Ao chegar ali, dei um tiro em um animal que creio se chama _Leopardus

jubatus_, cuja pelle veio augmentar a minha cama felina. Esta pelle, que

foi minha cama até Pretoria, offereci eu ao Doutor Bocage.

Este leopardo jubatus bastante raro, porque em toda a minha viagem vi

apenas dois, vê muito pouco de dia, supponho eu, e supponho isto por ter

notado em ambos, que, ao deparar com elles, fitavam as orelhas para o

meu lado, em que sentiam rumor, como querendo perceber o perigo mais

pelos orgãos auditivos do que pelos visuaes.

Abeirei-me da lagôa, e determinei a sua posição, tendo mandado construir

o meu campo uns 100 metros ao sul, sobre a encosta, ficando uns 30

metros sobranceiro ao paúl, que mais paúl do que lagôa é o charco onde

nasce o grande affluente do Zambeze.

Quando trabalhava fui acommettido de um repentino e violento accesso de

febre que me prostrou por três horas. Quando voltei a mim, não pude

deixar de sorrir. Estava coberto de amuletos, tendo ao pescôço um

sem-nùmero de cornos de pequenos antìlopes, cheios das mais virtuosas

medicinas. Uma pulseira de dentes de crocodilo enlaçava-me o braço

direito, e dois enormes cornos de malanca pendiam de dois paos espetados

dentro da barraca.

Os meus prêtos, durante a febre, não se haviam poupado a cuidados, e

ouvido o doutor Chacaiombe, tinham posto tudo aquillo sobre mim, com a

mais inteira fé no resultado.

Uma forte dose de quinino, que tomei, determinando o meu prompto

restabelecimento, veio corrobar mais as virtudes dos amuletos, que tudo

a elles foi attribuido.

Os meus prêtos Augusto e Miguel, tinham ido caçar; mas voltáram sem

nada, tendo encontrado alguns leopardos. Víram contudo muitos rastos de

caça grossa.

No dia seguinte de manhã, levantei uma grosseira planta do paúl,

rectifiquei a minha posição, e levantei um pequeno padrão, construido de

barro, dentro da barraca das observações, onde enterrei um frasco que

fôra de quinino, perfeitamente rolhado, contendo um papél, onde, de um

lado, por baixo do nome d'El-Rei, escrevi os nomes dos membros da

commissão central permanente de geographia, e do outro, as coordenadas

do ponto, e a data.

Depois do meio-dia, os guias Luchazes fôram mostrar-me a nascente do rio

Queimbo, affluente do Cuando por oeste. Marquei estas nascentes, 6

milhas geogràphicas a S.O. do paúl da nascente do Cuando.

Os doze carregadores Luchazes estavam muito saudosos de suas casas, e

queixavam-se muito do frio. O paiz é despovoado, e deve ter muita caça,

porque d'ella haviam rastos, continuando a apparecer leopardos, que

d'ella sam tambem indicio certo. Nós não vimos nenhuma. Era preciso

seguir avante, porque os mantimentos desappareciam ràpidamente, e

precisàvamos alcançar as povoações Ambuelas, para escapar á fome.

Na manhã de 12 de Julho, por um frio de dois graos acima de zero, mandei

levantar campo e preparar para partir; não conseguindo deixar o

acampamento antes das 8 horas.

[Mappa 7.--Paúl da nascente do Cuando]

Milhares de periquitos esvoaçavam nas matas e faziam uma chiada

infernal.

Segui a margem direita do Cuando por duas horas, e em seguida, por

indicação dos guias, passei á margem esquerda sobre uma ponte que

improvisámos de troncos de àrvore.

Ali já o rio tinha dois metros de largo por dois de fundo, e violenta

corrente.

Ao passar o rio, avistei uma manada de gnous, a que não pude atirar.

Acampei ali. As margens do Cuando sam montanhosas, e desde a nascente

até áquelle ponto t[~e]m uma faxa apaülada de 30 a 40 metros, que deita

em toda a extensão muita àgua, que vai engrossar o rio.

Este facto dá-se com quasi todos os rios d'aquellas regiões, que recebem

por aquelle meio enorme quantidade de àguas, de modo que, sem a elles

affluirem outros, sam navegaveis a algumas milhas das pequenas

nascentes.

Na margem direita do rio vi aqui e àlém algumas barreiras verticaes

estratificadas, apresentando faxas côr-de-rosa, brancas e azues.

No dia seguinte, levantei ás 8, e caminhei até ao meio-dia, indo acampar

junto de um còrrego affluente do Cuando.

Adoecêram-me alguns homens, com papeira, e outros com inflammações nas

pernas.

Felizmente, as cargas das provisões tinham diminuido sensivelmente, e

tinha carregadores de sobrecelente. Nas margens apaüladas do Cuando

abundavam sanguesugas, que mandei apanhar, para applicar a alguns

doentes que d'ellas careciam.

As matas que atravessei, e aquella em que estava acampado, eram quasi

exclusivamente formadas de umas àrvores enormes, a que os Bihenos chamam

Cuchibi, àrvores prestadias ao viajante faminto.

O seu fruto semelha um feijão, onde só um grão de vivo escarlate está

encerrado na casca verde-escura. Este fruto, depois de uma demorada

cocção, separa os invòlucros escarlates dos cotylèdones brancos. Sam

aquelles invòlucros escarlates a parte comestivel d'esta semente.

[Figura 59.--O Cuchibi.]

Sam bastante oleaginosos, e os Ambuelas e Luchazes extrahem d'elles um

òleo que tempera a comida.

Este fruto é de certo um grande socorro ao viajante faminto; mas não é

para pressas, que a sua cocção é demoradissima.

Outro fruto que se encontra ali e que é bastante vulgar em todo o

planalto, é o que os Bihenos chamam Mapole.

É produzido por uma àrvore de mediana corpolencia, e semelha pela côr e

tamanho uma laranja madura.

Um pedùnculo bastante comprido suspende este fruto verticalmente dos

ramos da àrvore. O epicarpio e o mesocarpio estreitamente ligados,

formam um invòlucro de quatro milimetros de espessura, de dureza cornea.

[Figura 60.--Folha e Fruto do Cuchibi.

(Tamanho natural.)]

Só com um forte machado se pode partir. No interior a parte comestivel é

um lìquido espesso e coagulado em que se agglomeram umas sementes como

as das ameixas pequenas.

Este lìquido, de sabor agro-dôce, tomado em quantidade, é bastante

purgativo; mas asseguráram-me os Bihenos, que é muito nutritivo e um

homem pode viver d'elle alguns dias.

No dia seguinte, deixei o rio Cuando, que já ali se inclina a S.S.E.; e

por indicação dos guias, caminhei a leste, para ir demandar as nascentes

do Cubanguí, rio que elles me diziam ser muito grande.

Depois de uma hora de marcha, passei um ribeirão que corre ao sul, n'um

terreno apaülado de 100 metros de largo, que custou a transpor; 4 milhas

àlém, outro grande ribeiro corre parallelo ao antecedente.

[Figura 61.--O Mapole, Àrvore e Folha.]

Entre os leitos d'estes ribeiros, e bem assim entre os dos affluentes do

Cuando, a leste, correm montanhas norte-sul, montanhas que pertencem a

um systema mais importante, que ao norte corre leste-oeste, indo as suas

vertentes N. terminar no valle do Lungo-é-ungo.

Pelas 11 e meia, cheguei ao alto da serra, d'onde os guias me mostráram,

muito ao longe, as nascentes do rio Cubanguí. Marquei aquellas nascentes

perfeitamente a leste; e como receei não poder, chegado que fôsse,

determinar a latitude, parei, e ao meio-dia determinei a d'aquelle ponto

em que estava, por ser a mesma das nascentes do rio, estando, como

estavam, leste-oeste com elle.

Pelas 2 horas da tarde, acampei junto ás nascentes, que sam em tudo

semelhantes ás do Cuando. O pàntano que dá nascente a este rio tem o seu

eixo norte-sul, e estende-se por um kilòmetro, variando a sua largura

entre 80 e 100 metros.

[Figura 62.--Mapole, Fruto e disposição dos Ramos.]

Não appareceu caça, mas vimos d'ella muitos rastos, e durante a noute,

os leões fizéram um concerto infernal em tôrno do campo.

Já ali se distribuíram as ùltimas rações, e de nôvo tìnhamos diante de

nós a fome.

Os guias diziam, estarem perto as povoações, mas termos de marchar dois

dias para as alcançar; porque os muitos doentes, e sobre tudo o pombeiro

Canhengo, que estava mal, nos impediam de forçar as marchas.

O meu cuidado era extremo, e receiava já que o aggravarem-se as doenças

com a fome e com a fadiga me impedisse de alcançar a tempo os recursos

precisos.

No dia seguinte, apesar de todos os meus esforços, não consegui

sustentar a marcha àlém de quatro horas, e tive de acampar na margem do

Cubanguí, que não deixei desde a sua nascente. No ponto em que acampei

já o rio conta três metros de largo por um de fundo.

Um gnou, que matei, e algum mel que os prêtos colhéram na floresta, deu

minguada ração com que passámos um dia.

No dia immediato continuei a seguir a margem direita do Cubanguí, e

depois de quatro horas de marcha, acampei junto ao ribeiro Linde, em

frente de três povoações Ambuelas. Mandei logo não só áquellas

povoações, mas ainda a outras que ficavam na margem direita, e apenas

pudémos obter uma escassa ração de massango.

Todos nos diziam, que no dia seguinte chegariamos á terra do sova, e que

elle nos daria de comer. Na confluencia do Linde já o rio Cubanguí tem 5

metros de largo por 3 de fundo.

Os meus doentes não melhoravam muito, o que não era por falta de dieta.

Foi preciso sustentar marcha de seis horas, para alcançarmos no dia

immediato a povoação do chefe, a quem mandei logo um presente de uma

farda velha de cabo de infanteria 2, que elle muito agradeceu, dando

ordem aos seus povos para me venderem mantimentos. A trôco de missanga

obtivémos massango, o maldito massango, que tanto me havia de perseguir.

Despedi os meus guias, e os doze Luchazes que até ali me acompanháram, e

que se retiráram satisfeitos com o que lhes dei.

Elles fraternizáram com a gente das povoações Ambuelas, que estam ali um

pouco misturadas com a raça Luchaze.

Em um dos dias seguintes que passei ali, acampou junto de mim uma grande

porção de familias Luchazes que se vinham estabelecer no paiz.

[Figura 63.--Moene-Cahenda, Sova de Cangamba.

1. O que elle traz na mão.]

Passou ali tambem um rancho de caçadores, que iam para o sul em busca

dos elephantes. Foi a primeira vez que ouvi falar em elephantes, porque

todo o paiz que atravessei desde Benguella até ao Cubanguí, não os tem,

nem mesmo d'elles vi rasto antigo.

Ainda assim, os taes caçadores disséram-me, que precisavam andar seis

dias para os encontrarem.

Dois dias depois da minha chegada, veio visitar-me o sova de Cangamba,

Muene Cahenda, que me levava um presente de quatro gallinhas e um grande

cesto de massango.

Trajava a farda que eu lhe tinha enviado, e da cinta pendiam-lhe pelles

de leopardo. Na mão trazia elle um objecto formado de caudas de

antìlope, com que sacudia as moscas.

A cultura é feita no paiz por homens e mulhéres, que, em pequenas

plantações, cultivam massango, algodão, pouca mandioca, e ainda menos

batata dôce.

Trabalham muito em ferro, que extrahem das minas na margem direita do

rio, junto das quaes passei, ao norte de Cangamba.

[Figura 64.--Chimbenzengue. Machado dos Ambuelas de Cangamba.]

Ao contrario dos outros povos Ganguelas, em Cangamba sam os homens que

fazem as panellas e as mulhéres esteiras.

Fiam o algodão, que tecem em teares de occasião, fazendo uns pannos, do

tamanho de toalhas de rosto, muito perfeitos.

Viéram vender-me tabaco, que dizem cultivar no paiz, mas que eu não vi

nas plantações que visitei.

As armas de que usam sam frechas e machadinhas.

O Cubanguí tem, junto a Cangamba, 15 metros de largo por 6 de fundo, e

12 metros de corrente por minuto.

Tem peixe, a que não posso assignalar o feitio, porque os que vi eram

sêcos, e tinham de 40 a 50 centìmetros de comprido.

Mandioca e peixe sêco; ¡que opìparo banquête para quem andava condenado

ao atroz massango!

O rio Cubanguí, para não escapar á lei geral d'aquelle Continente, tem

crocodilos, mas sam nada vorazes, e afiançáram-me os Ambuelas, não haver

exemplo de uma desgraça causada por elles.

[Figura 65.--Cachimbo Ambuela.]

Fui pagar a visita ao sova, que é sujeito distincto e sympàthico. Como

me não vendiam senão massango, pedi-lhe, que me desse alguma mandioca e

algumas batatas dôces, presente que elle me fez em minguada porção,

escusando-se por não ter mais.

Ainda assim, chegou para três dias. ¡Três dias de fèrias de massango!

Tendo obtido guias, alguns carregadores, e bastante massango, decidi

seguir ávante, no dia 22 de Julho, a demandar as povoações do sova

Caú-eu-hue, no rio Cuchibi, onde passa, o caminho outrora seguido por

Silva Porto, e que eu abandonei no Cuanza, seguindo mais ao norte.

Disséram-me os guias, que teria de jornadear em paiz deserto por espaço

de 8 dias, e por isso precisava ir bem provido de rações. Os meus

doentes tinham melhorado com o descanço e mais abundante alimentação;

ainda assim, o Muene-Cahenga forneceu-me dez homens para ajudarem a

carregar o massango de que me provi.

Tendo-me dito os guias, que durante dois dias devìamos caminhar na

margem do rio, tive a lembrança infeliz de o descer embarcado.

A 22 de manhã, mandei transportar o meu barco de cautchuc ao rio, fiz

levantar campo, e tendo entregue o commando da comitiva ao Verissimo,

dirigi-me ao barco, que tripulei com dois muleques pequenos, o meu

Catraio, e outro pequeno de 12 annos, chamado Sinjamba, filho de um

carregador Biheno, que escolhi por falar bem a lìngua Ganguela, e poder

servir-me de intèrprete, se isso fôsse preciso.

Declaro, que não foi sem uma certa commoção que deixei a margem, e me

lancei na corrente de um rio desconhecido, tendo por ùnicos companheiros

duas crianças, e governando um barco de fragil tela.

O rio, que nasce trinta milhas ao N., já tem ali 15 metros de largo por

6 de fundo, e pouco a jusante, alarga a 40 e 50 metros, e ás vezes mais.

O seu fundo, que varía entre 3 e 6 metros, é coberto de area muito alva,

que de certo cobre uma camada de lôdo, porque a flora aquàtica do rio é

verdadeiramente assombrosa.

Muitas especies de juncos e outras plantas aquàticas enraizam no fundo,

atravessam com suas fôlhas e seus troncos finos, sempre agitados pela

corrente, 6 metros d'àgua, e v[~e]m desabrochar á superficie, as suas

flôres de variado colorido, e elegantes formas. Por vezes, esta pomposa

vegetação occupa tôda a largura do rio, e parece impedir a passagem. A

principio hesitei em lançar o barco sôbre aquelle prado aquàtico,

julgando encontrar fundo e falta de àgua para navegar; mas depois que a

sonda ali me accusou, ora 4 ora 6 metros de àgua, não mais duvidei em

deslizar por entre aquelles jardins floridos.

[Mappa 8.--De Cangamba ao Cuchibi]

Nos pontos onde a àgua, pela disposição do leito, tem corrente

insensivel, é que esta vegetação submersa se converte em verdadeira mata

virgem, que prende o barco e não o deixa avançar.

Vi muitos peixes nadando ligeiros por entre as sarças, sendo alguns de

mais de 60 centìmetros de comprido.

Bandos de patos fugiam diante de mim, estranhando de certo o serem

interrompidos n'aquellas regiões nunca devassadas por uma canôa.

Nos juncaes das margens, milhares de passarinhos chilreavam e saltavam

nos ramos das gramìneas, que mal se curvavam ao seu pêso ligeiro.

Aqui e àlém, um pàssaro pescador sustentava a mesma posição no ar com um

ràpido bater d'azas, até descer verticalmente com velocidade de frecha a

tomar a prêsa que espreitava.

Nos canaviaes da margem, um grande rumorejar na folhagem verde

deixava-me perceber um ou outro crocodilo que desapparecia nas àguas.

Outras vezes, aquelle rumor era seguido pelo baque de um côrpo que em

leve salto se precipitava no pego, e mal eu tinha tempo de perceber uma

esquiva lontra.

O rio, cuja direcção geral é Norte-sul, descreve as mais caprichosas

curvas, que quadruplicam o caminho. A margem direita é um vasto paúl de

largura muito variavel, que ás vezes alcança 1000 metros. D'ali se escôa

um grande volume d'àgoas que engrossam o rio a olhos vistas.

Três milhas àlém de Cangamba, vi um rancho de 18 mulheres que pescavam

junto á margem, peixes pequenos, com cestos de vime.

Em uma das voltas do rio, percebi três antìlopes desconhecidos para mim,

e quando ia a tomar a carabina para lhes fazer fôgo, elles saltáram na

àgua e desapparecêram em profundo mergulho.

Este facto causou-me a maior estranhêza, que cresceu de ponto quando, no

correr da viagem, por vezes divisei muitos d'aquelles animaes, já

nadando e mergulhando ràpidamente, já conservando sempre a cabêça

submersa, e deixando ver apenas as pontas dos cornos.

Este animal curioso, que tive depois occasião de matar no Cuchibi, e de

cujos hàbitos tive algum conhecimento, obriga-me a suspender por um

momento a minha narrativa, para falar d'elle.

Chamam-lhe os Bihenos Quichôbo, e os Ambuelas Buzi. O seu tamanho, no

estado adulto, é o de um bezerro de um anno. O pêllo é cinzento escuro,

de 5 a 6 centìmetros de comprido, e extremamente macío. Na cabêça o

pêllo é mais curto, e tem sôbre as fossas nasaes uma lista esbranquiçada

transversal. Os cornos t[~e]m 60 centìmetros de comprido, e a sua secção

na base é semicircular, tendo a corda quasi rectilìnea. Conserva esta

secção até três-quartos da sua altura, depois do quê se torna quasi

circular até á ponta. O eixo medio dos cornos é recto, e formam entre si

pequeno àngulo. Sam torcidos em tôrno do eixo, sem perder a sua forma

rectilìnea, apresentando as arestas uma espiral de passo muito largo.

As patas t[~e]m compridas unhas semelhantes ás do carneiro, e reviradas

nas pontas.

A disposição das patas e os seus hàbitos sedentarios tornam este notavel

ruminante improprio para correr. A sua vida passa-se na àgua, e nunca se

afasta muito da margem do rio, onde sahe a pastar, raras vezes de dia, e

muito de noute.

O seu sono e o seu repouso é na àgua.

A sua potencia mergulhadora é igual, senão superior, á do Hippopòtamo.

Durante o sono aproximam-se da superficie da àgua, e deixam ver fora

d'ella metade dos seus cornos.

[Figura 66.--O quichôbo.]

É muito tìmido, e acoita-se no fundo das àguas ao menor signal de

perigo.

É facil de surprender e de matar, sendo que os indìgenas lhe dam grande

caça, para se aproveitarem das suas pelles, que sam magnìficas, e da sua

carne, que não é muito bôa.

Quando sahem a pastar, a sua pouca destrêza na carreira, permitte aos

indìgenas o apanharem-n-o vivo, não se defendendo no ùltimo trance, como

fazem quasi tôdos os antìlopes.

A fèmea, como o macho, é armada de cornos.

Ha muitos pontos de contacto entre a vida d'este extraordinario

ruminante e a dos hippopòtamos seus conterràneos.

O rio Cubanguí, o rio Cuchibi e o alto Cuando, dam guarida a centenares

de Quichobos, que não apparecem já no baixo Cuando, nem no Zambeze. Eu

explico este facto pela voracidade dos crocodilos no Zambeze e baixo

Cuando, que em pouco tempo dizimariam tão tìmido animal, se elle se

afoutasse a ir viver nas àguas onde reina com absoluta soberania o

carniceiro amphibio.

Em uma entrevista que tive em Pretoria com um notavel caçador de

antìlopes, Mr. Selous, me disse elle ter ouvido falar do meu antìlope,

aos indìgenas do alto Cafucue, onde lhe disséram existir um animal

n'aquellas condições de vida.

A minha pouca competencia em materia de zoologia, não me permittio fazer

mais minucioso estudo de um animal, que eu julgo merecer a attenção dos

homens de sciencia pelos seus estranhos hàbitos.

Continuando com a minha narrativa, tenho a fazer os maiores elogios ao

meu barco Macintosh, que se portava muito bem nas àguas do Cubanguí; mas

cuja exiguidade de formas me obrigava a uma posição constrangida, que,

pelas 4 horas da tarde, me produzia dôres em tôdas as articulações.

Desde que deixei Cangamba não mais vi signaes da minha comitiva, e pêlas

4 horas da tarde, ás dôres de uma posição contrafeita já se unia um vago

cuidado e uma fome bem pronunciada. Os meus pequenos remadôres estavam

extenuados de fadiga. Aportei á margem esquêrda, e mandei o muleque

Sinjamba subir ao tope de uma àrvore a investigar se na outra margem se

erguia o fumo do acampamento.

Elle julgou ver o fumo a N.O., a montante por isso do sitio em que

estàvamos.

Tornámos a subir o rio, e eu com muito custo pude saltar no paúl da

margem direita e encaminhar-me ao logar onde fôram assignalados os

indicios de fumo.

Teria andado um kilòmetro, quando percebi vestigios da passagem da minha

comitiva para o sul. Os rastos da minha cabra e dos cães não me podiam

enganar.

Voltei ao barco e tornei a navegar rio abaixo. De vêz em quando parava e

mandava o muleque trepar a alguma àrvore da margem esquêrda, mas esta

manobra repetia-se sem resultado.

Aproximava-se a noute, e eu não estava sem cuidados; porque, àlém da

fome que sentia, receiava o dormir fora do campo, por causa dos meus

chronòmetros que ficariam sem corda.

Tinha desapparecido o sol, e n'aquellas paragens o crepùsculo é curto.

Decidi acampar com os meus dous pequenos na margem esquêrda, e quando já

dava execução ao meu plano, pareceu-me ouvir o estampido de um tiro

muito longe a S.O. Redobrámos de esforços, e pouco depois ouvia outro

tiro, a que respondi.

Ao meu tiro, vi o clarão de outro atirado a 200 metros de mim. Dirigi

para ali o barco, e deparei com o meu Augusto mettido em àgua até á

cinta no paúl de margem direita. Um Biheno estava com elle. Foi grande a

sua alegria ao vêrem-me, e logo viéram tirar-me do barco e

transportar-me ás costas por tôdo o paúl que era largo ali.

Foi difficil aquelle caminhar que levou meia hora, mas eu cheguei enxuto

á margem.

Os pequenos, depois de prenderem o barco a um canavial, seguíram-nos.

Disse-me o Augusto, ser longe o acampamento e termos de atravessar uma

espêssa floresta.

Eram profundas as trevas na floresta, e difficil o caminhar por entre as

sarças.

Tropeçar aqui, cahir àlém, andar dez metros em dez minutos, rasgando o

vestuario e a carne nos espinhos do matagal, tal é o jornadear á noute

em mata virgem.

Depois de uma hora de violentos esforços, sentímos perto tiros e grande

grita.

Eram os meus, que me buscavam.

Fiz-lhe signal e encontrámo-n-os.

Vinha Verissimo Gonçalves á frente de um grupo de Bihenos, que quizéram

por fôrça transportar-me ao campo, em umas andas que ali improvisáram

com troncos cortados na mata e folhagem d'arbustos.

Assim entrei no meu acampamento, onde, á meia noute, junto de um bom

fôgo, matava a fome de 36 horas.

Demorei-me ali um dia, e no seguinte logo de manhã comecei a passagem do

rio, que foi muito demorada, porque dispunha apenas para isso do meu

pequeno barco Macintosh.

Segui ás 9 horas na margem esquêrda do rio, e uma hora depois,

encontrava um ribeiro nas margens do qual appareceu muita caça; segui

sempre, e pela 1 hora fui acampar junto de outro riacho, que como o

primeiro era tributario do Cubangui.

Aparecêram no meu campo dois Ambuelas caçadores de cêra (como elles

dizem), que prevenìram os guias de que era imprudente seguir para o

Cuchibi; porque, tendo morrido um sovêta pròximo do caminho que devìamos

seguir, estàvamos expostos aos desatinos que elles costumam praticar em

taes occasiões.

Viéram prevenir-me d'isso, mas eu, a despeito da morte de tôdos os

sovêtas possiveis, resolvi seguir ávante, e effectivamente no outro dia,

depois de marcha bastante forçada de 6 horas, alcancei a margem direita

do rio Cuchibi.

Na minha comitiva havia muita gente com uma molestia que tinha alguma

cousa de ridìculo; 18 ou 20 pessôas estavam com papeira.

CAPÌTULO VIII.

AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS.

O Cuchibi--O sova Caú-eu-hue--Os Mucassequeres--Opudo e

Capeu--Abundancia--Bondade dos indìgenas--Povoações e costumes--Um

vao no Cuchibi--O rio Chicului--Caçada--Feras--O rio Chalongo--Uma

jornada atroz--As nascentes do Ninda--O tùmulo de Luiz Albino--A

planicie do Nhengo--Trabalhos e fome--O Zambeze a final.

Foi a 25 de Julho que acampei na margem direita do rio Cuchibi.

O terreno que medea entre este rio e o Cubanguí, é occupado por floresta

virgem, onde se nota vegetação opulentissima.

Um naturalista botànico encontraria ali vasto assumpto para demorado

estudo; tal é a variedade de plantas que crescem, umas á sombra

d'outras, n'aquella brenha enorme.

Por espaços o caminhar foi difficil, e mais de uma vez as machadas

sahíram dos fortes cinturões de couro, para tornar transitavel um ou

outro carreiro de feras.

Ao caminhar na mata foi o meu olfato impressionado por um aroma suave e

delicadissimo, emanado da flôr de uma àrvore abundante ali.

Nenhuma das flôres conhecidas tem mais delicado aroma do que o da flôr

do _Oúco_, que assim chamam os naturaes á primorosa àrvore.

A configuração da àrvore, a disposição das fôlhas, as flôres, em cachos,

e sôbre tudo a minha ignorancia em botànica, fizéram-me escrever no meu

diario sem hesitação, é uma Acacia.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro · 第 17 / 22 段