Anno de 1878 | 6 Horas. | 9 Horas. | Meio dia | 3 Horas. | 6 Horas.
-------+------+-----+----+-----+----+-----+----+-----+----+-----+-----
Mez. | Dia. | [E] | [F]| [E] | [F]| [E] | [F]| [E] | [F]| [E] | [F]
-------+------+-----+----+-----+----+-----+----+-----+----+-----+-----
Março | 25 |629.8|19.1|630.5|20.4|629.2|22.4|628.8|23.2|630.0|21.6
" | 26 |632.0|20.1|631.9|21.2|630.8|21.6|629.8|21.5|629.5|21.0
" | 27 |629.5|19.4|632.0|19.9|629.6|21.0|628.5|21.3|630.0|20.6
" | 28 |630.0|19.4|631.6|19.9|629.5|20.4|629.0|22.1|629.0|21.6
" | 29 |630.2|20.6|632.3|20.8|630.0|21.6|628.5|22.5|629.2|22.1
" | 30 |631.0|18.3|632.0|20.6|631.0|21.9|630.0|22.2|629.9|21.3
" | 31 |631.0|19.2|632.3|20.0|631.2|20.9|629.2|21.3|631.0|20.4
Abril | 1 |630.5|18.6|632.0|19.5|630.6|20.4|630.0|19.9|630.0|19.8
" | 2 |631.0|17.5|632.0|18.7|630.0|21.1|629.3|20.2|630.0|20.2
" | 3 |630.0|18.8|632.5|20.0|630.5|21.1|630.0|21.2|629.0|20.9
" | 4 |632.0|18.6|632.0|20.2|630.0|21.2|629.5|21.6|630.0|20.7
" | 5 |630.0|18.8|632.0|20.0|630.3|21.1|630.0|22.0|629.8|20.1
" | 6 |630.0|17.2|632.3|19.8|631.0|20.4|630.5|21.7|630.0|20.2
" | 7 |630.0|17.8|632.0|19.7|630.5|21.0|629.0|22.7|630.0|21.5
" | 8 |629.0|17.6|632.0|19.9|630.0|21.5|629.5|22.8|630.0|21.3
" | 9 |629.5|18.4|631.5|20.4|631.0|21.8|629.3|22.6|629.8|21.1
" | 10 |631.2|18.1|632.8|20.5|631.5|21.7|629.4|22.4|630.0|21.5
" | 11 |630.5|16.6|631.9|20.2|631.0|21.4|629.5|23.0|629.8|21.7
" | 12 |629.0|16.4|629.9|20.1|629.0|21.1|627.0|22.6|629.0|21.8
" | 13 |628.3|18.2|630.0|20.2|629.6|21.6|629.4|22.3|629.5|21.1
" | 14 |629.0|18.6|631.5|20.4|630.6|22.0|629.5|23.1|630.0|21.7
" | 15 |631.4|17.2|632.6|19.7|631.0|21.3|630.5|22.4|630.5|20.7
" | 16 |630.6|16.1|632.0|19.0|630.3|21.3|629.0|22.8|630.0|20.2
" | 17 |632.6|19.4|633.0|20.7|631.0|22.0|630.0|22.2|630.0|20.0
" | 18 |631.6|18.0|632.0|20.1|630.0|20.4|629.7|22.7|629.9|19.8
" | 19 |631.2|17.8|632.2|20.3|630.6|21.0|630.1|23.0|630.5|19.7
" | 20 |630.7|16.5|631.9|20.1|630.4|21.2|630.0|22.7|630.0|20.1
" | 21 |631.0|15.6|632.1|17.8|630.3|19.8|629.3|20.6|629.8|19.5
" | 22 |630.0|14.6|632.0|17.1|630.0|19.2|628.7|20.4|629.0|19.4
" | 23 |630.3|14.9|632.0|17.9|630.5|20.0|629.2|21.3|630.0|20.0
-------+------+-----+----+-----+----+-----+----+-----+----+-----+-----
*Legenda*:
[E] Baròmetro
[F] Thermòmetro
É muito notavel a marcha diurna do baròmetro, que ali é inalteravel em
presença das mudanças bruscas da atmosphera.
Um boletim meteorològico feito a 0^h. 43^m. de Greenwich, ou 1^h. 50^m.
do logar, completa o estudo atmosphèrico d'este paiz n'aquella èpocha.
Este boletim de que agora dou conta em trinta dias, foi continuado
durante toda a viagem, tendo apenas as interrupções provenientes de
doenças ou de estorvos occasionaes.
O terreno de Belmonte para Leste desce um pouco até ao Cuqueima, na
parte em que este rio corre de S. ao N. Na margem direita do Cuqueima
eleva-se um pouco para descer ao valle do Cuanza.
Na parte leste do paiz reapparece a vegetação arbòrea mais rica, e ha
pequenas mas densas florestas.
Em todo o vasto territorio comprehendido entre o Bihé e Benguella, não
existe o zé-zê, esse flagello de muitos pontos da Àfrica Austral, que,
matando o cavallo e o boi, priva o homem de dois dos seus maiores
auxiliares na vida pràtica.
Uma especie de epizotia, que no paiz chamam _cahônha_, ataca o gado
bovino e lanìgero; não fazendo ainda assim os estragos que na Europa e
outras partes d'Àfrica produz a epizotia.
*Boletim meteorològico feito a 0h. 43m. de Greenwich ou 1h. 51m. do
Bihé*.
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Mez. |Dia| [E] | [F1] | [F2] | [G]|Direcção do | Estado da Atmosphera.
| | | | | | Vento. |
--------+---+-----+------+------+----+------------+-----------------------
Março | 25|628.7| 22.9 | 20.2 | 40 |S.S.O. fraco|{Durante a noute
| | | | | | |{trovoada, hôje ceo
| | | | | | |{limpo
| | | | | | |
" | 26|629.6| 22.1 | 20.0 | 2 |O.S.O. fraco|{Nublado de noute,
| | | | | | |{de dia cirrus.
| | | | | | |
" | 27|629.1| 21.0 | 20.1 | 31 |E. forte |Chuva durante a noute.
| | | | | | |
" | 28|628.8| 21.5 | 21.2 | 0 |Calma |Algumas nuvens, cirrus.
| | | | | | |
" | 29|629.0| 22.3 | 21.6 | 0 | " | " " "
| | | | | | |
" | 30|630.0| 22.0 | 21.0 | 0 | " | " " "
| | | | | | |
" | 31|629.5| 21.5 | 20.8 | 0 |E. forte |Nublado.
| | | | | | |
Abril | 1|630.5| 20.2 | 19.4 | 17 |Calma |{Nublado. De noute
| | | | | | |{trovoada a N.O.
| | | | | | |
" | 2|629.3| 19.8 | 19.1 | 0 |E. forte |Algumas nuvens, cirrus.
| | | | | | |
" | 3|630.0| 20.9 | 19.1 | 0 |E. moderado | " " "
| | | | | | |
" | 4|630.3| 21.5 | 20.2 | 0 | " | " " "
| | | | | | |
" | 5|630.5| 21.8 | 20.6 | 0 | " | " " "
| | | | | | |
" | 6|630.0| 21.1 | 19.2 | 0 | " | " " "
| | | | | | |
" | 7|629.3| 21.8 | 19.7 | 0 | " | " " "
| | | | | | |
" | 8|628.1| 22.5 | 19.8 | 0 | " | " " "
| | | | | | |
" | 9|629.6| 22.2 | 20.6 | 0 |Calma | " " "
| | | | | | |
" | 10|629.0| 21.8 | 19.9 | 0 | " |Ceo limpo.
| | | | | | |
" | 11|629.8| 21.9 | 19.8 | 0 | " | " "
| | | | | | |
" | 12|627.8| 21.8 | 19.8 | 0 | " |Alguns cirrus.
| | | | | | |
" | 13|629.5| 22.0 | 20.1 | 0 | " |Nublado.
| | | | | | |
" | 14|630.0| 22.5 | 20.2 | 0 | " |Alguns cirrus.
| | | | | | |
" | 15|630.5| 21.6 | 19.6 | 0 |E. forte. |Ceo limpo.
| | | | | | |
" | 16|629.8| 21.6 | 19.7 | 0 |Calma |Alguns cirrus.
| | | | | | |
" | 17|630.0| 22.0 | 18.6 | 0 |E. forte. | " "
| | | | | | |
" | 18|630.0| 22.2 | 20.3 | 0 | " | " "
| | | | | | |
" | 19|630.4| 22.5 | 20.1 | 0 |E. moderado | " "
| | | | | | |
" | 20|630.2| 22.0 | 20.2 | 0 | " | " "
| | | | | | |
" | 21|629.8| 19.9 | 15.5 | 0 | " |Ceo limpo.
| | | | | | |
" | 22|629.6| 19.9 | 16.1 | 0 | " | " "
| | | | | | |
" | 23|630.0| 20.5 | 18.3 | 0 |E. forte | " "
--------+---+-----+------+------+----+------------+-----------------------
*Legenda*:
[E] Baròmetro
[F1] Thermòmetro seco
[F2] Thermòmetro molhado
[G] Chuva em milimetros
Não existe ali a molestia que mata tantos cavallos no Transvaal e no
Calaári, a que os inglezes chamam _Horse-sickness_. Em toda a parte o
gado suino prospera e desenvolve-se como na Europa, sendo facil a
conservação da carne, o que já não acontece perto da costa.
O paiz até ao Cuanza, e ainda para àlém, tem grande carencia de sal,
sendo todo o que ali se gasta proveniente da costa.
Não ha minas de sal gemma, e as àguas, mesmo as das lagoas, sam
potaveis.
N'este succinto resumo, procurei compendiar o resultado das minhas
observações, dando uma noticia geral do paiz, e terminarei com um curto
juizo meu ácerca d'elle.
Collocado em uma posição geogràphica muito differente da do Transvaal, o
paiz comprehendido entre a costa e o Bihé, aproxima-se d'elle pelo
clima, e possue um solo mais fertil. A comparação entre a mesma planta
vegetando nos dois paizes indica isso.
Tem uma população indìgena muito mais condensada do que a do Transvaal e
muito mais agricultora. Não é menos abundante em boas pastagens, e é
mais rico em florestas.
O Transvaal possue uma grande riqueza mineralògica, que escaceia ali;
mas eu creio que estará reservado a este paiz um futuro mais pròspero do
que áquelle, porque o Transvaal está isolado do resto d'Àfrica pelos
desertos àridos e pela mosca zé-zê, em quanto estes terrenos estam em
facil communicação com um interior quiçá mais rico.
[Figura 29A.--Viagem ao Cunene.
1. Ràpido da Libata Grande. 2. Ràpido de Canhacuto. 3. Ràpido de
Quiverequete.]
CAPÌTULO VII.
ENTRE OS GANGUELAS.
Passagem do Cuanza--Os Quimbandes--O sova Mavanda--Os rios Varea e
Onda--Fetus arbòreos--Atribulações--Escravos--O rio Cuito--Os
Luchazes--Emigração de Quibocos--Cambuta--O Cuando--Leopardos--Os
Ambuelas--O sova Moem-Cahenda--Descida do rio Cubangui--Os
Quichobos--Peripecias--Parto para o Cuchibi.
No dia 14 de Junho, como eu tinha decidido, levantei campo, e ás 10
horas comecei a passagem do Cuanza, que durou duas horas.
[Figura 30.--Passagem do Cuanza.]
Prestou-me valiosos serviços o meu barco de cautchuc da casa Macintosh
de Londres; mas ainda assim, o sova de Liuíca emprestou-me quatro
canôas, que muito me auxiliáram.
Não houve o menor accidente durante a passagem, e ao meio dia seguia a
leste internando-me no paiz dos Quimbandes. Tendo passado junto das
povoações de Muzeu e Caiáio, fui acampar pelas 2 horas a E.S.E. da
povoação de Mavanda, junto da nascente do riacho Mutango, que corre a
N.O. para o Cuanza. As povoações ali não sam já tão sòlidamente
fortificadas como as de àlém Cuanza. Os Quimbandes formam uma
confederação, sendo o paiz dividido em pequenos estados, que se unem
sempre para protecção mùtua. Todas as numerosas povoações em tôrno do
meu campo obedecem ao sova Mavanda, que é tributario do sova do Cuio ou
Mucuzo, na mesma margem do Cuanza um pouco ao N. A cousa que primeiro me
ferio a attenção entre os Quimbandes, foi o penteado das mulhéres, que
sam as mais extraordinarias que tenho visto. Algumas entrançam o cabello
de forma que, depois de ornado com buzio (caurim), assimelha um chapéo
de dama Europea.
[Figura 31.--Homem e Mulhér Quimbande.]
Outras dam-lhe tal forma, que parecem trazer na cabêça um capacete
Romano.
O buzio (caurim) é distribuido ou accumulado com profusão nas cabeças
feminiz, e o coral branco ou encarnado aparece ainda, mas muito mais
raramente, do que entre os povos de Oeste-Cuanza.
O cabello, n'estes penteados estupendos, é fixo com um cosmètico
nauseabundo, massa formada de tacula em pó e òleo de ricino, que lhe dá
uma côr avermelhada. O òleo de ricino é preparado em grande quantidade
entre estes povos. Depois de extrahirem as sementes do _Ricinus
communis_, dam-lhe uma ligeira torrefacção e reduzem-n-as a pó. Este pó
conservado por muitas horas em àgua ebulliente, fornece o òleo, que a
frio é separado grosseiramente da àgua, e guardado em cabaças pequenas.
[Figura 32.--Raparigas Quimbandes.]
Estes povos não o empregam como purgante. Notei logo, que o typo
feminino entre os Quimbandes se approxima um pouco do typo caucasio, e
vi algumas mulhéres que se poderiam chamar bonitas se não fossem prêtas.
Logo que cheguei, mandei um pequeno presente ao sova Mavanda, que me
agradeceu muito, mandando contudo pedir-me uma camisa.
Igual pedido me tem sido já feito por outros, o que mostra a tendencia
que t[~e]m para se vestirem.
Os homens Quimbandes cobrem a sua nudez com duas pelles de pequenos
antìlopes que cahem adiante e atraz de um largo cinto de couro de boi.
Só os sovas usam pelles de leopardo. As mulhéres andam quasi nuas, e
algum farrapo de pano, ou de liconte, substitue a folha de vinha
clàssica.
No dia seguinte logo de manhã, viéram uns portadores do sova dar-me
parte, de que a gente que eu esperava chegara de noute á outra margem do
Cuanza, onde estavam acampados.
Não dei o menor crèdito á noticia, porque, já conhecedor das manhas do
gentio, sabia que elles t[~e]m costume de indagar o que mais desejamos,
para nos virem burlar com uma noticia agradavel e pedir alvìçaras.
Contudo, disse ao indìgena que me certificou tel-os visto, que fôsse a
elles, e pedisse ao Doutor Chacaiombe, que me mandasse um signal seu
para ficar certo de que vinha a caminho.
Ainda de manhã, o sova Mavanda mandou-me uns enviados dizendo, que sahia
n'aquelle dia a combater uma povoação vizinha onde um seu sùbdito se
revoltara contra o seu poder, e ao mesmo tempo pedindo-me que o
auxiliasse n'aquella campanha. Recussei dar-lhe auxilio, mas procurei
fazel-o de modo a não me indispor com o sova, o que consegui com bôas
razões.
Seria meio-dia, quando passou junto ao meu campo o exèrcito de Mavanda.
Á frente ia, em pau muito alto, uma bandeira tricolor como a Francesa,
mas com as cores invertidas. Depois seguiam-se dois homens levando a pao
e corda uma enorme caixa de pòlvora, provavelmente vazia. Seguia-se o
sova rodeado dos seus grandes, e após este estado maior o exèrcito a 1
de fundo. Seriam uns 600 homens armados de arcos e frechas, levando ao
tôdo 8 espingardas. Alguns passos á frente da bandeira, dois prêtos
tocavam os tambores de guerra, fazendo um barulho infernal.
Ao anoutecer voltou o exèrcito sem ter combatido; porque o inimigo
rendeu-se á discrição.
Logo que passáram o meu campo, principiáram a fazer exercicio, simulando
um ataque á povoação do règulo.
Estendéram em linha de atiradores, tomando a bandeira o centro da linha,
e sempre atraz d'ella a caixa da pòlvora e o sova.
Esta grande linha singela, porque cada homem estava isolado, começou a
envolver a povoação, já avançando, já recuando, sempre em accelerado.
A uma vóz do sova, precipitáram-se sôbre a povoação, dando saltos
enormes, e fazendo tôda a especie de momices que usam para aterrar os
adversarios, com uma grita infernal.
Quando eu pensava que elles iam direitos a suas casas atacar o jantar,
vejo que voltavam á posição que tinham antes do ataque, e que reunidos á
voz do chefe, entravam na povoação na mesma ordem de marcha em que
tinham sahido.
Á noute voltou o Quimbande a dizer-me, que estêve com o meu doutor, mas
que elle não lhe quizera dar signal algum para mim. Vi que se
verificavam as minhas previsões, e que era tudo falso.
O meu acampamento dava-me serios receios, porque, coberto de erva sêca,
podia incendiar-se de um momento a outro, e os meus prêtos, transidos de
frio, não calculavam o perigo, e alimentavam dentro das barracas
fogueiras enormes.
Desde o rio Cuqueima até Mavanda, e ainda mais àlém, produz
vigorosamente a cana de assucar e o algodoeiro. Os Quimbandes cultivam o
algodão, que fiam para fazer linhas onde enfiar o buzio e a missanga.
No dia seguinte, continuáram a asseverar-me, que os carregadores estavam
na margem do Cuanza, e não podiam passar o rio por não lhes emprestarem
as canôas as indìgenas d'ali.
Decidi-me a mandar lá o Augusto, acompanhado de um guia Quimbande.
Pelas 11 horas, chegou um enviado do sova, a participar-me que este
viria visitar-me.
Pouco depois chegava Mavanda, rodeado da sua côrte, e se ficou espantado
a olhar para mim; eu não fiquei menos a olhar para elle, porque era o
maior homem que tenho visto em minha vida. A uma altura enorme reunia
uma grossura e gordura verdadeiramente phenomenal. Cobria a cintura com
um panno usado, sobre o qual cahiam três pelles de leopardo.
Muitos amulêtos lhe pendiam de um collar de missangas.
Se Mavanda é grande, possue coisas grandes tambem, porque me trazia de
presente o maior boi que vi em Àfrica.
Depois dos extensos comprimentos do costume, elle disse-me ex-abrupto,
que me vinha pedir um favor, e era o de lhe fazer um curativo ao rebanho
de gado bovino, que costumava ir pastar muito longe, prenoitando ás
vezes fora do curral, e sendo, nas florestas em que se acoutava, atacado
por feras que lhe causavam grande damno.
Dei-lhe immediatamente o remedio com um conselho, e foi elle, o de ter
um pastor; porque, se o gado entregue a si mesmo ia longe, se fosse
guiado ás pastagens iria onde o pastor o conduzisse. Elle não achou mao
o conselho, e disse-me, que apesar de ser contra os usos do paiz o fazer
vigiar o gado, daria um pastor ao seu, para evitar as contìnuas perdas.
Mostrei-lhe o realejo, as armas, etc., atirei diante d'elle, e vi-o com
prazer caminhar de espanto em espanto. Pela tarde retirou-se muito
satisfeito, e nos melhores termos de amizade.
Logo que se retirou o sova, chegáram uns enviados do sova Capôco com uma
carta para mim. Dava-me noticia do Chacaiombe, e dizia-me, que me
mandava os carregadores, pedindo-me para eu consentir, que fôsse comigo
uma comitiva sua, que desejava enviar aos sertões do Zambeze a fazer
negocio.
Em vista da carta, decidi demorar-me ali uns 6 dias a esperar os
carregadores, não contando muito, ainda assim, que elles viessem, e
n'esse sentido respondi ao sova Capôco.
Em vista d'aquella deliberação, ordenei a reconstrucção do acampamento
para o dia seguinte, mandando cobrir todas as barracas de ramos verdes,
com receio de um incendio.
[Figura 33.--Os Bihenos construindo as Barracas nos Acampamentos.]
No dia seguinte, houve grande actividade na reconstrucção do campo, que
estava prompto ao meio-dia, apresentando um bonito aspecto.
O campo era formado de barracas cònicas, de troncos de àrvore, medindo
três metros de diàmetro na base, por dois e meio de alto.
A minha barraca, feita pelos Bihenos com mais esmero do que as outras,
media cìnco metros de diàmetro na base, por três e meio de alto.
[Figura 34.--Esqueleto da Barraca.]
O acampamento era formado por uma linha circular de barracas, ligadas
por uma fileira de abatizes de àrvores espinhosas.
A minha barraca occupava o centro, e em frente d'ella as cargas estavam
em pilha. A minha gente de serviço estabeleceu o seu campo em tôrno de
mim, ao alcance da voz.
Tinha finalizado o trabalho do campo, quando me viéram avisar de que uns
enviados do sova do Gando me procuravam. Mandei-os vir à minha presença,
e conheci em um d'elles um dos grandes do sova, que tinha visto junto
d'elle no Gando. Traziam-me uma carta, e uma encomenda, que não sei que
sovêta lhe tinha enviado para mim.
Abri a carta, e vi ser ella do meu amigo Galvão da Catumbella, que me
enviava um presente, que tinha dirigido ao Bihé, julgando que eu
estivesse ainda ali. A bôa harmonia que eu tinha guardado com as
povoações por onde passei, fez com que aquella carta e o presente
chegassem até mim vindo de mão em mão.
Abri a caixa, e encontrei uma porção de passas de Màlaga, que viéram a
propòsito adoçar um pouco a monotonia da minha já bem pobre alimentação.
[Figura 35.--Barraca concluida em uma hora.]
Na carta dava-me elle algumas noticias da Europa, as ùltimas que tive
até chegar a Pretoria. Pensei n'isso então; e, quam profunda não foi a
minha tristeza ao lembrar-me de quanto tempo teria de ficar sem noticias
dos meus, noticias que já me faltavam havia tanto!
Deitei-me debaixo de uma triste impressão de saudade. Ao alvorecer,
viéram avisar-me, de que uma pequena comitiva, capitaneada por um prêto,
levando cêra, se dirigia ao Bihé. Mandei chamar o chefe, e pedi-lhe que
me levasse uma carta, que entregaria a alguem no Bihé, pedindo-lhe que a
fizesse chegar a Benguella. Elle accedeu, dizendo-me logo, que não se
podia demorar, porque queria ir dormir junto ao Cuqueima.
Tinha pouco tempo; ¿a quem escrever? Não podia perder este portador do
accaso para dizer aos meus: Ainda sou vivo.
Peguei na penna, e escrevi algumas linhas ao Doutor Bocage. Na carta
inclui dois pequenos bilhetes, um para minha mulhér, outro para Luciano
Cordeiro.
O chefe da pequena caravana, já impaciente, recebeu a carta e partio.
Hôje sei que aquella carta chegou á Europa, e foi recebida pelo seu
destinatàrio. Como ella foi do Bihé a Benguella não sei.
Era essa protecção que tinha levantado em volta de mim Silva Porto, que
ainda se fazia sentir.
O sova Mavanda passou o dia comigo, e conversámos muito. Eu dei-lhe
alguns pequenos objectos, e entre elles uma caixa de fòsforos, com que
ficou maravilhado.
Na occasião de retirar-se, disse elle aos seus macotas estas palavras,
que me impressionáram pela figura empregada.
"Não vêdes de longe um pàssaro que vôa muito alto, e vai pousar em
àrvore distante, e dizeis é uma rôla; depois caminhaes e abeirais-vos
d'elle, e ficais admirados do tamanho; era uma àguia. Assim foi o
Manjóro (nome que me davam); passou ao largo da povoação, e nós dissémos
é a rôla; agora vivemos com elle e conhecemo-l-o, e dizemos, é a àguia."
Nos passeios que dei nas cercanias, perseguindo os antìlopes, que sam
escassos, levantei a carta do paiz, ou antes, pude concluir a carta do
paiz comprehendido entre o Cuqueima e Cuanza.
O sova Mavanda mandou-me dizer, que o maior pedido que me podia dirigir
era, o de lhe eu dar um par de calças. Resolvi logo fazer-lhe a vontade,
e chamei o velho Antonio.
Arvorei-o em Alfaiate, cousa que muito o sorprendeu, e enviei-o a tomar
medida ás calças do sova. Talhei depois as calças, que fôram cosidas
pelo velho Antonio, e leváram 5 jardas de algodão largo!! Este rei é um
verdadeiro hippopòtamo, mas muito boa pessôa.
No dia 20 de manhã, veio um enviado do sova dizer-me, que, por ser então
a èpocha em que festejam uma especie de carnaval, o sova, para me fazer
honra, viria ao meu campo mascarado, e dançaria diante de mim.
[Figura 35A.--Ganguelas á Quimbandes.]
Pelas 8 horas, chegáram os batuques, e juntou-se grande concurso de
pôvo.
Meia hora depois, appareceu o sova, com a cabêça mettida em uma cabaça,
pintada de branco e prêto, e o enorme corpo augmentado por uma armação
de varas coberta de liconde, igualmente pintado de prêto e branco.
Um saio de clinas e caudas de animaes, completavam o trajo.
Logo que elle chegou, os homens formáram em linha, com os batuques a
traz, e as mulhéres e rapazis desviáram-se para longe. Começáram os
batuques, e os homens immoveis do corpo, cantando as suas monòtonas
toadas e batendo as palmas.
[Figura 36.--O sova Mavanda vem dançar mascarado ao meu campo.]
O sova foi collocar-se a uns trinta passos em frente da linha, e começou
uma brutesca dança, em que parecia fera enraivecida; conquistando os
maiores applausos da sua e da minha gente. Meia hora depois, correu, e
foi sumir-se na sua povoação, sendo seguido pelos seus. Pouco tempo mais
tarde, voltou ao meu campo, já sem o seu trajo feroz, e andou comigo até
á noute. Decididamente eu tinha-lhe cahido em graça.
Tinha aproveitado tôdo o tempo que podia tirar aos meus trabalhos, dando
melhor arrumação ás cargas, tendente a diminuir o nùmero d'ellas. A
fazenda que tinha era já quasi nenhuma, e tôda a minha riqueza monetaria
consistia em um saco de buzio e na missanga comprada ao José Alves; mas
o gasto, para sustentar a minha gente, era grande, e eu via com horror a
diminuição do meu pequeno haver. No paiz a caça era pouca e miüda, pois
apenas se encontravam algumas gazellas (_Cervicapra bohor_).
[Figura 37.--Mulhér Quimbande carregada.]
¡Quantas vezes a pobre rima pouco volumosa das fazendas e missangas me
não despertava uma atroz angùstia!
¡Quantas vezes uma dôr pungente me não cerrava o coração, fazendo-me
antever um futuro bem sombrio!
¡Quantas vezes ficavam sem resposta as caricias da minha cabrinha Cora,
e os cantares folgazãos do meu meigo papagaio, que voava para o meu
hombro pedindo-me uma meiguice!
¡Quantas vezes uma fé sem limites me invadia o coração, e o desalento
era banido do meu ànimo!
A razão queria lutar contra esses raios de infundada esperança que me
alegravam o espìrito; mas essa esperança era tão tenaz que procurava
argumentos e sophismas para combater a razão.
Sam momentos indescriptiveis, essas lutas do espìrito, estando o homem
isolado, sendo elle mesmo o pro e o contra das suas idéas, sem um amigo,
ou um inimigo, que lhe adule um pensamento ou lhe combata outro.
Fui joven e tive amores, e com elles as penas dos amores; fui pai, e vi
morrer-me nos braços uma filha que adorava; mas confesso que nunca senti
n'alma tão profunda tristeza, tão cruel melancolia, como a que por
vezes, em dias aziagos, experimentei em Àfrica.
Só! sózinho, no meio de uma multidão ignara, e estridente, cuja lìngua e
falares não comprehendia, tinha momentos horriveis, que se traduziam
logo em febre e doença!
Não conto como soffrimento as fomes, as doenças, a miseria. Não! que
homem é e deve ser superior á materia bruta, que deve dominar, para se
afastar do irracional.
O soffrimento é a dùvida. O soffrimento é não saber como se hade vencer
o abysmo que a razão nos mostra cavado ante os passos que queremos dar.
O soffrimento é ver dezenas de pessôas, que nos acompanham cégas,
dizendo: "Elle sabe o que faz;" e que arrastamos com-nosco ao abysmo! O
soffrimento é a responsabilidade tremenda da missão que nos imposémos.
Se me não importava hôje muito que os meus detractores experimentassem
um pouco da fome, da sêde e das privações que passei; não lhes desejo,
mesmo a elles, que soffressem a millesima parte do que eu soffri
moralmente. É verdade, que, para soffrer como eu soffri, é preciso ter
alma, coração e uma consciencia.
A carta que de Mavanda escrevi ao D^{or.} Bocage, ressentia-se já do que
eu soffria então. Foi escrita n'um dos meus dias nebulosos.
Deixemos porem esta divagação, que pouco interessa; e falemos dos
acontecimentos de então.
Os Quimbandes fabricam alguns objectos de ferro e de madeira, muito mais
perfeitos do que os fabricados no Oeste-Cuanza.
[Figura 38.
1. Cachimbo. 2, 2. Facas. 3, 3. Cacetes de guerra.]
O frio de noute era muito intenso, e já era grande a differença entre as
màximas e as mìnimas. Apesar da carta que recebi do sova Capôco, não
acreditava muito na promessa dos carregadores, nem na volta do meu
Doutor Chacaiombe; e por isso, ia sempre reduzindo as cargas quanto era
possivel; o que só podia fazer distribuindo o conteudo de uma pelas
outras. Isto tinha um limite, com o limite do peso que podiam carregar
os homens.
Estàvamos a 22 de Junho, dia em que expirava o prazo que eu decidira
esperar por os carregadores do sova Capôco.
A minha angùstia era grande, e só então avaliei bem o mao bocado porque
t[~e]m passado outros exploradores, tendo de abandonar cargas que lhes
sam absolutamente precisas.