfrica tropical.

Ás duas horas e meia, o vento acalmou de repente, ficando a atmosphera

completamente coberta de um nevoeiro denso.

As povoações que me ficavam um kilòmetro ao sul chamam-se Lutué; mas

Caiumbuca disse-me, que entre os Bihenos sam conhecidas apenas pelo nome

de Cacápa, por serem ricas em batata dôce, que na lìngua Hambunda se

chama _écápa_.

As gentes d'estas povoações, como a de tôdas da planicie do Nhengo, sam

de raça Ganguela, submettidas pela fôrça aos Luinas ou Barôzes. Sam

povos miseraveis e intrataveis.

Pêla tarde, chegou ao meu campo uma tropa de Luinas, que andavam

rondando no paiz, e que, sabendo que eu chegara ali na vèspera, me

viéram ver.

Era commandada por três chefes, dos quaes o maioral se chamava Cicóta.

Os chefes viéram comprimentar-me e offerecer-me os seus serviços, e

pedindo-lhes eu logo, que me obtivessem de comer, elles respondêram, que

tambem estavam lutando com falta de vìveres, mas que no dia seguinte me

acompanhariam até umas povoações onde acharìamos recursos. Disséram-me,

que me iriam conduzir até junto do rei do Lui, e que nada me faltaria

pêlo caminho logo que chegàssemos ás povoações Luinas, já pouco

distantes.

[Figura 89.--Escudo dos Luinas.]

Estes Luinas t[~e]m uma bôa presença, sam altos e robustos. Uma pelle de

antìlope primorosamente curtida, passada entre as pernas e prêsa no

cinto de couro na frente e nas costas, e um amplo capote de pelles, é o

seu vestuario. Os três chefes traziam carabinas raiadas de grande

calibre, de fàbrica Ingleza. Os outros sobraçavam grandes escudos de

forma ogival, de um metro e 40 cent. de comprido por 60 cent. de largo,

e estavam armados de um feixe de azagaias de arremêsso. O peito e os

braços cheios de amulêtos. Os pulsos sam ornados de manilhas de cobre,

latão e marfim, e por baixo dos joêlhos trazem de 3 a 5 manilhas muito

finas de latão. O que n'elles e admiravel sam as cabêças, não pêlo

cabêllo, que é cortado curto, mas pêlos enfeites que lhe põem.

A do chefe Cicóta está coberta de uma enorme cabelleira, feita da juba

de um leão. Os outros traziam penachos de plumas multicolores

verdadeiramente assombrosos.

Durante a noute apparecêram entre nós innùmeros escorpiões, sendo

mordidos por elles alguns dos meus homens.

[Figura 90.--O Chefe Cicóta.]

O terreno continúa esponjoso e hùmido, sendo um tormento viver em tal

paiz.

Multiplicam-se ali as palmeiras, e já vam apparecendo algumas àrvores no

campo.

As termites apresentam aqui já um nôvo aspecto nas suas curiosas

construcções.

A 22 de Agôsto, levantei campo, e cinco horas depois, ia de nôvo acampar

junto da povoação de Canhete, a primeira povoação de raça Luina. Durante

a manhã houve um denso nevoeiro.

Algumas matas que passei eram formadas de àrvores enormes, e limpas de

arbustos, sendo facil o caminhar ali.

Logo que acampei, por prevenção de Cicóta, viéram muitas raparigas ao

campo trazer-me gallinhas, mandioca, massambala e ginguba.

Durante tôda a tarde continuáram a trazer-me presentes, que eu retribuia

o melhor que podia. ¡Tinha já que comer em abundancia!

[Figura 91.--Termites do Nhengo.]

Pedi tabaco, de que eu trazia ainda bôa provisão, e sal, ¡sal que eu não

provava havia tantos mezes!

Respondêram-me, que tinham o maior pesar de não poderem satisfazer ao

meu desejo, mas que o tabaco e o sal só se davam ou se vendiam por uma

licença especial do règulo.

¡Eis uma terra Africana onde ha dois artigos de contrabando! Felizmente

não ha alfàndegas.

Fui visitar as povoações de Canhete. Cresce ali nos quintaes o tabaco e

a cana de assucar com um desenvolvimento enorme.

As casas sam feitas de caniço revestido de côlmo, e t[~e]m umas a forma

de um semicylindro de 1,5 metro de raio, outras sam ogivaes, não tendo

mais altura do que aquellas.

Os celeiros sam como os das povoações Ambuelas, mas de menores

dimensões.

Os Luinas viéram ao meu campo, e fizéram ali uma dança guerreira, muito

pintoresca, em que havia um mascarado que fazia o papél de truão.

N'essa noute chegou o prêto Cainga, que eu tinha mandado, dois dias

antes, ao règulo, a participar-lhe a minha chegada.

[Figura 92.

1 e 2. Casas Luinas de 1^{m.} 5 de altura. 3. Celeiro. 4, 4. Enxada do

Lui.]

Viéram com elle alguns chefes com presentes do rei para mim, e entre

elles seis bois.

¡Carne de vacca! ¡tinha carne de vacca para comer!

Disse-me o Cainga, que elle se mostrou ufano por eu vir falar com elle

de mando do Mueneputo, e que me esperava uma recepção esplèndida.

Eu estava sempre desconfiado, porque conhecia bem os nêgros, e sabia

quantas traições encerram as suas zumbaias, mas não deixei de ficar

satisfeito.

Elle mandou reunir muitos barcos, de modo que podesse passar a minha

comitiva de uma só vez, para mostrar a sua grandeza.

Disse-me o Cainga, que elle era rapaz de 20 annos, e que, sabendo que eu

era nôvo, dissera, que seriamos amigos.

Comi tanta carne e tanta batata, já temperadas com sal, condimento que

obtive por contrabando, que me senti muito incommodado, e passei uma

pèssima noute.

Os chefes Luinas que viéram da parte do règulo, trouxéram ordem ás

povoações para me fornecerem o que eu pedisse sem retribuição. Esta

ordem foi acertada, porque eu não tinha com que retribuir.

Quando ia a levantar campo, chegáram novos enviados do rei com sal e

tabaco para mim, e com o recado, de eu não seguir o caminho directo da

embocadura do Nhengo, porque elle queria castigar as povoações

privando-as da minha visita.

Mandei dizer-lhe, que eu não seguiria outro caminho, por ser este o que

mais me convinha. Que eu não servia para elle castigar comigo os seus

povos delinquentes; e que, se elle me não mandasse barcos ao sitio do

Zambeze que eu havia designado, eu passaria o rio sem o auxilio d'elle.

Logo á sahida de Canhete, encontrei um paúl horrivel, que tendo apenas

500 metros de largo, levou 1 hora a transpor. Caminhei a leste, e três

horas depois alcancei as povoações da Tapa, onde aceitei uma casa

offerecida pêlo chefe, por não ser possivel acampar fóra da povoação em

terreno pantanoso.

As casas ali sam formadas por uma pyràmide troncocònica de caniço,

coberto interna e externamente de barro. A porta tem 60 centìmetros de

alto por 50 de largo.

Esta casa é cercada por outra só de granito, concèntrica áquella, e que

tem de raio um metro mais. O tecto abrange as duas casas e é feito de

caniço coberto de côlmo.

O chefe levou-me um presente de gallinhas e batata dôce.

Marquei, duas milhas ao sul, a grande povoação de Aruchico.

[Figura 93.--Corte vertical de uma Casa Luin da aldea da Tapa.

a. Casa interior. b. Intervallo entre as duas parêdes. c. Porta

interior, 50^{c.} por 40^{c.} d. D^{a.} exterior 1^m. por 50^{c.} e.

Ventilador. f. Parêde, caniço e barro. g. D^{a.} caniço, 2^{m.} h.

Armação de caniço. k. Cobertura de côlmo.]

No dia 24 de Agosto, parti ás 8 horas da manhã, e depois de atravessar

um paúl como na vèspera, alcancei a margem direita do rio Nhengo ás 9

horas, descendo até ao Zambeze que encontrei ás 10 e meia.

¡Com que enthusiasmo eu saudei o grande rio! Alguns hippopòtamos vinham

resfolgar á tôna d'àgua a 30 metros de mim, e dois fôram vìctimas da sua

imprudencia.

Um crocodilo enorme foi tambem infeliz em se conservar ao sol n'uma ilha

pròxima.

Tinha saudado devidamente o Liambai! Tinha-o saudado tingindo-o de

pùrpura com o sangue das feras.

No meio do maior enthusiasmo dos meus e dos muitos Luinas que me

acompanhavam, alcancei as canôas, e passei, ao meio-dia, para a margem

esquêrda do rio.

Segui sempre a leste, e ás 2 horas, encontrei outro braço do Liambai,

que se separa d'elle junto a Nariere. Andei por isso em uma grande ilha

onde ha povoações, sendo a principal Liondo.

Aquelle braço do rio, ainda que tem 150 metros de largo, é pouco fundo,

e foi transposto a vao. Na outra margem havia mais gente mandada pelo

règulo.

Segui sempre, e ás 3 horas, encontrei uma grande lagôa junto á povoação

de Liara, que passei embarcado. Este lago, formado pêlas àguas que o

Zambeze lhe introduz no tempo das chuvas, chama-se Norôco.

Segui sempre a leste, por entre um labyrintho de pequenas lagôas, que

era preciso evitar, e ás 5 horas cheguei a Lialui, grande cidade,

capital do Barôze, ou reino do Lui.

O rei tinha feito programma.

Tive em poucos dias duas grandes sorpresas, para mim já meio selvagem e

esquecido dos costumes Europeus. O contrabando de tabaco, de sal, e o

programma do rei do Lui.

Uns mil e duzentos guerreiros formáram alas até á casa que eu devia

provisoriamente ir occupar, e um dos grandes da côrte, acompanhado de

uns trinta figurões, formáram o meu sèquito.

Chegado á casa, que tinha um grande pàteo cercado de caniçal, estava um

estrado, onde eu me devia sentar, para receber os comprimentos da côrte.

Logo em seguida, chegáram os quatro conselheiros do rei, dos quaes é

presidente Gambela. Com elles vinham tôdos os grandes que formavam a

côrte do rei Lobossi.

Sentáram-se, e começou, da parte d'elles e da minha, uma troca de

comprimentos e saudações, com mil protestos de amizade.

Por fim retiráram-se gravemente, e fôram substituidos por outros

massadores, que só me deixáram á noute fechada.

Retirei-me para a casa que me destinavam, que era um d'esses

semicilindros de que já falei, e tive uma noite de insomnia, pensando no

futuro da minha empresa.

Estava sem recursos, e se o rei não protegesse enèrgicamente a minha

viagem, ¿que poderia fazer?

Sem a generosidade d'elle, nem mesmo teria que comer ali.

Elle mandara-me dizer, que me falaria no dia immediato. ¿Como nos

entenderìamos? Aquelle Gambela, o presidente do Consêlho, que acabava de

estar comigo, o homem que tôdos me diziam ser o verdadeiro rei, ¿que

seria elle para mim?

O capìtulo seguinte mostrará, que não era sem razão que um presentimento

mal definido me produzio uma noite de insomnia em 24 de Agosto de 1878.

INDICE.

Abbadie, M. d'., 10, 11

Abutres, 308

Acacias, 57

soberba floresta de, 103

Adulterio, sanccionado, 54

Adevinho, indigena dos sertões d'Àfrica, 112, 113

consulta a meu respeito, 114

Agua, escassa, 48

Àgua-ardente como incentivo, 67

Algodão, producção, 198, 210-242

Ambriz, 17, 18

ponte de desembarque, 18

Ambuellas, povoações, 248

descripção do paiz, 265-277

seu chefe, 278

danças, costumes do paiz, etc., 284, 285

aperfeiçoamento agricola entre elles, 288, 289

o paiz, 290-292

reino animal e vegetal, etc., 293-301

Anchieta, José de, 63

seu tracto pessoal, laboratorio, etc., 64, 65

Andara-canssampoa, ribeiro, 238

Angola, chegada a, 15

recepção pelo governador, 16

Antìlopes, 48-50, 220-232

amphibios abundantes no rio Cuchibi, e outros, 261, 262

songue, 268-270

Á prova de balla: incidente, 165, 166

Armas, geralmente usadas, 151

faço-me aprovisionar de, 154

fabrico ballas, 156

Aruchico, grande povoação, 327

desço o Nhengo até ao Zambeze

Associações, obsequios recebidos de, xii

Atuco, ribeiro, 73

Atundo, sorte de goiaba, 233

Augusto, prêto fiel, 160

um Don Juan de côr prêta, 161

Banja, libata de, 73

Baobabs, 48

gigantêscos, 49

Barôze, revolução no, 277-315

Barracas, construcção de, 200, 201

Batatas, 94

Belmonte, povoação de, 127

planta da povoação, 128

Bembe, sovêta do, 229

rio Bembe, 229

Benguella, sigo de Loanda para, 26

descripção, 29-31

sou hospede do governador, 28

producção e commercio, 31, 32

obtenho carregadores, 34

partida de, 38

Bernardino Antonio Gomes, vii, 4-6

Biceque, rio, 240

Bihé, resolvemos ir directamente ao Bihé, 35

descripção do paiz, seu trafico, etc., 36

deliberação de seguir eu sòzinho para o Bihé, 80

descripção ethnogràfica, 132

historica, 133

suas differentes raças, 134

quadro genealogico de sovas, 136

figuras, 136, 137

commercio em larga escala, 138

fidelidade de carregadores, 138

qualidades moraes, 139

julgamento de crimes, 144

adulterio, 144

futuro commercial, 146-151

carneiros e cabras, 152

uma elegante, 161

sempre demora á espera de carregadores e cargas, etc., 162

modo de commerciar, 163

preparo munições, 168

prompto a deixar o Bihé, 170

episodio com um degradado, 174

descripção do paiz, 190-193

Bihenos, semi-carnivoros, 147

solemnidades barbaras com sacrificio de carne humana, 148

comendo carne putrefacta, 268, 269

sam incorrigíveis, 310

barbarismo, 310, 311

Bilanga, povoação do, 120

Bilombo, sova do Huambo, 77

presentes do, 78

Bingundo, bebida dos Luchazes, 245-304

Bitovo, ribeiro, 219

Bocage (D^{or.} J.V.B. de), 9, 65

carta ao D^{or.}, 203

Bois servindo de cavalgadura, 75, 76

Bomba, riacho, 96

Bongo-Tacongonzêlo, vertente, 237

Bùfalos, 58

encontro com, 85, 231, 313, 314

Burundoa, povoação, 94

Buzi, antìlope amphibio, 260

Cabango, sova de, 214

descripção do paiz e seus costumes, 214-217

Cabindondo, ribeiro, 46

Caça, 48-50

abundancia, 78

no Bihé, 153, 189, 231

Cacapa, povoações, 320

marcha forçada, 321

mantimentos tomados á força, 321

tufão, 321

descripção de raças, 322

Cachota, povoação, 117

Caconda, seguimos para, 63, 69

fertilidade, 188

Cacurocáe, rio, atravessámos, 61

Cacurura, povoação, 117

Caiumbuca, sertanejo audaz do Bihé, 318

fica ao meu serviço, 318

Calombeu, povoação no Baroze, 315

Calucúla, acampámos, 49

Caluqueime, povoações de, 61

Cambimbia, córrego, 234

serra, 236, 237

Cambuta, povoação, 238

abundancia de rôlas, 238

raças, costumes, etc., 239, 240

recepção pelas mulheres do sova, 241

Cameron, Commander Verney Lovett, xii

Cana de assucar, 42, 198, 210

Canata, ribeiro, 73

Cangala, 237

Cangamba, Muene-Cahenda, sova de, 255

descripção do paiz e costumes, 256

Cangemba, serra do, 45

Cangombo, ribeiro, 219

Canhete, povoação da raça Luina, 324

traffico, costumes do paiz, etc., 325

Canhungamua, rio, 89

Canjongo, povoação de, 74

Canssampõa, ribeiro, 237

Capata, 94, 146

Capêllo e Ivens, 5, 7, 10, 25

encontràmo-nos em Benguella, 35

combinação de trabalhos scientificos, 35

apreciação humorìstica, 47

escrevem-me, resolvendo seguir sós, 78

resolvo-me, a meu turno, a seguir só, 79-80

Ivens offerece-se a acompanhar-me do Bihé a Benguella, em

consequencia do meu estado de saude, 123

separação entre mim e meus companheiros, 124, 125

visita trocada entre Ivens e mim, 158

Capôco, poderoso filho do sova do Huambo, 77

minha visita a elle, 77

sua audacia, 80

idéa de pundonor, 81

presta bom serviço, 88, 89

mensagem do sova, 200

Capuço, secúlo, manda-me presentes, 96

Caquingue, paiz do, 105

descripção do paiz e raças, 107

figuras, 108

trabalhão principalmente o ferro, 109, 110

superstição, 111

Carabina d'El-Rei, significação, xx

Caravana de Quilengues, 48

Carbonato calcareo, 42

Carregadores, falta de, 15, 22, 23

falta de confiança em, 25, 27

em procura de, 26

obtenho a final, 34, 37

novas difficuldades, 37, 40, 66, 67, 83, 85

fujida de, 86

ladrões em geral, 150

Caruci, ribeiro, 118

Casamentos contractados antes da noiva nascer, 116

Cassamba, acampo perto de, 176

Cassára-Caiéra, serra, 236

Cassôma, secúlo rico, imposição arrogante delle a seu sequito, 91

repulsa, 91

Cassongue, ribeiro, 117

Catapi, rio, 65

affluente do Cunene, 188

Catonga, povoação de, 61

Caú-eu-hue, sova, 257

Cêra, 220

Chacahanga, conversa com o velho, 172

Chacahonha, povoação da raça Ganguela, 96

Chacaiombe, D^{or.}

o adevinho, 212

pretende curar-me por meio de feitiços, 248

Chacapombo, povoação, 95

Chacaquimbamba, libata, 86

roubo e resgate, 87

Chalongo, ribeiro, por outra, Longo, 307

Chalussinga, floresta, 48

Chaquicengo, povoação, 243

costumes e industrias, 244-246

Chaquiçonde, secúlo, investe contra mim e é repellido, 270

Chaquimbaia, secúlo chefe da povoação de Ungundo, 118

extraordinaria temporal, tufão, etc., 119

Charo, matas do, 118

Chiconde, ribeiro, 219

àguas correndo para o Cuito, 219

Chicôto, soba, 237

Chicului, rio, 304

passagem do rio, 305

Chicúli-Diengin, rio, 50

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro · 第 21 / 22 段