litro cheia do precioso preservativo, e apregoava que aquelle que o
tomasse seria depois tão invulneravel como o era a panella que continha
o lìquido, panella a que tôdo o mundo, no seu dizer, tinha atirado sem
que as balas lhe fizessem o menor damno. Quiz elle dar ao pùblico uma
prova irrefutavel, e desafiou-me de atirar á panella; tendo previamente
o cuidado de me marcar a distancia (uns 80 passos) a que elle julgava
ser impossivel acertar em tão pequeno alvo.
Tomei a carabina, atirei, e fiz a panella em cacos, derramando-se o
precioso licor.
Nunca vi applaudir mais phrenèticamente alguem, do que eu fui applaudido
então pêlo gentio entusiasmado.
O pobre cirurgião foi completamente corrido no meio de geral assuada.
Este pobre homem foi ali buscar o seu descrèdito.
Os melhores atiradores do sertão sam grandes mediocridades, e sam bem
mais para temer pretos de frecha e azagaia, do que de arma carregada.
O Verissimo partio a reunir os carregadores, voltando a 5 de Maio com
alguns, e dizendo que outros chegariam no dia seguinte.
N'esse dia recebi cartas e cargas de Benguella, enviadas para mim por
Pereira de Mello e Silva Porto.
Fizéram-me uma tal impressão aquellas cartas, que no meu diario escrevi
então, na cabeça do capìtulo em que falo do Bihé, aquelles dous nomes, e
hôje ainda os conservo, como preito e homenagem áquelles dous
cavalheiros.
Enviava-me Pereira de Mello 16 espingardas, 30 kilogramas de sabão, um
relogio e uma carga de sal, tudo objectos de subido valor para mim.
Não é todavia esta valiosa remessa que me dictou a immensa gratidão para
com o governador de Benguella; foi a sua carta e fôram as expressões dos
seus sentimentos a meu respeito.
Dizia-me o Governador, que não hesitasse em seguir a minha viagem, que
contasse com todo o apoio que elle me podia dar como autoridade, e se
acaso ordens superiores coarctassem o Governador, que podia contar com o
homem, com Pereira de Mello.
Dizia-me elle, que não tinha recebido de superior autoridade ordem
alguma para não me fornecer os meios de que eu carecesse; mas que, se
tal ordem viesse a receber, elle e os negociantes de Benguella estavam
promptos a enviar-me tudo o que eu pedisse.
Vinha depois a carta de Silva Porto, que não menos valiosa era.
Dizia-me o velho sertanejo, que não partisse sem recursos. Que
requisitasse para Benguella o que eu julgasse necessario, e que elle se
encarregaria de me fazer chegar ao Bihé aquillo que eu pedisse.
Terminava o honrado ancião por estas palavras: "Estou velho, mas rijo e
forte; se o meu amigo se vir n'um d'esses trances, vulgares no sertão,
em que a esperança se perde, sustente-se no ponto em que estivér, e dê
tudo ao gentio para me fazer chegar ás mãos uma carta sua. Não hesite em
o fazer, e tenha esperança; porque no mais curto espaço possivel eu
serei com-sigo, e comigo irám todos os recursos, todos os socorros. Sabe
que eu não uso fazer offerecimentos vãos, quando precisar escreva, e eu
irei logo."
A estas palavras não preciso eu de fazer commentarios, e nem mesmo aqui
lhe juntarei uma palavra de agradecimento, que seria ridìcula.
Aquella remessa que recebi de Benguella foi-me trazida por um irmão do
Verissimo, Joaquim Guilherme, que me disse deverem chegar no dia
seguinte o resto das cargas da expedição, e com ellas a pòlvora por que
eu almejava.
Como sempre que chegava um portador de Benguella, Joaquim Gonçalves
trazia-me uma lembrança de Antonio Ferreira Marques.
Eram sempre alguns regalos para a pobre mesa do sertanejo.
Chegou finalmente o 6 de Maio, e começou logo grande tarefa de encher
cartuxos, porque de manhã recebi a pòlvora.
Durante 4 dias empreguei entre 36 e 40 homens no encher dos cartuxos,
que estavam promptos, e só era deitar-lhes pòlvora e dobral-os.
Ficou tudo prompto a 10 de Maio, e no dia 11 tinha eu reunidos todos os
carregadores prompto a seguir no dia immediato. Fiz a distribuição das
cargas, e dei as ordens para a partida.
Na manhã de 12, quando esperava pôr-me a caminho, vejo que só tinha uns
trinta homens, tendo fugido todos os outros.
Sube então, que na tarde da vèspera, tinha andado o prêto Muene-hombo de
Silva Porto, com uns pretos desconhecidos, dizendo aos Bihenos, que eu
os queria levar para o mar, e que aquelles que fossem comigo não
voltariam mais, porque eu os venderia.
O prêto Muene-hombo fugira com os Bihenos, e d'elle não havia mais
noticia.
Esta nova deu-me um profundo golpe de desànimo.
Os carregadores, que eu a tanto custo tinha reunido, que eu com trabalho
imenso tinha contratado, a quem fôra preciso desfazer uma a uma todas as
aprehensões que tinham contra a minha empresa, fugiam-me, convictos de
que eu os ia encaminhar á perdição.
Era um golpe terrivel.
Breve se espalharia no Bihé a noticia do facto; breve se arreigaria
entre os pretos aquella convicção, mal destruida pelos meus reïterados
argumentos, e então seria impossivel obter um só carregador mais.
Quasi desanimei.
Pela primeira vez, depois que em Lisboa tinha pensado em ser explorador,
entrou no meu ànimo o desalento.
Eu sabia que lutar com uma convicção de pretos era baldado esfôrço.
¿Quem seria aquelle que levou o prêto Muene-hombo a trair-me?
¿Quem seriam os pretos que com elle estivéram na libata no dia anterior?
¿Qual seria a mão occulta que moveu aquella intriga?
Fazia a mim mesmo estas perguntas, ás quaes, nem então nem depois,
encontrei resposta que fosse àlém de suspeita muito vaga.
Perdi a esperança, e fiquei possuido de um verdadeiro desalento.
Meditei todo o dia, e veio o pensamento de voltar a Benguella, mas de
repente lembrou-me a carta de Silva Porto recebida dias antes, e
lembrou-me a carta de Pereira de Mello em que me dizia "Avante!"
¿Porque não aceitaria eu o offerecimento de Silva Porto? Se elle viesse
ao Bihé elle me obteria carregadores.
Decidi escrever-lhe no dia seguinte, e esta idéa tranquilizou um pouco o
meu ànimo alquebrado.
Com a noute veio a reflexão, e eu escudado no ùltimo recurso, o pedir o
auxilio do velho sertanejo, resolvi já forte com aquelle apoio,
trabalhar, lutar ainda, antes de recorrer a elle.
Na madrugada de 13, fiz marchar o Verissimo e alguns pretos de confiança
do Silva Porto a procurarem contratar nova gente.
Voltáram elles dando-me algumas esperanças, e então começou de nôvo o
trabalho de organizar nova comitiva, trabalho mais difficil então do que
antes.
Aconselháram-me sahir de Belmonte e ir acampar no mato a alguma
distancia; porque me diziam, que uma comitiva em marcha, despertava nos
Bihenos vontade de se alistar n'ella.
A 22 de Maio já eu tinha podido obter alguns carregadores, ainda que
poucos, e resolvi com os meus Quimbares, aquelles carregadores e gente
de ganho, seguir no dia 23 para um acampamento, idéa que levei a effeito
indo estabelecer o campo nas matas do Cabir.
N'esse dia ao escurecer, apparecéram uns 11 carregadores trazidos por um
prêto Antonio, homem já velho, natural de Pungo Andongo, que estivera ao
serviço de dois sertanejos de nomeada, Luiz Albino, e Guilherme
Gonçalves.
Durante a noute houve muito frio, forçando-nos a passar a maior parte
d'ella despertos junto ás fogueiras.
O soveta de Cabir veio visitar-me no dia immediato, trazendo-me um pôrco
de presente, que eu retribui, ficando nós nos melhores termos.
Emprestou-me elle alguns pilões, e mandou mulhéres para fazerem farinha
de milho.
[Figura 27.--Mulhéres do Bihé pisando Milho.]
Indo agradecer-lhe á sua povoação, passei pelas plantações, onde andavam
algumas mulhéres cavando, completamente curvadas, empunhando as enxadas
pelos seus dous cabos.
De volta ao acampamento, encontrei um prêto dos de Nôvo Redondo, que não
tinha podido seguir com Capello e Ivens, pêlo seu estado de saude. Não
se sustinha em pé, e uma ardente febre o devorava.
Vi que o seu estado era melindroso e que pouco poderia viver; mas elle
pedio-me que o não abandonasse, e eu agasalhei-o no campo, entregando-o
aos cuidados do doutor Chacaiombe.
Veio visitar-me Tiberio José Coimbra, filho do Coimbra, Major do Bihé, o
qual me obtêve alguns carregadores de gente da sua povoação.
N'esse dia aparecêram mais uns 12 carregadores com que eu já não
contava, e eram capitaneados pêlo prêto Chaquiçonde, irmão da mãe de
Verissimo.
Ia renascendo a esperança, e de nôvo se ia organizando a nova comitiva.
Resolvi partir no dia 27, e ir acampar junto da casa de José Alves, com
esperança de completar ali o nùmero de gente que carecia. Obtive do
soveta de Cabir alguns homens para me transportarem as cargas que não
tinham carregador, e tambem 4 homens e uma maca para o doente de Nôvo
Redondo.
Pude seguir no dia marcado, parando, meia hora depois de ter sahido, na
povoação de Cuionja, de Tiberio José Coimbra, onde me esperava um òptimo
almôço, com òptimo chá. Até havia guardanapos!
Depois de duas horas que ali me demorei, segui avante, chegando á
povoação de Caquenha, com 4 horas de caminho.
Ali parei para ver o velho Domingos Chacahanga, dono da povoação.
Este Chacahanga, antigo escravo de Silva Porto, fôra o chefe da cèlebre
expedição que Silva Porto mandou do Bihé a Moçambique, e que conseguio
alcançar Cabo Delgado, na costa do mar Indico.
É elle o ùnico dos homens d'aquella expedição que hôje vive.
O velho recebeu-me muito bem, e deu-me um alentado cabrito.
Conversei muito com elle; mas a pesar de todos os meus esforços foi-me
impossivel colher d'elle dados com que podesse marcar com alguma
segurança o seu trajecto.
De que foi muito mais ao norte do que vem indicado nas cartas não me
restou a menor dùvida, porque ha três pontos que elle precisa
perfeitamente.
Um é ter, no Zambeze, deixado ao sul o paiz dos Machachas; outro ter
atravessado o Luapula; e terceiro ter contornado pelo norte o Lago
Nyassa.
Duas horas depois de ter deixado o velho Chacahanga, acampava nas matas
do commandante, dois kilòmetros a S.E. da libata de José Alves.
Era já noute, e por isso guardei-me para ir no dia seguinte ver este
personagem, que Cameron tornou conhecido de todo o mundo.
Effectivamente, a 28 de Maio estava eu em presença do tão falado
sertanejo.
José Antonio Alves é um prêto (_pur sang_) de Pungo Andongo, que, como
muitos d'ali e de Ambaca, sabe ler e escrever.
No Bihé chamam-lhe branco, porque ali todo o prêto que usa calças e
sapatos de liga e guardasol, é tratado assim.[5] Em Benguella levam a
condescendencia a chamarem-n-o mulato, um pouco escuro; mas a verdade é,
que nas suas veias não ha uma gôta de sangue Europeu, e que elle é prêto
não só na côr como na ascendencia, e quiçá na alma.
Veio para o Bihé em 1845, onde foi empregado de um sertanejo, e depois
começou a negociar por conta propria, abonado pela casa Ferramenta de
Benguella, que hôje faz avultado commercio sob a firma J. Ferreira
Gonçalves.
José Alves é homem de 58 annos, já um pouco grisalho, de corpo franzino,
e soffrendo de uma affecção pulmonar.
Vive como prêto, tendo todos os costumes e crendices do gentio ignaro.
Quando cheguei a casa de José Alves, estava elle decidindo um _mucano_.
Informado da questão, sube que um empregado mulato do José Alves
seduzira uma das amantes d'este, e como o rapaz nada tinha de seu, elle
fez-lhe um mucano á familia da mãe, que possuia alguma cousa, exigindo,
em paga do delicto, um boi, ou uma _cabecinha_, para ficar limpo o seu
coração. Isto me disse elle, passando a palma abranqueada da mão nêgra
por sobre a parte da caixa thoràcica onde se alberga aquella vìcera, nos
que a tem para cousa differente de alimentar a vida physica com os seus
movimentos de sìstole e diàstole.
Que a elle servia para ser limpa de vez em quando com um _mucano_,
percebi eu.
Depois de decidido o _mucano_, falei-lhe da minha viagem, que elle
duvidou podesse levar a effeito com os pequenos recursos de que
dispunha.
Combinou ceder-me uma pouca de missanga, e falando-lhe em carregadores,
evadio-se a responder-me, dizendo-me, sabia que Capello e Ivens estavam
junto ao Cuanza lutando com falta de gente; mas que, se elles lhe
quizessem pagar bem, não teria difficuldade em os arranjar. Era o mesmo
que dizer-me, que lhe pagasse bem para os ter.
Retirei-me lastimando pela primeira vez a Cameron, por ter sido forçado
a tal companhia, por tanto tempo.
Nesta parte do Bihé a vegetação arbòrea começa a ser mais vigorosa, e
junto ao rio Cuito, apresenta o terreno a mesma disposição termìtica que
descrevi na margem do Cutato dos Ganguellas.
Com uns carregadores que me chegáram no dia 29, enviados pelo irmão de
Verissimo, Joaquim Guilherme, tinha eu a gente sufficiente para seguir
viagem, e dei as ordens n'esse sentido para o dia 30.
Quem rege as cousas d'este mundo tinha decidido porem de outro modo.
Na tarde d'esse dia, alguem espalhou entre os meus carregadores as
mesmas atoardas de Belmonte, e viéram muitos d'elles declarar-me, que
voltavam a suas casas, e não me seguiriam.
Fiz esforços de eloquencia para os convencer a seguirem-me, mas poucos
me escutáram.
Era a segunda vez que, em vèspera de partida, no Bihé, ficava eu sem
gente.
Ali ficáram contudo alguns Bihenos, e decidido a prescindir de todas as
commodidades, e a abandonar toda a alimentação que levava, com poucos
mais poderia seguir.
Era preciso arranjar esses poucos mais, e eu não desanimei na empresa.
Um estranho episodio, acontecido no dia 30, veio coroar de resultado
feliz a minha esperança.
No Bihé andam a monte muitos degradados e desertores, escapados dos
presidios da Costa.
Um d'estes honrados cidadãos veio procurar-me, e pronunciou uma estudada
arenga, que, pela profusa troca da primeira consoante pela
dècima-sètima, e repetido emprêgo de termos só usados na minha
provincia, me denunciou n'elle um conterraneo.
Se a forma do discurso era picaresca, a sua essencia mostrava, que a
alma do orador era sentina de todas as podridões, em decomposição n'um
clima tropical, trascalando fedores em cada phrase evaporada d'aquelle
espìrito immundo.
Depois de me aconselhar a dispor das armas e munições que tinha, n'uma
empresa abjecta, a que elle me fazia a honra de se ligar, terminou por
me dizer positivamente, que, ou eu o associava a mim, fôsse para o que
fôsse, ou elle, empregando manhas que tinha de geito para o gentio,
faria que todos me abandonassem, e me poria na impossibelidade de dar um
passo.
Terminada esta peroração, que o homem julgou ser argumento triumphante
nas minhas decisões, exigio immediata resposta.
Eu dei-lh'-a logo. Chamei os meus Quimbares, e mandei amarrar o sujeito,
a quem mandei applicar logo cincoenta açoutes, para fazermos maior
conhecimento; porque, se eu o conheci ás primeiras palavras, elle não me
conhecia ainda.
Depois de castigado, fiz-lhe um pequeno discurso, em que lhe disse, que
o constituia meu prisioneiro, durante o tempo que estivesse em terras do
Bihé, com ração de comida e de chicote todos os dias.
Reuni toda a minha gente, e mostrei-lhe, que a alma d'aquelle branco era
mais nêgra do que a pelle d'elles ouvintes.
A nova da minha justiça espalhou-se nas povoações circumvizinhas, e
deu-me crèdito entre os pretos, que tinham em má conta o meu
prisioneiro.
No dia seguinte, alguns pombeiros do sitio viéram offerecer-me
carregadores, e que m'-os traziam dentro de dois dias.
Todos os dias tinha promessas, mas os carregadores não chegavam, e a 5
de Junho, já no maior desespêro, decidi abandonar muitas cargas e seguir
ávante.
Reuni os meus pombeiros, e communiquei-lhes a minha decisão.
Tivémos um longo conselho, em que eu sustentei a minha resolução, dando
ordem para que os carregadores me acompanhassem ao rio Cuito com as
cargas que eu tinha decidido abandonar, para as lançar ao rio.
Já se ia executar esta deliberação, quando o doutor Chacaiombe tomou a
palavra, e me pedio para adiar de alguns dias a execução d'ella,
dizendo-me, que obtivesse nas povoações vizinhas gente de ganho que
transportasse tudo até ao Cuanza; que elle ia tentar um esfôrço junto de
um sova seu amigo, e me iria encontrar no Cuanza.
Discutido este alvitre, decidi, partir no dia 6, e demorar-me no Cuanza
até 14; por isso, concedi 8 dias a Chacaiombe, declarando-lhe
positivamente, que não esperaria um só dia mais.
Os meus pombeiros mostravam-me a maior dedicação, e depois de uma
proposta de Miguel (o caçador de elefantes), decidíram pegar tambem
elles em cargas, ainda que isso seja não só contra os usos, mas tambem
inconveniente em marcha, onde elles t[~e]m o seu serviço especial a
desempenhar.
Obtida a gente de ganho, preparei tudo para seguir no dia immediato.
N'esse dia morreu o homem de Nôvo Redondo que eu tinha recolhido no
Cabir.
Levantei campo ás 9 horas do dia 6, tendo muita gente de ganho á razão
de 1 panno por dia.
Segui a Leste, e duas horas depois acampei junto da povoação de
Cassamba.
Fica esta povoação no meio de grande e espessa floresta, onde fui caçar,
encontrando apenas algumas _pintadas_ que matei.
Quando, a 7 de Junho, levantei campo, saío-me ao encontro o soveta de
Cassamba, que me vinha comprimentar, e trazer um boi de presente.
Desculpei-me de não lhe dar immediatamente um presente, por estarem os
carregadores em marcha, e pedi-lhe, que mandasse gente sua ao meu nôvo
acampamento, d'onde lhe enviaria uma lembrança.
Depois de três horas de marcha, e de ter nas duas ùltimas atravessado
grandes planicies pantanosas, alcancei a margem esquerda do rio
Cuqueima, que ali corre ao norte, tendo 80 metros de largo por três de
fundo, com uma velocidade de 12 metros por minuto.
Armei o meu bote Macintosh, e n'elle se effeituou a passagem da gente e
cargas com grande morosidade, porque a pequena embarcação não tinha
capacidade para mais de cinco pessôas, ainda que o poder de fluctuação
da sua caixa de ar era muito superior.
Terminada a passagem, e achando-me na margem direita em terreno
apaülado, e nu de arvorêdo, mandei pedir ao sova do Gando, para me dar
algumas cubatas onde eu podesse pernoitar com a minha gente.
Elle veio ao meu encontro, dizendo-me que punha á minha disposição o
lombe da sua povoação, que aceitei e onde me fui estabelecer.
Chegáram uns prêtos de mando do soveta de Cassamba, a reclamar o
presente que eu lhe havia promettido, e para se fazerem reconhecer como
vindo da sua parte, traziam a azagaia do sovêta, que de manhã eu lhe
vira na mão.
É costume entre estes povos, onde a ignorancia da leitura e escrita
existe, o mandarem um objecto conhecido pelo portador de uma mensagem,
para que não se duvide que elles vam da parte de quem os envia.
Mandei o promettido presente.
O sova Iumbi, do Gando, conversou muito comigo, e era para elle motivo
de espanto tudo quanto eu trazia. Deu-me um magnìfico boi, ficando muito
satisfeito com uma peça de algodão riscado e algumas cargas de pòlvora
que lhe dei.
No dia immediato levantei campo logo de manhã, e duas horas depois, fui
acampar 1 kil. a Oeste da povoação de Muzinda.
Antes de partir, mandei soltar, e pôr na outra margem, o meu prisioneiro
branco, já impossibilitado de me fazer mal, porque, passando o Cuqueima,
eu estava fora das terras do Bihé.
[Figura 28.--Mulhéres Ganguellas Luimbas e Loenas. Modo por que cortam
os Dentes incisivos.]
Viéram ao meu acampamento muitas mulhéres da povoação de Muzinda,
algumas das quaes traziam a cara pintada de verde, sendo dois riscos
transversaes sôbre a testa, de orelha a orelha, e outros dois, descendo
d'esses, cruzando-se entre os olhos, passando aos lados do nariz,
ligados por um sôbre o labio superior.
Os penteados d'essas Ganguelas sam originalissimos, e alguns, a certa
distancia, arremedam um chapéo de dama Europea.
Tôdos os homens cortam em triàngulo os dois incisivos da frente na
maxila superior, formando uma abertura triangular com o vèrtice apoiado
na gengive. Esta operação é feita com uma faca em que vam batendo
pequenas pancadas.
Deu-me um indìgena uma cana sacharina de 2 metros e 30 cent. de comprido
por 50 milimetros de diàmetro, affirmando-me que a producção d'aquella
rica gramìnea é abundante ali.
Sahio de Muzinda uma pequena comitiva que ia para àlém do Cuanza comprar
cêra a trôco de peixe sêco do Cuqueima.
Estes indìgenas andam quasi nus, tendo por ùnico vestuario duas pequenas
pelles, que pendem de um estreito cinto de couro.
As mulhéres, essas andam ainda um pouco menos cobertas!
O sovêta de Muzinda veio visitar-me, e trouxe-me um boi, que eu retribui
com presente igual ao que dei ao sova Iumbi do Gando.
A 9 de Junho, fui acampar na margem esquerda do rio Cuanza, a E.N.E. da
povoação de Liuíca. N'aquelle ponto o Cuanza é mais modesto do que o
Cuqueima, porque tem 50 metros de largo por 2 de fundo, com uma corrente
de 15 metros por minuto.
O seu leito é de area branca e fina, e notavel a transparencia das suas
àguas.
O rio serpea n'uma vasta planicie de dois a três kilòmetros de largo,
que encosta de um e outro lado a pequena elevação de vertentes dôces,
cobertas do arvorêdo.
Na planicie vegetam gramìneas altissimas, tão bastas que difficil é
romper por entre ellas.
O terreno da planicie é mais ou menos pantanoso.
Como eu devia esperar ali 5 dias pelo cirurgião Chacaiombe, tinha, logo
que cheguei, mandado construir um acampamento mais vasto do que aquelles
que construia só para uma noute.
Veio ali visitar-me o sova de Quipembe, a quem obedecem os sovetas de
entre Cuqueima e Cuanza, e que é elle mesmo tributario do sova do Bihé,
a quem só obedece quando lhe faz conta; porque não teme os seus ataques,
sendo-lhe facil defender a linha do Cuqueima, e sendo a maior parte,
senão tôdos, os barcos que navegam ali, das povoações Ganguelas.
Trouxe-me um carneiro de presente, desculpando-se de me não dar um boi,
por ser a sua povoação muito distante.
Recebi tambem a visita do sovêta de Liuíca, que me offereceu um boi.
Este sovêta, homem de boa feição, frequentou muito o meu campo durante a
minha permanencia na sua vizinhança.
Um dia que elle me tinha visto atirar ao alvo, e que admirava a justeza
dos tiros, passou o seu grande rebanho bovino por ali.
Eu propuz-lhe dar-me elle um boi, se o meu muleque Pépéca o matasse com
um tiro.
Elle olhou para a criança e aceitou.
O Pépéca, sofrivel atirador ensinado por mim, tomou a carabina, e fez
fôgo a um boi que ia mais separado dos outros, e que cahio fulminado.
Ouve espanto geral da parte dos Ganguelas, e o sovêta disse-me que
mandasse tomar conta do boi, e lhe desse a pelle, e um bocado de carne
para elle comer, o que eu fiz logo.
Entre Cuqueima e Cuanza os Ganguelas, que sam de differente raça dos
outros povos designados pelo mesmo nome, chamam-se Luimbas junto ao
Cuqueima, e Loenas junto ao Cuanza.
No dia 12, aconteceu-me uma aventura extraordinaria, que não posso
deixar de narrar aqui.
Andava eu fora, quando alguns dos meus prêtos viéram encontrar-me com um
mulato, desconhecido para mim, que me disséram ser chefe de uma
comitiva, que me vinha procurar, para me pedir licença de ir comigo até
ás margens do rio Cuito, e deixal-o acampar nos meus acampamentos, para
segurança sua.
Consenti no pedido, ainda que não de bom grado.
N'essa noute, demorei-me a conversar com os meus pombeiros até tarde, e
sentados á porta da minha barraca, discursàvamos sôbre as probabilidades
que haveria de ser bem succedido o meu cirurgião Chacaiombe na sua
empresa, quando eu senti para uma parte do campo um tinido singular.
Era como o bater de martello em safra. Tive curiosidade de saber o que
era aquillo, e mandei lá o meu Augusto.
Voltou elle a dizer-me, que na parte do campo occupada pelas barracas do
pombeiro Biheno que me pedira agasalho, se acorrentava uma leva de
escravos chegados n'essa noute do Bihé.
Nas barracas dos meus tudo dormia, excepto três ou quatro pombeiros que
estavam junto de mim.
Contive a còlera que me dominou por um momento, e mandei chamar o meu
hòspede.
Elle compareceu logo, e veio sentar-se junto da fogueira defronte de
mim.
Perguntei-lhe ¿o que era aquelle bater de ferro? Respondendo-me elle,
que era a acorrentar umas _cabecinhas_ que levava para vender no sertão.
¡No meu acampamento! onde tremulava a bandeira Portugueza,
acorrentava-se uma leva de escravos!
Continuei a fazer um grande esforço para me conter, e disse ao pombeiro,
que fosse soltar tôdos aquelles desgraçados e m'os trouxesse livres.
Elle negou-se a fazel-o, e respondeu-me com uma gargalhada de riso
alvar.