Ordem da Companhia dos Padres, que em nome de Jesus Nosso Salvador
ordenou Ignacio de Loyola com doze companheiros, offerecidos semear a
Palavra de Deos pelo mundo, com tanto proveito das almas, como hoje
vemos em todas as partes onde penetrou sua doutrina, e pode o favor
del Rey D. Joaõ fazer este beneficio à Christandade, fundando hum
Collegio em Coimbra, depois desta Religiaõ approvada, onde se criaraõ
em exercicios de virtude, e Doutrina Christãa muitos Soldados de
Christo, que depois se espalharaõ por todo o Oriente, com muita gloria
do nome Christaõ. As Donzellas Orfãs, que a idade, e desamparo podia
estragar, mandou recolher em huma casa, para dalli lhe ordenarem vida,
ou por casamento, ou por Religiaõ, e o mesmo Recolhimento fez noutra
parte para mulheres, que a propria fraqueza, ou descuido dos pays fez
mal costumadas, para neste lugar com a penitencia, e oraçaõ restaurarem
a honra perdida. Entendendo o pouco sossego, que em Lisboa tinhaõ, os
que se exercitavaõ nas Escolas geraes, desejoso de os seus Vassallos
se assinalarem na doutrina das letras, passou os Estudos a Coimbra,
que dotou de muitas rendas do seu Padroado, com que ajuntou homens
escolhidos, dos que depois se fizeraõ conhecer pelo mundo estremados
por estranha doutrina: floreceraõ em seu tempo outras artes apagadas,
que seu favor espertou, como foy a Architectura, a que o mesmo Rey
se inclinou, e a navegação dos seus naturaes conhecidos em todas as
partes do mundo, pela noticia das cousas do mar. Aos Infantes filhos
del Rey D. Manoel seus Irmãos, foy pay no amor, dando a cada hum tanta
parte das terras da Coroa, Prelazias, e Mosteiros encomendados, quanta
bastava a qualquer Principe para sustentar o Estado, e obrigaçoens do
Sangue Real, porque naõ perdeo nunca o cuidado do Cardeal D. Afonso,
que em vida delRey seu Pay fora provido em titulo do Arcebispo de
Lisboa, e da administraçaõ do Bispado de Evora, e Mosteiro de Alcobaça.
Ao Infante D. Luiz fez Condestable de Portugal, Duque de Beja, e de
outros Estados, e perpetuo administrador do Priorado do Crato. Ao
Infante D.Fernando deu em dote os Condados de Marialva, e Loulé, o
Ducado de Trancoso, com outras Villas no Reyno, casando-o com a Senhora
Dona Guiomar Coutinha, unica herdeira da casa de Marialva, como ElRey
seu Pay ordenàra. Ao Infante D. Duarte casou com a Senhora Dona Isabel,
filha de D. Gemez Duque de Bargança, a quem D.Theodosio, herdeiro desta
casa dotou o Ducado de Guimarens, consentindo ElRey no partido. Ao
Infante D. Henrique Principe santo proveo primeiro do Arcebispado de
Braga, donde passou para Evora, dando-lhe a administraçaõ dos Mosteiros
de Santa Cruz de Coimbra, e o titulo de Cardeal, que lhe procurou. A
Infanta Dona Beatris, casada em vida de ElRey seu Pay como o Principe
de Saboya, e depois offerecida a muitos trabalhos, pelas guerras que
houve entre os Franceses, e Imperiaes, com quem o Duque fez bando,
favoreceo sempre com tanto amor, como devia a esta Princesa, e o
devido, que tinha com aquella casa. Poucos annos depois, que começou
a Reynar, casou a Infanta D. Isabel com o Emperador Carlos V., e por
satisfazer a vontade delRey seu Pay excedeo o dote às forças do Reyno.
A Infanta Dona Maria derradeira filha delRey D. Manoel procurou sempre
casar com o Delphim de França, depois com Filippe herdeiro de Espanha,
e finalmente com o mesmo Emperador Carlos V. mas perdeo o trabalho,
porque a vontade de Deos tinha escolhida esta Princesa para outra
bemaventurança mayor, quando a levou para si, vivendo sempre em este
Reyno com huma casa, e estado de muita grandeza. Alguns bandos, que
succederaõ em seu tempo entre Casas Illustres, como foy entre a Casa de
Aveiro, e a de Marialva, o Conde do Vimioso, e da Castanheira, e outras
Casas desavindas entre si, teve sempre cuidado de as repartir com mayor
authoridade, e respeito, que lhe todos tinhaõ, do que era o temor do
castigo, porque sua condiçaõ maviosa era taõ affeiçoada a toda a
clemencia, e perdaõ, que tinha por honra folgarem os homens de lhes
serem aceitos: e por cousa indigna de sua grandeza ter os Vassallos
em seu serviço por medo do rigoroso castigo. A certo Fidalgo, q́ naõ
consentio a seu filho visitar da parte delRey à Condestablessa, chamou
doudo publicamente, e disse-lhe, que mandaria fazer este officio por
outro mais honrado que elle; o que fez logo por outro menos valido:
dando com isto a entender, que os Vassallos soberbos naõ podem ter
honra, e que os obedientes a seu Rey só a tem verdadeira: quando lhe
enculcavaõ alguma pessoa para seu serviço, e lho gabavaõ de homem rijo,
e que se naõ deixava torcer, ria-se destes louvores, e affirmava, que
estes rigores, e estremo da justiça naõ nasciaõ senaõ de fraqueza, e
desconfiança, que só a clemencia, e dissimulaçaõ da vingança particular
podia caber em espiritos grandes. Nos crimes enormes mostrava sobejo
rigor, e dissimulando com a justiça ordinaria, valia-se algumas vezes
da jurdiçaõ absoluta, procedendo contra pessoas privilegiadas, como era
D. Joaõ Sotil Bispo de Çafim, preso por culpas secretas, D. Bernardo
Manoel malsinado por offerecer à Excellente Senhora hum Galeaõ, D.
Duarte de Meneses, por governar a India à sua vontade, D. Miguel da
Sylva Bispo de Viseu, por se ir deste Reyno sem lhe entregar o sello da
puridade, e negocear o Capello de Cardeal contra sua vontade: assim que
a brandura, e clemencia, que sempre mostrou nos delictos, que mereciaõ
perdaõ, o faziaõ parecer mais rigoroso, e desigual, nos que procediaõ
contra seu serviço desconfiados de sua boa inclinação. Desejando com
tudo satisfazer às obrigações, que lhe carregavaõ, como herdeiro do
Reyno, e administrador da Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo, ordenou
hum Tribunal chamado da Conciencia, onde se proviaõ todos os descargos
della, e faziaõ cumprir as obrigaçoens desta Ordem, e das que depois
se ajuntaraõ à Coroa com grande satisfaçaõ do Reyno, e vigia dos bens
das Ordens, que em seu tempo foraõ sempre melhor governadas: foy havido
por descuidado de sua fazenda, mas na verdade quem lançar conta ao
que ella rendia, o estado em que a achou, quando succedeo na Coroa,
os dotes de suas Irmãas, que pagou da Rainha Dona Leonor viuva, as
legitimas e heranças da Infanta Dona Maria, e de cinco filhos delRey
D. Manoel, a transaçaõ de Maluco, os roubos de seus Ministros, que
teve na India, os naufragios das Nàos, que succederaõ em seu tempo,
acharà que naõ houve Principe no Mundo, que fizesse tanto bem, como
elle fez a todos com taõ pouca renda, como lhe fundia esta Coroa, e se
for mais àvante tambem acharà, que assi como teve a condiçaõ larga para
gastar dinheiro, e fazer mercès temporaes; teve muita prudencia para
conservar seu Estado, entendendo, que os bens da Coroa eraõ devidos ao
Estado Real, como nervo principal da paz, e da guerra, sem os quaes,
nem os Reys podem ter authoridade, nem o Reyno sossego, como aconteceo
em Portugal, e em Castella, depois que os Senhores serviraõ seus Reys a
partido, e a grandeza de suas casas os fazia revolver cada dia Hespanha
com qualquer aggravo dos Reys. E por isso nunca ElRey D. Joaõ em seu
tempo deixou de restituir à Coroa os bens, que vagavaõ por direito das
doações. A herança de Marialva vaga por morte da Infante Dona Guiomar
Coutinha, tornou a incorporar na Coroa, como fez ao Estado do Infante
D. Luiz, e outros, que foraõ vagando, principalmente os Mestrados da
Ordem de Nosso Senhor Jesus Christo, de S. Bento de Aviz, e de S.
Tiago, que à sua instancia se uniraõ à Coroa perpetuamente, entendendo
quanto importava ao sossego do Reyno, e satisfaçaõ dos merecimentos
publicos da paz, e da guerra, virem as Comendas das Ordens a quem tinha
obrigaçaõ de premio, e castigo: e com ter este respeito de naõ diminuir
o patrimonio do Reyno, e naõ perder occasiaõ de o acrescentar, naõ
teve menos cuidado de conservar em sua reputaçaõ as Casas dos Grandes,
e a Nobreza antiga do Reyno, abrindo muy raramente entrada de novo a
gente popular, quando naõ tinhaõ serviços muy conhecidos, posto que
seu zelo fosse desterrar de Portugal calidades de homens infames,
porque estranhou ao Principe D. João seu filho chamar villaõ a hum
toureiro, dizendo, que em Portugal naõ havia esta sorte de homens, que
bastava a vontade, a fazenda, a boa criaçaõ, e costumes para honrar
os homens de bem, e por isso os privilegiava de boamente, entendendo
quam bemaventurada he a Republica, onde hum Principe iguala com amor,
e justiça, aquelles que a fortuna (às vezes cega) fez menores que
outros. Fez tres vezes Cortes em Torres Novas, Evora, e Almeirim, em
que respondeo a seus Vassallos com muita satisfaçao delles, e proveo
algumas leys para bem da justiça, e dos povos, ainda que seus Ministros
se descuidassem na execuçaõ dellas: as rendas publicas naõ desejou
nunca ver acrescentadas, por naõ crescer o preço das cousas, que lhe
erão necessarias para suas armadas, e em nenhum aperto do Reyno sofreo
nunca lançar novo tributo, por naõ ser pesado a seus povos, e em quanto
nelle foy, e as necessidades de sua fazenda sofreraõ, desejou sempre
que se pagassem as dividas com os interesses corridos a seus acrèdores,
porque naõ fosse exemplo sem pouco credito aos devedores quebrarem,
e se podesse conservar o comercio entre seus naturaes com verdade, e
justiça, posto que poucos annos antes de seu falecimento satisfizesse
interesses exorbitantes, e demasiados aos seus acrèdores em tenças de
juro, e de herdade na Casa da India, que depois de sua morte se pagarão
a cada hum, como teve a ventura, mas muita parte delles se toma em cada
contrato em pagamento aos interessados, como sofrem as necessidades
publicas.
No conselho de cousas mais importantes recebeo sempre o parecer
da Rainha Dona Catharina sua mulher, e dos Infantes seus Irmaõs,
ajuntando com elles alguns Grandes do Reyno de muita prudencia, e
inteireza, de quem podia fiar a deliberação de qualquer negocio por
importante que fosse, deixando sempre lugar aberto a outras pessoas
de meam fortuna, que tinhaõ noticia de negocios, em que avia duvida,
mas naõ se obrigava nunca a seguir o parecer alheyo, ainda que nelle
fosse vencido, no que a parecer de alguns acertava menos, porque os
Reys quando naõ tem revelaçoens divinas, que os guiem, saõ obrigados
aver seu conselho por sospeito, e fiaremse dos homens, que votaõ mais
livres, e naõ espreitaõ seu gosto: assim como lhe estranharaõ alguns
meter no conselho a Rainha com novo exemplo para os outros Principes,
que naõ costumaõ fiar tanto da condiçaõ das mulheres, que ainda que
muy avisadas, e virtuosas, saõ sempre mulheres. E porque em seu tempo
começarão encarecer os mantimentos com a esterilidade do paõ, desejou
muito acudir às necessidades do Povo, dando ordem para prover de
fóra o Reyno, por industria dos Mercadores, que se obrigavaõ sómente
a fazer seu proveito, favorecidos delRey, mas com muito descuido, e
pouca vigia dos Officiaes, a que este cuidado se encomendava, porque
a falta da execuçaõ, e brandura das penas desordenava a provisaõ das
leys, pela qual razaõ se ouveraõ por escusas as taixas, conjurando
todos os Mercadores em Monopolios particulares, e o povo com os
Officiaes do governo em sua propria desordem, e vida desacomodada:
em tanto naõ deixava ElRey de mandar prover os campos do Tejo, e do
Mondego com vallos, maranhoens, e outros beneficios, que refreavaõ as
cheyas, e impeto daquelles rios, naõ somente por culpa da natureza,
mas dos Lavradores do Reyno, que semeavaõ terras dependuradas sobre
as ribeiras, e a troco de pouco fruito corriaõ, e areavaõ os campos,
entupiaõ as barras, e ficando rochas nuas, perdiase muito pasto de
gado, e se os Ministros do Reyno acodiraõ nas Cortes a huma perda
tamanha, por ventura naõ se alagaraõ os campos, e sobejàra o pasto do
gado. Algumas obras publicas começadas por mandado delRey D. Manoel fez
acabar em seu tempo, como foy o Templo de Nossa Senhora de Bethlem,
com o Mosteiro dos Padres Hieronymos, fundado por ElRey seu Pay, pela
ordenança moderna, que aquelles tempos sofriaõ, acabado por ElRey D.
Joaõ com igual magnificencia, e despeza, e mayor fermosura, qual se
mostra na fórma dos Edificios Romanos. Restituio o Cano da agoa de
prata de Evora, aqueducto antigo de Sertorio, que o tempo em muitas
partes tinha gastado, a cuja conservaçaçaõ applicou renda publica, que
bastava para suprir o reparo: o mesmo fez no Cano de Elvas, ainda que
naõ foy possivel acaballo por alguns estrovos, que se offereceraõ, em
quanto a obra corria. Do mesmo Rey he aquelle Edificio illustre, que
fica sobre o Mar em Lisboa, onde de huma parte se recolhe o pão, que
vem de fóra por mar, e por terra, e da outra todas as mercadorias, que
devem à Coroa direitos; edificou na mesma Cidade o Almazem, onde se
guardaõ todas as armas, e moniçoens do Reyno, assim para bastimento das
Fortalezas de fóra, obra magnifica, e digna de sua grandeza. Edificou
na mesma Cidade com suas esmolas os Templos offerecidos a Nossa Senhora
da Graça, a S. Francisco, a S. Roque, começados em sua vida com a
mesma Magestade, com que depois se acabaraõ: fóra dos muros repairou o
Mosteiro de Santa Clara, e em todo o Reyno, naõ ouve lugar em que naõ
deixasse pègadas de sua devação; porque no Mosteiro de Alcobaça, no
de Santa Cruz de Coimbra, no Convento da Ordem de Christo em Tomar,
fez tantas despezas com obras novas, que passarão àvante de todas, as
que os Reys seus avòs ordenaraõ, não perdoando a despeza alguma, e
favorecendo os Ministros, de que confiou o cuidado dellas. Em Africa,
e na India naõ ouve lugar, que ou naõ fortificasse de novo, ou naõ
reformasse os Edificios antigos, como fez tambem nos lugares maritimos
deste Reyno, e alguns Castellos da Raya, de sorte, que com grande
beneficio do Reyno gastou huma parte de suas rendas na fortificaçaõ de
seu Estado, ornamento dos lugares sagrados, e remedio de muitos pobres,
que tinhaõ por melhor servir nestas obras, que povoarem forças, onde
mereciaõ estar os ociosos com outra sorte de gente, que vive sómente
da industria, e do engano alheyo. Naõ sómente nesta magnificencia
mostrou a grandeza de seu espirito, mas no sofrimento, a que sacrificou
seu coração, vendo quasi cada anno hum irmaõ, e hum filho morto, sem
lhe ficarem de tantos, salvo dous netos, o Principe D. Sebastiaõ, que
lhe soccedeo no Reyno, e da Princesa Dona Maria, Carlos herdeiro de
Castella, sem nunca lhe enxergarem fraqueza em tanta magoa, como a
perda destes Principes naturalmente lhe avia de fazer, antes abraçado
com Christo fazia ley da vontade Divina; àlem de tantas virtudes, como
mostrou na paz, naõ lhe faltou conselho na guerra, e tanta prudencia
para governar em seu tempo com muita honra sua; quanto pareceo mais
impossivel fazella longe dos olhos, nas mais afastadas terras do
Mundo: quando começou a reynar fez com diligencia huma escolla de seus
naturaes, que podiaõ adestrarse nas armas, e repartidos em companhias,
de que avia Coroneis em cada Comarca do Reyno, Capitaens, e Sargentos,
e outros Offciaes da Milicia particulares em cada bandeira, proveo com
muito cuidado esta gente, sem queixume do povo, e ensinada nos dias
de festa, que dantes gastavaõ em jogos, e passatempos de pouca honra,
e proveito, obedecer a seus Capitaens a todo o exercicio das armas,
levando o medo perdido ao estrondo da Artelharia, quando se offerecesse
necessidade de alguma batalha, e assim com pouca despeza de sua
fazenda, e algum favor devida à virtude, criava na destreza da guerra
homens de bem, que depois se assinalavaõ nas armas, assim em suas
navegaçoens, como na guerra de Africa, e da India, com o mesmo conselho
privilegiou os Escudeiros de boa linhagem, huns filhando-os por
Cavalleiros de sua casa, outros por confirmaçaõ de Cavallaria, merecida
na guerra, costumados em seu tempo nas Cidades, e Villas principaes
do Reyno, escaramuçar, e jugar as canas, e outras boas manhas por naõ
faltar occupaçaõ honesta a toda a sorte de vassallos seus, a fazenda
dos quaes sendo taõ delgada, como cada hum em sua casa vè, poderia dar
vida aos Portugueses, tendo a navegaçaõ livre dos Cossarios, o que em
seu tempo se fez com diligencia, e cuidado, posto que os Franceses
costumados a viver de roubo, ouvessem os Castelhanos, e Portugueses
por huma mesma naçaõ, e naõ perdoassem a huns, nem a outros, quando
lhe cahiaõ na maõ, e à sombra de fazerem guerra aos Castelhanos,
tomassem nossos Navios desarmados, e outros que às vezes se defendiaõ
valerosamente com igual perda, mas ElRey D. Joaõ com armadas ordinarias
encomendadas a Capitaens esforçados, e outros officios, que fazia por
seus Embaixadores em França, reparava aquella força dos Cossarios
com grande prudencia, tendo este conselho por mais acertado, que
seguir huma parte dos bandos, entre Carlos V. e Francisco, onde se
aventurava mais, e segurava menos a navegaçaõ de que seus vassallos
viviaõ. As Fronteiras de Africa, que seu Pay, e Avòs tinhaõ ganhadas
aos Mouros, huns com tençaõ de criarem os Portugueses na guerra, e naõ
enfraquecerem no repouso da paz, outros por lhe ficarem portos abertos
para a Conquista de Berberia, fortificou de novo a mayor parte dellas,
sustentadas com grandes despezas, governadas por Capitaens escolhidos,
provendo com muito cuidado, naõ lhes faltassem mantimentos, e moniçaõ
para soster qualquer cerco, nem Navios nos portos para lhe acodir com
socorro, só a fortaleza de S. Cruz no cabo de Guè (de que era Capitaõ
D. Guterre de Monroi filho do Comendador Mòr d’Alcantara) cercada dos
Xarifes, quando começaraõ conquistar Berberia, e traziaõ apoz si com o
zelo da sua Religiaõ falsa a mayor parte dos Alarves de Africa, posto
que socorrida das Ilhas, começou o inverno a crescer, e os Mouros
apertaraõ o cerco, de sorte que lhe faltou o socorro de Portugal pela
injuria do tempo, e os moradores desesperados delle naõ poderaõ soster
os inimigos, morrendo alguns valerosamente, e outros entregues aos
Mouros perderaõ aquelle lugar com quebra de algumas particulares, como
foy o Capitaõ D. Guterre, mas pouca culpa da gente de guerra que fez
quanto pode por naõ se entregar viva aos vencedores. Em lugar desta
força ordenou ElRey D. Joaõ fortificar Masagaõ na mesma Costa de
Africa, o que fez com muita despeza, e conselho de grandes Capitaens, e
em parte compensou a perda do cabo de Guee com muitas victorias, que os
Portugueses depois houveraõ.
Aquelles presidios de gente, que ElRey D.Manoel seu Pay, e os outros
Reys seus Avòs com conselho de guerra, que aquelles tempos sofriaõ,
tinhaõ repartidos pelos lugares de África sem diferença do sitio, e
commodidade dos portos, acordou por parecer do Emperador Carlos V.
recolher em menos fortaleza, com muito melhor conselho do que antes do
seu tempo se sustentavaõ, assim porque poucas forças juntas ficavaõ
mais poderosas para se defender, e os sitios escolhidos à vontade
delRey mais acomodados para socorro do Reyno. Ao mesmo Emperador Carlos
V. ajudou com huma armada poderosa na jornada de Tunes dissimulando
como o Infante D. Luiz seu irmão, que se achou nella com muitos
Fidalgos principaes, sem pedir licença a ElRey como quem sabia delle,
que nisto lhe fazia serviço. Aquella armada de Solimano Emperador dos
Turcos enviada pelo Estreito de Mequa, com grande esperança de lançar
os Portugueses da India, desbaratou duas vezes em Dio, metendo no fundo
a mòr parte della, e recobrando as moniçoens, e artelharia, perdida
em tempo do Governador Nuno da Cunha, sendo Capitão em Dio Antonio da
Sylveira, e depois disso, governando D. Joaõ de Castro, e sendo Capitão
desta fortaleza D. Joaõ Mascarenhas, foy roto outro campo delRey
deCambaya, onde se achou Cojeçofar, lançado de Europa naquellas partes
com muitos Turcos desejosos de refazer a perda de Solimano, e lançar
os Portugueses da India. Em seu tempo repartio o Estado da Santa Cruz,
chamado vulgarmente Brasil, que Pedro Alvares Cabral levado da força
dos ventos descobrio nas primeiras prayas do Mundo novo. E para se a
povoaçaõ fazer com mais facilidade, e menor despeza da Fazenda Real,
repartio aquella Provincia em differentes Capitanîas, e governaçoens,
na forma, que os Reys primeiros fizeraõ povoar as Ilhas achadas no
mar Oceano, que em poucos tempos cresceraõ com seu favor prosperas, e
ricas, onde erigio Igreja Cathedral, e enviou Governador supremo para
amparar em igualdade de justiça os que a naõ podiaõ alcançar dos mais
poderosos, com que amansou os Gentios daquella Costa, e outros, que se
escondiaõ pelo sertaõ, repartidos em suas Cabildas, sem mais contra
policia, ley, ou costume, que a vontade propria: muita parte dos quaes
trouxeraõ à noticia da nossa Fè Catholica os Religiosos da Companhia à
instancia delRey D. Joaõ. Neste Reyno fortificou no Algarve a Villa de
Lagos, offerecida aos roubos, e assaltos continuos dos Cossarios, que em
seu tempo infestavaõ o mar: começou tambem a fortaleza de S. Giaõ na
boca do Tejo, com o mesmo conselho, e finalmente na paz, e na guerra
foy hum Principe raro, nascido para beneficio dos homens, e amparo
dos pobres, e estrangeiros; verdadeiro conservador do Culto Divino, e
piedade Christãa. Foy de estatura meã, muy bem assombrado nos olhos,
com muita graça na boca, brando nas palavras, de bom acolhimento aos
pequenos, temido dos Grandes, de grande juizo na escolha dos homens bem
inclinados, porque estes lhe foraõ muito mais aceitos, que os grandes
engenhos, como foy o Cardeal D. Miguel da Sylva, D. Joaõ Manoel, Luiz
da Sylva, e outros, que afastou de si por terem sobeja noticia do
mundo, e pouca da que convinha para tratar com o seu Principe. Adoecia
poucas vezes, e nunca de doença perigosa, atè o anno de cincoenta,
que o começou tomar hum sonno amadornado no meyo dos negocios, doença
criada de longe por falta do exercicio, e lisonjarîa dos Medicos, que
lhe naõ preveraõ o perigo desta doença, de que veyo a fallecer no mesmo
dia em que se lançou na cama, alguns diziaõ, que sem testamento, nem
declaração de Governador do Reyno, e tutoria delRey seu Neto. Outros
affirmaõ, que Pedro de Alcaçova, que entaõ servia de Escrivaõ da
Puridade, e Gaspar de Carvalho Chanceler Mór deraõ sua fé na primeira
Junta, que se fez depois de sua morte, que a vontade delRey era nomear
para este cuidado do Reyno, e tutoria do Principe a Rainha Dona
Catharina d’Austria sua mulher por algumas razoens, que a mòr parte do
Reyno approvou, principalmente o Cardeal Infante D.Henrique, a quem
esta eleição delRey parecia devida, assim por sua virtude, e inteireza
muy conhecida, como por direito das gentes, e costume de Hespanha, que
costuma dar este cuidado aos Principes do sangue mais chegado, primeiro
que as femeas: falleceo finalmente depois dos Sacramentos da Igreja
recebidos com devaçaõ, e havendo trinta e seis annos, que reynava,
tendo cincoenta e cinco de sua idade, a onze dias de Junho, no anno do
Senhor de mil e quinhentos, e cincoenta e sete.
PANEGYRICO
À MUY ALTA,
E ESCLARECIDA PRINCESA INFANTA
D. MARIA
NOSSA SENHORA.
POR
JOAÕ DE BARROS
1 Commum sentença dos Filosofos he visto por experiencia (Illustrissima
Princesa nossa Senhora) o demasiado prazer causar nos coraçoens dos
homens muy grandes alteraçoens, que naõ podendo o espirito suster
em si o alvoroso, que dentro concebe, parece que abafaria, senaõ o
communicasse, manifestando a todos a novidade do que em si sente. De
que vem algumas vezes, que os homens esquecidos de si mesmos, sahem
fóra dos limites, que a gravidade de seus officios poz em suas pessoas,
como lemos delRey David, vencido do prazer, que tinha de levar a Arca
do Testamento para sua casa, hia diante della dançando, e fazendo taõ
desordenados movimentos com o corpo, que sua mulher Michol teve paixaõ,
parecendo-lhe, que naõ guardava o decoro, que se devia à Dignidade Real
com aquelles saltos, que via fazer a seu marido, de huma parte para
outra.
2 E naõ sómente vemos causar o prazer estas operaçoens nos actos
corporaes, mas ainda nas fazendas, taõ estimadas dos homens, que por
ellas perdem as vidas, e aventuraõ as almas. Cà huns em alvisaras,
outros em festas, que cada hum faz como pòde, gastaõ muitas vezes
em hum dia o que ganhaõ em muitos. Alguns em vez de rir, choraõ com
prazer, e de muitos lemos, a que o sobejo, causou morte subita, naõ
podendo com a força delle suster a vida.
3 De todos estes movimentos, que asima disse (muito alta, e excellente
Princesa) mayor foy o meu, que com o prazer, que ao presente tenho, ou
temos todos seus Vassallos em ElRey nos dar a vòs por Senhora, fiquey
como quem de grave enfermidade se levanta com grande detrimento, taõ
ignorante, ou taõ ousado, que me pareceo poder louvar a V. Alteza, que
he o mayor aballo, que no coraçaõ de hum homem muito contente se podia
fazer. Que gastar minha fazenda em celebrar cousa taõ grande, manifesto
he, que fora pouco, e muito menos morrer, pois a morte de huma pessoa
taõ baixa naõ podia manifestar prazer taõ alto.