repente entra-se em zonas onde milhares de passarinhos fazem uma chiada
enorme. Caça vi ali pouca, mas os rastos anunciam havel-a.
Na noite do seguinte dia aconteceu-nos uma aventura curiosa. Estàvamos
acampados junto do ribeiro Quicúe, que corre a S.E., em leito granìtico,
e vai, provavelmente, engrossar o Cúe; quando sentímos a cadella do
Capello ladrando e arremettendo furiosa, contra alguma cousa que se
aproximava da barraca. Ao mesmo tempo sentìamos um forte ruminar perto
de nós; o que nos fez suppor, que os jumentos se tinham soltado e
pastavam dentro do campo, que era cercado de abatises espinhosas.
Falámos á cadella e adormecémos. Ao alvorescer ouvímos grande rumor no
campo, e saindo logo, soubémos, que os prêtos, que ao principio tinham
julgado, como nós, que os burros andavam á sôlta, percebêram depois que
se enganavam, e que um animal estranho se tinha introduzido no campo.
Fôra effectiva menta um bùfalo enorme que nos dera a honra da sua
companhia durante a noite.
O caso era notavel e de explicação difficil, a não serem os repetidos
rugidos dos leões que se tinham ouvido; fazendo com que o bùfalo viesse
buscar guarida entre nós.
No seguinte dia fomos acampar pròximo da povoação de Ngóla, e eu fiz
logo annunciar a minha visita ao Sova.
Depois do almôço, fui á libata procural-o.
Fiz-me acompanhar dos meus muleques, levando uma cadeira para mim, e
dois guardasóes.
O Sova appareceu-me logo, armado de dois cacetes e uma azagaia.
Trajava tanga comprida de panno da costa, e sôbre ella uma pelle de
leopardo. Tinha o peito nú pendendo-lhe do pescôço um sem-nùmero de
amuletos. Recebeu-me fôra da sua barraca, por um sol abrasador; e eu
offereci-lhe um guardasol, que levava para isso, de panninho encarnado;
favor a que elle se mostrou muito grato.
Disse-lhe o que andava por ali a fazer, cousa que elle não percebeu
muito bem; comprehendendo com-tudo perfeitamente, que lhe offerecia um
pequeno barril de pòlvora, 50 pederneiras e uma duzia de guizos de
latão, sem nada lhe pedir em troca--o que sôbre modo o espantou.
Convidei-o a vir ao nosso campo ver os meus companheiros; e elle accedeu
a isso acompanhando-me; coisa muito de notar, que os chefes indìgenas
sam desconfiados.
Dizendo-lhe, que mandasse uma vasilha em que eu lhe podesse dar
àgua-ardente, foi elle buscar uma botija de litro. Mostrei-me admirado
de que um chefe quizesse tão pouco, e convidei-o a procurar vasilha
maior. Mandou então buscar uma cabaça que levaria o duplo da botija, e
eu pedi-lhe que juntasse outra igual.
O Règulo não podia dissimular a sua admiração pêla minha generosidade.
Partímos a pé, acompanhados por três das mulhéres, as filhas, e muito
pôvo, tôdos sem armas, para me mostrarem a confiança que eu lhes havia
inspirado.
Chegámos ao campo quando Capello fazia observações meteorològicas, e o
Sova ficou admirado diante dos thermòmetros e dos baròmetros.
O Ivens veio logo para junto de nós, e depois de grandes comprimentos,
mostrámos ao Règulo as armas de Snider e de Winchester, que lhe causáram
verdadeiro assombro.
Este _Chimbarandongo_, que tal é o nome do sova de Ngóla, é
intelligente, e sabe viver com o seu pôvo.
Offereceu-nos um boi, e tendo eu pedido licença para o matar, por haver
necessidade de provisões, consentio n'isso, pedindo-me para lhe atirar
eu.
O boi estava estranho, e fugio para o mato, a uns oitenta metros de nós.
Indiquei ao Sova o sitio em que o ia ferir, e disparei. O boi cahio.
Chimbarandongo foi ver o animal, e attentando na ferida, da qual corria
o sangue, aberta entre os olhos, no sitio que eu indicava, ficou tão
maravilhado, que me deu repetidos abraços no meio do seu enthusiasmo.
Pêlas 4 horas, formou-se sôbre nós tempestade violenta, que se desfez em
raios e copiosa chuva, durando até ás 6 horas.
O Sova e as mulhéres recolhéram-se á nossa barraca, assim como alguns
dos macotas.
Chimbarandongo fez um discurso aos seus macotas, tendente a provar-lhes,
que nós tìnhamos trazido a chuva, e com ella um grande beneficio ao
paiz, ressequido pêlos calores do estío.
Tentámos explicar-lhe, que não tìnhamos tão grandes poderes, e que só
Deus governava nos grandes phenòmenos da natureza; levando o Ivens a
questão a ponto de lhe explicar como e porque chovía. Ouvindo isto, fez
o Sova sair os seus macotas e mais pôvo que escutava a lição
meteorològica.
Depois d'isso, tendo-se de novo reunido o pôvo, elle disse, que se
deixasse de chover, indagaria qual dos seus sùbditos tirara a chuva, e o
castigaria de morte. Nôvo discurso da nossa parte contra a pena capital;
e nôva ordem de despejo da parte d'elle, que, a pesar do meio
embriagado, tinha tino bastante para não comprehender que as nossas
theorías não quadravam ao seu systema governativo.
Ao anoitecer retirou-se do modo o mais còmico, indo acavallo em um dos
seus conselheiros, que levava as mãos nos hombros de outro; e como
estivessem tôdos embriagados, a cada passo perdiam o equilibrio,
ameaçando com a queda partir a cabêça ao seu soberano.
Este règulo é sensato e homem de bom juizo. Não acredita em feitiços;
nem acreditava que nós lhe tivessemos trazido a chuva; mas convem-lhe
apparentar que o crê, para não perder o prestigio entre os seus, que só
assim querem ser governados.
No seguinte dia, vindo elle despedir-se de nós, me disse, que a sua
polìtica era ser amigo dos brancos; pois que das bôas relações com elles
provinha a roupa com que se cobria, e as armas e a pòlvora com que
continha em respeito os seus inimigos.
"Sem os brancos," me disse elle, "nós somos mais pobres que os animaes;
porque a elles temos de tirar as pelles para nos cobrirmos; e sam bem
loucos os prêtos que não cultivam a amizade dos filhos do Puto."
A libata ou povoação de Ngóla é fortemente defendida por uma dupla
palissada feita com arte, que tem até uma das faces dentada para
cruzamento de fogos. É tão vasta que pôde conter tôda a povoação do
paiz, que ali se recolhe, em caso de guerra, com seus rebanhos. O
ribeiro Cutóta corre dentro d'ella, fazendo que possa resistir a longo
assedio sem receiar a sêde.
Deixando Ngóla, caminhámos por duas horas a N.E., e encontrámos o Cúe, o
maior dos rios, que corre entre Quillengues e Caconda. No sitio em que
tentámos a passagem tinha elle 15 metros de largo por 3 a 4 de fundo,
não dando por isso vao. A chuva torrencial da vèspera, augmentando-lhe o
volume d'àgua, tinha tornado impetuosa a corrente.
Uma ponte de finos troncos de arbustos, offerecia uma perigosa difficil
passagem aos homens carregados; mas os bôis e os jumentos só a nado
podiam passar. Depois de grande trabalho, os bôis nadáram para a outra
margem; os burros porem recusáram seguil-os.
Só a grande custo conseguio o prêto Barros, ajudado de mais dois,
fazel-os nadar, nadando ao seu lado, e obrigando-os a tomar pé na outra
margem; o que era perigoso, que ali abundam crocodilos.
Depois de uma hora de trabalho, avançámos para E.N.E., encontrando o
ribeiro Usserem, d'ali marquei, a N.N.O., o monte Uba, onde assentam as
povoações de Caluqueime. Passámos depois o rio Cacurocáe, que corre a
S.S.E. ao Cúe; e meia hora depois o rio Quissengo, que corre a S.E., e
vai affluir ao Cúe; acampando na margem d'este ùltimo, pêlas 4 horas da
tarde, junto da povoação de Catonga, onde tem a sua libata um tal Roque
Teixeira.
A marcha foi de 30 kilòmetros, o que muito nos fatigou.
O caminho foi sempre por planicie, onde a altitude varía apenas entre
1450 e 1500 metros.
A vegetação arbòrea apresenta um certo rachitismo; mas a herbàcea
continúa a ser variada e rica.
No dia 6, seguímos sempre a N.E., passando logo o Cúe, em ponte feita
pêlo gentío. Este ribeiro tem 5 metros de largo, por 1 de fundo, e corre
a S.E. ao Catápi. Alcançámos o Coúngi ou Catápi, ás 11 e meia, e
acampámos na sua margem esquêrda. O Coúnge, que a montante toma o nome
de Catápi, tinha ali 10 metros de largo por um de fundo, com violenta
corrente, e dirigindo-se a S.E. vai lançar-se no Cunene pròximo do
Lucéque.
N'esse dia matei uma grande gazella (_Cervicapra bohor_), a maior do
gènero que vi em tôda a minha viagem, tão grande que fôram precisos 4
homens para a transportar ao campo.
Ao fechar da noite, a cadella ladrou muito, arremettendo com o mato;
verificando nós ser contra as hyenas que nos rondavam as barracas, e por
noite fôra tivémos mùsica, em um duêto de baixo e contra-baixo, pela voz
clara de um leão, na mata, e pêla ronquenha de um hippopòtamo, no rio.
O aspecto do paiz continúa o mesmo. Nas lombadas matas rachìticas, de
uma vegetação que mais se pôde chamar arborescente do que arbòrea, pêla
maior parte. Leguminosas, nas depressões; vastas clareiras, verdadeiros
prados de gramìneas diversas, por entre as quaes serpea um ribeiro ou um
rio. O terreno continúa granìtico, apresentando as rochas aspectos
variados; mas sendo pouco abundantes em mica.
Continuámos caminho ao N.E., passando junto da libata de Cuassequera,
fortificada entre enormes rochêdos granìticos, e rodeada de gigantescos
sycòmoros, produzindo um aspecto muito pintoresco. Depois de passar o
ribeiro Lossóla, que corre ao S. para o Catapi, fomos acampar na margem
do Nondumba, riacho que, como o antecedente, afflue ao Catápi, mas
correndo ao N.
O planalto já é mais elevado, e caminhàvamos então n'uma altitude de
1600 metros.
D'esse ponto seguímos a Caconda, tendo atravessado três ribeiros, que
correm a N.N.O. ao Catapi, e sam, por sua ordem, o Chitequi, o Jamba, e
o Upanga; encontrando em seguida o Catapi, que corre a O.S.O., e que já
no dia 6 tìnhamos atravessado com o nome de Coúnge.
No ponto em que o passámos tem 10 metros de largo por 1 de fundo, e
pequena corrente.
Algumas das clareiras que n'esse dia atravessámos eram cobertas de
junco, pantanosas e de difficil accesso.
A passagem do rio levou tempo, e os meus companheiros precedêram-me na
chegada a Caconda.
Alcancei depois d'elles a fortaleza, e fui recebido á porta pêlo chefe
interino, mulato e rico proprietario do consêlho, sargento da guerra
prêta; o qual me disse, que o chefe tinha ido para Benguella,
deixando-lhe a _espiga_ de nos receber (textuaes palavras).
Depois de me ter dito esta amabilidade, o S^{nr.} Matheus convidou-me a
entrar na fortaleza. Logo que passei o recinto das fortificações, vi
entre os meus companheiros um homem de estatura mais que mediana,
aspecto macilento, testa ampla e elevada, olhar pouco fixo, trajando
casaca e gravata branca, que o Capello me apresentou, dizendo-me, "Aqui
tem José d'Anchieta." Estava diante de mim o primeiro explorador
zoologista d'Àfrica, esse homem que tinha passado 11 annos nos sertões
d'Angola, Benguella, e Mossàmedes, enchendo as vitrinas do museu de
Lisboa com valiosissimos exemplares. Tive depois occasião de presenciar
o seu viver, que é digno de ser descrito.
Anchieta estava estabelecido nas ruinas de uma igreja, a 200 metros da
fortaleza.
A casa no interior era em forma de T, e tôda cercada de estantes, onde
haviam, de mistura, livros, instrumentos mathemàticos, màchinas
photogràphicas, telescopios, microscopios, retortas, pàssaros de mil
côres, vidros variados, louça, pão, frascos cheios de lìquidos
multicolores, estojos de cirurgia, montes de plantas, medicamentos,
cartuxeiras, roupa, etc. A um canto, um feixe de espingardas e carabinas
de differentes systemas. Junto á casa, um cercado, aprisionando umas
vacas e uns porcos. Á porta algumas prêtas e prêtos esfolando pàssaros e
preparando mamìferos; e d'entro, a uma grande mesa, Anchieta, sentado em
velha poltrona, que attesta longos serviços.
Sôbre a mesa é impossivel dizer o que ha.
Pinças, escalpellos e microscopios ha muitos.
De um lado, um monte de bocados de pàssaros mostra que elle acabou de se
entregar ao estudo da anatomia comparada. Em frente d'elle, uma flôr
cuidadosamente dissecada, attesta que elle acaba de ler na disposição
das suas pètalas, no nùmero de seus estames, na forma do seu
receptàculo, no arranjo das sementes, no pistilo, os nomes da familia,
do gènero e da especie em que a dêve collocar.
De escalpello na mão e microscopio no ôlho, passa elle as horas que pôde
tirar ao trabalho de colleccionador, e é já a planta, já a ave, o ponto
de mira do seu estudo.
A momentos, é interrompido por um doente que chega, a quem elle dispensa
os cuidados de mèdico, e ao mesmo tempo os remedios da cura, quando lhe
não dá tambem a gallinha da dieta.
Anchieta professa um respeito sem limites ao Doutor Bocage, director do
Museu Zoològico de Lisboa, e fala d'elle com essa respeitosa amizade que
é difficil encontrar onde não existem estreitos laços do mesmo sangue.
Isso comprehende-se. Anchieta, que tem a consciencia dos serviços que
tem prestado ás sciencias zoològicas, conhêce que tem no D^{or.} Bocage
o homem que lhe faz justiça, e sabe aquilatar esses serviços; o homem
que completa na Europa o trabalho que elle começa em Àfrica; o homem,
emfim, que sabe quantas fadigas, quantas febres, quantos incòmmodos
custáram cada um d'esses exemplares, que descreve, descrevendo com elles
nôvas especies.
José d'Anchieta é um d'esses nomes que merece o respeito dos homens de
sciencia, e o respeito dos Portuguezes seus compatriotas; porque,
trabalhador infatigavel, tem sabido honrar o seu paiz, conservando-se
elle mesmo honrado e pobre, no meio do vicio e da desmoralização que
lavra nas terras em que vive, e de que poderia tirar proveito se fôsse
menos escrupuloso.
Basta de falar d'elle, que não ha elogios que lhe não caibam; falando
mais alto do que eu as suas obras, e o seu nome, ligado para sempre aos
seus trabalhos, que não morrem.
Soubémos que o Chefe Castro tinha sido exonerado do commando, e fôra
nomeado outro official do exèrcito de Àfrica para o substituir.
Dois dias depois da nossa chegada, chegáram tambem a Caconda o nôvo
chefe e o Alferes Castro, e por elles a nossa correspondencia da Europa,
que lemos com avidez.
Falei logo em carregadores, e o Alferes Castro promptificou-se a
acompanhar-me a casa de José Duarte Bandeira, o primeiro potentado de
Caconda, onde me disse que se arranjariam, pêla grande influencia de que
dispunha o tal Bandeira.
Partímos para Vicéte no dia 13 de manhã, e n'esse mesmo dia o Ivens
seguio para casa de Matheus, a fazer um reconhecimento ao Cunene, no
logar da sua confluencia com o Quando. Eu tambem devia ir fazer uma
visita ao mesmo rio para o sul.
O Capello ficou em Caconda atacado por uma ligeira febre, e entregue aos
cuidados de Anchieta. Seguí a S.S.E., passando logo os rios
Secula-Binza, Catapi, e Ussongue, que afflue a leste, correndo a O.N.O.,
com 3 metros de largo por 1 de fundo, dando-lhe por isso grande
contribuição d'àgua.
Depois de caminhar a S.E. umas 26 milhas, chêguei pêla noite a Vicéte,
libata fortificada entre rochas, no cume de um outeiro que domina vasta
planicie.
Fui recebido por José Duarte Bandeira, que, depois de bôa ceia, me
proporcionou òptima cama, de que bem precisava.
Logo na manhã seguinte, o Alferes Castro falou nos carregadores, e
Bandeira prontamente se offereceu para obter 120, que tantos nos eram
precisos para seguirmos ao Bihé.
Mostrei o desejo de ir ao Cunene, e ficou decidido que partìssemos no
seguinte dia.
Caminhámos nove milhas a Leste, e encontrámos o rio no Porto do Fende.
Logo á chegada, matei um grande hippopòtamo, que têve a imprudencia de
vir resfolgar a meio rio ao alcance da minha carabina. Passei ali dois
dias. O rio tem ahi 100 metros de largo por 6 a 7 de fundo, com uma
corrente de 1 milha por hora. O seu eixo no Fende é N.O. a S.E. por
espaço de 2 milhas, sendo a montante de N.E. a S.O., e ainda acima E.O.
a jusante inclina-se para S.S.O. por 26 milhas, até ao Luceque. Por
vêzes toma uma largura de 200 metros e mais.
Abundam n'elle hippopòtamos e crocodilos.
1 milha a jusante do Porto do Fende, ha uns ràpidos a que chamam Da
Libata Grande; meia milha abaixo, outros, as Mupas de Canhacuto; e 10
milhas mais a jusante, as cataractas de Quiverequete, ùltimas que tem no
seu curso superior; sendo depois navegavel até ao Humbe.
A margem direita é, nos pontos em que a visitei, montanhosa e coberta de
mato virgem; á esquêrda, vasta planicie, de 4 a 5 kilòmetros de largo,
que encosta ao sopé dos montes, que formam um pouco elevado systema,
correndo N.S.; em cujas vertentes oeste assentam as povoações do Fende.
Pêlas 11 horas da noite do dia 15, formou-se sobre nós uma tormenta, que
despedio innùmeras faïscas e copiosa chuva, deixando-nos completamente
molhados.
A 17 voltámos para Caconda, com a promessa de termos os carregadores
dentro de 8 dias; tendo de mandar, logo no dia seguinte, um barril de
àgua-ardente para a _convocação_. Nesta parte de Àfrica, a àgua-ardente
desempenha para com os homens o mesmo papél, que na Europa o azeite para
com as màchinas. Sem ella não se movem.
O nosso hospedeiro, que bem nos regalou em sua casa, esquèceu-se de que
tìnhamos a gastar o dia em jornada; e saindo nós ao alvorecer, só á
noite alcançarìamos Caconda. Partímos com o alforje vazio, e pêlo
meio-dia já o appetite degenerava em fome.
Parámos n'uma clareira, e eu disse ao Alferes Castro, que ia ver se
matava caça para comer; mas apenas avistei uma codorniz, que nos servio
a ambos de almôço e jantar, cozinhada n'uma marmita de soldado. Confesso
que já tenho almoçado e jantado melhor do que n'esse dia.
Os meus prêtos, vendo a minha avidez em roer os ossos da codorniz, que a
cadella de balde devorou com os ôlhos, fazendo-me mil negaças com a
cauda, déram-me uma raiz de mandioca, que partilhei com o Alferes.
Chêguei, á noite, a Caconda, e depois de uma bôa ceia, dei fé que Ivens
ainda não tinha chegado, e que Capello já estava bom.
O Ivens chegou a 19, e n'esse dia mandámos o tal barril de àgua-ardente
ao Bandeira, pedindo-lhe a maior urgencia na convocação dos
carregadores.
No dia 23, chegáram de Benguella uns artigos que tinham sido
requisitados; e para mim um presente de 6 latas de biscoito, que me
offerecia Antonio Ferreira Marques.
N'esse dia despachei outro portador a Vicéte, pedindo ao Bandeira os
carregadores, que já se demoravam.
Não appareciam os homens promettidos, e eu pedi ao chefe para que fôsse
a Vicéte, e usando da sua influencia como autoridade, visse se dava
pressa ao Bandeira em nos mandar a gente precisa.
O chefe partio, e escreveu-me logo, dizendo já estarem promptos 61
homens, e em breve haver os mais. Levara elle logo fazenda para os
pagamentos, que ali só querem algodão branco, mas disse serem precisas
mais 50 peças, que nós não tìnhamos, mas que o Bandeira ficou de
emprestar.
No dia seguinte, nôva carta do chefe, dizendo, que os carregadores iam
ser pagos e viriam logo; dois dias depois, terceira carta, dizendo, já
lá ter 94 homens; e finalmente, no dia 5 de Fevereiro, outra carta,
dizendo, que não havia nem um carregador, e que nenhum se arranjaria.
Imagine-se o nosso desapontamento.
Eu a esse tempo ainda não tinha formulado e arraigado no meu espìrito um
principio, que mais tarde me sugerio a experiencia, e que entrou depois,
de parelhas com a carabina d'El-Rei, no feliz resultado da minha viagem.
O principio formulado e depois profundamente arraigado no meu espìrito,
traduzio-se n'esta sentença:--
"Desconfiar, no sertão d'Àfrica, de tudo e de tôdos, até que provas
repetidas e irrefutaveis nos permittam confiar um pouco em alguma cousa
ou alguem."
Ora, para mim, essas provas sam tão difficeis de se apreciarem, como o
sam as de um amor eterno, ou as da sòlida fortuna do commerciante,
embrulhado em transacções de vulto.
Creio que, ao tomarmos conhecimento da carta do chefe, cada um de nós
propoz alvitre qual d'elles mais disparatado.
O desapontamento era grande. Socegados os espìritos, decidímos ir eu
procurar os carregadores fôsse onde fôsse, e se longe ou perto os não
podesse encontrar, seguirmos para o Bihé, e mandarmos d'ali buscar as
cargas. Julgàvamos isso possivel.
O chefe voltou de Vicéte, e não me deu explicação plausivel do facto.
Acordámos em ir eu ao Huambo, a ver se do Soba d'ali obtinha
carregadores; porque, não só o Alferes Castro, como o chefe, e Anchieta
mesmo, nos mostravam a impossibilidade de os ajustar mais perto.
Pouco antes, Anchieta tinha encontrado grandes embaraços para fazer uma
remessa de productos zoològicos para Benguella, o que era relativamente
mais facil.
O que nos estava acontecendo é digno de notar-se.
Não só Bandeira, mas um tal Mathias, o sargento Matheus e outros, enviam
grandes caravanas a sertões longìnquos; ¡e todos elles não podéram obter
um só carregador para nós!
Eu começava de antever um propòsito firme de nos embaraçarem o passo, e
mal cuidava então que esse propòsito fôsse tão longe como infelizmente
tive occasião de experimentar depois.
O correr d'esta narrativa mostrará, quam habilmente me fôram levantados
obstàculos, que só uma decidida protecção de Deos me fez vencer.
Deixemos este assumpto por enquanto, e antes que continúe com a narração
das minhas aventuras, que começam aqui a tomar um caracter mais
extraordinario, cabe-me dizer duas palavras a respeito de Caconda.
A fortaleza de Caconda, o ponto mais interior onde hôje no districto de
Benguella tremula a bandeira Portugueza, é um quadrado de 100 metros,
cercado de um profundo fosso e de um parapeito, onde aqui e àlém se
pôdem ver as linhas distinctas de uma fortificação passageira,
construida outrora com arte. Uma palissada forma segunda fortificação no
interior, resguardando umas casas arruinadas, que fôram habitação do
chefe, quartèis e paiol.
Algumas bôas peças de bronze, montadas a barbete, deixam ver por sôbre o
plano de tiro, deformado pêlo tempo, as suas bôcas verde-negras e
oxidadas.
A 200 metros ao Sul da fortaleza, as ruinas de uma igreja.
Ao norte, uma reunião de pequenas cubatas, morada dos soldados.
O paiz é agradavel, e sem ser, como se pertende, isento de febres, é
certo que ellas ali sam mais benignas do que em outros pontos. A
povoação é pouquissima, e tem-se retirado muito da fortaleza.
O solo é ubèrrimo, e muitas plantas Europêas facilmente se aclimam ali,
produzindo espantosamente. No trigo, feijão e batata vi eu isso, em
pequenissimas plantações.
O ribeiro Secula-Binza é uma fonte de àgua cristallina correndo em leito
de granito.
Junto da fortaleza ha poucas àrvores; que as necessidades dos habitantes
t[~e]m despovoado as matas que dêvem ter existido outrora, como ainda
hôje existem mais longe.
O commercio é pouco, e esse mesmo é feito muito longe no interior.
A mesma pégada de decadencia que se nos revela em Quillengues, é ainda
mais patente aqui.
A importancia de Caconda é igual, senão superior, á de Quillengues; mas
tem menos segurança ainda para o commercio; que o caminho de Benguella é
infestado de salteadores.
CAPÌTULO V.
VINTE DIAS DE AGONIA.
Parto de Caconda--O sova Quipembe--Quingolo e o sova Cáimbo--40
carregadores--Febre--O Huambo, o sova Bilombo e seu filho
Capôco--80 carregadores--Cartas e noticias--Quasi perdido!--Sigo
avante--Grave questão no Chaca Quimbamba--Os rios Caláe,
Canhungamua e Cunene--Nôva e séria questão no Sambo--O
Cubango--Chuvas e temporaes--Grave doença--Uma aventura horrivel--O
Bihé finalmente!
Parti de Caconda a 8 de Fevereiro de 1878, levando em minha companhia 10
homens de Benguella, o meu muleque Pepeca, Verissimo Gonçalves, de quem
já falei, e o chefe de Caconda, o Tenente Aguiar, que quiz por fôrça
acompanhar-me n'esta expedição, que tinha por ùnico fim o arranjar
carregadores; querendo mostrar assim a sua bôa vontade em nos auxiliar,
e que era estranho aos acontecimentos de Caconda.
Cumpre-me dizer, que eu nunca duvidei da sinceridade do Tenente Aguiar;
porque a esse tempo não tinha ainda arreigado no meu espìrito o
principio que formulei no capìtulo anterior, e hôje mesmo creio que elle
foi enganado como eu, apesar da sua muita experiencia dos sertões
avassallados.
Depois de uma jornada de 17 kilòmetros a N.E., alcançei a libata de
Quipembe, onde fui recebido pelo sova Quimbundo, que me deu
hospitalidade. Passei um pequeno ribeiro o Carungolo, junto a Caconda; e
depois o Catapi, que ali corre a S.O.