O sova mandou-me logo um porco pequeno, e não tendo eu podido comprar

gallinhas, mandou-me uma. À tarde veio á minha barraca, e depois de

larga conversa, disse-me, que, ainda que os seus antepassados fôram

sempre avassallados a El-Rei de Portugal, elle não o era; porque as

muitas arbitrariedades commettidas pêlos chefes contra elle e os seus,

tinham quebrado os compromissos antigos; que o _Mueneputo_ ja lhe não

fazia justiça, e narrou-me muitos dos acontecimentos em que baseava as

suas accusações aos chefes, falando com modo muito atilado.

O chefe estava presente á entrevista, e não podia responder ás

accusações dirigidas aos seus antecessores, tão claramente eram ellas

formuladas.

Este velho era homem de tino, e falou-me na polìtica dos Portuguezes em

Caconda com um juizo difficil de encontrar em prêto boçal.

Procurei desfazer a má impressão que o soba tinha dos chefes de Caconda,

mas creio que nada alcancei n'esse sentido. Mais uma vêz tive occasião

de apreciar o mao resultado dos minguados estipendios que se conferem

aos chefes dos consêlhos do interior; causa primordial da decadencia do

nosso poderio e influencia ali.

O sova de Quipembe é muito idoso, e soffre de gota, que lhe embaraça o

caminhar.

A sua libata é vasta, bem fortificada e muito bem situada. Desde a minha

chegada muitas dezenas de prêtos e prêtas pequenos olhavam pasmados para

mim, fugindo em debandada ao menor movimento que eu fazia. Tentei

fazer-lhes perder o mêdo que manifestavam, dando-lhes alguns guisos e

bagos de coral; mas só mui receosos se chegavam a mim, fugindo logo que

recebiam o presente.

Fôram objecto de grande admiração, os meus òculos e o meu cobertor, em

que se desenhava um enorme leão em fundo vermelho.

No dia 9 deixei a libata, seguindo a N.E.; passei logo o ribeiro

Utapaira, e uma hora depois alcançava o Cuce, affluente do Quando. Este

rio tem ali 3 metros de largo por 2 de fundo, dando difficil passagem,

por serem as suas margens escarpadas e lodoso o fundo.

A margem direita é montanha suave e pouco elevada, e a esquêrda campina

de 1 kilòmetro de largo. Passei ao sul da libata de Banja,

magnificamente situada no tôpo de um outeiro, e depois de atravessar

três ribeiros, o Canata e Chitando, que vam ao Cuce, e o Atuco ao

Quando, alcancei este ùltimo rio, um dos grandes affluentes do Cunene.

O Quando corre ao Sul, com uma largura de 20 metros por dois a três de

fundo.

No sitio de Pessange, em que acampei, desapparece o rio por baixo de

massas enormes de granito, para reapparecer um kilòmetro a jusante.

Este ponto offerece uma das mais bellas paisagens que tenho visto. As

margens do rio, um poco elevadas, sam cobertas de luxuriante vegetação,

onde as palmeiras elegantes se destacam do verde-negro dos gigantescos

espinheiros. Os rochêdos denegridos sobressaem aqui e àlém por entre os

tufos de mato, mostrando os cabêços puïdos do bater das tempestades.

Nuvens de passarinhos chilram nas árvores e innùmeras rôlas esvoaçam

sôbre os espinheiros. De quando em quando ouve-se o resfolgar dos

hippopòtamos nos pegos do rio.

É a belleza selvagem em tôda a sua força, mas a par d'ella ha ali alguma

cousa de horrivel, que sam venenosissimas serpentes que a cada passo se

arrastam junto de nós.

Matei algumas, que me certificáram os prêtos serem de mortal peçonha.

Apparecéram alguns Hyrax, e eu, internando-me no mato virgem da margem

esquêrda, em sua busca, deparei com as ruinas de uma muralha de pedra,

que pêla extensão parecem ter sido muro de povoação antiga. Foi este o

primeiro dia na minha viagem em que de noite tive por tecto o ceo

estrellado, mas por isso não foi menos profundo o meu sono. Ao alvorecer

matámos, entre a minha cama e a do tenente Aguiar, uma cobra venenosa.

Seguímos a N.E., e para àlém da povoação de Pessange, encontrámos a de

Canjongo, governada por um secúlo, que nos offereceu capata e vendeu

algumas gallinhas a trôco de panno de algodão ordinario, e depois de

passarmos o rio Droma, affluente do Calae, que corre a S.E., descançámos

algumas horas na margem esquêrda, e caminhando depois a N.N.E.,

chegámos, ás 5 horas da tarde, á libata grande de Quingolo.

O sova deu-me hospitalidade, e mandou logo comida para a minha gente.

Sabendo o motivo da minha viagem, disse-me, que se a elle tivessemos

recorrido com tempo, nos teria arranjado os carregadores, mas que os

chefes de Caconda não faziam caso d'elle, e faziam mal n'isso; que ainda

assim, me ia dar 40 carregadores que enviaria a Caconda, e fôsse eu ver

se obtinha os outros ao Huambo.

Fui atacado de uma ligeira febre. No dia 11, logo de manhã, o sova veio

visitar-me e confirmou o seu offerecimento de 40 homens, que me disse

partiriam no seguinte dia para Caconda.

Quiz fazer algumas compras de vìveres, mas nada me quiséram vender;

sabendo isto o sova Caimbo, enviou-me um grande porco. Eu fiz-lhe um

presente de 3 peças de riscado e duas garrafas de àgua-ardente.

O chefe Aguiar decidio voltar a Caconda, no que me deu um verdadeiro

prazer.

Ao meio dia apparecéram os chefes dos carregadores que partiam, para

receberem os pagamentos.

Esta libata grande de Quingolo é situada sôbre um outeiro granìtico que

domina uma enorme planicie.

Por entre as rochas crecéram sycòmoros enormes, que lhe dam uma frescura

constante. Estas rochas combinadas com as palissadas formam uma temivel

fortificação, rodeada de um fosso meio obstruido. No tôpo do outeiro

dois rochêdos enormes de elevadas proporções formam uma especie de

mirante, d'onde se goza um dos mais sorprendentes panoramas que tenho

visto.

Semelhante ao golpe de vista da cruz alta do Bussaco, se a mata, em vez

de limitada na estreita cinta de muralhas, se estendesse dos cabos

Carvoeiro ao Mondego até á beira-mar, apenas interrompida aqui e àlém

por verdejantes clareiras, o paiz que se avista do alto de Quingolo é

talvez, mais vasto e grandioso, sendo limitado em tôrno por um perfil

azulado de longínquas montanhas que de distantes mal se avistam.

No dia 12, ainda que me recresceu a febre, decidi partir, e tendo feito

as mais cordiaes despedidas ao sova e ao chefe Aguiar, segui ás 8h.

30m., acompanhado de 3 guias que me deu o sova Caimbo, com quem fiquei

nos melhores termos de amizade. Logo á saida passei o ribeiro Luvubo,

que corre ao Calae, e pêlas 10 horas alcancei a libata do secúlo

Palanca, onde pedi agasalho, por me ser impossivel caminhar com febre

que recrescia a cada momento.

Apesar do meu estado de saude, fiz observações astronòmicas, para

determinar a minha posição; e falo n'isso, por ser este o primeiro

d'essa sèrie de pontos que eu devia determinar através d'Àfrica.

Foi a povoação de Palanca o primeiro ponto determinado por mim, n'essa

linha que marca o meu caminho do mar Atlàntico ao Indico.

Tres gramas de quinino que tomei durante a apyrexia produzíram-me

ràpidas melhoras que me permitíram seguir no dia immediato.

Eu viajava acavallo em um possante bôi, e tinha um outro de reserva,

bôis muito bem domesticados e que offereciam bôa commodidade ao andar,

podendo obter d'elles um aturado trote e mesmo um galope curto.

Segui perto das 8 horas e passei logo o rio Dôro, a que chamam das

mulhéres, onde foi muito difficil a passagem dos bôis, por ser de fundo

lodoso.

O calor era intenso, e eu comecei a sentir-me mais doente, pêlo que

resolvi deitar-me a descançar um pouco.

Não haviam arvores no sitio, e ao sol ardente sôbre uma terra ardente

adormeci. Foi curto o meu sono, e ao despertar, senti que estava fresco

e tinha sombra. Eram os meus prêtos que, de motu proprio estavam em

tôrno de mim segurando um panno para desviar do meu côrpo as ardencias

de um sol a prumo. Tocou-me tal prova de cuidado. Segui ávante e passei

um riacho--o Dôro, a que chamam dos homens, que se une ao primeiro e

corre depois ao Calae, não sei se com o mesmo nome. Duas horas depois

encontrava o rio Guandoassiva, que tem 5 metros de largo por 1 metro de

fundo, em cuja margem descancei. É affluente do Calae e abunda em peixe

miudo, que muito ali pescámos. Eu sentia-me bastante doente. Á febre que

tinha reapparecido unia-se uma extrema fraqueza, pois que, havia dois

dias, apenas tinha tomado alguns caldos de gallinha.

Aproveitei o descanço para mandar fazer um caldo de frango, que não

levou sal, por se me ter acabado a pequena provisão trazida de Caconda.

Depois de duas horas de repouso, seguímos sempre a N.E., e meia hora

depois passàvamos o rio Cuena, que tem ali 6 metros de largo por 1,5 de

fundo, e corre ao Calae.

Este rio corre entre as vertentes suaves de montanhas mui pouco

elevadas, mas cavou um leito fundo, cujas escarpas verticaes de 2

metros, tornáram difficil a passagem dos bois.

Trabalhámos ali duas horas. Duas horas depois, já ao cahir da noite,

alcancei a libata do Capôco, o poderoso filho do sova do Huambo.

O Capôco recebeu-me muito bem, deu-me a sua propria casa para habitar,

offereceu-me logo um grande porco, e sabendo-me doente mandou-me duas

gallinhas.

Falei-lhe em carregadores, que elle me prometeu arranjar.

Fiz-lhe um presente de duas peças de riscado e duas garrafas de

àgua-ardente. Pouco depois, um grande rancho de virgens, que se conhêcem

pelas muitas manilhas de verga de pao, que lhe sobem dos artelhos,

trouxeram em cestas abundante comida aos meus prêtos. Depois de tomar

alturas da lua, deitei-me, feliz, apesar de doente, por ver coroada de

èxito a minha excursão.

No dia seguinte deveriam chegar ali os meus companheiros, e com elles,

não só a amizade e a companhia dos meus conterraneos, mas ainda os

recursos que já me faltavam completamente.

Adormeci sorrindo. ¡Quam longe estava eu de pensar que adormecia na

vèspera de uma agonia, immensa agonia que devia durar por 20 dias!

No dia 14 fui a casa do pai do Capôco, o sova das terras do Huambo. A

libata d'este sova, que se chama Bilombo, dista 3 kilòmetros da do

filho, e está assente na margem esquêrda do rio Calae.

Bilombo esperava-me. Rodeado do seu pôvo, trajava soberbamente uma

casaca escarlate, cobrindo-lhe a cabêça uma barretina de caçadores.

Entreguei-lhe o meu presente, que consistia em 3 peças de riscado

ordinario e duas garrafas de àgua-ardente, a que se mostrou muito grato.

Ficou muito sorprendido vendo a minha carabina Winchester, e pedio-me

para eu atirar com ella, ficando admiradissimo de me ver metter algumas

balas n'um pequeno alvo a 200 metros, e muito mais quando lhe quebrei um

ôvo a 50 metros.

Este sova governava em tudo o paiz do Huambo: mas está hôje reduzido a

dominar apenas em parte d'elle. A sua historia é curta, mas vulgar. Elle

era casado com a filha do sova do Bihé, que entretinha relações amorosas

com um dos seus secúlos.

Tremiam os criminosos da còlera do rei se viesse a saber a sua falta.

Houve rompimento entre Bilombo e um règulo vizinho, e a guerra foi

declarada. Bilombo tomou o commando do seu exèrcito e partio, ficando a

governar na sua ausencia o amante da sua mulhér. Conspiráram ambos e

Capussocússo fêz-se acclamar sova. Retirou-se Bilombo para esta parte do

paiz banhada pêlo Calae, onde o pôvo se lhe conservou fiel, e á epocha

da minha passagem, me disse, estar preparando uma terrivel vingança á

adùltera e ao seu amante o traidor Capussocússo.

De volta a casa do Capôco, despedi os três guias, que me acompanháram

desde Quingôlo, e por elles escrevi a Capello e Ivens, dizendo-lhes, que

os esperava, e que não abandonassem as cargas, por ser o paiz pouco

seguro.

Fui de tarde dar um passeio ás margens do Calae, e sorprendeu-me a

quantidade de caça que encontrei, que nunca tanta tinha visto, mas nada

matei por não ir prevenido para isso.

O sova Bilombo mandou-me um presente de farinha de milho e um grande

bôi, presente mui valioso, por ser escaço o gado bovino n'aquelle paiz.

Os carregadores estavam preparando os mantimentos para seguirem no dia

immediato para Caconda, e eu escrevia aos meus companheiros, quando

chegáram três portadores do sova de Quingôlo, com cartas d'elles, e uma

cesta contendo sal e um pequeno saco de arroz.

Abri pressuroso as cartas; eram ellas duas officiaes e uma particular,

assignadas por Capello e Ivens. Diziam-me, que tinham resolvido seguir

sós, e que pêlos 40 carregadores enviados por mim de Quingôlo, me

mandavam 40 cargas, acompanhadas pêlo guia Barros, para eu as conduzir

ao Bihé.

Só o pouco ou nenhum conhecimento do sertão Africano, que então tinham

os meus companheiros, podia desculpar um tal proceder. Eu achava-me n'um

paiz hostil, e se até ali tinha sido respeitado, fôra só porque o gentio

me julgava a vanguarda de uma grande comitiva capitaneada por elles, e o

receio das represalias tinha até então sostido a rapacidade dos

indìgenas. Eu estava no paiz onde Silva Porto, o velho sertanejo, que

percorrera impunemente os mais longinquos sertões Africanos, tivera de

sustentar cruento combate com um gentio àvido de rapina.

¿Que seria de mim logo que se soubesse que tôda a minha força consistia

em 10 homens? Encarei a minha posição e achei-a um pouco séria. Capello

e Ivens tinham sido enganados por alguem, que a sua lealdade não lhes

consentiria de certo o deixarem-me em tal posição, se elles conhêcessem

bem essa posição.

¿Que fazer? Em três dias podia alcançar Caconda, e voltar d'ali a

Benguella. Tinha, por outro lado, diante de mim uma jornada de vinte

dias ao Bihé, jornada em que teria de arriscar cada dia e a cada hora a

vida e as bagagens. ¿Que fazer?

A noite de 17 de Fevereiro foi passada em uma agitação febril

indescriptivel.

¿Devia seguir ávante? ¿Tinha o direito de arriscar as vidas dos dez

homens que me cercavam, e que dormiam tranquillos junto de mim? ¿Teria o

direito de arriscar a minha propria vida em imprudente passo? ¿Deveria

voltar a Benguella?

¿Quem comprehenderia na Europa o obstàculo quasi insuperavel que me

fazia recuar? Ninguem, a não ser um ou outro explorador infeliz como eu.

¡Que noite horrivel! e a febre a desvairar-me a mente, e o cuidado a

augmentar-me a febre. A aurora do dia 18 encontrou-me de pé, e havia

momentos que uma phrase estava gravada no meu pensamento e eu repetia

machinalmente aquella phrase.

_Audaces fortuna juvat_. Era a velha sentença dos fortes Romanos, era a

lei que dicta as acções dos aventureiros.

Decidi seguir ávante, eu que não tinha ido a Àfrica para só visitar o

paiz do Nano, que, digamos a verdade, não deixa de ser muito

interessante, sôbre tudo para nós os Portuguezes.

Descrevi aos meus 10 homens a nossa posição precaria e a resolução

tomada de caminhar para o Bihé; elles protestáram-me a sua dedicação e a

intenção de sempre me acompanharem.

D'esses dez homens 3, Verissimo Gonçalves, Augusto e Camutombo estivéram

em Lisboa depois de terem atravessado comigo a Àfrica; 4 seguíram do

Bihé Capello e Ivens, por minha ordem; 1, o prêto Cossusso, enlouqueceu,

junto ao Quanza, e foi por mim entregue ao aviado de Silva Porto,

Domingos Chacahanga, para d'elle ter cuidado; e os dois restantes,

Manuel e Catraio grande, cahiram aos meus pes varados pêlas azagaias

Luinas, e cumprindo a sua promessa formulada rudemente n'este dia,

morréram defendendo-me, quando eu mesmo defendia a bandeira das Quinas.

Ao tempo em que vai a minha narrativa, eu mal os conhêcia, e não tivera

até então logar de experimentar o seu valor.

Eu estava em casa do Capôco, que até então me tinha dispensado os

maiores favores; mas Capôco era o cèlebre salteador do Nano, que chegara

a ir atacar Quillengues, um anno antes. ¿O que faria elle, logo que

conhêcesse a minha fraqueza?

D'elle dependia o èxito da minha empresa. Capôco é homem de vinte e

quatro annos, sympàthico e de maneiras agradaveis. Muitas vêzes me dizia

Verissimo Gonçalves, que lhe parecia impossivel ser elle o homem cujo

nome era tão temido, e que tão longe dirigia as suas correrias de

devastação e morte. Entre as suas escravas conhêceu Verissimo algumas

raparigas roubadas em Quillengues, no ataque do anno anterior. Uma

mesmo, com quem falei, era filha de um dos sovas de Quillengues, e

Capôco pedia por ella grande resgate.

Capôco é intelligente, parco no comer e beber, e ainda que possue grande

nùmero de escravas, as que formam o seu harem sam mui poucas.

Ha no seu fundo alguma cousa de justo por entre a barbaria do seu viver

e dos seus principios. Por exemplo: eu vi que a escrava, a que acima me

referi, filha do sova de Quillengues, trazia nos artelhos as manilhas de

pao, signal infallivel de virgindade, a pesar de ser muito bonita e

elegante. Admirou-me isso, e perguntei ao Capôco ¿porque não havia feito

d'ella sua amante? "Porque não dêvo," me respondeu elle, "é minha

escrava pêlo direito da guerra, mas em quanto seu pai manifestar o

intento de a resgatar, dêvo respeital-a e será respeitada, porque a dêvo

entregar como a tomei."

Um dia Capôco disse-me, que, estando Benguella d'aquelle lado (apontava

para o oeste), o sol passava primeiro pêlo Huambo antes de ir a

Benguella. Disse-lhe eu ser isso verdade, e elle quiz saber quanto tempo

depois de nascer ali, nascia elle em Lisboa. Procurei fazer-lhe

comprehender, que hora e meia; dizendo-lhe o tempo que um homem leva a

percorrer tal caminho, elle mostrou-se admirado; porque julgava, me

disse, ser o nosso paiz muito mais longe.

Os costumes entre os pôvos do Nano e do Huambo sam os mesmos que entre

os Quillengues, assim como falam a mesma lingua. Trabalham o ferro, de

que fazem setas, azagaias e machadinhas; mas não enxadas, que v[~e]m do

norte.

Como já incidentalmente notei, as raparigas, em quanto virgens, usam nos

artelhos de ambas as pernas ou só na esquêrda, umas manilhas de verga de

pao, e é grande crime para a familia, conservar as manilhas áquellas que

já não t[~e]m direito de as usar.

Uma cousa curiosa nos costumes d'estes pôvos, é haver em tôdas as

povoações uma especie de kiosques para conversação.

[Figura 4.--Homem e Mulhér do Huambo.]

Sam como uma cubata, mas os prumos que sustentam o tecto de côlmo, sam

bastante separados. No meio arde a fogueira, socia constante do gentio

Africano, e em tôrno tomam assento os habitantes da povoação em toros de

pao. É o sitio da palestra, sôbre tudo quando chove; ali narram-se

episodios de guerra ou de caça, fala-se tambem de amor, e muito menos de

vidas alheias do que na Europa.

No paiz do Huambo comêça na costa de oeste o grande luxo nos penteados,

tanto em homens como em mulhéres, e tenho visto alguns que difficilmente

seriam executados pelos melhores cabelleireiros da Europa.

Ha penteados que levam dois e três dias a fazer, e que se conservam por

muitos mezes.

Os penteados das mulhéres sam profusamente enfeitados com umas contas de

vidro que no commercio em Benguella tem o nome de coral branco ou

encarnado, e é este gènero muito procurado no paiz. Eu infelizmente não

levava nenhum.

A pòlvora, armas e o sal de cozinha sam ali gèneros de grande valia.

Nada d'isso eu tinha, em quantidade de que podesse dispensar, o que

tornava mais embaraçosa a minha posição.

Fui falar ao Capôco e expuz-lhe que os meus companheiros tinham seguido

por Gallangue, e que só viriam 50 cargas, não precisando eu por isso

mais de 40 homens e esses só para irem d'ali ao Bihé.

Despedímos por isso os 80 carregadores que a essa hora já estavam

reunidos, e que se retiráram muito descontentes. Capôco prometeu-me que

teria os 40 de que precisava até ao Bihé. N'esse dia chegou o prêto

Barros com as 40 cargas, e trouxe-me nôva carta dos meus companheiros,

confirmando o que diziam as primeiras.

Por elle sube que elles tinham saïdo de Caconda para o Bihé;

acompanhados pêlo ex-chefe, Alferes Castro, e pêlo degradado Domingos,

que me tinham mostrado a impossibilidade de obter gente em Caconda, e

que a obtivéram no dia em que eu sahi d'aquelle ponto.

A elles, talvez, devia eu a crìtica posição em que me achava, porque os

meus companheiros, pouco conhêcedores d'Àfrica, e nada d'aquelle paiz,

não podiam julgar das difficuldades que me creavam, ao passo que

aquelles dois senhores, de sobra as conheciam. Não os accuso de um

crime, mas culpo-os de uma leviandade.

Não lhes quero mal, porque a ningem quero mal, e um mez depois de se

passarem os successos que estou narrando; espantado ainda dos perigos a

que tinha conseguido escapar; prostrado no leito, onde me tinha prendido

com garras de ferro a doença, proveniente de 20 dias de cruel agonia, a

que elles déram causa; vi-os entrar, famintos e sem recursos, na casa de

Silva Porto, que eu occupava no Bihé; e esquècendo tudo o mal que me

haviam feito; e não me lembrando de que um estava privado dos direitos

de cidadão por uma sentença infamante; reparti com elles o pouco de

vìveres que eu tinha, dando-lhes os meios de voltarem com relativa

commodidade a Caconda. É que eu vi n'elles, não só dois brancos, dois

Portuguezes, perdidos no já longinquo sertão do Bihé, mas vi mais os

homens que me fizéram ter de mim uma opinião de que me sentia orgulhoso,

os homens que em 20 dias de agonia que me déram, em mil perigos a que me

lançáram, com que me fizéram lutar e que eu venci, me retemperáram a

alma para commettimentos maiores. A elles devia a confiança que tinha em

Deos e em mim mesmo; e repartindo com elles o pouco que tinha, julgava

pagar uma dìvida de gratidão, onde outros, succumbindo ao soffrimento,

só veriam, talvez, um motivo de vingança.

Não antecipemos factos.

Capôco veio dizer-me, que no dia seguinte teria os 40 homens que queria,

mas só até ao Sambo, porque elles se recusavam a ir mais àlém; por

estarem despeitados pêla despedida dos 80 que se haviam reunido para ir

a Caconda e ao Bihé, e que eu tinha dispensado. Àlém d'isso, elles

exigiam um pagamento muito superior; porque eu os havia contratado por

10 pannos de Caconda ao Bihé, e estes exigiam só do Huambo ao Sambo 8

pannos. Acertei tudo, para poder partir.

No dia seguinte de manhã, reuníram-se os 40 homens; mas de repente

surgio uma nôva difficuldade. Quando em Caconda fomos enganados pêlo

Bandeira, o Ivens tinha tirado a tôdos os fardos sortidos o algodão

branco; porque os prêtos que esperàvamos do Bandeira não queriam

pagamento em outro gènero. Esquèceu esta circunstancia, e eu, levando

dois fardos sortidos, não levava nem uma só peça de algodão branco. A

gente do Capôco declarou-me logo, que não queriam receber senão algodão

branco, e não pegariam nas cargas se eu lho não désse.

Recusáram-se a receber o riscado, e já se iam, quando appareceu o

Capôco, e não sem custo os decidio a receberem metade em riscado, metade

em zuarte.

Havia grande descontentamento entre elles quando ás 10 horas os fiz

seguir acompanhados pêlo guia Barros. Eu devia partir dentro de uma

hora; mas fui atacado de tão violento accesso de febre, que tive de

deitar-me.

Desde a vèspera chovia torrencialmente, e sôbre tudo a noite foi

tempestuosa.

A febre comêçou a declinar ás 4 horas da tarde, e a chuva cessou. Pêlas

5 horas, precisei sahir da libata e fui a um mato pròximo, os meus

passos eram vacilantes e apoiava-me pesadamente no meu bordão.

Precavido sempre, disse ao meu prêto pequeno Pépéca, que me acompanhasse

e trouxesse uma das minhas carabinas.

Ia a entrar no mato, quando a vinte passos de mim surge um enorme bùfalo

a olhar desvairado, resfolgando estrondosamente.

Tomei das mãos do pequeno a espingarda, e qual não é o meu desespêro,

vendo que, em logar de carabina, elle tinha trazido uma simples arma de

caça, carregada de chumbo! Senti-me perdido e vi a morte inevitavel,

terrivel caminhando para mim n'aquella fera, que mugia surdamente.

Lembrei-me de Deos, de minha mulhér e de minha filha. A fera avançava

aos saltos, n'esse irregular galope que elles tomam para o ataque. A 8

passos de mim, disparei-lhe o primeiro tiro de chumbo, elle parou meio

segundo, para seguir logo. Ao dispararar-lhe o outro tiro não havia mais

distancia entre a bôca da espingarda e a cabêça do bùfalo do que alguns

decìmetros. Atirei e fiz um enorme salto para o lado. O bùfalo seguio

sempre, passando a tomar uma carreira vertiginosa, e desappareceu no

mato. O meu Pépéca ria a bandeiras despregadas, e inconsciente do

perigo, batia as palmas gritando, "O bôi fugio, o bôi fugio, têve mêdo

de nós."

Voltei a casa do Capôco; e passei a noite mais socegado. Quiz escrever,

e para isso improvisei uma luz de manteiga de porco em uma velha caixa

de sardinhas de Nantes.

Era a 21 de Fevereiro de manhã. Despedi-me do Capôco, e febril ainda,

segui caminho do Sambo. Antes de chegar ao Calae, recebi un bilhete. Era

elle do guia Barros, dizendo-me, que na vèspera á noite, os carregadores

tinham fugido tôdos, deixando as cargas na libata do secúlo Quimbungo,

irmão do sova Bilombo.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro · 第 6 / 22 段