longinqua; mas, ás 9 horas, formáram-se trovoadas em muitos pontos do
horizonte, e pareciam tôdas convergir sobre o meu campo, que era situado
em um alto. Ás 10 horas, 5 trovoadas encontravam-se em choque immenso
sôbre o campo, e a mais horrivel tormenta que até então tinha
presenceado se desencadeou sôbre mim. Os raios succediam-se com
intervallos de três a cinco segundos, e o estalar sêco dos trovões era
incessante.
Havia perfeita calma e apenas algumas grossas gôtas de chuva cahiam aqui
e àlém.
O baròmetro apenas desceu dois milimetros, e o thermòmetro conservava
uma temperatura de 16 graos Cent. As agulhas magnèticas desnorteavam, e
conservavam um oscillar constante.
Uma bùssola circular Duchemim, chegou a voltear ràpidamente.
Durou este estado de cousas até ás 11 horas, hora a que soffreu
modificação mais terrivel ainda. Um vento fortissimo, um verdadeiro
tufão, começou a soprar de leste, e n'um momento correu os quadrantes
pêlo norte até S.O., onde se fixou com a mesma intensidade. Copiosa
chuva começou a cahir então. O vento, no seu passar furioso, soprou aos
ares as barracas do meu campo, e nós ficámos expostos á chuva torrencial
que cahio até ás 4 horas, em que a tempestade começou a abrandar.
Quem o não presenceou não avalia o que seja uma tempestade, de noite, no
meio das florestas d'Àfrica Austral, quando ao rebombar dos trovões se
une o grito multìsono das feras, que nos vem ferir os ouvidos com
acordes terriveis.
A chuva apagou os fôgos do campo, o vento soprou longe os frageis
abrigos, e o raio descendo em luminoso zig-zag, torna mais escuras as
trevas, depois do seu ràpido fulgor.
Muitas vêzes, ao estalido do raio succede outro estalar medonho. Foi a
àrvore, que levou sèculos a crescer, e que n'um momento, ferida por
elle, voou em rachas e baqueou no solo.
¡O espectàculo é horrivel, mas grandioso e sublime!
Amanheceu finalmente, e de tudo aquelle pelejar dos elementos, só
restavam para o lembrar, innùmeras àrvores derrubadas e um terreno
encharcadissimo.
¡A mim restava mais alguma cousa!
O ataque de rheumatismo tinha-se declarado com grande intensidade, e
estendendo-se a tôdas as articulações, tolhia-me os movimentos. Soffria
muito. Parti ao meio-dia na maca, e fazia esforços enormes para calar na
garganta os gritos arrancados pêlo soffrimento que infligia o movimento
da maca.
Uma hora depois, envolvi-me em um pàntano extenso, onde a àgua dava pêla
cintura aos homens que me carregavam.
O terreno, encharcado pêla chuva da noite, estava transformado em
pàntano enorme. Alcançámos um outeiro, quando, ás 2 horas, nôva
tempestade, vinda de leste, cahio sobre nós. Da maca, onde gemia dôres
atrozes, animei a minha gente a seguir sempre, com intenção de alcançar
as povoações de Bilanga, onde queria pernoitar.
Sei que, no dia seguinte, me achei, n'uma cubata, e me disse o
Verissimo, estar eu n'aquellas povoações, na libata do Vicente; mas não
tenho a menor idéia, nem do caminho andado, nem da noite velada, que me
disséram os prêtos ter sido horrivel. Ao rheumatismo viera juntar-se a
febre e o delirio.
A cabêça estava livre, mas o ataque e as dôres recrescéram, se era
possivel isso.
Não podia fazer o menor movimento nem mesmo com as phalanges das mãos.
Verissimo e os meus prêtos dispensavam-me os maiores cuidados.
Sube que o rio Cuqueima levava uma cheia enorme, e não dava passagem no
vao; mas, sabendo que existia uma pequena canôa a jusante da cataracta,
resolvi seguir e passar o rio ali. Chegados ao rio, tratou-se de
calafetar com musgo a canôa já muito velha, e que apenas podia soportar
o peso de dois homens. O rio, que trazia uma enorme cheia, ia
caudalosissimo. Resaltando por sôbre as rochas da cataracta, divide-se,
formando uma pequena ilha, e logo depois, une as suas àguas em um só
canal, largo de 100 metros.
Era ali que ìamos passar. Eu fui collocado dentro da canôa com mil
cuidados, porque o menor movimento que me davam, me arrancava um grito
doloroso.
Um habil barqueiro tomou o remo e a canôa deixou a margem. Tìnhamos de
atravessar 100 metros de àgua, mas de àgua animada de violenta corrente,
e encrespada por ondas furiosas produzidas pêlos baldões da cataracta. O
barqueiro dirigio a canôa para a ilha, e até chegar á juncção das àguas
tudo foi bem; mas ali o fragil barco preso nos enormes rodomoinhos não
quiz seguir ávante, apesar da pericia do habil nêgro. Eu via a àgua, em
ondas espumantes ainda do salto de ha pouco, referver em volta de mim, e
comecei a comprehender o grande perigo em que estava.
Tentei mover um braço e apenas consegui soltar um grito de dôr!
Julguei-me perdido, porque, se a canôa afundasse, eu não poderia nadar.
Sempre presa no rodopiar das àguas, não seguia ávante, e de repente
começou a rodopiar ella mesma. O prêto receiou que nos afundasse-mos, e
decidio saltar ao rio para alijar o barco. Prevenio-me, e saltou.
Alliviada d'aquelle peso, a canôa fluctuou melhor, mas não deixou o
sitio em que estava presa pêlas fôrças desencontradas da àgua.
De repente um baldão entrou na barca e molhou-me. Tive um momento de
verdadeira imbecilidade, e não sei o que se passou; só me lembra, que de
repente me achei nadando com tudo o vigor, só com um braço, sustentando
fôra d'àgua com o outro um dos chronòmetros que trazia comigo, para que
não lhe chegasse a àgua.
Sentia um verdadeiro prazer em nadar, e cortava ràpido os remoinhos das
caudalosas àguas, o que me era facil a mim, que desde criança aprendi a
lutar com os ràpidos do meu patrio Douro.
Os prêtos, sempre tendentes a admirar a destreza physica,
prodigalizavam-me da margem fervorosos applausos.
Tinham desapparecido as dôres, a febre cessou de repente, e eu sentia-me
bem disposto e forte. Ao submergir-se a canôa, do meio de 100 homens que
assistiam á scena, e que ficáram boquiabertos e indecisos, um arrojou-se
valorosamente á àgua para me salvar.
Menos perito nadador do que eu, não alcançou a margem senão depois de
mim, e de nenhum auxilio me foi, mas a sua dedicação ficou gravada no
meu coração para sempre. Era o meu prêto Garanganja, que enlouqueceu
depois, não tendo uma alma assás forte para sopportar as miserias que
experimentámos.
Quando me firmei em terra andei, sem dôres, sem febre. Despi-me
immediatamente; mas não tinha roupa para mudar, porque as bagagens
estavam ainda na outra margem; e tive de estar exposto a um sol
abrasador em quanto a elle enxuguei a roupa que trazia. Voltáram as
dôres e a febre, e só sei que no outro dia, estava estendido em um leito
na libata da Annunciada, morada que tinha sido do sertanejo Guilherme
Gonçalves, pai do Verissimo.
Cheio de dôres e ardendo em febre, mas um pouco melhor, decidi partir e
ir encontrar os meus companheiros.
Parti ás 11 horas, e durante uma grande parte do caminho, atravessei uma
planicie coberta de fetos herbaceos enormes, e vi muitas àrvores feridas
do raio. Vi tambem uma planta que ali abunda, e que é, ou a nossa urze
das altas montanhas do norte de Portugal, ou a ella mui semelhante.
Os meus ôlhos, pouco afeitos ás subtilezas das observações que demanda o
estudo do reino vegetal, não sam bastante penetrantes para differençar
especies, gèneros e familias, quando ellas não se differençam por si
mesmo.
Chêguei ao sitio do Silva Porto (Belmonte) pêla uma hora, e fazendo um
supremo esfôrço, fui a casa dos meus companheiros.
Elles, confirmando o que me tinham escrito, disséram-me que iam
continuar sós, e que me deixariam uma terça parte de fazendas e
material, salvo as cousas indivisiveis que guardariam. O Ivens
offereceu-se para me acompanhar a Benguella, visto o meu precario estado
de saude, se eu quizesse voltar á Europa.
Manifesto-lhe aqui a minha gratidão, por tão generosa offerta.
CAPÌTULO VI.
PEREIRA DE MELLO E SILVA PORTO.
No Bihé--Doença--Melhoras--A casa de Belmonte--Decido ir ao alto
Zambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma expedição no
Bihé--Difficuldades, e como se vencem--Noticia sôbre o Bihé--Os
meus trabalhos--Nôvas difficuldades--Deixo Belmonte--Até ao
Cuanza--Escravatura.
Depois de 20 dias de cruél agonia e grandes soffrimentos, estava emfim
no Bihé, muito doente é verdade, mas cheio de fé e contente de mim
mesmo. Logo que falei aos meus companheiros, deixei a casa de Belmonte,
e fui em maca para a libata pròxima do Magalhães, onde cahi sem fôrças
sôbre as pelles do meu leito. Os primeiros symptomas de uma meningite
declaráram-se, ao passo que redrobravam as dôres rheumàticas.
No dia seguinte, fóram ver-me o Capello e Ivens, que me leváram
medicamentos. Peiorei, e veio o delirio.
Quando despertei, julguei sonhar. Achava-me deitado em magnìfico leito,
despido e entre lençoes de fina bertanha. O leito era coberto de
elegante cortinado de reps côr-de-rosa e franjado de branco.
Disséram-me, que Capello viera durante o meu delirio, e me mandara
aquella cama; que as havia assim no Bihé, em Belmonte, em casa de Silva
Porto.
Tinham-me coberto de sanguesugas, e o muito sangue que me tiráram os
prêtos, deixara-me em um estado de fraqueza indescriptivel. As dôres
tinham cedido um pouco, mas continuava a febre. De tarde, viéram os
prêtos de Nôvo Redondo procurar-me, e eu recebi-os diante de Magalhães,
Verissimo e Joaquim Guilherme José Gonçalves, irmão mais velho do
Verissimo. Vinham elles dizer-me, que não queriam seguir com os meus
companheiros, e que ou iam comigo, ou voltavam.
Depois de um grande trabalho, convenci-os a voltarem para elles, e a
acompanhal-os. Sube então, que Capello e Ivens estavam construindo um
abarracamento a 5 kilòmetros d'ali, e já lá tinham as bagagens, devendo
em breve mudarem-se de Belmonte.
Dois dias depois, veio procurar-me o Ivens, com quem tive larga
conversa.
Dei-lhe tôdas as cartas de recomendação que Silva Porto me havia dado em
Benguella para obter carregadores, e comprometi-me a não pedir gente ao
sova Quilemo, ficando-lhe o campo completamente livre a elles. Ivens
disse-me, que iam mudar para o abarracamento que tinham, e que em casa
de Silva Porto me deixavam o que me pertencia na partilha. Eu
mandara-lhes entregar tôdas as cargas que trouxera comigo, e as que
acompanhou o prêto Barros, que já tinham chegado. O prêto Barros
declarou-me, que não queria continuar a viagem, e por isso despedi-o,
bem como a alguns prêtos de Benguella, que manifestáram igual intenção.
Escrevi poucas linhas a Pereira de Mello, que o meu estado de saude não
me permitia ser extenso. Quando, fatigado de determinar tanta cousa, eu
ia embrulhar-me nos lençoes e procurar no sono um pouco de descanço,
surgio diante de mim, como um espectro, um homem alto e magro, de
physionomia enèrgica e distincta. Era o meu prisioneiro que eu havia
olvidado, era o secúlo Palanca, o conselheiro ìntimo do sova Dumbo do
Sambo.
"Já despachaste tôda a tua gente, me disse elle, uns despediste-os,
outros ficaste com elles, ¿o que determinas de mim, e qual é a minha
sorte?" "Tu vais voltar a tua casa, lhe respondi, levarás ao Dumbo a
espingarda que lhe prometti, e alguma pòlvora, e para ti terei alguma
cousa tambem. Dêvo-te uma indemnização por aquella corda que tiveste ao
pescôço pròximo do Cubango, e pêlos sulcos que te fizéram nos pulsos as
cordas com que te amarrei." Chamei o Verissimo, e dei-lhe as minhas
órdens n'esse sentido.
Palanca, sempre impassivel diante da liberdade e dos presentes, como o
tinha sido diante da prisão e da morte, retirou-se, e deixou logo o
Bihé.
Dois homens seguíram-se no meu quarto á sahida do secúlo do Sambo.
Estava escrito que eu não descançasse no primeiro dia das minhas
melhoras. Estes dois prêtos eram Cahinga e Jamba, os dois homens de
confiança de Silva Porto, que elle me mandava de Benguella.
Depois de lhes ouvir mil protestos de dedicação, muitas vêzes repetidos,
consegui ficar só. Só, não! Junto de mim estava a ùnica, a grande
dedicação que tive na minha viagem a travez d'Àfrica. Córa, a minha
cabrinha, em pé, com as patas pousadas sôbre o leito, berrando e
lambendo-me as mãos, pedia-me uma caricia, que eu não lhe fazia ha
muito.
No dia seguinte, os meus companheiros avisáram-me de que deixavam a casa
de Silva Porto, e eu em uma maca mudei para ali. Encontrei 7 cargas de
fazenda, 6 caixas de rancho, uma mala com instrumentos, e três carabinas
Snider, que elles me haviam deixado.
A libata de Silva Porto, ou povoação de Belmonte, está situada sôbre a
parte mais elevada de um outeiro, cuja vertente norte desce suavemente
até ao leito do rio Cuito, que corre a leste para o Cuqueima.
A posição da libata é muito bonita, e forte como ponto estratègico.
[Figura 16.--Casa de Belmonte (Bihé).]
Tem dentro um laranjal, onde as larangeiras estam sempre em fruto e
flôr, o que não acontece a outras algumas no Bihé. O laranjal é cercado
de uma sebe de roseiras, que attingem uma altura de tres metros, e estam
sempre floridas.
[Figura 17.--Vista exterior da povoação de Belmonte, no Bihé.]
Sycòmoros enormes assombram as ruas e rodeam a povoação, defendida por
uma forte palissada de madeira.
Debaixo d'essas larangeiras, cuja sombra perfumada me abrigava do sol
ardente, quantos dias e quantas horas passei scismando na minha posição,
e elaborando projectos mais ou menos sensatos!
Foi ali, que, arrastando ainda os membros tolhidos de dôres, que,
queimado da febre, concebí, e organizei na minha mente o plano que havia
realizar depois.
Se de alguma cousa me orgulheço na minha viagem, é d'esse tempo.
Mais tarde joguei muitas vêzes a vida, fui de certo mais de uma vez
temerario, mas era obrigado a isso para me salvar.
Ali não! Estava doente, quasi anèmico, e sem recursos. Uma facilidade
relativa me abria o caminho de Benguella e da Europa. Mil difficuldades,
que provinham da minha separação dos meus companheiros, apresentavam-me
uma barreira quasi impossivel de transpor, para emprehender uma
exploração qualquer. O desànimo reinava na minha pouca gente.
[Figura. 18.--Planta da povoação de Belmonte, no Bihé.
* Sycomoros. * Forte palissada de pao. * Palissada da horta coberta de
roseiras sempre floridas. * Romeiras. * Larangeiras. * Hortas. *
Cemiterio. * Casas dos prêtos.
1. Entrada da povoação. 2. Entrada da casa de Silva Porto. 3. Casa. 4.
Pateo interior. 5. Cusinha e dispensa. 6. Casas de criados. 7. Armazem.]
Entrèvado e sem fôrças, não pensar um só momento em voltar face ao
desconhecido que se erguia ante mim como um abysmo attrahente; desfazer
uma a uma as difficuldades que surgiriam; reconstruir muitas vêzes o
trabalho feito, que se esvaïa como cahe um castello de cartas; criar
recursos onde os não havia; conseguir organizar uma expedição sôbre as
ruinas de outras que se haviam desmembrado; é, aos meus ôlhos, a parte
mais difficil da minha viagem, e de que mais me orgulheço, se é que me
orgulheço de alguma cousa.
Comecei por contratar Verissimo Gonçalves para me acompanhar, e consegui
fazer-me obedecer por elle cégamente.
Depois de muito estudar o caminho a seguir, resolvi ir direito ao alto
Zambeze, seguindo a cumiada do paiz onde nascem os rios d'aquella parte
d'Àfrica.
Chegado ao Zambeze, queria seguir a leste, estudar os affluentes da
margem esquerda, e descendo ao Zumbo, ir d'ali a Quilimane por Tete e
Senna.
Os mais pràticos sertanejos, sabedores do meu projecto, diziam-me, que
eu não chegava a meio caminho do Zambeze, e creio que me tinham por
tôlo.
Eu deixava-os falar e prossegui sempre na organização do pessoal e
confecção do material necessario aos meus planos.
No dia 27 de Março, primeiro em que pude escrever livremente, escrevi ao
Governo da Metròpoli, e ao Pereira de Mello, e Silva Porto. Dava-lhes
parte do occorrido até então, e pedia-lhes auxilio e consêlho,
submettendo á sua crìtica os meus projectos. Despachei portadores para
Benguella com as cartas, e fui trabalhando, mais confiado em mim do que
em outrem.
A esse tempo, uma grande parte das cargas deixadas em Benguella, em
Novembro ¡havia 5 mezes! ainda não tinham chegado.
Apparecéram-me na libata o ex-chefe de Caconda, Alferes Castro, e o
degradado Domingos, que iam para Caconda. Contáram-me que, chegados ao
Bihé, tinham sido encarregados por Capello e Ivens de ir construir o
abarracamento, e de fazer transportar para ali as cargas que estavam em
Belmonte.
O Alferes Castro voltava sem nenhum confôrto, e eu, das 6 caixas de
rancho que me tinha deixado o Ivens, dei-lhe o assucar, chá, café, etc.,
necessario para a viagem.
Creio que aquelle senhor, depois de ter sido a causa de tanto
soffrimento que tive, de tantos riscos que corri, não terá motivo de
queixar-se do modo por que o recebi no Bihé; se quizér ser justo e
verdadeiro.
Quanto ao degradado Domingos, se bem me recordo, dei-lhe uma carta de
recommendação para o Governador de Benguella, de quem ia solicitar um
favor.
Foi assim que tratei os dois homens que mais me fizéram soffrer em
Àfrica, porque quando déram causa a isso, eu ainda não estava habituado
ao soffrimento.
No principio de Abril, eu já bastante melhor, tinha promptos 60
carregadores, e esperava apenas a chegada das cargas de Benguella, para
receber mais alguma fazenda e partir.
A minha vida era um trabalhar incessante, e ao mesmo tempo compilava um
livro de lembranças, para ter á mão as fòrmulas que me eram necessarias
para os meus càlculos; fazia umas tàbuas de raizes quadradas e raizes
cùbicas, que calculei para os nùmeros de 1 a 1000. Deduzia com trabalho
immenso algumas fòrmulas trigonomètricas, porque na Europa, para tornar
mais portateis as minhas tàbuas logarìthmicas, as tinha feito
encadernar, supprimindo a parte explicativa; e por um engano deploravel,
n'uma remessa de objectos que de Loanda fiz para Portugal, fôram
incluidos os meus livros mathemàticos. Não se riam os sabios, da
singeleza com que lhes narro as difficuldades com que lutei no Bihé para
poder ter escritas n'um livrête algumas fòrmulas vulgares. Quem não é
explicador de mathemàtica, vê-se muitas vêzes embaraçado para resolver
uma questão mui simples, quando lhe falte um livro que lhe avive a
memoria priguiçosa. No Bihé faltavam-me tôdos os livros, e por isso eu
fazia um, para meu uso, e ou se riam ou não, declaro-lhes que não me foi
facil. Tôda a minha bibliotheca consistia em três almanacs para 1878,
1879, e 1880, as tàbuas de logarithmos, como já disse, sem texto, tàbuas
somente, o Eurico de Herculano, as poesias de Casimiro d'Abreu, e um
livrinho de Flamarion, _As Maravilhas Celestes_.
Em tudo isto não tinha muito onde refazer a memoria para as questões de
_x_ e _y_.
Depois havia ainda outra difficuldade. Eu tinha de fazer e de pensar em
muitas cousas ao mesmo tempo, e cousas um pouco incompativeis entre si.
Ás vêzes tinha conseguido quasi reconstruir uma das fòrmulas de Neper
para resolver triàngulos esphèricos, quando entrava o muleque, e me
exigia que dizesse, se a gallinha para o jantar devia ser cozida ou
assada (durante a minha estada no Bihé, comi cento e sessenta e nove
gallinhas). Logo, entrava outro pedindo sabão para lavar a roupa;
depois, eram carregadores que me vinham falar; em seguida, enviados do
sova, que me queriam extorquir mais algumas jardas de fazenda. Um
inferno, um verdadeiro inferno.
Eu tinha feito e fazia um grande nùmero de observações meteorològicas.
Os meus chronòmetros estavam perfeitamente regulados, e a minha posição
determinada. Algumas excursões que fiz no paiz com a bùssola na mão,
permitíram-me fazer uma carta, de certo grosseira, mas tão aproximada
quanto se pôde exigir de um trabalho d'estes em viagem de exploração.
Apesar dos meus trabalhos, ou talvez por causa d'elles, eu estava
satisfeito, e mal pensava nas tribulações porque tinha de passar ainda
nas terras do Bihé.
Antes porem de continuar a narrativa das minhas aventuras, abro um
parenthesis para falar um pouco d'este paiz, tão importante e rico
quanto pouco conhecido entre nós, a quem interessa mais o seu
conhecimento do que a ninguem.
O Bihé limita ao Norte com o sertão do Andulo, a N.O. com o Bailundo, a
Oeste com o paiz de Moma, a S.O. com os Gonzellos de Caquingue, ao S. e
L. com os pôvos Ganguelas livres. O rio Cuqueima é quasi um limite
natural do Bihé por Oeste, Sul e Leste, mas, na realidade, a autoridade
do sova do Bihé ainda se exerce para àlém d'aquelle rio em alguns
pontos. O paiz é pequeno, mas muito povoado.
Eu avalio grosseiramente a sua àrea em 2500 milhas quadradas, e um
càlculo ainda mais grosseiro fêz-me estimar a sua população em 95 mil
habitantes; o que nos dá apenas 38 habitantes por milha quadrada; e
ainda que este nùmero nos pareça mui pequeno, por ser menos de um terço
do que se dá entre nós, é consideravel para a Àfrica Austral, onde a
população está muito pouco accumulada.
Em tempo, como se verá, pouco distante, estas terras do Bihé eram
povoadas de matas densas, onde abundavam elefantes, e onde assentavam
raras povoações de raça Ganguela.
O rio Cuanza, depois da sua confluencia com o Cuqueima, divide o paiz do
Andulo do paiz de Gamba, que lhe fica a leste. Era sova de Gamba um tal
Bomba, que possuia uma filha de grande formosura, chamada Cahanda.
Este sova Bomba vivia na margem esquêrda do rio Loando, affluente do
Cuanza.
A formosa e nêgra princesa Cahanda, pediu ao pai para ir visitar umas
parentas que eram senhoras da povoação de Ungundo, ùnica de alguma
importancia no Bihé de outrora.
Estando a filha do sova Bomba n'esta povoação de Ungundo a visitar as
parentas, aconteceu chegar ao paiz um ouzado caçador de elefantes
chamado Bihé, filho do sova do Humbe, que com grande comitiva tinha
passado o Cunene e estendido as suas excursões venatorias até áquellas
remotas terras. Um dia o selvagem discìpulo de Santo Huberto têve fome,
e estando perto da povoação de Ungundo, dirigio-se ali a pedir de comer.
Foi então que vio a formosa Cahanda, e é preciso dizel-o, que vel-a e
amal-a foi obra de um momento. Estas questões de amor em Àfrica sam
muito semelhantes ás questões de amor na Europa, e pouco depois do
encontro dos dois jovens, Cahanda era raptada, e Bihé plantava a
estacada da grande povoação que ainda hôje é a capital do paiz, paiz a
que deu o seu nome, fazendo-se acclamar sova. As dispersas tribus
Ganguelas fôram por elle submettidas, e o pai da primeira soberana do
Bihé reconciliando-se com a filha, permittio uma grande immigração do
seu pôvo para ali. Ao casamento do sova succedéram-se muitos outros
entre as mulhéres do norte e os caçadores do seu sèguito, e esta é a
origem do pôvo Biheno.
Assim os Bihenos sam Mohumbes, nome que na Àfrica Austral de oeste dam
aos descendentes da raça do Humbe, os quaes não se encontram só no Bihé,
mas estam tambem espalhados em outros pontos, sôbre tudo frente da costa
entre Mossàmedes e Benguella, misturados com os Mundombes, que sam a
verdadeira raça d'aquelle paiz. Hôje a verdadeira raça Mohumbe no Bihé é
representada pêla nobreza e gente rica do paiz, os descendentes dos
caçadores do primeiro sova, e ainda assim, fôra da familia reinante,
está ella misturada com sangue de raças muito differentes; porque, sendo
o Bihé desde o seu comêço um grande emporio de escravatura, e tendo sido
colonizado em grande parte por escravos de raças diversas, o baixo pôvo
provem de uma mistura inexplicavel, e a nobreza mesmo, nas suas
bastardias numerosas, tem trazido ás suas descendencias sangue dos
paizes mais remotos da Àfrica Austral.
Da união de Bihé e da formosa Cahanda nasceu um ùnico filho varão, que
têve o nome de Jambi, e succedeu no governo a seu pai. Este Jambi têve
dois filhos, dos quaes o primogènito se chamou Giraúl, e o segundo
Cangombi. Giraúl herdou o poder por morte de seu pai, e receiando de seu
irmão, que tinha grande influencia no pôvo, o fez prender secretamente
de noite, e o vendeu como escravo, a um prêto que ia levar uma leva de
escravos a Loanda.