Ha tempo, recebendo a visita do boticario da minha aldea, e vendo elle

um dos meus albuns de desenhos, disse-me com tôda a franqueza de aldeão:

"O senhor escreveu aqui uma asneira, esta flôr não pode ser de uma

acacia, porque tem só duas pètalas e três estames, e deve saber, que a

acacia produz flôres de cinco pètalas, e dez estames; por isso entra na

familia das Papilionàceas, e hôje entra na classe das Leguminosas, e eu

vou-lhe buscar o meu _de Candolle_..." Não vá, lhe disse eu, acredito-o

sôbre palavra, e como ahi vai representada a flôr, não me metterei a

querer classifical-a.

[Figura 67.--Oúco.

Flôr dez vezes augmentada. As flôres formam cachos de 3 cent. de

comprido por 15^{mm.} de diàmetro. Pètalas brancas, ovario e estames

castanhos, perfume delicioso.]

Esta àrvore, cujas flôres cubicei para offerecer ás damas da Europa, não

a encontrei antes d'este ponto, e desappareceu no curso superior do rio

Ninda.

Outra àrvore que encontrei ali e que chamou a minha attenção, não pelo

aroma das flôres, mas pelo gôsto dos frutos, foi uma que os naturaes

chamam _Opumbulume_.

O fruto é em tudo semelhante ao Mapole, que já descrevi, sendo o seu

gôsto differente, e muito mais differente a àrvore que o produz.

O rio Cuchibi apresenta um aspecto differente do dos outros affluentes

do Cuando até ao ponto em que os visitei.

Corre no meio de uma planicie que encosta ás vertentes dôces de

montanhas cobertas de espêsso mato.

[Figura 68.--Opumbulume.]

A planicie completamente enxuta, e não apaülada, como quasi tôdas as que

fazem margem aos seus congèneres da Àfrica de Sudoeste, chêga por vezes

a alargar-se em oito kilòmetros de extensão.

O rio serpea ali, não em curvas de curto raio como o Cubanguí, mas em

pouco ondulada linha, que ao longe faz parecer rectilìnea a sua

directriz.

Uma pomposa vegetação herbàcea vai terminar nas escarpas do leito, onde

corre uma àgua cristallina, deixando perceber o fundo de area branca.

Carece completamente da flora aquàtica que abunda no Cubanguí, não sendo

inferior a sua fauna, de que falarei mais tarde.

Havia caça e fiz uma bôa caçada, pois que matei um songue, antìlope

vulgar nas margens do Cuando e nas dos seus affluentes.

Aparecêram-me n'aquelle dia alguns homens queixando-se de uns tumôres

que se desenvolviam nas articulações das pernas, e os impediam de andar.

Felizmente, o gasto de mantimentos já me deixava livres outros homens,

que tomáram as cargas d'aquelles.

Uma grande parte dos meus carregadores tinham feridas sôbre as tìbias,

sôbre a cabêça do proneo e tendão d'Achilles, que não havia meio de

curar. Debalde esgotei tôda a minha sciencia mèdica, emprestada do

Chernoviz, e debalde o meu doutor Chacaiombe reunio os seus medicamentos

selvagens, aos mais estupendos processos de feitiçaria, ellas a tudo

resistíram.

Eu attribui o caso a duas causas, e não sei se atribuia bem. Em primeiro

logar, o constante exercicio de andar, pensei eu ser uma; em segundo

logar, a alimentação seria outra.

Não julguem os meus leitores que lhes vou falar contra o innocente

Massango. Não, sou muito leal inimigo para atacar na ausencia aquelle

que tanto me perseguio. Deixo em paz o Massango, não é elle offensivo, e

creio mesmo que é bôa dieta.

A alimentação a que me refiro, e á conta de quem deito em parte a

inutilisação dos meus esforços e dos do doutor Chacaiombe, em curar os

meus doentes, é outra.

Os Bihenos, como já tive occasião de dizer, comem de tudo e de todas as

carnes em estado de putrefacção.

Ainda que repugne um facto que vou narrar, mostra elle bem a que grao

sobe o gôsto do Biheno pela carne.

A minha cadella Traviata têve em caminho oito cachôrros mortos.

Mandei-os enterrar pelo meu Augusto, em sitio occulto, para os subtrahir

á voracidade dos meus Bihenos; mas dois d'elles, do acampamento

seguinte, voltáram atraz, lográram descobrir o sitio onde elles fôram

enterrados, e leváram-n-os; fazendo com aquella carne um banquête. As

termites comem elles cruas ás mãos cheias, e apreciam muito os ratos.

Na ordem dos roedores ha um que elles muito procuram, e é um rato

pequeno de farta cauda sedosa, que vive nas tocas das abelhas, as quaes

não aggride.

[Figura 69.--O Rato mencionado.]

O ponto do rio Cuchibi onde eu estava acampado é despovoado de gente, e

diziam-me os guias, que só depois de quatro dias de marcha lograriamos

alcançar as povoações.

No dia immediato, seguímos viagem rio-abaixo pela margem direita.

A meia jornada, n'esse dia, notei eu que me faltava muita gente. Mandei

fazer alto, e voltei atraz a indagar do caso; quando deparo em um mato

com muitos dos meus, que compráram a uns Ambuelas, carne de Quichôbo, a

trôco de cartuxos que me tinham furtado.

Fugíram, ao ver-se descobertos; mas menos destros pude alcançar o

pombeiro Chaquiçonde e o meu doutor Chacaiombe. Este lançou-se de

joêlhos a pedir perdão, mas o secúlo Chaquiçonde tirou do machado para

me agredir.

Dei-lhe tão forte pancada na cabêça com a coronha da arma, que elle

cahio por terra atordoado, e eu julgei-o môrto; não me causando tanta

impressão ter môrto um homem em defensa propria, como o ter sido isso

por uma insubordinação, a primeira que se dava comigo. Voltei á

comitiva, que mandei acampar, e fiz transportar ao campo o século

Chaquiçonde, que vinha banhado em sangue de larga ferida produzida pela

pancada.

Fiz-lhe um curativo, e reconheci que não era de circunstancia o

ferimento, porque feridas na cabêça, quando não matam logo, em breve

cicatrizam. Reuni depois os pombeiros, por quem fiz julgar o delicto do

culpado, sendo a maioria de voto, que elle devia ser condenado á morte.

Outros entenderam, que lhe deveria mandar dar muita pancada.

Mandei-o comparecer, fil-o reconhecer a sua culpa, e perdoei-lhe. A

minha generosidade produzio geral assombro.

No dia seguinte, sustentei marcha de seis horas, sempre na margem

direita do rio.

Continuava de apparecer bastante caça muito esquiva. Matei um _songue_.

Este elegante antìlope differe bastante d'aquelle a que os Bihenos dam o

mesmo nome entre a Costa e o Bihé.

Tem 1 metro e 50 centìmetros de altura na agulha, e 1 e 40 da agulha á

raiz da cauda.

O pêllo curto é amarello torrado, e de tinta igual. Medi alguns saltos

de 5 metros, e vi-os saltar por sôbre um canavial de 2 metros de alto.

No momento do _hallali_ defende-se e ataca raivôso. A sua carne é

saborosa, mas, como a de tôdos os antìlopes, muito sêca.

Vive em manadas, sempre na planicie, e tem vigias em quanto pasta.

[Figura 70.--Songue.]

[Figura 70A.--Rasto do Songue.]

Só muito perseguido se embrenha nas matas, ou atravessa um rio a nado.

Este antìlope desapparece completamente àlém do curso superior do rio

Ninda.

Segui no dia immediato. Á medida que ia descendo o rio, vi que a

planicie marginal mais e mais se alargava.

N'ella pastam bandos de antìlopes, predominando os _songues_.

N'esse dia já se sentia grande falta de vìveres, e comêram-se as ùltimas

rações de massango.

Finalmente, a 29 de Julho, depois de três horas de marcha, fui acampar

em frente das povoações de Caú-eu-hue, onde reside o sova do Cuchibi.

Antes de falar dos povos Ambuelas, e d'um rico paiz atravessado pelo

Cuchibi, quero dizer duas palavras do meu modo de viajar, ou antes da

minha vida em Àfrica.

É certo que tôdos os meus predecessôres t[~e]m tido o seu systema, e

aquelles que me seguirem terám o seu, tôdos òptimos.

A minha vida, salvas raras excepções, foi a seguinte. Levantava-me ás 5

horas, despia-me (porque dormia sempre vestido e armado), e tomava banho

em àgua á temperatura de 33 centìgrados.

Os Inglezes tomam banho em àgua fria, que é mui tònica; eu por mim,

lavo-me por aceio, e não uso da hydropathia; para isso tinha uma

chaleira de ferro que me servia para aquècer a àgua. Narrando o meu

viver Africano, falarei de alguns objectos que a elle estavam

estreitamente ligados. O primeiro, depois da chaleira, era a minha

banheira de cautchuc, fabricada pela casa Macintosh de Londres. Era um

traste preciôso, que, depois de tão aturado serviço, ainda se acha hôje

em òptimo estado.

Coisa de borracha fabricada em Inglaterra é assim.

Depois do banho, passava ao meu _toilet_. A bacia era cortada em uma

cabaça de 50 centìmetros de diàmetro. As toalhas eram de finissimo linho

de Guimarães.

Escôvas, esponjas, sabonêtes e perfumarias (eu em Àfrica usava muito de

perfumarias), eram de primeira qualidade, fornecidas pelo Carlos

Godefroy, que vende tudo muito caro, mas muito bom. Terminado o meu

_toilet_, a que assistia o meu criado de quarto Catraio, guardava elle

cuidadosamente tôdos os objectos de que eu me tinha servido, e vinha

apresentar-me os chronòmetros, thermòmetros e baròmetro.

Dava corda, e comparava os primeiros, registrava as indicações dos

segundos.

A esse tempo já o meu muleque Pépéca tinta feito o chá, e vinha

apresentar-m'-o.

Figura aqui um objecto a que eu ligava a maior importancia. Era uma

chàvena de porcelana, chàvena que me foi offerecida pela espôsa do

tenente Rosa, em Quillengues.

Fina como uma fôlha de papél, transparente e elegante, aquella chàvena

fazia as minhas delicias, tornando mais saborosa a infusão das fôlhas do

arbusto Chinez.

Depois de tomar três chàvenas de chá vêrde, sem assucar, porque o não

tinha, fechava as malas, e dava ordem de partida; partida, que raras

vezes se effeituava antes das 8 horas, por ser impossivel arrancar os

carregadores de junto das fogueiras, onde os prendia um frio intenso.

Partìamos pelas 8 horas. Na frente da comitiva o prêto Cahinga, de Silva

Porto, levantava a bandeira, e logo após elle seguiam as caixas de

cartuxos, a pao e corda. Iam após os outros carregadores

indistinctamente a um de fundo, fechando a marcha eu, o Verissimo, e os

pombeiros.

O carregador que por qualquér motivo tinha de deixar o caminho, pousava

a carga, e era isso signal para junto d'ella parar o pombeiro a quem

elle pertencia, que depois o acompanhava.

Durante o caminho observava os meus rumos, e calculava as minhas

marchas, combinando o pedòmetro com o relogio. As marchas regulares eram

entre 8 e 10 milhas geogràphicas, sendo elevadas a muito mais quando as

circunstancias o exigiam. A tempo acampava, e durante uma hora durava a

faina de construir barracas.

Era um cortar de madeira, de ramos e de erva que durava uma hora. Se não

tinha observações a fazer, estendia-me horizontalmente na erva viçosa, e

dormia até me virem prevenir que estava prompta a barraca.

Geralmente a barraca estava prompta á uma hora; tinha pois de esperar

algum tempo para fazer as minhas observações para o boletim

meteorològico, que era feito a 0^{h.} 43^{m.} de Greenwich.

Para saber a hora consultava um relogio que o Pereira de Mello me

mandara de Benguella para o Bihé, relogio de latão, puro cylindro de

construcção helvètica, oito rubins etc., que trabalhava

desembaraçadamente.

Á hora precisa, chamava o Catraio, que me trazia os instrumentos, e

usando eu de um thermòmetro de funda, que pertencêra ao infeliz Barão de

Barth, quando eu fazia girar o thermòmetro, juntavam-se sempre a

distancia tôdos os carregadores Bihenos, que contemplavam pasmados

aquella operação, que eu repetia tôdos os dias, e elles tôdos os dias

vinham contemplar pasmados.

Logo que registava as observações, vinha o meu muleque Moero com os

pratos, e a ração, que eu não quero chamar jantar, aquelle punhado de

massango cozido em àgua.

Depois da refeição, se a fadiga me impedia de ir caçar e percorrer os

arredôres, empregava o tempo passando as notas do dia para o diario,

calculando as observações, desenhando, etc. A tinta que eu empreguei em

tôdos os meus trabalhos, foi a dos pequenos tinteiros màgicos, cada um

dos quaes me durava de dois a três mezes.

Este systema de fazer apontamentos durante as marchas e durante o dia,

que depois passava ao diario, dava em resultado, o ter eu um duplicado

dos meus trabalhos, e de haver sempre a possibilidade de se salvar um,

se o outro se perdesse. Os apontamentos diarios eram feitos a lapis, em

pequenos quadernos, que eu ia lacrando e sellando á medida que os

prehenchia. Nelles, àlém dos factos, estavam registradas tôdas as

observações iniciaes, já astronòmicas, já meteorològicas. Estes

cadernos, que ao deixar Durban enviei a Portugal por via de Inglaterra,

chegáram a salvo a Lisboa, onde ainda estam por abrir, ao passo que a

copia desenvolvida do que elles cont[~e]m, sempre me acompanhou, e está

servindo de norma ao que estou escrevendo agora.

Foi-me preciso fazer esta viagem, para saber o quanto vale o tempo, e

para quanto elle chêga sendo bem aproveitado.

Vinha á noute, e então crepitava na minha barraca grande fogueira, que

me proporcionava calor e luz. Se eu não tinha observações a fazer

durante a noute, ou, muitas vezes, se a fadiga obrigava o repouso a

preterir tudo o que houvesse a fazer, ia deitar-me sobre as pelles de

leopardo que formavam a minha cama, tendo por travesseiro a pequena

malinha em que guardava os meus papeis.

Um hàbito que adquiri em viagem, de envolta com o frio da ante-manhã,

faziam-me regularmente acordar ás três horas. Levantava-me então e

reaccendia a fogueira amortecida. Vinha á porta da barraca, onde via um

thermòmetro deixado fóra, e que a essa hora me dava uma mìnima muito

approximada. Eu não tinha thermòmetros de màxima e mìnima, e sam apenas

approximadas estas duas indicações thermomètricas que v[~e]m nos meus

boletins; sendo a temperatura màxima approximada a que se fazia sentir á

1^{h.} e meia, proximamente á hora do meu boletim a 0^{h.} 43^{m.} do

tempo de Greenwich.

Depois das 3 horas até ás 5, o meu tempo era passado junto ao fôgo,

fumando ininterrompidamente 10 ou 12 cigarros, e pensando na minha

patria e nos meus.

¡Quantas vezes a essa hora, hora para mim de meditação e tristeza, não

cogitava eu no futuro do meu emprehendimento!

Estava então no Cuchibi, 20 graos a leste de Greenwich, e 14 e meio ao

sul do equador. Estava longe de tôdo o soccorro que carecêsse, ¿onde

iria buscar recursos para seguir ávante?

Do Bihé até ali ainda tive a pouca fazenda de algodão de que dispunha;

mas as ùltimas peças estavam diante de mim. Eram o meu ùltimo dinheiro.

Em tôdos os povos encontrei mais ou menos facilidade de permutar o

alimento pela fazenda de algodão, sendo a preferida o zuarte, o zuarte

pintado e o algodão branco ordinario.

Raras vezes querem os riscados e a fazenda de lei. O buzio miüdo

(caurim), que tem muito valor entre os Quimbandes, e muito pouco entre

os Luchazes, recupera no Cuchibi a sua importancia, para emprego bem

diverso d'aquelle que lhe dam os primeiros d'estes povos.

Ali é para ornamentar as cabeças, aqui é para fazer cinturões, em que ha

grande luxo.

A missanga Maria 2^a tem grande valor em toda a parte; mas no Cuchibi é

preferida a tudo, excepto á pòlvora.

Chegando ao Cuchibi, cheguei ao primeiro ponto em que n'esta viagem me

pedíram manilhas de cobre e arame para ellas.

Logo depois de ter estabelecido o meu campo, appareceu n'elle um homem

que veio falar-me, dizendo ser Biheno e ter ficado ali doente, deixado

por uma comitiva, havia três annos.

Foi reconhecido por muitos dos meus carregadores, e engajou-se ao meu

serviço.

Eu estava no caminho das comitivas do Bihé, e como tencionava demorar-me

alguns dias, mandei um pequeno presente ao sova, e participar-lhe a

minha resolução.

Sube pelo Biheno que me appareceu, que corria a noticia de ter havido

uma revolução no Barôze, tendo sido expulso o règulo Manáuino, e

acclamado um outro de que não se conhecia por ora o caracter.

Não me foi agradavel esta noticia, porque eu sabia que Manáuino era

feroz e sanguinario com os seus, mas hospitaleiro para com estranhos.

Estes Ambuelas, entre os quaes estava, sam a pura raça Ambuela, porque

as do Cubangui estam muito misturadas com a raça Luchaze.

Sam os habitantes do Cuchibi inimigos dos Ambuelas de Oeste, e muitas

vezes v[~e]m ás mãos.

A raça Ambuela occupa tôdo o paiz banhado pelo Cuando superior, e está

agglomerada, sôbre tudo na parte em que este rio recebe os seus

confluentes, Queimbo, Cubangui, Cuchibi, e Chicului.

As povoações no rio Cubangui sam construidas, já nas ilhas do rio, já no

mesmo rio sobre estacaria. Sendo estes povos os ùnicos que possuem

canôas, dormem de noute descançados nas suas habitações aquàticas, sem

receio de serem atacados.

O sova mandou-me logo provisões e bastante milho. ¡Com que prazer eu

comi um prato de milho cozido!

¡Estava por algum tempo livre do fatal massango!

Mandou elle dizer, que viria visitar-me no dia immediato.

N'esse dia, logo de manhã, sahi a dar um passeio.

O emmaranhado da brenha espinhosa tornava difficil o caminhar na

floresta.

Ainda assim, afastei-me uns três kilòmetros do acampamento, e fui

deparar com uma enorme armadilha de apanhar caça.

Era ella formada por uma sebe que devia ter alguns kilòmetros de

extensão, fechando um espaço pròximamente circular. Este cercado enorme

tinha de 20 em 20 metros, pròximamente, umas aberturas, em cada uma das

quaes estava armado um Urivi, armadilha em que a caça, lebres e

antìlopes pequenos, sam esmagados por um pesado cêpo. Reunida muita

gente fazem uma grande batida no mato, e então a caça foge espavorida, e

não podendo saltar o cercado, investe com as aberturas, onde vìctima é

dos Urivis ali collocados.

De volta ao meu campo, encontrei no mato um acampamento de

Mucassequeres, abandonado de ha pouco.

[Figura 71.--Muene-Caú-eu-hue, Chefe dos Ambuelas.]

Recebi a visita do sova, homem de idade avançada, de typo sympàthico,

com um perfil judaico. Vinha bem vestido, trazendo sôbre uma farda um

casaco de linho branco, e ao pescôço um grande e vistoso lenço.

Cubria-lhe a cabêça um barrête de listas prêtas e encarnadas. Na mão

trazia uma concertina de que tirava sons desordenados.

Deu-me nôvo presente, de milho, mandioca, feijão e gallinhas, que eu

retribui dando-lhe algumas cargas de pòlvora, o mais estimado presente

que se pode fazer no Cuchibi.

Retirou-se o velho muito satisfeito, promettendo avistar-nos mais vezes.

Disse-me elle n'esta primeira visita, que os reis do Barôze, mandam ali

receber tributos, e que elle, para evitar guerra, lh'os manda pagar,

estando assim estabelecida uma especie de vassalagem; que, havia pouco,

soubera da revolução do Zambeze, mas não conhecia o nôvo potentado, e

nenhumas informações me podia dar d'elle.

N'essa tarde, os meus prêtos prendêram no mato dous Mucassequeres que

trouxéram á minha presença.

Os dous pobres selvagens tremiam de mêdo e julgavam-se perdidos.

Falavam um pouco a lìngua Ambuela, e por meio de um intèrprete pudémos

entender-nos. Elles julgavam que uma sentença de morte os ia fulminar,

ou ao menos que a escravidão iria sujeitar o resto de seus dias.

Mandei que os desamarrassem, e lhes entregassem as suas armas.

Disse-lhes que estavam livres, e que voltariam para a sua tribu, e

dei-lhes alguns fios de missanga para as suas mulheres.

Elles caminhavam de sorpresa em sorpresa, e não podiam crer na verdade

das minhas palavras. Dei-lhes de comer, e pedi-lhes que me levassem a

ver o seu bivac.

Depois de discutirem acaloradamente um com o outro, n'uma lìngua

desconhecida a tôdos os que ouviam, e completamente differente na

intonação a tudo o que em lìnguas Africanas eu tinha ouvido até ali,

decidíram que me levariam á sua tribu se eu quisesse ir só. Aceitei, e

parti com os dois horrorosos selvagens.

Apesar do meu muito hàbito da floresta, era-me difficil acompanhar os

ageis guias, que mais de uma vez tivéram de esperar por mim.

Ao cabo de uma hora de caminho, deparámos, no meio de uma pequena

clareira, com o acampamento da tribu.

Haviam ali mais três homens, sete mulheres e cinco crianças.

Alguns ramos d'àrvore derreados, com outros encostados na frente, sam os

seus ùnicos abrigos.

Não t[~e]m o menor apresto de cozinha. Sustentam-se de raizes, e de

carne que assam em espêtos de pao. Não conhecem o sal.

Homens e mulheres mal cobriam a sua nudez com pequenas pelles de

macacos.

Arcos e frechas sam as ùnicas armas de que se servem. Eu estava muito

embaraçado, porque não os entendia nem podia fazer-me entender d'elles.

Dirigi-me ás mulheres, a quem dei alguns fios de missangas que tinha

levado para isso. Ellas recebêram-n-os sem darem mostra de nenhum

sentimento de agrado.

A miseria d'aquelles desgraçados compungia-me. O seu rôsto é feissimo,

olhos pequenos e um pouco inclinados nas òrbitas, ossos molares muito

distanciados e salientes, nariz achatado, com as fossas nasaes

desmesuradas.

T[~e]m o cabello encarapinhado e pouco, crescendo em montões separados,

mais basto no alto da cabêça.

Alguns bocados de pelle de animaes atados nos pulsos e nos artelhos sam

o seu ornamento, ou talvez amuleto milagroso.

Procurei fazer comprehender aos meus guias que ia voltar, e elles

precedêram-me no caminho, deixando-me, já noute, na orla do bosque

d'onde eu ouvia o vozear do meu campo e alegres cantares.

Durante a minha permanencia no Cuchibi, pude recolher algumas

informações, ainda que escaças, a respeito de tão estranhas gentes.

Os Mucassequeres partilham com os Ambuelas os territorios de entre

Cubango e Cuando, sendo que estes vivem sôbre os rios e aquelles nas

florestas, estes sam bàrbaros, aquelles selvagens.

Não convivem, mas não se hostilizam.

Se a fome os obriga, os Mucassequeres v[~e]m aos Ambuelas permutar

marfim e cêra por alimentos.

As tribus Mucassequeres sam independentes, e não obedecem a chefe

commum.

Guerreiam-se mesmo e os escravos que fazem uns aos outros v[~e]m elles

vender aos Ambuelas, que os permutam depois ás comitivas do Bihé.

Os Mucassequeres sam os verdadeiros selvagens da Àfrica tropical do sul,

os outros povos podem ser chamados bàrbaros.

O Mucassequer nunca têve casa ou simulacro d'ella. Nasceu sob a àrvore

da floresta, viveu e morreu sob a àrvore da floresta.

Despreza a chuva e o sol, e soporta as intemperies como qualquér fera

dos matagaes.

Ainda o leão e o tigre t[~e]m um antro onde se escondem; o Mucassequer

precisa que pêlo côrpo despido lhe sopre a briza do mato.

Não conhece a enxada, porque nunca cultivou a terra. Raizes, mel e caça

sam o seu alimento, e cada tribu vagueia sem cessar em busca de raizes,

mel e caça.

Nunca dormem hôje onde ficáram hontem. A frecha é a sua arma, e tão

destros sam no seu manejo, que caça apontada é caça morta.

O proprio elefante cahi traspassado pelas suas setas lançadas por

musculosos braços.

As duas raças que habitam este paiz, sam tão differentes no côrpo como

nos hàbitos.

O Ambuela é prêto e tem o typo da raça caucàsica; o Mucassequer é branco

e tem o typo da raça hotentòtica em tôda a sua hediondez.

O nosso marinheiro crestado pelo sol e pelo vento dos temporaes é mais

escuro do que o Mucassequer. Ha contudo n'aquella côr branca alguma

cousa de amarello terroso, que os torna hediondos.

Tive o maior pesar de não poder recolher dados mais precisos sôbre esta

curiosa raça, que me parece dever merecer attenção especial dos

anthropologistas e dos ethnògraphos.

É minha opinião, que este ramo da raça Ethìope, pode ser collocado no

grupo da divisão Hotentòtia. Tem na forma muito dos seus caracteres, e

nós vemos n'essa raça uma variação sensivel na côr da pelle. O _bushman_

do sul do Calaári é de côr mui clara, e alguns tenho visto quasi

brancos. Sam de estatura pequena, e de côrpo franzino, mas t[~e]m tôdos

os caracteres do typo Hotentòtio. No norte do mesmo deserto, sôbre tudo

junto aos lagos salgados, formiga outra raça nòmada, os Massaruas,

fortes e de estatura elevada, de côr nêgra carregada, possuindo o mesmo

typo Hotentote, e indubitavelmente pertencendo ao mesmo grupo.

Disséram-me no Cuchibi, que ainda entre o Cubango e Cuando, mas muito ao

sul, existia outra raça em tudo semelhante aos Mucassequeres, em typo e

hàbitos, mas muito prêtos.

Assim, pois, em vista da affinidade dos caracteres, não me repugna

admittir, que o grupo Hotentòtico da raça Ethìope, se estenda ao N. do

Cabo até entre Cubango e Cuando, passando por diversas modificações de

côr e de estatura, devidas quiçá aos meios em que vivem, á altitude, á

grande differença de latitudes, ou ainda a outras causas menos

apreciaveis.

Por muito tempo as subdivisões da raça Ethìope na Àfrica tropical, serám

mal conhecidas na Europa, por não ser facil colligir os dados para o seu

estudo.

¿Qual é o indìgena d'essas tribus bàrbaras que deixa moldar o seu côrpo?

¿Caso deixasse, como pode o anthropologista levar a materia para fazer

os moldes, e reconduzir depois esses moldes até á costa?

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro · 第 18 / 22 段