27 Fazenda he a sabedoria izenta da jurdiçaõ da fortuna, a qual, como

diz Seneca, naõ toma, senaõ o que dà, o fogo gasta o ferro, o mar

alaga Cidades, terremotos as derrubaõ, rayos espantaõ o Mundo, armas

o senhoreaõ, sò o saber de homem he livre destes perigos, porque nem

o tempo, que o mesmo Seneca chama sepultura de todas as cousas, o

gasta, ou a morte o senhorea, que com elle mediante a graça Divina

fazemos o caminho para a gloria, que esperamos. E assim dizia Byas

Prienense fugindo da Patria, que deixava tomada dos inimigos, naõ

levando mais que sua pessoa, e hum bordaõ, que tudo levava consigo.

E se quizermos particularmente considerar as cousas, qual averà, que

sem letras divinas, ou humanas se possa fazer? Como navegariamos as

terras ignotas, que comercio, que noticia huma gente afastada por

tantos intervallos de mar, e terra, teria das outras, sem a sciencia da

Astronomia? Que communicaçaõ, ou que prestança das mercadorias averia

sem navegaçaõ? Como se edificariaõ Navios, Casas, Templos, e Fortalezas

com suas maquinas, taõ necessarias à vida, e policîa dos homens sem

arquitetura? Como se governariaõ as Cidades, Reynos, e Respublicas, sem

Filosofia moral? Como sem a natural se exercitaria o uso da agricultura

taõ necessaria a mentença dos homens? E decendo ao particular das artes

mecanicas, como nos aproveitariamos dellas, senaõ fosse por meyo das

Mathematicas? Como tiveramos a musica pratica sem a especulativa? Com

tanta diversidade de estromentos, taõ necessarios, assim à Religiaõ,

e Culto Divino, como para a guerra, e deleitaçaõ da vida? Que remedio

para nossas infermidades, com que os corpos humanos por taõ diversas

vias saõ offendidos, senaõ fora a medicina? Pois vindo ao espiritual,

que fora de nossas almas sem a Divina Sciencia, que nos ensina o

caminho, que avemos de seguir para a salvaçaõ dessas, remate de nossa

bemaventurança? Em fim, porque meyo os homens communicariaõ essas

sciencias com os prezentes, e futuros, sem letras? Certamente que

examinando bem isto, parecem indignos da potencia intelectual, que he

imagem, e semelhança de Deos com que fomos criados, os que desprezaraõ

o verdadeiro ornamento, e atabio dalma, que he a sabedoria. A qual,

como diz Nazianzeno, he Princesa, e inventora de todas as cousas, e em

si as comprehende: do nome da qual se quiz Deos intitular, chamando-se

Sapiencia do Padre; e quam necessaria ella seja nos Principes, Salamaõ

o diz: por mim reinão os Reys, e os Principes senhoreão.

28 E para mais verificarmos isto faremos huma parabola imitando

aquelle, que para todos se fez unico exemplar. Finjamos hum Rey tão

zeloso da paz, e liança de todos os brutos animaes, que mandasse

ajuntar quantos ahi ha diferentes em genero, e especie, para que

metidos em hum curral juntos, os entregasse a hum pastor, de que

tivesse experiencia, e confiança, que os trouxesse a tal concordia,

que o Leão não comesse o Lobo, nem o Lobo ao Carneiro, o Galgo naõ

filhasse a Lebre, nem o Açor a Perdiz, de tal modo, que esquecidos

de sua braveza natural uzassem de toda a brandura, e mansidaõ; e que

Pastor averia por muito atrevido que fosse, que naõ dissesse o que

Moysès dizia a Deos: Senhor manda quem as demandar, por o tal cargo

requerer, naõ digo hum grande e consumado saber humano, mas ainda a

hum Divino inspirado por graça? Pois o Rey, que isto quiz fazer foy

Deos Eterno, que ordenou na terra o governo dos Reys, e Principes,

ficando-lhe na mão o coraçaõ delles, como quem sabia que tamanho

officio, sem sua ajuda muy particular senaõ podia bem administrar. E os

animaes, que tanto lhe encomendou saõ os homens, que deixando o caminho

da rasaõ seguiraõ o dos brutos. Cà, segundo Paulo: _Justis non est lex

posita_. Donde nasceo a meu juizo fingirem alguns Filosofos, entre os

quaes foy Plataõ, que as almas dos homens se trespassavaõ em corpos de

diversas bestas, similhaveis aos costumes, que tiveraõ o dos Tyranos,

e Principes em Lobos, Falcoens, e Milhanos, e os dados aos vicios da

gula, e perguiça em asnos, introduzindo daquelle Herpamphilio, que

disse ter visto a alma de Orpheo metida em hum Cisne, e de Aiax em hum

leaõ, e a de Agamenon em Aguia, e em hum bugio a de Tersires Homerico,

querendo significar, que nenhuma differença tem de brutos, os que

vivem como brutos, e que a semelhança dos costumes lha faz igual a

natureza; E dizerem as fabulas, que Acteon foy convertido em Corso, naõ

he outra cousa senaõ, que pelo muito exercicio, e continuaçaõ da caça

se fez agreste, e semelhavel aos animaes com que tratava; e tornando

ao proposito, assim como entre estes hà tanta differença quanta vemos,

assim nos homens se achaõ ainda mais differentes condiçoens de vida,

e costumes, que na diversidade dos brutos. Cà saõ homens, e mulheres,

casados, e solteiros, leigos, e Sacerdotes, nobres, e baixos, pobres,

e ricos, moços, e velhos, senhor, e vassallos, rusticos, e politicos,

discretos, e ignorantes, covardes, e animosos, irosos, e manços. Alèm

destes màos, e bons, cobiçosos, roubadores, homicidas, onzeneiros,

adulteros, sacrilegos, perjuros, hereges, e blasphemos, como vemos em

quantos generos de maldades cabem no coraçaõ humano, a que he inclinado

de seu nascimento, que cada cousa destas obra, differentes effeitos,

e de huma maneira se ha de tratar o senhor, e de outra o vassallo,

de huma o Leigo, de outra o Sacerdote. E como Hipocrates manda aos

Medicos, que conheçaõ a idade dos enfermos, o tempo, a Região, e a

infirmidade; assim o Principe no corpo mistico da Republica ha de ter

tal regimento, que a medicina applicada a hum membro naõ dane o outro,

que saõ as leys, a que Plataõ chama verdadeiro mantimento do povo: como

fazia Paulo na Prègaçaõ do Evangelho, que aos fracos na Fè dava leite,

e aos criados nella paõ com codea.

29 Pois que animal mais indomito, e fero pòde ser, que o homem injusto?

Quantos males, e danos, quantas destruiçoens de povos, perdas de

Reynos, e de almas nascem dos homens? A que o exemplo do castigo alheyo

naõ aproveita para emenda propria; quantos cutellos ensangoentados,

quantas execuçoens de justiça criminal vem cada dia ante seus olhos,

os que sem temor destas penas cõmetem crimes dignos de morte? Podendo

nelles mais a malicia, que o temor; pois qual saber humano poderà

governar taõ differentes vontades, e trazellas a huma mesma concordia

das leys?

30 Pelo mesmo modo contaõ os antigos, que foy hum certo tempo, em que

os homens viviaõ nos campos, e sustentavaõ a vida, como bestas feras,

fazendo as cousas mais por obra das mãos, que por arte, nem razaõ,

carecendo da Religiaõ, sem casamento, nem amor de filhos, por os naõ

terem certos, sem conhecimento de leys, de tal modo, que com esta

ignorancia, e error andava a concupiscencia cega, senhora da razaõ,

usando de forças corporaes, como de gente armada para satisfaçaõ de

seus appetites. No qual tempo se levantou hum homem sabedor, e vendo

quanta efficacia, e proveito para muitas cousas jazia escondida no

animo dos homens, se pudesse trazer à luz, e acrescentar com doutrina;

andando huns espalhados pelos campos, jazendo outros metidos em covas

sylvestres, os ajuntou em hum lugar, e lhes ensinou o caminho, que

haviaõ de seguir, acerca do que tocava ao prol commum de todos. Os

quaes posto que no principio fossem màos de ajuntar, toda via pouco, e

pouco, de feros, e salvaticos que eraõ, os fez domesticos, e racionaes.

31 A este proposito, cuido que diz a Escritura, que a Sapiencia

edificou para si huma casa, e cortou sete colunnas, querendo dizer

(naõ fallo agora nos sentidos espirituaes) que naõ buscou quem lha

edificasse, e escusou ajudas, e mestres, porque nella havia tudo, o

que naõ tem a ignorancia, que com todas as achegas postas em casa a

naõ levantaria de sobrado. Por este homem sabedor podemos entender

o Principe, o qual posto que tenha sua Republica unida com leys, e

direito Divino, sempre se achaõ em todo o tempo, e em todo o estado

homens (como pouco ha disse) desobedientes a toda a razaõ, que como

aquelles primeiros andaõ fóra de toda a ley; naõ guardando a ordem

matrimonial, sem Religiaõ, e temor de Deos, e nos manjares como bestas

obedientes à gula, e ao ventre, vivendo fóra da commum habitaçaõ dos

outros, matando, e salteando pelos despovoados, os quaes o Principe por

força, e por arte ha de levar à domestica doutrina da razaõ, e fazer

com que o lobo ande em hum mesmo pasto, como o cordeiro.

32 Aqui poderia eu dizer (prudentissima Princesa) que nella se pòde

mostrar este grande homem sabedor, que meteo os outros no caminho da

verdade. Que dias hà, que este vosso povo derramados pelos desertos

deshabitados da razaõ, espera por V. Alteza. Grandes caminhos se me

abriaõ aqui de seu louvor, mas diraõ, que não guardo o decoro, que

devo à patria em publicar seus defeitos por ser mãy, que me gerou. Ó

grandissima prudencia delRey Nosso Senhor entregar neste tempo hum povo

a quem o havia de restituir a estado de mayor quietaçaõ, e repouso.

Grandissima clemencia de V. Alteza, aceitar a governança delle pelo

salvar. Certamente que naõ sey o que mais louve, se a prudencia de hum,

se a clemencia do outro, igual he a divida, igual o louvor, igual a

obrigaçaõ.

33 Muito devemos a ElRey, que nos deu a taõ alta Princesa, muito

devemos a V. Alteza, que nos aceitou por seus. O singular, e nunca

ouvido genero de liberalidade, taõ diverso, e taõ igual à delRey Nosso

Senhor em dar, e a de V. Alteza em aceitar. Naõ sey o que diga por

este taõ bom dia como nos amanheceo, e se disser alguma cousa, que

posso dizer, senaõ o que diz o Poeta: _Jam redit & virgo, redeunt

saturnia regna_. E elle a seu proposito, e eu ao meu. Quem serà taõ

desconhecido, que seja ingrato a esta mercè? Quem taõ ignorante, que

a naõ conheça? Quem taõ cego, que a naõ veja? Quem taõ mudo, que a

naõ publique? Quem taõ sofrido, que a cale? Quem taõ rustico, que a

naõ estime? E naõ entenda o tempo, em que ElRey nos buscou remedio de

nossas enfirmidades, com que temos a saude certa, e a prosperidade

segura. Nem podia sahir tal conselho, se naõ de Principe taõ dado às

letras, e taõ favorecedor dellas. Nas quaes como naõ tenha pequena

parte, assim buscou quem a tivesse muy grande, que as cousas naõ pòdem

ser bem julgadas, senaõ por aquelles, que tem verdadeiro conhecimento

dellas.

34 Vio bem Sua Alteza, que a jurisdiçaõ das letras se estendia tanto

pela Universidade das cousas, que nenhuma se podia fazer sem ellas, que

estes Cesares, estes Scipioens, e Anibaes, e todos os mais, que nas

armas floreceraõ, entre ellas senaõ desprezavaõ dos livros. Como de

Alexandre se lè, que achando no despojo de Dario huma caixa muito rica

de maravilhoso artificio, que servia dos cheiros, e perfumes delRey,

mandou (contra opiniaõ de alguns) que para outros usos a deputavaõ, que

lha guardassem para a Illiada de Homero. Era taõ sofrego das letras,

que por Aristoteles publicar huns livros, que compoz da Metaphysica,

o reprehendeo disso, querendo reservar para si o uso delles: sómente

como diz Seneca, em estudar Geometria errou, porque havia de saber quam

pequena era a terra, da qual a mayor parte tinha occupada, com que

ficava falso o nome de que se intitulava de Grande Alexandre.

35 E naõ lemos, que a Mathematica de Archimedes defendeo por muitos

dias Çaragoça aos Romanos? E que as artes liberaes de Gallo Sulpicio,

como diz Valerio Maximo, foraõ causa da grande victoria, que Lucio

Paulo Capitaõ Romano houve contra os Persas, porque espantado o

exercito do ecclipse da Lua tinhaõ perdida a confiança da victoria,

o qual elle lhe restituyo, provando pela ordem dos Ceos, que o

desfallecimento deste Planeta era natural, e naõ prodigioso.

36 O Emperador Antonino naõ foy bom Philosopho, e bom Capitaõ? Carlos

Magno naõ trazia nos exercitos ao grande Alcuino, cujas obras saõ

hoje ornamento da Igreja? A ElRey D. Afonso de Castella naõ lhe deraõ

suas tavoas nome de Sabio? Ao de Napoles deste mesmo nome, vosso Tio

filho delRey D. Fernando de Aragaõ vosso quarto Avò taõ excellente

Cavalleiro, e singular Capitaõ, de cujos louvores estaõ cheyas as

Chronicas Napolitanas; que mais posso dizer em louvor das letras,

senaõ que trazia por divisa hum livro aberto: porque dizia João de

Issera, homem de muy grande juizo, que se elle naõ fora Rey, fora

muy grande Philosopho. O qual lendo hum proemio, do que tradusio em

lingoa Castelhana, os livros de Santo Agostinho _De Civitates Dei_,

achou huma sentença, que dizia que o Principe idiota era hum bruto

animal coroado. As quaes palavras lhe pareceraõ taõ bem, que nos

negocios, na guerra, em suas prizoens, e adversidades, nunca deixou

de ler, ouvir, argumentar, praticar em letras, e no Campo em seus

exercitos trazia consigo hum Mestre Martinho, com quem communicava

seu estudo. Tradusio as Epistolas de Seneca em Espanhol, teve grande

conhecimento das historias, grande noticia dos Poetas, e Oradores,

soube muitas conclusoens de Philosophia natural, e tanto estudou na

Sagrada Escritura, que se louvava ter lido o Testamento velho, e novo,

quatorze vezes, com suas grozas, e commentos; respondia, e praticava

como Theologo consumado em materias theologaes arduas, e dificultosas,

como saõ da presença de Deos: _De Liber arbitrio_, _de Trinitate_, _de

Incarnatione Verbi Dei_, _de Sacramento Eucharistiæ_. E dizia, que

naõ avia melhores homens de conselho, que os mortos, que careciaõ de

odio, favor, ou temor, respeitos, a que os vivos pela mayor parte saõ

sugeitos. Dizem delle, que nos sacos dos lugares, nenhum despojo lhe

era taõ agradavel como o dos livros, os quaes trazia sempre, como jà

disse, nos caminhos, e exercicios, principalmente os Commentarios de

Cesar, e Tito Livio, a que era affeiçoado. E na conversaçaõ domestica

se servio de Bertholameu Fascio, singular historiographo, e Orador, de

Georgio Trapezuncio, de Lourenço de Valla, doctissimos, hum na lingoa

Grega, outro na Latina, de Joaõ Aurispa Siciliano, que escreveo muitas

Epistolas, e Livros moraes, e de Antonio Panormitano Bolonhes, que

escreveo hum Livro dos ditos, e sentenças do mesmo Rey D. Afonso, todos

Baroens doutos, que no seu tempo floreceraõ.

37 Quiz fallar muito de taõ singular Rey, porque sua vida, e costumes,

parece que confirmaõ o nosso proverbio, que diz: As letras naõ

despontaraõ a lança. E certo naõ sey que sains mais amolados possaõ

ser, que armas guiadas por conselho de prudente Capitaõ? E que muitos

tragaõ em pratica: _Que farà aqui Plinio_, graça que hum homem disse em

huma afronta a outro na Villa de Alcacer Ceguer; saõ cousas favorecidas

daquelles, que por naõ saberem letras, querem authorizar este defeito

com ditos alheyos, dignos de muita reprehençaõ, porque certo naõ ha ahi

homens mais prejudiciaes às cousas dos que os que carecem dellas, que

como esta privaçaõ seja causa de seu abatimento, querem-se sustentar

com graças, quando lhe faltassem boas razoens.

38 Esta verdade confirmaraõ os Infantes D. Pedro, e D. Henrique vossos

tios, cujas armas tanto honraraõ estes Reynos, que ainda hoje os

livros, que hum compoz, authorizaõ a livraria delRey nosso Senhor, e o

Mundo, que o outro com sua Mathematica começou a descobrir que ElRey

vosso pay, com muito acrescentamento conquistou, està cheyo de seus

louvores. E nisto cuido eu que o Infante D. Pedro quiz significar quam

necessarias eraõ nos Principes, a Filosofia, e as armas, pois Tulio,

de Officiis, e Vigecie, que destas duas cousas escreveraõ, traduzio em

lingoa Portuguesa.

39 Tornando ao proposito, bem claro mostra Vossa Alteza nos livros,

que tem por ornamento de sua Casa, que procede do sangue deste taõ

glorioso Rey de Napoles, que taõ boa memoria de si deixou ao Mundo, e a

seus descendentes, exemplo com que aprendessem a ser Filosofos na paz,

e Cavalleiros na guerra, pois que os livros mais alimpaõ as armas, do

que as danaõ, e que Vossa Alteza as naõ exercite por lhe naõ ser dado,

tem logo outras espirituaes de tanta força, que sem ella as materias

perderiaõ a sua. Cà o animo onde se acha prudencia, fortaleza, justiça,

e temperança com a verdadeira fè do que se deve crer, que cousas

começarà, que naõ acabe? Ou como acabarà a memoria das que começar?

Obedece o ferro à industria, as armas ao conselho, a gente ao Capitaõ,

e como diz Salustio muito tempo durou entre os homens esta profia, em

que consistia mais a virtude militar, se nas forças corporaes, se nas

do animo, e posto que humas tenhaõ necessidade das outras, todavia pelo

tempo, e experiencia se achou, que na guerra, o saber valia mais. E

certo que muitas vezes, lendo os notaveis feitos das Amasonas, que em

armas fizeraõ, me faziaõ muita duvida, parecendo-me que em mulheres,

que a natureza naõ criou para o tal exercicio, senaõ podia achar tanta

perfeiçaõ, a qual me tirou Valasca, de que conta o Papa Pio II. que com

Exercitos de mulheres senhoreou sete annos o Reyno de Boemia, vencendo

muitas batalhas campaes, e fazendo feitos em armas de muy esforçados

cavalleiros. E Joanna, de que conta Gaguino, que vulgarmente chamamos a

Poncella, cujo esforço, e prudencia militar restituio o Reyno de França

a ElRey Carlos VII. deste nome, posto que naõ acabasse conforme a seus

merecimentos, as quaes nos tiraraõ a duvida de outras mais alongadas de

nossa memoria, como Symiramis, que governou tantas Provincias, Dido,

que edificou huma tão nobre Cidade, e Thomiris, que matou a ElRey Cyro.

40 Assim que com estes, e outros exemplos de mulheres, que nas armas

floreceraõ, e administraraõ Reynos, naõ duvido eu (Illustrissima

Princesa) que trazendo o tempo taes necessidades, que fosse necessaria

sua prudencia, e conselho, para governar gente armada, que se acharia

nella tão perfeito, como se achou na Rainha Dona Isabel vosso visavò,

cujo favor, e esforço ajudou a lançar fòra os Mouros de Espanha, que

de setecentos annos, e mais a senhorearão por força de armas, a qual

foy vista nos Exercitos, e perigos da guerra: mas como o tempo não

ordene tal cousa, Vossa Alteza o gasta em outras, de que naõ merece

menos louvor do que estas tiverão, que pouco ha nomeei, as quaes posto

que venceraõ homens algumas dellas, naõ venceraõ a si mesmas, senaõ

que o seu he tanto mayor, que a vitoria dos inimigos de casa, he mais

louvada, que a dos de fóra. Porque segundo diz Marco Tullio, como

poderà ser senhor aquelle, que o naõ he de suas paixoens? Refree

primeiro os vicios, despreze as deleitaçoens, reprima, e detenha a

ira, vença avareza, e lance de si as nodoas do animo, e entaõ comece a

senhorear, depois que deixar de servir.

41 Dizia o grande Agessilào, vendo que os Persas louvavaõ, e

senhoreavaõ hum Rey da India, que tinha grandes thesouros: porque serà

elle mais rico, pois naõ he mais temperado? Querendo dizer que as

forças dos Principes naõ estavaõ nas pedras preciosas, e Elefantes da

India, senaõ em a temperança da vida, que he a verdadeira Filosofia, e

o verdadeiro fruito das letras, inventadas para assentar os homens em

hum honesto modo, e boa ordem de viver. Mas como seus donos se servem

dellas para valer, e naõ para merecer, saõ como os vazos avinagrados do

Poeta Horacio, que diz:

_Nisi purum esi vas omne quod infundis acrescit._

42 Ao qual proposito dizia o Filosofo Epitheto a hum homem de bom

engenho, e mal inclinado, que desejava, e trabalhava por saber. Ó

homem, olha se he limpo o vazo em que tanta cousa lances. E certamente,

assim como a ignorancia dos Governadores idiotas he prejudicial à

Republica, assim a malicia dos Letrados he causa de muitos males,

principalmente a daquelles, que tem officio de ensinar bons costumes,

que se as obras naõ respondem às palavras, perdidas saõ quantas lhe

caem dos pulpitos abaixo. Por a obra ser de tanta força, que mudo

brada, e callando grita, com que comprehende estas duas cousas, fazer,

e dizer; e a palavra sem obra he só, e naõ tem virtude para dar raizes

na terra, onde acertou cahir: contra estes, que esperdiçaõ a Doutrina

de Deos, fazendo o contrario do que dizem, e prégaõ, diz Paulo, que naõ

escaparaõ da sua justiça, pois nas sentenças que daõ contra os outros,

condenaõ a si mesmos.

43 Como cheguey à altura deste conceito, e conhecimento, tudo o que

descobri foraõ louvores de Vossa Alteza, porque era qualquer dos rumos,

em que o tempo me poz, em todos ouve vista de suas obras, taõ juntas

aos livros, que parece naõ sahir fóra da margem do que nelles le. Cà

se o jejum tem merecimento diante de Deos, quem melhor guarda este

preceito, e com mais louvor? Pois, sendo criada na abastança de todas

as cousas, que pertencem a seu estado; sem o trabalho de as adquirir,

por servir a Deos, e merecer ante elle, se poem em necessidade dellas.

Que notorio he a todos com quanto trabalho se resiste à criaçaõ, que

padecem mais facilmente esta falta da mantença corporal os moradores da

parte Meridional, que os de Setemtriaõ, por huns viverem em terra fria,

e outros em quente, que obra diversos effeitos, mais o rustico, que o

bem nascido, pelo costume, mais o velho, que o moço, pela deminuiçaõ

de calor natural. Assim quer Vossa Alteza, sobejando-lhe as cousas de

sua propria vontade, exprimentar o carecimento dellas, por respeito

de virtude, certo he muy grande louvor, e merecimento, pois naõ tem

necessidade, a quer sentir, forçando sua vontade por comprir a de

Deos, desprezando tanta diversidade de iguarias, com tanto artificio

compostas. Quem serà com taes exemplos mào Christaõ? E se o for, que

escusa terà com Deos, estando à conta com elle, que lhe ha de ser

tomada taõ estreita: podemos logo com muita razaõ dizer, que a liçaõ

dos jejuns, que Vossa Alteza le da Rainha Hester, e de Elias, e S. Joaõ

Bautista, e a obra com que os guarda, tudo junto anda enquadernado.

44 E se viermos ao sacrificio da oraçaõ taõ louvado na Sagrada

Escritura, qual Religioso com mais cuidado, diligencia, e continuaçaõ

reza suas horas por obrigaçaõ, que V. Alteza sem alguma? Naõ lhe

faltando dia em que naõ ouça os officios Divinos, confessando-se

tantas vezes no anno, e tantas vezes recebendo o Santissimo Sacramento

do Altar. A communicaçaõ dos quaes, como sabe que daõ graça, assim

trabalha pela merecer com elles. Certamente, que considerando muitas

vezes a humildade de hum Principe bom Christaõ, se me representa, a

ventagem, que nossa Fè tem às seitas, e falsas Religioens, que foraõ,

e saõ ao presente: porque de quantos Principes, e Emperadores nellas

houve, naõ se lé haver algum, a que a obrigaçaõ de sua Religiaõ

fizessee taõ humilde, e taõ sogeito, como saõ os nossos. Os quaes

vendo-se de huma parte rodeados de tantos criados, e servidores

com tanto resguardo, e acatamento às suas pessoas, que os olhos

naõ empregaõ em outro objecto, senaõ em o do Principe, para que em

acenando, os seus jà executem, naõ sómente o que dizem, mas o que

adivinhaõ, que querem. E da outra posto de joelhos diante de hum pobre

Religioso seu Confessor, e de tal maneira, posto que naõ sómente lhe

diz as culpas, e peccados, que commete, mas o pensamento que teve,

ou tem de as commeter, pedindo-lhe sobre tudo penitencia, e castigo

dellas; taõ obediente, e aparelhado a comprir quanto saõ seus Vassallos

a lhe obedecer, somente nisto saõ differentes, que elle o faz de

coraçaõ, e os seus às vezes de mà vontade, fingindo-a boa por lhe

ganharem a sua. Cousa he certo de muita admiraçaõ, vontade de tantas

obedecida, obedecer a huma só, sugeitar-se a hum homem, aquelle a que

tantos saõ sugeitos, reduzir-se a hum só lugar huma jurisdiçaõ taõ

estendida, por Reynos, e Provincias.

Noticias de Portugal · 第 37 / 43 段