Resolvi logo, se um dia chegasse a fazer uma viagem em Àfrica, e se

d'ella escrevesse a narrativa, não ser omisso n'essa parte, e dizendo

quaes os objectos de que me provi, dizer quaes os que me prestáram

serviços reaes, e quaes os que me fôram carga inutil.

A historia das explorações d'Àfrica está no seu comêço.

Muitos exploradores me succederám em Àfrica, como eu succedi a muitos, e

creio fazer um bom serviço áquelles que depois de mim se aventurarem no

inhòspito continente, apresentando-lhes agora uma relação dos objectos

de que me provi; e logo, no correr da minha narrativa, as vantagens ou

os inconvenientes que n'elles encontrei.

Segundo as instrucções que do Governo tinha recebido, podia demorar-me

tres annos em viagem, e para isso me preparei.

A experiencia tinha-me mostrado, o grave inconveniente de me

sôbrecarregar de bagagens; e francamente declaro, que fiquei aterrado

quando, em Lisboa, vi o enorme trem comprado em Paris e Londres.

Só malas tìnhamos 17! todas das mesmas dimensões, 0^m,3 x 0^m,3 x 0^m,6.

Uma era toucador perfeito, contendo um grande espelho, uma bacia, caixas

para escovas e mais objectos competentes; outra continha um serviço de

meza e chá para tres pessôas; e uma terceira o trem de cozinha.

Tres outras malas de forte sola deviam conter cada uma o seguinte:--4

frascos de quinino, uma pequena pharmacia, um sextante, um horizonte

artificial, um chronòmetro, umas tàbuas logarìthmicas, umas ephemèrides,

um aneroide, um hypsòmetro, um thermòmetro, uma bùssola prismàtica, uma

bùssola simples, um livro em branco, lapis, papél e tinta; 50 cartuxos

para cada arma; um vestuario completo, e tres mudas de roupa branca;

isca, fusil, pederneiras, e alguns pequenos objectos de uso pessôal.

Cada uma d'estas malas tinha na parte superior um estojo de costura,

escrivaninha e logar para papél. Eram pessôaes, e pertencia cada uma a

um de nós.

As outras 10 malas continham indistinctamente roupas, calçado,

instrumentos, e outros objectos de reserva. Todas tinham fechaduras

iguaes e abriam com a mesma chave.

A nossa barraca era uma _tente marquise_ de 3 metros de lado por 2^m, 3

de alto. As camas eram de ferro, fortes e còmmodas. As mesas de tezoura,

os bancos e cadeiras de lona.

Todos estes artigos fôram da fàbrica de Walker.

Cada um de nós tinha uma carabina magnìfica de calibre 16, cujos canos,

forjados por Leopoldo Bernard, tinham sido cuidadosamente montados por

Fauré Lepage.

Uma espingarda do mesmo calibre da fàbrica de Devisme, uma Winchester de

8 tiros, um revólver e uma faca de mato completavam o nosso armamento.

Em Lisboa tinha eu encommendado na Confeitaria Ultramarina 24 caixas,

das mesmas dimensões das malas, contendo, em latas cuidadosamente

soldadas, chá, café, assucar, hortaliças secas, e farinhas substanciaes.

Hoje devo aqui lavrar um alto agradecimento ao S^{nr.} Oliveira,

proprietario da mesma fàbrica, pelo escrùpulo que têve na escôlha dos

gèneros que nos forneceu, e que muito nos servìram no comêço da viagem.

Os instrumentos que levámos fôram os seguintes: 3 sextantes, sendo um de

Casella, de Londres; um de Secretan, e um de Lorieux, verdadeiro primor.

Dois cìrculos de Pistor, fabricados por Lorieux, com dois horizontes de

espelho, e os competentes nivéis. Um horizonte de mercurio de Secretan.

Tres lunetas astronòmicas de grande fôrça, duas de Bardou e uma de

Casella. Tres pequenos aneroides, dois de Secretan e um de Casella; 4

pedòmetros, dois de Secretan e dois de Casella. 6 bùssolas de algibeira;

1 bùssola Bournier de Secretan; 3 outras azimutaes, duas de Berlin e uma

de Casella; 2 agulhas circulares Duchemin; 6 hypsòmetros Baudin, 1 de

Casella, 3 de Celsius de Berlin, dois mais muito sensiveis de Baudin; 12

thermòmetros de Baudin, Celsius e Casella; 1 baròmetro Marioti-Casella;

1 anemòmetro Casella; 2 binòculos Bardou; 1 bùssola de inclinação, e um

apparelho de fôrça magnètica, que nos fôram obsequiosamente emprestados

pelo Capitão Evans, por entremedio de M^{r.} d'Abbadie. E finalmente, o

theodolito universal d'Abbadie, que tem o nome de _Aba_, e que tão

cavalheirosamente nos foi cedido pelo seu inventor.

Armas, instrumentos, bagagens, todos os artigos, enfim, tinham gravado o

seguinte letreiro--_Expedição Portugueza ao interior d'Àfrica Austral,

em 1877_.

Duas caixas, contendo o necessario para conservar exemplares zoològicos

e botànicos nos fôram enviadas pelos S^{nrs.} D^{or.} Bocage e Conde de

Ficalho.

Ferramentas dos diversos officios augmentavam este enorme trem, com que

ìamos deixar Lisboa, para nos internarmos nos sertões desconhecidos da

Àfrica Austral.

CAPÌTULO I.

EM BUSCA DE CARREGADORES.

Chegada a Loanda--O Governador Albuquerque--Não ha

carregadores--Vou ao Zaire--O Ambriz--Chego ao Porto da Lenha--Os

resgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou a Cabinda--Tomo Stanley

a bordo da _Tâmega_--Os officiaes da canhoneira--Stanley meu

hòspede--O nosso itinerario--Chegada do Ivens.

No dia 6 de Agosto de 1877, chegàvamos a Loanda, no vapor _Zaire_, do

commando de Pedro d'Almeida Tito, a quem aqui lavro um testemunho

affectuoso de muita gratidão, pelos favores que me dispensou durante a

viagem.

Desde a minha saïda de Lisboa, uma preoccupação constante me perseguia.

A nossa bagagem era enorme, e tinha de ser ainda muito aumentada, com

fazendas, missangas e outros gèneros, que seriam a nossa moeda no

sertão.

Em todos os livros de viagens, n'esta parte do continente Africano, li

eu as difficuldades em que se encontráram muitos exploradores, por não

poderem obter o nùmero sufficiente de carregadores para as cargas

indispensaveis. ¿Como os obteria eu? Em Cabo-Verde sube, que uma carta

que eu e Capello tìnhamos dirigido ao Ivens não fôra por elle recebida;

pois que sube ali, por um telegrama, que Ivens estava em Lisboa, e por

isso não podia ter satisfeito ao pedido que n'aquella carta lhe

fazìamos, de estudar a questão, e ver se nos obtinha em Loanda os

auxiliares precisos. Uma tentativa feita em Cabo-de-Palmas ficou sem

resultado, e apesar do apoio que nos prestou o Capitão Tito, nem um só

_keruboy_ podémos ajustar ali.

Chegámos finalmente a Loanda, e fomos hospedar-nos em casa do S^{nr.}

José Maria do Prado, um dos primeiros proprietàrios e capitalistas da

Provincia de Angola, que immediatamente poz á nossa disposição, uma das

muitas casas que possue na cidade; casa com accommodações bastantes para

receber o enorme trem da expedição.

Do S^{nr.} Prado recebemos innùmeros favores. Na noite do dia 6, fomos

procurados por um dos ajudantes-de-campo de Sua Excellència o

Governador-Geral, que vinha, em nome do S^{nr.} Albuquerque, fazer-nos

os mais cordiaes offerecimentos.

No dia 7, procurámos o Ex^{mo.} Governador, que nos recebeu

affectuosamente, mostrando a maior benevolencia em desculpar os meus

trajos, que, òptimos para a vida do mato, eram, a não poder ser mais,

ridìculos para uma visita ceremoniosa.

O S^{nr.} Albuquerque, depois de nos assegurar, que nos daria a maior

assistencia nas terras do seu governo, concluio por nos mostrar a

impossibilidade de obtermos carregadores.

Creio que nada mais desagradavel pode haver para quem quer viajar em

Àfrica, e tem 400 cargas, do-que dizer-se-lhe: _Não ha carregadores_.

Decidí immediatamente ir ao Norte da provincia ver se por ali os poderia

contratar; e n'esse sentido pedi ao S^{nr.} Albuquerque, me mandasse

transportar ao Zaire.

O só navio de guerra que podia ser posto á minha disposição andava

cruzando na foz do Zaire; resolvi d'ir procural-o, e no dia 8, parti

n'um escalér, tripulado por 8 prêtos cabindas, que me foi fornecido pela

capitanía do Porto. Levava ordens do Governo para o commandante da

canhoneira. Não ha nada mais desagradavel do-que fazer uma viagem de 120

milhas em um escalér. De Loanda ao Ambriz comi apenas umas sardinhas e

bolachas. Tendo resolvido fazer a viagem no escalér no mesmo dia da

partida, não tive tempo de fazer preparativos.

No dia 9, ao anoitecer, chegava ao Ambriz, bonita villa assente no

planalto de um còmoro, cujas escarpas, de 25 metros, sam cortadas a

prumo sôbre o mar.

Fazia as vêzes de chefe, um empregado de fazenda, o S^{nr.} Tavares, que

caprichou em obsequiar-me, assim como tôdos os habitantes da villa,

mormente o S^{nr.} Cordeiro, em casa de quem estive hospedado.

Esperava-me no Ambriz Avelino Fernandes. Tive a felicidade de conhêcer

Avelino Fernandes a bordo do vapor _Zaire_, e relações ìntimas se

estabelecêram entre nós.

É filho das margens do Zaire, e tem grande paixão por esse rico solo,

onde as àrvores gigantescas da floresta virgem lhe assombráram o berço.

Tem 24 annos. A côr morena e o cabello crespo indicam que nas suas

veias, de envolta com o sangue Europêu, gira o sangue Africano. Rico,

dotado de uma esmerada educação, adquirida nos principaes centros da

Europa, e que uma intelligencia superior soube desenvolver, é o

verdadeiro typo do cavalheiro palaciano, que não se pôde conhêcer sem

que a elle nos prenda logo verdadeira sympathìa. As muitas relações que

elle tinha no Zaire podiam facilitar-me os meios de arranjar ali

carregadores.

Sube no Ambriz que a canhoneira _Tâmega_ devia chegar áquelle ponto

dentro de dois dias; e por isso resolvi esperal-a.

A viagem de Loanda no escalér não me tinha deixado recordações tão

fàgueiras, para que eu persistisse em continuar para o norte da mesma

forma.

No dia 10, fui visitar a villa e seus suburbios, e em dois traços vou

narrar o que vi.

Do planalto em que assenta a povoação Europêa, desce-se para a praia por

um caminho em zigzag, que estava sendo reconstruido por alguns

grilhetas. Na praia, entre dois soberbos edificios, que sam armazens das

casas commerciaes Franceza e Hollandeza, ostenta-se um albergue,

meio-derrocado pêla velhice, meio-em-construcção recente não-continuada,

que é a Alfàndega; Alfàndega sem depòsitos, onde as fazendas, arrumadas

á porta sôbre o areal, pagam um irrisòrio tributo de armazenagem. A

N.N.E. da villa, muitos hectares de terreno sam occupados por um

pàntano, inferior de 3 metros e 12 centìmetros ao maior preamár; e na

encosta da escarpa que do planalto da villa desce ao pàntano, assentam

as cubatas da povoação indìgena, nas peiores condições de salubridade.

Ao sul da villa, entre umas moitas de mato virgem, é o cemiterio--onde

os cadàveres enterrados de dia, sam pasto das hyenas á noite.

A ponte de desembarque, construida de ferro e madeira, está prestes a

ser inutilizada; porque a oxidação do ferro em contacto com o ar e a

àgua, produz-se cêdo; e a ponte não foi pintada, não ha verba para sua

conservação, nem alguem que por ella vigie.

A casa do chefe é um pardieiro derrocado, onde ha verdadeiro perigo em

habitar.

O paio ameaçava ruina; e isso fêz-me impressão, porque elle contém a

pòlvora do commercio, que não rende menos de duzentos mil réis mensaes

para o Estado.

É bem de esperar, que nos dois annos decorridos depois da minha visita

ao Ambriz, se tenham dado mais cuidados áquella bonita villa, cuja

importancia é patente, sendo um grande centro de commercio.

Um kilòmetro ao N. da ponte de desembarque, lança no Atlàntico as suas

àguas o rio Loge, cuja foz é obstruida por um banco de areia, que lhe dá

difficil accesso, mas que depois é navegavel por uns trinta kilòmetros.

No dia 11, fui visitar a importante propriedade agrìcula, fundada pêlo

cèlebre Jacintho do Ambriz, e hôje pertença de seu filho Nicolao. Esta

propriedade representa um dos maiores esfôrços feitos na provincia de

Angola, para o desenvolvimento da agricultura.

Jacintho do Ambriz foi levado á Àfrica por uma desgraça ìntima. Filho do

povo, sem a menor instrucção, não sabendo mesmo ler ou escrever (mas

dotado de uma razão clara, de um espìrito fino, e de muita felicidade),

chêgou a fazer uma grande fortuna. Jacintho casou no Ambriz com uma

mulhér da sua igualha. Era a tia Leonarda, mais conhêcida por _tia

Lina_, natural da Beira-Alta; e em 1877, a conhêci eu vestida sempre á

moda das camponezas da Beira, falando a linguagem vulgar que fala o pôvo

d'aquella provincia, como se de lá tivêsse chêgado. Na sua casa comi um

jantar beirense, e por um momento julguei-me transportado a uma das

hospitaleiras casas dos nossos lavradores do Norte. A tia Lina entrou

muito na felicidade que levou Jacintho á riqueza.

Jacintho fazia o commercio, e esse commercio, na Àfrica, obriga a dois

distinctos ramos:

Adquirir dos brancos fazendas, e vender-lhes os productos do paiz; e

adquirir dos prêtos esses productos, vendendo-lhes as fazendas.

Era Jacintho que fazia o commercio com os brancos, e a tia Lina com os

prêtos.

Jacintho, dotado de uma alma generosa, era muitas vêzes vìctima da sua

boa fé, e das extorções de alguns chefes; o que provocava uma phrase á

tia Lina, que eu muitas vêzes ouvi repetir: "Ah! Jacintho, os brancos

esmagam-te; mas eu esmago os prêtos!"

O verbo empregado pêla tia Lina não era precisamente o verbo _esmagar_,

mas, por muito enèrgico, substituo-lhe outro algo semelhante.

Um dia, Jacintho deu em ser lavrador. Era a costumeira de criança que

puxava por elle. Comprou terreno, e lançou os fundamentos d'essa

vastissima propriedade que é digna de ser visitada; e á qual dedicou o

seu trabalho e a sua bôlça, até ao ùltimo momento de vida que têve.

Era Jacintho conhecido por estropiar as palavras, e citam-se d'elle

tolices engraçadissimas, pêlo mao emprego de um ou de outro vocàbulo que

decorara, mas cuja significação não conhecia bem; com tudo, tinha muito

espìrito, e ha d'elle anecdotas engraçadas. Esta por exemplo:

Já elle se achava estabelecido na sua propriedade do Loge; mas, logo que

ao porto chêgava navio de guerra Portuguez, ia a bordo fazer

offerecimentos aos officiaes; que de genio era franco.

Um dia que elle fôra a bordo, o commandante pediu-lhe um macaco.

"¿Quantos quizér?" lhe respondeu Jacintho; "mande ámanhã um escalér,

pelo Loge até minha casa, buscal-os."

No dia seguinte, um escalér, tripulado por seis homens, encostava ao

muro do jardim de Jacintho. Fêz elle subir o escalér até dois kilòmetros

mais, e chêgando á vertente de um monte coberto de gigantes baobabs, em

cujos ramos horizontaes pulavam centos de macacos, disse aos

marinheiros: "Tôdos estes macacos sam meus, vivem cá dentro da minha

propriedade; tendes licença de apanhar quantos quizerdes e leval-os ao

commandante."

Os marinheiros encaráram com os cimos elevadissimos das enormes àrvores,

cujos troncos, de espantoso diàmetro, não lhes permitiam a subida; e

depois de alguns vãos esfôrços, retiráram desanimados, perseguidos pêla

grita e pêlas caretas da macacaria.

"Eu dei-lhos; se os não levam, não é culpa minha," dizia o Jacintho,

rindo ás gargalhadas.

Visitei a propriedade, e uma cousa que me impressionou foi ver, que,

màchinas, apparelhos, instrumentos, etc., tudo era de fàbrica

Portugueza.

Nada Jacintho admitia que não fôsse Portuguez, e, custassem-lhe o dôbro,

fazia elle fabricar em Lisboa tôdos os seus artigos, já para a

agricultura, já para a industria.

A memoria d'esse homem obscuro--mais conhêcido pêlos disparates que

dizia, do-que pêlas muitas cousas acertadas que fêz--dêve ser respeitada

por tôdos os que se interessam pêlo desenvolvimento Africano; porque

elle foi o homem que, nos modernos tempos, maior serviço fêz, para

desenvolver a agricultura em colonia Portugueza, empregando n'isso a sua

immensa fortuna, e trabalhando até ao seu ùltimo dia.

Na margem esquêrda do Loge, assenta outra propriedade agrìcula, tambem

importante, pertencente ao S^{nr.} Augusto Garrido. Não tive tempo de a

visitar, porque, no dia que ali passei, não pude esquivar-me aos muitos

favores de Nicolao e tia Lina, e tudo o tempo foi pouco para admirar o

que ali, no brejo agreste, a vontade do homem tinha feito.

No dia seguinte, chêgou a canhoneira _Tâmega_, e sube, indo a bordo, que

se achava sem mantimentos, e com grande nùmero de praças doentes; motivo

por que combinei com o commandante, o S^{nr.} Marques da Silva,

esperal-o no Ambriz, em quanto ia a Loanda refrescar.

Três dias depois chêgou a _Tâmega_ de volta de Loanda; indo eu logo para

bordo, com Avelino Fernandes, seguímos viagem no mesmo dia para o Zaire.

Eu tinha adoecido com uma bronchites aguda, de que felizmente melhorei

logo que comêçou a viagem.

Subímos o Zaire até ao Porto da Lenha, onde desembarquei com Avelino

Fernandes, que me apresentou aos seus amigos d'ali. Falei logo em

carregadores. Disséram-me, que seria, talvêz, possivel obtel-os, se os

chefes indìgenas me quizêssem auxiliar; mas que, o melhor meio para mim,

era resgatar escravos, e em seguida contratal-os para o serviço que eu

exigia.

Repugnou-me a idéa de comprar homens, embora fôsse para os libertar em

seguida. E depois, ¿quem sabe se elles me quereriam acompanhar sendo

livres?

Resolvi immediatamente não proceder d'este modo, embora não obtivêsse um

só carregador ali.

Na casa em que estava sube que tinha chêgado a Boma, no dia 9, o grande

explorador Stanley, que descera tudo o curso do Zaire. Stanley tinha

seguido para Cabinda.

Voltei a bordo e combinei com o Commandante irmos a Cabinda offerecer os

nossos serviços ao arrojado viajeiro. Partímos, e logo que ancorámos no

porto, fui a terra, com Avelino Fernandes e alguns officiaes da

canhoneira.

Foi commovido que apertei a mão de Stanley, homem de pequena estatura,

que a meus olhos assumia proporções de vulto colossal.

Offereci-lhe os meus serviços, em nome do Governo Portuguez, e

disse-lhe, que se quizêsse ir a Loanda, d'onde mais facilmente poderia

obter transporte para a Europa, o Commandante Marques lhe offerecia

transporte a elle e aos seus a bordo da canhoneira. Em nome do Governo

Portuguez puz á sua disposição o dinheiro de que carecêsse.

Stanley respondeu-me com um vigoroso aperto-de-mão.

Os officiaes da _Tâmega_ confirmáram os meus offerecimentos em nome do

seu Commandante.

Stanley aceitou, e desde esse momento, ficou a canhoneira á sua

disposição.

Como bem se pôde calcular, eu e Avelino Fernandes não deixàvamos

Stanley, e àvidos de ouvir a narração da sua viagem, o tempo que elle

tinha preso, era por nós passado a questionar os seus homens.

No dia 19, os officiaes da _Tâmega_ déram um soberbo banquête ao

intrèpido explorador, para o qual convidáram o Commandante Marques,

Fernandes e a mim.

No dia 20, partímos para Loanda, levando a bordo tôda a comitiva de

Stanley, que se compunha de 114 pessôas, entre ellas 12 mulhéres e

algumas crianças.

Stanley, em Loanda, foi hospedar-se em minha casa; distincção a que eu

fui muito sensivel, porque recusou, para isso, os muitos convites que

têve, e com elles commodidades que eu não podia offerecer-lhe, n'uma

casa onde tinha por mobilia os meus utensilios de viajeiro.

O Governador mandou logo comprimentar o ilustre Americano, e

offereceu-lhe um banquête, a que assisti. De volta a casa, perguntei a

Stanley, ¿qual a impressão que trazia do S^{nr.} Albuquerque? E elle

disse-me apenas: "_He is a very cold gentleman_." ("É um cavalheiro mui

frio.")

O Consul Americano, o S^{nr.} Newton, deu-nos um almôço, e muitos

favores nos dispensou.

Haviam festas e banquêtes; mas, a 23 de Agôsto, ainda não tìnhamos um só

carregador; e na noite do jantar offerecido a Stanley pêlo Governador,

me repetira sua Excellencia, que não me seria possivel obtel-os, sôbre

tudo em Loanda; mostrando-me a difficuldade em que se encontrara o Major

Gorjão, que apenas tinha podido obter metade do nùmero de homens de que

precisava, para estudar a linha ferrovial do Cuanza.

É tempo de falar dos nossos projectos, segundo a lei, e as instrucções

do Governo.

O Parlamento votara uma somma de 30 contos de réis para se estudarem as

relações hydrogràphicas entre as bacias do Congo e Zambeze, e os paizes

comprehendidos entre as Colònias Portuguezas de uma e outra costa

d'Àfrica Austral.

Umas instrucções subsequentes indicavam mais particularmente o

estudar-se o rio Cuango, nas suas relações com o Zaire; o estudo dos

paizes comprehendidos entre as nascentes do Cuanza, Cunene, Cubango, até

ao Zambeze superior; indicando, que, se possivel fôsse, deveria

estudar-se o curso do Cunene.

O que fôra designado na lei do Parlamento, elaborada pêlo S^{nr.} Corvo,

parece ao principio problema vasto de mais para uma só expedição, e uma

verba de trinta contos de réis; mas a lei foi bem redigida. O S^{nr.}

Corvo sabía, que o viajante em Àfrica, não só nem sempre é senhor dos

seus passos, mas tambem, que no seu caminho pôde encontrar um

não-previsto problema, que julgue de importancia superior á do que lhe

foi designado; e por isso deixou a maior latitude aos exploradores.

Quanto ás instrucções, fôram ellas mais restrictas, mas ainda assim,

deixavam bastante largos os movimentos da expedição.

O ponto de entrada, como dependia essencialmente do logar onde

obtivèssemos carregadores, ficou indeterminado.

Tìnhamos eu e Capello pensado em entrar por Loanda, seguir a leste, até

encontrar o Cuango; descer este rio por dois graos; passarmos ao

Cassibi, que intentàvamos descer até ao Zaire; e finalmente, reconhêcer

o Zaire até á sua foz.

Com a chêgada de Stanley, tendo elle feito uma parte do trabalho que nós

propunhamos fazer, e sôbre tudo a impossibilidade de obter carregadores

em Loanda, tivémos de modificar completamente o nosso plano.

Decidímos, que fôsse eu ao Sul procurar carregadores em Benguella; e

que, se ali os obtivêsse, entràssemos pêla foz do rio Cunene, subindo-o

até ás suas nascentes; e depois seguìssemos com os nossos estudos para

S.E., até ao Zambeze.

Como não podìamos ter grande confiança na gente que ajustàssemos,

lembrámo-nos de pedir ao Governador um certo nùmero de soldados, que

fôssem, por assim dizer, a escolta de vigia. Sua Excellencia accedeu e

mandou saber aos regimentos, se alguns soldados nos quereriam

acompanhar; porque, não sendo aquelle serviço regular, não podia

compellir os soldados a irem.

Ficou, pois, decidido, que eu partisse para Benguella no vapor que no

principio de Setembro devia chêgar de Lisboa.

N'esse vapor veio o Ivens, que pêla primeira vêz eu via. Sympàthico,

ardente, dotado de grande verbosidade, e muito enthusiasmado pêlas

viagens difficeis, depressa me ligou a elle a amizade. Narrámos-lhe tudo

o que resolvêramos fazer, e as difficuldades que tìnhamos encontrado até

então. Ivens concordou com-nosco, e ficou definitivamente resolvida a

minha partida para Benguella, no dia 6.

Preparei-me logo para partir, e fui dar parte d'isso ao Governador.

Durante a minha ausencia os meus companheiros deviam preparar as

bagagens, que estavam em grande desarranjo, com a nossa precipitada

partida da Europa.

Cabe aqui contar um episodio que me aborreceu bastante; porque poderia

ter feito, que Stanley julgasse do caracter meu e dos meus companheiros,

differentemente do que o devia fazer.

No dia 5, ao almôço, conversàvamos eu, Capello, Ivens, Stanley e Avelino

Fernandes, a respeito da escravatura, e mostràvamos a Stanley o espìrito

das leis Portuguezas sôbre o infame tráfico; notando-lhe a falsidade de

asserções de estrangeiros a nosso respeito; e a impossibilidade de fazer

então escravos onde o Governo tinha força. Discorrìamos ácerca do

assumpto, quando Capello têve de ir a Palacio falar ao Governador.

Voltou uma hora depois, e logo em seguida recebia Stanley uma carta

official do S^{nr.} Albuquerque, a pedir que lhe certificasse, ¿se nas

terras do seu governo se fazia escravatura? Stanley veio sorprendido

mostrar-me a carta, e não menos sorprendidos ficámos eu, os meus

companheiros, e Avelino Fernandes. Effectivamente, a nossa conversação

ao almôço, e aquella carta depois de um de nós ir a Palacio, pareceria

ao illustre viajante uma comedia habilmente preparada.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume primeiro · 第 2 / 22 段