Parei, e mandei chamar o Capôco. Contei-lhe o occorrido, e elle

disse-me, que seguisse para a libata do tio, que tudo ia remediar. Segui

ávante, e pouco depois passei o Calae, que corre N.S. para o Cunene,

tendo ali 30 metros de largo por l,5 de fundo, com violenta corrente.

As margens sam vastas planicies levemente accidentadas e cobertas de

gramìneas, por entre as quaes surge aqui e àlém um solitario dragoeiro.

O solo é de formação animal, que tudo o terreno é coberto por um mundo

infinito de termites, ou antes o cobre.

Uma ponte, construida toscamente de troncos de àrvore, une as duas

margens do rio. 100 metros a montante da ponte, recebe o Calae um

affluente importante, o Cuçuce, que traz volume d'àgua igual ao seu.

Caminhei a E.N.E., e pêlas 10 horas passei junto á libata do secúlo

Chacaquimbamba, em cuja frente havia grande ajuntamento de gentio.

Passei sem nada me dizerem; mas tinha andado uns 50 metros, quando senti

um grande barulho do lado da libata. N'esse momento Verissimo correu a

mim e disse-me, que havia questão com um carregador nosso.

Voltei a traz e vi o prêto Jamba, carregador da minha mala, a quem

tinham tirado a espingarda, o que conseguíram facilmente, porque elle a

largou com receio de deixar cair a mala, que continha os chronòmetros e

outros instrumentos delicados.

Àlém da arma, elles tinham mettido para a libata uma cabra e um

carneiro, que me tinham sido dados pêlo Capôco. Intimei-os a que me

entregassem o roubo; mas apenas me respondéram com um murmurio

ameaçador.

Calculei ràpidamente as circunstancias, e vi-me com 10 homens, cercado

por 200 que me ameaçavam furiosos.

Esquèci por um momento tôda a prudencia e bom senso, e quiz experimentar

o que valiam esses 10 homens, que no futuro teriam de ser meus socios em

perigos maiores, e caminhando para a porta da libata, armei o revólver e

ordenei-lhes que entrassem e me trouxessem o roubo. O meu prêto de

Benguella, Manuel, um môço de que eu nunca fizera caso, soffreu uma

transformação sùbita, e armando a carabina, de um salto entrou na

libata. Foi logo seguido por Augusto, Verissimo e Catraio grande. Os

outros seguíram, e eu, estudando os meus homens, esquèci-me de mim, e

podia ter sido vìctima do furor da populaça que me cercava; mas a nossa

audacia espantou-os, e recuáram, vendo sahir da libata Verissimo com a

cabra, o Augusto com o carneiro, e os outros de carabina prompta

cobrindo-lhes a retirada.

A arma, mais facil de esconder do que os animaes, não foi encontrada,

mesmo em uma segunda busca mais minuciosa do que a primeira; que o

successo desta tinha autorizado.

Os meus prêtos, animados pêla indecisão dos gentios, só proferiam

palavras de morte, e custou-me a contel-os para que não fizessem fogo

sôbre os indìgenas.

Consegui acalmal-os, e prometi-lhes que em breve teriamos satisfação

plena.

Eu dizia isto fiado no Capôco, em quem já confiava um pouco.

Seguímos, uma hora depois, e a 1.30 passava o rio Põe, affluente do

Caláe, que tem 5 metros de largo por 1 de fundo, cujo leito lodoso e

molle dá difficil passagem.

Ás 3 horas chegava á libata do secúlo Quimbungo, irmão do sova do

Huambo, onde estavam as cargas abandonadas e o prêto Barros. O Quimbungo

recebeu-me muito bem, e disse-me que me daria carregadores até ao Sambo,

e sabendo do occorrido de manhã, pedio-me que não fizesse mal ao secúlo

Chacaquimbamba, que elle me faria entregar a arma roubada, e dar plena

satisfação do insulto. Pêlas 6 horas, chegou ali o Capôco, trazendo

alguns carregadores dos que tinham fugido, e as fazendas apprehendidas

aos outros, fazendas dos pagamentos que eu havia feito adiantados.

Disse-me, que no seguinte dia me faria entregar a arma roubada, e poria

á minha disposição o chefe da povoação para eu o castigar.

Que não receasse eu mais fuga de carregadores, porque elle mesmo, ou o

tio, me acompanhariam até ao Sambo.

Fui deitar-me ardendo em febre, e passei uma noite horrivel.

No dia seguinte reuníram-se mais carregadores; mas não ainda os

sufficientes.

Capôco tinha partido logo de madrugada para casa do Chacaquimbamba, e ao

meio dia appareceu-me com a arma roubada e aquelle secúlo, a quem

perdoei a offensa da vèspera. O delinquente deu-me mil satisfações, e

melhor do que as satisfações, dois magnìficos carneiros.

Capôco, esse homem selvagem e ferôz, que é o terror do Nano, esse homem

que eu consegui dominar completamente e que tantos serviços me prestou,

despede-se de mim e volta á sua libata, recommendando-me instantemente

ao tio.

De tarde desencadeou-se sôbre nós uma horrivel tempestade, e á chuva

torrencial misturava-se o raio e o trovão da tormenta perpendicular.

Recresceu-me a febre.

Durante a noite nôva tormenta; mas com chuva moderada. O secúlo

Quimbungo, logo de manhã cêdo, me veio dizer estarem promptos os

carregadores; mas exigirem o pagamento adiantado.

Recusei positivamente, porque, àlém da experiencia adquirida com o mao

resultado dos pagamentos adiantados, foi consêlho do Capôco, nunca fazer

taes pagamentos.

Os homens recusáram-se a seguir e fôram-se. Quimbungo reune a gente da

sua povoação, e ordena-lhe que sigam comigo; elles obedecêram, mas sam

mui poucos e reunidos aos que me trouxe o Capôco, deixam ainda 27

cargas, que eu entrego ao Barros, e que o Quimbungo promette mandar-me

ámanhã para o Sambo, para onde eu decidi seguir immediatamente.

Parti ás 10 horas a Leste, e uma hora depois, passei o rio Canhungamua,

de 30 metros de largo por 4 a 5 de fundo, que correndo ao Sul vai unir

as suas àguas ás do Cunene.

Uma ponte de troncos de àrvore, de construcção nôva, deu-me facil

passagem e á comitiva, que na margem esquêrda do rio se recusou a ir

mais longe n'aquelle dia, sendo-me preciso empregar a maior energia para

os fazer seguir até as 3 horas, hora a que acampei n'uma espêssa

floresta de acacias.

O mao tempo continuava sempre, e a febre resistia ao muito irregular

tratamento que eu lhe podia fazer.

Durante a noite uma trovoada horrivel, correndo de S.O. a N.E., passou

junto de mim, despedindo raios e chuva torrencial.

Levanto campo no dia seguinte ás 6 horas, e duas horas depois, passava o

Cunene, em ponte construida, como tôdas n'esta parte d'Àfrica, de

troncos grosseiros. O rio tem ali 20 metros de largo por 2 de fundo, e

corre ao Sul. As margens sam levemente accidentadas, cobertas de

gramìneas, e pouco arborizadas. Duas fileiras de àrvores, mui

semelhantes aos salgueiros da Europa, desenham duas linhas tortuosas,

por entre as quaes o rio se deslisa com veloz corrente em leito de areia

branca e fina.

Descancei um pouco, depois de ter feito as observações precisas para

determinar a altitude, e segui ao meio dia, alcançando, pêlas 2 horas, a

libata do sova Dumbo, no paiz do Sambo.

Este sovêta é vassallo do sova do Sambo, é homem rico e tem muita gente

nas povoações que governa. Recebeu-me muito bem, e quiz que me

hospedasse na libata, o que aceitei.

Prometteu-me carregadores para o dia seguinte, ainda que me disse ter eu

chegado em má occasião, por ter muita gente fôra em guerra. Paguei e

despedi os carregadores do Quimbungo, e fiquei certo de seguir no dia

immediato.

Pouco antes de mim tinha chegado ao Dumbo um secúlo rico, que mora na

margem do Cubango, chamado Cassoma, e vinha visitar o sovêta de quem era

amigo. Este Cassoma, com quem não sympathizei, veio fazer-me mil

protestos de amizade, offerecendo-se para me acompanhar ao Bihé.

De tarde mandei ao sovêta 3 garafas de àgua-ardente, e fiz lembrar-lhe

que me não faltassem os carregadores na manhã seguinte. Ao contrario dos

usos da hospitalidade do gentio n'estas paragens, o sovêta nada me

mandou para comer, e eu e os meus tivémos fome, porque ninguem nos

vendeu farinha.

Seriam 8 horas da noite, quando eu, de muito mao humor e estômago vazio,

me ia deitar, senti bater á porta e logo entrarem o sovêta Dumbo, o tal

Cassoma e um secúlo chamado Palanca, amigo e principal conselheiro do

sovêta, e cinco das mulhéres d'este ùltimo.

Conversámos um pouco sôbre a minha viagem; mas de repente o Cassoma,

interrompendo a conversa, disse ao sovêta, "Nós não viémos aqui para

conversar, queremos àgua-ardente, e diga a esse branco que nol-a dê já."

O sovêta animado pela arrogancia do Cassoma, disse-me, que lhe desse

àgua-ardente a elles e ás mulhéres. Eu respondi-lhe que já lhe tinha

dado três garrafas, que elle nada me tinha offerecido, que era esta a

primeira hospedagem que eu recebia de um chefe em que me deitava com

fome, e por isso não lhe daria nem mais uma gota de àgua-ardente. O

Cassoma meteu-se logo na questão, animando o sovêta contra mim, e entre

nós comêçou uma controversia que durou mais de uma hora, em que eu fiz

prova de uma prudencia e paciencia sem limites. Por fim elles concluiram

dizendo-me, que pois eu lh'a não queria dar por bem, m'a iam tirar á

fôrça.

Eu então, perdendo a paciencia, empurrei com o pé o barril, e armando o

revólver, perguntei-lhes qual era o primeiro que bebia.

Elles vaciláram um momento, mas o Cassoma disse ao sovêta: "Tu es rei,

vae, bebe primeiro." Dumbo, tirando o cobertor que o envolvia,

entregou-o ao Palanca, dizendo-lhe: "Guarda-o, para que o branco m'o não

furte," e caminhou ao barril.

Eu levantei o revólver á altura da cabêça do sovêta e fiz fogo; mas

Verissimo Gonçalves, que estava junto a mim, empurrou-me o braço e a

bala, desviando-se da pontaria, foi cravar-se na parêde.

Os três nêgros, transidos de mêdo, recuáram até á parêde, e as 5

mulhéres fizéram um berreiro horrivel.

Eu ouvi então junto á porta uma estrepitosa gargalhada que me chamou a

attenção, e devisei na sombra dois homens encostados ás carabinas, que

riam como riem prêtos. Eram os meus Augusto e Manuel, que se tinham

aproximado, ao ouvirem a discussão, e que, acompanhados dos outros 8

homens, guardavam a porta.

O Verissimo disse então ao sovêta e aos seus companheiros, que se fôssem

deitar, e não me dissessem mais nada, porque, se eu me zangasse outra

vez, elle não lhes poderia salvar a vida como ha pouco.

Elles tomáram o prudente consêlho, e retiráram-se, ficando tudo em

silencio.

Sem o empurrão que me deu o Verissimo, eu teria môrto um homem, e na

situação em que nos achàvamos, estarìamos completamente perdidos. Foi

elle que salvou tudo.

Com a excitação que me produziu a còlera, recresceu a febre, e cahi sem

fôrças nas pelles que estendidas no chão me serviam de leito.

Os meus prêtos deitáram-se atravez da porta, e disséram-me, que dormisse

descançado, que elles velariam por mim.

Havia quatro dias, que por um momento estive quasi perdido em três

occasiões differentes: 1^o com o bùfalo no Huambo, 2^o na libata do

Chacaquimbamba, e 3^o ali n'aquella noite.

Depois de um sono agitado, acordei ao som da tempestade que bramia lá

fora.

Pensei nos acontecimentos da noite e não fiquei tranquillo. ¿O que

succederia de manhã? Eu estava só com 10 homens, dentro de uma povoação

fortificada, d'onde não era facil sahir; e ainda que se me abrissem as

portas ¿onde iria eu obter carregadores, agora que me tinha indisposto

com o règulo?

Pôde bem julgar-se da anciedade com que esperei o raiar da aurora.

Ao alvorecer a febre tinha abrandado um pouco. Apromptei-me para partir,

e mandei chamar o sovêta, que appareceu logo.

Disse-lhe que ia seguir, e ali deixava as cargas sôb sua

responsabilidade, e que depois as mandaria buscar; mas elle pedio-me que

o não fizesse, que me ia dar os carregadores; e dando-me mil satisfações

do occorrido na vèspera, disse-me, que o culpado fôra o Cassoma, que

elle já tinha posto fôra de casa; o que era falso, porque eu ali o vi

depois.

[Figura 5.--Mulhér do Sambo.]

Ás 10 horas, apresentou-me os carregadores precisos. Verdadeiramente não

eram só carregadores, que no grupo devisei 6 raparigas, ainda de

manilhas nos artêlhos; tal cuidado poz elle em servir-me, que, para não

me demorar, mandando ir homens das povoações distantes, me deu os que na

sua tinha disponiveis, e ainda seis das suas escravas, para completar o

nùmero pedido. Agradeci muito e mostrei-me sensivel a tal prova de

cuidado, declarando-lhe logo, que não tinha comigo presente digno, de

offerecer-lhe, e que querendo dar-lhe uma espingarda lhe pedia mandasse

um homem da sua confiança recebel-a no Bihé, mostrando-lhe desejos de

que esse homem fôsse o secúlo Palanca seu conselheiro ìntimo. Exultei de

alegria (que me abstive de deixar transparecer) ao ver o meu pedido

satisfeito, e o Palanca nomeado para me acompanhar. O sovêta Dumbo

entregava nas minhas mãos um preciôso refem, que me responderia já pêla

minha segurança, já pêla das cargas que deixei dois dias antes entregues

ao Barros, a quem preveni e acautelei em carta deixada ao Dumbo.

Deixei a povoação ás 11 horas, á frente da estranha comitiva, formada

dos meus dez bravos de Benguella, dez salteadores do Sambo, e seis

virgens escravas do sovêta Dumbo. A chuva era torrencial; mas eu, apesar

d'isso, segui sempre, tanto me tardava de ver longe a povoação onde

passei tão horrivel noite.

Quatro horas depois, tendo andado a N.E., fui acampar junto da povoação

de Burundoa, completamente molhado e tiritando de frio e febre.

Não aceitei a hospitalidade offerecida pêlo chefe da povoação, porque,

depois do que se passou na vèspera, recordei-me de um bom consêlho que

me deu Stanley, e protestei não mais em Àfrica pernoitar em casa de

gentio.

[Figura 6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bihé.]

Viéram ao meu campo muitas raparigas vender capata, milho, fuba e

batatas magnìficas, em nada inferiores ás da Europa.

A chuva continuava mais moderada, mas persistente, e eu sentia-me muito

doente.

Junto do meu campo corria um pequeno riacho, cujas àguas iam a um

ribeiro affluente do Cubango, sam as àguas que este ùltimo rio recebe

mais de Oeste.

Durante a noite houve chuva moderada, mais forte das 4 ás 5 da manhã,

hora em que parou. Ha grande abundancia de òptimo tabaco n'este paiz,

onde me vendêram muito e baratissimo. Ali poucos prêtos fumam, mas tôdos

cheiram tabaco em pó, que preparam torrando a fogo brando o tabaco de

fumo, e reduzindo-o a pó no mesmo tubo que lhe serve de caixa, com um

pao, especie de mão-de-almofariz, que a elle anda prêso com uma correa

fina.

Parti as 7^{h.} 40^{m.} a N.E., atravessando uma região muito cultivada

e muito povoada.

Ás 8^{h.} 30^{m.} passei junto da grande povoação de Vaneno, e ás 10

parei para descançar junto da aldea de Moenacuchimba. Segui ás 10 e meia

sempre a N.E., ás 11 passei junto da povoação de Chacapombo, muito

populosa, e meia hora depois parei perto de Quiaia, a mais importante de

tôdas. O chefe d'esta aldea veio ao caminho comprimentar-me e

offerecer-me um grande porco. Dei-lhe em algodão riscado o valor do

porco, e elle retirou-se satisfeito, mandando em seguida muitas cabaças

de capata para a minha gente. Segui no mesmo rumo, e duas horas depois

fui acampar no mato pròximo da povoação do Gongo.

Esta ùltima parte da marcha d'aquelle dia foi trabalhosa, porque choveu

muito, e o vento S.O. era rijo e frio.

Pêla tarde chegou um enviado do sova grande do Sambo, cuja povoação me

ficava uns 15 kilòmetros a N.O., mandando-me pedir alguma cousa, e

dizendo-me o portador do recado, que se eu houvera passado á porta do

sova, elle me daria um bôi. Agradeci a bôa intenção, e resolvi dar-lhe

no dia seguinte alguma cousa, receoso que o enviado, se eu o despedisse

sem dar nada, influisse nos carregadores a abandonarem-me, o que seria

facil porque já o tinham querido fazer, e foi preciso tôda eloquencia do

Verissimo para os convencer a seguirem ávante.

O secúlo Capuço, chefe da povoação pròxima, mandou-me comprimentar por

três das suas mulhéres (tôdas feias), e por ellas um presente de uma

gallinha e três cabaças de capata. Mandei-lhe seis côvados de riscado e

dei algumas missangas ás mulhéres. Junto á noite viéram algumas mulhéres

vender farinha, milho e mandioca.

Usam ellas ali os mais extravagantes penteados, e a carapinha é

enfeitada com coral branco e reluz da grande profusão de oleo de ricino,

que ellas prodigalizam na sua _toilette_. Os homens do sovêta Dumbo eram

verdadeiramente insobordinados, querelavam-se com a gente de Benguella,

e durante a noite só houve tranquillidade na barraca onde dormiam as

seis virgens nêgras, as minhas gentís carregadoras.

A noite foi tormentosa de chuva e vento. Ao alvorecer o secúlo Capuço,

veio agradecer os 6 côvados de riscado que lhe dei, e em logar das três

mulhéres feias que me enviou na vèspera, trouxe-me um lindo porco e uma

gorda gallinha.

O enviado do sova veio receber o presente que lhe tinha promettido; e

que foi muito insignificante, sendo como era em trôco da intenção de me

dar um bôi, se eu passasse junto da libata d'elle.

Segui pêlas 8 horas, e ás 9 passei junto das povoações de Chacáhônha,

primeiras da raça (Ganguela) na Àfrica de Oeste.

Passei o riacho Bomba, cuja margem esquêrda segui por dois kilòmetros,

quando os carregadores pousáram as cargas, recusando seguir ávante, e

pedindo os seus pagamentos para voltarem. Eu estava a dois kilòmetros do

Cubango, e querendo passar o rio, instei com elles a que andassem mais

aquelle curto espaço, e que logo que estivesse na outra margem lhes

daria os seus pagamentos e os despediria.

Recusáram-se formalmente, dizendo, que eu tinha sido muito offendido na

sua libata, pêlo sovêta Dumbo, e por isso não iam para diante, sendo

certo que, logo que eu os tivesse na outra margem do rio, fôra do seu

paiz, me vingaria n'elles das offensas recebidas.

Fôram baldados os meus esfôrços e tudo foi eloquencia perdida.

Recusei-me a pagar-lhes se elles não passassem o Cubango; responderão-me

que se retiravam sem pagamento, e logo chamáram as seis raparigas e

ordenáram-lhes que os seguissem.

Eu estava no desespero; ali perto era a povoação do Cassoma, e eu vi ser

aquillo plano combinado de antemão para me entregarem a elle, que me

havia precedido no caminho.

As cargas abandonadas n'aquelle ponto eram cargas perdidas. Calcule-se

com que ôlhos eu vi partirem os carregadores, abandonando-me.

Olhei para as cargas e estremeci de prazer. Sentado em uma d'ellas

estava um homem alto e magro, de figura impassivel, com a longa carabina

atravessada sôbre os joêlhos.

Era o secúlo Palanca, que eu havia esquècido. Saltar sôbre elle e

derrubal-o foi obra de um momento. Mandei-o amarrar de pés e mãos, e dei

ordem a Augusto e Manuel que o enforcassem no ramo de uma acacia que se

estendia sôbre as nossas cabêças. Ao ver que a ordem ia ser cumprida,

elle, transido de mêdo, gritou-me, "Não me mates, os carregadores vam

passar o Cubango," e logo soltou um grito agudo que fêz reunir os

carregadores já dispersos.

Ordenou-lhes que pegassem nas cargas e seguissem, e elles obedecêram.

Mandei que lhe desamarrassem os pés, e prometti-lhe um tiro na cabêça á

menor excitação dos carregadores. Meia hora depois passava o Cubango

n'uma bem construida ponte, e acampava na margem esquêrda junto das

povoações de Chindonga.

[Figura 7.--Ponte de Cassanha sôbre o Rio Cubango.]

Entre o rio e o meu campo ficavam umas minas de ferro, d'onde o gentio

extrae abundante minerio.

Estava finalmente em terras de Moma, e livre dos paizes do Nano, Huambo

e Sambo, de que guardarei eterna memoria.

O Cubango corre ali a S.S.E., e tem 35 metros de largo por 2 a 4 de

fundo. Fiz observações para determinar a posição e altitude, e logo

corri á barraca, que uma trovoada vinda de N.N.E. descarregou sôbre nós

copiosa chuva.

Paguei e despedi os carregadores do Sambo, dando-lhes dois côvados de

riscado a cada um, que tal tinha sido o ajuste.

Chamei as 6 raparigas, e disse-lhes, que a ellas nada daria, porque as

mulhéres tinham obrigação de trabalhar e não mereciam paga. Ellas

retiráram-se tristes; mas achando natural o meu modo de proceder, tão

aviltada é a mulhér n'aquelles paizes.

Quando já se mettiam a caminho para voltarem ao Sambo, mandei-as chamar

e dei 4 côvados do mais brilhante zuarte pintado que possuia a cada uma,

e algums fios de missangas differentes.

É impossivel descrever o contentamento d'aquellas desgraçadas ao

receberem tão valiosa paga. Os homens roiam-se de inveja, e eu

convenci-os de que, se não tivessem querido voltar para casa na outra

margem do Cubango lhes pagaria do mesmo modo.

Foi a minha vingança, e ao mesmo tempo proveitosa lição.

[Figura 8.--O Secúlo que me deu um Porco.]

N'essa noite veio procurar-me um secúlo da povoação de Chindonga, que me

trouxe de presente um porco.

Este secúlo prometeu-me carregadores para o dia seguinte, a um côvado de

riscado por dia, dizendo-me, que elles só iriam até ao paiz de

Caquingue, onde eu facilmente obteria gente para o Bihé.

A minha febre tinha cedido a fortissimas doses de quinino; mas

completamente molhado havia três dias, eu sentia já os primeiros

symptomas do terrivel ataque de rhèumatismo que depois ia compromettendo

a minha viagem.

A noite foi tempestuosa e o dia seguinte continuou chuvoso.

O secúlo veio logo de manhã com os carregadores; mas eu tinha resolvido

descançar ali um dia, e por isso convoquei-os para o dia seguinte.

Disse-me elle, que os meus companheiros tinham passado na vèspera,

vindos do Sul.

O secúlo Palanca, do Sambo, continúa bem vigiado, mas livre. Eu na

vèspera tinha mandado dizer ao sovêta Dumbo, que a cabêça do seu amigo

me respondia pêlas cargas que vinham escoltadas pêlo prêto Barros,

resolução que Palanca achou muito justa e natural, por ser lei do paiz.

Talvez o meu procedimento, que eu confesso francamente, me seja

censurado, mas eu rogo aos censores, que pensem um pouco na posição de

algum, acompanhado só de dez homens, n'um paiz em que tudo lhe é hostil,

desde o clima até ao homem. Se eu não professo o principio de que os

fins justificam os meios, não sou tambem bastante virtuoso para

apresentar uma face á mão que me esbofeteou a outra. Longe das vistas do

mundo civilisado, fôra d'esses dois cìrculos de ferro que apertam a

humanidade culta, a que chamam o còdigo penal e as conveniencias

sociaes, cìrculos que, apesar de estreitos, deixam ainda bastante

latitude ao crime e á infamia; o explorador d'Àfrica, perdido no meio de

pôvos ignaros, cujos còdigos differem essencialmente dos nossos; tendo

por ùnica testemunha dos seus actos a Deos, por ùnico censor das suas

obras a sua consciencia, precisa ter uma fôrça sublime para se conservar

honrado e digno, quando muitas vêzes as paixões travam no seu ìntimo uma

luta infrene. Por mim o digo, que tôdas as ovações que me tem dispensado

o mundo civilisado, pêla felicidade que tive de vencer os obstàculos

materiaes no meu caminho, seriam talvez mais justamente applicadas, se

se soubesse quantas lutas, e que terriveis lutas sustentei para me

vencer a mim mesmo.

Vencer as suas paixões indòmitas, vencer os seus hàbitos materiaes e

moraes da vida civilisada, sam os dois grandes trabalhos do explorador.

Aquelle que o conseguiu, attingirá o seu fim, cumprirá a sua missão.

Eu, no principio da minha viagem, receei muito de mim mesmo.

Tive lutas ingentes, lutas terriveis, por serem surdas e ignoradas, de

que sahi sempre vencedor. O meu genio indòmito têve de ceder á vontade

inquebrantavel, e na falta de tempo para escrever um còdigo, tomei um

que accommodei ao meu uso. Os meus principios fôram os do direito

natural; a minha lei, curta mas òptima, resumiu-se nos dez preceitos do

Decàlogo.

Não se julgue que quero fazer jus á canonização, nem mesmo que pretendo

ter seguido á risca os preceitos gravados no vigèsimo capìtulo do livro

sublime do Èxodo, de certo o mais bello do Pentateuco; mas fiz o que

pude para não me afastar muito d'elles, e fiz bem.

Esta divagação fica aqui, não como narrativa de àguas passadas, mas como

consêlho a exploradores futuros, que não sejam missionarios, que a esses

Deos me defenda de falar em materia da sua competencia.

É verdade que eu encontrei alguns em Àfrica que me fizéram lembrar o

velho rifão, "Em casa de ferreiro, espeto de pao."

Passemos adiante.

Durante o dia, viéram muitas prêtas vender alimentos, e entre outras

cousas vulgares, trouxéram uma mui extraordinaria.

Era uma grande cesta cheia de lagartas, mui semelhantes ás do

_Acherontia Atropos_, e da mesma grandeza. Este gigantesco Lepidòptero

no seu primeiro estado vive nas gramìneas, e é facil ali colher grande

provisão. Os Ganguelas sam àvidos de tal manjar, que os meus prêtos

recusáram.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro · 第 7 / 22 段