quem foi escravo. Tempos depois, os despotismos e as arbitrariedades de
Giraúl fizéram-n-o detestado do seu pôvo; houve conspiração, e alguns
nobres partíram secretamente para Loanda, com muito marfim, para
resgatar seu irmão, e acclamal-o, depois de deporem aquelle. O
governador de Angola de então, vendo o partido que podia tirar d'esta
questão, para a corôa Portugueza, não só entregou Cangombi sem resgate,
mas ainda o encheu de presentes, e lhe deu auxilio contra seu irmão; e
por isso Cangombi se apresentou no Bihé com grande comitiva, que veio
por Pungo-andongo e subio o Cuanza, entre a qual se contavam muitos
Portuguezes. Declarada a guerra, Giraúl foi vencido, sendo traido pêlos
seus, e entregou as redeas do governo a seu irmão mais nôvo, que lhe deu
uma povoação e um pequeno dominio para viver.
Quatro annos depois, Giraúl revoltava-se e vinha pôr cêrco á capital.
Novamente vencido e prisioneiro, foi entregue por seu irmão aos
Ganguelas de àlém Cuanza para o comerem; não que estes Ganguelas sejam
positivamente canibaes, mas, de vez em quando, não desgostam de comer um
bocado de homem assado.
Eu não pude saber o nome do governador que prestou mão-forte ao filho
segundo do Jambi para lhe dar o poder, mas estou certo que a esse
respeito alguma cousa dêve existir no Ministerio da Marinha e Ultramar,
porque um passo d'aquelles não podia deixar de ser communicado ao
governo da Metròpoli.
Cangombi foi grande sova, e têve oito filhos, dos quaes seis fôram sovas
do Bihé; o que não é para admirar, porque ali herda o poder o mais
pròximo da ascendencia. Assim, em quanto existem filhos de um sova, os
netos não vam ao poder, e o neto primogènito do filho primogènito só
toma as rèdeas do governo quando não existe nenhum dos seus tios, irmãos
mais nôvos de seu pai.
Por esta lei herdou o poder Cahueue, filho mais velho de Cangombi, e por
mortes successivas, seus irmãos Moma, Bandúa, Ungulo, Leamúla e
Caiangúla. Os dois filhos de Cangombi que não fôram sovas, fôram Calali
e Óchi, por terem morrido cêdo. Este Óchi era immediato ao mais velho
Cahueue, e deixou um filho que foi sova por morte de seu tio Caiangúla,
por não ter deixado filhos o irmão mais velho de seu pai.
Este sova chamava-se Muquinda, e por sua morte foi o governo a seu primo
Gubengui, filho mais velho do sova Moma immediato a seu pai. A este
Muquinda seguia-se outro irmão chamado Quitungo, que morreu quando ia
ser acclamado, já dentro da capital.
De tôdos os oito filhos de Cangombi, só existia um descendente legìtimo,
filho do sova Bandúa, que foi acclamado. É elle Quillemo, o actual sova
do Bihé.
Ha contudo um filho bastardo de Moma, chamado Canhamangole, que está
indigitado para succeder a Quillemo; em seguida passarám ao poder, os
filhos d'este ùltimo, que sam muitos.
Por este breve resumo da historia do Bihé se vê, que aquelle paiz é de
fundação recente, e que desde o seu comêço quasi, existíram relações
ìntimas entre os Portuguezes e Bihenos, pêla intervenção tomada pêlo
Governador Geral de Angola, na acclamação do sova Cangombi, avô do
actual sova Quillemo, e neto do fundador da monarchia Bihena.
Assim, pois, o Bihé, desde a sua fundação tem sido governado por treze
sovas em cinco gèrações, que vam representadas no seguinte quadro:--
Bihé (sova fundador)........... 1^a gèração.
|
Jambi (sova).................... 2^a "
|
+------------+---------+
| |
Giraúl (sova) Cangombi (sova)......... 3^a "
|
+----------+---------+--------+--+-------+
| | | | |
Caueue Óchi Moma Bandúa Ungulo (sova).. 4^a "
(sova). (não reinou). (sova). (sova). Liambula (sova).
| | | Caiungula (sova).
| | | Calali (não reinou).
| | |
Muquinda Gutungui Quillemo ............ 5^a "
(sova). (sova). (sova actual).
Quilungo
(não reinou).
Na carta de Angola, de Pinheiro Furtado, já vem, indicado o Bihé, mas a
sua origem não dêve ir muito àlém da coordenação d'aquella carta.
[Figura 19.--Mulhér do Bihé cavando.]
Os Bihenos sam pouco agricultores e pouco industriosos, e ali tudo o
trabalho é feito pêlas mulhéres, que só ellas cultivam a terra.
Os homens sam dados a viajar, talvez de origem, que o seu primeiro
règulo de longe veio, e atrevem-se a ir commerciar nos remotos sertões
onde vam traficar em marfim e escravos. Aproveitando estas disposições,
alguns homens ousados, taes como Silva Porto, Guilherme (o Candimba),
Pernambucano, Ladislao Magiar, e outros negociantes sertanejos,
começáram a dirigir os Bihenos nas suas excursões, e fizéram n'isso um
grande serviço ao mundo; porque, abrindo nôvos mercados ao commercio,
abríram nôvos horizontes á civilisação. Não foi só o seu tràfico que
veio augmentar o movimento commercial da praça de Benguella, mas, ainda
animado por elles, e perdido o receio dos brancos, o gentio dos mais
remotos paizes, desceu a vir permutar directamente os seus gèneros nas
casas commerciaes de Benguella.
[Figura 20.--Carregador Biheno em marcha.]
Nas viagens sertanejas, aos brancos seguíram-se os prêtos, e obtendo,
primeiro alguns, depois muitos, um certo crèdito na praça de Benguella,
fôram ao Bihé organizar expedições, d'onde partem a procurar a cêra e o
marfim nos sertões mais distantes.
Muitos prêtos conhêço eu que negoceiam com um crèdito de 4 e 5 contos de
réis, e alguns com mais, como o prêto Chaquingunde, que foi escravo de
Silva Porto, que, durante a minha permanencia no Bihé, chegou do sertão,
onde tinha negociado por sua conta uma factura de 14 contos de réis!
Não é difficil no Bihé encontrar um branco Portuguez, escapado dos
presidios da costa, secretario de um prêto commerciante rico.
Para o Biheno, em questões de viagens de tràfico, nada é impossivel, e
tudo lhe parece natural. Se elles soubessem dizer onde t[~e]m estado e
descrever o que t[~e]m visto, os geògraphos da Europa não teriam em
branco grande parte da carta de Àfrica Austral.
O Biheno deixa com o maior desapêgo o lar, e carregado com trinta
kilogrammas de fazendas, vai para o sertão, onde se demora 2, 3, e 4
annos, voltando em seguida a casa, onde é recebido com a naturalidade de
quem volta de uma viagem de três dias.
Silva Porto, ao passo que se dirigia ao Zambeze, enviava prêtos seus em
outras direcções, e negociava ao mesmo tempo no Mucusso, na Lunda e no
Luapula.
A fama dos Bihenos tinha chegado longe, e Graça quando intentou a viagem
ao Matianvo, foi ali procurar carregadores.
É mui raro que um Biheno deserte da comitiva, e roube algum fardo; o que
acontece frequentemente com os Zanzibares.
Àlém d'isso, os Bihenos t[~e]m outra grande vantagem sôbre os
Zanzibares. Ainda que muito dados ao commercio de escravos, não promovem
elles mesmos no interior guerras para os haverem; comprando-os a quem os
vende, mas nunca tratando de os obter por fôrça. Isto quando em viagem
de tràfico sertanejo, que, nas guerras com paizes circunvizinhos, fazem
o que podem, e sam dotados de inaudita crueldade.
Os Bihenos, apesar das suas grandes qualidades, coragem e hàbito de
viajar, possuem grandes defeitos, e não conhêço em Àfrica pôvo mais
profundamente viciado, mais abertamente depravado, mais duramente cruel,
e mais sagazmente hypòcrita.
Tem esta gente uma certa emulação entre si como viajantes, e muitos
conhêço eu que se ufanam de ter ido onde outros não fôram, a que elles
chamam _descobrir terras nôvas_. Elles sam educados na vida de
caminheiros, e tôdas as comitivas levam innùmeras crianças, que, com
cargas proporcionaes ás suas forças, acompanham os pais ou parentes nas
mais longìnquas correrias; e é por isso que não causa estranheza
encontrarmos ali um homem de 25 annos que tenha estado no Matianvo, no
Niangué, no Luapula, no Zambeze, e no Mucusso, se elle viajou desde os 9
annos.
Ao homem que chega ao Bihé para seguir em viagem sertaneja, offerecem-se
dois meios de obter carregadores. Um é por meio de presentes ao sova e
aos potentados, obtel-os, pedindo-os; o outro é annunciar a viagem, e
esperar que elles se venham offerecer.
O primero é mao, porque, àlém do grande dispendio feito com os presentes
que é preciso dar ás pessôas a quem se pedem os carregadores, estes sam
obrigados a ir, e o que os pedio é responsavel pela vida d'elles para
com as familias ou senhores. Àlém d'isso, as pessôas a quem se pedem,
com o intùito de extorquir mais presentes, vam demorando quanto podem a
partida, e quando se está na sua dependencia as exigencias crescem.
O segundo meio é bom, porque os que se v[~e]m offerecer sam prêtos
livres, v[~e]m por sua vontade, e se algum morre, segundo a lei do paiz,
como foi elle que se offereceu, não tem o que o aceitou a menor
responsabilidade do facto.
É occasião de falar em Quissongos e Pombeiros. Os carregadores, não só
os Bihenos mas sim tôdos em geral, formam grupos pequenos debaixo do
commando de um d'elles que é chefe do grupo. Este chefe, desde a costa
até a Caquingue chama-se _Quissongo_, e no Bihé e Bailundo _Pombeiro_.
Sam estes Pombeiros que se v[~e]m offerecer, trazendo uns 10, outros
mais, outros menos carregadores. Estes grupos sam de differentes
naturezas. Uns sam constituidos por parentes que escolhéram um para
Pombeiro, e n'estes sam tôdos livres. Outros sam formados por gente
livre, que combinam ir debaixo das ordens de um certo Pombeiro em quem
t[~e]m confiança. Outros ainda, sam grupos de escravos dos Pombeiros que
os commandam.
A obrigação do Pombeiro é vigiar pêla sua gente, e responder por ella
ante o chefe da comitiva. Come e dorme com elles, é emfim o cabo de
esquadra da caravana.
O Pombeiro não leva carga, mas, em caso de doença ou morte de algum dos
seus, substitue-o como carregador temporariamente. Durante a marcha o
seu logar é no couce da comitiva, e logo que um seu carregador se
atraza, elle fica para o acompanhar.
O pagamento dos carregadores nunca é feito adiantado, e nas viagens de
tràfico regulares é diminutissimo.
Assim, um carregador, para ir do Bihé á Garanganja (Luapula), recebe 12
pannos ou valor de 2400 réis, e na volta uma ponta de marfim escravelho,
talvez de 4000 réis, ao tudo 6400 reis, comida á parte, porque o chefe
da comitiva tem obrigação de sustentar tôda a sua gente durante a
viagem, excepto nos primeiros três dias de sahida do Bihé, para os quaes
cada um leva de comer.
Esta regra tem ainda uma excepção. Muitos sertanejos, ao sahirem do
Bihé, destinam um certo nùmero de pombeiros para destacarem em caminho,
ou no termo da sua viagem, para differentes pontos.
A estes Pombeiros dam um certo nùmero de fazendas, pêlas quaes elles
lhes devem trazer um certo producto. Estas fazendas dos Pombeiros que
vam traficar livremente, chamam-se _banzos_, e d'ellas comem o Pombeiro
e carregadores desde o comêço da jornada. Afora este caso, em tôdos os
mais o chefe sustenta Pombeiros e carregadores.
Os Pombeiros não sahem nunca por tempo determinado, e tanto ganham
demorando-se pouco como muito. É sabido que os nêgros em Àfrica não dam
valor ao tempo.
Os costumes Bihenos sam aproximadamente os mesmos de Caquingue, e o
contacto com brancos não tem trazido o menor adiantamento a essa gente.
Não t[~e]m a menor idéa de uma religião qualquer, não adoram nem sol,
nem lua, nem ìdolo, e vivem com os seus feitiços e advinhações.
Todavia, parecem acreditar na immortalidade da alma, ou antes no
desassocego d'ella em quanto não cumprem certos preceitos ou vinganças
em favor do morto.
A forma do governo é monàrchica absoluta, e tem muito do feudalismo.
Cada um é, muitas vêzes, juiz em causa propria, e quando eu falar dos
_mucanos_ direi como ali se faz justiça.
Os maiores acontecimentos entre os Bihenos sam aquelles que se ligam aos
sovas, e sôbre tudo á sua morte e á acclamação do nôvo règulo. Antes
porem de descrever estes dois grandes acontecimentos, preciso é falar da
sua côrte.
O sova é rodeado de um certo nùmero de sujeitos, a que chamam _Macotas_,
que muitos julgam corresponderem aos ministros entre nós, mas que assim
não é. Os Macotas formam apenas uma especie de consêlho a que o sova
submette sempre as suas deliberações, mas de cuja opinião poucas vêzes
faz caso. Sam secúlos e favoritos do sova, e nada mais. Secúlo é o
fidalgo, filho de nobre, ou enobrecido pêlo sova.
Muitos secúlos que possuem libatas, dentro d'ellas t[~e]m o tratamento
de sovas, e os seus pôvos, quando lhe dirigem a palavra, dizem _Ná
côco_, o que quer dizer Vossa Magestade.
Àlém dos Macotas, ha três prêtos que rodeiam o sova, e que, quando elle
dá audiencia, se sentam no chão junto d'elle, e apanham da terra os
escarros do regùlo para os irem deitar fora. Ha ainda o que leva a
cadeira, e o Bôbo, figura indispensavel em tôdas as côrtes de sova, e
mesmo dos secúlos ricos e poderosos. O bôbo tem obrigação de limpar a
porta da casa do sova e a rua em tôrno d'ella.
As libatas sam defendidas por uma forte palissada de madeira, quasi
sempre coberta de sycòmoros enormes, e dentro d'ellas uma segunda
palissada defende e fecha a morada do sova. Este segundo recinto
chama-se o _lombe_. Dados estes esclarecimentos, vamos ver o que se
passa pêla morte ou acclamação dos règulos.
Logo que morre o sova, o acontecimento é sabido dos Macotas, que guardam
o maior segrêdo. Dam parte ao pôvo de que o sova está doente e por isso
não apparece. O cadaver é deitado na cama, na cubata, e coberto com um
panno; isto em Caquingue, porque no Bihé, é dependurado pêlo pescôço ao
tecto da cubata.
O côrpo ali jaz até que a putrefacção e os insectos deixam a ossada nua,
no paiz de Caquingue; no Bihé, até que a cabêça se separa do corpo.
É então que anunciam a morte do règulo, e que se procede ao enterro. Os
ossos sam metidos em uma pelle de boi e enterrados em uma cubata que
existe no Lombe, sarcòphago de tôdos os sovas. A cubata em que apodreceu
o cadaver é demolida, e tudo o material é transportado fôra da libata, e
abandonado no mato. Será desnecessario dizer, que a morte de um sova é
sempre produzida por feitiço, e que um desgraçado paga com a vida, não o
feitiço, que não fez, mas a vingança particular de um dos Macotas. Logo
que se anuncía a morte do sova, o pôvo sahe furioso, e durante alguns
dias, sam roubados tôdos os que passam pròximo da capital, sendo que se
apossam das pessôas mesmas, que escravizam para venderem depois.
Os Macotas vam buscar o herdeiro, e acompanham-n-o até á Libata Grande
(capital); mas ali elle não entra no Lombe, e fica vivendo na povoação
como qualquer do seu pôvo. Em seguida á entrada do herdeiro na Libata,
sahem dois bandos de caçadores, um em busca de uma malanca (_Catoblepas
taurina_), e outro em procura de uma creatura humana.
Do grupo que vê o antìlope, se adianta um caçador que lhe atira, fugindo
logo, e sam os outros que lhe vam cortar a cabêça, porque, se fôr o que
lhe atirou, é logo assassinado, e nunca pôde dizer que foi elle que o
matou.
O bando que procura a creatura humana, apossa-se da primeira que
encontra (homem ou mulhér), e arrastando-a para o mato, cortam-lhe a
cabeça, que trazem com tudo o cuidado, abandonando o côrpo. Chegados á
libata, esperam pêlo bando que foi caçar o antìlope; porque mais facil
sempre é encontrar e matar um homem do-que encontrar e matar uma
malanca.
Reunidas em uma cesta as duas cabeças, a do homem e do antìlope, vem o
cirurgião, e comêça a fazer _os curativos_ precisos para que o nôvo sova
possa tomar as redeas do governo, e quando acaba a sua magía, declara
que elle pôde entrar no Lombe. Acompanhado dos Macotas, o sova entra no
Lombe, no meio de grande grita e muita fuzilaria.
O primeiro passo que dá o sova no seu governo, é escolher entre as suas
amantes uma que apresenta como sua mulhér, a qual fica morando com elle,
e toma o nome de Inácúlo, e o governo caseiro; as outras ficam vivendo
no Lombe, mas fôra do recinto do règulo.
No Bihé, como em tôda a Àfrica Austral, está estabelecida a polygamia.
Os crimes no Bihé sam sempre julgados em primeira instancia pêlo lesado,
e só se o culpado se não sujeita ao pagamento da multa, é que, algumas
vêzes, sobe a causa ao conhecimento do sova, porque em outras a justiça
é feita pêlo lesado. A palavra terrivel no Bihé, o vocàbulo _Mucano_,
não exprime simplesmente o crime, mas designa uma idéa que involve ao
mesmo tempo o crime e o pagamento da multa.
Ali tôdos os crimes sam remiveis a dinheiro, isto é, ao pagamento de
multas; e não ha penalidades intermediarias entre a multa e a pena de
morte. Se alguem rico sôbre quem pesa um mucano, se recusa a pagar, e o
lesado é poderoso, faz presa ao culpado em valor muito superior á multa,
ficando a presa em depòsito, para ser vendida, ou ficar pertencendo ao
que a fez.
Aquelle que faz uma presa injusta é obrigado pêlo sova á restituição, e
a dar um porco ao prejudicado.
Este systema é ázado a roubos, e tôdos os dias apparecem mucanos os mais
estupendos.
Um dos mais vulgares é o do adulterio das mulhéres, a quem os maridos
mandam que se façam seduzir por este ou aquelle homem que possue alguma
cousa, para lhe fazerem depois pagar o mucano. O chefe de uma comitiva é
obrigado a pagar os mucanos dos seus prêtos, e responsavel pêlo
comportamento d'elles.
Quando um branco responsavel pêlos mucanos dos seus prêtos, tem por seu
lado força bastante e se recusa a pagar, elles esperam, ás vêzes, annos
até poderem atacar outro branco mais fraco, e fazerem-lhe presas,
dizendo-lhe, que é por causa do outro, e que se entenda com elle.
Se o que têve um mucano é fallecido, o desgraçado que vem habitar a sua
povoação paga por elle.
O modo por que se _faz justiça_ no Bihé, é a causa do grande transtorno
que soffre o commercio, e das grandes perdas das casas de Benguella.
Durante a minha estada em casa do Silva Porto, viéram ali uns prêtos que
traziam uma gallinha para fazer uns _curativos_, e o hortelão vendo-a
disse, que tinha uma muito parecida com ella. Fôram estas palavras
objecto de um mucano, em que o hortelão têve de pagar 16 côvados de
algodão ao dono da gallinha.
Logo que chega alguem ao Bihé e traz fazendas, procuram arranjar-lhe
innùmeros mucanos, e roubam-lhe assim uma grande parte d'ellas.
Os sertanejos, quando chegam ao Bihé, sam tão defraudados pelos mucanos,
que muitas vezes não lhes fica para ir negociar no interior mais do que
a terça-parte das facturas trazidas. Guilherme (o Candimba), pai do
Verissimo, a ùltima vez que ali foi em viagem de tràfico, foi obrigado a
dar fazendas no valor de 600 mil réis, por um mucano que lhe arranjáram,
de um seu prêto ter comprado um bocado de carne de carneiro por três
cartuxos de pòlvora, e não os ter dado no dia aprasado, mas sim no
seguinte, em que já não fôram aceites. Durante a minha estada no Bihé,
Silva Porto têve de pagar um mucano de 700 mil réis por uma bagatela
ainda maior.
É o mucano, esse roubo infame, porque é legal e autorizado, a causa
principal do estôrvo ao commercio, e da decadencia do Bihé.
Foi o mucano que expulsou do Bihé a Silva Porto e aos sertanejos
honrados.
Supprima-se o mucano, segure-se o caminho de Benguella, organize-se e
legisle-se para as comitivas sertanejas, e dentro em pouco triplicará o
commercio de Benguella, e novas fontes de riqueza, atrofiadas hôje pela
pouca segurança, virám alimentar as industrias Europeas.
O pôvo do Bihé é ázado a grandes commettimentos. Esmague-se no seu seio
a vìbora da ignorancia que o corróe; levantem-se esses brutos ignaros á
altura de homens, dê-se-lhes uma direcção, e elles caminharám na via do
progresso e chegarám onde difficilmente chegará outro pôvo Africano.
Os prêtos d'Àfrica sam como os cavallos de fina raça, quanto mais
fogosos e bravos, mais promptamente se tornam doceis e obedientes.
Aquelles em que predomina a inercia e a cobardia, difficilmente se
poderám civilizar; aos outros não será difficil tarefa trazel-os ao
caminho do bem.
Os Bihenos, como tôdos os povos d'esta parte de Àfrica, sam muito dados
á embriaguez.
Ali ainda chega a àgua-ardente, e na falta d'ella fabrica-se muita
capata.
A Capata, Quimbombo ou Chimbombo, que lhe chamam de qualquer destes
modos, é uma especie de cerveja feita de milho.
Nas terras onde cultivam o lùpulo (_Humulus lupulus_), servem-se das
cònicas sementes d'esta trepadeira para confeccionarem a bebida.
Para isso, reduzem as sementes a pó, e misturado este pó com fuba de
milho, em uma enorme panella, ferve por espaço de oito ou dez horas em
muita àgua, e logo, retirada do fôgo e fria, é a capata, que se bebe
immediatamente.
N'este preparado a fermentação acètica predomina, e é tão pequena a
fermentação alcohòlica, que não embriaga senão em grande quantidade.
Como a bebida não é filtrada, fica cheia de farinha em suspensão, e é
mais massa muito flùida, do que puramente um lìquido. É muito
substancial, e ha prêtos que passam um e mais dias sem comer, bebendo só
capata.
Nas terras onde não ha lùpulo é este substituido por uma farinha feita
de milho em estado de germinação, que elles fazem produzir, já
enterrando o milho, já deitando-o em àgua por alguns dias.
No tempo do mel, fazem produzir na capata uma grande fermentação
alcohòlica, addicionando-lhe mel, que no fim de alguns dias está em
parte transformado em alcohol.
Esta bebida assim preparada embriaga muito, e tem o nome de Quiassa.
Preparam ali ainda outra bebida que apenas pode considerar-se refresco,
mas que é agradavel e muito nutriente.
É ella feita com a raiz de uma planta herbàcea, que os meus poucos
conhecimentos botànicos não me permitíram classificar, a que os prêtos
chamam _imbundi_. Uma forte decocção da raiz do imbundi, depois de fria
e de uma ligeira fermentação em uma grande cabaça, e addicionada, a
frio, á fuba fervida como para a capata.
A raiz do imbundi contem grande quantidade de materia sacharina.
Esta bebida chama-se Quissangua.
A alimentação do pôvo do Bihé é quasi toda vegetal, e tendo elles poucos
gados, que nunca matam para comer, apenas uma ou outra vez comem carne
de pôrco, animaes estes que abundam ali no estado domèstico. Creio que
fôram introduzidos por Silva Porto. No paiz, muito povoado, escaceia a
caça, e a pouca que há sam pequenos antìlopes (_Cephalophus mergens_),
difficeis de matar por muito esquivos.
Os Bihenos comem toda carne que encontram, e a preferem no estado de
putrefacção.
O leão, o chacal, a hyena, o crocodilo, e tôdos os carnìvoros, sam para
elles finos manjares, mas sôbre tudo o que mais amam sam os cães, que
engordam para comerem. Isto talvez provenha da falta de alimentação
animal que t[~e]m no seu paiz. Elles não sam positivamente canibaes, mas
comem de tempos a tempos um bocado de homem cozido. Preferem os velhos,
e um ancião de cabelleira branca é òptimo presente que recebe o sova, ou
algum rico secúlo, para um banquete.
Os sovas do Bihé fazem repetidas vezes uma festa, na sua libata, a que
chamam a festa do Quissunge, em que sam immoladas e devoradas 5 pessôas,
sendo 1 homem e 4 mulheres, desta sorte:--1 mulhér que faça panellas, 1
do primeiro parto, 1 que tenha papeira (é vulgar ali), 1 cesteira, e 1
caçador de côrças.
Presas as vìctimas, sam degolladas, e as cabeças lançadas no mato. Os
corpos entram de noite para o Lombe da libata grande, onde sam
esquartejados, e morto um boi, a sua carne é cozida com a carne humana,
parte da qual é tambem fervida na capata; sendo que tudo o que apparecer
no banquete deve levar sangue humano. Logo que está prompta a sinistra e
repugnante ceia, o sova manda participar que vai começar o Quissunge, e
todos os habitantes da povoação correm pressurosos ao festim.
Os Bihenos gostam muito das termites, e destroem as suas habitações para
as comerem cruas.
O Biheno é altamente ladrão, e furta sempre que pode algum objecto, logo
que está no seu paiz; fóra d'elle, não só se abstem de roubar, mas, como
carregador, respeita a carga que lhe confiáram.
Quando uma comitiva acampa no mato, no Bihé, é preciso logo dar parte
d'isso ao secùlo dono da terra, mandando-lhe um pequeno presente; sem o
que, ficam autorizados os prêtos da povoação vizinha a roubarem quanto
possam. Logo que se dá o presente ao dono da terra, é elle o responsavel
por qualquer roubo que haja.
É tambem necessario mandar um presente, ou antes um tributo, ao sova; ao
que se chama dar a _Quibanda_. Elles nunca ficam satisfeitos, e exigem
sempre mais do que se lhes manda.
As libatas ou povoações fortificadas (que todas o sam, desde a costa ao
Bihé) t[~e]m as mesmas condições, salvo pequenas modificações, devidas á
disposição do terreno. Sam grupos de cubatas feitas de madeiras e
cobertas de côlmo, cercadas por uma palissada, que varía entre 2 a 3,5
metros de altura. Esta palissada é formada por estacas de pao-ferro de
vinte centìmetros de diàmetro, umas apenas cravadas no terreno, outras
amarradas com travessas e cascas de leguminosas, e outras amparadas por
travessas encaixadas em forquilhas enormes.
[Figura 21A.--Palissada Solta.]
[Figura 21B.--Palissada amarrada com Casca de arvore.]
[Figura 21C.--Palissada travada com Forquilhas.]