45 Pois notorio he a todos, como jà disse, quanto V. Alteza frequenta

este acto de humildade, descendo tantas vezes de seu estrado aos pès

de seu Confessor, esquecida donde vem, muito lembrada para onde vay.

Passando sua vida com tanta temperança, que se algum exercicio fóra

destes aceita, naõ he senaõ fundado em louvor de Deos, ou donde possaõ

nascer occasioens de o servir. Porque deixada a caça, a que muitas

Princesas em outros Reynos saõ inclinadas, V. Alteza comprehende os

altos mysterios do Sol da justiça, como aquella aguia de mais subida

altenaria, que penetrou os rayos do verdadeiro lume, onde nenhuma

plumagem de Aves chega, por andar sempre esta garça taõ estrellada, que

a naõ filhaõ, senaõ os que tem sua conversaçaõ nos Ceos. Em lugar de

caẽs, que desassocegaõ as alimarias, tirando-as de seus agasalhados,

penetra com a sagacidade, e ligeireza de seu espirito, os cavàdos das

pedras, desencovando aquella fermosa pomba de Salamaõ, que he a graça

do Espirito Santo, e os sentidos da Escritura, verdadeiro mantimento

da alma, e quando o tempo lhe naõ dá lugar a esta caça, porque em

hum ha de semear, e em outro ha de colher, gasta estes intervallos

no exercicio da musica, seguindo o Real Propheta David, que com sua

viola espantava o espirito mào, que atormentava ElRey Saul, levando no

discurso de sua vida tal ordem, e proporçaõ com que o demonio, inimigo

della foge para onde naõ hà senaõ desordens, e horrores perpetuos. E

tanto fruto tem V. Alteza colhido das letras, que achando nellas quam

espiritual cousa he a musica, e quanto levanta os coraçoens para o Ceo,

nella se exercita, como fizeraõ muy graves Philosophos, que vendo a

ordem dos Ceos disseraõ, que em suas continuas voltas com que rodeaõ

o mundo, fazem huma muy suave musica, de que os nossos sentidos saõ

incapazes, por exceder sua potencia, atribuindo a cada hum suas vozes

agudas, e graves.

46 E os Platonicos disseraõ, que nossa alma era composta de proporçoens

de musica, por onde se deleitava tanto com ella. E assim parece que

sentindo os Anjos a conveniencia, que nossa alma tem com a ordem da

musica, com ella nos deraõ as novas do nacimento do Filho de Deos, de

que o mundo estava taõ dezejoso, cantando com suave melodia. Nem sem

causa o Espirito Santo ordenou, que cantando se celebrassem os officios

Divinos para nossa alma os poder melhor comprehender. Ordenando assim

mesmo estromentos, cuja armonia inflamasse nossos sentidos, como saõ

orgaõs, que ainda na ordem de suas frautas imitaõ a dos Anjos, que no

Ceo Impirio tem suas precedencias ordenadas por Deos. A differença

das quaes concerta com aquella ordenada composiçaõ de Isaias, que sem

cessar cantaõ diante da Divina Magestade de Deos.

47 E por a musica ser cousa taõ divina como he, nunca se lè que a

Igreja de Deos estivesse sem ella, assim no tempo da ley da Escritura

passado, como no da graça presente. Testemunha he aquella trombeta,

que no dar da Ley retumbava pelas faldras do Monte Sinai, testemunhas

saõ os timpanos, e pandeiros de Maria, irmãa de Moyses, com que tanto

festejou o naufragio dos Egypcios, e vencimento dos Judeos, e assim

as trombetas de Hiericò, com a musica dos quaes os seus muros, como

adromecidos, se deixavaõ cahir na terra.

48 Pois vindo ao Tabernaculo, e ao Templo de Salamaõ, sempre nelles

houve estromentos de musica, com que os sacrificios se celebravaõ,

que David tanto encomendava nos seus Psalmos, o qual levando a

Arca do Testamento para Jerusalem, de que no principio fiz mençaõ,

diz a Escritura, que elle, e o povo de Israel dançavaõ diante

della, cantando, e tangendo violas, psalteiros, trombetas, e outros

estromentos. E o mesmo Rey David, quando repartio os officios dos

Levitas, lemos, que ordenou quatro mil delles, cujo officio fosse

tanger orgaõs.

49 Cheya està a Escritura de muitos exemplos, porque claramente consta

deleitarse Deos com a musica, a qual por experiencia se vè tem muito

grande força nos coraçoens dos homens, por onde os que della tiveraõ

conhecimento, vendo quanto podia em todas as cousas a levaraõ à guerra,

ordenando trombetas, e outros estromentos, com que os homens, e ainda

os cavallos cobrassem esforço no rompimento das batalhas, e no andar, e

proceder dos esquadroens, guardassem a ordem, que ella em si tem.

50 E os que no exercicio da caça se deleitaõ, também entenderaõ, que

atè aos brutos animaes chega a doçura, e conhecimento da musica, como

diz Strabo dos Elefantes, e Plinio dos Cervos, que huns com cantigas, e

timpanos, e outros com frautas pastoris se amançaõ. Cousa notoria he, e

muy sabida, o que conta Herodoto, e outros Authores, dos golfinhos, que

saõ taõ dados a esta deleitaçaõ, que o grande musico Ariaõ foy livre

do naufragio do mar por hum golfinho, que o salvou, conhecendo ser

aquelle, cuja voz ouvira em o Navio, que seguia.

51 E naõ se acha gente por barbara, que seja, que naõ tenha sua musica,

mà, ou boa, segundo o que cada hum della alcança, como vemos em toda

a terra de Ethiopia, cujos naturaes entre nòs saõ testemunhas desta

verdade, levando ordem, e compasso em seu tanger, ainda que seja

barbaro, e os rusticos do campo, a que naõ faltaõ suas gaitas.

52 Que posso dizer dos passarinhos, cuja melodia tanto deleita as

orelhas dos homens, que os tem encarcerados, e prezos para esse fim.

Entre os quaes se bem olhamos a differença das vozes, e armonia, que o

reixinol faz com sua garganta, que Plinio por outra tanta diversidade

de palavras explicou; acharemos, que todas as proporçoens da musica

estaõ encerradas no papo de hum taõ pequeno animal, como he este

passarinho.

53 Nem as agoas parece, que carecem deste sentido nos rumores, e

roucos estropidos, que por entre os sexos, e pedras dos rios vaõ

fazendo, que a nossos sentidos causaõ deleitação, e saudade. E assim

mesmo nos ventos temperados do Veraõ com os zunidos, que fazem, movendo

as folhas das arvores, tambem se acha huma certa semelhança da musica.

Donde nasceo (a meu juizo) fingirem os Poetas, que Orpheo levava

consigo os homens, e brutos animaes, com as arvores, e rios, dando a

entender, quam geral he a força da musica, que em todas estas cousas

tem jurisdiçaõ.

54 E vindo aos corpos humanos, que cousa he a saude, senaõ huma

concordancia dos quatro humores, da discordia dos quaes, que se segue,

senaõ enfirmidades, e màs disposiçoens? Nos tempos do anno naõ he

claro, que quando as quatro qualidades primeiras guardaõ entre si boa,

e ordenada temperança, que se faz huma excellente musica taõ necessaria

à vida dos homens, como saõ boas novidades de mantimentos? E quando

saem fóra daquella regra, para que foraõ criados, naõ fazem ellas Sol,

quando se dezejava chuva? E chuva, quando he necessario Sol, com que os

ares corruptos causaõ pèstes, e outras infirmidades, assim na gente,

como nos animaes necessarios? E a cerca dos dòtes corporaes, e graça,

que mais he, e fermosura do rosto, que huma conveniente proporçaõ dos

membros? Que contem modo, ordem, e figura na ordem dos intervallos das

partes, no modo, a quantidade dellas, na figura, as cores, e os traços.

Das quaes cousas entre si bem ordenadas, resulta huma certa armonia

apartada da materia, a que chamamos fermosura.

55 A qual, segundo os Philosophos, denota a bondade das virtudes

interiores dalma. E naõ sem causa Salamaõ tanto louvou na Sacratissima

Virgem Nossa Senhora a fermosura corporal. Porque olhadas bem as obras

de Deos, assim as espirituaes, como as corporaes, todas saõ cheyas

de fermosura, que respondem ao Author, e Criador dellas; o que David

quiz significar, quando disse que a confissaõ, e fermosura estavaõ

diante de Deos. E quanto estas obras se levantaõ da terra, e chegaõ a

elle, tanto mais aparece este Divino dom nellas. A quem naõ farà muy

grave admiraçaõ a fermosura do Sol, de que nossa vista he incapaz,

vendo como estende seus rayos pela redondeza do mundo, fazendo tão

fermosa variaçaõ de ervas, flores, e sombras, com que a terra està taõ

graciosa, e ufana no Veraõ.

56 Quem senaõ espantarà do resplandor dourado das Estrellas, da

claridade da Lua, e de toda a pintura do Ceo? E deleitarse Deos com

a fermosura claramente se vè no ornamento, assim do Tabernaculo,

como do Templo, que de tantas pinturas, e riquezas de ouro, e prata,

mandou emnobrecer. Donde vem, que o homem, por ser criado à imagem, e

semelhança de Deos, naturalmente aborrece as cousas feas. Esta natural

inclinaçaõ se ve melhor nos meninos, em que inda o uso da razaõ he

fraco, a cerca dos cocos, e medos, com que os acalentaõ suas amas, que

naõ saõ outra cousa, senaõ hum qualquer vulto sem ordem, e proporçaõ, o

qual medo naõ tem dos que lhe mostraõ bem feitos, e proporcionados, e

por esta razaõ se defendeo em o Testamento velho, que ainda se guarda

em o novo, que os homens manchados em o rosto de alguma deformidade

notavel, naõ pudessem uzar de officio de Sacerdotes.

57 E naõ he pouco de estimar (esclarecida Princesa) este dom, e graça

natural, que nosso Senhor ouve por bem de taõ particularmente lhe

conceder, e de que tanto a quiz dotar, posto que Vossa Alteza della

naõ faça conta. Porque como acima disse os sinaes de fóra pela mayor

parte arguem a bondade do animo, de que Aristoteles, e Galeno fizeraõ

seus pronosticos. O mesmo respeito teve o Espirito Santo nas vestiduras

dos Sacerdotes, cuja virtude como avia de ser espelho para os outros,

assim trouxessem habito conforme ao que delles se presumisse, como o

rochete, que significa a inocencia dos Bispos, a Mitra divisa em duas

partes, a sciencia dos dous Testamentos, e o Anel a Cruz, a Coroa, e

assim as outras insignias (por me naõ deter nellas) todas tem suas

significaçoens, denotadas por estes ornamentos exteriores.

58 A mesma razaõ ensinou aos Pintores fazerem os espiritos màos taõ

feos, dando a entender por seu rosto suas obras, de que entre nòs

nasceo hum proverbio, que diz: guarde-vos Deos do homem mal assinalado.

Tambem parece que as leys a isto tiveraõ respeito, quando ordenaraõ

mayores penas nas feridas do rosto, que nas de qualquer outra parte do

corpo, carregando mais a maõ nas disformidades delle, por ficar danada

aquella parte com que os homens aprazem, ou desaprazem aos olhos dos

outros.

59 E descendo aos particulares effeitos da fermosura, acharemos tantos

exemplos a cerca dos proveitos, que della resultaraõ, que naõ bastaõ

palavras, para os comprehender. Como dos Judeos a fermosa Judit, a

qual com nenhumas outras armas livrou sua patria do cruel cutello

de Holofernes, senaõ com a que lhe deu a natureza, e o que grandes

Esquadroens de gente fazer naõ poderaõ, a graça de huma mulher acabou.

60 A Rainha Ester sendo de baixa linhagem, com sua fermosura naõ subio

ao estado Real? Vencendo com ella a crueza delRey Artaxerxes, com

que servio o Povo de Israel. Abigail naõ livrou com a sua seu marido

Nabal da ira delRey David, merecendo depois o juramento Real, a que

foy chamada por matrimonio? Betsabè pelos mesmos degràos naõ subio a

esta cadeira, merecendo ser mãy de Salamão, figura de nosso Redemptor

Jesu Christo? Quem livrou Italia dos fortes Esquadroens, Exercitos, e

grandes crueldades de Anibal, senaõ a fermosura de huma moça de Capua,

desbaratando com seu poder aquelle, que as forças de todo o Povo Romano

vencer naõ puderaõ.

61 Por estas, e outras razoens era taõ estimado dos antigos este dom,

que lhe deo occasiaõ para fingir, que Meduza tornava os homens em

pedras, por ter taõ alto grào de fermosura, que transportava, e fazia

alheyos de si, os que aviaõ, e tinhaõ por mào agouro topar com cousa

fea: como o Emperador Adriano, que disse ser chegada sua fim, por

encontrar hum Negro. E naõ calarey a graça de Phylopomenes, singular

Capitaõ Grego, que por ter pouca no rosto lhe mandou huma mulher fazer

o fogo, parecendo-lhe, que em taõ fraca pessoa, naõ podiaõ jazer

tamanhos espiritos. E alguns Filosofos Platonicos disseraõ, que a

fermosura era dom de Deos, o que entre nòs em proverbio commummente se

diz: A quem Deos quiz bem, no rosto lho vem.

62 Muitas cousas podera dizer acerca desta, mas como V. Alteza della

faça taõ pouco fundamento, pelo fazer mayor das que tenho feito

mençaõ, e de outras, a que meu entendimento naõ chega, por serem

de tal qualidade, que as naõ póde entender, senaõ quem as tem: naõ

fallarey mais dellas. Mas porque a opiniaõ que todos geralmente, assim

nestes Reynos, como nos estranhos de Vossa Alteza tem concebido, e

a esperança, que daõ os sinaes, que nella resplandecem de grandes

cousas, lhe naõ impida o contentamento dellas, vendo que he mulher,

naõ deixarey de dizer quam habil, e sufficiente sempre foy o engenho

das mulheres, para grãdes emprezas, começadas com grande esforço, e

ousadia, e acabadas com muita discriçaõ, porque como diz Hieronymo, as

virtudes haõ de ser pezadas em o animo, e naõ em a condiçaõ da natureza.

63 E começando das letras, clara cousa he, que naõ sómente se igualaraõ

com os homens nesta faculdade, mas ainda lhe levarão muita ventagem,

como as dez Sybillas, que os Doutores da Igreja tanto celebraraõ, por

muitos annos, antes da Encarnação de Deos, deixarem profetizado este

Mysterio, de cujos livros os Romanos fizeraõ tanto fundamento, que

os tinhaõ encerrados, como grande thezouro para os cazos duvidosos,

e perigos de sua Republica, o que não fizerão dos livros de Platão,

Aristoteles, Xenophonte, e de outros Authores, que sem chaves andaõ

pelas mãos das gentes, como cousa, que muito naõ relevava sua perda.

Neste numero podemos contar Cassandra Troyana, cujas letras, e saber,

se fora de seus naturaes conhecida, nunca se perderaõ, nem deraõ tanto

que escrever a Homero.

64 Se viermos à magica não nos faltarão Circes, e Medeas, que fizeraõ

mais milagres nesta sciencia, que Zoroastes, que a inventou.

65 Se à medicina, acharemos Brella, e Therbisa, irmaãs da Rainha

Irbussa, Boemias, huma muy douta no conhecimento das hervas, e outra na

sciencia da Astrologia.

66 Se à Filosofia, Theano mulher de Pitagoras, e Dama sua filha,

expositoras das escuras sentenças do pay, e marido, e Diotima discipula

de Socrates, Mantinea, e Philesia discipulas de Plataõ, Gemina,

Amphiclias, e Themistes, tão louvada de Lactancio, e as outras de

Plotina.

67 E deixando as Gentias, quem deu mais augmento à Igreja de Deos

com suas letras, que a Santa Virgem Catharina? Vencendo a doutrina

de tantos Filosofos, em actos, e conferencias publicas, sopeando com

seu martyrio as forças do demonio, merecendo tão honrada sepultura,

fabricada por mãos angelicas, como he a que tem no Monte Sinay, onde

Deos deu a Ley Escrita a Moysés, parece que por aquelle Monte ser

Monte de sciencia permitio Nosso Senhor, que nelle fosse enterrada esta

Santa Virgem, que tanta parte teve em todas, especialmente naquella,

que manou do dito lugar sagrado de sua sepultura. Tambem podemos contar

quatro filhas de Felippe Evangelista, que nas letras Divinas, e graça

de profecia floreceraõ, cujo espirito Deos naõ reprovou, pois fallou

pela boca de tantas mulheres, quantas ouve, que merecerão este nome de

Profetas, como Maria irmaã de Moysès, de quem jà falley, Debbora, Olda,

Anna profetiza, S. Elisabeth, e outras.

68 Na Poesia podemos contar a Mesia, Androgina, Hortensia, Lucera,

Valeria, Copiola, Sapho inventora destes versos, Corina, Cornificia

Romana, Erimna, Thelia, chamada Epigramatista, Sempronia, de que

Salustio conta tantas habilidades, Calphurnia nomeada entre os

Jurisconsultos. Quem formou a eloquente lingoa dos Grachos, senaõ

Cornelia sua mãy, pela qual razaõ Quintiliano instituio nos seus

preceitos, que as amas dos moços criados para Oradores, fossem

discretas, e eloquentes porque dellas aprendemos a fallar. E Socrates

julgado pelo Oraculo de Apollo, pelo mayor saber dos mortaes, sendo

jà velho, nos quaes o saber he mais crecido, naõ aprendeo algumas

cousas de Aspacia, e Apollo Theologo de Priscilla? Debbora mulher de

Cabidod prudentissima, como lemos nos livros dos Juizes, naõ governou

hum tempo o povo de Israel? A qual por lhe Barael desobedecer, sendo

eleita por Capitaõ do Exercito, não alcançou vitoria mortos, e

vencidos os inimigos? Não lemos, que a Rainha Attalia governou entre

os Judeos o Reyno por espaço de sete annos? E Semiramis (de quem jà

fiz mençaõ) depois da morte do marido não governou o Reyno quarenta?

Edificando huma tão nobre Cidade, e tão soberba, como foy Babilonia de

Mesopotania? As Rainhas chamadas Candaces, poderosas, e prudentissimas,

não governarão muitos tempos seus Reynos, de que Josepho conta tantas

maravilhas, e se faz mençaõ nos Actos dos Apostolos? A Rainha Sabà, de

quem jà falley, por taõ longos caminhos não foy ouvir a sabedoria de

Salamaõ, a qual hade condenar as doze Tribus de Israel no dia da ira do

Senhor? Thecujtes sapientissima femea nas preguntas, que propoz a ElRey

David, naõ deu grande sinal de seu saber?

69 Pois nas armas notoria cousa he, quantos Reynos, quantas Provincias,

e Cidades conquistaraõ, e edificaraõ mulheres, como as Amazonas,

Thomiris, Dido, Valasea, de que jà falley: entre as quaes contaremos

Camilla da geraçaõ dos Volscos, e Arthemisia, que senhoreou os Rodeos,

tomando-lhes a Ilha, a qual edificou aquelle taõ celebrado Sepulchro

Mausoleo, contado por hum dos sete milagres do mundo. E a Poncella de

França, de que já fiz mençaõ, em memoria da qual no Ducado d’Orlians

naõ està hoje neste dia levantada huma Estatua, em a ponte do Rio Loure?

70 Das Sabinas cousa vulgar he, que naõ temendo as armas dos paes, e

maridos, se meteraõ entre os golpes de suas espadas, e os amançaraõ,

fazendo perpetua paz, e liança entre huns, e outros. De que excellente

Capitaõ, e singular Philosopho, se podem contar mayores cousas, das

que conta Trebellio Polio da Rainha Zenobia, de cujo triumpho tanto

se prezou o Emperador Aurelio, o qual dizia, que as victorias, que

Odenato ouvera dos Persas, naõ se podiaõ attribuir, senaõ ao esforço,

e prudencia da dita Rainha sua mulher? Com temor da qual, como conta

o mesmo Author, os Arabios, Sarracenos, Armenios, naõ usuraõ a tomar

armas. E depois que seu marido morreo, governou o Imperio em nome de

seos filhos, por muitos annos, vestindo armas, governando Exercitos,

andando a pè longos caminhos por esforçar sua gente, e foy taõ docta na

lingoa Grega, que recapitulou a historia Alexandrina, e Oriental, e fez

muitas obras, que Nicomato traduzio.

71 E quanto à fama, que homens ouve, que a deixassem de si mòr, que

Europa, Asia, e Libia, de cujos nomes estas tres partes do mundo

tomaraõ os seus? E as sciencias fingiraõ os antigos, mulheres, e naõ

homens. E que saber mais vario, e coraçaõ mais esforçado se poderia

achar em homens, que o de Cleopatra Rainha do Egypto? Que constancia

mayor, que a de Panthea, que conta Xenophonte, a que a primeira, e

grande Monarquia del Rey Cyro naõ pode comover, que quebrantasse a fé

matrimonial a seu marido Abradatas? Qual castidade se igualarà com a de

Lucrecia, que estimou mais a dor de lhe ser forçosamente roubada, que

a morte? Ou com a da Rainha Dido desamada por Virgilio? Naõ faltaraõ

a estas animo para se matarem, e constancia, fé, e castidade, que em

poucos homens se acha. Entre as quaes se pòde contar na mesma virtude

Argia mulher de Policinis Tebano, Julia de Pompeo, Porcia de Catam,

Cornelia de Graceso, de que jà falley em outro genero de virtude,

Melicina de Sulpicio, Hypsicratia mulher delRey do Ponto, Sulpicia de

Lentulo, e a Rainha Libussa, que em quanto tempo per si só governou o

Reyno de Boemia, naõ se viraõ as guerras, e dannos, que depois de sua

morte se seguiraõ. A justiça, e bom regimento da qual foy causa de lhe

fazerem escolher marido, o qual posto que fosse taõ singular, como

aquelle Presmilam, que do arado ella escolheo para o Reyno, todavia foy

vencido das mesmas mulheres em batalha. A qual Libussa, como diz Æneas

Sylvio, era grande sabedora nas sciencias divinas, e humanas.

72 Que façanha mòr em homens esforçados pòde ser da que fez Claudia

freira da Ordem Vestal, que sahindo do Mosteiro por socorrer a seu

pay, que os Tribunos queriaõ lançar do carro, em que hia triumphando,

o tomou nos braços, e o sustentou de tal modo, que como diz Valerio

Maximo, o pay com ajuda da filha chegou ao Capitolio com seu triumpho,

e ella ao Mosteiro com sua victoria? Que exemplo de piedade mòr, do que

conta o mesmo Author de duas moças, huma que dava de mamar a seu pay

escondidamente no carcere, onde o Carcereiro por lhe naõ dar a morte,

que lhe mandaraõ, movido de piedade determinou de o matar à fome. E da

outra, que pelo mesmo modo manteve seu pay Cymon, cuja pintura naquelle

tempo era fermosa cousa de ver em Roma hum homem muito velho pendurado

do colo de huma moça sua filha, mamando em seus peitos o leite, que

gerou. Do qual carcere se fez hum Templo dedicado à Piedade, por razaõ

da que tiveraõ estas moças com seus pays, e por experiencia se vè, o

que diz Aristoteles nos livros dos animaes, terem as mulheres mais

gràos nesta virtude, que os homens.

73 O que Salamaõ confirma, dizendo onde naõ està mulher, geme o

enfermo. Porque assim como os homens em sua infancia saõ alimentados

com o leite taõ sustancial das mulheres, que os enfermos restaura,

e criados com a diligencia de suas mãys, e afagos de suas palavras,

apropriadas àquella fraca idade das crianças, assim o enfermo na

fraqueza, e debilitaçaõ dos membros, tornando aos primeiros dias de

sua criaçaõ, parece que a cura da mulher lhe dà mais descanço, como

quem se acha na patria, e natureza onde nasceo.

74 Vindo às cousas da Fè lemos, que por homens foy nosso Redemptor

acusado, por homens vendido, por homens crucificado, por homens negado,

e dos homens desamparado, só as mulheres atè a Cruz, atè o Sepulchro

o acompanharaõ, tornando a elle de noite, perdido o temor dos que o

guardavaõ, com cheiros orientaes para ungirem seu corpo, e a Magdalena,

que nesta parte mais mereceo com cousas perseveradas lagrimas, naõ foy

a que pedio aos Apostolos alviseras da Resurreiçaõ de Christo, por ser

a primeira a que apareceo. E ainda a mulher de Pilatos, sendo Gentia,

trabalhava com seu marido por lhe escusar a morte.

75 Depois da qual, quem estendeo mais sua Fè, assim com doctrina, como

com martyrio? Padecendo por ella tantos generos de tormentos, quantos

a crueldade dos tyrannos inventou para lha fazer negar. Testemunhas

saõ os dentes de Santa Apollonia, as tetas de Santa Agueda, os

olhos de Santa Lusia, e as agudas navalhas, que cortaraõ a carne da

Bemaventurada Virgem Catharina. Quantos membros espadaçados, quantas

cabeças cortadas, quantos corpos de mulheres assados celebra cada anno

a Santa Madre Igreja, qual esquadraõ de homens taõ unido em caridade,

taõ armado de Fè, se ajuntou debaixo de algum Capitaõ, como lemos de

Onze mil Virgens, que seguindo a Cruz de Santa Ursula, todas morreraõ

por aquelle, que nella por ellas padeceo? Cousa de espanto he, e de

muy grande admiração entre tantas mil mulheres naõ se achar huma a que

o temor dos tormentos alheyos, presentes a seus olhos, fizesse mudar

de seu santo proposito, como se vio em taõ pequeno numero de quarenta

Martyres, hum delles negar a Fè, e em outro muito menor hum vender a

seu Mestre, outro o desconhecer, e finalmente todos o desampararem,

sómente as mulheres, como jà disse, que perseveraraõ com elle atè à

morte.

76 E tiveraõ sempre tanta constancia na Fè, em que huma vez creraõ, que

nunca se lè, apostatar Helena, ou outra alguma Rainha Christaã, como

Juliano Emperador, e outros, nem nascer dellas alguma herezia, como dos

homens, de antre os quaes se levantaraõ, e se levantaõ cada dia contra

a verdadeira, e Catholica Fè. A qual fallecendo em todas, na morte de

Christo, segundo affirmaõ os Theologos, em nenhum homem ficou plantada,

sómente em a Sacratissima Virgem Nossa Senhora remate de todo o louvor

das mulheres. Pois que Deos Eterno, Immenso, Omnipotente, de cuja

grandeza o mundo he incapaz, nenhum lugar lhe foy taõ aceito, quando a

elle veyo, como o ventre virginal desta Virgem Sacratissima.

77 Alevantem logo os sentidos todas as mulheres, concebaõ em si

huma humildade soberba, huma virtuosa presumpçaõ, e gloria de sua

natureza, que Deos fez digna, e merecedora de tanta honra, quanta

nunca homem puro teve neste mundo, nem terà no outro. Certamente, que

he cousa de tal maravilha, qual ella foy, ver aquelle taõ dezejado

do mundo, taõ denunciado dos Prophetas, taõ esperado das gentes, taõ

venerado dos Anjos, taõ temido dos demonios, e Senhor universal das

naturezas angelica, e humana, chamar a huma mulher mãy, e ella filho ao

verdadeiro Deos, que a fez, e naõ sem causa a Igreja em suas oraçoens,

rogando pelas mulheres, diz: _Intercede por devoto fæmineo sexu_,

attribuindo-lhes este epiteto de devaçaõ, e amor de Deos, como muy

proprio, e natural seu dellas.

78 E se agora quizesse contar as finezas, que em diversos generos de

virtudes fizeraõ mulheres, como as Lacedemonias, Melesias, e Thebanas,

faltarmehia o tempo, e naõ os feitos, que acabaraõ. Cheyos estaõ os

livros de todos elles. E depois claramente se vè pelos exemplos, que

mais me representou a memoria, do que os busquey, quanto as mulheres

floreceraõ em todo o genero de letras, nas armas, administraçaõ de

Reynos, fundaçaõ de Cidades, e obras miraculosas, na constancia da

Fè, padecimento de martyrios por ella, nas virtudes da castidade,

piedade, e misericordia, assim em todas as outras, em que naõ sómente

se igualaraõ com os homens, mas em muitas os excederaõ.

Noticias de Portugal · 第 38 / 43 段