Perdi então a paciencia, e a raiva contida a custo transbordou violenta.

Cego de furor, lancei-me por sôbre a fogueira áquelle boçal mulato, e já

a minha faca o ia ferir de morte, quando vi, que algumas espingardas dos

meus Quimbares lhe ameaçavam a cabeça, e por um d'esses reviramentos tão

vulgares como ràpidos no meu espìrito, só pensei em salvar-lhe a vida.

Ao meu grito de raiva, e ao barulho da luta, tinha-se levantado tôda a

minha gente, e ameaçavam exterminar tôda a comitiva Bihena.

Eu, que conhêço a ferocidade dos negros logo que se sentem fortes, tremi

pela vida dos inocentes que podiam ser immolados.

Era uma balburdia em que ninguem se entendia, e á excepção de 5 dos meus

pombeiros que assistíram ao comêço da scena, tôdos ignoravam o que era

aquillo, e só proferiam palavras de morte.

Consegui dominar o tumulto e fazer me ouvir.

Mandei o meu Augusto soltar os escravos, e trazel-os á minha presença,

assim como tôdas as correntes e prisões que encontrassem nas barracas

onde elles estavam.

Mandei lançar ao rio Cuanza as prisões de ferro, reservando só aquellas

com que prendi os prêtos, guardas da leva.

Declarei aos escravos, que podiam ir-se, se quizessem, porque teria os

seus guardas presos o tempo sufficiente para os não poderem alcançar.

Desapparecêram tôdos, excepto uma pequena, que quiz ficar comigo, por

não saber onde ir; e só na occasião de deixar o meu acampamento soltei e

dei liberdade aos chefes e guardas d'aquelle rebanho de escravos.

Passou-se o dia 13 sem haver noticias do meu cirurgião, e na noute

d'esse dia distribui eu as cargas que pude distribuir, umas 87,

separando ainda umas 12 que me custava a abandonar, e pondo em pilha

aquellas que estavam irremediavelmente condenadas.

Declaro que é difficil tal escolha.

Creio que um dos peores problemas a resolver por um explorador, é

escolher entre as cargas, indispensaveis tôdas, aquella que hade

dispensar.

Se não é mais difficil, é pelo menos tanto como achar o modo de

determinar uma boa longitude.

Ali abandonei tudo o que de commodidades eu tinha, tôda a alimentação

que para mim levava, e parte da que levava para a minha gente, e algumas

cargas de missanga que os meus companheiros me haviam cedido, e que,

comprada em Loanda, era de valor problemàtico nos sertões em que me ia

internar.

Se no dia 14 de manhã não tivesse novas do Chacaiombe, as cargas

condenadas seriam destruidas, queimando umas e lançando outras ao

Cuanza.

¿Para quê? me perguntarám os meus leitores.

Eu lhes respondo. O chefe de uma comitiva em marcha nos sertões da

Àfrica, onde tivér de empregar carregadores, tem de inutilizar e tornar

inaproveitaveis tôdos os objectos que fôr forçado a abandonar, e isto

por duas razões, uma que diz respeito á sua propria gente, e outra ao

gentio dos paizes que atravessa.

Se consentio que os seus proprios carregadores aproveitem alguma cousa

da carga abandonada, tôdos os dias terá carregadores doentes, que o

obrigarám a abandonar cargas, para d'ali retirarem objectos em proveito

proprio; organizando assim um industrioso roubo permanente.

Por outro lado, sabendo o gentio da terra, que lhe deixam cargas por

falta de carregadores, não deixará de ministrar ás comitivas futuras, na

muita capata que lhe offerecem, um tòxico qualquer, que, se não matar,

os torne doentes; obrigando assim o chefe a abandonar cargas em seu

favor; o que não fazem, sabendo que nada aproveitam, porque tudo o que

houvér de ser abandonado é inutilizado.

Foi isto lição de Silva Porto, de que sempre fiz uso.

No dia 14 de manhã, não tendo noticia do Chacaiombe inutilizei 61

cargas!

RAPIDO GOLPE DE VISTA RETROSPECTIVO.

O Mappa junto mostra o meu caminho de Benguella ao Bihé.

Procurei designar n'elle tudo o que em viagem de exploração se pode

colher de dados geogràphicos e topogràphicos.

Muitos dos pontos marcados sam determinados astronòmicamente, sendo os

intermediarios, achados grosseiramente pelos rumos da agulha e projecção

das distancias percorridas, distancias avaliadas pelos pedòmetros e pelo

tempo gasto a percorrel-as.

As posições do Benguella, Dombe, Quilengues, Ngola e Caconda, que

empreguei na carta, sam determinadas por Capello e Ivens, e como eu

apenas tinha os resultados dos càlculos, ahi os designo taes como m'os

deu o Ivens, sem as observações iniciaes. De Caconda ao rio Cuanza as

posições astronòmicamente determinadas por mim vam precedidas das

observações iniciaes.

-------------------------------------------------------------------------

Resultado das observações de Capello e Ivens, da Costa a Caconda.

------------+-------------+-------------+----------+----------+----------

Nome dos |Longitude E. |Latidude Sul.|Declinação|Inclinação| Altitude

Logares. |de Greenwich.| |da Agulha.|da Agulha.|em metros.

------------+-------------+-------------+----------+----------+----------

| ° ' " | ° ' " | ° ' | ° ' |

Benguella | 13 25 20 | 12 34 17 | 23 30 O.| 39 37 | 7

Dombe Grande| 13 7 45 | 12 55 12 | 23 26 | 39 44 | 98

Quilengues | 14 5 3 | 14 3 10 | 23 3 | 40 40 | 900

Ngola | 14 39 1 | 14 16 46 | --- | --- | 1,410

Caconda | 15 1 51 | 13 44 0 | 22 30 | --- | 1,676

------------+-------------+-------------+----------+----------+----------

Tendo-me separado dos meus companheiros em Caconda, prossegui nos

trabalhos que tìnhamos começado, não podendo fazer observações de

inclinòmetro e fôrça magnètica, porque os ùnicos instrumentos que para

isso levàvamos ficáram em poder de Capello.

Começarei a expor os meus trabalhos pela determinação das coordenadas

geogràphicas de Caconda á margem esquerda do Cuanza, onde pára a minha

narrativa no precedente capìtulo.

No seguinte quadro procurei compendiar os necessarios dados para se

poderem verificar os resultados que designo.

Todas estas observações calculadas em Àfrica fôram recalculadas em

Londres pelo 1^o tenente calculador da marinha ingleza, Selwyn Sugden.

*Quadro das Observações Astronòmicas feitas pelo Major Serpa Pinto entre

Caconda e o rio Cuanza*.

+--------------+---------------------------+---------------+-------------+

| Anno de | Logares onde | Hora dos | Estado para |

| 1878. | observei. | Chronòmetros. | Greenwich. |

+--------------+---------------------------+---------------+-------------+

| | | H. M. S. | H. M. S. |

a| Janeiro 14 | Vicete (junto ao Cunene) | 8 10 24 |+ 1 0 15 |

b| " " | " | 10 27 44 |+ 3 23 2 |

c| " 16 | Fende (Cunene) | 5 10 2 |+ 3 23 16 |

d| Fevereiro 12 | Libata do Palanca | 7 55 0 |- 1 0 0 |

e| " " | " | 10 30 56 |+ 3 27 18 |

f| " 13 | Libata do Capôco | 9 3 0 |- 1 0 0 |

g| " " | " | 9 57 15 |+ 3 27 27 |

h| " 18 | " | 10 18 14 |+ 3 28 8 |

i| Março 16 | Belmonte (Bihé) | 10 25 0 |- 1 4 0 |

j| " 18 | " | 5 6 10 |+ 3 31 43 |

l| | | { 5 3 1} | |

m| " 22 | " | { } | --- |

n| | | { 9 51 41} | |

o| Abril 2 | " | --- | --- |

p| " 3 | " | --- | --- |

q| " 4 | " | --- | --- |

r| " 5 | " | --- | --- |

s| " " | " | 4 53 40 |+ 3 34 29 |

t| " 6 | " | --- | --- |

u| " 7 | " | --- | --- |

v| " " | " | 0 8 32 |- 0 57 43 |

x| " " | " | 10 50 54 | --- |

z| " " | " | 10 55 6 |+ 3 34 54 |

0| " 23 | " | 9 4 25 | --- |

1| " " | " | 9 38 16 |+ 3 37 26 |

2| Maio 24 | Matas do Cabir (Bihé) | --- | --- |

3| " " | " | 9 38 55 |+ 3 42 47 |

4| " 31 | Matas do Commandante | 9 12 5 |+ 3 43 56 |

5| Junho 1 | " | --- | --- |

6| " 9 | Liuíca (margem do Cuanza) | 6 22 33 |+ 3 45 52 |

7| " " | " | 6 6 53 | --- |

8| " 10 | " | --- | --- |

9| " " | " | 9 17 21 |+ 3 45 57 |

+--------------+---------------------------+---------------+-------------+

+----------------+-----------+-----+-----+-------+-----+-----------------+

| Natureza | Dupla | | | | | |

| da | altura do | [A] | [B] | [C] | [D] | Resultados. |

| Observação | astro. | | | | | |

+----------------+-----------+-----+-----+-------+-----+-----------------+

| | º ' " | º '|H. M.| ' " | | º ' |

a| Alt. Mer. [-)] | 101 3 0 | --- | --- |- 3 30 | 1 | Lat. 14 2 S.|

b| Chron. [*-] | 101 2 0 |14 2| --- | " | 1 | Long. 15 14 E.|

c| " | 104 31 0 | " | --- | " | 1 | " 15 25 E.|

d| Alt. Mer. [-)] | 97 3 10 | --- | --- |- 0 50 | 1 | Lat. 13 20 S.|

e| Chron. [*-] | 99 6 30 |13 20| --- | " | 1 | Long. 15 27 E.|

f| Alt. Mer. [-)] | 98 30 30 | --- | --- | " | 1 | Lat. 13 9 S.|

g| Chron. [*-] | 115 5 30 |13 9| --- | " | 1 | Long. 15 30 E.|

h| " | 104 15 30 | " | --- | " | 1 | " 15 28 E.|

i| Alt. Mer. [-)] | 131 38 30 | --- | --- | " | 1 | Lat. 12 22 S.|

j| Chron. [*-] | 104 58 40 |12 22| --- | " | 1 | Long. 16 51 E.|

l| | | | | | | |

m| Alt. | 103 21 10 | " | --- | " | 2 | Estado |

| iguaes | | | | | | 3^h.31^m.54^s.|

n| | | | | | | |

o| Alt. Mer. [*-] | 144 49 0 | --- | 1 8|- 3 30 | 1 | Lat. 12º23'S.|

p| " | 144 4 0 | --- | " | " | 1 | " 12 23 S.|

q| " | 143 20 0 | --- | " | " | 1 | " 12 22 S.|

r| " | 142 32 0 | --- | " | " | 1 | " 12 23 S.|

s| Azimuth | 93 34 20 |12 22| --- |- 1 0 | 1 | Variação 21 11 |

| 266-30 [*-] | | | | | | Oes.|

t| Alt. Mer. [*-] | 141 47 0 | --- | 1 8|- 3 30 | 1 | Lat. 12 22 S.|

u| " | 141 3 0 | --- | " | " | 1 | " 12 22 S.|

v| Alt. prox. | 140 14 0 | --- | --- | " | --- | " 12 22 S.|

| do Mer. [*-] | | | | | | |

x| Eclipse do 1^o | --- | --- | --- | --- | 1 | Long. 16 46 E.|

| sat. de Jùp. | | | | | | |

z| Chron. [*-] | 65 48 0 |12 22| --- |- 1 0 | 1 | Diff p^a o logar|

| | | | | | | 4^h.42^m.23^s.|

0| Eclipse do 1^o | --- | " | --- | --- | 1 | Long. 16º49'E.|

| sat. de Jùp. | | | | | | |

1| Chron. [-)] | 71 31 40 | " | --- |- 0 30 | 1 | Atrazado |

| | | | | | | 4^h.44^m.56^s.|

2| Alt. Mer. [*-] | 113 10 40 | --- | 1 7|- 1 25 | 1 | Lat. 12º22'S.|

3| Chron. [*-] | 79 22 50 |12 22| --- | " | 1 | Long. 16 53 E.|

4| " | 86 38 10 |12 28| --- | " | 3 | " 17 9 E.|

5| Alt. Mer. [*-] | 110 26 40 | --- | --- | " | 1 | Lat. 12 28 S.|

6| Chron. [)-] | 63 59 30 |12 35| 1 9| 35 | 1 | Diff p^a o logar|

| | | | | | | 4^h.54^m.34^s.|

7| Eclipse do 2^o | --- | --- | --- | --- | 1 | Long. 17º25'E.|

| sat. de Jùp. | | | | | | |

8| Alt. Mer. [*-] | 108 15 20 | --- | 1 9|- 0 40 | 1 | Lat. 12 35 S.|

9| Chron. [*-] | 82 43 23 |12 35| --- | " | 3 | Long. 17 25 E.|

+----------------+-----------+-----+-----+-------+-----+-----------------+

*Legenda*:

[A] Latitude Sul.

[B] Longitude em tempo.

[C] Erro do instrumento.

[D] N^o. de Obs.

[-)] símbolo da lua debaixo da barra

[*-] símbolo do sol por cima da barra

[)-] símbolo da lua por cima da barra

*Trànsito de Mercurio a través do Sol em 6 de Maio de 1878*.

+------+----------+----------+-----------+--------------+----------------+

| | Logar | | | Hora do | Altura do Sol. |

| Data | da | Latitude | Longitude | Chron. para | Erro do sext |

| |Observação| | | a hora local | - 1' 25". |

+------+----------+----------+-----------+--------------+----------------+

| 6 | | | | Média de 4 | Média de 4 |

| Maio | | º ' " | º ' " | H. M. S. | º ' " |

| 1878 | Belmonte | 12 22 40 | 16 49 24 | 10 6 50 | 74 36 55 |

+------+----------+----------+-----------+--------------+----------------+

+------+-------------+----------------+------------+

| | Estado | Hora do | |

| Data | atrazado de | 1^o contacto | Longitude. |

| | Greenw. | interno. | |

+------+-------------+----------------+------------+

| 6 | | No chronòmetro | |

| Maio | H. M. S. | H. M. S. | º ' " |

| 1878 | 3 39 39 | 11 35 29 | 16 50 15 |

+------+-------------+----------------+------------+

É muito notavel que a primeira longitude que determinei em Belmonte pelo

chronòmetro é muito pròximo da verdadeira obtida pelo trànsito de

Mercurio. Esta longitude muito pouco differe tambem da obtida pelo

eclipse do 1^o Satèlite de Jùpiter a 23 de Abril.

Não inclui n'este quadro as innùmeras observações feitas para estudar as

marchas dos chronòmetros, que publicarei em separado um dia.

Nos estados dos chronòmetros a grande differença que se nota entre

alguns provém do pertencerem a differentes chronòmetros.

Como se vê, o instrumento empregado por mim foi o sextante com o

horizonte artificial de mercurio, que outro não tinha, tendo ficado em

poder dos meus companheiros o Abba, ùnico theodolito universal que

possuìamos.

Os meus sextantes eram: um de Casela, de Londres, contando 5"; e outro

de Lorieux, de Paris, contando 30". As minhas bùssolas azimutaes eram

fabricadas em Berlim, e tinham pertencido ao infeliz Barão de Barth.

Os meus chronòmetros eram de Dent, de Londres, sendo dois de algibeira,

e um, que, depois, de Benguella me enviáram ao Bihé, de marinha, tambem

de Dent.

Este ùltimo era mao; mas os primeiros excellentes, sobre tudo o que eu

designo com a letra S, nos càlculos.

Das altitudes muitas sam determinadas pelo hypsòmetro, e outras pelo

aneroide, cotisado com o hypsòmetro.

Essas altitudes vam marcadas na carta em metros.

A carta do paiz do Bihé, muito grosseira e incompleta de certo, foi

levantada á bùssola, nas minhas excursões venatorias; mas, ainda assim,

possue a sufficiente exactidão para se julgar do paiz, e prouvera a Deus

que as cartas de pontos muito mais pròximos da costa em que dominamos,

estivessem tão pròximas da verdade como ella.

Ponho ponto aqui nos detalhes das minhas cartas, para falar ràpidamente

do paiz que ellas representam.

De Benguella ao Dombe, como se vê, costeei o mar, em terreno calcàreo,

abundante de minèrios diversos.

As àguas faltam ali na estação sêca, e apenas o valle do Dombe Grande

tem a sufficiente para ser enormemente productivo. A vegetação, sem ser

pobre, não tem, todavia, a opulencia peculiar aos paizes intertropicaes.

Entre Benguella e o Dombe apenas se encontra àgua potavel n'um pequeno

charco na Quipupa.

[Mappa 3.--Entre Cubango e Cuanza]

O paiz é abundante de caça, e encontra-se n'elle grande variedade de

antìlopes, sendo os mais vulgares o _Strepsiceros kudu_, o _Cephalophus

mergens_, o _Cervicapra bohor_, e o _Oreas canna_. Nas rochas de

carbonato de cal que formam o systema orogràphico do Dombe Grande,

abundam os _hyrax_, e na planicie, entre as grandes e pomposas

plantações de mandioca, vivem muitos _hystrix_, maiores um pouco do que

os da Europa, e que causam ali grande estrago nas terras cultivadas. O

valle do Dombe Grande é de certo a melhor porção de terreno da provincia

de Angola. As suas condições de salubridade não sam más, e o solo é de

grande fertilidade. Um porto de mar, o Cúio, dista apenas alguns

kilòmetros do maior centro de producção.

As montanhas que enquadram o valle, sam cheias de minerio, e já tem

estado em exploração, sempre em pequena escala, por falta de capitaes.

Ha ali enxôfre e cobre.

A população indìgena é de bôa ìndole e trabalhadora, tanto quanto o pode

ser um prêto abandonado a si mesmo.

Entre o Dombe e Quilengues o paiz é deserto. Pelo caminho que segui há

falta de àgua, e a vegetação, pobre ao principio, toma luxuriante

esplendor ao passo que nos approximamos de Quilengues.

Seguindo o curso do rio Coporolo não ha falta de àgua, e ouvi dizer, que

se encontra sempre uma vegetação rica. Contudo, o paiz mesmo por ali não

é habitado.

Ao sahir do Dombe o terreno eleva-se bruscamente a 550 metros, e um

systema de montanhas que corre N.S. forma pequenos valles que se vam

elevando gradualmente até atingir 900 metros em Quilengues. No rio Canga

começa o terreno granìtico, e com elle uma vegetação mais pomposa. Todos

os rios designados no Mappa até Quilengues sam apenas torrentes na

estação chuvosa, mas em muitos é possivel encontrar àgua na estia,

cavando poços nos seus leitos arenosos. O proprio Coporolo está sujeito

a esta condição de pobreza.

Quilengues é um extenso e fertil valle, em condições iguaes ao do Dombe;

tendo por em quanto muito menos valor, por falta de communicações com a

costa.

A sua população é densa, e nas suas campinas pastam milhares de cabeças

de gado vaccum de excellente raça.

Os Quilengues sam fortes e aguerridos, e nos ataques que dirigem contra

os Mundombes sam sempre vencedores; o que os não impede de serem

vencidos pelos povos do Nano, que descem ali a roubar gados e gente.

Estes povos de Quilengues, como os do Dombe, sam avassalados a El-Rei de

Portugal, mas não sam tão submissos como os Mundombes.

Tem de certo um futuro o paiz de Quilengues, quando faceis communicações

o ligarem á costa, á Huila e a Caconda, e quando fôr administrado como o

deve ser.

De Quilengues a Caconda o caminho é por Caluqueime, paiz muito povoado;

mas eu segui outro, por motivos que cito na minha narrativa.

Ao sahir de Quilengues para o S.E. encontra-se a alta serra de

Quilengues, que se eleva ràpidamente a 1750 metros, e que eu passei na

parte chamada Monte Quissécua.

Ali começa o grande planalto da Àfrica Austral, e d'ali ao Bihé a

planicie enorme conserva aquella altitude, tendo apenas ligeiras

depressões nos leitos dos rios, e um ou outro pequeno systema de

montanhas isoladas.

D'este planalto já correm rios permanentes, sendo o primeiro que

encontrei n'estas condições affluente do Cunene.

A vegetação arbòrea no planalto não é já tão forte como em Quilengues,

mas a herbàcea é mais rica, se é possivel sel-o.

O terreno continúa granìtico, e começa a apparecer n'elle maior

abundancia de termites. As ùnicas povoações que se encontram no caminho

que segui sam Ngola e Catonga, de que ja falei detidamente.

Em Caconda o paiz é um pouco mais accidentado, devendo ser não menos

rico e productivo do que o de Quilengues.

É cortado de rios permanentes, que o regam em todas as direcções,

affluindo ao Catapi, affluente do Cunene.

A febre miasmàtica é endèmica em Caconda, como em Quilengues e como na

costa; mas apresenta ali um caracter mais benigno, e raras vezes faz

vìctimas.

Eu julgo Quilengues nas mesmas condições de salubridade de Caconda.

As condições climatològicas do paiz de Caconda é que já differem

essencialmente das da costa, e mesmo das de Quilengues.

Apenas 13° e 44' distante do Equador, o clima, que deveria ser ardente,

é temperado pela altitude enorme a que se encontra; mas está por isso

mesmo sujeito ás bruscas mudanças que se dam entre o dia e a noite em

todo o planalto. Ha ali uma luta constante entre a altitude e a

latitude, sendo que esta impera de dia quando um sol a prumo dardeja

raios de fogo, e aquella de noute quando uma altura de 1700 metros nos

faz viver n'uma atmosphera tão rarefeita.

Lembra-me aqui que o Anchieta me dizia, que se viveria òptimamente em

Caconda, se uma màchina em contacto com um thermòmetro, nos fosse

deitando cobertores na cama á medida que o thermòmetro descesse, durante

o somno.

Esta grande desigualdade de temperatura entre o dia o a noute dá-se

quando o sol tem declinação Norte, porque durante o tempo em que elle

anda ao sul do Equador é ella muito menor.

Sempre ouvi dizer, que em Caconda produzem as frutas da Europa, mas

infelizmente não o sei de sciencia propria, que nenhumas ali encontrei;

todavia, creio que se poderám ali aclimatar. A batata é muito boa e

produz muito, não só ali como em todo o planalto; mas é tão difficil o

seu transporte para Benguella, que a batata que se consome ali vai de

Lisboa.

Ha muito boa hortaliça e legumes da Europa, que se dam bem em todo o

planalto.

Perto da fortaleza, a população é rara, mas a uma certa distancia está

condensada; sendo governada por chefes independentes.

De Caconda ao Bihé o paiz é muito populoso, e, se menos pastores do que

os povos até Caconda, sam um pouco mais agricultores.

Nos paizes do Nano, Huambo, Sambo e Moma, os povos sam mais bruscos,

mais aguerridos e independentes.

Os terrenos, como se vê no mappa, sam cortados de rios que dividem as

suas àguas para tres grandes arterias, o Cunene, o Cubango e o Cuanza.

Ao N. das terras do Sambo, o planalto forma um enorme descampado, a que

chamam no paiz a _Enhana_ de Ambamba, terreno alagadiço onde nascem

cinco rios importantes, dois dos quaes vam ao Norte e tres ao Sul.

Dos que vam ao Norte, um é o Québe, que vai entrar no mar por 10° 50' de

Latitude S., junto ás Tres Pontas, entre Novo Redondo e Benguella Velha.

Este rio na parte inferior do seu curso toma o nome de Cuvo. O outro é o

Cutato das Mongoias, que corre ao N. a afluir ao Cuanza.

Os tres que correm ao S. sam o Cunene, o Cubango e o Cutato dos

Ganguelas, que se une ao Cubango.

O maior systema de montanhas que encontrei é uma serra que corre de N.E.

a S.O. ao N. do paiz do Huambo, em cujas vertentes nascem o Caláe e o

Cuçúce, que se unem para affluir ao Cunene.

Uma grosseira observação do aneroide indicou-me o seu cume a mais de

2500 metros acima do nivel do mar.

Fazendo excepção á minha regra de não baptizar em Àfrica rios ou montes,

dei a esta serra o nome de Andrade Corvo, por ser designada no paiz

apenas por serra do Huambo.

Não encontrei entre os indìgenas vestigios de ter o paiz outro minerio

àlém do ferro, o que não quer dizer que o não haja.

O terreno é ainda granìtico, e o solo pode dizer-se que em muitos pontos

é de formação animal, pois que é construido pelas termites.

Àlém da disposição especial que encontrei no terreno termìtico das

margens do Cutato dos Ganguellas, encontram-se 4 differentes

construcções termìticas, que suponho pertencerem a 4 differentes

especies.

[Figura 29.--Montes termìticos, dos terrenos entre a costa e o Bihé. 1 e

2 tem altura entre 2 e 3 decimetros, 3 e 4 entre 1 e 2 metros.]

Ha abundancia de caça, sobre tudo nas faldas da serra de Andrade Corvo,

entre o Caláe e o Cuçúce, que nunca vi tanta em Àfrica, a não ser no

Zambeze.

Alem dos antìlopes que já citei falando do Dombe, abundam ali o

_Hippotragus equinus_, o _Catoblepas taurina_, e o _Bubalus Caffer_.

As florestas sam em grande parte formadas de Leguminosas, sobresahindo

um sem-nùmero de especies da Acacia.

Ha muito poucas plantas trepadeiras.

Passamos a linha divisoria das àguas entre o Cubango e o Cuanza, e

entramos no paiz do Bihé, de certo o mais importante do Sudoeste

d'Àfrica.

O paiz do Bihé, de cujos povos falo detidamente no capitulo anterior, é

cortado por dois rios importantes, ainda que innavegaveis, o Cuqueima e

o Cuito. Innùmeros riachos sulcam em todas as direcções o terreno, e vam

affluir áquellas arterias principaes.

O clima é igual ao de Caconda, e subsistem ali as mesmas condições

atmosphèricas.

O terreno é granìtico e de uma admiravel fôrça productiva. As pastagens

sam òptimas para todos os gados. É pobre de caça; mas, em compensação, é

desinfestado de feras.

Não creio muito que seja rico em productos mineralògicos, porque a sua

densa população não tem encontrado vestigios de minerios ricos, e eu

tenho visto em Àfrica, que os primeiros a encontrarem o ouro, o cobre, o

chumbo e o ferro sam os indìgenas.

No Bihé o que é verdadeiramente rico é o terreno, e não sei de paiz

Africano que mais podesse prosperar pela agricultura e commercio.

A raça Europea vive ali muito bem, e o producto do cruzamento d'ella com

as raças do paiz é physicamente admiravel.

Durante a minha permanencia em Belmonte, fiz um estudo detido das

condições climatològicas, e sobre tudo no primeiro mez, em que o

pertinaz rheumatismo, contrahido em viagem, me impedio de sahir,

observei regularmente o baròmetro e o thermòmetro de 3 em 3 horas

durante o dia.

Adiante apresento um quadro d'essas observações, durante trinta dias,

fazendo notar, que a igualdade de temperatura que se nota durante o dia

é devida á estação do anno em que fôram feitas as observações, estação

que corresponde ao nosso outono.

As chuvas t[~e]m duas èpochas, com uma interrupção de estiagem que se dá

em Dezembro e Janeiro. As primeiras chuvas cahem em meado de Outubro, e

duram até principio de Dezembro, sendo mais moderadas do que as segundas

que cahem do fim de Janeiro ao principio de Março.

Os ventos reinantes sam dos quadrantes de leste, sendo muitas vezes

persistente o vento leste bastante forte; isto na estiagem, porque na

estação chuvosa as maiores tormentas que observei vinham do

oes-sudoeste, e dos quadrantes do sul. As chuvas v[~e]m sempre, sobre

tudo as de Fevereiro, envoltas com meteoros elèctricos, e cahem no meio

de terriveis trovoadas.

O seguinte quadro apresenta as minhas observações desde o dia 25 de

Março ao dia 23 de Abril de 1878.

Por esta serie de observações se vê quão ameno é o clima do Bihé n'esta

èpocha do anno.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro · 第 13 / 22 段