4 Mas querer encher de papeis de seus louvores, he dar a entender,

que em alguns se podiaõ elles comprehender. Cà certo considerando a

grandeza de seu estado, e a baixa qualidade de minha pessoa, o alto

cume da suas virtudes, e a fraqueza de meu engenho, a gloria de sua

fama, e a pouca noticia da minha, naõ he outra cousa querer louvar a V.

Alteza, senaõ cuidar, que sómente com estender as mãos aos que estaõ

da outra banda de taõ largo rio o posso passar a meu salvo como pelos

penitentes das ribeiras stygias dizia o Poeta Virgilio:

_Tendebantque manus ripæ ulterioris amore._

Que estes enganos, e falsas imaginaçoens, às vezes causa, ou o grande

desejo de haver huma causa, ou o gosto de a ter alcançada, que faz

estimar as outras pouco. Donde vem que as grandes victorias, que alguns

Capitaens houveraõ, foraõ causa de sua destruiçaõ, esquecidos com o

vencimento presente, do futuro provimento, e forças de seus inimigos.

Assim eu transportado no alvoroso deste prazer, e esquecido de taõ alta

impreza, como he a que tomey, naõ se deve haver por muito ficar vencido

della; como aquelle, que com falsas azas de cera se meteo no fogo de

suas penas, e querendo tomar o Ceo com a mão, cahio no mar de sua

ignorancia.

5 Mas jà que nisto heide satisfazer ao desejo, jà posto de huma parte,

fique vencido meu engenho, ao menos da outra enganarey por hum breve

espaço a vontade, atè que a experiencia me mostre, o que ensina aos

enfermos, que tanto trabalhaõ por apagar com agoa o ardor da febre,

tanto mais aumenta as chamas do fogo, que os queima, e parecendo-lhe

que satisfazem a seus desejos, com isto os acrescentaõ mais. E pelo

mesmo modo, querendo eu mostrar a razaõ, que todos seus vassallos

temos de ser o dia de hoje muito contentes, quanto mais quizer subir

ao cume de seus merecimentos, tanto me acharey mais afastado de os

poder entender. E desta mingoa hum louvor me fica em naõ dizer os de

V. Alteza, que naõ serey avido por lisongeiro dos que virem que minhas

palavras naõ chegaõ ao verdadeiro louvor de suas cousas. Nem recearey o

que dizia Horacio a Marco Agrippa nestes versos.

_Imbellisque Lyræ Musa potens vetat

Laudes egregii Cæsaris, & tuas

Culpa deterrere ingenii._

Dando-lhe a entender, que louvando mais a elle, e a Cesar seu sogro

desfazia em seus louvores com falta de seu engenho. Porque a pureza, e

a claridade dos de V. Alteza, he taõ excellente, que se lhe não pòde

pegar a ferrugem de minhas palavras, mas estaraõ tão limpos entre

ellas, como a luz do Sol, anda livre, e izenta dos pestiferos, e baixos

vapores, que a claridade desfaz, sem deste ajuntamento ficar mascavada

sua perfeição. Ou como o ouro, que lançado nos corruptos humores da

terra fica taõ puro em seus quilates, que nenhum perde de quantos tinha.

6. Álèm disto alguma ousadia me dà ser o genero desta causa de sua

natureza tal, que poderey escusar, o que costumavaõ os antigos,

aquelles que floreceraõ na Arte da Eloquencia, que exercitavaõ o

estillo em louvor de cousas, que naturalmente careciaõ delle. Ao modo

do bom Lavrador, que a terra, a quem os beneficios da natureza fizeraõ

escaça, faz elle com os da agricultura, tirando com seu industrioso

artificio da esterilidade, proveito, e fruito, donde o naõ avia.

7 Nem tenho necessidade dos aguilhoens, que Pericles Atheniense

deixava pregados nos coraçoens dos ouvintes, com que forçosamente

os levava ao desejado fim de suas palavras. Nem tanta efficacia nas

minhas, quanta tinha Thimoteo na musica, que com as cordas de sua viola

levantava a colera ao grande Alexandre, ou lha abaixava, produzindo em

seu coração tão diversos movimentos, como saõ paz, e guerra.

8 E assim posso escusar neste exordio o captar benevolencia, e outras

insinuaçoens do artificioso Orador das cousas asperas, as orelhas dos

ouvintes, como era o louvor dos Tirannos, e o da febre, e da mosca, e

da calva, que alguns antigos louvarão, e em nossos dias, o da Sandice.

As quaes cousas sendo em si muy estreitas, para nellas hum Orador se

poder esprayar com suas palavras, com ellas lhe fizeraõ aquelles doutos

Baroens, taõ largos campos, que sem nenhum impedimento se puderaõ com

louvores por elles estender, porque a verdade naõ ha mister pincel de

Apelles, para acrescentar em sua fermosura, cà nua sem mais outro algum

trajo està ella no verdadeiro primor de sua bondade. E como dizia hum

sabedor a ElRey Dario: todas as cousas vence a verdade. A qual sem os

sylogismos de Fabio, e sem as palavras empoladas de Demosthenes, ou

Tullio estende suas raizes nos frios coraçoens da gentilidade. Assim

que dado que me faltem as flores da Eloquencia, ellas duraõ tam pouco,

que por derradeiro ficaõ pizadas, quando se colhe o fruito da verdade.

9 Diz Marco Tullio, que os brutos naõ se movem, senaõ para as cousas,

que diante lhe saõ presentes, sentindo pouco as passadas, e futuras,

e que os homens, como participem da razaõ, entendendo os effeitos,

que de outros se seguem, e vendo os principios, e causas, comparaõ as

semelhanças das cousas, cotejando as passadas com as presentes, com que

facilmente alcançaõ o custo de toda a vida. Pois vendo o que V. Alteza

atèaqui tem feito na sua, quasi vou entendendo, o que della pòde ser

ao diante. E porque este discurso que tenho feito, me vay descubrindo

grandes cousas, cresceme cada vez tanto a admiraçaõ dellas, que naõ

pude deixar de a pòr em tinta, e papel, pois com torvaçaõ, e alvoroço,

o naõ posso fazer com a lingoa. Porque naõ he de crer, dando-lhe a

Divina Providencia, tantos, e taõ excellentes dotes, que fosse para lhe

negar o summo, e mayor de todos.

10 He certo que nos bens da fortuna que os Filosofos chamaõ exteriores

commummente, V. Alteza, os tem taõ perfeitos, que alguns de que os

antigos se espantaraõ, diante dos seus perdem toda sua admiraçaõ.

Là Plinio entre os milagres da Bemaventurança humana, conta de huma

Rainha, que foy filha, mulher, e mãy de Rey, avendo por muito estas

qualidades juntas em huma pessoa. A qual bem creyo, que de seus

avoengos não tivesse a nobreza, e real limpeza de sangue, que V. Alteza

tem de todas as partes, de taõ altos, e tão esclarecidos Reys, de que

a Christianissima Rainha de França vossa mãy, vem descendendo. Em a

qual, e em outras muitas Rainhas de vossa genealogia resplandece melhor

esta gloria de bemaventurança, que Plinio achou na outra, de que faz

mençaõ. Que naõ somente he filha de hum tão glorioso Principe, como

foy ElRey D. Filippe vosso Avò, e mulher de outro, tão poderoso, e

Christianissimo, como ao presente he ElRey de França, mas para melhor

remate a fez Deos mãy de Vossa Alteza.

11 Pois vindo a ElRey de gloriosa memoria vosso Pay, de quem tendes

o sangue dos poderosos, e Catholicos Reys de Portugal, taõ antigos,

que olhando para traz, nos cansaria a memoria, naõ achando termo,

onde descansasse, de cujos louvores, e vitorias taõ cheyo he o Mundo;

acharemos que do principio, e fundamento destes Reynos, sempre tendes

Reys vossos Avòs; e ainda nestes naõ tem nascimento seu sangue, que

para chegarmos a esta fonte, avemos de revolver a antiguidade, e

nobreza dos Reys de Ungria, de Castella, e de Aragaõ, de Leaõ, e

de Navarra, e os triumfos da guerreira gente dos Godos, juntamente

com os Reynos de Inglaterra, Boemia, França, e do sacro Imperio de

Alemanha, em que de todos tendes parte; e naõ passarey por o que dizia

o Emperador Maximiliano vosso Vizavò, que muitas vezes se louvava ter

mais limpo sangue, que todos os outros Principes. Porque naõ o tendo

de menos valia que elles, tinha mais hum quilate, que fora criado aos

peitos da Emperatris Dona Leanor vossa Tresavò.

12 Pois quem foy ElRey vosso Pay? Por ventura hum Phalaris, ou

Dionysio Siracusano? Certo naõ, mas aquelle em cujo coração ferveo

sempre tal zelo da Fè, que com muito gasto de sua fazenda, mortes de

seus naturaes, trabalhos de sua vida, e cuidados de seu espirito,

fez adorar o precioso Sangue de Christo, onde o dos brutos animaes se

sacrificava. E isto taõ longe de seus Reynos, e Senhorios, quam perto

elle estava da gloria, que por isso mereceo. Despregando bandeiras,

tomando Cidades, sugeitando Reynos, onde nunca o vitorioso Alexandre,

e grande Hercules, de cujas façanhas se espantaraõ os antigos, puderaõ

chegar. Achando novas Estrellas, navegando mares naõ conhecidos,

descubrindo a ignorancia dos Filosofos antigos, que o Mundo tinha por

mestres de verdades occultas.

13 Cà depois de seus pilotos abriraõ o mar Atlhantico, por tantas

centenas de annos cerrado, todos aquelles que na Filosofia natural

tinhaõ gastado seu tempo, elle lhe gastou seu louvor. Pois dos

Geografos, cuidavaõ ter o Mundo assoalhado com suas pinturas, aos olhos

dos que naõ andavaõ por elle, que posso dizer? Senão o que se vè, que

rusticos pilotos sem mais letras especulativas, que huma só doutrina

praticada no convez de hum Navio endireitaõ as derrotas, diminuem, ou

acrescentaõ os gràos, emendaõ as alturas, de tal maneira reprovaõ as

taboas do Ptolomeo, como se estudaraõ em alguma illustre Universidade,

e elle naõ em Athenas, onde gastou seus dias?

14 Naõ fallo nas vitorias de Africa, cujo temor fez fugir os Mouros

das faldras, e da fertilidade dos mares Gaditano, Atlhantico, e meteo

por dentro das secas areas do Sertaõ da Mauritania, nem o que fez em

Guiné, e toda a Costa de Ethiopia, pois he notorio, que os negros que

viviaõ fóra de toda a policîa, habitando as cavernas da terra, sem ley,

sem justiça, sem direito humano, ou Divino, vivendo ao modo de brutos

animaes, agora deixadas as trevas, e tornados à luz com a prègação

delRey vosso Pay, que para elles foy novo Apostolo, levantaraõ Templos

a Christo, e à Santissima Virgem sua Madre, e nelles pulpitos em que

publicaõ, e exalçaõ seu nome, e Altares, em que offerecem seu Corpo

Santissimo, e Sangue precioso, com que parece (Illustrissima Princesa)

ser comprida a profecia do Psalmo, que diz, que os Estrangeiros e Tyro,

e o Povo dos Ethiopes conheceriaõ a Deos: e pòdese dizer que seu nome

lhe foy posto por Divino Mysterio, como lemos de alguns Santos Varoens,

cujas futuras obras conhecidas por Deos, lhe deraõ nome, confórme o que

elles aviaõ de obrar. S. Joaõ Bautista pelos Prophetas foy chamado,

e por seu pay Zacharias: Joanne, nomes que convinhaõ a suas obras. E

o Messias prometido na ley, jà tinha seu nome escrito nos livros de

Isaias, que disse Manoel se chamarà, que em nossa lingua quer dizer:

Deos he com nosco, pela vinda, que fez a este mundo, onde tomou carne

humana, por nos remir do peccado de nosso primeiro Pay Adão. Pois assim

mesmo eu diria, que este Christianissimo Rey Emanoel levou à India, e

Ehiopia sua Fè, com que os infieis com muita razaõ là pòdem dizer: Deos

he com nosco.

15 Passo pelas victorias dos Rumes, pelos tributos que poderosos Reys

da India lhe pagaraõ, de que a Coroa deste Reyno naõ tem pequenos

proveitos. Que tudo isto celebrado he por Poetas, e Oradores, que em

Roma, e outras partes publicaraõ taõ excellentes victorias. Testemunha

he do que digo Camillo Porcio, que em huma magnifica oraçaõ, que fez

ao Papa Leão X celebrou a tomada de Malaca, cujo treslado veyo a estes

Reynos por industria do Doutor João de Faria, que naquelle tempo servia

de Embaixador em Roma. Testemunhas saõ Policiano, Fillipe Beroaldo,

Blosio, Paladio, Pierio, Casalio, e outros, que em metro, e prosa

espalharaõ pelo mundo estes triumphos delRey vosso Padre, em cujo

tempo se fora o grande Homero, que tanto caso fez de huma taõ pequena

navegaçaõ, como he do Helesponto atè Sicilia, que pòde comprehender

pouco mais de trezentas legoas, em que misturou tantas fabulas, e

acontecimentos, quam pouca conta fizera dos errores de Ulysses, se

vira tantas mil legoas de mar, e costa senhoreadas de hum só Rey, nas

quaes se contem as Indias, a quem, e àlem do Gange, e grande parte de

Ethiopia, Arabia, e Persia, cujas forças asaltaraõ os Mouros, e Turcos,

e os lançaraõ atè os fins do estreito Arabico, onde tem seus Navios

varados em a pobre Villa de Suès, sem usarem de levantar suas vellas,

que a força Portuguesa tantas vezes amainou.

16 Que fizeraõ os Poetas Orpheo, e Apollonio, quam pouco estimaraõ a

conquista do vellocino douro, e daquelle primeiro Navio Argos, que

tanta admiração naquelle tempo fez ao mundo, navegando o espaço, que hà

de Thesalia, atè Colchos, que ao mais podem ser trezentas, e cincoenta

legoas. Em o qual, mar por ser muito povoado podiaõ tomar muitos

refrescos, e fazer muitas agoadas, com que teriaõ mais passatempo

neste caminho, que trabalhos dignos de cansar nelles os Poetas seu

engenho? Vendo seis mil legoas de mar, taõ hermo, e deshabitado,

navegadas, e senhoreadas por a gente Portuguesa, que em suas tormentas

nenhuma esperança tem nos portos, e nas Ilhas, de que as agoas estaõ

desocupadas, a que possaõ fugir da braveza de taõ altas ondas, como

nelle se levantaõ? Certamente, que olhando bem isto, se pòde dizer, que

estas, e outras cousas, que os antigos contavaõ, como por excessos da

natureza, quanto a nòs pelas que foraõ acabadas por industria delRey

vosso Pay, podem ser havidas por historias de patranhas.

17 Naõ fallo nas colunnas de Hercules, postas na Ilha de Cales entre

o fogo de nossas casas, que assentou como no fim de toda a terra,

que neste tempo saõ riscadas da memoria dos homens, e postas em todo

o silencio, e esquecimento, com outras mais altas, que por vosso

sangue foraõ assentadas na derradeiras partes orientaes do mundo, mais

proveitosas a elle por serem as em que Christo poz suas espadoas, do

que foraõ as de Hercules, com que se perderaõ tantas almas.

18 Muito havia a cerca disto que dizer, mas basta mostrar o caminho,

para que vejaõ o que tinha por passar, se disso quizera escrever. Mas

deixaloey para dizer que de taes dous troncos como estes, naõ podia

nascer senaõ V. Alteza, em que claramente se vè ser filha de tal pay,

por quem Deos taes cousas obrou, e irmãa de tal irmão, conservador,

e augmentador dellas; e sobre tudo criada na doutrina familiar, e

exemplos da Rainha Nossa Senhora vossa Tia, em que tanto florecem as

virtudes, que parece acharem nella descansado aposento. Em cuja Casa,

que podemos chamar Escola de santa doutrina, V. Alteza foy ensinada nos

preceitos da nossa Santa Fè, que inda isto deveis à Divina Clemencia,

que alèm de vos fazer filha da Rainha Christianissima, Bisneta delRey

D. Fernando, que por excellente Christaõ, mereceo o nome de Catholico,

filha de outro Rey, que dos infieis (como pouco hà disse) foy novo

Apostolo, e irmaõ delRey Nosso Senhor, maravilhoso reformador da

Religiaõ Christãa, isto, como digo, deveis a Deos, que vos deu taõ

santa criação, com que pudesses conservar esta inclinaçaõ, herdada de

vossos progenitores.

19 O que bem claro se mostra em V. Alteza, pois que seu modo de vida

fóra de Religiaõ, pòde ser aos Religiosos espelho, e doutrina de bem

viver. É certo eu naõ sey, que mais virtuosos costumes, santas mulheres

possaõ ter na Clausura dos Mosteiros, e vida solitaria do hermo, que

V. Alteza nos Paços Reaes tem, onde vive em Corte, e ajuntamento de

gente. Pois que a continuaçaõ de suas oraçoens, a muita participaçaõ

dos Sacramentos da Confissaõ, e Eucharistia, de que tantas vezes por

graça Divina se faz participante, manifestaõ ter dentro em seu coraçaõ

grandissimo fervor da Fè de Christo. Cousa muito de estimar nos

Principes, que como sejaõ huma fonte publica de que seus Vassallos haõ

de tirar agoa de bons costumes, e saã dotrina, como a Religiaõ seja

aquella, em que consiste toda a nossa bemaventurança, nenhuma virtude

parece dar taõ grande ser à pessoa do Principe, como he o zelo, e amor

de Deos, em cuja maõ estaõ os estados da terra. O qual no dar da ley,

e mandamentos que deu, naõ sómente deste preceito, que avia de ser

fundamento de todas vossas obras começou, mas ainda quiz que o homem se

entregasse todo a elle, dizendo: Amaràs a Deos de todo teu coraçaõ, de

toda tua alma, e de todas tuas forças, como sapientissimo edificador,

que para levantar o edificio de nossa alma, em seu amor, mandou que

todas as achegas de nossas potencias, e sentidos trouxessemos para sua

fortaleza. Porque derribado este principal baluarte, pelas maquinas com

que o demonio nos combate, que aproveitaria ter justiça, prudencia,

fortaleza, e temperança, ou como efles se poderiaõ chamar virtudes,

faltando a do amor de Deos, cunho com que nossa Moeda hade correr

diante delle?

20 O que vendo o Bemaventurado S. Joaõ, e considerando a grandeza desta

virtude da Caridade, quanto precedia às outras suas companheiras,

naõ achou com quem a comparasse, senaõ com Deos, dizendo: Deos he

caridade. Porque assim como elle he infinito, assim esta virtude

tendo as outras seus termos, hade permanecer com nossa alma sem fim,

que a fé, e esperança seus termos, e tempos tem, em que se haõ de

acabar, sò a caridade vive, e reina na gloria dos Santos, dando a cada

hum os quilates, que com elle mereceo, e sendo esta virtude a todos

necessaria, mais o he aos Principes, que tem governança de povo, como

nosso Redemptor significou perguntando tres vezes a S. Pedro se o

amava, como quem se queria affirmar, no que fingio querer saber para

doutrina nossa, cà Deos como penetra o intrinsico de nossos coraçoens,

bem sabia que o amava S. Pedro, mas preguntando-lhe a derradeira vez:

Pedro amas-me mais que todos? E respondendo o Discipulo: Senhor tu

sabes bem que te amo, dando a elle mesmo por testemunha de seu amor:

entaõ lhe encomendou a governança de seu povo, dizendo pasta minhas

ovelhas; assim o Principe que naõ amar a Deos, mal pòde governar as

ovelhas, que delle recebeo para o regimento das quaes se requere Divina

sabedoria, cujo principio, como diz o Profeta, he temor de Deos, porque

assim como o Pay de familias, que encomendou ao servo a governança de

sua fazenda, e familia, pela boa conta que della lhe deu, conheceo o

amor que lhe tinha: assim no cuidado, que o Principe tem de seu povo,

vè Deos se o ama, e lhe dà o galardaõ, ou pena, conforme ao que merece.

21 Donde vemos estados de Principes desfeitos por se apartarem de Deos,

e outros levantados por chegarem a elle. Exemplo pòde ser ElRey Saul,

que perdeo seu estado, e vida; e o çurraõ, e cajado de David, levantado

em Ceptro Real, o qual dizia: _Mihi autem adhærere Deo bonum esi_.

Lemos Constantino ser exalçado por exalçar a Fè, e Juliano por della

apostatar, morrer morte desestrada, e deshonrado. Vimos derribada a

soberba de Maximo por Theodosio, e a elle por obedecer aos mandados

de Ambrosio seu pastor, dar-lhe Deos o espirito profetico de Joanne

Anachorita, como oraculo, porque se regesse em seus trabalhos, e

fortunas: O os ventos acudirem ao som de suas trombetas, empuxando

as batalhas dos inimigos, e peleijarem de sua banda, de que o Poeta

Claudiano fez mençaõ nestes versos, e Augustinho tanto celebra.

_Omnium dilecte Deo cui fundit ab antro

Aeolus armatas hyemes, cui militat æther,

Et conjurati veniunt ad classica venti._

22 E naõ somente vimos o pezo da maõ do Senhor sobre aquelles, que

immediatamente foraõ contra a sua honra, e o desconheceraõ por Senhor

universal, negando-lhe a adoraçaõ de latria, que como a Deos lhe

pertence, dando-a ao demonio, como o fizeraõ os que adoraraõ o bezerro

no Deserto em tempo do graõ Profeta Moysès, e os que encurvaraõ seus

joelhos diante de Baal, no tempo do Santo Elias, e outros de que faz

mençaõ a Escritura, mas ainda aquelles, que com pouca reverencia

trataraõ o Culto Divino, ou com descuido, e negligencia se ouveraõ

a cerca delle, naõ escaparem de sua ira, como lemos de Oza, que

indevidamente tocou a Arca do Testamento; de Nabab, e de Abiud, que

ofereceraõ fogo alheyo; de Dataõ, e Abiraõ, que rebelaraõ contra

Moysès; e do outro, que apanhou a lenha no dia do Sabbado; de Ananias,

e Saphira sua mulher, que defraudaraõ do preço do agro, mentindo ao

Espirito Santo, e de outros muitos, assim Principes, como pessoas

particulares, de que està cheya a Escritura Divina. Em fim o cativeiro

de Babilonia, e desterro universal de todo o judaismo, com a destruiçaõ

do Templo, e daquella Cidade Real, senhora das gentes, que foy senaõ

castigo do apartamento de Deos, e da morte de seu filho, que vindo para

as ovelhas perdidas da casa de Israel o puzeraõ na Cruz em galardaõ de

suas obras?

23 E naõ somente entre os Judeos, a quem se Deos naquelle tempo quiz

communicar com preceitos familiares, do modo com que o aviaõ de servir,

mas ainda entre os Gentios, como Egypcios, Asirios, Medos, Persas,

Gregos, e Romanos, e entre todos aquelles, que tiveraõ Monarquias, em

todas suas historias, quasi naõ lemos outra cousa, senaõ em quanta

estima era entre elles tida a Religiaõ, de que Valerio Maximo escreve

tantos exemplos. E aquelles, que mais a guardaraõ, e veneraraõ, posto

que fosse sem a fè, que ao presente temos, foraõ por isso, e por suas

virtudes, com que ajudaraõ a Patria, mais favorecidos no estado, e

fortuna do Mundo. Como Alexandre, que entrando em Hierusalem adorou

o nome de Deos, que o Sacerdote mayor trazia na testa; e como diz

Agostinho: _Receperunt mercedem suam_, por ainda a sombra da virtude

naõ ficar sem galardaõ. Por onde podemos crer que a Religiaõ, que entre

estes se guardava, ainda que era contra seu louvor, pois louvavaõ a

criatura, naõ conhecendo ao criador, fosse exemplo a nòs da estima, em

que devemos ter a nossa, porque quando nos falecesse caridade, e amor

de Deos, tivesse exemplo de gente condennada, com que nos castigasse

da muita negligencia, e observancia da Religiaõ, como elle dizia aos

Judeos: conheceo o boy seu dono, e as bestas a casa de seu senhor, e

Israel naõ me conheceo.

24 Pois graças ao Eterno, e Omnipotente Deos, que taõ boas raizes

como he este fundamento de seu amor, e observancia da Religiaõ criou

em Vossa Alteza, que naõ pòdem deixar de produzir, senaõ ramos

maravilhosos, de santos exercicios, e virtuosos costumes, como se

vem, que o tempo que lhe sobeja dos Divinos Officios, e Oraçoens,

gasta no estudo das letras, a que tanto se dà, naõ avendo respeito à

sua criaçaõ, que por nascer de taõ alto lugar foy mais apartada dos

trabalhos corporaes, e das necessidades, e mingoas com que a outra

gente se cria, decorando aquelles primeiros, e emfadonhos rudimentos

da Gramatica, que a força da palmatoria aos outros engenhos ensina,

com que alcançou inteiro conhecimento da lingua latina, para daqui

chegar ao fim de sua tençaõ, que he o estudo da Sagrada Escritura.

Seguindo a doutrina do bemaventurado S. Hieronymo, que dizia a Paula,

e outras mulheres santas, que lessem muitas vezes a Divina Escritura,

e nunca soltassem da maõ os volumes sagrados. Movida taõ sòmente por

huma inclinaçaõ virtuosa, afastada dos particulares interesses com

que muitos usaõ das letras ao modo de jornaleiros, como de qualquer

rustico instrumento, com que semeaõ o paõ, e cavaõ a terra, estudando

para comer, e naõ para saber, e como o fim seja este, taes saõ os

principios, como os quaes se contentaõ em qualquer sciencia, que

aprendaõ.

25 E quanto mais cobiçosas saõ letras deste tempo, tanto mayor louvor

he o de V. Alteza, pois a causa final de as querer entender naõ he

falta de honra, nem de outra cousa, senaõ hum santo desejo de saber.

De que todos seus vassallos devemos dar muitas graças à Divina

Bondade, que por sua misericordia nos chegou a tempo, que tivessemos

tal Princesa por Senhora, qual o divino Plataõ desejava, que dizia,

bemaventurada serà a Republica, em que os Principes filosofassem, ou os

Filosofos governassem.

26 No que se conhece claramente quam alto engenho, quam altos, e

verdadeiramente reaes espiritos saõ os de Vossa alteza, que quer

preceder às outras mulheres naquella parte em que os homens precedem

aos outros. Naõ se contentando de lhe fazer tanta ventagem nos bens,

que teve de seu alto nascimento, cà nasceo Princesa, nasceo filha

de Rey, e levantada em estado, e pureza de sangue sobre muitas. Mas

como isto se deve à natureza, quiz Vossa Alteza, que lhe devessem a

sabedoria, ganhada por sua industria, e trabalho, que he a melhor

cousa, que nesta vida os humanos pòdem ter, com a qual muitos ganharaõ

estado, e outros por falta della os perderaõ, como poderiamos ver por

exemplos, senaõ fosse contar historias, de que Vossa Alteza tanto

conhecimento tem, e sòmente bastarà dizer como muitos Cesares ganharaõ,

o que Sardanopalos, Tarquinios, e Dionysios perderaõ.

Noticias de Portugal · 第 36 / 43 段