No dia seguinte logo de manhã, viéram offerecer-se muitos mais
carregadores, que recusei, por me serem inuteis.
Parti depois das 10 horas, hora a que a chuva abrandou. No momento da
sahida quebrei os meus òculos, que usava desde Lisboa. Andei a N.E., e
cinco horas depois, acampava na margem esquêrda do rio Cutato das
Ganguelas, rio que passei em umas alpondras sôbre uma pequena cataracta.
No caminho passei um pequeno ribeiro, chamado Chimbuicoque, affluente do
Cutato.
O rio corre n'aquelle ponto a Leste, voltando em seguida ao N., e depois
pêlo Leste para o Sul. Este S gigantesco é uma serie de ràpidos, em que
o rio se precipita com fragor enorme, pôr sôbre as rochas de granito que
formam o seu leito.
[Figura 10.--Termites na margem do Rio Cutato dos Ganguelas.]
No sitio das alpondras naturaes, mede 80 metros de largo, e a montante e
jusante 27 metros com 4 a 5 de fundo. Vai afluir ao Cubango, dizem os
naturaes que 15 dias de caminho ao sul d'este ponto.
[Figura 11--Monte termìtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio
Cutato dos Ganguelas, coberto de vegetação.]
A margem direita é occupada pêlas plantações da povoação de Moma, que
occupam um espaço que avaleei em mais de mil hectares de terreno. Sam as
maiores que tenho visto em Àfrica. A cultura entre estes pôvos consiste
principalmente em milho, feijão e batata, mas o que mais se vê sam
campos de milho. Antes de chegar ás plantações, atravessei uma floresta
de acacias enormes, de sorprendente belleza. O aspecto das margens do
Cutato é muito original. Onde termina o granito do leito do rio comêça
um solo de formação termìtica, e o terreno coberto de milhares de
montìculos, uns cultivados, outros cobertos de vegetação silvestre,
tôdos ligados, formando como que systemas de montanhas, ferem a vista,
admirada ao contemplar um tão estranho systema orogràphico artificial.
Marquei a grande povoação de Moma, três kilòmetros a O.S.O., e depois de
ter determinado a altitude do rio ali, retirei-me, molhado da incessante
chuva, e atacado de nôvo accesso de febre.
Os ameaços de rheumatismo continuavam. Durante a noite a chuva foi
torrencial, e como sempre, dormi molhado, porque, n'esta època do anno,
as gramìneas de que cobria a minha barraca improvisada, não tinham mais
comprimento que 50 centimetros, e com herva tão curta é difficil, senão
impossivel, vedar a àgua em uma barraca.
A chuva só abrandou no dia seguinte ao meio dia, e eu, apesar de
abrazado em febre, segui ás 2 horas, tinha 144 pulsações.
Caminhei a pé, por me ser impossivel segurar-me a cavallo no bôi; mas,
depois de uma hora de marcha, as pernas recusavam-se a continuar.
Acampei. Os meus prêtos e os proprios carregadores Ganguelas
dispensavam-me os maiores cuidados.
O logar em que acampei foi junto de umas povoações a que chamam Lamupas,
por estarem perto das cachoeiras do rio, que em lingua do paiz t[~e]m o
nome de _Mupas_.
É logar muito povoado e muito cultivado, sendo estes pôvos grandes
cultivadores.
Encontrei no caminho algumas sepulturas de secúlos, que sam cobertas de
barro, com uma forma semelhando algumas da Europa. Estas sepulturas sam
cobertas por um alpendre de côlmo, e sam sempre debaixo de uma àrvore
grande.
Sôbre ellas vi cacos de pratos e panellas, que ali sam depostos pêlos
parentes do defunto, como nós depomos nos tùmulos das pessôas queridas,
as saudades e as perpètuas.
De noite a chuva moderou, e o dia seguinte amanheceu nublado mas estio.
A febre abrandou muito, mas as dôres rheumàticas comêçavam a fazer-se
sentir atrozmente. Segui ávante, e meia hora depois de ter deixado o meu
campo, passei junto da grande povoação de Cassequera.
Logo que passei um pequeno riacho que fica para àlém da povoação,
deparei com umas clareiras enormes cobertas de gramìneas, que me
prenderam a attenção pêlo seu enorme e completo desenvolvimento, em uma
èpocha do anno em que as plantas d'esta familia estam em principio desse
desenvolvimento.
[Figura 12.--Sepultura de Secúlo.]
O meu muleque Pépéca foi atacado de tão violento e repentino accesso de
febre, que cahio inerte. Tive de parar e mandar contratar um homem, na
povoação de Cassequera, para o levar ás costas. Ao meio dia, passei
junto da libata do Capitão do Quingue, primeira povoação do paiz de
Caquingue. Fui hospedar-me em casa de João Albino, mestiço de Benguella,
filho do antigo sertanejo Portuguez Luiz Albino, môrto por um bùfalo nos
sertões do Zambeze.
João Albino mora na libata de Camenha, filho do Capitão do Quingue.
Camenha estava ausente, por ter ido tomar o commando das fôrças do sova
de Caquingue, que ia fazer a guerra a uns sovêtas do Cubango.
O tempo melhorou, e a minha febre cessou de tudo, mas o rheumatismo
continuava a ameaçar-me.
A noite foi sem chuva, e o dia seguinte amanheceu claro e sem nuvens.
Fui visitar o velho capitão do Quingue, a quem levei de presente uma
peça de lenços. Elle deu-me um bôi, que mandei logo matar, porque há
muito que tìnhamos só carne de porco para comer. O capitão era muito
velho e doente. Conversou muito comigo a respeito do motivo da minha
viagem, e não comprehendeu o que eu andava fazendo.
Quando eu ia a retirar-me, disse-me elle, "Eu sei o que tu fazes, tu és
secúlo de Moeneputo, e elle mandou-te ver estas terras e estudar os
caminhos; por aqui fazem-se muitas cousas que não sam bôas, e o
Moeneputo hade querer pôr termo a isso; peço-te, que quando isso
aconteça, te lembres de que eu te dei um bôi, e te tratei como meu
irmão; eu pouco viverei, mas então lembra-te de meus filhos, e não lhes
faças mal." Comovéram-me estas palavras do ancião. Os seus secúlos
viéram acompanhar-me respeitosamente até á libata do filho onde estava
hospedado, e poucos deixáram, no correr do dia, de me trazer pequenos
presentes, já gallinhas, já ôvos e já canna de assucar. Na libata do
capitão vi uma pequena plantação de cana de assucar, tão viçosa como não
vi no litoral, e em que esta enorme gramìnea tinha um desenvolvimento
descommunal.
Notei esta circunstancia, por ter julgado até então, que a uma tão
grande altitude, cerca de 1700 metros, não vegetaria tal planta.
De volta á libata, encontrei ali Francisco Gonçalves (_o Carique_),
irmão do Verissimo, que, sabendo da minha chegada, vinha visitar-me.
Este _Carique_, filho do sertanejo Guilherme, como o Verissimo, é
comtudo filho de outra mãe, e a elle pertence por herança materna o
throno de Caquingue.
Vive junto do sova, seu tio, e é casado com uma filha do futuro sova do
Bihé.
Foi educado em Benguella, e possue alguma instrucção e bastante
intelligencia. Elle trazia com-sigo alguns prêtos que fôram escravos de
seu pai, e que logo se offerecéram para me acompanharem na viagem do
Bihé para Leste.
Assim, pois, já antes de chegar ao Bihé, arranjei alguns carregadores.
Carique, Albino, o filho do Capitão, e outros que fazem commercio
sertanejo, sahem d'aquelle ponto para o Mucusso e Sulatebelle, descendo
o Cubango até ao Ngami, sempre pêla margem direita, e vam tambem
negociar ao Cuanhama, paiz a leste do Humbe, na margem esquêrda do
Cunene.
O artigo principal do tràfico é o escravo, que em caminho trôcam por
bôis, e estes e fazendas, por cêra e marfim.
Resolvi demorar-me ali um dia, não só para descançar e enxugar, mas
tambem para me informar sôbre este paiz, cujos usos já differem muito
dos dos povos que tinha encontrado até ali. De tarde, o Carique e João
Albino déram-me largas informações sôbre o paiz, das quaes transcrevo do
meu diario as mais curiosas.
O paiz de Caquingue limita ao N. com o Bihé, a oeste com o paiz de Moma,
a leste e ao sul com pôvos confederados de raça Ganguela. A raça
Ganguela occupa n'esta parte d'Àfrica um vasto territorio, e está
dividida em 4 grandes grupos, os quaes soffrem ainda subdivisões. A
lìngua e usos sam os mesmos; mas a sua organização polìtica differente.
No paiz de Caquingue tomam os Ganguelas o nome de Gonzellos, estam
constituidos em reino, tendo um ùnico chefe.
Nas suas outras divisões formam confederações, muito vulgares em Àfrica,
sendo cada povoação governada por um chefe independente. Os que demoram
a S.E. de Caquingue chamam-se Nhembas, os do sul Massacas, e aquelles
que vivem a leste do Bihé, Bundas. D'estes ùltimos terei de falar
detidamente no correr d'esta narrativa. Os Gonzellos, Ganguelas de
Caquingue, sam cultivadores e negociantes, e sam, de tôdos os pôvos da
Àfrica Austral, aquelles que mais se aproximam dos Bihenos, em
commettimentos de exploração commercial.
No paiz trabalham muito em ferro, e esta industria estabelece entre
elles e outros pôvos activas relações de commercio.
Não tem a menor idéia de uma religião qualquer, e vivem com os seus
feitiços, não pensando na existencia de um Ente Supremo que tudo dirija.
[Figura 13.--Ferreiros Caquingues.]
Nos mezes mais frios, Junho e Julho, os ferreiros Gonzellos deixam as
suas libatas, e vam estabelecer grandes acampamentos junto das minas de
ferro, que sam abundantes no paiz.
Para extracção do minerio cavam poços circulares de três a quatro metros
de diàmetro, que não profundam mais de dois metros; de certo por lhe
escacearem os meios de elevarem com facilidade o minerio a maior altura.
[Figura. 14.--1. Folles. 2. Bocal de Barro. 3. Bigorna. 4. Martello.]
Visitei muitos d'esses poços junto ao Cubango. Extraido que é o minerio
que elles julgam sufficiente para o trabalho d'aquelle anno, comêça a
separação do ferro, que elles fazem em côvas pouco profundas, misturando
o minerio com carvão vegetal, e elevando a temperatura por meio dos seus
instrumentos de insuflação, que consistem em dois cylindros de pao,
cavados de 10 centìmetros, com 30 de diàmetro, e recobertos por duas
pêlles de cabra curtidas, ás quaes estam ligados dois paos, de 50
centìmetros de comprido por 1 de diàmetro. É por meio d'estes paos que
um ràpido movimento dado ás pêlles produz a corrente de ar, que é
dirigida sôbre o carvão por dois tubos de pao ligados aos cylindros, e
terminados por um bocal de barro.
Depois comêça um incessante trabalhar, noite e dia, até que tudo o metal
é transformado em enxadas, machados, machadinhas de guerra, ferros de
frecha, azagaias, pregos, facas e balas para as armas, e até mesmo fuzis
para ellas, de ferro temperado com unha de bôi e sal. Vi muitos d'esses
fuzis darem fogo tambem como os do melhor aço fundido.
Durante tudo o tempo que duram os trabalhos é expressamente prohibido a
qualquer mulhér aproximar-se do campo dos ferreiros, porque dizem elles
que se estraga logo o ferro. Eu creio que isto foi estabelecido para que
os homens se não distraiam do trabalho, em que empregam, como já disse,
noite e dia.
[Figura. 15.--Objectos fabricados pêlo gentio entre a Costa e o Bihé. 1.
Machado de Trabalho. 2. Ferro de Frecha para a Guerra. 3. Frechas. 4.
Ferro de Frecha para Caçar. 5. Pé das Frechas. 6. Machado de Guerra. 7.
Enxada. 8. Azagaias.]
Findo que é o metal e transformado em obra, voltam os ferreiros a suas
casas carregados com a sua manufactura, que vendem em seguida depois de
terem reservado o necessario para seu uso.
Tôdos estes pôvos não admittem causas naturaes de doença ou de morte.
Sempre que adoece ou morre alguem, ou fôram as almas do outro mundo (uma
certa é designada) que produzio o mal, ou então foi algum vivo que fêz
feitiço ao doente ou ao môrto. Logo que morre alguem, se os parentes não
estam na localidade, mandam-n-os prevenir, e no entanto penduram o
cadaver em um grande pao a 200 ou 300 metros da porta da povoação, e
esperam que elles venham para fazer o enterro.
Logo que elles chegam ou se estam na localidade, procede-se
immediatamente á devinhação para saber a causa da morte.
Para isso amarram o cadaver a uma vara comprida, e pegando dois homens
nas extremidades, levam o côrpo ao logar destinado ás adevinhações, onde
o espera o adevinho e o pôvo formado em duas alas.
O adevinho tomando na mão direita um coral branco, comêça a adevinhação.
Depois de fazer mil momices e grande grita e de ter feito mexer o môrto,
que o pôvo acredita que mexeu sem intervenção estranha, o adevinho
declara que foi a alma de fulano ou de fulana que o matou, ou então que
foi feitiço dado por alguem que elle designa.
No primeiro caso, o enterro faz-se em paz, abrindo uma côva no mato, em
qualquer logar indistinctamente, e lançando n'ella o cadaver que cobrem
de pedras, paos e terra; mas no segundo caso, a pessôa designada pêlo
adevinho como feiticeiro é agarrada, e, ou paga ao mais pròximo parente
a vida do môrto, ou lhe cortam ali a cabêça, indo dar parte do occorrido
ao sova, a quem tem de levar de presente uma cabra para elle escutar o
caso.
Comtudo pôde dar-se o caso de um accusado negar firmemente a sua
culpabilidade na morte, e então tem direito de defesa.
Para isso, vai elle buscar um cirurgião que vem, na presença do pôvo
proceder ás provas da innocencia ou culpabilidade do accusado.
O cirurgião chega á presença dos parentes e do pôvo, e compõe uma bebida
venenosa de que tomam quantidades iguaes o accusado e o mais pròximo
parente do môrto.
A beberagem produz uma especie de loucura temporaria, e é n'aquelle dos
dois em que ella se manifesta com mais intensidade que recae a culpa da
morte.[3]
Se é no accusado, ou paga a vida do defunto, ou morre; se é no parente,
tem este de indemnizar o accusado pêla accusação feita, dando-lhe logo
um porco para lhe pagar o trabalho de ir buscar um cirurgião, e depois
tem de lhe dar o que o accusado exigir, sejam dois bôis, dois escravos,
um fardo de fazenda, etc. etc.
Antes de continuar, dêvo fazer sentir uma grande differença que existe
de três entidades importantes, nos pôvos da Àfrica Austral, e que muitas
vêzes sam confundidas.
Sam ellas o cirurgião, o adevinho e o feiticeiro. Effectivamente, estas
três entidades que parecem á primeira vista ter pontos de contacto,
nenhum t[~e]m na realidade.
O cirurgião fica definido pêla palavra. É um curandeiro, tem
conhecimento de um certo nùmero de plantas e raizes, que empega sempre
empìricamente, bem como as ventosas sarjadas, de que faz grande uso;
sendo bem certo que a sciencia de curar está muito em atrazo n'aquelles
paizes. O cirurgião, que nunca faz diagnòstico da molestia, faz sempre o
prognòstico. A dosagem das plantas medicamentosas é sempre empìrica, e
nas suas polypharmacias entram os mais absurdos e inuteis componentes. É
verdade que entre nós ainda não vai longe o uso da Triaga. O cirurgião,
que é ao mesmo tempo pharmacèutico, emprega durante a preparação das
suas drogas, um certo nùmero de ceremonias e de palavras sem as quaes
ellas perderiam a virtude. Fazem grande segrêdo das plantas que
empregam, e dam-se ares de sabios pedantes quando a esse respeito sam
interrogados. O cirurgião é pessôa muito importante, e muitos actos
solemnes requerem a sua presença. Elle decide altas questões, porque a
sua opinião prevalece á do adevinho (Ditangja), sendo que o cirurgião
nunca a emitte sem fazer antes um certo nùmero de remedios e ceremonias,
já com plantas, já com sangue do homem ou dos irracionaes, a que chamam,
_fazer os curativos_.
O adevinho só adevinha, e mais nada. No caso de doença, o adevinho é
sempre chamado para adevinhar se sam almas do outro mundo ou feitiços, e
só depois d'elle, vem o cirurgião.
Estes dois sujeitos entendem-se sempre.
O adevinho não é só consultado em caso de doença ou morte, é ouvido em
tudo e por tudo, e nada se faz sem que elle adevinhe primeiro.
Para a consulta, coloca-se elle no centro de um cìrculo formado pêlo
pôvo, que dêve estar sentado. Arma-se de uma cabaça e um cesto. A cabaça
contem missanga grossa e milho sêco, o cesto é cheio das cousas mais
disparatadas, ossos humanos, legumes sêcos, pedras, paos, caroços de
frutas, ossos de aves, espinhas de peixes, etc.
Comêça por sacudir frenèticamente a cabaça, e durante a chocalhada que
faz invoca os _espìritos malignos_, ao mesmo tempo sacode o cesto, e nos
objectos que vam apparecendo na parte superior, vai lendo o que se quer
saber do passado, do presente, ou do futuro. Este uso encontrei eu desde
a costa, mas não tão seguido como aqui.
Falei em _espìritos malignos_, e é preciso dizer, que ali os _espìritos
malignos_ emparelham em malignidade com as almas do outro mundo
(_Cassumbi_) e com os feiticeiros. Ás vezes entram no côrpo de alguem, e
custa muito fazel-os sahir. Outras vêzes, fazem tropelias maiores,
tomando conta de uma povoação, onde durante a noite não deixam socegar
ninguem, sendo preciso que o cirurgião faça grandes _curativos_ para os
expulsar.
Estava ali um adevinho, e eu calculei o partido que podia tirar d'elle.
Chamei-o em particular, e fiz-lhe alguns presentes, mostrando por elle
grande respeito, e fingindo acreditar na sua sciencia.
Pedi-lhe para adevinhar o meu futuro, e elle logo convocou o pôvo da
libata, e muito da povoação do capitão, para assistirem á adevinhação.
A ceremonia fêz-se com grande apparato, e elle comêçou a ler nas
trapalhadas do cesto as cousas mais lisongeiras a meu respeito. Eu era o
melhor dos brancos, passados, presentes e futuros; a minha viagem seria
feita com grande felicidade, e felizes seriam aquelles que fossem
comigo.
Este vaticinio produzio o melhor effeito, e têve grande influencia no
resultado da minha partida do Bihé.
Já falei do cirurgião e do adevinho, e vou dizer o que é feiticeiro.
Esta palavra tem uma significação que, tendo alguns pontos de contacto
com a que lhe damos na Europa, não é comtudo a mesma cousa.
Ali qualquer é, ou pôde ser feiticeiro, e feiticeiro é mais o
envenenador do que homem que governa nos espìritos.
Effectivamente, o _feitiço_ ali é veneno, e dar _feitiço_ a alguem, é
dar veneno, que determine, ou doença, ou morte, ou loucura.
Esta é a rigorosa accepção da palavra, mas ainda assim o feiticeiro pôde
causar grandes prejuizos, e como tudo se atribue a _feitiço_, a perda de
um combate, a epidemia nos gados, as tempestades, etc., tudo provem da
sua malevolencia.
Não se julgue porem que se pôde designar o feiticeiro; não pôde. O
feiticeiro apparece como causa do effeito, e como essa causa é logo
destruida, o feiticeiro é como um meteoro que se desvanece logo depois
de apparecer. Esta pràtica dá logar a terriveis vinganças, como bem se
pôde suppor.
Àlém d'estas três entidades, duas das quaes sam definidas e uma
indefinida, ha ainda um sujeito que tem certa importancia entre estes
pôvos bàrbaros.
É elle o homem que dá e tira a chuva. Ha um certo nùmero de indivìduos
que se atribuem o poder de governar nos meteoros aquosos. Possuindo um
espìrito observador, attentáram em que com taes ventos em certa èpocha
do anno chove, e que com outros estia. E servindo-se d'esses signaes,
que sam tão vulgarmente observados na Europa, e mesmo recommendados por
homens de sciencia, como Fitz-Roy e outros, que se observam na vida dos
animaes, sôbre tudo das aves, elles que podem com certa probabilidade
fazer um prognòstico do tempo, atribuem a si o poder, de dar e tirar
chuva, tendo previamente annunciado que a vam dar ou tirar.
Estes sujeitos sam vulgares, mas acreditam n'elles muito, porque raras
vêzes se enganam.
Estas pràticas que nos causam estranheza, eram ha dois sèculos vulgares
na Europa, e ainda hôje existem entre nós no baixo pôvo dos campos.
Não é preciso ir á idade media para se encontrarem os Reis consultando
os seus astròlogos, e mesmo em Portugal existe um livro, impresso, _com
tôdas as licenças necessarias_, em 1712, que o seu autor _Gaspar Cardozo
de Sequeira_, mathemàtico da villa de Murça, intitulou Thesouro de
Prudentes, livro acrescentado pêlo engenheiro Gonçalo Gomes Caldeira,
que ensina as cousas mais estupendas e maravilhosas, aos homens cultos
d'essas eras, porque o pôvo de então não sabia ler. Desculpemos pois os
ignaros prêtos d'Àfrica Austral.
Uma lei engraçada d'aquelle paiz, é a respeito das mulhéres que morrem
de parto.
Logo que uma mulhér morre de parto, o marido tem obrigação de a enterrar
elle só, levando o cadaver ás costas até á sepultura, e fazendo sózinho
o trabalho da inhumação. Em seguida, tem de pagar a vida d'ella aos
parentes, e se não tem com que, constitue-se escravo d'elles.
As sepulturas dos proletarios não t[~e]m signal algum que as indique, e
sam feitas em qualquer logar indistinctamente entre o mato.
Quando eu falar do Bihé, serei mais minucioso em certos costumes que sam
communs a estes paizes, e que tive depois occasião de estudar
detidamente, sôbre tudo aquelles que se referem aos sovas e aos grandes.
Um costume que é privativo de Caquingue é o que elles chamam _tratar as
mulhéres_. Logo que uma mulhér está gràvida, um sujeito pede ao marido
em casamento a filha que ella vai ter, e desde logo é obrigado a
_tratal-a_, isto é, dar-lhe vestuario e satisfazer as suas exigencias de
_toilette_.
Este costume vigora só entre gente rica. Logo que nasce a criança, o
noivo redobra de presentes á mãe, e tem o dever de vestir a filha até á
pubredade, isto é, á èpocha do casamento. Se acontece nascer um varão, a
obrigação de vestir mãe e filho subsiste, e este, logo que chega a ser
homem, fica para Quissongo do que o _tratou_.
Mais adiante direi o que é um Quissongo.
Este costume não é tão extraordinario como parece á primeira vista, e se
em Àfrica só o encontrei no paiz de Caquingue, cá na Europa é elle
vulgar, não na forma, mas na essencia, e na phrase polida dos salões
chama-se a isso, creio eu, _casamentos de conveniencia_.
Amanheceu o dia 5 de Março, depois de uma noite tormentosa em que a
chuva foi diluvial. Eu estava melhor da febre; mas as dôres rheumàticas
eram mais persistentes e estendiam-se dos joelhos aos artelhos. O meu
Pépéca estava melhor, e por isso resolvi partir. Receiando porem do meu
rheumatismo, fui pedindo uma maca e carregadores para ella, que me fóram
obsequiosamente cedidos por Francisco Gonçalves (_o Carique_). Depois de
cordiaes despedidas, parti ás 10 e meia ao N., e uma hora depois, passei
o ribeiro Cassongue, que corre a S.E. para o Cuchi. Tem 6 metros de
largo por 2 de fundo. Ao passar o rio, o meu boi cavallo (Bonito)
embaraçou-se em umas sarças, perdeu o ànimo, e foi ao fundo; custou
muito salval-o, e só pude seguir ao meio dia. Á 1^{h.} e 15^{m.} passei
o riacho Govêra, de 3 metros de largo por 50 centìmetros de fundo, e á 1
e 45 acampava a S.S.O. da povoação de Chindúa. Passei no caminho junto
de duas grandes povoações, a de Cacurura, e a de Cachota. Já estava em
terras que prestam obediencia ao sova do Bihé. O paiz continúa ali a ser
muito povoado e cultivado.
Durante a noite, chuva torrencial e forte trovoada de leste. A minha
febre tinha desapparecido completamente, mas as dôres rheumàticas
recresciam n'uma progressão assustadora, e já ameaçavam estender-se a
tudo o côrpo. Logo de madrugada, o dono da ponte sôbre o Cuchi mandou-me
avisar para passar a ponte sem demora, porque estas pontes, dando
passagem só a um homem de cada vez, leva ella muito tempo, e é lei, que
quando uma comitiva toma conta da ponte, ninguem ali pôde passar sem
terminar a passagem da gente que primeiro chegou, e constava que uma
grande comitiva de gentio se dirigia para ali em sentido inverso ao meu.
Agradeci o aviso, e parti immediatamente, tomando conta da ponte meia
hora depois.
O rio Cuchi tem ali 25 metros de largo por 5 de fundo, e corre ao sul ao
Cubango.
Da ponte avista-se, 2 kilòmetros ao N., a grande cataracta do Cuchi, de
sorprendente belleza, cujo ruido chêga até nós.
Demorei-me um pouco para determinar a altitude, e segui depois a E.N.E.,
passei o pequeno ribeiro Liapêra, que côrre ao Cuchi, e mudando de rumo
para N.N.E., passei o ribeiro Caruci, que côrre a N.E. para o Cuqueima;
indo acampar, pêlo meio dia, nas matas do Charo, a S.O. da povoação de
Ungundo.
Estes dois pequenos riachos, o Liapêra e o Caruci, marcam a separação
das àguas para o Cubango e Cuanza.
O secúlo Chaquimbaia, chefe da povoação de Ungundo, veio
comprimentar-me, e trouxe-me um porco e umas gallinhas; retribui o
presente, e elle deu-me guias para me acompanharem no dia seguinte.
Durante o dia, não só em caminho encontrei muitos ranchos de gente
armada que vam reunir-se ás forças do sova de Caquingue, mas ainda
depois que acampei, passáram innùmeros prêtos armados que levavam o
mesmo destino.