mesmo nas maiores estiagens, àgua se encontra cavando poços; o que
acontece em tudo o valle do Dombe, onde não é preciso profundar mais de
3 metros para a obter. Junto das montanhas de Oeste na parte em que o
valle se estende N. S., ha uma lagôa, de 50 metros de largo por 1
kilòmetro de extenção, e da forma de S. Esta lagôa é curiosa, porque não
é formada por depòsitos pluviaes, mas sim alimentada por uma forte
nascente subterranea, por nunca alterar o seu nivel, e produzir
infiltrações, que, um kilòmetro abaixo, vam formar nascentes, que sam
aproveitadas na rega de uma propriedade. Dizem que tem peixe bagre,
tainha e muitos crocodilos.
Tenho-a visitado muitas vêzes, e nunca vi ali crocodilos ou peixe; mas é
certo que os ha, porque m'o afiançou o meu hospedeiro, dizendo-me mesmo,
que sam muito vorazes; e que, tendo sido, em 1876, a sua propriedade
atacada por um bando de salteadores de Quilengues, estes, rechaçados
pêlos seus prêtos, tentáram na fuga atravessar a nado a lagôa, não
logrando um só atingir á outra margem, porque tôdos fôram prêsa dos
vorazes amphibios.
Nas montanhas de oeste junto á lagôa, montanhas formadas de carbonato
calcàreo e algum sulfato de cal, existem algumas grutas, uma das quaes
nos afiançou o nosso hospedeiro, nunca ter sido visitada, ser enorme, e
parecer, tanto quanto por fóra se podia observar, que contém extensas
galerias.
Fomos visital-a, eu, Capello, e o nosso hospedeiro Reis, e verificámos
não ter ella merecimento.
É um salão pròximamente circular, de 14 metros de diàmetro, architectado
pêla natureza na immensa mole de calcàreo, que forma a montanha. Parece
ser guarida habitual de feras, que o dá a entender o ar saturado do
fedôr almiscarado de certos animaes, bem como as traças de leão
impressas no pó impalpavel que cobre o chão, onde encontrámos alguns
espinhos do Hystrix Africano.
No valle do Dombe ha algumas feitorias agrìcolas importantes, sendo as
principaes a do Loache, a de Paula Barboza, e a do nosso hospedeiro
Santos Reis. Esta ùltima conta apenas três annos de existencia, e produz
cana de açucar de que extrahe para cima de 40 mil litros de
àgua-ardente; e note-se, que o terreno era antes mato, e foi desbravado
ha só três annos. É uma feitoria que começa, tudo ali está ainda em
construcção; mas pêlo resultado já obtido se pôde aquilatar a riqueza do
solo ali.
Tudo o valle é cultivado de mandioca, pêlos indìgenas, e tão fertil é,
que depois de três annos de falta de chuva, não tem deixado de ter
producção regular, exportando cerca de 70 mil decalitros de farinha por
anno. É o celeiro de Benguella. Os indìgenas ali não permutam as
fazendas, mas sim vendem a dinheiro, cujo valor já conhêcem.
[Figura 2.--Mulhéres e Donzellas, Mundombes. (De uma photo. de
Monteiro.)]
A demora que ali tivémos foi prejudicialissima á ordem, e disciplina da
minha gente.
Tôdos os dias apresentavam nôvas exigencias, tôdos os dias levantavam
querellas entre si; e eu não podia ser demasiado severo, de receio que
me desertassem tôdos.
Vendéram os pannos para comprar àgua-ardente, e chegáram a vender as
rações de comida para se embriagarem.
Os soldados eram os peiores. Os sobas não mandáram gente, e eu
principiei a ver a repetição das scenas de Benguella. Não podìamos
seguir.
[Figura 3.--Homens Mundombes. (De uma photo. de Monteiro.)]
No dia 1 de Dezembro, chegáram ao Dombe 30 homens mandados de
Quillengues pêlo chefe militar, a buscar bagagem sua; mas eu lancei mão
d'elles, e decidi com os meus companheiros partirmos no dia 4.
Tinha havido mais três deserções, dois homens de Nôvo Redondo e um de
Benguella.
Os nossos burros eram muito manhosos, e não havia ensinal-os; todavia
resolvêmos conserval-os.
CAPÌTULO III.
HISTORIA DE UM CARNEIRO.
Nove dias no deserto--Falta de àgua--O ex-chefe de Quillengues--Eu
perco-me nas brenhas--Dois tiros a tempo--Perde-se um muleque e uma
prêta--Perde-se um burro--Quillengues em fim--Morte do carneiro.
A 4 de Dezembro deixei o Dombe, pêlas 8 horas da manhã, e segui para
Quillengues. O Capello e o Ivens ficáram ainda, para enviar algumas
cargas; deviam ir encontrar-me á noite. Foi consêlho dos guias, que não
tomàssemos o caminho das caravanas, mas sim um atalho conhêcido d'elles,
para evitarmos as passagens do Rio Coporolo, que já então levava muita
àgua; dando difficeis vaos, e que aquelle caminho corta em diversos
pontos.
Depois de duas horas de jornada na planicie, chegámos ao sopé da serra
da Cangemba, que borda por leste o valle do Dombe. Descançámos um pouco,
e ás 11 horas, emprehendémos o subir da serra pêlo leito de uma
torrente, então sêco. Foi difficil trabalho. Os homens iam muito
carregados; porque, àlém das cargas da expedição, do peso de 30
kilogrammas, levavam para si rações para nove dias, em farinha de
mandioca e peixe sêco. A differença de nivel era de 500 metros apenas;
mas o leito da torrente, formado de rochas calcàreas, offerecia
obstàculos enormes ao caminhar por elle. Em muitos pontos, era preciso
com as mãos ajudar o côrpo na subida, e o passar ali os seis jumentos,
deu grande canceira. Tìnhamos comprado no Dombe dois carneiros, para
matar em caminho; um dos quaes facilmente seguiu a comitiva, mas o outro
deu trabalho, porque se recusava a andar, e a sua teimosía em volver ao
Dombe era constante. Fôram três horas de fadigosa marcha; que tanto
gastámos para transpor um espaço que não passava de mil metros, e isto
por um sol abrasador, deixou-nos extenuados de fadiga. Acampámos logo
junto a um poço cavado no leito arenoso de um ribeiro que ia sêco;
ribeiro a que os Mundombes chamam Cabindondo. O logar era àrido, e
apenas vegetavam aqui e àlém alguns espinheiros brancos, rachìticos e
ressequidos pêlo sol, que n'esta època do anno queima. O nosso horizonte
era formado pêlas cumiadas das montanhas que correm norte-sul.
Pêla tarde chegáram Capello e Ivens, e fomos logo comer; que eu estava
ainda em jejum. No dia 5 de manhã, seguímos a S.E., e depois de 4 horas
de marcha, em que vencémos um espaço de 20 kilòmetros, assentámos campo
em um logar que os guias chamáram Taramanjamba; valle extenso, cercado
de cêrros pouco altos. A altitude é de 600 metros; mostrando que apenas
estàvamos elevados 100 metros acima do nosso campo de hontem.
A vegetação continúa pobre, e a falta de àgua é grande.
Para beber e cozinhar, apenas obtivémos pouca, de depòsitos fluviaes nas
cavidades das rochas; depòsitos que fôram logo esgotados pêla nossa
sedenta caravana, sendo que á noite já se fazia sentir a sêde.
Durante a marcha, se os jumentos continuáram a ser incòmmodos, não o foi
menos o carneiro, que era bravissimo, e mais teimoso que os burros.
Decidi matal-o, e tendo combinado isso com os meus companheiros, dei as
ordens n'esse sentido aos muleques, e fui dar um passeio aos arredores.
De volta ao campo, vi que os muleques não tinham comprehendido a minha
ordem, e em logar de matarem o carneiro bravo, haviam morto o manso.
No dia seguinte partímos de madrugada, e depois de cinco horas de
marcha, acampámos no logar chamado Tine, onde nos afiançáram os guias
haver àgua.
Contra o que eu esperava, o carneiro, não só deixou de ser teimoso, mas
poz-se a seguir-me, fazendo-me constante companhia, já em marcha já no
campo.
A marcha n'esse dia foi difficil; porque, não só a sêde abrasava a
gente, mas ainda por uma hora andámos no leito sêco do rio Canga,
pedregoso e desnivelado, o que nos fatigou muito.
O terreno é já granìtico, e a vegetação arborescente luxuriante.
Àgua, como na vèspera, foi da chuva, recolhida nas cavidades das rochas;
mas era melhor ao paladar e mais lìmpida á vista.
Tìnhamos alguns homens com feridas nos pés, que só chegavam tarde ao
campo, porque se lhes difficultava o andar; e ainda outros que, por
fracos, se atrazavam, e por preguiça muitos.
N'esse dia, entre os retardatarios figuravam os carregadores do rancho;
fazendo isso que só tarde comêssemos. O Capello, de si pouco
communicativo, não se queixava dos incòmmodos que soffria; mas Ivens,
loquaz e de gènio alegre, não se calava e nos fazia rir a cada passo,
com os seus ditos engraçados. O appetite era já grande, quando chegáram
os carregadores, e elle não desfitava os olhos de uma perna de carneiro
que um muleque volteava junto da fogueira em espeto de pao, e de repente
disse: "Se meu pai podesse ver como eu olho para aquella carne até
chorava."
Desde o Dombe apenas tìnhamos comido uma vêz no dia, e assim, a nossa
gente; com a differença, porem, que elles comiam sem interrupção desde o
acampar até dormir: o que me fazia receiar, que as rações distribuidas
para nove dias, depressa fossem gastas, e em seguida viesse a fome, em
paiz onde era impossivel obter vìveres.
Avançámos 25 kilòmetros no dia seguinte, a E.S.E., e fomos acampar em
uma floresta chamada a Chalussinga; sendo o piso d'esse dia
relativamente melhor, sempre por terrenos granìticos, e por entre
vegetação mais vigorosa que até ali.
N'essa floresta encontrámos os primeiros baobabs que desde a costa temos
visto. Àgua continuava a ser escassa, e sempre de depòsitos pluviaes.
Pêlas três horas d'esse dia, fomos avisados de que uma caravana se
dirigia ao nosso campo, vindo do interior; e saindo logo ao seu
encontro, soubémos ser o ex-chefe de Quillengues, Capitão Roza, que ia
doente para Benguella.
Convidámol-o á nossa barraca, onde jantou; partindo em seguida, depois
de se prover de medicamentos, que gostosamente lhe offerecêmos. Logo que
elle partiu, fui avisado pêlos muleques, de que em torno do campo se
viam traças frescas de caça; e sahi a ver se a encontrava. Segui um
rasto de grandes antìlopes, e tão longe me levou elle, que veio a noite,
e com ella as trevas, sem que podesse atinar com caminho para o campo.
Uma montanha elevada projectava o seu vulto sombrio contra um ceo
nebuloso, onde nem uma estrella brilhava. Tive idéa de subir a ella,
para do cume, vendo o clarão dos fôgos do meu campo, dirigir ali meus
passos; idéa que executei com bom resultado, porque effectivamente
enxerguei ao longe um clarão que tratei de alcançar, tendo marcado pêla
bùssola a sua direcção. Não se imagina o que seja caminhar em noite
escura por entre as sárças de uma floresta virgem, e quanto tempo se
leva a transpor um curto espaço; deixando aqui e àlém farrapos da roupa,
senão tiras da pelle.
Chêguei por fim, já guiado pelo vozear do gentio; mas ¡qual não foi a
minha decepção, vendo, que pêlo meu tinha tomado o campo do Capitão
Roza, que devia estar a 6 kilòmetros longe d'elle! Porem, como um
caminho ligava os dois campos, porque uma caravana que passa deixa
trilho, endireitei n'elle, e depois de uma hora de jornada, já ouvia o
som das businas que os meus tocavam, e dos tiros que disparavam, para
guiar meus passos.
Foi extenuado de fadiga e molestado dos espinhos, que chêguei á minha
tenda, onde Capello e Ivens não estavam livres de cuidados.
Ali tive uma noticia inquietadora, mas que não foi sorpresa.
Já se sentia falta de vìveres, e sôbre tudo os soldados já tinham em 5
dias comido a ração de 9.
No seguinte dia forçámos a marcha um pouco mais, e percorrémos em 6
horas 30 kilòmetros a E.S.E.
O caminho era bom, marchando no trilho da caravana do Capitão Roza. Nas
florestas que atravessámos continuáram apparecendo baobabs gigantescos.
Depois de passarmos o rio Calucúla, acampámos na sua margem direita.
O rio leva pouca àgua, mas esta é lìmpida e bôa.
Continuàvamos a comer só uma vêz ao dia, e a hora da refeição variava
entre a 1 e 3, conforme ás marchas. Era preciso poupar os vìveres.
Ressentido da fadiga da vèspera não sahi a caçar n'esse dia, e fiquei na
barraca.
O Ivens foi desenhar, como costumava; e o Capello apanhar insectos e
réptiz.
Os soldados termináram as rações, e começáram a queixar-se de fome,
falando em matar o carneiro. Eu tinha-me afeiçoado ao animal, que de
bravo que era se tinha tornado manso e meigo, acompanhando-me nas
marchas e não me abandonando um momento. Opuz-me a que fôsse morto, e o
Ivens deu aos soldados um pouco de arroz do nosso.
A 9, levantámos campo, ás 5 horas, e sustentámos a marcha até á uma;
hora a que acampámos nas faldas da serra da Tama. Das 8 ás 9 horas
seguímos ao sul, na margem esquêrda do rio Chicúli Diengui, que vai ao
N., provavelmente ao Coporolo. A vegetação é cada vêz mais luxuriante, e
n'esse dia o nosso caminhar foi por entre floresta espêssa.
Logo que se estabeleceu o campo, renováram-se as representações dos
soldados famintos, e com ellas a idéa de matar o carneiro. O Ivens deu
nôva ração de arroz aos soldados, e isto, ainda que contemporizava, não
era uma positiva salvação para o pobre animal.
Ainda que extremamente fatigado, resolvi ir caçar, para salvar a vida do
meu carneiro.
Durante uma hora percorri a floresta sem resultado, e já voltava ao
campo, quando avistei, n'uma pequena clareira, duas gazellas que
pastavam.
Aproximei-me, mas a mais de cem metros fui presentido. O macho saltou
para sôbre uma rocha, e d'ali comêçou a espiar a floresta com a sua
vista experimentada; em quanto a fêmea, de orelha á escuta, investigava
os arredores.
Era grande a distancia, mas não hesitei, e atirei ao macho, que vi cair
fulminado para àlém do rochêdo. A fêmea, ouvindo o estampido do tiro,
saltou ligeira sôbre o penhasco e su disparei-lhe o meu segundo tiro,
vendo-a em seguida pular, em salto elegante, e desapparecer no mato.
O meu muleque correu logo a buscar o antìlope môrto, mas eu vi que, em
logar de parar junto do rochêdo, seguiu sempre; eu dirigi-me para ali
com o coração palpitante, porque suppuz que me tinha enganado julgando
ver cair o primeiro antìlope. Torneei a rocha, e tive um grande
alvorôço. O lindo animal (_Cervicapra bohor_) estava estendido sem vida.
Mal tinha tido tempo de o contemplar, quando do mato sahio o muleque
curvado ao peso de grande carga.
Era o segundo antìlope, que elle tinha levantado môrto, a poucos passos
na floresta. Ambos tinham sido feridos no peito, mas ao passo que o
macho cahiu sem vida, a fêmea pôde effeituar uma pequena carreira.
Estava salvo o carneiro, e como em dois dias devìamos chegar a
Quillengues, e ali terìamos recursos, estava salvo para sempre.
No seguinte dia, depois de marcha de 35 kilòmetros, e de termos passado
a vao os rios Umpuro, Cumbambi e Comooluena, fomos acampar na margem
direita do Vambo--que tôdos correm ao N., a unir as suas àguas (quando
as t[~e]m), ao Coporolo, que aqui já se chama Calunga, nome que conserva
até á sua nascente.
Na jornada d'esse dia começámos a encontrar gramìneas enormes, nas
clareiras do mato. Tão grandes, que era impossivel ver nada com ellas, e
difficil o caminhar. Durante a marcha desappareceu um meu muleque
pequeno, e uma prêta, mulhér do muleque Catraio do Capello; e ainda que
despachei gente a buscal-os, não fôram encontrados.
A escaçez dos mantimentos era grande, e não eram já só os soldados a
queixarem-se de fome, tôdos faziam representações, e não attendiam
razão. Tivémos de seguir.
No dia 11, depois de passarmos dois riachos que as chuvas tornam
caudalosos, o Quitaqui e o Massonge, fomos acampar na margem direita do
rio Tui, muito pròximo de Quillengues. Dos muleques perdidos não havia
noticia, e faltava desde a vèspera um jumento, que não appareceu. Em
quanto se estabelecia o campo, eu segui para a fortaleza de Quillengues
á busca de vìveres, com que voltei ás 8 da noite. Estava decididamente
salvo o meu carneiro.
N'essa noite apparecêram o muleque e a prêta perdidos, e isso deu-me um
verdadeiro prazer; porque, fôrçados a marchar, pela fome, não tìnhamos
podido demorar-nos a procural-os.
O logar onde acampámos era baixo e pantanoso, fôra de recursos, é
isolado; e por isso resolvémos ir acampar na libata do chefe de
Quillengues, onde entrámos no dia 12, pelas 11 horas.
Paguei e despedi os carregadores do Dombe e Quillengues contratados até
ali; e pedi-ao chefe, o Tenente Roza, para me obter outros até Caconda;
o que elle me certificou ser facil, dizendo-me logo, que sabia como os
rios entre aquelle ponto e Caconda iam cheios, e por isso não davam
passagem; o que nos impedia de partir immediatamente.
N'esse dia já comémos bem, e tivémos duas comidas, almôço e jantar.
Alguns dias depois, appareceu o jumento que se tinha perdido no mato,
trazido por um indìgena, que o tinha encontrado. Gratifiquei bem o
prêto, para o encorajar a ser honesto; pois que nunca julguei ver mais o
pobre animal, que, se escapasse das feras, não escaparia á ladroagem dos
naturaes, pensava eu.
Quillengues é um valle regado pêlo Calunga (rio que eu supponho ser o
curso superior do Coporolo), valle fertilissimo, e coberto de povoações
indìgenas.
O estabelecimento Portuguez occupa uma àrea de 45,500 metros quadrados;
por ser um rectàngulo de 250 metros por 182. Este rectàngulo, cercado de
palissada, tem quatro baluartes de alvenaria, a um meio de cada face; e
dentro uns abarracamentos, que sam morada do chefe militar, e quartéis
dos soldados.
Algums baobabs e figueiras sycòmoros crescem ali, assombrando com seus
ramos gigantescos um terreno coberto de gramìneas indìgenas, onde pastam
os rebanhos do chefe.
Se a importància de Quillengues é grande como ponto productivo, e
facilmente colonisavel, não o é menos como posição estratègica; pois que
pôde ser considerado uma das chaves do sertão interior, com respeito a
Benguella.
Os sobetas do paiz reconhêcem a autoridade Portugueza; mas, de natureza
salteadores, atacam sem cessar outros pôvos indìgenas, para lhes
furtarem o gado.
Sam mais pastores do que lavradores, mas, ainda assim, cultivam a terra,
que de ubèrrima suppre o pouco trato; produzindo milho, massambala, e
mandioca, em quantidade grande.
As suas habitações sam cubatas circulares, de 3 a 4 metros de diàmetro,
construidas de grossos troncos de madeira, revestidas de barro. A porta
é bastante alta, para dar entrada a um homem sem curvar-se.
Os Quillengues sam de estatura elevada, e robustos, atrevidos e
guerreiros. Sam pouco industriosos, e apenas fabricam o ferro, fazendo
azagaias, ferros de frechas, e machados, já de guerra, já de cortar
madeira.
As enxadas não as forjam, e sam por elles compradas no Dombe, ou em
Benguella.
Os seus curraes sam, como as povoações, cercados de forte palissada;
sendo esta revestida exteriormente de abatises espinhosos, para evitar o
assalto nocturno de feras.
Os campos de mandioca sam igualmente cercados de espinheiros; porque ali
abundam corças pequenas (_Cephalophus mergens_), que das folhas sam
àvidas, e causam damno grande ás plantações.
A àgua-ardente é gènero muito estimado pêlos Quillengues, e sam elles
tão dados á embriaguez, que, durante três mezes no anno, tanto quanto
dura o fruto do gongo, fazem d'elle uma bebida fermentada, com que estam
continuamente embriagados; não sendo possivel obter d'elles o menor
serviço.
Quando um homem quer casar-se, envia ao pai da escolhida um presente,
que dêve ser pêlo menos de 4 metros de panno da costa, e duas garrafas
de àgua-ardente; e logo com o portador vem a noiva e seus parentes
comer, em grande bròdio, um boi, que dêve offerecer-lhes o noivo. O
adulterio é coisa de grande estimação para os maridos; sendo que por lei
fazem pagar ao amante multa, que se traduz em gado e àgua-ardente.
A mulhér que não tem commettido algum adulterio é mal vista do marido,
que não augmenta o seu haver por esse meio.
Logo que alguma commette a falta, vai ao marido queixar-se de que foi
seduzida, e entre elles faz prova a accusação da mulhér.
Entre o pôvo, os cadàveres sam enterrados em logar escolhido, e
conduzidos á cova n'uma pelle de boi, cobertos de panno de algodão
branco. Os dias de nôjo, sam dias de grande festa em casa do finado. Os
sobetas t[~e]m sepultura reservada, e sam ali conduzidos dentro de uma
pelle de boi preparada em ôdre, depois de lhe vestirem as melhores
roupas.
Nas festas d'òbito ha mortandade enorme de gado, porque o herdeiro tem
obrigação de matar todo o rebanho, para regalar o seu pôvo, e contentar
a alma do finado.
No dia 22, houve um desastroso acontecimento no nosso campo.
Um dos meus muleques furtou-me uma bala explosiva do systema Pertuisset;
e de companhia com dois outros, decidíram repartil-a de modo que a cada
um tocasse seu pedaço de chumbo. Armáram-se de uma faca, e pôsta a bala
sôbre uma pedra, deu-lhe elle um golpe, estando os outros dois
acocorados para melhor ver a partilha; quando sùbito a bala faz
explosão, ficando os três feridos, e sôbre tudo o muleque de Silva Porto
Calomo, que recebeu treze estilhaços, produzindo alguns feridas
profundas.
Mandámos uns prêtos reconhêcer, se já dariam vao os rios; e por elles
soubémos, que se conservavam altos; o que bem soppùnhamos, porque,
durante a nossa estada ali, não cessou de chover. Resolvémos então
seguir outro caminho, o qual, ainda que mais longo, era mais euxuto de
àguas; e por isso, pedímos ao chefe nos tivesse prontos os carregadores;
o que elle fez, distribuindo eu as cargas no dia 23; mas n'esse dia
senti-me muito mal, e ainda que fiz seguir as cargas, fiquei eu, e os
meus companheiros por meu respeito. Lutei com violenta febre por três
dias, e não tenho consciencia de ter passado o dia 25; dia duplamente
festivo para mim, porque, sendo o de Natal, é o anniversario de minha
filha.
Tivéram cuidado de mim Capello e Ivens, o Chefe Roza e sua esposa; e no
dia 28, pude levantar-me e sair, decidindo logo partir no 1^{o.} de
Janeiro de 1878, isto é, três dias depois.
A esposa do Tenente Roza fêz-me dois presentes, que eu mal sabia então
estavam destinados a representar um papél, ao diante, na minha viagem.
Fôram elles um serviço de chá de porcelana de Sèvres, e uma cabrinha
muito meiga, de raça pequena, a que puz o nome de Córa.
A esse tempo succedeu um desastre, que de véras me contristou. O meu
carneiro, por causa de quem eu tive de sustentar tantas lutas com os
carregadores famintos, foi môrto por uma cadella perdigueira, que eu
levara de Portugal, e dera ao Capello. Perseguido pêla cadella, na fuga
quebrou uma perna ao passar por entre a paliçada do campo, e em breve se
finou. Foi o meu primeiro grande desgosto n'esta viagem, tão abundante
d'elles.
CAPÌTULO IV.
POR TERRAS AVASSALLADAS.
Jornada a Ngola.--O Sova Chimbarandongo.--Belleza do
caminho.--Chegada a Caconda--José d'Anchieta.--Nada de
correspondencia.--Chegada do Chefe.--Vamos aos carregadores.--Ivens
vai ao Cunene e eu vou ao Cunene.--Volta de casa do
Bandeira.--Falham os carregadores.--O meu juizo.
No dia 1^{o.} de Janeiro de 1878, deixámos Quillengues, tendo ali feito
provisão de vìveres, e comprado bastante gado para matar, bois e
carneiros. O chefe, Tenente Roza, acompanhou-nos uns 7 kilòmetros, e
voltou á sua residencia, seguindo nós sempre a S.E., até ás faldas da
serra de Quillengues, onde acampámos junto á povoação do Secúlo Unguri.
Tìnhamos um companheiro de viagem, que em Quillengues nos tinha pedido,
o deixàssemos ir até ao Bihé em nossa companhia. Era elle Verìssimo
Gonçalves, filho de um conhêcido sertanejo do Bihé, môrto havia pouco,
que em Quillengues era empregado de um ex-criado de seu pai. Este rapaz,
mulato e de mesquinha educação, como era de côrpo acanhado, cheio de
vicios, dos proprios a tal gente, tinha alguma cousa de bom, e era
intelligente.
Tem de figurar no correr d'esta narrativa, e por isso o menciono mais
particularmente.
Era acanhado e tìmido, mas não covarde, e debaixo de uma apparencia
fraca, possuia uma forte organização e mùsculos de ferro. Sabía apenas
ler e escrever, mas era um soffrivel atirador de segunda ordem, e
manhoso caçador.
Durante a demora em Quillengues, consegui domesticar dois dos jumentos,
que n'esta nôva jornada já me servíram de cavalgaduras.
No seguinte dia, logo á saída, começámos a ascensão da serra de
Quillengues, que n'esse ponto se chama Serra Quissècua.
A subida foi difficìlima, e durante três horas lutámos com as agruras da
montanha, elevando-nos a 1740 metros do nivel do mar, ou 836 acima do
planalto que termina em Quillengues.
Em um desfiladeiro da serra passámos um pequeno ribeiro, que os
indìgenas chamam _Obaba-tenda_, o que quer dizer àgua fria, fomos
acampar na margem de outro chamado _Cuverai_, affluente do Cúe. Estes
dois ribeiros sam permanentes, e sam àguas que correm ao Cunene.
O terreno continúa granìtico, mas a vegetação muda completamente de
aspecto--de certo devido isto á altitude. O baobab desappareceu, e já se
encontram fetos á sombra das innùmeras e variadas acacias que povôam as
matas. A flôra apresenta riqueza maior em plantas herbàceas, e nas
gramìneas sôbre tudo nota-se uma fôrça de vegetação vigorosissima.