Vem a propòsito falar aqui de outras formigas mais vulgares do que o

Quissonde.

Uma é pequena, de três milimetros a quatro de comprido, negra e como o

Quissonde armada de fortes mandìbulas. Chamam-lhe os Bihenos Olunginge.

É o maior inimigo das termites, contra as quaes dirige terriveis

ataques, e que vence apesar da desproporção do seu tamanho.

Estas pequenas formigas sam um verdadeiro beneficio, pela enorme

destruição que causam nas larvas, nymphas e ovas das termites.

Em alguns pontos encontrei nas habitações das termites uma grande

quantidade de formigas enormes, atingindo o comprimento de 20

milimetros, que vivem em communidade com os abundantes nevròpteros da

Àfrica Austral.

Estas formigas, supponho eu, que, pouco dadas ao trabalho de construir

habitações, vam procurar nas construcções termìticas, abrigo e morada.

Nenhum d'estes pequenos insectos ataca o homem àlém do Quissonde, que o

ataca sempre, e ainda nas margens do rio Bembe fez dispersar os meus

carregadores.

Tive pois de ir longe escolher outro sitio para acampar.

Voltáram da povoação do Bembe alguns homens que ali tinha enviado, com a

triste nova, de que o sovêta dera ordem para nada me venderem.

A fome já se fazia sentir muito, caça não apparecia, e apenas tivémos

n'esse dia um punhado de massango, que tanto coube a cada um de nós na

divisão que fiz, do pouco que obtivémos na margem do rio Cuito.

Ali o paiz já era completamente desconhecido a todos, e nenhumas

informações podiamos colher do gentio esquivo.

Reuni os meus pombeiros, e fiz-lhes ver a grande necessidade de

alargarmos a marcha no dia seguinte, até encontrarmos povoações mais

hospitaleiras.

Elles conviéram na imperiosa necessidade, e apesar de muito carregada a

comitiva, e enfraquecida pela falta de alimento, decidíram animar a sua

gente para os fazer ir avante. Havia dous dias que encontrava vestigios

de ter sido outrora povoadissimo este paiz, pelas ruinas, já antigas, de

muitas povoações que encontrei.

¿O que determinaria este abandono?

¿Seria a devastação pela escravatura? ¿Seria a insalubridade do clima?

¿Seria a falta de caça? ¿Seria a má qualidade do terreno?

Não o pude saber; mas a primeira hypòthese parece-me a mais admissivel.

O facto era, que essa falta de população inesperada, nos creou o maior

embaraço, e eu n'essa noute soffri horrivelmente das torturas da fome.

No dia immediato, tive logo de manhã o transtorno de um carregador

doente; mas o meu Doutor Chacaiombe houve-se com toda a bizarria e

offereceu-se para levar a carga.

Na occasião de partir, apparecêram uns enviados do sovêta do Bembe,

pedindo-me alguma cousa para elle; fiz-lhes ver o mao procedimento do

sovêta para comigo, e mandeios pôr fora do campo.

Segui ás 8 horas e 40 minutos. O rio Bembe, que tinha a vadear, tem dois

metros largo por um de fundo e corre a S.O. para o Cuito.

A sua margem direita é montanha ìngreme; mas a esquerda, depois de uma

trincheira quasi vertical, de 10 metros, estende-se, plana e paludosa,

por um kilòmetro.

A marcha atravez do paúl levou uma hora, e fatigou muito a faminta

caravana.

O terreno em seguida é levemente inclinado e coberto de uma vegetação

arborescente difficil de transpor. Depois de outra hora de fatigante

caminhar, comecei a descer uma encosta, a cujo sopé se desenrolava uma

planicie, occulta por densa floresta. Desci uns 50 metros para alcançar

a orla da mata; mas tive logo de alterar o meu rumo. A floresta era

impassavel.

Aprovetei um difficil trilho de caça, que ora me levava a Leste, ora a

Noroeste, e depois a Sueste, até que o terreno me faltou de repente.

Um sulco profundo de cem metros, cavado pelas àguas de um ribeiro,

tolhia-me a passagem.

A difficuldade do caminho, o peso das cargas, e a fraqueza dos meus

carregadores, obrigáram-me a acampar ali.

A fome já se fazia sentir em todos os seus horrores. Uma esperança

todavia me animava; eu tinha visto vestigios de caça.

Pouco depois de chegarmos, matou-se no campo uma cobra, que me disse o

meu doutor ser muito venenosa; mas haver contraveneno á sua mordedura.

Tinha um metro de comprido, e era côr de telha no dorso, tendo o ventre

um pouco mais claro. Os olhos eram verdes muito brilhantes e a lingua

bipartida.

A bôca era armada de quatro dentes dispostos como as presas de um cão.

Ahi ficam os signaes d'ella para aquelles que pisarem um dia aquellas

paragens.

Era preciso caçar, e eu, logo que fiz as minhas observações, parti para

um lado, e mandei em outras direcções os meus prêtos Augusto e Miguel,

os ùnicos que t[~e]m algumas manhas de caçadores na minha comitiva.

Encontrei perto do campo um grande rasto de bùfalos e segui-o.

Não se faz idéa na Europa do que seja caçar para comer. É um prazer

horrivel.

Deve ser assim o apontar á banca, do jogador que precisa ganhar uma

certa quantia para pagar uma dìvida de honra, e que mistura o febril

prazer do jôgo, com a cruciante angùstia da incerteza. Os olhos com que

elle devora as cartas que lentamente vam escorregando por entre os dedos

do banqueiro; os olhos que queriam penetrar atravez da carta opaca para

anticipar o desfecho da agonia da dùvida, no fim da qual está a salvação

ou a morte suicida; devem ter a mesma expressão dos olhos do caçador

faminto, que perscruta a floresta em busca da caça que é para elle

questão de vida ou morte.

Ha contudo uma differença.

É que o caçador faminto pode invocar em seu auxilio a Divindade, pode

balbuciar uma sùpplica a Deus.

Ao passo que o caçador por prazer segue descuidoso uma pista, cheio de

felizes emoções ao avistar o gamo que procura; caminha

desassombradamente, sabendo que no sitio ajustado, um cozinheiro prepara

òptimos manjares; que pára aqui e àlém para contemplar uma flôr mimosa,

uma paizagem agradavel. O caçador por necessidade só pensa na caça que,

matando-a, lhe matará a fome.

Ao passo que um caminha curvado para chegar ao alcance do tiro, o outro

deita-se de rastos, não sente os espinhos que lhe razgam as carnes, e

por umas palhas que faz tremer, treme tambem de dar um alarme, e caminha

devagar, devagar, reduzindo a distancia para que o tiro não falhe, com o

coração a palpitar, e com o estômago a bradar em contorsões pungentes.

Deve ser assim o caçar do tigre e do leão. O rasto que eu segui levou-me

ao fundo do precipicio onde corre o pequeno còrrego, e por muito tempo

segui a sua margem direita, passando depois á esquerda, onde vi os

bùfalos, que caminhavam pastando na orla de uma densa floresta virgem.

Estavam a 500 metros de mim.

Começou então esse fatigante caminhar de rôjo, a carabina a tiracollo

como que nadando n'um mar de palha curta. De quando em quando levantava

a cabêça descoberta para espreitar a minha presa, e prosseguia n'aquelle

caminhar difficil cheio de commoções. Os bùfalos pastando, ora

caminhavam ora paravam, sempre na orla da mata. Se paravam que alegria,

se andavam que desespêro o meu!

Na mente phantasiava eu chegar ao acampamento e dizer, "vam á margem do

còrrego, e lá encontrarám caça para matar a fome."

Era uma mistura de prazer e de angùstia que me causava a incerteza

horrivel.

De repente os animaes desapparecêram na floresta em apressado trotar.

¿O que seria? ¿Terme-hiam presentido?

Levantei-me e segui o rasto com a maior presteza; mas entrando na

floresta, o meu desespêro subio de ponto.

Na mata virgem o solo coberto de musgo espesso não deixa perceber um

rasto ao ôlho mais experimentado.

Parei desanimado. Tudo o que tinha phantasiado cahio como sonho fágueiro

ao impertinente despertar.

Ainda fui longe sem nada perceber de caça, e perto das 6 horas da tarde

recolhi ao campo, prostrado de fadiga e fome, tendo andado inutilmente

20 kilòmetros!

Ao entrar no acampamento, achegou-se a mim o meu Augusto, mostrando-me

radiante de alegria um soberbo antìlope que tinha morto! Era uma enorme

Malanca (_Hippotragus equinus_) da corpulencia de um boi.

Fiz immediatamente a partilha pelos meus carregadores e por mim mesmo, e

depois de um longo jejum, que nem Deos me leva em conta por ser

involuntario, tive um opìparo jantar, adubado pela fome, que faria

inveja aos mais pichosos gastrònomos.

Miguel, o meu bravo caçador de elephantes, tambem veio comprimentar-me;

mas revelava-se-lhe no rosto a mais profunda tristeza.

Logo que sube a causa do desespêro do meu valente, não pude deixar de me

consternar muito.

Durante a ausencia de Miguel, a minha cabrinha Córa entrou na sua tenda,

e comera-lhe o grande feitiço que elle possuia para matar os elephantes.

Consistia o valioso talisman em um dente humano cahido do tecto de uma

casa velha, embrulhado em palha e trapos por um cirurgião de grande

fama, que lhe tinha incutido as maiores virtudes; sendo facilimo ao

portador de tão extraordinario objecto, o encontrar e matar elephantes

sem o menor perigo. Miguel estava inconsolavel; mas eu consegui

tranquelizal-o, promettendo-lhe maior feitiço do que o perdido, para o

mesmo fim.

E não o enganava, pois que a boa carabina que tencionava dar-lhe, logo

que chegàssemos a paiz de elephantes, valia bem por tôdos os dentes

humanos embrulhados em palha e trapos.

Depois de comer, reuníram-se em tôrno da minha fogueira os meus

pombeiros, e contáram-me, que durante a minha ausencia, toda a gente

tinha ido ao mato, seguindo uns os _indicators_, haviam colhido bastante

mel, sendo que outros haviam feito larga colheita de uma fruta chamada

pelos Bienos _atundo_, semelhante á goiaba, mas produzida por uma planta

herbacea de pequeno talhe. Os pedùnculos d'esta fruta partem do caule

junto á terra, e o fruto cresce semi-enterrado. O seu sabor é agradavel,

não julgando eu que seja muito nutriente.

[Figura 48.--Atundo, Planta e Fruto.]

No dia seguinte era preciso seguir avante, e por isso, apesar do frio,

levantámos campo muito mais cêdo que do custume.

Seguímos a S.E., encontrando, depois de duas horas de marcha, um rio

difficil de transpor. Tinha 4 metros de largo, por 4 de fundo, e

violenta corrente.

Mandei cortar grandes àrvores na floresta, e pouco depois estava lançada

uma ponte e a comitiva passava. Pouco a jusante do sitio em que passei o

rio, affluia a elle um riacho vindo de Leste. Segui a margem direita

d'este riacho, e uma hora depois, acampava perto de duas povoações que

avistava.

Logo que chegámos, viéram espreitar-nos alguns gentios, com quem pudémos

falar a pedir provisões. Pouco depois, já apparecia no nosso campo algum

massango que pretas quasi nuas vinham vender. Comprando a missanga sem

regatear, em breve tivémos alimentação sufficiente para aquelle dia.

Em breve se estabelecêram relações cordiaes entre aquelle gentio e nós.

Por elles soubémos, que o ribeiro onde acampámos na vèspera se chamava

Licócótoa, o rio onde n'aquelle dia havìamos lançado a ponte

Nhongoaviranda, e o còrrego em cujas nascentes estàvamos acampados

Cambimbia.

As duas povoações que ficam na margem esquerda do ribeiro sam Luchazes,

aquella que ficava a N.O. do meu campo era de Quiôcos ou Quibôcos. Fôram

estes ùltimos que viéram ao meu campo e com quem estava em relações.

Comi mais de um litro de massango cozido em àgua, não me foi

desagradavel tal alimento.

Depois de ter saciado o appetite, calculei a posição em que estaria

n'aquella noute o planeta Jùpiter, no momento do eclipse do 1^o satèlite

que eu precisava observar.

Eu estava acampado n'uma floresta copada, que não me deixava ver os

astros.

Logo que achei pelo càlculo a posição do planeta no momento desejado,

escolhi o logar onde assentaria o meu telescopio, e mandei rasgar na

floresta um claro sufficiente para poder fazer a observação.

Houve grande faina; e os meus bravos Bihenos, machado em punho,

conseguìram em duas horas razgar uma abertura por onde eu podesse

dirigir o meu òculo.

As mulhéres dos Quiôcos ou Quibôcos que viéram ao meu campo traziam os

filhos ao lado como as Luchazes, suspensos do hombro opposto por uma

faixa de casca de àrvore.

Àlém de massango, trouxéram ellas para vender umas raizes tuberculosas

chamadas Genamba, de que os meus pretos gostavam muito e eu nada. Não

cultivam o milho, e alimentam-se de massango.

O luxo dos penteados não se encontra entre os Quibôcos ou Quiôcos, e o

seu vestir é mais miseravel do que entre os Quimbandes. As mulhéres

andam nuas!

Causará de certo estranheza ao leitor, que eu, estando em pleno paiz dos

Luchazes, lhe esteja falando em Quiôcos. Se isso o admira, não me

sorprendeu menos a mim o caso de os encontrar ali.

A emigração constante dos Quiôcos e a colonização das terras Luchazes

por elles, é um facto.

O paiz dos Quiôcos ou Quibôcos (que lhes chamam indifferentemente) é

collocado ao norte de Lobar, nas vertentes leste da serra da Mozamba.

Livingstone fal-o cortar pelo parallelo 11 sul, e pelo meridiano 20

leste de Greenwich.

Os Quiôcos sam viajantes, caçadores, e ousados. Alguns, descontentes com

o seu paiz, emigráram para o sul, atravessáram o Lobar, e viéram

estabelecer-se na margem direita do Lungo-é-ungo, em paiz Luchaze.

Não foram hostilizados, e atraz d'estes seguìram-se outros, sendo

constante hôje a emigração. Não paráram ali, e seguíram muitos

emigrantes mais ao sul, indo até ao Cubango. A maior parte da povoação

de Darico é de Quiôcos.

Perguntando-lhes eu, ¿qual o motivo de abandonarem o seu paiz?

disséram-me, que a doença e a falta de caça os afugentava de lá.

Estes Quiôcos com quem entrei em relações, estavam estabelecidos ali

havia pouco, e não lhes sobravam as provisões para venderem; mas

disséram-me elles, que

[**Nota de editor: No original há um salto da página 235 à 237. Trata-se

de um erro de impressão.]

[**Transcriber's note: In the original book there is a gap between pages

235, 236 and 237... it is a printing error.]

No alto da serra ha um esplèndido panorama de N.E. a N.O. Vê-se tôdo o

curso do rio Cuango, affluente do Lungo-é-ungo pelo sul.

[Mappa 5.--Disposição da àgua em Cangala]

Avista-se a bacia d'este desde Cangala até á confluencia do Cuango, e

bem assim as bacias superiores dos rios Cuito, Cuime e Cuiba.

O golpe de vista é sorprendente.

Na vertente de oeste da serra Cassara-Caiéra a vegetação arbòrea é

esplèndida, na cumiada enfèzada e pobre; na vertente leste a vegetação

arborescente e herbàcea verdadeiramente rica.

Esta vertente leste é chamada Bongo-Iacongonzêlo.

Fui acampar na nascente do ribeiro Canssampôa, affluente do Cuango, e

durante tôdo o trajecto d'aquelle dia não encontrei àgua.

Junto ao meu campo, na outra margem do ribeiro, ficavam cinco povoações

Luchazes.

Estas cinco povoações sam governadas por um sovêta que obedece ao soba

Chicôto, cuja povoação é na confluencia do Cuango com o Lungo-é-ungo.

As duas povoações Luchazes que ficam no Cambimbia obedecem ao

Muene-calengo do Cuito.

O sovêta Cassangassanga veio visitar-me, e trouxe-me de presente um

cabrito. Dei-lhe alguma missanga com que se retirou satisfeito,

promettendo mandar-me algum massango n'aquelle dia, e guias no immediato

para me conduzirem a Cambuta, onde me disse eu encontraria muitos

vìveres. Cumprio as suas promessas, não só mandando o massango n'aquelle

dia, como os guias no seguinte.

O massango, dividido, deu uma pequena ração a cada um de nós; o cabrito

não era cousa de vulto para tanta gente, e francamente dormímos com

fome.

Ali cultivam massango, pouca mandioca, menos feijão, bastante mamona e

algum lùpulo.

Trabalham o ferro com bastante perfeição, sendo o minerio encontrado no

paiz.

No dia 6 de Julho, parti a leste, e depois de três horas de caminho, na

ùltima das quaes segui a margem do ribeiro Andara-canssampoa, acampava

em frente da povoação de Cambuta, junto ao rio Bicéque, que corre a N.E.

para unir-se ao Cutangjo, affluente do Lungo-é-ungo. O paiz tem uma

certa agglomeração de população, que obedece ao sova de Cambuta. Ali

pude obter bastante massango, ùnico alimento que cultivam em abundancia,

e por isso ùnico que me viéram vender.

[Figura 49.--Povoação de Cambuta, Luchaze.]

Nunca vi tão grande quantidade de rôlas como ali, e eu matei muitas,

carregando a arma com pedrinhas miùdas das margens do ribeiro.

Adoecêram-me alguns carregadores com papeira, e outros com gastrites, de

certo provenientes da má alimentação.

Entre as raparigas que viéram ao meu campo vender massango, notei

algumas muito galantes e muito esbeltas.

Andam quasi nuas, e mal se lhes percebe, não uma folha de vinha, mas um

pequeno farrapo de casca de àrvore.

Ali homens e mulhéres sem excepção t[~e]m os dentes incisivos da frente

cortados em triàngulo, de modo que estando a dentadura unida, apparece

um lozango vazio, formado por os dois triàngulos cortados na frente em

dentes de ambas as maxilas.

O frio continuava a ser intensissimo durante a noute, e só junto de

grandes fogueiras podiamos repousar.

[Figura 50.--Mulhér Luchaze de Cambuta.]

No dia seguinte, continuavam as doenças. Um caso bem para notar era,

serem só atacados os Bihenos, e resistirem os negros de Benguella, não

tão habituados como aquelles ás vicissitudes da vida sertaneja.

De manhã, matou-se perto do acampamento uma ave de rapina, que a minha

vista pouco experimentada não soube collocar em algum dos gèneros em que

se divide a familia dos rapaces diurnos, querendo, na minha ignorancia

em tal assumpto, que fosse um Gypeta, ainda que julgo ser ùnica a

especie do gènero conhecida.

O meu pàssaro parecia-se enormemente com o gypeta, excepto nas dimensões

que as tinha muito menores, pois contava apenas, de ponta a ponta de

aza, 1 metro e 75 centìmetros.

Fôsse o que fôsse, foi saboreado pelos Bihenos, que em materia de

gastronomia, desde o homem até ao abutre, passando pelo crocodilo,

leopardo e hyena, de tudo comem sem escrùpulo.

[Figura 51.--Homem Luchaze de Cambuta.]

N'esse dia, como na vèspera, o tempo que me ficou livre das observações,

empreguei-o a percorrer os arredores, levantando, como costumo, uma

planta grosseira dos terrenos que avisto, tendo marcado tres milhas ao

sul da nascente do Biceque, a nascente do rio Cuanavare, grande

affluente do Cuito. Junto da nascente do Cuanavare, estive na povoação

de Muenevinde, governada por uma dama, cujo marido que se chama Ungira,

não tem voz activa na governação.

Eu nunca fui amante de feijão-fradinho, mas á noute, de volta ao campo,

tive um pequeno presente d'elle, e comi-o com devorador appetite.

[Figura 52.--Objectos fabricados pelos Luchazes.

1 e 3. Machados. 2. Frecha. 4, 4. Ferros de frecha. 5. Enxada.]

O sova de Cambuta estava ausente em caçada, e fizéram-me as honras da

casa as suas damas, com quem conservei as mais cordiaes relações,

obtendo d'ellas, não só boa provisão de massango, mas ainda 12

carregadores para elle, e dois guias para me encaminharem ás nascentes

do Cuando e do Cubangui, affluente d'aquelle, rios que me diziam no paiz

serem os _maiores do mundo_.

Permittam-me aqui agora os meus leitores duas palavras, a respeito das

ùltimas do perìodo anterior que sublinhei.

O rio Cuando, de certo o maior affluente do Zambeze, não foi conhecido

por mim pelas informações dos Luchazes de Cambuta; e eu, tendo

sustentado a minha marcha do Bihé até ali, uma grande parte do caminho

fóra e muito ao norte do trilho das caravanas Bihenas, sabia o que

fazia, e onde deveria pouco mais ou menos ir encontrar as nascentes de

tão grande arteria. Devia isso ás informações de Silva Porto, que já

tinha descido aquelle rio do Cuchibi até Liniante, levando cargas em

canôas.

Silva Porto tinha-me assignalado as nascentes d'aquelle rio, que elle

conhecia nos seus terços medio e inferior, pouco mais ou menos no ponto

em que as encontrei, e isto por informações colhidas por elle do gentio.

Se Silva Porto podesse dar aos pontos que conhece da Àfrica Austral, as

posições traduzidas em longitudes e latitudes, enchiam-se facilmente os

espaços em branco que ainda existem na carta d'aquelles paizes.

Assim, pois, partindo de Cambuta a buscar as nascentes do Cuando, eu

cumpria o itinerario que havia traçado, e ia resolver um dos problemas

que mais desejava resolver.

As noticias detalhadas ia eu colhendo em caminho, as geraes essas já as

tinha aprendido de Silva Porto.

Disséram-me os meus guias, que ìamos atravessar, para àlém do rio

Cutangjo, uma região despovoada, e por isso era mistér fazer provisões

para o caminho. Foi essa informação que me levou a comprar mais

massango, e a pedir 12 homens, ás mulhéres do sova.

Parti no dia 9 de Julho ás 9 da manhã, e três horas depois passava o rio

Cutangjo, e acampava na sua margem direita, junto da povoação de

Chaquissengo. O Cutangjo tem ali 4 metros de largo, por 1 de fundo, e

corre a N.N.E. para o Lungo-é-ungo. Vi que nas plantações havia alguma

mandioca e muito massango--o terrivel massango, que tanto me havia de

perseguir em Àfrica!

Algodoeiros e mamona cultivam muito estes Luchazes.

[Mappa 6.--De Cambuta ao Cubangué]

Trabalham o ferro, que tiram das margens do Cassongo, e as suas obras

sam muito perfeitas.

Quasi todos os Luchazes t[~e]m barba por baixo do queixo, e pequeno

bigode. Vai ali desapparecendo o luxo dos penteados extraordinarios que

até ali faziam a minha admiração.

[Figura 53.--Mulhér Luchaze do Cutangjo.]

Os homens usam um largo cinto de couro cru, com fivelas feitas por

elles; cobrem com pelles a sua nudez, e abrigam-se do frio com licondes,

que extrahem de àrvores das florestas.

Não fabricam panellas, e as que usam vam obtel-as dos Quimbandes.

Fazem manilhas, com cobre, que ali lhes v[~e]m permutar a cêra os

Lobares, sendo que estes o obt[~e]m da Lunda.

[Figura 54.--Cachimbo Luchaze.]

Fui ver a povoação de Chaquicengo, que, como todas do paiz, é muito

bonita e de um grande aceio. As casas sam feitas de troncos de àrvores,

de 1 metro e 20 centìmetros de altura, que tanto é a altura das paredes.

O intervallo da madeira, que é encostada uma á outra, é cheio, em umas

de barro, em outras de palha. Os tectos sam de côlmo, e como as armações

sam feitas de varas muito finas, fazem uma curva, tomando um aspecto de

tectos Chinezes. Os celeiros sam collocados muito altos sobre uma

armação de madeira, todos de palha, e de cobertura movel; pois é preciso

levantal-a para ir dentro buscar os mantimentos. T[~e]m accesso por uma

escada de mão, e não sam mais do que um cesto gigantesco á prova d'àgua,

em que é tampa um tecto cònico.

[Figura 55.--Capoeira dos Luchazes.]

As capoeiras sam umas pyràmides quadrangulares de varas d'àrvore,

assentes em quatro pes ou estacas muito altas, para as pôr ao abrigo dos

pequenos carnìvoros.

No centro da povoação ha, como no Huambo, uma especie de kiosque para

conversa.

Ali, em tôrno de uma fogueira, alguns homens preparavam arcos e frechas.

Recebêram-me muito bem, e viéram-me offerecer uma bebida preparada com

àgua, mel e farinha de Lùpulo, que misturam em uma cabaça onde a deixam

fermentar. Chamam-lhe Bingundo, e é a mais alcohòlica que tenho

encontrado.

Estes Luchazes usam uma armadilha para apanhar pequenos antìlopes e

lebres, que é engenhosa, e bem so comprehende em vista do desenho.

Chama-se Urivi.

[Figura 56.--Urivi, Armadilha para caça.]

Depois de um passeio até ás nascentes do Cutangjo, voltei ao meu campo,

acompanhado por grande nùmero de homens e mulhéres que não cessavam de

me admirar.

Entre esta gente das margens do Cutangjo vi muitos typos masculinos de

uma fealdade repugnante.

Estes povos, não só apanham muita cêra nas florestas, mas ainda collocam

nas àrvores innùmeras colmeas que fabricam com uma grossa casca de

àrvore ligada com pinos de pao.

[Figura 57.--Luchaze do Cutandjo.]

[Figura 58.--Objectos Luchazes.

1. Bainha de faca. 2. Cesto. 3. Travesseiro de pao. 4. Cortiço

d'abelhas.]

No dia 10 de Julho, parti ás 8 da manhã, e meia hora depois, apesar dos

guias, andava perdido em uma floresta impassavel, d'onde pudémos a muito

custo sahir ás 10 horas. Então encontrámos terreno limpo de arbustos,

mas coberto de àrvores gigantes, que nos abrigavam do sol; prazer que

durou pouco, porque, meia hora depois, já andàvamos outra vez mettidos

em mato tão emmaranhado que nos deu verdadeiro trabalho a transpor.

Emfim, ás 11 e 20 minutos, descia eu a vertente suave de um còmoro, em

cujo sopé a àgua limosa de uma pequena lagôa era cercada por um tapête

de verdejantes gramìneas.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro · 第 16 / 22 段