diz Seneca, naõ toma, senaõ o que dà, o fogo gasta o ferro, o mar
alaga Cidades, terremotos as derrubaõ, rayos espantaõ o Mundo, armas
o senhoreaõ, sò o saber de homem he livre destes perigos, porque nem
o tempo, que o mesmo Seneca chama sepultura de todas as cousas, o
gasta, ou a morte o senhorea, que com elle mediante a graça Divina
fazemos o caminho para a gloria, que esperamos. E assim dizia Byas
Prienense fugindo da Patria, que deixava tomada dos inimigos, naõ
levando mais que sua pessoa, e hum bordaõ, que tudo levava consigo.
E se quizermos particularmente considerar as cousas, qual averà, que
sem letras divinas, ou humanas se possa fazer? Como navegariamos as
terras ignotas, que comercio, que noticia huma gente afastada por
tantos intervallos de mar, e terra, teria das outras, sem a sciencia da
Astronomia? Que communicaçaõ, ou que prestança das mercadorias averia
sem navegaçaõ? Como se edificariaõ Navios, Casas, Templos, e Fortalezas
com suas maquinas, taõ necessarias à vida, e policîa dos homens sem
arquitetura? Como se governariaõ as Cidades, Reynos, e Respublicas, sem
Filosofia moral? Como sem a natural se exercitaria o uso da agricultura
taõ necessaria a mentença dos homens? E decendo ao particular das artes
mecanicas, como nos aproveitariamos dellas, senaõ fosse por meyo das
Mathematicas? Como tiveramos a musica pratica sem a especulativa? Com
tanta diversidade de estromentos, taõ necessarios, assim à Religiaõ,
e Culto Divino, como para a guerra, e deleitaçaõ da vida? Que remedio
para nossas infermidades, com que os corpos humanos por taõ diversas
vias saõ offendidos, senaõ fora a medicina? Pois vindo ao espiritual,
que fora de nossas almas sem a Divina Sciencia, que nos ensina o
caminho, que avemos de seguir para a salvaçaõ dessas, remate de nossa
bemaventurança? Em fim, porque meyo os homens communicariaõ essas
sciencias com os prezentes, e futuros, sem letras? Certamente que
examinando bem isto, parecem indignos da potencia intelectual, que he
imagem, e semelhança de Deos com que fomos criados, os que desprezaraõ
o verdadeiro ornamento, e atabio dalma, que he a sabedoria. A qual,
como diz Nazianzeno, he Princesa, e inventora de todas as cousas, e em
si as comprehende: do nome da qual se quiz Deos intitular, chamando-se
Sapiencia do Padre; e quam necessaria ella seja nos Principes, Salamaõ
o diz: por mim reinão os Reys, e os Principes senhoreão.
28 E para mais verificarmos isto faremos huma parabola imitando
aquelle, que para todos se fez unico exemplar. Finjamos hum Rey tão
zeloso da paz, e liança de todos os brutos animaes, que mandasse
ajuntar quantos ahi ha diferentes em genero, e especie, para que
metidos em hum curral juntos, os entregasse a hum pastor, de que
tivesse experiencia, e confiança, que os trouxesse a tal concordia,
que o Leão não comesse o Lobo, nem o Lobo ao Carneiro, o Galgo naõ
filhasse a Lebre, nem o Açor a Perdiz, de tal modo, que esquecidos
de sua braveza natural uzassem de toda a brandura, e mansidaõ; e que
Pastor averia por muito atrevido que fosse, que naõ dissesse o que
Moysès dizia a Deos: Senhor manda quem as demandar, por o tal cargo
requerer, naõ digo hum grande e consumado saber humano, mas ainda a
hum Divino inspirado por graça? Pois o Rey, que isto quiz fazer foy
Deos Eterno, que ordenou na terra o governo dos Reys, e Principes,
ficando-lhe na mão o coraçaõ delles, como quem sabia que tamanho
officio, sem sua ajuda muy particular senaõ podia bem administrar. E os
animaes, que tanto lhe encomendou saõ os homens, que deixando o caminho
da rasaõ seguiraõ o dos brutos. Cà, segundo Paulo: _Justis non est lex
posita_. Donde nasceo a meu juizo fingirem alguns Filosofos, entre os
quaes foy Plataõ, que as almas dos homens se trespassavaõ em corpos de
diversas bestas, similhaveis aos costumes, que tiveraõ o dos Tyranos,
e Principes em Lobos, Falcoens, e Milhanos, e os dados aos vicios da
gula, e perguiça em asnos, introduzindo daquelle Herpamphilio, que
disse ter visto a alma de Orpheo metida em hum Cisne, e de Aiax em hum
leaõ, e a de Agamenon em Aguia, e em hum bugio a de Tersires Homerico,
querendo significar, que nenhuma differença tem de brutos, os que
vivem como brutos, e que a semelhança dos costumes lha faz igual a
natureza; E dizerem as fabulas, que Acteon foy convertido em Corso, naõ
he outra cousa senaõ, que pelo muito exercicio, e continuaçaõ da caça
se fez agreste, e semelhavel aos animaes com que tratava; e tornando
ao proposito, assim como entre estes hà tanta differença quanta vemos,
assim nos homens se achaõ ainda mais differentes condiçoens de vida,
e costumes, que na diversidade dos brutos. Cà saõ homens, e mulheres,
casados, e solteiros, leigos, e Sacerdotes, nobres, e baixos, pobres,
e ricos, moços, e velhos, senhor, e vassallos, rusticos, e politicos,
discretos, e ignorantes, covardes, e animosos, irosos, e manços. Alèm
destes màos, e bons, cobiçosos, roubadores, homicidas, onzeneiros,
adulteros, sacrilegos, perjuros, hereges, e blasphemos, como vemos em
quantos generos de maldades cabem no coraçaõ humano, a que he inclinado
de seu nascimento, que cada cousa destas obra, differentes effeitos,
e de huma maneira se ha de tratar o senhor, e de outra o vassallo,
de huma o Leigo, de outra o Sacerdote. E como Hipocrates manda aos
Medicos, que conheçaõ a idade dos enfermos, o tempo, a Região, e a
infirmidade; assim o Principe no corpo mistico da Republica ha de ter
tal regimento, que a medicina applicada a hum membro naõ dane o outro,
que saõ as leys, a que Plataõ chama verdadeiro mantimento do povo: como
fazia Paulo na Prègaçaõ do Evangelho, que aos fracos na Fè dava leite,
e aos criados nella paõ com codea.
29 Pois que animal mais indomito, e fero pòde ser, que o homem injusto?
Quantos males, e danos, quantas destruiçoens de povos, perdas de
Reynos, e de almas nascem dos homens? A que o exemplo do castigo alheyo
naõ aproveita para emenda propria; quantos cutellos ensangoentados,
quantas execuçoens de justiça criminal vem cada dia ante seus olhos,
os que sem temor destas penas cõmetem crimes dignos de morte? Podendo
nelles mais a malicia, que o temor; pois qual saber humano poderà
governar taõ differentes vontades, e trazellas a huma mesma concordia
das leys?
30 Pelo mesmo modo contaõ os antigos, que foy hum certo tempo, em que
os homens viviaõ nos campos, e sustentavaõ a vida, como bestas feras,
fazendo as cousas mais por obra das mãos, que por arte, nem razaõ,
carecendo da Religiaõ, sem casamento, nem amor de filhos, por os naõ
terem certos, sem conhecimento de leys, de tal modo, que com esta
ignorancia, e error andava a concupiscencia cega, senhora da razaõ,
usando de forças corporaes, como de gente armada para satisfaçaõ de
seus appetites. No qual tempo se levantou hum homem sabedor, e vendo
quanta efficacia, e proveito para muitas cousas jazia escondida no
animo dos homens, se pudesse trazer à luz, e acrescentar com doutrina;
andando huns espalhados pelos campos, jazendo outros metidos em covas
sylvestres, os ajuntou em hum lugar, e lhes ensinou o caminho, que
haviaõ de seguir, acerca do que tocava ao prol commum de todos. Os
quaes posto que no principio fossem màos de ajuntar, toda via pouco, e
pouco, de feros, e salvaticos que eraõ, os fez domesticos, e racionaes.
31 A este proposito, cuido que diz a Escritura, que a Sapiencia
edificou para si huma casa, e cortou sete colunnas, querendo dizer
(naõ fallo agora nos sentidos espirituaes) que naõ buscou quem lha
edificasse, e escusou ajudas, e mestres, porque nella havia tudo, o
que naõ tem a ignorancia, que com todas as achegas postas em casa a
naõ levantaria de sobrado. Por este homem sabedor podemos entender
o Principe, o qual posto que tenha sua Republica unida com leys, e
direito Divino, sempre se achaõ em todo o tempo, e em todo o estado
homens (como pouco ha disse) desobedientes a toda a razaõ, que como
aquelles primeiros andaõ fóra de toda a ley; naõ guardando a ordem
matrimonial, sem Religiaõ, e temor de Deos, e nos manjares como bestas
obedientes à gula, e ao ventre, vivendo fóra da commum habitaçaõ dos
outros, matando, e salteando pelos despovoados, os quaes o Principe por
força, e por arte ha de levar à domestica doutrina da razaõ, e fazer
com que o lobo ande em hum mesmo pasto, como o cordeiro.
32 Aqui poderia eu dizer (prudentissima Princesa) que nella se pòde
mostrar este grande homem sabedor, que meteo os outros no caminho da
verdade. Que dias hà, que este vosso povo derramados pelos desertos
deshabitados da razaõ, espera por V. Alteza. Grandes caminhos se me
abriaõ aqui de seu louvor, mas diraõ, que não guardo o decoro, que
devo à patria em publicar seus defeitos por ser mãy, que me gerou. Ó
grandissima prudencia delRey Nosso Senhor entregar neste tempo hum povo
a quem o havia de restituir a estado de mayor quietaçaõ, e repouso.
Grandissima clemencia de V. Alteza, aceitar a governança delle pelo
salvar. Certamente que naõ sey o que mais louve, se a prudencia de hum,
se a clemencia do outro, igual he a divida, igual o louvor, igual a
obrigaçaõ.
33 Muito devemos a ElRey, que nos deu a taõ alta Princesa, muito
devemos a V. Alteza, que nos aceitou por seus. O singular, e nunca
ouvido genero de liberalidade, taõ diverso, e taõ igual à delRey Nosso
Senhor em dar, e a de V. Alteza em aceitar. Naõ sey o que diga por
este taõ bom dia como nos amanheceo, e se disser alguma cousa, que
posso dizer, senaõ o que diz o Poeta: _Jam redit & virgo, redeunt
saturnia regna_. E elle a seu proposito, e eu ao meu. Quem serà taõ
desconhecido, que seja ingrato a esta mercè? Quem taõ ignorante, que
a naõ conheça? Quem taõ cego, que a naõ veja? Quem taõ mudo, que a
naõ publique? Quem taõ sofrido, que a cale? Quem taõ rustico, que a
naõ estime? E naõ entenda o tempo, em que ElRey nos buscou remedio de
nossas enfirmidades, com que temos a saude certa, e a prosperidade
segura. Nem podia sahir tal conselho, se naõ de Principe taõ dado às
letras, e taõ favorecedor dellas. Nas quaes como naõ tenha pequena
parte, assim buscou quem a tivesse muy grande, que as cousas naõ pòdem
ser bem julgadas, senaõ por aquelles, que tem verdadeiro conhecimento
dellas.
34 Vio bem Sua Alteza, que a jurisdiçaõ das letras se estendia tanto
pela Universidade das cousas, que nenhuma se podia fazer sem ellas, que
estes Cesares, estes Scipioens, e Anibaes, e todos os mais, que nas
armas floreceraõ, entre ellas senaõ desprezavaõ dos livros. Como de
Alexandre se lè, que achando no despojo de Dario huma caixa muito rica
de maravilhoso artificio, que servia dos cheiros, e perfumes delRey,
mandou (contra opiniaõ de alguns) que para outros usos a deputavaõ, que
lha guardassem para a Illiada de Homero. Era taõ sofrego das letras,
que por Aristoteles publicar huns livros, que compoz da Metaphysica,
o reprehendeo disso, querendo reservar para si o uso delles: sómente
como diz Seneca, em estudar Geometria errou, porque havia de saber quam
pequena era a terra, da qual a mayor parte tinha occupada, com que
ficava falso o nome de que se intitulava de Grande Alexandre.
35 E naõ lemos, que a Mathematica de Archimedes defendeo por muitos
dias Çaragoça aos Romanos? E que as artes liberaes de Gallo Sulpicio,
como diz Valerio Maximo, foraõ causa da grande victoria, que Lucio
Paulo Capitaõ Romano houve contra os Persas, porque espantado o
exercito do ecclipse da Lua tinhaõ perdida a confiança da victoria,
o qual elle lhe restituyo, provando pela ordem dos Ceos, que o
desfallecimento deste Planeta era natural, e naõ prodigioso.
36 O Emperador Antonino naõ foy bom Philosopho, e bom Capitaõ? Carlos
Magno naõ trazia nos exercitos ao grande Alcuino, cujas obras saõ
hoje ornamento da Igreja? A ElRey D. Afonso de Castella naõ lhe deraõ
suas tavoas nome de Sabio? Ao de Napoles deste mesmo nome, vosso Tio
filho delRey D. Fernando de Aragaõ vosso quarto Avò taõ excellente
Cavalleiro, e singular Capitaõ, de cujos louvores estaõ cheyas as
Chronicas Napolitanas; que mais posso dizer em louvor das letras,
senaõ que trazia por divisa hum livro aberto: porque dizia João de
Issera, homem de muy grande juizo, que se elle naõ fora Rey, fora
muy grande Philosopho. O qual lendo hum proemio, do que tradusio em
lingoa Castelhana, os livros de Santo Agostinho _De Civitates Dei_,
achou huma sentença, que dizia que o Principe idiota era hum bruto
animal coroado. As quaes palavras lhe pareceraõ taõ bem, que nos
negocios, na guerra, em suas prizoens, e adversidades, nunca deixou
de ler, ouvir, argumentar, praticar em letras, e no Campo em seus
exercitos trazia consigo hum Mestre Martinho, com quem communicava
seu estudo. Tradusio as Epistolas de Seneca em Espanhol, teve grande
conhecimento das historias, grande noticia dos Poetas, e Oradores,
soube muitas conclusoens de Philosophia natural, e tanto estudou na
Sagrada Escritura, que se louvava ter lido o Testamento velho, e novo,
quatorze vezes, com suas grozas, e commentos; respondia, e praticava
como Theologo consumado em materias theologaes arduas, e dificultosas,
como saõ da presença de Deos: _De Liber arbitrio_, _de Trinitate_, _de
Incarnatione Verbi Dei_, _de Sacramento Eucharistiæ_. E dizia, que
naõ avia melhores homens de conselho, que os mortos, que careciaõ de
odio, favor, ou temor, respeitos, a que os vivos pela mayor parte saõ
sugeitos. Dizem delle, que nos sacos dos lugares, nenhum despojo lhe
era taõ agradavel como o dos livros, os quaes trazia sempre, como jà
disse, nos caminhos, e exercicios, principalmente os Commentarios de
Cesar, e Tito Livio, a que era affeiçoado. E na conversaçaõ domestica
se servio de Bertholameu Fascio, singular historiographo, e Orador, de
Georgio Trapezuncio, de Lourenço de Valla, doctissimos, hum na lingoa
Grega, outro na Latina, de Joaõ Aurispa Siciliano, que escreveo muitas
Epistolas, e Livros moraes, e de Antonio Panormitano Bolonhes, que
escreveo hum Livro dos ditos, e sentenças do mesmo Rey D. Afonso, todos
Baroens doutos, que no seu tempo floreceraõ.
37 Quiz fallar muito de taõ singular Rey, porque sua vida, e costumes,
parece que confirmaõ o nosso proverbio, que diz: As letras naõ
despontaraõ a lança. E certo naõ sey que sains mais amolados possaõ
ser, que armas guiadas por conselho de prudente Capitaõ? E que muitos
tragaõ em pratica: _Que farà aqui Plinio_, graça que hum homem disse em
huma afronta a outro na Villa de Alcacer Ceguer; saõ cousas favorecidas
daquelles, que por naõ saberem letras, querem authorizar este defeito
com ditos alheyos, dignos de muita reprehençaõ, porque certo naõ ha ahi
homens mais prejudiciaes às cousas dos que os que carecem dellas, que
como esta privaçaõ seja causa de seu abatimento, querem-se sustentar
com graças, quando lhe faltassem boas razoens.
38 Esta verdade confirmaraõ os Infantes D. Pedro, e D. Henrique vossos
tios, cujas armas tanto honraraõ estes Reynos, que ainda hoje os
livros, que hum compoz, authorizaõ a livraria delRey nosso Senhor, e o
Mundo, que o outro com sua Mathematica começou a descobrir que ElRey
vosso pay, com muito acrescentamento conquistou, està cheyo de seus
louvores. E nisto cuido eu que o Infante D. Pedro quiz significar quam
necessarias eraõ nos Principes, a Filosofia, e as armas, pois Tulio,
de Officiis, e Vigecie, que destas duas cousas escreveraõ, traduzio em
lingoa Portuguesa.
39 Tornando ao proposito, bem claro mostra Vossa Alteza nos livros,
que tem por ornamento de sua Casa, que procede do sangue deste taõ
glorioso Rey de Napoles, que taõ boa memoria de si deixou ao Mundo, e a
seus descendentes, exemplo com que aprendessem a ser Filosofos na paz,
e Cavalleiros na guerra, pois que os livros mais alimpaõ as armas, do
que as danaõ, e que Vossa Alteza as naõ exercite por lhe naõ ser dado,
tem logo outras espirituaes de tanta força, que sem ella as materias
perderiaõ a sua. Cà o animo onde se acha prudencia, fortaleza, justiça,
e temperança com a verdadeira fè do que se deve crer, que cousas
começarà, que naõ acabe? Ou como acabarà a memoria das que começar?
Obedece o ferro à industria, as armas ao conselho, a gente ao Capitaõ,
e como diz Salustio muito tempo durou entre os homens esta profia, em
que consistia mais a virtude militar, se nas forças corporaes, se nas
do animo, e posto que humas tenhaõ necessidade das outras, todavia pelo
tempo, e experiencia se achou, que na guerra, o saber valia mais. E
certo que muitas vezes, lendo os notaveis feitos das Amasonas, que em
armas fizeraõ, me faziaõ muita duvida, parecendo-me que em mulheres,
que a natureza naõ criou para o tal exercicio, senaõ podia achar tanta
perfeiçaõ, a qual me tirou Valasca, de que conta o Papa Pio II. que com
Exercitos de mulheres senhoreou sete annos o Reyno de Boemia, vencendo
muitas batalhas campaes, e fazendo feitos em armas de muy esforçados
cavalleiros. E Joanna, de que conta Gaguino, que vulgarmente chamamos a
Poncella, cujo esforço, e prudencia militar restituio o Reyno de França
a ElRey Carlos VII. deste nome, posto que naõ acabasse conforme a seus
merecimentos, as quaes nos tiraraõ a duvida de outras mais alongadas de
nossa memoria, como Symiramis, que governou tantas Provincias, Dido,
que edificou huma tão nobre Cidade, e Thomiris, que matou a ElRey Cyro.
40 Assim que com estes, e outros exemplos de mulheres, que nas armas
floreceraõ, e administraraõ Reynos, naõ duvido eu (Illustrissima
Princesa) que trazendo o tempo taes necessidades, que fosse necessaria
sua prudencia, e conselho, para governar gente armada, que se acharia
nella tão perfeito, como se achou na Rainha Dona Isabel vosso visavò,
cujo favor, e esforço ajudou a lançar fòra os Mouros de Espanha, que
de setecentos annos, e mais a senhorearão por força de armas, a qual
foy vista nos Exercitos, e perigos da guerra: mas como o tempo não
ordene tal cousa, Vossa Alteza o gasta em outras, de que naõ merece
menos louvor do que estas tiverão, que pouco ha nomeei, as quaes posto
que venceraõ homens algumas dellas, naõ venceraõ a si mesmas, senaõ
que o seu he tanto mayor, que a vitoria dos inimigos de casa, he mais
louvada, que a dos de fóra. Porque segundo diz Marco Tullio, como
poderà ser senhor aquelle, que o naõ he de suas paixoens? Refree
primeiro os vicios, despreze as deleitaçoens, reprima, e detenha a
ira, vença avareza, e lance de si as nodoas do animo, e entaõ comece a
senhorear, depois que deixar de servir.
41 Dizia o grande Agessilào, vendo que os Persas louvavaõ, e
senhoreavaõ hum Rey da India, que tinha grandes thesouros: porque serà
elle mais rico, pois naõ he mais temperado? Querendo dizer que as
forças dos Principes naõ estavaõ nas pedras preciosas, e Elefantes da
India, senaõ em a temperança da vida, que he a verdadeira Filosofia, e
o verdadeiro fruito das letras, inventadas para assentar os homens em
hum honesto modo, e boa ordem de viver. Mas como seus donos se servem
dellas para valer, e naõ para merecer, saõ como os vazos avinagrados do
Poeta Horacio, que diz:
_Nisi purum esi vas omne quod infundis acrescit._
42 Ao qual proposito dizia o Filosofo Epitheto a hum homem de bom
engenho, e mal inclinado, que desejava, e trabalhava por saber. Ó
homem, olha se he limpo o vazo em que tanta cousa lances. E certamente,
assim como a ignorancia dos Governadores idiotas he prejudicial à
Republica, assim a malicia dos Letrados he causa de muitos males,
principalmente a daquelles, que tem officio de ensinar bons costumes,
que se as obras naõ respondem às palavras, perdidas saõ quantas lhe
caem dos pulpitos abaixo. Por a obra ser de tanta força, que mudo
brada, e callando grita, com que comprehende estas duas cousas, fazer,
e dizer; e a palavra sem obra he só, e naõ tem virtude para dar raizes
na terra, onde acertou cahir: contra estes, que esperdiçaõ a Doutrina
de Deos, fazendo o contrario do que dizem, e prégaõ, diz Paulo, que naõ
escaparaõ da sua justiça, pois nas sentenças que daõ contra os outros,
condenaõ a si mesmos.
43 Como cheguey à altura deste conceito, e conhecimento, tudo o que
descobri foraõ louvores de Vossa Alteza, porque era qualquer dos rumos,
em que o tempo me poz, em todos ouve vista de suas obras, taõ juntas
aos livros, que parece naõ sahir fóra da margem do que nelles le. Cà
se o jejum tem merecimento diante de Deos, quem melhor guarda este
preceito, e com mais louvor? Pois, sendo criada na abastança de todas
as cousas, que pertencem a seu estado; sem o trabalho de as adquirir,
por servir a Deos, e merecer ante elle, se poem em necessidade dellas.
Que notorio he a todos com quanto trabalho se resiste à criaçaõ, que
padecem mais facilmente esta falta da mantença corporal os moradores da
parte Meridional, que os de Setemtriaõ, por huns viverem em terra fria,
e outros em quente, que obra diversos effeitos, mais o rustico, que o
bem nascido, pelo costume, mais o velho, que o moço, pela deminuiçaõ
de calor natural. Assim quer Vossa Alteza, sobejando-lhe as cousas de
sua propria vontade, exprimentar o carecimento dellas, por respeito
de virtude, certo he muy grande louvor, e merecimento, pois naõ tem
necessidade, a quer sentir, forçando sua vontade por comprir a de
Deos, desprezando tanta diversidade de iguarias, com tanto artificio
compostas. Quem serà com taes exemplos mào Christaõ? E se o for, que
escusa terà com Deos, estando à conta com elle, que lhe ha de ser
tomada taõ estreita: podemos logo com muita razaõ dizer, que a liçaõ
dos jejuns, que Vossa Alteza le da Rainha Hester, e de Elias, e S. Joaõ
Bautista, e a obra com que os guarda, tudo junto anda enquadernado.
44 E se viermos ao sacrificio da oraçaõ taõ louvado na Sagrada
Escritura, qual Religioso com mais cuidado, diligencia, e continuaçaõ
reza suas horas por obrigaçaõ, que V. Alteza sem alguma? Naõ lhe
faltando dia em que naõ ouça os officios Divinos, confessando-se
tantas vezes no anno, e tantas vezes recebendo o Santissimo Sacramento
do Altar. A communicaçaõ dos quaes, como sabe que daõ graça, assim
trabalha pela merecer com elles. Certamente, que considerando muitas
vezes a humildade de hum Principe bom Christaõ, se me representa, a
ventagem, que nossa Fè tem às seitas, e falsas Religioens, que foraõ,
e saõ ao presente: porque de quantos Principes, e Emperadores nellas
houve, naõ se lé haver algum, a que a obrigaçaõ de sua Religiaõ
fizessee taõ humilde, e taõ sogeito, como saõ os nossos. Os quaes
vendo-se de huma parte rodeados de tantos criados, e servidores
com tanto resguardo, e acatamento às suas pessoas, que os olhos
naõ empregaõ em outro objecto, senaõ em o do Principe, para que em
acenando, os seus jà executem, naõ sómente o que dizem, mas o que
adivinhaõ, que querem. E da outra posto de joelhos diante de hum pobre
Religioso seu Confessor, e de tal maneira, posto que naõ sómente lhe
diz as culpas, e peccados, que commete, mas o pensamento que teve,
ou tem de as commeter, pedindo-lhe sobre tudo penitencia, e castigo
dellas; taõ obediente, e aparelhado a comprir quanto saõ seus Vassallos
a lhe obedecer, somente nisto saõ differentes, que elle o faz de
coraçaõ, e os seus às vezes de mà vontade, fingindo-a boa por lhe
ganharem a sua. Cousa he certo de muita admiraçaõ, vontade de tantas
obedecida, obedecer a huma só, sugeitar-se a hum homem, aquelle a que
tantos saõ sugeitos, reduzir-se a hum só lugar huma jurisdiçaõ taõ
estendida, por Reynos, e Provincias.