que tivesse, com a melhor dellas, merecendo sua natureza louvor sobre
todos os louvores angelicos, e humanos; que razaõ haverà para ser mais
estimado o mando dos homens, que o das mulheres? Mayormente o de V.
Alteza, a quem tantas, e tão boas partes, a Clemencia Divina deu, que
em muy poucos homens, por consumados que fossem, se poderiaõ achar.
80 Agora se nos representarà (illustrissima Princesa) a todos seus
vassallos o tempo da Rainha Sabà, ou Candaces; em V. Alteza se renovarà
a memoria das esforçadas, castissimas, e prudentissimas Rainhas
Arthemizia, e Dido, e de todas quantas ennobreceraõ seus nomes com
suas obras. Nella sò veremos juntas as virtudes, que nestas andavaõ
apartadas. A Rainha Santa, cujo precioso Corpo tem Coimbra, e sua alma
a gloria de Deos, morta, serà viva em V. Alteza, e para isto ser assim,
que menos pode fazer, como disse no principio desta Oraçaõ, filha
de tal pay, e de tal Mãy, irmãa de taes irmaõs, neta de taes avòs,
sobrinha de taes tios, todos Reys, Rainhas, Emperadores, Principes,
Infantes, de que toda a Republica Christã he cheya na jurisdiçaõ
secular, e provèsse a Deos, que assim o fosse na Ecclesiastica, que naõ
faleceria em vossa linhagem (muy alta Princesa) quem estendesse a Fè
pelas partes Setemptrionaes, como fizeraõ pelas Orientaes, Meridionaes,
e do Occidente, pois que della nasceo o Serenissimo Principe, e
Reverendissimo Senhor Infante D. Henrique vosso irmaõ. Cujos costumes,
santa virtude, e purissima limpeza de vida nos representaõ em nossos
dias o grande Gregorio, Basilio, ou Agostinho. Naõ averia em nossos
tempos Luteranos, obedeceria ao Summo Pontifice Boemia, reduzirsehia
Grecia com todas suas misturas de Jacobitas, Georgianos, Arménios, e
Abexins, e quantas diversidades de herezias ha pelo Mundo cessariaõ.
Tornando ao proposito, este seu povo, e vassallos, posto que em
quantidade sejaõ poucos, e naõ enchaõ a medida dos merecimentos
de Vossa Alteza, pois que grandes Imperios, e Reynos, demanda sua
prudencia, e alto nascimento. Agora com serem seus, serà mayor seu
nome, e os serviços, que os mais delles fizeraõ a ElRey vosso pay de
gloriosa memoria, e a ElRey vosso irmão nosso Senhor, assim em sua casa
na paz, como fóra della na guerra, se por ventura andavaõ apagados,
daqui por diante seraõ conhecidos, louvados, e galardoados, assim por
ElRey com seu favor, como com merces, e acrescentamentos, que elles,
e seus filhos esperaõ receber de Vossa Alteza, cuja liberalidade, e
humanidade, que aos estranhos he grande, mayor se espera que seja aos
naturaes, e vassallos, os quaes para serem sustentados, e governados
com paz, mantidos em justiça, ficaõ rogando à Divina Clemencia, naõ por
todos estes bens, mas por a vida de Vossa Alteza, que taõ certos os tem
com ella, a qual nosso Senhor conserve, acrescente, prospere por muitos
annos. Amen.
ELOGIO
_DO DOUTOR_
FREY BERNARDO
DE BRITO
_RELIGIOSO DE CISTER, E CHRONISTA MÓR
de Portugal._
Na Comarca de entre Douro, e Minho, saõ muito antigos os nomes de
Britonio, Briteiros, e Brito: porque de Britonio Cidade Episcopal
se faz mençaõ no Concilio de Lugo celebrado no anno de 569. a qual
foy destruida por Almançor de Cordova. O lugar de Briteiros deu este
appellido a Fidalgos muy principaes, de que trataõ por vezes as
historias Portuguesas, e os Registos Reaes. E sobre tudo a Ribeira,
e freguesia de Brito, que està entre o Rio Aye, e a Portella dos
Leitoens, he solar desta illustre Familia dos Britos. Cuidaõ alguns,
que este nome he derivado dos Brutos Romanos, e outros, que dos
Britones, primeiros moradores de Inglaterra, a que parece alludem os
Leoens rompentes, que os Britos trazem por armas, que saõ as mesmas
insignias daquella Provincia postas em tres barras. Com tudo neste
Reyno tem muita antiguidade, e delles, e dos Briteiros (que todos saõ
os mesmos, segundo os que melhor entendem) ha muita mençaõ no livro
das Linhagens de Espanha do Conde D. Pedro. Na principal varonia
desta Familia, que he a do Morgado de Santo Estevaõ de Beja, entraraõ
por casamento, e linha femenina a Casa de Lima com o Viscondado de
Villa Nova de Cerveira, e Condado de Arcos de Valdeves, e a Casa dos
Nogueiras com o Morgado de S. Lourenço de Lisboa, e por largos annos
possuiraõ a Alcaidaria Mòr de Beja, e em particular Affonso Annes de
Brito, que foy pay de dous Bispos de Evora D. Martim Gil de Brito, e D.
Joaõ Affonso de Brito, e Avò de D. Diogo de Brito, que successivamente
tiveraõ esta grande Prelasia. Pelo que de alguns foy chamado Affonso
Annes o Clerigo. Em outras partes de Alem Tejo conservaõ muy antigos
Morgados, particularmente em Evora, onde o Bispo D. Joaõ, jà referido,
instituio o Morgado de Fonte boa, com obrigaçaõ de usar o appellido,
e armas dos Britos, que se pòde ter por huma das mais antigas
instituiçoens de Espanha, em que so trate de semelhante clausula.
Deu esta linhagem homens insignes no serviço dos Reys, no governo da
Republica, e no valor das armas, em que foy assinalado Joaõ Affonso
de Brito na tomada de Ceita, e na India Lourenço de Brito Capitaõ
de Cananor; o primeiro que defendeo o cerco de fortaleza naquelle
Estado, sendo o que lhe puzeraõ os Malavares hum dos mayores, que
os Portugueses sustentaraõ. E assim ha nesta Familia outros Varoens
dignos de memoria, porèm quem em nossos tempos illustrou grandemente
este nome com as excellentes obras de seu engenho, foy o Padre Frey
Bernardo de Brito Chronista Mòr de Portugal; como se verà nesta breve
relaçaõ de suas cousas, o qual estimou tanto este appellido, que o
antepoz a outros muitos, e muy illustres de que descendia. Por quanto,
segundo se vè na Historia de Nossa Senhora de Nazareth, de que adiante
faremos mençaõ, era seu pay Pedro Cardoso, filho de Sebastiaõ Fernandes
Cardoso, e neto de Francisco de Sousa, o qual era neto de Gonçalo de
Sousa Comendador Mòr, que foy de Christo, e por sua mãy Maria de Brito
de Andrade, ficava no mesmo grào com Nuno Freire de Andrade filho do
Mestre de Christo D. Nuno.
Nasceo o Padre Frey Bernardo em Almeida, Villa notavel deste Reyno, dia
de S. Bernardo 20. de Agosto de 1569. Seguio seu pay Pedro Cardoso a
Milicia, e foy Capitaõ de nome em Italia, e Flandes, em serviço delRey
D. Felippe o II. de Castella. Com esta occasiaõ andou o Capitaõ Pedro
Cardoso ausente deste Reyno muitos annos, e temendo, que a falta de
sua presença fosse de prejuzo à criaçaõ de seu filho, de pouca idade,
o fez hir a Roma, e conhecendo bem, que naõ bastava sómente a mudança
do lugar para melhorar o animo (como jà o disse Horacio, pelos que em
seu tempo passavaõ a Athenas) lhe deu os melhores Mestres, que entaõ
floreciaõ naquella Corte, que por tantos titulos he a Metropoli do
Mundo. Delles aprendeo o nosso Author a policîa das lingoas, e ouvio
a exposiçaõ dos mais illustres Poetas, e Oradores. Aproveitou o Padre
Frey Bernardo muito com esta doutrina, e tornando em breve tempo ao
Reyno, veyo muito acrescentado das partes acquiridas, que pertencem a
hum mancebo nobre, porque sabia a lingoa latina com eminencia, fallava
a Italiana como natural, a Francesa expeditamente, e naõ lhe faltava
noticia da Hebraica, e Grega. Da historia fazia particular profissaõ,
e sobre tudo se deu tanto à liçaõ dos Poetas, que compoz naquella
primeira idade muitos versos, que nos conceitos, e elegancia podem
competir com os dos melhores Lyricos de Espanha. A todas estas partes,
e outras muitas naturaes, de que era dotado, soube acrescentar a mayor
perfeiçaõ de todas, que foy dedicallas a Deos: e como reconheceo sempre
a S. Bernardo por seu padroeiro, movido da devaçaõ que lhe tinha,
deixou o Mundo, e se fez seu Religioso no Real Mosteiro de Alcobaça,
mudando juntamente com o estado o nome de Balthasar de Brito de
Andrade, que atè entaõ usara.
Sentio notavelmente o Capitaõ Pedro Cardoso seu Pay esta resoluçaõ,
como ordinariamente costumaõ fazer os parentes, que ficaõ no Mundo,
naõ lhes deixando ver a paixaõ, que se tem por boa fortuna aceitar-lhe
o Principe da terra hum filho em seu serviço, quanto mayor felicidade
he receber-lho o do Ceo por Grande de sua casa. Porèm como o Capitaõ
Pedro Cardoso fazia conta de o deixar na Milicia com grandes ventagens,
que esperava em satisfaçaõ de seus serviços, e entendia por este meyo
ficavaõ accomodadas as cousas de sua Familia, fez tanto, que impetrou
hum Breve com que se passasse à Religiaõ do Hospital de S. Joaõ, que
vulgarmente chamaõ de Malta, e era taõ valido em Roma, que alcançou
esta licença, cousa que rarissimamente se concede. Offende-se Deos
grandemente de os Seculares perturbarem as vocaçoens dos Religiosos, e
como naõ queria que o nosso Author fosse famoso pelas armas, mas que as
armas fossem famosas por elle, levou para si o Capitaõ Pedro Cardoso
poucos dias, depois do Indulto chegar a Portugal, e seu filho naõ quiz
usar do Breve, com que mostrou claramente, que senaõ tratara a mudança
por vontade sua, senaõ pela de seu pay.
Quando o Padre Fr. Bernardo veyo de Italia, como carecia da inteira
noticia da historia da Patria, procurou darse a ella com toda a
diligencia, porque ainda que qualquer historia seja huma compendiosa
sabedoria, e fonte de prudencia, sempre a da Patria he mais proveitosa;
pois tanto mais aprendem os homens, aprendem dos progressos, ou
adversidades da mesma Provincia, para acertarem na administraçaõ das
cousas particulares, e publicas, quanto os successos proprios ensinaõ
mais, que os estranhos. Com este primeiro fervor juvenil, naõ sómente
leo as Chronicas do Reyno, mas movido com o desejo de ver aquella
escritura em melhor estilo, as resumio num volume, que escreveo de
sua maõ, acrescentando algumas cousas de hum Author, que achou em
Alcobaça, chamado Mendo Gomes. Porèm considerando depois attentamente a
perfeiçaõ, com que os modernos Historiadores Castelhanos, e Aragoneses
hiaõ escrevendo as historias de suas patrias, averiguando pelas
escrituras dos Arquivos as cousas incertas, e achando outras muitas de
novo, de que os antepassados se esqueceraõ, sobre esteve na publicaçaõ
deste volume, entendendo, que lhe era necessario para sahir à luz
fazer elle tambem a diligencia com os Cartorios de Portugal, que os
outros tinhaõ feito em suas Provincias. Mas porque a nossa naõ ficasse
inferior a nenhuma, vendo que faltava escritor, que tratasse as cousas
de Portugal ordenadamente, e que por estarem divididas por muitos
Authores, havia pouca noticia dellas, movido do zelo do bem publico
se resolveo em escrever a historia Portuguesa sucessivamente des do
principio do mundo atè seu tempo. Este heroico pensamento intentou
primeiro Joaõ de Barros na Europa, que prometeo, posto que por lhe
faltar descanso, e tempo o naõ pode comprir. O mesmo pretendeo Andre de
Resende, porèm occupado em outros estudos, naõ pode mais que começar
a empresa, deixando alguns fragmentos do tempo dos Romanos, ainda que
de muita importancia. Menos parece obrou a intençaõ de Jorge Cardoso,
como se vè no Tratado, que Manoel Fernandes Conego de Lamego fez da
antiguidade daquella Igreja. Todos estes Authores saõ dignos de graõ
louvor por terem taes intentos; porèm quanto vay do pensamento à obra,
tanto mayores graças se devem ao Padre Fr. Bernardo, pois o que elles
sómente imaginando mereceraõ, elle reduzio prosperamente a effeito.
Começou esta historia em Alcobaça, e ainda que os Superiores o mandaraõ
continuar na Theologia em Coimbra, naõ se esqueceo da empreza, antes a
proseguio nas horas, que lhe ficavaõ livres com tal cuidado, que a veyo
acabar no principio do anno de 1596. tendo de idade 27. e no de 1597.
a imprimio. Foy esta obra recebida com igual applauso, naõ só neste
Reyno, mas ainda em toda Espanha, assim por aquella certa novidade,
que as antiguidades trazem consigo, como por ser a primeira Historia
Universal Portuguesa, que em vulgar sahio impressa. Nella mostrou o
Author grande liçaõ, e hum animo incansavel, pois no meyo de tamanha
occupaçaõ, como a dos estudos, pode concluir hum intento taõ arduo,
que (como elle diz na sua elegantissima Dedicatoria) só o pensamento
delle fez abaixar as velas a engenhos de muita estima, porque sendo
por huma parte rarissimos os Authores, que fallaõ nestas materias, era
necessario por outra hum infinito trabalho para buscar, o que se havia
de dizer em huma immensa copia de leitura.
Recebeo ElRey Filippe II de Castella este serviço com particular
benevolencia, por ver que o Padre Fr. Bernardo lhe offerecia
graciosamente neste Reyno, o que no de Castella lhe tinha custado muita
despesa, e cuidado, para assim obrigar o Mestre Ambrosio de Morales a
se encarregar de semelhante historia, por tanto naõ só por sua carta
agradeceo ao Padre Fr. Bernardo o trabalho da obra, mas ainda lhe
encomendou de novo, que continuasse o que faltava della, e mandou ao
Padre Geral de Alcobaça lhe ordenasse o mesmo.
Este favor animou ao Padre Fr. Bernardo para naõ fazer caso do
desagradecimento de alguns mal contentadiços, que em lugar do premio
de hum tamanho beneficio lhe censuravaõ o estilo do livro, e a certeza
das cousas delle, naõ considerando, que a lingoagem he accidente em
semelhante historia, e que tendo o Author a criaçaõ fóra da patria, naõ
podia estar ainda taõ adiantado nos termos, que pede a gravidade da
lingoa Portuguesa, como depois o esteve, e no que toca à historia, se
no que passa em nossos tempos, e o que mais he diante dos nossos olhos,
saõ tantas as opinioens, que nenhuma cousa se pòde quasi saber com
infalivel certeza, demasiado rigor he querer, que se dè em cousas taõ
antigas a firmeza, que nas presentes senaõ alcança. Pelo que com razaõ
foy esta obra muito estimada dos doutos, e bem intencionados, e por
ella se podem dar os parabens à Patria com aquelles excellentes versos,
com que lhos dà hum famoso Escritor de nosso tempo, dizendo ao Tejo:
_Ripis ecce tuis genuit tibi patria civem
Illustri egregium partu, quo clarior orbe
Jactabit nullo tellus se Lysia tantum
Arte potens opibusque animi, Bernardus ab alto
Ducet Lysiadum famam, & monumenta tuorum
Ex quo prima novis Aurora inventa quadrigis
Splenduit humano generi, dehinc arma triumphis
Inclyta, tunc sanctos repetens ab origine mores
Longa vetustatis, rerumque arcana movebit._
Antes deste tempo lhe tinha a sua Congregação encomendado a composiçaõ
da historia de Cister, de que fóra deste Reyno havia pouco escrito, e
em Portugal nada, sendo assim que esta Ordem floreceo entre nòs com
grandes ventagens a muitas outras Provincias da Christandade. Obedeceo
o Padre Fr, Bernardo, e pouco depois de tres annos da impressaõ da
Monarquia, sahio com a primeira parte da Chronica de Cister, que
imprimio no anno de 1602. Como jà neste tempo estava mais exercitado
na lingoa Portuguesa, compoz esta historia com tanta elegancia, e
pureza de palavras, que o Padre Fr. Joaõ Marquez, hum dos mais doutos
Varoens de nosso tempo, lhe dà por ella o titulo de Historiador
insigne; e no que toca às cousas, escreveo com tal diligencia, que o
Padre Fr. Antonio de Yepes honra da Religiaõ de S. Bento, quasi tradùs
esta Chronica nos seus Annaes, e podemos com verdade dizer, que ao
nosso Author se deve possuirmos agora as excellentes historias de
S. Bento, e S. Bernardo, que depois sahiraõ à luz em Castella, pois
o Padre Fr. Bernardo abrio caminho, e deu exemplo para sobre estas
materias escreverem taõ singulares sugeitos. Alèm da Chronica de
Cister se mandou ao Padre F. Bernardo por decreto do Capitulo Geral,
que escrevesse outro livro dos privilegios da Ordem; o que elle fez
com immenso trabalho, porque lhe coustou muitos de perigrinaçaõ, e ver
os Cartorios de todos os Conventos de Religiosos, e Religiosas, que
a Congregaçaõ de Alcobaça tem neste Reyno, e outra muita leitura. A
molestia desta occupaçaõ com o continuo estudo dos annos passados, lhe
foraõ causa de huma grande enfirmidade, que o teve naõ somente muito
tempo impedido para continuar com a historia Portuguesa, mas ainda
desconfiado da vida. Com tudo tanto que a saude lhe deu lugar, tornou a
Coimbra a concluir os estudos, que a obediencia lhe fizera interromper,
e naquella Universidade deu grandes mostras de seu engenho nos actos
que fez, atè tomar o grào de Doutor, que foy no anno de 1606. Pouco
antes compoz o livro dos Elogios dos Reys de Portugal, que imprimio no
anno de 1603. Esta obra, ainda que breve, he de grande consideraçaõ,
porque na lingoa, e juizo, pòde servir de modello a toda a boa historia
abreviada, e na perfeiçaõ com que fez abrir em bronze os retratos dos
Reys, e alcançou os originaes mais apurados, mandando vir alguns de
partes remotas, com grande custo e despeza, exccedeo muito suas forças,
e mostrou o grande zelo, que tinha de engrandecer a Patria, e de
eternizar a memoria dos Reys Portugueses, a quem neste livro levantou
hum honroso trofeo, e tal, que a nenhuns outros Reys de Espanha vemos
outro semelhante dedicado. Este livro quasi traduzio em latim o Padre
Antonio de Vasconcellos no seu Anacæsaleosis, mandando abrir as mesmas
estampas dos Reys em mayores laminas, por estas serem as que só merecem
credito de verdadeiras.
Desempedido destas digressoens, tornou a continuar a historia da
Monarquia Lusitana, que imprimio no anno de 1609. Nesta segunda parte
seguio hum estilo chaõ, e claro, ainda que grave; e se na elegancia
ficou inferior aos dous livros proximos, que tinha publicado, foy a
causa por naõ dar mais lugar a materia, pois o principal trabalho
daquella historia, he descobrir. e por em ordem as cousas daquelles
tempos das conquistas dos barbaros, que atègora por falta de Authores
estiveraõ escondidas, e cheyas de duvidas, e fabulas.
Estas foraõ as obras, que o Padre Fr. Bernardo de Brito imprimio em
sua vida, porèm naõ eraõ menos illustres outras muitas, que compoz, e
naõ pode tirar a luz com a morte antecipada. Destas direy algumas, que
chegaraõ à minha noticia.
Compoz hum tratado, a que deu titulo Republica antiga de Lusitania, em
que tratou dos costumes, religião, e governo dos antigos Lusitanos.
Dedicou esta obra à Senhora Infanta Dona Isabel Clara Eugenia a 21. de
Março de 1596. Era dividida em dez capitulos, e continha huma maõ de
papel, segundo me informou o Licenciado Francisco Galvaõ de Mendanha
(grande benemerito dos Escritores Portugueses, como em outro lugar
diremos) que a vio, por lha communicar hum Religioso, que assistia em
S. Bento de Evora.
Outro livro me mostrou o Padre Frey Bernardo, passando por Evora em
Abril de 1611 intitulado Historia de Nossa Senhora de Nazareth. Era
hum justo volume, e tratava da invençaõ daquella Sagrada Imagem, e
das doaçoens, que os Principes, e devotos lhe fizeraõ com a relação
de seus milagres, e no fim de cada hum a linhagem, e descendencia
daquelle, em quem o milagre fora obrado, por esta via ficava sendo o
livro hum Nobilitario das principaes Familias deste Reyno; pareceo-me
obra excellente, e do mesmo voto foy Luiz da Sylva de Brito Prior do
Santo Milagre de Santarém, assaz conhecido neste Reyno por suas muitas
letras, o qual lhe escreveo na primeira folha hum elegante Epigrama em
louvor da obra, e Author. Levava o Padre Frey Bernardo este livro a
Madrid para o offerecer à Rainha Dona Margarida.
No mesmo tempo me mostrou tambem huma Apologia, que escrevera ao
Arcebispo de Braga D. Frey Agostinho de Castro, em reposta de
certas duvidas, que pelo mesmo Arcebispo lhe foraõ enviadas sobre
a primeira parte da Monarquia, e no fim della estava huma carta do
mesmo Arcebispo, em que se dava por satisfeito de suas perguntas, e o
exortava, que na composiçaõ da Monarquia seguisse igualmente a Historia
Secular, e Ecclesiastica: e a das linhagens nobres do Reyno, como elle
depois fez.
Àlem destas obras soube então delle, que tinha composto dous Volumes
em lingua Latina, hum sobre os Profetas Menores, e outro de Duabus
Hebdomadibus, que eraõ as duas somanas da criação do Mundo, e sua
redempçaõ, conceito novo, e digno do grande engenho do seu Author.
Na primeira parte da Monarquia Lusitana prometeo de escrever huma
Historia Ecclesiastica deste Reyno, o que em effeito comprio,
introduzindo as cousas Ecclesiasticas com as Seculares na segunda
parte da Monarquia, e assim tinha intençaõ de o hir continuando.
Tambem quando tratou da Geographia antiga da Lusitania, prometeo a
de Portugal com taboas da Provincia, e plantas das Cidades, o que
sem duvida fizera, se chegara com a Historia às cousas deste tempo,
porem se por lhe faltar a vida naõ pode comprir esta promessaa, assaz
obrigados lhe ficamos, naõ só pelos desejos, mas por as excellentes
obras que imprimio, com que eternizou a fama deste Reyno. Pelo que com
justo titulo se lhe póde applicar o do Pheniz, que em num Epigrama
lhe dey, quando imprimio a segunda parte da Monarquia: pois estando
naquelle tempo jà quasi extinto o nome dos Portugueses, elle o tornou a
resuscitar, e fazer com sua pena mais famoso, que de antes, como se vè
destes versos.
_Cespite odoato Phænix ut Lysia mundo,
E casia factis ignibus usta perit,
Usta perit, gemini orbis opes, secum ipsa cremavis
Qua cadit undisono Sol, oriturque mari.
At veluti pulchris, ut odoribus ipsa cremata est,
Lysiadum restat sic nisi solus odor.
Bernarde hunc spargis, Phænix redivivus odorem,
Pulchrior & diris surgis ab exequis._
Tanto mais proprio fica agora este Epigrama ao Author depois de
morto, quanto vemos, que se tem levantado daquelle insigne Convento
da Ordem de S. Bernardo, ou por melhor dizer daquella Pira, e Areola
aromatum, de virtudes, e sabedoria, quem com igual valor vay seguindo,
e renovando os heroicos intentos do Padre Frey Bernardo de Brito.
Estas obras fizeraõ julgar a seu Author por digno de grandes premios,
mas como os que o Mundo dà, naõ sejaõ bastantes para satisfazer
semelhantes merecimentos, permitte Deos muitas vezes, que ate estes
faltem, para que melhor conheçamos, que só he digno de ser servido,
quem naõ só paga com grandes ventagens todos os serviços que lhe fazem,
mas ainda galardoa atè os pensamentos delles. Com tudo por vezes foy
nomeado o Padre Frey Bernardo para alguns Bispados ultramarinos, que
elle naõ quiz aceitar, naõ só por sua humildade, mas por a continuaçaõ
dos estudos lhe ter tirado a saude propria, com que ficava impedido,
para procurar a espiritual alheya. Posto que claramente se entende,
que os que o consultaraõ, antepuzeraõ o bem particular do Padre Frey
Bernardo ao bem publico do Reyno, a quem importava, que lhe dessem
commodo para compor, e não que o desterrassem para onde naõ podesse
continuar sua Historia. No que devem ser muy considerados os Ministros
superiores, naõ premiando os benemeritos fora de seus talentos, pois
àlem deste danno fazem, que os providos comecem muitas vezes a aprender
na faculdade alheya, quando pela idade, e experiencia podiaõ com mayor
fruito ensinar na propria.
Por esta razaõ foy provido o nosso Author no officio de Chronista Mòr
de Portugal, no anno de 1616 quando vagou por falecimento de Francisco
de Andrade, naõ por faltarem partes no sugeito, a quem este cargo podia
competir, mas por naõ aver outro premio, que se pudesse dar ao Padre
Frey Bernardo, mais proprio, e devido a seus estudos, o que naõ se
seguia na pessoa, que o podia pretender, pois avia muitos despachos,
com que podia ser galardoado.
Porèm nem assim lhe servio este cargo de premio, senaõ de huma carga
pesadissima, e de hum seminario de desgostos, que nunca teraõ fim,
sendo esta a causa de escreverem huns contra elle, e outros em sua
defensaõ. Infelicissima emprezas para taõ felices engenhos, pois
podendo ganhar grande honra para a Patria, e para si com seus estudos.
_Bella geri placuit nullas habitura triumphos_