A escôlha é cousa sèria, quando todas se nos afiguram indispensaveis.

O pouco que de commodidades eu levava já tinha sido abandonado; o resto

de algumas latas de comida dei-as aos muleques.

Os meus carregadores, vendo o meu embaraço, pedem-me que os carregue até

ao máximo pêso com que podérem caminhar; mas, ainda assim, é impossivel

ir tudo.

Depois de todas as reducções, e de ter distribuido as cargas, ficam 4

sem carregadores.

Sam ellas as duas do meu barco Macintosh, um barril de àgua-ardente, e

50 libras de pòlvora.

Decidi abandonar o barco, com grande pesar, e pedir ao sova Mavanda dois

homens para me levarem a pòlvora e o barril d'àgua-ardente de

acampamento em acampamento, até que dois dos meus carregadores ficassem

sem carga, o que não tardaria a succeder pelo grande gasto que faziamos.

O sova tomou conta do barco, e deu-me os dois homens que lhe pedi,

ficando tudo prompto para seguirmos no dia immediato.

Levantei campo no dia 23 ás 8 horas, e depois de três e meia horas,

cheguei á margem esquerda do rio Varea, que passei sobre uma soffrivel

ponte de madeira.

O sovêta de Divindica, povoação que assenta na margem esquerda do Varea,

na confluencia do riacho Moconco, veio pedir-me alguma cousa pela

passagem da ponte, e dando-lhe eu quatro jardas de fazenda, retirou-se

satisfeito.

[Mappa 4.--O Paiz dos Quimbandes]

O rio Varea corre ali ao N., e vai affluir ao Cuime. Tem 25 metros de

largo por 2 de fundo, e pequena corrente, não tendo cataractas a jusante

de Divindica. Marquei a uma milha ao sul as povoações de Moariro e

Moaringonga.

Segui a leste, indo acampar, pelas 2 horas, na margem esquerda do rio

Onda, em frente á grande povoação de Cabango, capital dos povos

Quimbandes de Leste.

Eu levava duas garrafas de vinho do Porto de 1815, resto de um presente

do meu amigo E. Borges de Castro, e ao chegar ao ponto em que acampei, o

muleque Moero, que as levava, cahio, quebrando-se uma d'ellas, e

entornando-se o precioso nectar, sem que se podesse aproveitar uma gôta.

Desde Mavanda até ás nascentes do riacho Moconco, cujo curso segui até á

confluencia com o Varea, a vegetação arbòrea é esplèndida, e no cimo dos

montes que marginam o riacho é tambem pomposa. Para àlém do Varea é

ainda mais rica.

Desde que passei o Cuanza ouvia falar no rio Cuime, como o rio maior do

paiz dos Quimbandes, affirmação que me era confirmada pelos grandes

affluentes que lhe ia encontrando, o que me fazia arder em desejos de

lhe ir lançar uma vista d'olhos.

Do Cuanza a leste o planalto apresenta um aspecto muito differente do

que até ali.

As paizagens sam mais pintorescas e não apresentam a monotonia do Bihé.

Os rios e ribeiros cavam os seus leitos mais fundos, tornando mais

sensiveis os accidentes do terreno. As margens dos rios e ribeiros àlém

dos limites das cheias, já se apresentam cobertas de vigorosa vegetação

arbòrea, e a vegetação arborescente forma barreiras impassaveis nas

florestas.

Na parte leste do paiz dos Quimbandes, a população começa a rarear. O

sova de Cabango é ainda tributario do sova do Cuio ou Mucuzo.

Os costumes d'estes povos sam os mesmos dos Bihenos, salvo na

actividade, que é entre os Quimbandes substituida pela mais vergonhosa

preguiça.

Os Quimbandes andam quasi nus, não trabalham, não viajam e não negociam.

Poucos t[~e]m espingardas, por não terem com que as comprar. Já apanham

alguma cêra, que os Bailundos lhes v[~e]m permutar a buzios e missangas,

mas isto em pequenissima escala.

A terra é cultivada pelas mulhéres, e a sua producção é rica. O que mais

tenho visto nas plantações é mandioca e ginguba.

Este paiz deve merecer particular attenção. Cortado com rios navegaveis

que vam affluir a um grande traço navegavel do Cuanza; tendo um clima

magnìfico e ubèrrimos terrenos, onde produz bem o algodão, a canna de

assucar, os cereaes e virentes pastagens, occupado por uma população que

facilmente se submette, está nas melhores condições de um

desenvolvimento ràpido.

No dia 24 de Junho passei o rio Onda, e fui acampar na sua margem

direita, três milhas àlém do meu campo anterior.

O rio Onda tem, em Cabango, 15 metros de largo por 5 de fundo, e vindo

de leste corre depois a N.O. a affluir ao Varea.

Depois de ter determinado a posição do meu acampamento, fui passear rio

acima, e encontrei bastante caça. Logo acima de Cabango, o Onda estreita

a 10 metros, mas profunda a 6, tendo uma corrente de 10 metros por

minuto; corrente que se estende até ao fundo; o que me foi denunciado

não só pela sonda, mas tambem pela inclinação que tomam as plantas que

vegetam no fundo; o que se vê facilmente, por serem as àguas muito

crystallinas e o fundo de area alvissima.

[Figura 39.--Ditassoa, peixe do rio Onda.]

N'este rio não vi outro peixe, a não ser um que os naturaes chamam

_Ditassoa_, e que é soffrivel.

Percorrendo as margens do rio, vi, a distancia, um grupo de àrvores que

se destacava da paizagem, e que julguei serem palmeiras; mas

aproximando-me reconheci um lindo grupo de Fetus arboreos, da mais

elegante belleza.

As margens do rio sam cortadas verticalmente, e por isso apresentam

junto á borda a mesma profundidade que no meio.

Retirei do meu passeio, satisfeito com o que vira. O rio Onda era outro

rio navegavel, outra estrada natural, que encontrava n'este soberbo

paiz.

Ao chegar ao meu campo aguardava-me uma agradavel sorpresa.

O Doutor Chacaiombe foi a primeira pessôa que veio comprimentar-me.

Eu, que julgava não mais vel-o, saudei-o com o maior jùbilo, porque o

seu desapparecimento era uma nuvem nêgra na minha viagem.

[Figura 40.--Fetus arbòreos das margens do rio Onda.]

Já por vezes tenho falado no Doutor Chacaiombe, e não disse quem era.

Este homem foi o adevinho que, em casa do filho do capitão do Quingue,

me predisse as cousas mais agradaveis a respeito do meu futuro.

Accumulando as funcções de cirurgião com as de adevinho, veio elle

estabelecer-se junto a mim no Bihé, e não mais me deixou até que se

encarregou da missão de obter carregadores no Capôco, d'onde julguei que

não mais voltaria.

Depois de muitos comprimentos, annunciou-me Chacaiombe que os

carregadores chegariam dentro de dois dias, e eu resolvi esperal-os.

O meu Augusto veio dar-me parte, de que o sova de Cabango viera

visitar-me, e se retirara muito contrariado por me não encontrar.

Mandei logo o pombeiro Chaquiçonde ao sova, pedir-lhe dois homens para

mandar a Mavanda buscar o barco que ali tinha deixado, com bem pesar meu

e da minha gente, que viram os serviços que elle nos prestou nas

passagens do Cuqueima e do Cuanza.

Fui em seguida enxugar-me ao fogo, pois que cheguei do rio muito

molhado, e ainda me lembrava com horror do rheumatismo no Bihé.

No dia seguinte, parti de madrugada para a caça, dirigindo-me ao norte,

onde o paiz é coberto de densas florestas. Depois de ter andado oito

milhas, encontrei o rio Cuime, a jusante da sua grande cataracta. Voltei

e já era noute quando alcancei o meu campo, extenuado de fadiga; mas

tendo feito boa caçada, e tendo visto o rio que ardia em desejos de ver,

e que effectivamente é uma via importante, sendo como me asseguráram os

naturaes, navegavel desde a sua grande cataracta até ao Cuanza.

No seguinte dia, voltei ao rio Onda, e ali sorprendeu-me a vista mais de

uma povoação que divisava ao longe. Ao approximar-me, conheci que eram,

não povoações de prêtos, mas sim de formigas brancas (_termites_), que

juntavam em grandes grupos as suas construcções cònicas, cuja côr

alvacenta, devida á da argila que iam buscar ao sub-solo, lhes dava toda

a apparencia de aldeas de indìgenas. De volta ao meu campo, encontrei o

sova de Cabango, que ali tinha chegado havia pouco, com uma comitiva de

60 homens e muitas mulhéres.

[Figura 41.--Mulhér de Cabango com o ferro de coçar a cabeça.]

Esta gente, que se apresenta quasi em completa nudez, faz consistir todo

o seu luxo nos penteados. Variam-n-os ao infinito e sam elles

verdadeiras obras d'arte, e t[~e]m technologia propria.

Nas mulhéres o cabello, que fica em forma de cimeira de elmo Romano,

chama-se _tronda_, e o que cae em trancinhas, dos lados, _cahengue_.

Os penteados masculinos, que formam tufos encrespados, chamam-se

_sanica_.

O sova offereceu-me um boi, e eu dei-lhe um presente com que elle

pareceu retirar-se satisfeito.

Chegáram n'esse dia os carregadores que vinham do Capôco e eram apenas

quatro, mas eram os sufficientes, sendo dous para o barco, e outros dous

para alliviar algumas cargas mais pesadas.

Á noute os meus prêtos e os da terra fizéram grande batuque, que durou

até depois das 10 horas.

[Figura 42.--Homem de Cabango.]

O frio de noute continuava intenso, sendo que ás 3 e meia horas da manhã

d'esse dia, o thermòmetro marcara 0°C. A desigualdade entre a màxima e a

mìnima era já muito extraordinaria, e grande a seccura da atmosphera,

como se verá dos boletins meteorològicos.

O sova voltou a ver-me, e deu-me alguns esclarecimentos sobre o paiz.

Diz elle, que já não reconhece a soberania do sova do Cuio ou Mucuzo, e

se considera independente.

As matas t[~e]m muita cêra, e os Bailundos v[~e]m ali permutal-a a buzio

(caurim) e missangas. Trabalham em ferro, e fazem machados grandes,

balas e facas.

Os machados de guerra, frechas e azagaias, v[~e]m-lhes dos Luchazes, e

as enxadas dos Ganguelas, Nhembas e Gonzellos.

[Figura 43.--Homem de Cabango.]

Este soba, que se chama Chaquiunde, é um pouco falto de probidade, o que

não admira muito. Veio, depois de larga conversa, fazer-me exigencias,

allegando ter-me dado um boi. Vi-me na necessidade de o pôr fora do

acampamento; mas elle, vendo a aspreza com que eu o tratava, mostrou-se

contente, e explicou a sua impertinencia, desculpando-se com os seus

macotas, que o tinham aconselhado a fazer grandes exigencias, e que o

que pedia era para elles, pois que a elle eu tinha dado um presente

superior ao valor do boi.

Tendo chegado os dois Quimbandes com o meu barco, resolvi seguir no dia

immediato.

O dia 28 amanheceu frigidissimo, pois que o thermòmetro, ás 6 horas

marcava apenas dois graos acima de zero; e por isso pude só levantar

campo ás 8 horas, indo acampar ás 10 e 40 junto da margem do Onda, tendo

andado a E.S.E.

Precisava fazer pequenas marchas, porque os meus carregadores iam muito

pesados.

O terreno desde o rio Varea até ali é coberto de uma camada arenosa,

sendo o sub-solo formado por uma argila de côr cinzenta, variando desde

o branco sujo até ao azul acinzentado.

Junto ao leito do Onda o solo é formado por uma forte camada de humos,

que ainda assim assenta sobre o sub-solo da mesma argila acinzentada.

Junto ao rio vi alguns montes termìticos, apresentando a côr azul

cobalto.

O terreno das clareiras é habitado por uma especie de termites

differente d'aquella que habita as florestas. As termites das clareiras

construem montes mamelados, apresentando o aspecto de cones truncados

cobertos por cùpulas hemisphèricas, tendo de 80 centìmetros a um metro

de diàmetro na base, por igual altura. Nas florestas formam ellas

verdadeiros cones, tendo de 4 a 6 centìmetros de diàmetro na base, por

25 a 30 centìmetros de altura.

Sam muito approximados, e semelham um eriçado de espinhos que parecem

brotar da terra.

Estas termites das florestas vam buscar os materiaes das suas

construcções muito perto da superficie da terra, porque nas suas

architecturas figura como materia prima a terra vegetal que forma o solo

dos matos, e estas, apesar do cimento empregado, não t[~e]m a ligação e

dureza das termites das clareiras, que, empregando uma argila

consistente, formam verdadeiras petrificações. Nas habitações das

termites das clareiras, apesar do seu interior ser formado de cèlulas

como as de um favo de abelhas, a bala Snider não penetra n'ellas a mais

de 10 centìmetros.

Como já disse, nas encostas que abeiram o Onda, estas formigas accumulam

as suas habitações em limitados espaços, figurando, a quem de longe as

vê, verdadeiras povoações Quimbandes.

Por espaço de uma hora, depois que deixei o acampamento, caminhei na

margem do rio em terreno descoberto; mas depois entrei em uma esplèndida

floresta, cortada de riachos affluentes do Onda.

[Figura 44.--O Lago Liguri.]

Por vezes, a floresta tomava o aspecto de um d'esses grandes parques do

norte da Europa, onde uma viçosa relva cobria completamente o solo. No

meio da mata os meus passos fôram suspensos para contemplar uma das mais

pintorescas paizagens que tenho visto.

Uma vasta clareira era occupada por uma lagôa de àgoa crystallina e

fundo arenoso. Àrvores enormes assombravam o pequeno lago, que reflectia

os seus ramos de um bello verde-escuro, onde chilravam mil pàssaros.

A relva descia dos lados até á àgua, e só desapparecia para deixar logar

a uma arêa alva e fina. Os prêtos d'este paiz, que não sam muito poetas,

acham encanto n'este pequeno lago, a que chamam Lago Liguri, e em que ja

me haviam falado.

Tôdos os riachos d'este paiz t[~e]m as margens apaüladas, e na àgua

estagnada ha um depòsito de côr vermelha, que ao principio atribui á

presença de ferro; o que conheci ser engano, porque o chá verde feito

com aquella agua não a denunciava ferrea, pela formação do tanato de

ferro. Só, talvez, por uma accumulação de animàlculos infusorios se

produzam aquelles depòsitos vermelhos.

Desde o Bihé, observei, que em tôdos os pontos onde ha àguas estagnadas

abundam sanguesugas, mas n'estes còrregos affluentes do Onda sam ellas

em maior nùmero.

O rio continùa a ter entre 10 e 12 metros de largo, por 4 a 5 de fundo,

tem corrente muito insensivel. Abunda a caça.

No dia seguinte, caminhei a S.E., sempre na margem direita do Onda, por

espaço de três horas, sendo difficil a passagem de uma emmaranhada

floresta, e mais difficil ainda o vadear o ribeiro Cobongo, de 4 metros

de largo por 1 de fundo, e cujo leito lodôso embaraçava o andar.

Depois de três horas de caminho, afastei-me do Onda, seguindo a margem

do ribeiro Cangombo, que passei indo acampar na margem esquerda do

ribeiro Bitovo.

A 30 de Junho, segui a leste, aproveitando toda a margem do Bitovo, para

caminhar livre de floresta, e d'ali passei ao valle do ribeiro Chiconde,

cujo curso segui até ao Cuito, onde acampei. Fez-me profunda impressão o

contemplar as aguas do ribeiro Chiconde, correndo velozes para o Cuito.

Até ali tinha encontrado àguas correndo ao oceano Atlàntico, e essas

àguas, cujo murmurio acalentava o meu somno, eram como um laço que me

prendia á minha patria, indo cahir no mesmo mar que banhava o meu

Portugal. Se ellas podessem converter o seu murmurio em falas, que de

saudades, que de angùstias que viram, podiam ir contar aos meus!

Ao deixar o Bitovo partio-se esse laço que me ligava á costa do Oeste.

¡Que pungente saudade não foi a minha!

Fazia um anno n'aquelle dia que eu fôra dar o abraço de despedida a meu

velho pai, e recordou-me mais do que nunca que elle me deixara com o

presentimento de não mais me ver.

N'aquelle dia já assentava o meu campo no paiz dos Luchazes, tendo

deixado o dos Quimbandes com o ribeiro Bitovo.

Viéram alguns homens e mulhéres das povoações da margem direita do Cuito

ao meu campo; mas nada trouxéram que vender, e nós precisàvamos de

comida. Prometêram contudo que no dia seguinte traziam algum Massango,

porque não cultivam milho nem mesmo Massambala.

Nos seus arimbos cultivam o Massango, alguma mandioca, feijão fradinho,

ginguba, mamona e algodão, tudo em pequena escala, apenas o necessario

para o consumo do cultivador.

Colhem bastante cêra, já apanhada nas florestas, e já de colmeas que

collocam sobre as àrvores, e onde os enxames v[~e]m habitar.

A cêra é um gènero, que elles permutam por peixe sêco do Cuanza, que os

Quimbandes ali vam levar. O rio Cuito ali não tem peixe.

Os povos Luchazes sam pouco viajantes, e apenas deixam as suas povoações

para fazerem pequenas caçadas aos antìlopes, afim de obterem pelles para

se vestirem.

A pequena cultura é feita por homens e mulhéres.

O sovêta que governa as poucas povoações da margem do rio Cuito é o

Muene-Calengo, que paga tributo a outro sova Muene-Mutemba, cuja

povoação não pude precisar bem onde fica.

[Figura 45.--Luchaze das margens do rio Cuito.]

Estes Luchazes trabalham em ferro e fazem todas as obras de que

precisam. O ferro é encontrado no paiz.

Uma cousa ùnica que vi entre os povos bàrbaros que visitei, é usarem os

Luchazes de isqueiros para fazerem fogo, com fusil e pederneira. As

pederneiras sam trazidas pelos Quibôcos, ou Quiôcos, que as v[~e]m

trocar a cêra; e os fuzis fabricados por elles sam de ferro forjado e

temperados em àgua fria, onde os lançam estando o ferro rubro. A isca é

preparada com algodão misturado com a amendoa, pisada, contida no

endocarpio de um fruto chamado Micha.

As mulhéres Luchazes usam cestos differentes dos empregados pelas

Quimbandes, e differentemente os trazem, porque sam suspensos da cabêça

por uma larga tira de casca de àrvore, e caem sôbre as costas.

Este modo de trazer os cestos impede-as de trazerem os filhos, como é

uso geral em Àfrica, sobre os rins, trazendo-os ao lado.

No dia seguinte, viéram de manhã algumas mulhéres trazer massango; mas

em tão pequena quantidade, que mais fez sentir a fome que já tìnhamos.

[Figura 46.--Mulhér Luchaze carregada.]

O rio Cuito tem no ponto em que o passei 7 metros de largo por 1 de

fundo, com uma corrente de 25 metros por minuto.

É affluente do Cubango, e na sua confluencia assenta a grande povoação

de Darico.

Nasce na planicie de Cangaba, onde t[~e]m nascente muito pròxima o Cuime

e o Cuiba, affluentes do Cuanza, e o Lungo-é-ungo, affluente do Zambeze.

[Figura 47.--Isqueiro dos Luchazes, Caixa da isca e Fuzil.]

Não podendo obter vìveres, resolvi seguir ávante, e quando dava ordens

para levantar campo, chegava á margem do rio Cuito uma comitiva de

escravos, capitaneada por três prêtos.

Apoderei-me dos três prêtos, e soltei todas as escravas, pois que na

comitiva não iam escravos. Fiz com que entrassem no meu campo, e

disse-lhes, que eram livres, e se quizessem acompanhar-me eu as fazia

chegar a Benguella.

Disse-lhes, que nada receiassem dos seus guardas, e que se convencessem

de que eram livres. Declaráram-me uma a uma, que não queriam a minha

protecção, e que as deixasse ir como tinham vindo.

¿D'onde eram? Não m'-o sabiam dizer. ¿Que fazer? Repugnou-me leval-as

comigo a despeito seu. Depois de algumas instancias, resolvi deixar

aquellas desgraçadas seguirem o triste fado a que não queriam

esquivar-se.

Demais, ¿seria elle melhor se me seguissem? Não é facil, ainda que isso

se afigure na Europa, libertar uma leva de escravos, quando essa leva é

encontrada longe dos dominios Europeus.

Uma leva de escravos tem gente de naturalidades differentes, e muitas

vezes longinquas.

Se aquelle que os pode libertar os quizér restituir ás suas familias,

tem de percorrer uma grande parte d'Àfrica á busca dos lares dos seus

protegidos, o que é pràticamente impossivel.

Abandonal-os e dizer-lhes:--_Ide-vos_--é fazel-os novamente escravos dos

primeiros povos que encontrarem.

Muitas vezes, aquelles desgraçados, arrancados das povoações em tenros

annos, perdêram da memoria o sitio onde nascêram, e falando já uma

lìngua differente da que balbuciáram crianças, e esquècêram longe dos

seus, t[~e]m por sua patria a terra da escravidão, e não conhecem outra.

Hôje, depois que os navios de guerra, Portuguezes e Inglezes, cruzam no

Atlàntico e no Ìndico, e impedem a exportação do homem, a escravatura é

gènero de permutação apenas no interior, e o seu systema tem-se

modificado.

O escravo apparece em Àfrica por dois modos. Ou é o prisioneiro de

guerra, ou é o gènero de pagamento de dìvida pelos parentes.

Outrora fazia-se a guerra expressamente para se fazer o prisioneiro, e

infelizmente ainda hôje se faz, posto-que em menor escala.

O ente humano dado, pelo parente proletario, em pagamento da dìvida

contrahida, ou da multa decretada, é vulgar.

No caso de guerra, outrora todo prisioneiro servia para escravo, porque

lhe não era facil, adulto que fôsse, voltar da Amèrica á Àfrica. O

Atlàntico era garantia segura.

Os adultos mesmos, podendo logo produzir um trabalho maior, eram

preferidos ao adolescente e á criança.

Hôje não é assim. O homem feito foge, e tem sempre na idéa o voltar ao

ninho d'onde o arrancáram, e essa esperança não o abandona em quanto

pisa o continente onde tem seu paiz.

Disse-me a mim um negreiro:--_sam muito fugitivos_.

A criança, o adolescente e a mulhér, offerecem ao commerciante maior

garantia, porque, espìritos mais irresolutos, não ousam encarar o

pensamento de atravessar paizes enormes, para voltar ao seu.

Tem por isso mais valor, hôje, na Àfrica Austral, a criança e a mulhér,

e nas levas de desgraçados que infelizmente ainda arrastam os duros

grilhões a travez do solo Africano, é raro vermos um homem feito.

Uma vez que falei na escravatura, direi ainda mais algumas palavras

sobre ella.

Portugal, a Inglaterra e a França, t[~e]m, nos ùltimos tempos, empenhado

uma verdadeira luta contra o commercio da carne humana, e as

modificações feitas nas antigas praxes Americanas, concorrêram para que

esse commercio diminuisse consideravelmente, e se modificasse

essencialmente na Àfrica Austral.

Contudo, eu atrevo-me a dizer, que não será ainda a geração que ora

começa, aquella que verá desapparecer o escravo do solo Africano.

O mesmo principio que imperava outrora na Amèrica, fazendo colonisar com

os escravos, existe e existirá por muito tempo em Àfrica.

Os governos prêtos tambem t[~e]m a sua polìtica colonisadora, e entre

elles e os logares de procedencia do escravo, falta-nos um Oceano, onde

possamos fazer singrar as nossas esquadras, e proteger os mesquinhos com

as nossas baterias d'aço. Só os principios civilisadores poderám fazer

cessar um dia a escravidão; mas infelizmente esse dia está longe, porque

os argumentos de que se servem esses principios, sam menos eloquentes e

menos enèrgicos do que os projecteis cylindro-cònicos o fôram no

Atlàntico e no Ìndico.

Eu tenho para mim, que a abolição da escravatura, no interior da Àfrica

Austral hade existir de facto, quando deixar de existir a polygamia

entre os prêtos; porque, ainda que os principios civilisadores façam

desapparecer o escravo, a sensualidade asinina do negro fará subsistir a

escrava.

Isto não quer dizer, que eu descreia de que se possam dar alguns rudes

golpes de immediato effeito no reprovado commercio; mas sim que penso na

difficuldade do seu completo exterminio. Já vai longa a divagação,

voltemos ao assumpto.

Dizia eu, que as raparigas não quizéram ser livres, e seguíram os seus

conductores.

Eu preparei-me tambem para partir, forçado sobre tudo pelas imperiosas

necessidades dos estômagos, que em viagens de exploração governam tanto

e mais do que as sociedades de Geographia.

Segui quasi a Leste, e depois de marcha de duas horas, avistava uma

povoação, e acampava na margem de um ribeiro perto d'ella. Sube que

ribeiro e povoação se chamavam Bembe.

Quando começava a faina de cortar madeira para acampar, vi de repente os

meus prêtos dispersarem-se em varias direcções, fugindo espavoridos. Não

atinava eu com a causa de tal terror, e dirigi-me ao sitio onde elles

trabalhavam, a investigar o que seria. No logar onde eu tinha mandado

construir o campo, milhões da terrivel formiga chamada pelos Bihenos

Quissonde, sahiam da terra, e d'ella fugíram os meus homens. A formiga

Quissonde é uma das mais temiveis feras do continente Africano. Dizem os

naturaes, que ataca e mata o elephante, introduzindo-se-lhe na tromba e

nos ouvidos. É inimigo que se não pode combater, e atacando aos

milhares, só se lhe pode escapar na fuga. O Quissonde tem entre 6 e 8

milimetros de comprido, côr castanho-clara muito luzidía.

As mandìbulas d'este feroz hymenòptero, sam fortissimas e de grandeza

desproporcionada.

Da sua mordedura no homem sahi logo um jacto de sangue.

Os chefes conduzem as suas phalanges a grandes distancias, e atacam todo

animal que encontram no seu caminho.

Por mais de uma vez, durante a minha viagem, tive de fugir aos ataques

d'este feroz insecto. Algumas vezes vi nos caminhos centenares d'ellas

esfregadas aos pés, levantarem-se, e continuarem a sua marcha, primeiro

lentamente, depois com a sua celeridade ordinaria, tanta é a sua

vitalidade.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro · 第 15 / 22 段