Produced by Rita Farinha, João Miguel Neves, Carlo Traverso
and the Online Distributed Proofreading Team at
http://www.pgdp.net (This file was produced from images
generously made available by the Bibliothèque nationale
de France (BnF/Gallica) at http://gallica.bnf.fr)
[Mappa 2.--De Benguella ao Bihé]
COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE
BENGUELLA Á CONTRA-COSTA.
A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS;
DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.
Por SERPA PINTO.
Dois Volumes.
Contendo 15 mappas e facsimiles, e 133 gravuras feitas dos desenhos do
autor.
VOLUME PRIMEIRO.
Primeira Parte--A CARABINA D'EL-REI.
LONDRES:
SAMPSON LOW, MARSTON, SEARLE, e RIVINGTON,
EDITORES,
CROWN BUILDINGS, 188 FLEET STREET.
1881.
[_Tôdos os direitos sam reservados_.]
LONDRES:
NA TYPOGRAPHIA DE GUILHERME CLOWES E FILHOS (COMPANHIA LIMITADA),
STAMFORD STREET E CHARING CROSS.
A SUA MAGESTADE EL-REI D. LUIZ 1^o,
COM PRÈVIA LICENÇA
OFFERECE ESTE LIVRO
O AUTÔR.
SENHOR,
Não foi um sentimento de adulação servil que me levou a pedir licença a
Vossa Magestade para lhe dedicar este livro, foi o reconhecimento de uma
dupla dìvida de justiça e de gratidão: de justiça ao Monarcha
intelligente e illustrado que firmou o decreto creando recursos para a
primeira expedição scientìfica Portugueza d'este sèculo á Àfrica
Central; de gratidão, ao prìncipe cujos dotes de coração e de espìrito
disputam primazias ás suas elevadas qualidades de um dos primeiros reis
constitucionaes da Europa contemporànea.
Deu-me Vossa Magestade ensejo de prender indissoluvelmente o meu obscuro
nome de soldado Portuguez, a uma das mais felizes e auspiciosas
tentativas modernamente feitas por Portugal; por isso esse livro
pertence a Vossa Magestade como legìtimo tìtulo da minha immensa
gratidão. Ouso rogar respeitosamente a Vossa Magestade queira aceitar a
minha humilde offerta com a mesma benevolencia com que se dignou dar-me
incitamentos para uma empresa, da qual, depois de realisada, fôram ainda
os favôres de Vossa Magestade a mais sincera e não regateada recompensa.
O Vosso ajudante de campo
E o mais dedicado dos
Vossos sùbditos,
Alexandre de Serpa Pinto.
Londres, 61 Gower Street,
_5 de Dezembro de 1880_.
A SUA EXCELLENCIA, O CONSELHEIRO JOÃO D'ANDRADE CORVO.
Ill^{mo.} e Ex^{mo.} S^{nr.},
Com propor o meu nome, em 1877, na Commissão Central Permanente de
Geographia, para fazer parte da expedição Portugueza ao interior
d'Àfrica, assumio Vossa Excellencia a responsabilidade da minha
nomeação.
Foi para mim pensamento constante, dar a Vossa Excellencia satisfação
plena do encargo que tomou indigitando-me para tão àrdua tarefa.
Este livro contem, de envolta com a narrativa das minhas aventuras, os
resultados dos meus trabalhos e estudos.
Não sei se corresponderá ao que Vossa Excellencia esperava de mim; como
não sei se cumpri os deveres que Vossa Excellencia, em nome do paiz, me
impoz.
Tenho a consciencia de que trabalhei quanto pude, e que segui, tanto
quanto em fôrças humanas cabia, o pensamento e as instrucções de Vossa
Excellencia.
A leitura da minha narrativa mostrará a Vossa Excellencia, com quantas
difficuldades lutei, e de quão minguados recursos dispuz.
Se, porem, os meus trabalhos corresponderem á confiança com que Vossa
Excellencia me quiz honrar, será isso o maior prèmio a que pode aspirar,
o mais respeitoso admirador do talento, vasto saber e elevadas
qualidades de Vossa Excellencia,
Alexandre de Serpa Pinto.
Londres, 61 Gower Street,
_28 de Novembro de 1880_.
TRIBUTO DE GRATIDÃO.
Vou citar nomes. É difficil e perigosa tarefa. Ha sempre o receio de
ferir modestias, ou levantar susceptibilidades. Não importa; sigo
avante.
Será grande a lista, por serem multiplicados os favôres; e posso bem
peccar por omissão, filha de memoria preguiçosa.
Que me perdôem os que desejariam esconder êsses favôres na mais velada
modestia, como aquelles a quem um lapso de reminiscencia deixasse no
olvido.
Seguindo a ordem chronològica dos factos, procurarei no profundo
sentimento de gratidão a lembrança dos serviços e favôres recebidos.
Cabe á Commissão Central de Geographia o primeiro logar no meu
reconhecimento; por me ter distinguido com a sua escôlha para
instrumento da exploração que decidio fazer em Àfrica.
Proposto pelo S^{nr.} Conselheiro Andrade Corvo, fui unànimemente
aceito, e attendido nas propostas que apresentei para a organização da
emprêsa. Falando da Commissão Central de Geographia, não posso omittir
de citar nomes; porque, recebendo obsèquios de tôdos, fui
particularmente auxiliado por muitos.
O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, Marquez de Souza-Hollstein, Antonio
Augusto Teixeira de Vasconcellos, sam nomes que as lousas tumulares dos
seus jazigos, não podem occultar á minha gratidão.
O D^{or.} Julio Rodriguez, Luciano Cordeiro, o D^{or.} Bocage, Conde de
Ficalho, Carlos Testa, Pereira da Silva, Jorge Figaniere, e Francisco da
Costa e Silva, fôram os cavalheiros que, no seio da Commissão, mais se
esforçáram por me encher de favôres.
Outro, que só annos depois conheci pessoalmente (ausente em quanto se
organizou a expedição), não deixou de concorrer com o sem consêlho
abalizado para a parte scientìfica d'ella. Refiro-me ao S^{nr.} Brito
Limpo.
Fora da Commissão, prestáram-me valiôso auxilio, os meus particulares
amigos Marrecas Ferreira e João Botto.
Vem depois da Commissão Central, a Sociedade de Geographia de Lisboa; e
com ella mais em evidencia, os seus Presidentes, D^{or.} Bocage e
Vizconde de S. Januario, e os seus Secretarios Luciano Cordeiro e
Rodrigo Pequito.
Segue-se o jornalismo Portuguez, a quem cordialmente agradêço tôdos os
favôres que me dispensou, e a maneira por que acolheu a minha nomeação.
Fora do paiz prestáram-me valiôso auxilio, o S^{nr.} Mendes Leal,
Antonio d'Abbadie, e Ferdinand de Lesseps, em Paris; o Vizconde de
Duprat e o Tenente Pinto da Fonseca Vaz, em Londres; sendo que á
cooperação d'estes cavalheiros, e só a ella, podémos eu e Capello ter
dado conta do encargo que tomámos de organizar em um mez o material da
expedição.
Antes de ter deixado Portugal, ha que citar ainda dois cavalheiros, que
concorrêram poderosamente para a realização da nossa emprêsa.
Sam o Conselheiro José de Mello e Gouvea, que então governava nos
negocios do Ultramar, e Francisco Costa, o Director Geral do Ministerio
das Colonias.
Pedro d'Almeida Tito, e Avelino Fernandes, dispensáram-me taes favôres
em viagem, que não posso deixar de escrever aqui os seus nomes.
Vem, em seguida, o do Governador de Cabo Vêrde, Vasco Guedes, e o do
Governador d'Angola, Caetano d'Albuquerque; que ambos me dispensáram
innùmeras finezas.
Em Loanda, José Maria do Prado, Urbano de Castro, o Consul Newton, a
Associação Commercial, e sôbre tudo os officiaes e Commandante da
Canhoneira _Tâmega_, sam crèdores do meu mais profundo reconhecimento.
Apparece agora um nome que n'esse tempo echoava por todas as partes do
mundo, e assombrava com as suas façanhas o orbe inteiro:
Henrique Moreland Stanley.
O grande explorador, o ousado viajante, que acabava de fazer a mais
prodigiosa viagem dos tempos modernos, foi meu amigo, e meu conselheiro,
e d'elle recebi proveitosas lições. Melhor mestre não poderia ter. Que
elle recêba n'estas curtas linhas o mais sincero tributo da grande
admiração que nutro por elle, e a mais franca expressão da minha estima,
e da gratidão que lhe consagro.
Em Benguella, Pereira de Mello e Silva Porto occupam o primeiro logar; e
nem me detenho a falar d'elles, que mais alto falam por mim os seus
actos narrados n'este livro. Antonio Ferreira Marquez, o Tenente
Seraphim, o pharmacèutico Monteiro, e Vieira da Silva, sam outros tantos
cavalheiros que não posso esquècer.
Santos Reis, o meu hospedeiro do Dombe Grande, e o Tenente Roza de
Quillengues, sam mais dois crèdores á minha gratidão.
Vou dar um salto enorme, e sem me deter a falar do D^{or.} Bradshaw e da
familia Coillard, transpòrto-me ao Bamanguato, a _Shoshong_ (Xoxon),
onde os favôres do rei Kama, e sobre tudo os de M^{r.} e Madame Taylor,
me obrigam a não olvidar os seus nomes.
Vai começar para mim um embaraço enorme. Estou em Pretoria; estou na
primeira terra do mundo civilisado que encontro depois de Benguella; e
ali sam tantos os favôres que se me prodigalizam, que não sei como sahir
do embaraço que elles me causam para os agradecer.
M^{r.} Swart, o thesoureiro do Govêrno, foi o primeiro a obsequiar-me, e
será o primeiro citado.
Vem em seguida os nomes de Fred. Jeppe, Secretario Osborne, D^{or.}
Bissik, M^{r.} Kisch, Major Tylor e Capitão Saunders, e tôdos os
officiaes do Regimento 80.
A Baronêza Van-Levetzow, Madame Imink e Madame Kisch, e emfim o Coronel
Lanyan.
Sir Bartle-Frere veio logo em meu auxilio, e não se demorou o nosso
Consul Portuguez no Cabo, o S^{nr.} Carvalho.
Se dêvo muita gratidão ao Governador Inglez, não dêvo menos ao Consul
Portuguez, que, por telegrammas immediatos, veio prestar-me a maior
assistencia.
Monseigneur Jolivet, o sabio Bispo de Natal, então residindo em
Pretoria, não foi dos ùltimos a encher-me de favôres.
Em caminho para Durban, recebi um obsequio grande de M^{r.} Goodliffe, e
em Maritzburgo multiplicáram-se os obsequios do Coronel Baker, Capitão
Whalley e Madame Saunders, e M^{r.} Furs.
Em Durban, M^{r.} Snell, o Consul Portuguez, e M^{r.} e Madame B. H. de
Waal, chefe da Handels Company em Àfrica Oriental, muito se distinguíram
em favôres prestados.
Agora é que se torna verdadeiramente embaraçosa a minha missão. Vou
regressar á Europa, tendo terminado a minha viagem, e accumùlam-se os
obsèquios que recêbo a cada momento.
Em Lourenço Marquez, sam Castilho, Machado, Maia e Fonseca. Em
Moçambique, o Governador Cunha, Torrezão e tôdos.
Em Zanzibar, o D^{or.} e Madame Kirk, Widmar, e sôbre tôdos o Capitão
Draper do 'Danubio' da _Union Steamship Company_, que de Durban me
transportou ali.
No Cairo, ainda Widmar me presta grandes favôres. Em Alexandria,
sobressáe a tôdos o Conde e a Condêssa de Caprara.
Ainda antes de chegar a Lisbôa, recêbo um serviço importante do Barão de
Mendonça, em Bordeos.
Em Lisbôa, o Govêrno, primeiro, e amigos velhos e conhecidos novos,
porfiam em obsequiar-me.
Estou ali apenas dez dias, em que mal tive tempo para receber favôres, e
em que me não sobejou um minuto para os agradecer.
Quizéram que eu fizesse uma conferencia, mal repousado ainda das fadigas
da viagem; e sem o poderôso concurso que me prestáram Pequito, Sarrea
Prado, Batalha Reis e D^{or.} Bocage, impossivel me seria fazel-a.
Não querendo, não podendo mesmo, citar nomes, tantos seriam elles, não
deixo de agradecer, com o mais sincero reconhecimento, á Sociedade de
Geographia de Lisboa tudo o que por mim fez.
Á Associação Commercial e ao seu digno Presidente, o S^{nr.} Chamisso,
que sempre tomou o maior interesse pela exploração de que eu fiz parte.
Sube em Lisbôa um facto que não posso deixar de consignar aqui com um
nome.
Agradêço ao S^{nr.} Thomas Ribeiro as ordens que deu como Ministro da
Marinha, para que me fôssem enviados soccorros de Moçambique para o
interior d'Àfrica.
Ao Côrpo Diplomàtico residente em Lisbôa expresso os meus sentimentos de
gratidão, e sobre todos aos S^{nrs.} Morier, Barão de P. Hegeurt,
Laboulay, Marquez d'Oldoini, e Ruata.
Á Associação Commercial do Porto, aos bombeiros voluntarios d'aquella
cidade, á Sociedade Euterpe e á Sociedade de Instrucção, aos municipios
e mais instituições do paiz que me obsequiáram, consigno aqui um
testemunho de agradecimento.
Ás Associações Portuguezas no Brazil, aos meus conterraneos que longe da
patria me saudáram, a elles que nada poupáram para mim em honras e
distincções, envio um fraternal protesto de immensa gratidão.
Sobre todos áquelles que formáram uma sociedade com o meu nome, e que de
Pernambuco me offerecêram um mimoso presente, de tal distincção, que
nunca os poderei esquècer.
Cabe agora, pela ordem dos factos, agradecer aos Soberanos estrangeiros
as altas honras com que me distinguíram, sôbre tôdos ao Monarcha Belga,
ao Illustrado e sabio Rei Leopoldo, ao grande impulsor do movimento
geogràphico Africano moderno, que, a par da mais alta honra com que me
podia enobrecer, me dispensou a mais cordial estima, e me mostrou o mais
affectuoso interesse.
Ás Sociedades de Geographia da França, principalmente ás de Paris, onde
o Almirante La Roncière le Noury, Ferdinand de Lesseps, MM. Daubré,
Maunoir, d'Abbadie, de Quatrefages e Duveyrier, me enchêram de favôres;
de Marselha, que me conferio uma subida distincção, e cujo Presidente,
M^{r.} Babaut, muito me obsequiou; e á Commercial de Paris, onde
distingo o seu digno Secretario Geral, M^{r.} Gauthiot.
Ainda em Paris, tenho a nomear a Colonia Portugueza, e nella os S^{nrs.}
Mendes Leal, Conde de S. Miguel, Camillo de Moraes, Pereira Leite,
Garrido, e D^{or.} Aguiar, de quem nunca poderei olvidar os favôres
recebidos.
Ás Sociedades de Geographia Belga, e á de Anvers, nomeadamente aos seus
Presidentes, o General Liagne e Coronel Wauvermans; e àlém d'estes
cavalheiros, não posso deixar de falar, em um paiz onde tôdos me
obsequiáram, nos nomes dos S^{nrs.} du Fief, Bamps, e Coronel Strauch, e
ainda mais alto no Conde de Thomar, cujos favôres repetidos e
cordialidade de trato convertêram em verdadeira amizade a sincera estima
das primeiras relações.
Cabe, pela ordem dos factos, o ùltimo lugar á Inglaterra, que seria
talvez a primeira pêlo nùmero de favôres dispensados.
Principiou nas colonias Inglezas da Àfrica do Sul a ter juz á minha
gratidão este paiz, onde depois se me tinham de multiplicar os
obsequios.
Á Sociedade de Geographia de Londres, ao seu Presidente o Conde de
Northbrook, aos seus Secretarios Clements Markham e Bates, aos seus
Membros Sir Rutherford Alcock, Lord Arthur Russell, Visconde de Duprat,
e muitos outros que impossivel seria nomear, deixo aqui escritos os meus
sentimentos de reconhecimento.
Ao S^{nr.} Frederico Youle, ao D^{or.} Peacock, aos S^{nrs.} M. d'Antas,
Sampaio, Fonseca Vaz, Quillinan, Duprat, e Ribeiro Saraiva, a estes que
alem de subidos favôres me dispensáram grandes serviços durante a minha
grave doença, não posso deixar de lavrar um bem pùblico testimunho de
gratidão.
Ainda me falta citar o nome de M^{r.} David Ward, o Mayor de Sheffield,
e do meu particular amigo, o grande e eminente explorador Verney Lovett
Cameron, para fechar a lista, que seria interminavel a não tomar a
resolução de a fechar aqui.
Ás Sociedades Scientìficas dos outros paizes, e a tôdos aquelles que não
posso citar, e que me cobríram de favôres, agradêço tudo quanto por mim
fizéram, e agradêço tanto mais sinceramente, quanto me custa não os
poder personalizar.
Major Alexandre de Serpa Pinto.
Londres, _5 de Dezembro de 1880_.
O LIVRO.
Não tem pretenções a obra de literatura este livro.
Escrito sem preoccupação da forma, é a fiel reproducção do meu diario de
viagem.
Cortei n'elle muitos episòdios de caçadas, e outros, que um dia no
descanso, produzirám um volume de caracter especial. Busquei sôbre tudo
fazer realçar o que mais interessante se tornava para os estudos
geogràphicos e ethnogràphicos, e se não me pude eximir a narrar um ou
outro dos muitos episòdios dramàticos que abundáram na minha fadigosa
empresa, foi quando a êsses episòdios se ligavam factos consequentes, de
importancia, ja para alterar o itinerario projectado, já determinando
demoras, ou marchas precipitadas, que seriam incomprehensiveis sem a
exposição das causas determinantes.
Á Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos sertões do interior
d'Àfrica, não é dado comprehender o que se soffre ali, quaes as
difficuldades a vencer a cada instante, qual o trabalho de ferro não
interrompido para o explorador.
As narrações de Livingstone, Cameron, Stanley, Burton, Grant, Savorgnan
de Brazza, d'Abbadie, Ed. Mohr e muitos outros, estam longe de pintar os
soffrimentos do viajante Africano. Difficil é comprehendel-o a quem o
não o experimentou; áquelle que o experimentou difficil é descrevel-o.
Não tento mesmo pintar o que soffri, não procuro mostrar o quanto
trabalhei, que me façam ou não a justiça de que me julgo merecedor
aquelles que examinarem os meus trabalhos, hôje é isso para mim
indifferente; porque me convenci, de que só posso ser bem comprehendido
pêlos que como eu pisáram os longìnquos sertões do continente nêgro, e
passáram os maos tratos que eu por lá passei.
Assim como só o homem que, sendo pai, pode comprehender a dôr pungente
da pêrda de um filho, assim tambem só o homem que foi explorador pode
comprehender as atribulações de um explorador. Ha sentimentos que se não
podem avaliar sem se haverem experimentado.
Os factos narrados n'este livro sam a expressão da verdade.
Verdade triste muitas vêzes, mas que seria um crime occultar.
Procurei apresentar nêlle os resultados de um trabalho aturado de muitos
mêzes, e garanto o que digo sôbre geographia Africana, porque só eu sou
autoridade para falar n'ella na parte respectiva á minha viagem, em
quanto outro não houvér seguido os meus passos atravéz d'Àfrica, e não
me convencer do contrario.
As minhas opiniões genèricas sôbre um ou outro problema podem ser
erròneas, sam sujeitas á crìtica, podem cahir por terra com uma
demonstração pràtica das futuras viagens, como tem acontecido a
asserções de muitos dos meus antecessores os mais illustres; mas o que
não tem nem pode ter contestação, sam os factos que eu vi, sam aquelles
que se referem aos paizes que percorri, e que descrêvo n'este livro com
a consciencia que deve sempre dictar as acções do explorador.
Não fui á Àfrica ganhar dinheiro. Tive a mesquinha paga de official do
exèrcito e não quiz outra.
Abandonei uma familia extremosamente querida; deixei a pàtria e tudo
para trabalhar, e só para trabalhar, em cooperação com os outros paizes,
na grande obra do estudo do continente desconhecido, e tenho a
consciencia de que fiz tanto quanto podia fazer.
Deixo aos homens de sciencia e áquelles que sam autoridades em tal
materia o avalial-o.
Ponho ponto n'este assumpto que parecerá filho de um orgulho que não
tenho, mas factos insòlitos apparecidos no decurso dos primeiros mêzes
da minha residencia na Europa, depois de ter completado a fadigosa
jornada d'Àfrica, dictáram as palavras que escrevi.
Ha um anno que principiei a coordenar em livro os resultados dos meus
trabalhos Africanos, mas uma pertinaz doença por vêzes interrompeu a
vontade que nutria de dar á estampa esses trabalhos.
Principiado em Londres em Setembro de 1879, o meu livro foi quasi tôdo
escrito nos mêzes de Setembro e Outubro, de 1880, na Figueira da Foz, em
Portugal.
A pressa com que foi terminado contribuirá de certo muito para a
incorrecção da forma.
A publicação d'elle é feita em Londres, onde encontrei na grande casa
editora Sampson Low, Marston, Searle and Rivington, todas as facilidades
que não pude obter fora d'ella.
Estes cavalheiros não recuáram ante a enorme despesa a fazer com uma tão
difficil e custosa publicação, e leváram a sua condescendencia a fazer
imprimir em Inglaterra a edição Portugueza; trabalho difficilimo, porque
a differença das lìnguas dos dois paizes obrigou até á fundição de typo,
por causa dos signaes e accentos privativos do nossa idioma.
Devo-lhes a maior gratidão pêlo interesse que t[~e]m dedicado a esta
publicação, para o mèrito da qual, se é que ella tivér algum mèrito,
elles de certo concorrêram muito.
O S^{nr.} Antonio Ribeiro Saraiva, que, a pesar dos seus trabalhos e da
sua avançada idade, me quiz fazer o favor especial de rever as provas do
livro; o S^{nr.} E. Weller, o cartògrapho, que se encarregou da gravura
das minhas cartas geogràphicas; o S^{nr.} Cooper, que interpretou
magnìficamente os meus esbocêtos de viagem nas gravuras que illustram a
obra, concorrêram tambem de certo muito para o valor d'ella.
Ahi vai, pois, o livro, e só desejo que elle corresponda e sirva á
curiosidade de uns e ao estudo de outros; e venha dar novos incitamentos
á grande e sublime cruzada do sèculo XIX., a cruzada da civilisação do
Continente Nêgro.
Londres, 61 Gower Street,
_5 de Dezembro de 1880_.
O TÌTULO DO LIVRO.
Hôje, depois de jantar, sahi a dar um passeio, e de volta a casa,
encontrei sôbre a minha mêsa de trabalho, pregado com um alfinete, um
pedacinho de papel, recortado não sei de que jornal, que dizia assim:
"O _Athenaeum_ diz, que o Major Serpa Pinto, restabelecido da sua
prolongada doença, chegou a Londres, para terminar a publicação do livro
descriptivo da sua jornada atravez d'Àfrica. Dá-nos grande satisfação o
saber, que o tìtulo d'elle foi alterado, de 'Carabina d'El-Rei,' para o
de 'Como eu Atravessei Àfrica.' 'A Carabina d'El-Rei' pode ser um
magnìfico tìtulo para um livro de aventuras de rapazes, por Mayne Reid
ou Gustave Aimard; mas parece um pouco deslocado na pàgina tìtulo de um
livro sèrio de explorador Africano."
É meia noute, e eu sinto necessidade de me deitar; mas antes d'isso não
posso deixar de escrever duas palavras sôbre o assumpto.
A consideração tinha e não tinha razão de ser.
As viagens n'Àfrica produzem sempre um romance, e algumas vêzes tambem
um livro de sciencia.
A minha, se, como todas, é um verdadeiro romance, não deixa por isso de
conter trabalhos geogràphicos de alguma importancia.
Formei logo o projecto, que hôje executo, de misturar em a narrativa
esses trabalhos com as minhas aventuras, como elles tinham sido
misturados nos sertões Africanos.
A respeito do tìtulo para o livro, nada me preoccupei d'isso.
Sendo salva a expedição, e por isso tôdos os trabalhos que a ella se
ligavam, pêla Carabina d'El-Rei, pensei em dar aquelle tìtulo á obra
tôda. Não me davam cuidado juizos dos crìticos severos. A minha
justificação estaria no correr da narrativa.
Veio porem uma consideração modificar o meu projecto.
Um homem, um ùnico homem no mundo, incapaz de me increpar em pùblico
pêlo exclusivismo do tìtulo, de certo pensaria um momento em que eu
tinha sido injusto para com elle em fazer sobressahir no meu livro o
facto de ter sido salva a expedição pêla Carabina d'El-Rei, quando elle
teria igual juz á minha gratidão, tendo-me salvo por seu turno.
Pesou-me aquelle primeiro tìtulo escolhido, como uma injustiça que fazia
a Francisco Coillard, quando esse tìtulo me tinha sido dictado sòmente
por um sentimento de justiça, porque sou pouco propenso a expressões de
adulação.
Resolvi immediatamente conservar o tìtulo de Carabina d'El-Rei á
primeira parte da minha narrativa, e dar á segunda o nome de Francisco
Coillard, o homem que, salvando-me, salvou os trabalhos da expedição que
eu dirigia. Cumpria um devêr.
Mas desde esse momento, era preciso dar um tìtulo geral á obra, e esse
não é nunca difficil de se encontrar quando se tem atravessado um
continente de mar a mar.
Eis porque o meu livro se chama hoje:--"Como eu atravessei Àfrica."
Sei que pouco deve importar ao pùblico o tìtulo, qualquér, de uma obra
d'estas. É preciso chamar-se-lhe alguma cousa, e eu chamei-lhe assim.
Pesar-me-ha se elle desagradar a alguns, mas ainda assim não me
preoccupo com isso a ponto de não me ir deitar já, esperando ter um sono
profundo durante a noite.
Londres, 61 Gower Street,
_12 de Dezembro de 1880, á meia noite_.
CONTEÜDO.
PRÒLOGO.
I.--Como eu Fui Exploradôr
II.--Como foi Preparada a Expedição
CAPÌTULO I.
EM BUSCA DE CARREGADÔRES.
Chegada a Loanda--O Governador Albuquerque--Não ha
carregadôres--Vou ao Zaire--O Ambriz--Chêgo ao Porto da Lenha--Os
resgatados--Sei da chegada de Stanley--Vou a Cabinda--Tomo Stanley
a bôrdo da _Tâmega_--Os officiaes da canhoneira--Stanley meu
hòspede--O nosso itinerario--Chegada do Ivens
CAPÌTULO II.
AINDA EM BUSCA DE CARREGADÔRES.
O Governadôr, Alfredo Pereira de Mello--A casa do
Governadôr--Cousas de que não tem culpa o Governo da Metròpoli--O
que é Benguella--O commercio--Sou roubado--Outro roubo--A
Catumbela--Obtenho carregadôres--Chegada de Capello e Ivens--Nova
alteração de itinerario--Outra difficuldade--Silva Porto, o velho
sertanejo--Apparecem novos obstàculos--O Capello vai ao
Dombe--Partida--O que é o Dombe--Novas difficuldades--Partimos
emfim
CAPÌTULO III.
HISTORIA DE UM CARNEIRO.
Nove dias no deserto--Falta de àgua--O ex-chefe de Quillengues--Eu
perco-me nas brenhas--Dois tiros a tempo--Perde-se um muleque eu e
uma prêta--Perde-se um burro--Quillengues emfim--Morte do carneiro
CAPÌTULO IV.
POR TERRAS AVASSALLADAS.
Jornada a Ngola--O sova Chimbarandongo--Belleza do caminho--Chegada
a Caconda--José d'Anchieta--Nada de correspondencia--Chegada do
Chefe--Vamos aos carregadôres--Ivens vai ao Cunene e eu vou ao
Cunene--Volta de casa do Bandeira--Falham os carregadôres--O meu
juizo
CAPÌTULO V.
VINTE DIAS DE AGONIA.
Parto de Caconda--O sova Quissembe--Quingola e o sova Cáimbo--40
carregadôres--Febre--O Huambo, o sova Bilombo e seu filho
Capôco--80 carregadôres--Cartas e noticias--Quasi perdido!--Sigo
avante--Grave questão no Chaca Quimbamba--Os rios Caláe, Cahungamua
e Cunene--Nova e séria questão no Sambo--O Cubango--Chuvas e
temporaes--Grave doença--Uma aventura horrivel--O Bihé finalmente!
CAPÌTULO VI.
PEREIRA DE MELLO, E SILVA PORTO.
No Bihé--Doença--Melhoras--A casa de Belmonte--Decido ir ao alto
Zambeze--Cartas ao Governo--Como se organiza uma expedição no
Bihé--Difficuldades, e como se vencem--Noticia sôbre o Bihé--Os
meus trabalhos--Novas difficuldades--Deixo Belmonte--Até ao
Cuanza--Escravatura
Rapido Golpe-de-Vista Retrospectivo
CAPÌTULO VII.
ENTRE OS GANGUELAS.
Passagem do Cuanza--Os Quimbandes--O sova Mavanda--Os rios Varea e
Onda--Fetus arbòreos--Atribulações--Escravos--O rio Cuito--Os
Luchazes--Emigração de Quibocos--Cambuta--O Cuando--Leopardos--Os
Ambuelas--O sova Moem-Cahenda--Descida do rio Cubangui--Os
Quichobos--Peripecias--Parto para o Cuchibi
CAPÌTULO VIII.
AS FILHAS DO REI DOS AMBUELAS.
O Cuchibi--O sova Caú-eu-hue--Os Mucassequeres--Opudo e
Capeu--Abundancia--Bondade dos indìgenas--Povoações e costumes--Um
vao no Cuchibi--O rio Chicului--Caçada--Feras--O Rio Chalongo--Uma
jornada atroz--As Nascentes do Ninda--O tùmulo de Luiz Albino--A
planicie do Nhengo--Trabalhos e fome--O Zambeze a final
LISTA DAS ILLUSTRAÇÕES.
FIG.
1.--Mulheres Mundombes, vendedeiras de carvão
2.--Mulheres e Donzellas, Mundombes
3.--Homens Mundombes (_De uma photo. de Monteiro_)
4.--Homem e Mulhér do Huambo
5.--Mulhér do Sambo
6.--O meu Acampamento entre o Sambo e o Bihé
7.--Ponte de Cassanha sôbre o rio Cubango
8.--O Secúlo que me deu um Pôrco
9.--Mulheres Ganguelas das margens do Cubango
10.--Termites na margem do rio Cutato dos Ganguelas
11.--Monte termìtico, de 4 metros de altura, nas margens do Rio Cutato
dos Ganguelas, coberto de vegetação
12.--Sepultura de Secúlo
13.--Ferreiros Caquingues
14.--1. Folles; 2. Bocal de Barro; 3. Bigorna; 4. Martello
15.--Objectos fabricados pelo gentio entre a Costa e o Bihé
16.--Casa de Belmonte
17.--Vista exterior da povoação de Belmonte, no Bihé
18.--Planta da povoação de Belmonte, no Bihé
19.--Mulhér do Bihé cavando
20.--Carregador Biheno em marcha
21.--Palissada sôlta; Palissada amarrada com Casca de àrvore; Palissada
travada com Forquilhas
22.--Planta de uma Libata de gentio no Bihé
23.--Fora da Porta das Libatas ha isto
24.--Objectos fabricados por Bihenos
25.--Quinda, cêsta de palha que não deixa passar a àgua; Peneiro para
secar a farinha (fuba); Peneiro de peneirar; Cabaça para
tirar àgua á capata
26.--Uma Casquilha do Bihé
27.--Mulheres do Bihé pisando Milho
28.--Mulheres Ganguelas Luimbas e Loenas. Modo por que cortam
os Dentes incisivos
29.--Montes termìticos, dos terrenos entre a Costa e o Bihé
29A.--Viagem ao Cunene
30.--Passagem do Cuanza
31.--Homem e Mulhér Quimbandes
32.--Raparigas Quimbandes
33.--Os Bihenos construindo as Barracas nos Acampamentos
34.--Esqueleto da Barraca
35.--Barraca concluida em uma hora
35A.--Ganguelas e Quimbandes
36.--O Sova Mavanda vem dançar mascarado ao meu Campo
37.--Mulhér Quimbande carregada
38.--1. Cachimbo; 2. Facas; 3. Cacêtes de guerra
39.--Ditassoa, peixe do rio Onda
40.--Fetus arbòreos das margens do rio Onda
41.--Mulhér de Cabango com o ferro de coçar a cabeça
42.--Homem de Cabango
43.--Homem de Cabango
44.--O Lago Liguri
45.--Luchaze das margens do rio Cuito
46.--Mulhér Luchaze carregada
47.--Isqueiro dos Luchazes, Caixa da isca e Fuzil
48.--Atundo, Planta e Fruto
49.--Povoação de Cambuta, Luchaze
50.--Mulhér Luchaze de Cambuta
51.--Homem Luchaze de Cambuta
52.--Objectos fabricados pelos Luchazes
53.--Mulhér Luchaze do Cutangjo
54.--Cachimbo Luchaze
55.--Capoeira dos Luchazes
56.--Urivi, Armadilha para caça
57.--Luchaze do Cutangjo
58.--Objectos Luchazes
59.--O Cuchibi
60.--Fôlha e Fruto do Cuchibi
61.--O Mapole, Àrvore e Fôlha
62.--Mapole, Fruto e disposição dos Ramos
63.--Moene-Cahenda, Sova de Cangamba
64.--Chimbenzengue. Machado dos Ambuelas do Cangamba
65.--Cachimbo Ambuela
66.--O Quichôbo
67.--Oúco
68.--Opumbulume
69.--O Rato mencionado
70.--Songue;
70A.--Rasto do Songue
71.--Muene-Caú-eu-hue, Chefe dos Ambuelas
72.--Mulhér Ambuela
73.--Opudo
74.--Capêu
75.--Barco e Remo do Cuchibi
76.--Tambor das festas Ambuelas
77.--Caú-eu-hue
78.--O Irmão do Sova
79.--Caçador Ambuela
80.--Chinguene
81.--Lincumba
82.--Chipulo ou Nhele
83.--O Vao do Cuchibi
84.--Azagaias dos Ambuelas
85.--Ferros de frechas dos Ambuelas
86.--Malanca
87.--1. Cornos vistos de frente; 2. Rasto da Malanca
88.--O Bùfalo Africano
89.--Escudo dos Luinas
90.--O Chefe Cicota
91.--Termites do Nhengo
92.--1 e 2. Casas Luinas de 1^{m.} 5 de altura; 3. Celeiro; 4. Enxada do Lui
93.--Corte vertical de uma Casa Luina da aldea da Tapa
* * * * *
MAPPAS NO VOLUME PRIMEIRO.
Mappa No. 1.--Africa Tropical e Austral
" " 2.--De Benguella ao Bihé
" " 3.--Entre Cubango e Cuanza
" " 4.--O Paiz dos Quimbandes
" " 5.--Disposição da àgua em Cangala
" " 6.--De Cambuta ao Cubangué
" " 7.--Paúl da nascente do Cuando
" " 8.--De Cangamba ao Cuchibi
COMO EU ATRAVESSEI A ÀFRICA.
Primeira Parte.--A CARABINA D'EL-REI.
PRÒLOGO.
I.--Como eu fui Explorador.
No correr do anno de 1869, fiz parte da columna de operações que no
baixo Zambeze sustentou cruenta guerra contra os indìgenas de
Massangano. O S^{nr.} José Maria Latino Coelho, então Ministro da
Marinha e Ultramar, dera ordem ao Governador de Moçambique, para que,
finda a guerra, me proporcionasse os meios de subir o Zambeze, a fazer
um detalhado reconhecimento do paiz, tão longe quanto me fôsse possivel.
A ordem foi dada, mas não foi cumprida; e depois de vãs instancias, e de
um ligeiro passeio pelas terras Portuguezas d'Àfrica Oriental, voltei á
Europa, com mais desejo que antes, de estudar o interior d'aquelle
continente, que mal tinha entrevisto.
Razões particulares de familia fizéram adiar, se não aniquiláram, os
meus projectos.
Official do exèrcito, sempre de guarnição em pequenas terras de
provincia, fazia das minhas horas de òcio horas de trabalho; e ainda que
mal antevia a possibilidade de ir á Àfrica, era o estudo das questões
Africanas o meu ùnico e exclusivo passatempo.
As sublimes questões de astronomia não eram por mim desprezadas, e o
muito tempo que me deixava a vida da caserna era repartido entre o
estudo da Àfrica e do ceo.
Servia em Caçadores 12 no correr de 1875, e ali tive por camarada um dos
mais intelligentes homens que tenho conhecido, o Capitão Daniel Simões
Soares.
Pouco depois de havermos feito conhecimento, èramos ligados por estreita
amizade.
O quarto mesquinho do illustrado official, na caserna da Ilha da
Madeira, reunia-nos durante as horas em que o regulamento nos obrigava a
viver ali; e quantas vezes, estando um de nós de serviço, têve a
companhia do outro! Àfrica, e sempre Àfrica, era o nosso assumpto de
conversação. Apraz-me recordar esse tempo, essas horas que fazìamos
correr velozes, debatendo questões, que eu mal pensava seria chamado a
resolver um dia.
Em fins de 1875, redigi uma memoria, que submetti á crìtica de Simões
Soares, e de outro meu camarada, o Capitão Camacho; memoria filha das
nossas interminaveis palestras Africanas.
Propunha eu um meio de estudar parcialmente o interior das nossas
colonias de Àfrica Oriental, e isso com a maior economía para o Estado.
Depois de muito debatida a questão por nós tres, foi a memoria enviada
ao Governo de Sua Magestade; mas sube depois que nunca chegara ás mãos
do Ministro da Marinha.
A esse tempo, eu pensava outra vez em voltar á Àfrica, apesar de ser
chefe de familia, e de me prenderem a Portugal interesses de subida
importancia.
Por fins de 1876 voltei a Lisboa, e conheci que as questões Africanas
tinham ali tomado grande interesse com a creação da Commissão Central
Permanente de Geographia, e com a fundação da Sociedade de Geographia de
Lisboa.
Falava-se muito n'uma grande expedição geogràphica ao interior d'Àfrica
Austral.
Fui procurar immediatamente o Ministro das Colonias. Era o S^{nr.} João
d'Andrade Corvo. Se não é facil explorar a Àfrica, não é menos difficil
falar ao Ministro, e sôbre tudo se esse Ministro é o S^{nr.} João
d'Andrade Corvo. Sua Excellencia tinha a seu cargo duas pastas, Marinha
e Estrangeiros, e o tempo não lhe sobejava para falar aos importunos.
Persegui-o uns oito dias, e na vèspera da minha partida de Lisboa,
obtive uma audiencia do Ministro dos Negocios Estrangeiros.
Sua Excellencia recebeu-me com secura, dizendo-me, que podia dispôr de
pouco tempo, e perguntando-me, ¿o que eu queria?
Travou-se entre nós o seguinte diàlogo:--
"Ouvi dizer, que V. Ex^{a.} pensa em enviar á Àfrica uma expedição
geogràphica; e sôbre isto venho falar."
O Ministro mudou logo de tom para comigo, e mandou-me sentar com toda
afabilidade.
"¿Já estêve em Àfrica?" me perguntou elle.
"Já estive em Àfrica, conheço um pouco o modo de viajar ali, e tenho-me
occupado muito em estudar questões Africanas."
"¿Quer ir fazer uma longa viagem na Àfrica Austral?"
Declaro que hesitei um momento em responder. "Estou prompto a ir," disse
por fim.
"Bem;" me disse elle, "penso em enviar uma grande expedição á Àfrica,
bem provida de recursos; e quando tratar de organizar o pessoal, não
esquècerei o seu nome."
"É verdade"; me disse, quando eu já ia a sahir, "¿que condições e que
vantagens pede por esse serviço?"--"Nenhumas," lhe respondi eu, e sahi.
Fui do Ministerio dos Negocios Estrangeiros á Calçada da Gloria, N^{o.}
3, e procurei o D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, Vice-presidente da
Commissão Central Permanente de Geographia. Tivémos larga conferencia, e
o distincto sabio, então todo entregue a questões geogràphicas,
disse-me, que já tinha pensado em um distincto Official da nossa Marinha
de Guerra, Hermenigildo Capello, para fazer parte da expedição.
No dia seguinte parti para o Norte. A viagem e os ares do campo fizéram
arrefècer um pouco o febril enthusiasmo que se apossara de mim em
Lisboa, e pensando maduramente, resolvi não ir explorar em Àfrica.
Minha mulhér e minha filha eram laços difficeis de romper, e cada vez
que a idéa de me privar das caricias da meiga criança me passava pela
mente, arrefècia completamente em mim o ardor das explorações.
De um lado, a familia, e do outro a Àfrica, eram dois poderosos
atractivos que me tinham perplexo. Encontrei um meio de resolver a
questão. Se eu fosse nomeado Governador de um districto, podia ir
estudar uma parte d'Àfrica, sem me separar da familia. Fui collocado no
4 de Caçadores, e na minha viagem para o Algarve, passei alguns dias em
Lisboa. Não se falava mais em expedição exploratoria, e apenas um
enthusiasta, Luciano Cordeiro, não tinha descrido de que ella se faria;
e na sociedade de geographia, de que era Secretario, tinha levantado um
alto brado a favor d'ella. O D^{or.} Bernardino Antonio Gomes, já de
idade provecta, tinha cedido ao peso do seu incessante labutar, e sentia
já os primeiros symptomas do mal que, pouco depois, arrancando-lhe a
vida, devia arrancar a Portugal e ao mundo uma das maiores illustrações
Portuguezas do sèculo 19.
Eu não conhecia a esse tempo o homem ardente e illustrado a quem hoje me
prende verdadeira amizade--Luciano Cordeiro.
Todos aquelles a quem falava de exploração, me diziam ser cousa adiada.
Ao passo que o estado em que encontrei as cousas em Lisboa me compungia,
pois que via perder-se a luz que um momento brilhara, para dar um
impulso harmònico ás explorações Portuguezas em Àfrica; por outro lado,
sentia um certo prazer em ver-me, por esse meio, libertado do meu
compromisso; compromisso que me separaria dos entes que me sam caros.
Nutri então a idéa de ir governar, e de me estabelecer em Àfrica, n'essa
Àfrica em que eu queria trabalhar, sem por isso me separar dos meus.
Fui falar ao Ministro.
D'essa vez fui logo cordialmente recebido. Estranhei o caso, não se
falando já de explorações.
"¿O que o traz por aqui?"--"Venho pedir a V. Ex^{a.} o governo de
Quillimane, que está vago." O S^{nr.} Corvo rio-se. "Tenho missão de
maior monta a confiar-lhe;" me disse; "preciso de si para cousa
differente de governar um districto em Àfrica; e por isso não lhe dou o
governo de Quillimane."--
"¿Então V. Ex^{a.} ainda pensa em fazer explorar a Àfrica? Eu com
franqueza digo, que hoje não creio que a idéa se realize."--
"Dou-lhe a minha palavra de honra," me disse o Ministro, "que ou hei de
deixar de ser João de Andrade Corvo, ou na pròxima primavera, uma
expedição organizada como ainda se não organizou expedição alguma na
Europa, ha de partir de Lisboa para a Àfrica Austral."--
"¿E conta comigo?"--
"Conto comsigo," me disse, "e em breve terá noticias minhas."
Sahi aterrado do Gabinete do Ministro.
Cheguei ao Hotel Central, e escrevi o seguinte: "Não tenho a honra de o
conhecer, mas preciso falar-lhe, e peço-lhe uma entrevista."
Sôbreescritei, a "Hermenigildo Carlos de Brito Capello--Official de
guarnição a bordo do couraçado _Vasco de Gama_."
No dia immediato, recebi a seguinte resposta:--"Estou hoje no Café
Martinho, ás 3 horas.--Capello."
Ás tres horas entrava no Café Martinho, e vi que as mesas estavam
completamente desertas. Só a uma dellas estava sentado um primeiro
tenente de marinha, que eu não conhecia mesmo de vista. Devia ser o meu
homem. Bebia pausadamente um grog, e tinha a cabeça descoberta.
Era de mediana estatura, tanto quanto eu pude avaliar estando elle
sentado. Moreno, de olhar plàcido; o cabello raro, e grisalho, o pequeno
bigode já esbranquiçado, davam-lhe um ar de velhice, que era desmentido
pela tez desenrugada, e apresentando o lustre da juventude.
"¿É o S^{nr.} Capello?"--
"Sou; ¿é o S^{nr.} Serpa Pinto? já o esperava, e sei que, provavelmente,
vem falar-me d'Àfrica."--
"É verdade. ¿Então está decidido a fazer parte da expedição?"--
"Estou; e já n'isso falei ao D^{or.} Bernardino Antonio Gomes."--
"Foi elle que me falou no S^{nr.}; ¿que compromissos tem?"--
"Nenhuns. Não sei bem o que o Governo quer; falei duas vezes com o
D^{or.} Gomes; ainda não vi o Ministro, e apenas lhe posso dizer, que,
se for á Àfrica, escolherei para companheiro um meu amigo, e camarada na
armada, Roberto Ivens. ¿Conhece-o?"--
"Não o conheço. Falei ao Ministro e elle disse-me, que contava comigo
para a expedição."--
"N'esse caso, uma vez que já tem compromissos com o Ministro, eu desisto
de ir."--
"¡Ora essa!... então desisto eu."--
"Mesmo, eu não creio que a cousa vá a effeito."--
"Nem eu creio muito; mas emfim, se for a effeito, ¿porque não havemos de
ir ambos? Não nos conhecemos, é verdade; mas em breve travaremos ìntimas
relações, e creio bem chegaremos a ser amigos."--
"¿E porque não? Então, se a expedição for ávante, iremos juntos, e
escolheremos para nosso companheiro ao meu amigo Roberto Ivens."--
"Esta dito. ¿Pensa sèriamente que o Governo votará uma tão grande verba
como a que é precisa para uma empresa d'estas?"--
"Não sei, duvido; e agora ùltimamente fala-se menos na expedição."
Conversámos largamente, e separámo-nos; tendo a ìntima convicção de que
a expedição nunca se realizaría.
Ainda me encontrei com Capello nos dias seguintes, e depois
separámo-nos. Elle seguio viagem no couraçado _Vasco da Gama_ para
Inglaterra; e eu fui tomar o commando da minha companhia em Caçadores 4,
no Algarve.
Com o descanço da vida de guarnição, voltei ao estudo, e tive a
felicidade de encontrar um amigo no Algarve, Marrecas Ferreira,
distincto official de Engenheiros, que, meu companheiro nas mesas do
trabalho, tinha sempre um bom conselho a dar-me, nas questões
mathemàticas, que elle maneja com intelligencia superior. Foi por seu
intermedio que travei relações epistolares com Luciano Cordeiro, a quem
depois me devia ligar estreita amizade.
Por esse tempo, redigi duas pequenas memorias, que por intermedio de
Luciano Cordeiro chegáram ás mãos do Ministro da Marinha, em que tratava
do modo de organizar uma expedição de exploração na Àfrica Austral.
Passáram-se mezes, e não mais me faláram de expedição.
Recebi duas cartas do Capello, em que me mostrava a sua completa
descrença em que a cousa fosse a effeito. Eu mesmo nutria igual
descrença. Na Commissão Permanente de Geographia discutiam-se varios
projectos de expedições; mas tudo ficava em discussões.
Um dia, vi nos jornaes, que o Ministro, o S^{nr.} João d'Andrade Corvo,
apresentara no parlamento um projecto, pedindo um crèdito de 30 contos
para uma expedição em Àfrica; mas, pouco depois, cahio o Ministerio, e
foi o S^{nr.} José de Mello Gouvea encarregado da Pasta das Colonias;
quando o projecto ainda não tinha sido votado no parlamento.
Tornava-se a falar da projectada exploração; mas os jornaes davam por
escolhidos exploradores que eu não conhecia, e ás vezes apenas falavam
em Capello.
Eu então estava em Faro, e se me não descurava dos meus estudos
astronòmicos e Africanos, ouvindo os conselhos de João Botto, distincto
professor da escola de Pilotos de Faro, não nutria já idéas de viajar. O
meu tempo era passado entre as caricias da familia e os meus livros de
estudo, e sentia-me muito feliz, nos conchêgos do lar domèstico, para
pensar em trocar a minha vida plàcida pelo bulicio e azares das viagens.
Seguia com interesse nos jornaes as noticias de Lisboa, e vi que o nôvo
ministro, José de Mello Gouvea, havia no parlamento apoiado a proposta
de João d'Andrade Corvo, e que fôra votada a somma de 30 contos para uma
exploração. A morte de Bernardino Antonio Gomes, vìctima, talves, do
muito interesse que dedicou ao estudo das questões Africanas, n'uma
idade em que as fadigas passadas lhe aconselhavam completo repouso de
espìrito, a morte d'esse eminente sabio, veio produzir um grande vàcuo
na Commissão Central de Geographia. Outros, é verdade, tomando grande
interesse nas questões palpitantes, levantavam a voz no seio da
commissão; mas discussões repetidas iam adiando a pràctica urgente.
Eu, apesar de se ter votado a verba no parlamento, já não via
possibilidade de se levar a effeito a expedição em 1877; e em vista do
que sabia pela imprensa, não pensava que se lembrassem de mim, se
aquella fosse a affeito; e devo dizel-o, dava-me isso um certo prazer.
O Algarve é um paiz delicioso; reina ali uma atmosphera oriental, e as
copas elegantes das palmeiras que se inclinam sôbre as casas em
terraços, faz-nos, ás vezes, esquècer de que vivemos no prosaïsmo da
Europa. Eu era ali o commandante militar, quer dizer, que afazeres
poucos tinha.
O convivio de uma sociedade escolhida; os carinhos da familia; os meus
livros de estudo, e os meus instrumentos de observações, faziam-me
passar horas bem felizes, d'essa plàcida felicidade que a muitos não é
dado conhecer. O lar caseiro, o xambre e os pantufos chegáram a ser para
mim o ideal do bem-estar.
Findara o mez d'Abril, e com o de Maio viera o calor, que se faz
fortemente sentir em Faro; e eu fazia projectos para o verão; quando, um
dia, recebo um telegrama em que me ordenavam de me apresentar
immediatamente ao General commandante da Divisão; e ali achei uma ordem
para me apresentar sem perda de tempo ao Ministro das Colonias.
Adeos casa, adeos xambre, adeos pantufos, adeos vida tranquilla e
plàcida junto dos meus; ahi vôlvo a correr mundo.
Quatro dias depois, em torno de uma grande mesa, n'uma grande sala do
Ministerio da Marinha, uma duzia de graves personagens, uns d'òculos,
outros sem òculos, uns velhos outros nôvos, todos conhecidos, ou pelas
sciencias, ou pelas letras, ou pelos seus serviços pùblicos, tratavam de
questões Africanas. Presidía a esta solemne sessão o Ministro José de
Mello Gouvêa.
Eram Secretarios D^{or.} José Julio Rodrigues e Luciano Cordeiro. Conde
de Ficalho, Marquez de Souza, D^{or.} Bocage, Carlos Testa, Jorge
Figaniere, Francisco Costa, o Conselheiro Silva, e Antonio Teixeira de
Vasconcellos, lembra-me que estavam ali.
Lá no fundo da mesa a um canto, encaixado na poltrona, estava um homem
de basto cabello e basto bigode grisalho, a olhar para mim por entre os
vidros da luneta de tartaruga. Era João de Andrade Corvo, que me dizia
com o olhar: "Eu bem lhe afiancei que a cousa se havia de fazer."
Junto de mim estava Capello, e ao cabo de duas horas sahìamos d'ali, com
as instrucções precisas para a nossa viagem. Tìnhamos escolhido um
terceiro socio, e esse era o tenente Roberto Ivens, o amigo de Capello,
que eu não conhecia, e que a esse tempo estava em Loanda a bordo do seu
navio de guerra. Estàvamos a 25 de Maio, e tomámos o compromisso de
partir a 5 de Julho. Era muito, porque tìnhamos que vir preparar a
expedição a França e Inglaterra, e só dispùnhamos de um mez para isso.
Então Francisco Costa, Director Geral do Ministerio, tomou a peito
desfazer todos os obstàculos que os indispensaveis caminhos burocràticos
nos podiam trazer; e andou de modo, que a 28 de Maio eu e Capello
partìamos para Paris e Londres, a comprar o que se nos tornava
necessario. Levàvamos um crèdito de oito contos de réis.
II.--Como foi Preparada a Expedição.
Em Paris fomos logo procurar a M. d'Abbadie, o grande explorador da
Abissinia, e M. Ferdinand de Lesseps.
D'elles ouvímos conselhos e recebémos os maiores obsequios.
Infelizmente, não encontrámos no mercado, nem instrumentos, nem armas,
nem artigos de viagem, taes como os desejávamos.
Foi preciso encommendar tudo.
Com uma recommendação especial de M. d'Abbadie, fomos procurar os
constructores de instrumentos, e durante 10 ou 12 dias, Lorieux, Baudin
e Radiguet trabalhàram para nós.
Walker tinha-se encarregado dos artigos de viagem, Lepage (Fauré) das
armas, Tissier do calçado, e Ducet jeune da roupa.
Feitas as encommendas em Paris, seguimos para Londres, e ali comprámos
os chronòmetros, em casa de Dent, e alguns instrumentos em casa de
Casella; uma boa provisão de sulfato de quinino, e muitos objectos de
cautchouc na casa Macintosh, entre elles dous barcos e algumas
banheiras.
Procurámos de balde em Londres, como tìnhamos de balde procurado em
Paris, um theodolito que tivesse as condições necessarias para uma
viagem de tal ordem qual ìamos emprehender. Uns, òptimos para
observações terrestres, não tinham as condições precisas para as
observações astronòmicas; outros, que reuniam as condições requeridas,
eram intransportàveis, já pelo peso, já pelo volume.
Não havia tempo para fazer construir um de propòsito, e de volta a
Paris, tivémos de aceitar aquelle que já antes nos tinha sido offerecido
por M. d'Abbadie.
Recolhémos, em Paris, tudo o que tìnhamos encommendado, e que tinha sido
fabricado em nossa curta ausencia; e no dia 1 de Julho, desembarcàvamos
eu e Capello em Lisboa, completamente preparados para a nossa viagem;
podendo assim cumprir o nosso compromisso, de partir para Loanda no
paquete de 5. Tìnhamos feito os preparativos em 19 dias.
Quando eu estudava o modo de me preparar para uma longa viagem em
Àfrica, tinha procurado sem resultado em livros de viagens, o modo
porque se haviam preparado outros viajantes.
Em todas as narrativas havia escassez de informações a esse respeito, e
lembra-me ainda o quanto isso me enfadou.