Stanley podia certificar a sua Excellencia, que a bordo da _Tâmega_, em

minha casa, em casa de sua Excellencia, e na do Consul Newton, não tinha

visto fazer escravatura. Fora d'isto, Stanley, como sua Excellencia

muito bem sabía, só por informações nossas poderia falar, convivendo

quasi exclusivamente com-nosco, e não tendo visitado ponto algum do paiz

governado pêlo S^{nr.} Albuquerque. Era querer o S^{nr.} Governador

viesse Stanley a pagar caro um jantar e os seus favores, pedir-lhe um

certificado que elle Stanley nunca deveria ter passado.

Stanley, creio eu, fêz-nos a justiça de pensar que èramos estranhos

áquella carta.

No dia 6, parti para Benguella, levando cartas do S^{nr.} José Maria do

Prado para alguns particulares, e nem uma recommendação para o

Governador do Districto, que eu não conhecia.

Ia outra vêz á busca de carregadores, que eu, Portuguez, não tinha

podido obter em Loanda, e que, 4 mezes depois, tinha ali obtido um

estrangeiro, o explorador Schutt, que não encontrou as menores

difficuldades, para seguir o primeiro caminho que nós tìnhamos

tencionado seguir.

Em viagem conheci um passageiro que me disse ser possivel obter alguns

carregadores em Nôvo Redondo, e que se comprometteu a contratar ali uns

20 ou 30.

Foi já um pouco animado com esta promessa, que chêguei a Benguella, no

dia 7 á noite; e ainda que levava cartas de recommendação para alguns

negociantes, fui procurar o Governador, e pedir-lhe hospedagem.

CAPÌTULO II.

AINDA EM BUSCA DE CARREGADORES.

O Governador, Alfredo Pereira de Mello--A casa do

Governador--Cousas de que não tem culpa o Governo da Metròpoli--O

que é Benguella--O commercio--Sou roubado--Outro roubo--A

Catumbela--Obtenho carregadores--Chêgada de Capello e Ivens--Nôva

alteração de itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o velho

sertanejo--Apparecem nôvos obstàculos--O Capello vai ao

Dombe--Partida--O que é o Dombe--Nôvas difficuldades--Partimos

emfim.

Alfredo Pereira de Mello,[1] Governador de Benguella, ao ouvir o meu

pedido de hospedagem, mostrou um embaraço que percebi, e disse-me, que

não tinha meio de me receber em sua casa. Sorprendeu-me o caso, sabendo

eu que o Governador era bizarro de genio e de natureza franco. Tive

convites, logo á minha chegada, já de Antonio Ferreira Marques, já de

Cauchoix; mas persisti no intento de hospedar-me em casa do Governador.

Elle disse-me, que não tinha cama a offerecer-me, e eu mostrei-lhe a

minha cama de viagem; porque fui logo pondo em casa d'elle a minha

bagagem. Disse-me, que não tinha quarto; apontei-lhe para um canto da

sala em que estàvamos, onde ficaria òptimamente.

Não havia mais que dizer, e fiquei. Aguçava-me a curiosidade a

resistencia do Governador em negar-me a hospitalidade que pedia; mas

cêdo desvendei o misterio.

Alfredo Pereira de Mello era homem nôvo, ainda que tinha já uma patente

superior na armada. Sympàthico e intelligente, é estimado por tôdos

aquelles que o conhêcem de perto; porque a uma finissima educação, reune

grande rectidão de caracter, e a energía peculiár a tudo bom marinheiro.

Serviu na marinha Ingleza, e tem de viagens larga pràtica.

Vio as Amèricas, e antes de ir para Àfrica como Ajudante-de-Campo do

Governador Andrade, tinha visitado a India, a China e o Japão.

O Governador, que já me conhêcia de nome, ao ouvir o meu pedido,

esquèceu que tinha diante de si o explorador, para só se lembrar do

homem habituado a viver no meio do luxo e das commodidades. Pereira de

Mello têve vergonha de hospedar-me.

Um Governador de Benguella, se é recto e probo, vive mesquinhamente com

a paga que recebe.

A casa do governo é arrendada. A mobilia, um pouco menos de modesta,

guarnece a sala e um quarto.

Na sala, destoa da mobilia, ricamente amoldurado, um retrato d'El-Rei, o

melhor que tenho visto.

E com-tudo a este porto, v[~e]m repetidas vêzes navios de guerra

estrangeiros, cujos officiaes visitam o Governador, regalam-n-o a bordo;

e elle nem um copo d'àgua lhes pôde offerecer em sua casa, porque a

prêta ou o muleque tem de trazer o côpo n'um prato velho. O serviço de

mesa era, creio eu, a espada de Damocles suspensa sôbre a cabêça de

Pereira de Mello, ao ouvir a minha teimozía em ficar. Não tinha razão. O

asseio que presidía a tudo, suppría o vidrado da louça gasto com o

tempo, e os manjares simples, mas bem cozinhados, avivavam o appetite já

derrancado pêlos ares Africanos; e não se offenda o cozinheiro do Hotel

Central em Lisboa, se eu lhe dizer, que comi melhór em casa do

Governador de Benguella do que comia dos seus opìparos manjares, ainda

que a prêta Conceição, cozinheira do Governador, nunca ouvio falar do

heroe das caçarolas, o cèlebre Brillat-Savarin.

Pereira de Mello, logo ao primeiro dia de convivencia, abrio-me o seu

coração, mostrando-me a menos que singeleza da sua vida interior. Três

officios dirigidos ao Governo da Provincia, em que pedia autorização

para fazer algumas reformas caseiras, tinham ficado sem resposta.

Isto não é de estranhar, porque foi sempre assim.

Em um copiador de correspondencia, que existe nos archivos do Governo de

Benguella, li eu uns officios datados de 1790, em que o Governador de

então já se queixava a El-Rei das mesmas faltas; por a ellas lhe não dar

remedio o Governador Geral da Provincia, e entre outras cousas que pede

com urgencia, figuram os reparos para duas peças de bronze que designa,

e que ainda hôje os carecem.

Sam as mesmas de que fala Cameron; o que elle vai saber agora é, que os

reparos já fôram encommendados e não podem tardar em chegar; porque,

sendo a encommenda d'elles feita em 1790, dêve estar quasi concluida a

sua construcção.

Benguella é uma bonita cidade, que se estende desde a praia do Atlàntico

até ao sopé das montanhas que formam o primeiro degrao do planalto da

Àfrica tropical. É cercada de uma espessa floresta, a Mata do Cavaco,

ainda hoje povoada de feras; e isso não admira, que os Portuguezes, em

geral, de caçadores não t[~e]m manhas. As habitações dos Europêos

occupam uma grande àrea, porque todas as casas t[~e]m grandes quintaes e

dependencias.

Os quintaes sam cuidados; produzem todas as hortaliças da Europa, e

muitos frutos tropicaes.

Vastos pàteos cercados de alpendres servem para dar guarida ás grandes

caravanas que do sertão descem á costa em viagem de tràfico, e que

repousam três dias na casa onde effeituam as permutações.

Um rio, que na estação estía apenas é larga fita de àrea branca, que se

desenrola das montanhas ao mar, a travez da floresta do Cavaco, é ainda

assim a grande fonte de Benguella, que os poços ali cavados dam àgua boa

philtrada pêlas àreas calcàreas.

Nas ruas da cidade, largas e direitas, crecem dois renques de àrvores,

pela maior parte figueiras sycòmoros, de pouco arraigadas, e por isso

ainda pequenas. As praças sam vastas, e em uma ajardinada, crescem

bonitas plantas de vistoso aspecto.

As casas, todas terreas, sam construidas de adôbes, e os pavimentos sam,

em umas de tijolos, e de madeira em outras.

A alfàndega é bom edificio, recentemente construido, e tem vastos

armazens para as mercadorias do tràfico. Esta alfàndega, e o largo

ajardinado, como outros melhoramentos de Benguella, fôram de um

Governador, Leite Mendes, que de si deixou rasto.

Uma ponte magnìfica de architraves de ferro, creio que encommendada pêlo

mesmo Leite Mendes, mas muito posteriormente montada pêlo Governador

Teixeira da Silva, é guarnecida por dois guindastes e carrís, por onde,

em vagonetes, se transportam as mercadorias das lanchas á alfàndega. Eu

aqui commetti um erro de grammàtica, escrevendo o verbo transportar no

presente do indicativo, quando no condicional é que era.

_Transportariam_, se houvesse pessôal para isso; mas não _transportam_,

porque o não ha.

Tem a cidade um templo decente, e um cemiterio bem collocado e murado.

A povoação Europêa é cercada, por todos os lados, de _senzalas_, ou

povoações de prêtos, e mesmo entre a povoação branca ha pequenas

_senzalas_, em quintaes abandonados. O seu aspecto geral é agradavel e

aceiado.

Tem Benguella má fama entre as terras Portuguezas de Àfrica; e supõem

muitos, ser aquillo um paiz infecto, que exhala de miasmàticos pàntanos

a peste, e com a peste a morte.

Não é assim. Eu não conhêci Benguella como ella fôra em tempos passados;

mas hôje, não é nem melhor nem peior do que outros muitos pontos

d'Àfrica.

O aceio e as plantações de arvoredo, de certo t[~e]m. modificado muito

as suas anteriores condições hygiènicas, e com uma pouca de boa vontade,

não seria difficil o seu saneamento; o que estou certo se fará, porque

não pôde deixar de merecer verdadeira attenção um ponto de tão subida

importancia commercial, e em facil contacto com tão ricas terras nos

sertões.

Os principaes productos que alimentam o commercio de Benguella sam cêra,

marfim, borracha e urzella, que chêgam á cidade trazidos pêlas caravanas

dos sertões. Estas caravanas sam de duas espècies. Umas, dirigidas por

agentes das casas commerciaes, trazem ás mesmas casas que os despacham

os productos do seu tràfico no interior; outras, exclusivamente

compostas de gentio, descem a negociar por canta propria, onde melhor

ganho encontram.

O tràfico com o gentío faz-se por permutação directa do gènero por

fazenda de algodão, branco, riscado ou pintado. Os outros productos

Europêos sam objecto de uma segunda permutação pêla fazenda recebida; e

assim, depois da primeira troca do marfim ou cêra pelo algodão, é este

trocado por armas, pòlvora, àgua-ardente, missanga, etc., á vontade do

comprador; porque a fazenda de algodão é, por assim dizer, a moeda

corrente n'este tràfico.

O commercio está entre mãos de Europêos e crioulos, e felizmente já ali

encontrámos muitos d'esses rapazes que, aventurosos, deixam patria e

familia, para ir em terras longinquas buscar fortuna.

Alguns deportados de menor importancia tambem negociam, já por conta

propria, já como empregados de casa alheia.

Os maiores criminosos do Reino, os condenados por tôda a vida, sam

deportados para Benguella, do que resulta, encontrar-se ali quantidade

de patifes, de que é bom resguardar-se; não os confundindo com a gente

digna e capaz, que a ha.

A policia é confiada á fôrça militar, que um dos regimentos destaca para

Benguella; sendo que de Benguella ainda sam espalhadas differentes

fôrças nos concêlhos do interior; desfalcando a guarnição da cidade, já

de si pequena.

Nós temos dois exèrcitos, um na Metròpoli, outro nas colonias, que

nenhuma relação t[~e]m entre si.

O nosso exèrcito da Metròpoli é bom, porque o Portuguez é bom soldado; o

nosso exèrcito das colonias é mao, porque o prêto é mao soldado; e os

brancos que ali servem de mistura com prêtos, sam peiores ainda do que

estes. Deportados por crimes que os excluíram da sociedade, fazendo-lhes

perder na Europa o fôro de cidadãos, vam desempenhar em Àfrica o posto

nobre do soldado; sendo a nossa autonomía Africana, e a segurança

pùblica e particular, confiada á defeza de homens, que dam por garantía

um detestavel passado.

Dahi as contìnuas scenas de caracter vergonhoso que se presenceiam ali.

Durante a minha permanencia em Benguella, houve um grande roubo com

arrombamento, no cofre militar. O Governador houve-se com a maior

energía na maneira porque procedeu para descobrimento dos culpados,

sendo muito coadjuvado pêlo seu Secretario, o Capitão Barata, que

conseguio descobrir os ladrões, e haver o dinheiro roubado. Fôra o roubo

planeado pêlo proprio sargento do destacamento, e levado a effeito por

elle e alguns soldados!!!

Se o nosso exèrcito Metropolitano não se presta á censura do homem mais

pichoso, as nossas fôrças coloniaes sam vìctimas das merecidas chufas de

tôdos os estrangeiros, que as observam.

Por mais que tenha cogitado, nunca pôde attingir ao prèstimo de tal

exèrcito em nossas colonias, que para policia não serve; servindo menos

para a guerra, que da minha lembrança tenho visto ser feita por côrpos

voluntarios, levantados no reino, e que àlém vam servir por certo praso.

Hôje mesmo, em Lisboa, três batalhões estam sempre prontos a marchar

para as colonias, e já lá t[~e]m ido; o que prova sabermos nós, que o

ter exèrcito no ultramar, tal como elle é, não passa de velha

costumeira.

Na noite da minha chegada a Benguella, fiz o conhêcimento do Juiz de

Direito Caldeira, que se associou ao Governador para me certificar, que,

como elle, empregaria tôda a sua influencia para que eu não tivêsse

vindo de balde a Benguella, e assim o fêz.

O Governador convocou os moradores importantes a uma reunião em sua

casa, e expondo-lhes os motivos da minha viagem, e o meu projectado

itinerario, pediu-lhes que o coadjuvâssem na empresa de arranjar

carregadores; para que eu podêsse levar a cabo a expedição. Todos assim

o prometêram.

O Governador Pereira de Mello, e o Juiz Caldeira, fôram incansaveis, e

no dia 17, dia em que este ùltimo se retirou para Lisboa, tinha eu o

nùmero de carregadores que pedira, cincoenta, que, com trinta esperados

de Nôvo Redondo, prefaziam um total de oitenta; tantos quantos eu havia

julgado precisos para subir da foz do Cunene ao Bihé.

O velho sertanejo, Silva Porto, encarregara-se de fazer transportar ao

Bihé o grôsso das bagagens, que nós encontrarìamos n'aquelle ponto; onde

deverìamos contratar mais carregadores para seguir ávante.

N'esse dia mudei eu para a casa que antes occupava o juiz, continuando a

ir jantar com o Governador, ou com Antonio Ferreira Marques, da Casa

Ferreira e Gonçalves, que porfiavam em obsequiar-me.

No dia seguinte, um prêto meu serviçal furtou-me uns 75 mil réis, e

desappareceu, sem que d'elle mais se soubesse.

A 19 chegáram os meus companheiros na canhoneira _Tâmega_, e n'esse

mesmo dia resolveu-se, que não irìamos á foz do Cunene, mas sim

entraríamos directamente ao Bihé.

Esta nôva resolução que tomámos, alterava o que havia contratado com os

carregadores, e àlém d'isso, a gente de Benguella, que, transportada a

paiz distante, não pensaría em desertar, não me inspirava garantía,

viajando logo no comêço em paiz de que conhêcia a língua e os costumes.

Comêçou nôva campanha. Eu tinha presentes as narrações de Cameron e

Stanley a respeito dos embaraços causados por deserções, e até as do

proprio Livingstone, que foi abandonado por trinta homens na viagem de

Tete com o D^{or.} Kirk.

Logo depois da chêgada dos meus companheiros, combinámos em ser o Ivens

encarregado dos trabalhos geográphicos, o Capello de Meteorologia e

Sciencias Naturaes, e eu do pessôal auxiliar da expedição,

coadjuvando-nos mutuamente. Assim, pois, tive de me pôr logo em campo, e

o primeiro passo que dei, foi ir tomar consêlho de Silva Porto.

Narrei-lhe a nôva decisão que havìamos tomado, de seguir directamente ao

Bihé, e expuz-lhe o meu embaraço. Silva Porto veio a Benguella comigo,

pois que a sua casa da Bemposta dista 6 kilòmetros da cidade, e

precorrémos as casas onde haviam caravanas de Bailundos, sem que elles

quizêssem annuir a levar as cargas ao Bihé. Á casa Cauchoix tinha

chêgado uma grande caravana, e este cavalheiro chêgou a offerecer uma

avultada gratificação ao chefe, e paga dupla aos carregadores, se

quizêssem conduzir as nossas bagagens, mas nada conseguío.

Cabe aqui narrar um facto muito curioso. Os Bihenos sam os primeiros

viajantes d'Àfrica, e nenhum outro pôvo estende mais longe as suas

correrias, nem se lhe iguala em arrojo e robustez de caminheiros; mas os

Bihenos viajam só do Bihé para o interior como assalariados; e se de

maravilha v[~e]m á costa, é por conta propria. Os Bailundos alugam os

seus serviços entre a costa e o Bihé, e não vam ao interior para leste;

mas ao norte estendem suas viagens até ao Dondo e Loanda.

Assim, pois, os negociantes sertanejos fazem transportar as mercadorias

de Benguella ao Bihé por Bailundos, e d'ali aos pontos remotos do

interior por Bihenos, que voltam, com os productos permutados, ao Bihé.

D'este ponto á costa tornam a servir-se dos Bailundos.

Depois de informado d'isto, só me restava mandar assalariar Bailundos,

para me virem buscar as cargas; e d'isso se encarregou Silva Porto,

despachando logo cinco prêtos ao Bailundo, a ir buscar a gente. O velho

sertanejo disse-me logo, que elles teriam muita demora, porque os

enviados levavam 15 dias a chêgar ao paiz, e outro tanto tempo, pêlo

menos, gastariam a reunir os carregadores, e estes, 15 dias para vir;

fazendo uma somma de 45 dias; afiançando-me elle, que antes não os

teria. Nós estàvamos em fins de Setembro, e por isso só poderìamos

partir por meado de Novembro.[2]

Vim participar isto aos meus companheiros, e depois de conferenciar com

elles, resolvémos não perder tanto tempo em Benguella; e entregando as

cargas a Silva Porto, para que nol-as enviasse pelos Bailundos,

partirmos immediatamente com as cargas indispensaveis, indo esperar no

Bihé; tempo que aproveitarìamos no arranjar de carregadores ali para

seguir ávante.

Dos carregadores contratados em Benguella apenas uns 30 mereciam alguma

confiança para seguir tal caminho; e estes, com 36 de Nôvo Redondo,

faziam um total de 66 homens. Tìnhamos, àlém d'isso, 14 soldados; os

meus muleques pequenos de serviço; uns Cabindas de serviço de Capello, e

Ivens; e 2 chefes prêtos, um contratado por mim na Catumbella, o prêto

Barros, e outro por Capello, em Nôvo Redondo, o Catão.

Em tôda esta gente não tìnhamos um só homem de confiança.

Tratámos de separar as cargas julgadas indispensaveis, e conhêcémos que

eram 87; isto é, tìnhamos 21 cargas mais do que carregadores. Foi de

balde que trabalhei para os haver, não me foi possivel obter um só.

Os prêtos, não comprehendendo o que ìamos fazer, ao sertão, estavam

receiosos, e com a sua desconfiança natural, imaginavam loucuras e

recusavam-se.

Chêgou o fim de Outubro sem nada termos adiantado.

Resolvi, por consêlho de Silva Porto, ir ao Dombe, experimentar se os

Mundombes faríam menos difficuldades, do que a gente de Benguella; mas,

sentindo-me incommodado, pedi ao Capello ali fôsse por mim.

No dia 29, partio o Capello, e voltou no dia 3 de Novembro. Nada fêz. Os

Mundombes prestam-se com facilidade a ir a Quilengues por caminho

conhêcido d'elles; mas, fora d'isso, não fazem outras viagens; e

recusáram as pagas avultadas que lhes offerecìamos para irem ao Bihé.

Tornava-se necessario tomar uma resolução, e essa foi logo tomada;

seguirìamos sempre para o Bihé, mas tomarìamos por Quillenges e Caconda.

O Governador Pereira de Mello deu logo ordem ao chefe do Dombe, que

tivesse prontos 50 carregadores, para seguirem com-nosco para

Quillengues.

Silva Porto encarregou-se das cargas que deviam ser mandadas ao Bihé, e

eram umas 400.

Poz o Governador á nossa disposição uma lancha, para transportar por mar

ao Cuio (Dombe Grande) as cargas que d'ali deviam ser carregadas até

Quillenges, e alguns carregadores de Benguella que estavam doentes.

No dia 11 de Novembro, estàvamos prontos a deixar a costa, e fixámos a

partida para o dia 12. Nesse dia fugíram 4 carregadores de Nôvo Redondo,

e no seguinte 5 de Benguella.

Emfim, no dia 12 deixàvamos a Cidade, depois das mais cordiaes

despedidas dos amigos, que se reuníram para nos dizer adeos.

Pouco antes tinha eu ido á praia, e por muito tempo tive os olhos fixos

na vastidão do Atlàntico, d'esse mar enorme que ia perder de vista; e

mal cogitava então, que só o volveria a ver dois annos depois, na

França, em Bordeos.

Não sei se a outros tem acontecido o mesmo; eu, no momento da partida,

senti uma pungente mágoa, uma indefinivel saudade, uma dôr profunda, que

me produzíram como que uma embriaguez, e confesso que não tenho muito a

consciencia de ter deixado Benguella.

A bandeira das Quinas estava desenrolada, e afastavase da cidade ao

passo cadenciado da caravana; seguí-a.

No dia 13, chegàvamos ao Dombe, tendo feito uma jornada de 64

kilòmetros. Tìnhamos com-nosco 69 pessôas, e seis jumentos, que fôram,

homens e burros, alojados na fortaleza. Nós três, com os nossos muleques

de serviço, fomos obsequiosamente hospedados em casa de Manuel Antonio

de Santos Reis, distincto cavalheiro que porfiou em obsequiar-nos.

Dois dias depois, chegáram as cargas que tinham vindo por mar, e

inventariando tudo, conhêci, que para seu transporte precisava de 100

homens, àlém dos effectivos que comigo tinha.

Isto proveio de termos abusado da facilidade que nos offereceu a lancha,

mettendo a bordo mais cargas do que tìnhamos julgado absolutamente

necessarias.

Decidímos partir a 18, depois de recebermos cartas da Europa, porque o

paquete, de costume, está em Benguella a 14; mas a 18 nem o vapor tinha

ainda chegado, nem o chefe tinha tambem assalariado um só homem.

A 21 chêgou a mala, mas de gente só tìnhamos a trazida de Benguella. O

chefe declarou-nos, que no dia 26 poderìamos partir; mas, precisando nós

de 100 homens, apenas nos mandou n'esse dia 19. No seguinte dia

aparecêram mais 27; e eu, receioso que elles viessem a debandar se os

fizesse esperar, despachei-os logo para Quillengues, acompanhados por

dois soldados dos que comigo tinha.

O chefe declara-me que lhe é impossivel conseguir mais gente. Faço

reunir na fortaleza os três Sobas do Dombe, no dia 28, e fui eu mesmo

tratar com elles. Sam três typos magnìficos.

Um chama-se Brito, nome que tomou de um dos Governadores de Benguella,

que o restaurou no poder; outro, Bahita; o terceiro é Batara. Os meus

companheiros perdem o assistir a esta scena joco-seria, porque desde o

dia 24 estam com febre.

O Soba Brito apresenta-se com três saias de chita, pintada de ramageus,

muito enxovalhadas; veste uma farda de capitão de infanteria,

desabotoada, deixando ver o peito nú, porque camisa não usa; e na

cabêça, sôbre um barrete de lã vermelha, põe nobremente um chapéo armado

de estado-maiór.

O Bahita traja saias de lã de vistosas côres, uma rica farda de Par do

Reino, quasi nôva, e na cabêça, sôbre o indispensavel barrete, uma

barretina de caçadores 5.

O Batara está literalmente coberto de andrajos, e traz á cinta um

espadão enorme.

Estes illustres e graves personagens estam rodeados dos séculos e altos

dignitarios das suas negras côrtes, que tomam assento no chão em torno

da cadeira do soberano. O Bahita era acompanhado de um menestrel, que

tirava de uma marimba, monòtona toada.

Esta marimba é formada de dois paos de 1 metro de comprido, ligeiramente

curvos, em que assentam em cordas de tripa taboinhas pequenas de

madeira, cada uma das quaes é uma nota da escala. O som é reforçado por

uma fila de cabaças collocadas inferiormente, sendo a que corresponde á

nota mais baixa da capacidade de 3 a 4 litros, e á mais alta 3 a 4

decilitros.

Os Sobas portáram-se com grande seriedade, e eu fingi tambem que os

tamava a sério.

Depois de me prometterem carregadores, viéram acompanhar-me a casa, que

distava uns dois kilòmetros da fortaleza; e como eu desse uma garrafa de

àgua-ardente a cada um, mandáram elles dançar a sua fidalgaria, e o

Bahita mandou entrar na dança umas raparigas que haviam ficado de parte.

Eu pedi-lhes que dançassem elles; mas respondéram-me, que a sua

dignidade lh'o não permittia; sendo isso contra as pragmàticas

estabelecidas. Eu ardia em desejo de ver o Bahita dançando, de saias e

farda de Par; e conhêcedor do imperio da àgua-ardente nos prêtos, mandei

dar outra garrafa aos sobas.

Foi o bastante. Atropeláram as suas leis, e eil-os saltando em brutesça

dança no meio do seu pôvo, que enthusiasmado por tal honra, redobra de

contorsões e momices, que chegam a atingir o delirio. O Bahita é

magnìfico, e com certeza o typo do rei Bobeche foi creado sobre este

molde. Fala continuamente em mandar cortar cabêças, sentenças estas que

os seus escutam com a maior submissão, mas de que interiormente se riem,

porque bem sabem o Governo Portuguez lh'o não consente.

O Dombe Grande é um fertilissimo valle, que se estende primeiro do Sul

ao N., e depois a Oeste, quasi em àngulo recto, até ao mar. É enquadrado

por dois systemas de montanhas, um por oeste, que borda a costa, e outro

por leste, em cujo sopé corre o rio _Dombe_, _Coporolo_, ou _Quiporolo_,

e até rio _de S. Francisco_--que todos estes nomes tem.

[Figura 1.--Mulhéres Mundombes, vendedeiras de carvão. (De uma

photographia do pharmaceutico Monteiro.)]

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro · 第 3 / 22 段