morada do chefe da povoação. Em muitas vi grupos de casas rodeadas de
palissada.
As libatas, e sôbre tudo as antigas, sam cobertas de frondosas àrvores,
e estam junto de rio ou ribeiro, sendo que em algumas lhes fazem passar
a àgua por dentro.
Sam quasi todas rectangulares, mas muitas ha ellìpticas ou circulares, e
outras formando polygonos irregularissimos. Não ha a menor ordem nas
construcções, e em geral é a disposição do terreno que as determina.
[Figura 22.--Planta de uma Libata de gentio no Bihé.
A. Entrada. B. Cubata onde se enterram os sovas. C. Trophéu de cornos.
_c c c_. Casas das amantes do sova. O O. Casa do sova. _a a a_. Lombe ou
morada do sova. _d d d_. Casas dos prêtos.]
[Figura 22C.--Trophéu de Cornos de caça, em quasi todas as libatas.]
[Figura 23.--Fora da porta das libatas ha isto.]
As povoações sam fortificadas com o receio dos ataques do homem, que
feras não abundam muito no paiz, e não é mesmo isso necessario para
feras, porque no interior, onde as ha em bandos, as povoações sam
abertas.
As guerras dos prêtos ali sam, a maior parte das vezes, sem causa, e
basta a riqueza de um pôvo para que elle seja atacado.
Sam verdadeiros ataques de salteadores.
Logo que um règulo decide ir fazer a guerra a outro, ou a um pôvo
qualquer, manda emissarios seus aos sovas e secúlos circumvizinhos,
convidando-os a tomar parte na campanha, e estes, como na Europa no
tempo do Feudalismo, sahem com os seus guerreiros a reunirem-se ao que
os convoca.
Alguns povos fazem periòdica e systemàticamente a guerra, e no Nano, por
exemplo, vam, de tres em tres annos, roubar os gados ao Mulondo, Camba e
Quillengues, e dizem, que estes povos criam gados para elles, e sam os
seus pastores.
Uma circunstancia muito notavel das guerras n'esta parte de Àfrica, é a
de ser sempre vencedor o que ataca.
Ha excepções, mas muito raras.
Uma das excepções foi o ataque dirigido por Quillemo, o actual sova do
Bihé, contra o paiz de Caquingue, em que os Bihenos fôram derrotados
pelos Gonzellos, e em que o proprio sova Quillemo foi prisioneiro do
sova de Caquingue, onde seria degollado, se por elle não pagassem um
grande resgate Silva Porto e Guilherme José Gonçalves (o Candimba).
Nas guerras entre os povos d'estes paizes, pode contar-se, que apenas um
quinto dos combatentes sam armados de espingardas, e os outros 4-quintos
de arcos e frechas, machadinhas e azagaias. Dizem, que uma guerra vai
muito poderosa e forte, quando leva trinta tiros por espingarda. As
armas de que usam sam as chamadas no commercio Lazarinas, sam muito
compridas, de pequeno adarme, e de silex. Estas armas sam fabricadas na
Bèlgica, e tiram o seu nome de um cèlebre armeiro Portuguez que viveu na
cidade de Braga, no principio d'este sèculo, cujos trabalhos chegáram a
adquirir grande fama, em Portugal e Colonias. Nas armas fabricadas na
Bèlgica para os prêtos, que sam uma imitação grosseira dos perfeitos
trabalhos do armeiro Portuguez, lê-se nos canos o nome
d'elle--Lazaro--Lazarino, natural de Braga.
Os Bihenos não usam balas de chumbo, que sam, dizem elles, muito
pesadas, e fabricam-n-as de ferro forjado. Os cartuxos, que elles
fabricam tambem, levam 15 grammas de pòlvora, e t[~e]m 22 centìmetros de
comprido.
As balas de ferro sam de diàmetro muito inferior ao adarme, pesando
apenas 6 a 7 grammas. Como sam forjadas, sam mais polyedros irregulares
do que espheras.
As armas assim carregadas, de nenhuma precisão, como se pode bem julgar,
t[~e]m um alcance de cem metros apenas.
O alcance da frecha é de 50 a 60 metros, mas a grosseira precisão do
tiro de frecha, entre os prêtos, não vai àlém de 25 a 30 metros. As
azagaias sam todas de ferro, curtas e ornadas de pello de carneiro ou de
cabra, não sam de arremêsso, e o Biheno em combate nunca as deixa da
mão.
Talvez haja reparo em eu escrever _pello_ de carneiro, mas cabe dizer,
já que falei n'isso, que os carneiros ali não t[~e]m lã. Existem no paiz
duas differentes especies, que os prêtos em Hambundo designam pelos
nomes de Ongue e Omême. O ongue tem um pello grosso e curto; e o omême,
que tem o pello mais longo, differe muito da lã.
Estes carneiros, de raças exòticas, degeneráram de certo por effeito do
clima e das pastagens. T[~e]m os Bihenos cabras de uma raça muito
inferior, e o seu gado bovino é pouco, e de raça muito pequena e fraca.
As gallinhas abundam, mas, sam, como todos os animaes domèsticos no
Bihé, de pequeno corpo.
Deixo aqui o que nos meus apontamentos encontrei de mais curioso a
respeito d'este paiz, cujas posições e condições climatèricas se
encontrarám em um capìtulo especial; e retomo o meu diario no dia 14 de
Abril de 1878.
As ùltimas chuvas tinham cahido das 6 ás 9 da noite do dia primeiro de
Abril, produzindo apenas 17 milimetros d'àgua, o que mostra terem sido
já muito fracas. O tempo estava esplèndido, e alguns cirrus alvissimos
que em seguida ás chuvas tinham pairado nos ares a enorme altura,
desapparecêram, para deixar logar a um firmamento lìmpido, esclarecido
de dia por um sol brilhante, e á noite constellado d'estrellas, que
dardejavam sôbre a terra escura d'Àfrica essa luz melancòlica e
scintillante, que ellas só t[~e]m nas regiões tropicaes.
Era o bom tempo de viajar, era já o dia 14 de Abril, e eu estava ainda
no Bihé!
Eram 14 de Abril, e eu não partia, porque ainda não tinham chegado as
fazendas e as cargas que deixámos em Benguella, em Novembro de 1877,
isto é, uma grande parte d'ellas, que outras tinham chegado em principio
de Março. Esta demora estava sendo de grande prejuizo para mim. Dos sete
fardos de fazendas que me deixáram Capello e Ivens, quatro tinham sido
gastos, com a sustentação da minha gente de Benguella e com a minha.
Ainda não tinha dado presente ao sova, que teimava em m'o pedir, e
comecei a ver um sombrio futuro na minha empresa.
Reduzi as minhas despesas pessoaes, e por isso tive de dispor de duas
horas por dia para caçar. Na falta de caça grossa, tinha, na margem
esquerda do rio Cuito, nas terras cultivadas de Silva Porto, muitas
perdizes.
Chamei-lhe a minha capoeira, e todos os dias ia ali matar uma ou duas,
não excedendo nunca esse nùmero para não destruir a provisão. Semelhante
ao jogador que faz da banca meio de vida, e que sopeando os impulsos do
vicio, se levanta com um pequeno ganho que lhe assegura a sustentação
diaria; assim eu, contendo os instinctos de caçador, deixei muitas vezes
a caça que podia matar; fazendo sôbre mim supremo esfôrço, para não
proseguir n'um prazer, que destruiria ao mesmo tempo as munições pouco
abundantes, e a caça necessaria ao meu sustento futuro.
Não eram só as bandas de perdizes dos campos de Silva Porto que
forneciam um prato á minha modesta mesa. Centenares de rolas Africanas,
esvoaçavam continuamente sôbre as àrvores das margens do Cuito, e vinham
beber ao rio de manhã e de tarde. Os meus muleques pequenos, por meio de
armadilhas caçavam algumas, que vinham figurar na minha mesa a par das
perdizes e de um prato de massa, feita com farinha de milho cozida em
àgua, que me servia de pão.
Assim pude reduzir a minha despesa, que era pêlo menos de quatro jardas
de algodão branco por dia, custo de duas gallinhas.
A demora e com ella o decrescimento ràpido dos meus recursos, fez
modificar o meu plano de viajar. O _mucano_ aterrava-me, e se eu tivesse
de pagar algum, ficava impossibilitado de sahir do Bihé. A demora da
minha gente, tinha, com a ociosidade, feito despertar n'elles os vicios
adormecidos pelas fadigas e pelos trabalhos da jornada.
O perigo pairava sôbre mim, e estava suspenso por um fio, como a espada
sôbre a cabeça de Damocles. Resolvi, depois de muito cogitar, colocar-me
em circunstancias de ter a força de meu lado, e de defender a tôdo o
trance a minha propriedade.
Para isso precisava armar-me, e depois de ter armas precisava ainda de
munições de guerra. Eu tinha 10 carabinas Snider, que me tinham dado
Capello e Ivens; pude obter mais 11 das deixadas por Cameron no fim da
sua viagem, e para estas armas tinha quatro mil cartuxos. Àlém d'estas,
possuia umas 20 espingardas de silex, das ùltimas d'esse systema usadas
pelos exèrcitos na Europa. Para estas não tinha munições. Fiz correr a
noticia de que comprava tôdas as armas inutilizadas que me trouxessem.
Principiáram a affluir ellas, e eu ia comprando as que poderia
concertar, o que me não era difficil, por ter aprendido o officio de
serralheiro e espingardeiro, com meu pai, que é habil artìfice, e que
ainda hôje emprega as horas de òcio trabalhando na sua officina, mais
bem montada que as d'aquelles que as t[~e]m por profissão. Lembra-me
aqui uma anecdota engraçada. Um dia, entra na nossa quinta do Douro um
cavalheiro que ia procurar meu pai, e ouvindo um martellar estridente
n'uma casa pròxima á de habitação, dirigio-se para ali. Era uma vasta
forja, onde dois homens, de tamancos nos pés, carapuças vermelhas na
cabeça, largos aventaes de couro pendentes do pescôço e justos á
cintura, a cara e mãos negras do carvão e do ferro, estendiam em enorme
bigorna uma grossa barra, que projectava em todas as direcções chispas
ardentes, ao bater cadenciado de dois pesados martellos, puxados por
braços nus até ao cotovelo.
O cavalheiro parou á porta e perguntou: "¿O Senhor Doutor está em casa?"
Meu pai, que era elle um dos ferreiros, respondeu-lhe com uma pergunta:
"¿Que lhe quer o Senhor?"
O cavalheiro, que não era de genio brando, não gostou da pergunta do
ferreiro, que tomou por insolencia, e respondeu pouco convenientemente,
dizendo, que vinha procurar sua Excellencia, e que não admittia que um
ferreiro que trabalhava em sua casa respondesse com perguntas a elle.
Meu pai quiz explicar o caso, dizendo, que o ferreiro e o Doutor eram a
mesma pessôa, o que mais fez exasperar o seu interlocutor, que julgou
lhe juntavam a zombaria á insolencia. Ambos de genio irritavel, iam ter
uma desagradavel contenda, quando o outro ferreiro, que era eu,
entreveio e fez cessar a guerilha; dando o visitante as suas desculpas
logo que se convenceu da nossa identidade.
Esta pequena circunstancia de ter aprendido um officio, servio-me de
grande auxilio, e foi um dos pequenos ribeiros que veio engrossar o rio
dos felizes resultados da minha tentativa.
Assim, pois, mais um trabalho se veio juntar ao meu incessante labutar
de tôdos os dias, e dentro em pouco pude aproveitar umas vinte-e-cinco
espingardas que o gentio julgava inutilizadas.
Faltavam as munições, e era preciso fazel-as. Em casa de Silva Porto
encontrei uma colecção completa da _Gazeta de Portugal_, e n'ella o
papel necessario aos cartuxos. Nas cargas que esperava de Benguella
devia vir muita pòlvora, e por isso apenas me faltavam as balas. Obter
chumbo era impossivel, e decidi logo fazer balas de ferro forjado.
Faltava o ferro é verdade, mas esse era possivel obter-se.
Annunciei que comprava tôdo o ferro velho que me trouxessem, e não
tardou a apparecer grande quantidade de enxadas inutilizadas, e sôbre
tudo de arcos de barris de àgua-ardente. Só suspendi a compra de ferro
quando tinha uns duzentos kilogrammas.
Mandei chamar 4 ferreiros do paiz, estabeleci duas forjas indìgenas no
pateo interior, com grande escàndalo da prêta Rosa, administradora da
povoação de Belmonte, e em quanto, fora da libata, os meus prêtos faziam
carvão queimando os restos de uma paliçada de pao ferro, de uma libata
abandonada, começou no pateo um forjar contìnuo.
O primeiro trabalho a fazer era reduzir tôdo aquelle ferro a varão
cylìndrico do diàmetro das balas. Os ferreiros haviam-se com grande
destreza. Dobravam os arcos em molhos de 20 centìmetros de comprido por
4 de espessura, e levando-os ao rubro, mergulhavam-n-os em uma massa de
caliça e àgua. Depois de frios voltavam á forja, e chegados á tempera da
fusão eram facilmente caldeados, tornando-se em massa ùnica e homogènea.
Depois d'isso o trabalho era facil.
A compra das armas e do ferro tinha deminuido consideravelmente o meu
haver.
Eu não possuia missangas, porque um sacco que me mandáram os meus
companheiros não tinha curso nos sertões para onde me dirigia. Tratei de
procurar alguma no Bihé, e pude comprar aos prêtos aqui e àlém uma
pequena porção, que me fez a carga de um homem.
Esta compra veio dar um nôvo golpe na minha fazenda de algodão, e por 17
de Abril, possuia apenas um fardo.
[Figura 24.--Objectos fabricados por Bihenos.
1. Folle. 2. Folle preparado para servir. 3. Bocal de barro em contacto
com a chama. 4. Tenaz. 5. Martello grante. 6. Um bocado de cano de
espingarda encabado em páo que serve ao ferreiro para levar áo lume
pequenas peças. 7. Martello pequeno. 8. Panellas de cozinha. 9. Panella
para capata. 10. Tambores dos batúques.]
Sentia desde a minha chegada ao Bihé uma grande falta, e era ella a de
um despertador. Foi olvido que me custou no correr da viagem muitos
incòmmodos e algumas febres. Sempre que tinha de fazer observações
depois da meia noite, tinha de estar acordado até á hora precisa; e
asseguro que é triste passar uma noite a lutar com o sono, sem luz, e
por isso sem nada poder fazer para matar o tempo.
No dia 19, o Ivens veio ver-me, e causou-me funda impressão o seu
estado.
Estava muito magro, de uma palidez cadavèrica, e accusava nas feições um
soffrimento constante. Eu pedi-lhe para vir jantar comigo no dia
immediato, que era o dia dos meus annos. Elle disse-me, que talvez não
podesse vir pêlo seu estado de saude.
Dois dias depois, fui ao acampamento dos meus companheiros pagar a
visita ao Ivens. Capello estava ausente, pois tinha ido determinar a
posição da nascente do Cuanza.
No dia 25, tinha eu dez mil balas, ou antes dez mil bocados de ferro,
toscamente forjados, com pertenções a terem uma forma esphèrica. Era o
que me bastava, e despedi os ferreiros. N'esse dia chegáram os primeiros
Bailundos com as cargas de Benguella, e nos seguintes dias fôram
apparecendo novas levas com cargas. Estes Bailundos eram insolentes, e
iam fazendo uma grande desordem em Belmonte, que teria tomado sèrias
proporções se eu não interviesse. Tirei das cargas 10 fardos de fazenda,
três barris de àgua-ardente, e dois saccos de caurim.
Faltava-me a pòlvora e o sal, que tinham ficado atraz.
Tratei logo de mandar o presente ao sova, e de me preparar para partir,
porque, tendo os cartuxos promptos e embalados, em dois ou três dias os
carregaria de pòlvora. Mandei emissarios a reunir os carregadores, que
tôdos estavam justos e promptos.
No dia 29 de Abril, os prêtos de Silva Porto fizéram-me um pequeno
furto, e eu zanguei-me muito com elles, e ameacei-os de os mandar para
Benguella. Elles, para entrarem nas minhas bôas graças, viéram
denunciar-me, que sabiam onde estavam 4 espingardas que tinham sido
roubadas á expedição no caminho de Benguella. Uma d'ellas fôra furtada
pelo S^{nr.} Magalhães, dono da povoação onde primeiro estive no Bihé.
Pude havel-as todas.
[Figura 25A.--Quinda, cesta de palha que não deixa passar a àgua.]
[Figura 25B.--Peneiro para seccar a Farinha (fuba).]
[Figura 25C.--Peneiro de peneirar.]
[Figura 25D.--Cabaça para tirar Àgua a capata.]
A esse tempo eu mal tinha occasião de comer. Arranjava as cargas, e era
preciso estar presente a tudo, para não ser roubado, porque tôdos os
prêtos, os de Silva Porto e os meus, eram uma quadrilha de ladrões.
Havia uma excepção, uma ùnica. Era o meu prêto Augusto, que me deu
sempre prova da maior fidelidade.
Quando contratei os carregadores em Benguella, contratei entre elles o
Augusto, de quem nunca fiz caso, porque elle se não distinguia dos
outros, a não ser talvez por ser um pouco mais dado a embriaguez.
Na distribuição das armas, os prêtos fizéram repugnancia em receber as
de Snider, e só o Augusto me pedio logo uma. Foi a primeira vez que
attentei n'elle. Um dia, no Dombe, fiz um exercicio ao alvo, e vi que
elle era um soffrivel atirador. Depois, em Quillengues, sube, que elle
dissera entre os prêtos, que me não deixaria nunca, e como, pêla sua
força herculea, e pêla sua coragem, elle tinha tomado um grande
ascendente sôbre os outros prêtos, chamei-o a mim.
Ao tempo em que vai a minha narrativa elle tinha subido de posição, e de
simples carregador, estava chefe da comitiva.
Alguns eram seus amigos, outros respeitavam-n-o, e muitos temiam-n-o.
Augusto é o melhor prêto que eu tenho encontrado em Àfrica; mas ninguem
é perfeito n'este mundo, e Augusto não quer ser excepção á regra. Entre
os seus defeitos avulta um, que eu sou propenso a desculpar, e que sendo
um grande defeito em viageiro Africano, fora d'ali poderia passar por
virtude.
Augusto é louco pêlo bello sexo.
Forte como um bùfalo, corajoso como um leão, entende que deve protecção
e apoio ás creaturas frageis que encontra no seu caminho.
Já não tinham conta as suas aventuras galantes desde Benguella ao Bihé.
Casado em Benguella, casou de nôvo no Dombe, em Quillengues, Caconda, no
Huambo, e desde a sua chegada ao Bihé, já tinha feito ali três ou quatro
casamentos. É um verdadeiro D. Juan de côr prêta.
Obediente em tudo o mais, desprezava completamente as minhas
admoestações n'esta parte.
Um dia, como as queixas das mulhéres fossem muitas, chamei-o e
reprehendi-o severamente, ameaçando de o abandonar se elle continuasse.
Chorou muito, lançou-se de joêlhos aos meus pés, fez mil protestos de
emenda, e pedio-me para lhe dar uma peça de fazenda, que com isso iria
contentar as mulhéres, e só ficaria com Marcolina, a sua mulhér de
Benguella.
Dei-lhe a peça de pano, e fiquei satisfeito de tão sincero
arrependimento.
[Figura 26.--Uma Casquilha do Bihé.]
Na tarde d'esse dia, ouvi grande batuque para um canto da povoação, e
cantos e festas que anunciavam um acontecimento desusado.
Tive curiosidade de saber o que era, e mandei alguem a ver. ¡Qual não é
o meu espanto, sabendo que o Augusto festejava o seu nôvo casamento com
uma rapariga da libata de Jamba!
Vi que o furor de casar-se era superior ás suas forças, e decidi não
mais me importar com os seus negocios galantes, mesmo porque elle não
compromettia ninguem, e casava sempre legalmente.
Estàvamos a dois de Maio, e ainda não tinha podido reunir os
carregadores, e ainda não tinham chegado do Bailundo, nem a pòlvora nem
o sal vindos de Benguella.
O Verissimo andava por lá reunindo a gente; mas ainda nem um só se tinha
apresentado.
Na manhã do dia três, estando eu em casa, ouvi fora da porta os acordes
de uma rabeca, onde se tocavam arias muito melodiosas, coisa mui
differente da mùsica monòtona dos prêtos.
Mandei chamar o menestrel, e appareceu-me um prêto alto e magro, quasi
nu, de physionomia triste e expressiva.
Tocava em uma rabeca fabricada por elle, que dava sons tam melodiosos e
fortes como o melhor Stradivarius. Este instrumento, mui semelhante em
forma ás nossas rabecas, era cavado em uma só peça de pao, que formava a
caixa e o braço, sendo o tampo de uma tabua fina da mesma madeira.
Tinha tres cordas de tripa, fabricadas pêlo mùsico, e o arco era
guarnecido de duas cordas iguaes, em logar de clina.
Era de certo uma imitação das rabecas da Europa, e não um instrumento
primitivo.
A madeira de que era feita chama-se no paiz _Bóle_, e abunda nas matas
da Àfrica de Oeste. Não seria talvez para desprezar o ensaio d'esta
madeira na fabricação de instrumentos de corda.
O bàrbaro mùsico cantou uma aria em meu louvor, a _mezzo petto_, com voz
muito agradavel, acompanhando-se na tôsca mas harmoniosa rabeca. Foi
muito applaudido pelos prêtos que tinha attraido em volta de si, e eu
mesmo gostei d'aquella mùsica original.
Chegáram á libata uns prêtos do sertão do Andulo, que vinham vender
tabaco muito bom, que n'aquelle paiz cultivam em quantidade. É este
tabaco do Andulo que os Bihenos compram e mandam para Benguella,
vendendo-o ali com o nome de tabaco do Bihé.
Eu comprei grande provisão, e calculei que me ficou por 500 réis o
kilogramma.
Os preços dos differentes gèneros no Bihé não sam aquelles que me t[~e]m
forçado a pagar, e sam os seguintes:
Uma gallinha, uma jarda de fazenda de algodão; seis ovos, uma jarda; um
cabrito de dois annos, oito jardas; um porco de 5 a 6 arrobas (75 a 90
kilogrammas), uma peça de algodão branco e outra de zuarte; o alqueire
de farinha de milho, duas jardas; o de farinha de mandioca ou de feijão,
três jardas. Isto sam jardas de fazendas das mais ordinarias, cujo prêço
no Bihé não se dêve calcular superior a 200 réis.
Uma jarda de fazenda chama-se no Bihé um _Pano_, 2 jardas uma _Béca_, 4
jardas um _Lençol_, 8 jardas uma _Quirana_.
As fazendas de negocio proprias para o Bihé e sertões explorados pelos
Bihenos, sam, algodão branco, zuarte, zuarte pintado, lenços de zuarte
pintado, lenços finos, lenços cangengos, fazendas de lei e riscados,
tudo da mais inferior qualidade.
As peças de algodão branco tem 28 jardas umas, e outras de melhor
qualidade 30. Os zuartes e riscados 18 jardas, os lenços pintados 8
jardas, os lenços cangengos 6, e a fazenda de lei 12 jardas.
As fazendas boas sam muito inconvenientes ao viajante que percorre esta
parte de Àfrica, porque, não tendo muito mais importancia para o gentio,
sam consideravelmente mais pesadas.
Eu tinha dois fardos de fazenda que tinha preparado ali, cada um dos
quaes continha 624 jardas, e os outros, de algodão fino, t[~e]m apenas
180 jardas, e sam mais pesados.[4]
Já se deduz d'aqui a inconveniencia das fazendas de bôa qualidade, que
àlém de ser grande o seu custo, é grande tambem a difficuldade do seu
transporte, pois que três homens carregam d'ellas tanto quanto um
carrega de fazenda ordinaria.
E sôbre tudo para o viajante explorador, como o seu dispender de fazenda
é em trôco de alimento, tantas jardas de fazenda bôa tem de dar por um
objecto, como de jardas de má fazenda dará pelo mesmo objecto.
O algodão branco de inferior qualidade e o zuarte sam o melhor dinheiro
que pode levar o viajante n'aquellas paragens.
Nas missangas já se não dá o mesmo caso, e a que é moda aqui, não é
recebida àlém, ás vezes em pontos pouco distantes, por ex.: no Bailundo
querem muito a missanga preta, que já no Bihé não tem curso.
Ha contudo uma missanga que é quasi geralmente bem recebida em toda a
Àfrica Austral. É ella uma missanga miuda encarnada, de ôlho branco, a
que no commercio em Benguella dam o nome de Maria 2^a.
O buzio miudo (caurim) serve àlém Cuanza até ao Zambeze, mas o graüdo
não é recebido.
O arame de latão ou de cobre vermelho é estimado para manilhas; mas,
n'estas paragens, não dêve ter mais de 3 a 5 milimetros de espessura.
Os barretes vermelhos, sapatos de liga, fardas de soldados, etc., sam
frandulagens, que, sendo muito estimados presentes para sovas e secúlos,
sam pèssima moeda.
Os cobertores, e sôbre tudo aquelles vistosos que na Europa usamos para
embrulhar as pernas em viagem, sam muito cubiçados do gentio; estando
porem no caso das fardas e barretes, que, sendo òptimo presente, não sam
bôa moeda.
Os realejos, caixas de mùsica, e outros objectos d'este gènero, estam no
mesmo caso.
Prestigiações, sortes de physica e chìmica, produzem certa impressão no
gentio, mas não tanta como se julga na Europa. Não comprehendendo as
causas que determinam certos phenòmenos, lançam a cousa á conta de
feitiçaria, com que explicam tudo que não sabem explicar de outro modo.
Ás vezes até podem ser contraproducentes, e prejudicarem aquelle que as
fizér.
De tudo o que eu vi fazer impressão em pretos, aquillo que mais os
admira é verem um bom atirador.
Mêtta qualquer, diante de um ajuntamento de pretos, 6 balas em alvo
pequeno e distante, corte o pequeno fruto de uma àrvore, mate um
passarinho, e fique certo de que ganha logo a maior consideração, e será
objecto das conversações por muito tempo.
A este respeito vou narrar um facto que se deu na libata, comigo. Um
dia, um cirurgião Biheno appareceu ali trazendo um remedio que era
preservativo contra as balas, áquelle que o tomasse.
Isto é crença geral entre Bihenos, e muitos ha que gastam tudo o que
t[~e]m para adquirirem aquelle abençoado remedio, que os torna mais
invulneraveis do que Achilles, porque nem mesmo lhes deixa a
possibilidade de receberem a morte por um calcanhar.
Um mestiço civilizado, e educado em Benguella, encontrei eu, que se ria
de mim quando eu lhe dizia que se lhe desse um tiro furava-o de lado a
lado, apesar do remedio contra as balas de que elle fazia uso.