Que direy no comedimento que tem no jogo, e festas publicas, que pola

mòr parte, se saõ feitas amiudo, aprende o povo a ser ocioso, e se

aparta do exercicio da virtude? Se antigamente a Grecia senaõ dera a

ver representaçoens, e festas, naõ perdera a gloria, que tinha ganhado

com armas, e em quanto andava occupada em ver autos, e fazer comedias,

ElRey Fillipe de Macedonia teve tempo de se fazer forte contra ella,

e em fim a sojugou, e fez tributaria. Por isso Aristoteles, e Tullio

naõ querem que haja muitas festas nas Reespublicas, e reprehende

a Theophrasto Filosofo por ser nessa parte d’outra opiniaõ. Tem

Aristoteles, que o Rey sobre tudo deve ser temperado, e daqui nasceo

o proverbio, que diz: ametade do feito he mais que o todo; porque

quem enfrear a vontade a naõ exceder aos fins da temperança, a qual

sempre guarda o meyo de toda a bondade, este tal jà tem conseguido

todas as virtudes; em algumas cartas que escreveraõ ElRey Fillipe de

Macedonia a Alexandre seu filho, e Antipatro a Casandro, e Antigono

a Fillipe, que foraõ tres notaveis Capitaens, lhes encomendaõ muito,

que ganhem a vontade ao Povo, com boas palavras, em que haja huma

temperada gravidade, e dizem que nenhuma cousa póde haver no Principe

mais proveitosa a si, e a seus vassallos. Isto guarda V. Alteza

inteiramente, cujas palavras, e respostas, assi como saõ vivas, e

significantes, assi saõ temperadas, e graves, e nellas todas luz, e

resplandece a grande bondade de seu Real Coração.

Finalmente saõ certo, e verdadeiro exemplo para a vida dos Principes.

Acho eu, que ouve antigamente em Sicilia hum Rey por nome Anixilào,

que por sua justiça, e temperança veyo a ser também quisto, e amado

do Povo, que leyxando por sua morte filhos pequenos, e por seu Tutor

delles a hum escravo de graõ virtude chamado Micitho, tanto foy o amor,

que os Sicilianos tiveraõ à memoria de Anixilào, que quizeraõ antes

ser governados por hum escravo, que dezamparar os filhos de hum taõ

bom Rey, e assi os principaes Senhores da Ilha esquecidos de quem

eraõ, ouveraõ por bem que a Magestade Real fosse administrada por mãos

do mesmo escravo. Huma das propriedades desta parte he resistir ao

appetito, e sometelo em tudo à razão. Entaõ hum Principe se póde chamar

perfeitamente temperado, quando não menos obedece a si mesmo, do que

seus vassallos obedecem a elle, quero dizer, quando obedece à justiça,

e às leys, que saõ representadas no Ceptro Real, e bem se diz que a

fonte de toda a temperança consiste em ser o appetito sogeito à razaõ.

Qual Principe se póde achar, que mais obediente lhe seja? Qual Principe

se lembrou mais de seu Povo, e se esqueceo de si? Qual teve nunca mór

respeito às virtudes, e menos foy tocado de merencorîa, ou sem razaõ,

que V. Alteza?

Naõ ha cousa mais contraria ao conhecimento da verdade, que o appetito

da ira, e como diz S. Joaõ Chrisostomo, o coraçaõ naõ senhor de si, e

sugeito à continuaçaõ do primeiro impeto he huma das cousas, que mais

estrovaõ, e privaõ a luz do entendimento. A merencorîa muitas vezes

vence os sabedores, e os olhos d’alma escurecidos, como quem peleja

às escuras, naõ sabem fazer diferença dos amigos, a quem lhes quer

mal. Lembrame que escreve Tullio em huma sua carta a Cataõ Uticense,

que sempre em todalas idades foy mais trabalhoso vencer o homem a si

mesmo, que a seus contrarios, e que mais pessoas ouveraõ vitoria de

seus inimigos, que de seus appetitos; mas quanto isto he mòr verdade,

tanto V. Alteza he digno de mais verdadeiro louvor, vencendo como

faz os vicios, que pola mòr parte naquellas pessoas pòdem mais, que

tem mór liberdade para peccar. Grande fama mereceraõ ElRey Ciro, e

ElRey Agesilào, por nunca dizerem mà palavra, e a muita temperança do

Infante D. Henrique, filho delRey D. Joaõ o primeiro deste nome, ainda

hoje he nomeada, que foy tanta, que assi como em seu coraçaõ nunca

entrou odio, nem ira, assi de sua boca nunca foy ouvida palavra, que

naõ fosse santa, e fundada em zelo, e amor de Deos. Quem bem olhar a

torvaçaõ do homem enfunado em grande colera, e escuridaõ do rosto, e

mudança de cor, o tremer da falla, a payxão do espirito, o movimento, e

esquecimento da razaõ, sem duvida achàra quam mà cousa he ser vencido

della, e naõ lhe resistir muito.

Diz Xenofonte que o Principe justo, e temperado hade cuidar que a sua

Reepublica he sua caza, e a seus subditos hade ter em conta de filhos,

donde cuido eu que nasceo antigamente os Reys serem chamados Pays

do Povo, representando tambem nisto a Deos, o qual he chamado Padre

nosso, e se este he o officio dos Principes tratar os naturaes como

seus filhos, tanto com mór cuidado devem resistir à ira, quanto este

appetito os afasta mais do verdadeiro juizo, que he necessario para a

boa conservaçaõ de qualquer estado. O Emperador Theodosio era vencido

algumas vezes da merencorîa, mas hiase-lhe logo, e dezejando arredarse

em vencer de todo este primeiro impeto, foy aconselhado de hum

Filosofo, que quando sentisse vir a payxaõ, costumasse a dizer antre si

as letras do A. B. C. porque desviando, e detendo com isto a fantezia,

antre tanto que aquelle subito movimento passasse.

Mas V. Alteza he sempre taõ senhor de si, e està nelle em todo o tempo

taõ viva, e inteira a razaõ, que naõ tem necessidade de algum remedio

contra este, nem outro nenhum appetito, assaz lhe bastàra para ser

excellente Principe obedecer (como faz) às proprias leys, posto que

sobre o Principe naõ tenhaõ poder algum, mas elle nem contente disto,

sendo assi tanto, juntamente obedece às leys de toda a boa razaõ, assi

como que nada lhe seja licito, mais que a nós, e assi nos dà de si

exemplo, com que vencendo a nós mesmos, naõ queiramos mais, do que he

justo, como diz hum Poeta. Esta diferença vay dos bons aos màos, que

os màos fógem da culpa com medo da pena, e os bons da pena com medo

da culpa, e sem duvida onde naõ entra amor, mal se póde conservar a

boa razaõ, por mór que seja o receo da pena. Mandando V. Alteza seu

Reyno, juntamente o mandaõ as leys, a virtude, e todo bom respeito,

posto que em alguns outros Reynos mais mandaõ, e podem os Principes,

que o bom respeito; mas o Rey que obedecer à justiça facilmente uzarà

toda a virtude, e polo contrario quem a naõ seguir, nem quizer dar

credito às leys que ordena, mais deve ser chamado tirano, que Principe.

Bemaventurança commummente se chama poder hum Rey quanto quer, mas

grandeza sómente se deve chamar, naõ querer mais do que he bom, em

fim tal he V. Alteza neste seu glorioso reynado, quaes outros muitos

Principes prometem, que haõ de ser, e tal he qual deseja ser havido, o

que (como dizia Socrates) he grande atalho para a verdadeira gloria, e

tamanha a força da razaõ, que a quem somos mais obrigados, a esse temos

mòr afeição, e amor, e athè os ladroens guardaõ antre si, e tem leys

que seguem, sem as quaes huns sem os outros se naõ poderiaõ soster.

Achase que foy hum famoso ladraõ na Esclavonia chamado Bargulo, que por

se haver justamente com os outros ladroens seus companheiros, partindo

antre elles o roubo igualmente, veyo a ter muito credito com elles, e

possuir grandes riquezas, e dos Persas se escreve, que sohiaõ fazer os

moços juizes d’outros moços para logo de pequenos se exercitarem no uzo

da razaõ.

Siguaõ os Principes o exemplo de Hercules, o qual como escreve

Xenofonte, passeando hum dia em hum lugar sò apartado, vieraõ a elle

a virtude, e a deleitaçaõ, ambas em habito de mulheres, mas a virtude

vinha como mulher grave, e a deleitaçaõ era Dama muito fermosa, e

porfiando com muitas razoens cada huma polo converter a si, sendo elle

mancebo, e naquella idade, em que naturalmente as vontades se soem de

entregar a bem, ou mal; Hercules posto que a deleitaçaõ lhe prometesse

grandes prazeres, e polo contrario a virtude lhe mostrasse grandes

trabalhos, ou vida trabalhosa, com tudo depois de lançar suas contas,

e cuidar tudo antre si, prudentemente escolheo a virtude com razaõ,

e trabalho, que a deleitaçaõ com falso contentamento: mas quando a

virtude por si naõ abastasse para se aver de seguir, ao menos se devia

fogir da infamia, que de naõ se fazer o que era razaõ nasce aos homens.

Quem he taõ presumpçoso, ou esquecido de si mesmo, que naõ estima o

que outrem pode dizer delle, como diz S. Joaõ Chrisostomo? A multidaõ

dos homens toda traz os olhos nos costumes de seu Principe, dos quaes

como de huma pintura cada hum tira o debuxo, e modo do seu viver, e os

peccados das pessoas baixas sómente empecem a quem os comete, as culpas

dos grandes polo mào exemplo trazem danno geral a muitos. Se como dizem

os Filosofos na temperança principalmente se olha, que tudo diga, e

estè bem, em nenhum tempo pòde ser afastado da virtude, porque tudo o

que diz, e està a bem por certo, em todas as partes da vida. V. Alteza

guarda perfeitamente o que cumpre, e està bem ao preço, e authoridade

de sua Real pessoa.

Sempre atençaõ de toda a pessoa virtuosa, e mòrmente do Principe assim

mesmo deve ser, conforme a todalas partes da vida, naõ deve ter os

apetitos soltos, ou sobejamente dezejando, ou sendo muito negligente,

que isto he o que naõ està bem, nem ha de haver nella vozes falsas, nem

desacordadas, o que tanto mais se deve fugir, quanto esta musica he

mais suave, que todas as outras, e quanto o desconcerto della offende

mais, e parece peyor. Bem està ao Principe ser vergonhoso, que aonde

naõ hà vergonha, naõ pòde haver nenhuma virtude, e este louvor foy

dado a Hercules: bem està ser humano, e chaõ, porque mais louvada foy

a humanidade de Valerio Corvino Capitaõ Romaõ, que a muita aspereza de

Anibal, e Manlio Torcato, que matou seu filho. Bem lhe està guardar

o que promete, porque de Hercules se escreve, que nunca mentio, nem

quebrou juramento, e que huma só vez jurou em toda a vida, e parecia

taõ mal aos Romaõs quebrar o juramento, e a fé, que se dava, que

defenderaõ aos seus Sacerdotes, que naõ jurassem. Em fim bem està ao

Principe naõ querer mais honra daquella, que a razaõ, e authoridade de

sua Real Pessoa requere.

Que cousa pode estar peyor a quem governa, que gabar-se a si mesmo

muito, ou dar credito a lisongeiros, como dizia Aristoteles? Quem a

si mesmo se gaba, he vaõ, e quem diz mal de si, he Sandeo, por isso a

verdade he nem se louvar homem, nem menos dizer mal de si, e o mesmo

dizia, que os contentamentos falsos se deviaõ de olhar no fim para

taõ asinha se naõ tornarem a desejar. Escreve-se nos Livros Sagrados,

que estando Acab Rey dos dez Tribus para dar batalha a ElRey Adado

da Suria, mais de quatro centos Profetas falsos, que havia no Paço,

por contentarem ao Rey lhe diziaõ, que pelejasse ousadamente, que

Deos lhe tinha prometido a victoria, antre estes todos havia hum só

Profeta verdadeiro chamado Micheas, o qual o desenganava, dizendo,

q́ se là fosse, havia de ser morto; mas ElRey dando mais credito à

falsa esperança dos lizongeiros, que ao dezengano de Micheas, depois

de o mandar prender, sahio à batalha, em que foy morto, e este he

o proveito, que tiraõ os Reys de quem lhes naõ falla verdade. Quem

estas cousas bem olhar, acharà claramente pola comparaçaõ dellas, quam

afastado he V. Alteza de todos estes males, e como em tudo segue, o que

sómente està bem à qualidade da pessoa, e grande mando, que tem.

Finalmente todas as partes, que tem da temperança, são em si perfeitas,

despresa as vaidades, e honras sobejas, he muy temperado em toda

a maneira, e costumes de sua vida, pode nelle mais a razão, que o

appetito, naõ se esquece nunca do que cumpre, e està bem a seu Real

Estado, porque segundo Aristoteles, a temperança he dividida em

três partes, em obedecer o appetito à razaõ, e naõ haver nas cousas

mais diligencia, nem menos da que cumpre em ser guardada em tudo a

dignidade, e estado de qualquer pessoa. Quem com juizo verdadeiro tudo

isto bem olhar acharà, que em V. Alteza se pode verificar toda esta

divisaõ.Com estas manhas, com estes costumes, com esta tal musica, e

harmonia de tantas virtudes, he tambem quisto, naõ somente de seus

leaes subditos, e naturaes, mas das Provincias, e Naçoens Estrangeiras.

Este he hum dos premios da virtude serem por ella naõ menos amados

os absentes, que os prezentes, e polo contrario, quando o Principe

he o que naõ deve, assi os estranhos, como os seus lhe querem mal, e

lho mostraõ per obra, quando podem, e achaõ tempo para isso, e por

força he, que hajaõ medo a quem querem mal, e a quem haõ medo, que lhe

dezejem a morte. Que mayor imfamia pode ser de hum Principe do que

foy do Emperador Cayo Cesar Caligula, que foy taõ mào, e crù tiranno,

que ouzou dizer, que de nenhuma cousa se prezava mais, que da pouca

vergonha? Mas seus mãos costumes, e crueza lhe deraõ o fim, que elle

merecia.

A pouca temperança, e comedimento dos antigos Reys de França foy causa,

que perdessem aquelle Reyno, e a successaõ delle passasse a outrem:

porque sendo Theodorico Rey em França, e leyxando governar o Reyno a

outrem, nem se mostrando ao povo mais que huma vez no anno, naõ poderaõ

isto sofrer os Grandes, e o lançaraõ do Reyno: nesses tempos a segunda

dignidade de França depois delRey era Mordomo Mòr, que pela fraqueza

dos Reys mandava tudo, por onde sendo, como disse, lançado Theodorico,

foy entregue o Reyno a Pepino Martel, filho de Pepino, o qual pola

grande authoridade do seu cargo governou França muito tempo, e por sua

morte leyxou seu filho Carlos Magno, que depois fez grandes cousas em

armas.

Costume he dos que compoem Panegyricos louvarem nelles a boa presença,

e pessoa do Principe, por isso dezejando eu fazer o mesmo, mòrmente,

sendo estas partes em V. Alteza taõ dignas da Magestade Real, por

duas causas o leyxo de fazer, a primeira porque a dignidade da lingoa

Portugueza sofre mal esta maneira de louvor, e a outra por ser isto

taõ notorio, que naõ tem necessidade de ser por mim mais representado,

e assi como no tempo dos Gentios em algumas partes, aonde era adorado

o Sol, haviaõ por escusado fazer-lhe imagem, porque o viaõ sempre

andar no Ceo, assi a Real Pessoa, e presença de V. Alteza, sendo de

nòs vista cada dia, naõ ha mister outro testemunho, que o dos olhos

e contentamento geral de todo o seu Povo. Mas jà he tempo, muito

Poderoso Rey, e Senhor de me recolher ao porto, e amainar as vellas:

metime no Mar Occeano: grande atrevimento foy o meu: hey medo de me

perder, faz-se o caminho cada vez mais comprido, e com tudo queria meu

desejo passar adiante, e fallar nas heroicas virtudes de V. Alteza,

cujo officio he mostrar-se nas mòres cousas, e trabalhos, assi como

nas outras he fugir, e arredar-se dos extremos. Vejo quam grande

empresa tomey, e quam trabalhoso me serà querer dar perfeito louvor em

Panegyrico a seus altos merecimentos, e naõ he igual trabalho dos que

geralmente trataõ das partes, e officio de bom Principe ao daquelles,

que particularmente querem representar as virtudes, e feitos de hum

Rey Excellente. Os que fallaõ geralmente dos Reys naõ saõ obrigados a

nenhumas Leys, nem delles se espera mais do que podem. Tem a liberdade,

que querem, tomando, e leyxando o que lhes parece, sem merecer nenhuma

reprehensaõ: por isso muitos Filosofos fizeraõ isto com muito seu

louvor, como foraõ Plataõ, e Theofrasto, Antistenes, Xenofonte, Dion,

Xenocrates, Aristoteles, e outros muitos, mas no Panegyrico naõ he

assi, o qual, ou senaõ hade começar, ou jà que se começa, ha de se dar

igual louvor ao merecimento das pessoas, e naõ se dando, he digno o

author de muita culpa, ou por tomar empreza desigual a si, ou por naõ

querer louvar como he razaõ, e naõ merece menos culpa, quem louva o bom

Principe menos do que he, que quem diz mal delle. Neste tamanho perigo,

em que me fuy meter, huma só escusa tenho por mim, o grande dezejo de

tratar os louvores de V. Alteza, senaõ como elle merecesse, ao menos

como eu pudesse. No fim desta obra peço ao muito alto Deos, que este

tamanho bem, que nos quiz dar dando-nos tal Rey, e Senhor, nos queira

conservar por muito annos, dando nos a nòs tambem vida, não tanto pola

vida, quanto polo contentamento deste seu glorioso Reynado de V. Alteza.

FIM DO PANEGYRICO

_A ELREY D. JOAM III._

_Por João de Barros._

ELOGIO

DELREY

DOM JOAÕ

DE PORTUGAL

III. _deste nome_

POR

ANTONIO DE CASTILHO

_Do Conselho delRey D. Sebastiaõ, e seu Chronista Mòr_

Dom Joaõ o III. deste nome, decimo quinto na ordem dos Reys de

Portugal, foy filho delRey D. Manoel, e neto do Infante D. Fernando,

que por linha direita de varaõ em varaõ, vinha do primeiro Rey de

Portugal D. Afonso Henriques, filho de D. Henrique Conde de Astorga

natural de França das partes de Vizançon, cujo Pay, e Avòs descendiaõ

dos antigos Reys de Borgonha: nasceo o Principe D. Joaõ das segundas

vodas entre ElRey seu Pay, e a Rainha Dona Maria filha dos Reys

Catholicos nos Paços de Alcaçova de Lisboa no anno de Christo Nosso

Senhor 1511 a 6. de Junho; naõ pode temperar o alvoroço, e alegria do

povo huma grande trovoada, que a noite de seu nascimento se armou,

e hum rebate de fogo ateado dentro nos Paços, no dia em que foy

bautizado, porque em tamanho sobresalto naõ deixavaõ de o festejar com

todas as invençoens de jogos, e de prazeres publicos, como se aquelle

lume fora hum agouro do resplandor de sua virtude: fez seu bautismo

na Capella de S. Miguel D. Martinho da Costa Arcebispo de Lisboa.

Madrinhas foraõ a Rainha Dona Leonor viuva delRey D. João II. e a

Infanta Dona Beatriz sua Avò: e em nome da Senhoria de Veneza escolheo

ElRey D. Manoel por Compadre hum Gentil homem enviado por Embaixador a

este Reyno, a quem ElRey armàra Cavalleiro, e dera a Ordem de Christo,

avida naquelle tempo por mayor honra. Tomou o Principe o primeiro leite

de Dona Beatriz de Payva, casada com D. Alvaro da Costa, Guarda roupa

delRey D. Manoel, mas vindo adoecer, e faltarlhe o leite, entrou em

lugar della Fillipa d’Abreu casada com Bertholameu de Payva cunhado

do mesmo D. Alvaro, dizem alguns, que lhe fora revelada em sonhos

esta criaçaõ do Principe, podia tambem ser força da imaginaçaõ. Como

o Principe chegou à idade de hum anno, foy jurado pelos tres Estados,

por futuro succesor destes Reynos nas Cortes, que ElRey seu Pay fez

em Lisboa no anno de 1503 na Sala dos Leoens: passados os primeiros

annos da mama, teve cuidado de lhe ensinar a Doutrina Christaã, e as

primeiras letras Alvaro Rodrigues Capellaõ delRey seu Pay, ajudado de

hum Martim Alonso, que professava este officio, teve cuidado de lhe

ensinar os principios da Lingua Latina D. Diogo Ortiz de Vilhegas Bispo

de Tangere, que depois com Thomaz de Torres Mathematico muy conhecido

lhe deo algumas liçoens da Esphera, e tendo o Principe huma memoria

estranha, e tanto juizo, como sempre mostrou, aproveitouse mal desta

Doutrina, ou por culpa dos passatempos, a que se afeiçoava mais, ou

destes Doutores, que o guiaraõ por caminhos torcidos, nem cada hum

delles, nem Luiz Teixeira filho do Chanceler Mòr grande Letrado, e

criado nas boas letras de Italia lhe aproveitou na falta, que depois

sentio, porque escassamente se enxergava nelle a sombra da Lingua

Latina: posto que nas cousas de juizo se achava muito lembrado: assim

eraõ as palavras delRey cheas de Magestade, e igual brandura, que

parecia criado na conversaçaõ dos melhores engenhos do Mundo. Quando

ElRey seu Pay lhe deo casa, afeiçoouse logo a dous homens fidalgos de

diferente natureza, hum delles foy Luiz da Sylveira muito avisado, bom

cortesaõ com alguma noticia das letras humanas, mas desejoso de levar

o Principe a seu parecer, o outro D. Antonio de Tayde de menos idade,

mas transformado no gosto delRey, de que fazia muito mais conta, que

da propria medrança, assim a segurou melhor quando o Principe D. Joaõ

veyo a reynar. Falecido ElRey D. Manoel no anno de 1521. a 13. dias de

Dezembro, proveo logo o Principe as honras, e exequias da sepultura de

seu Pay: tanto que foy obedecido, e jurado dos tres Estados do Reyno,

reformou com todos os Principes confederados a paz, e amizade, que seu

Pay acordàra com elles, e no mesmo tempo succedeo a morte do Papa Leaõ

X. cujo successor foy Adriano VI. na Igreja de Deos. Deu-lhe ElRey D.

Joaõ a obediencia, antes que sahisse de Espanha, provendo juntamente

nas cousas da paz, e da guerra sem alterar o governo, nem os Ministros

na ordem em que as deixàra seu Pay. Começando apoz isto a nascer

algumas discordias entre elle, e o Emperador Carlos V. pela razaõ que

cada hum tinha de averem por seu o direito das Ilhas de Maluco, por

culpa de Fernaõ de Magalhaens desnaturalizado de Portugal por aggravos

del Rey D. Manoel, entendeo quanto importava a seu Reyno o repouso da

paz, e naõ sómente atalhou a desavença desta causa por honesto partido,

mas renovou o devido antigo, que tinha com a Casa d’Austria, dando a

Infanta Dona Isabel sua Irmã ao Emperador, com hum dote desacostumado,

casando a troco com a Infanta Dona Catharina d’Austria. Revolto o Mundo

depois com as guerras do Emperador, e de Francisco Rey de França, e

determinados por huma das partes todos os Principes da Europa, sendo

ElRey D. Joaõ escassamente de 24. annos de idade, assim se governou

nesta tormenta do tempo, que naõ pòde ser levado de algum delles

para seguir seu bando, antes guardando a hum o decoro, a outro a fé

de confederaçaõ, nunca desistio de esforçar cada hum delles à paz da

Christandade, pondo-lhe diante a obrigaçaõ que tinhaõ de ajuntarem as

forças, e virarem as armas contra os inimigos della, offerecendo o

Infante D. Luiz seu Irmão para tratar este acordo. Desejando depois

ver restituidas em Portugal as letras, que a ignorancia de alguns, e

descuido dos Principes tinhaõ degradadas do Reyno, escolheo alguns

moços de boa esperança para fazerem alicece desta obra, os quaes mandou

criar em Pariz no Collegio de Santa Barbara, onde se assinalaraõ

alguns na eloquencia, e doutrina, de sorte que pode depois reformar

a Universidade de Lisboa, e levalla à Cidade de Coimbra, convidando

Theologos, Juristas, e Medicos de todas as partes de Europa, que

floreceraõ nesta Universidade, e ganharaõ honra com o favor, e partido,

que lhes fazia. Quasi no mesmo tempo receando o perigo, que as heresias

dos Christaõs novos, e dos Luteranos, que em Alemanha cresciaõ, tanto

como as outras no Reyno, antes que este fogo se ateasse, impetrou da

Sè Apostolica a authoridade do Officio Santo da Inquisiçaõ(posto que

em Roma contrariado) para atalhar os incendios, que em poucos annos

abrazaraõ o Mundo, com tanto zelo da Religiaõ Catholica, que escolheo

para o cargo de Inquisidor Mòr o Cardeal Infante D. Henrique seu

Irmaõ. Fez muita ventagem aos Reys seus Avòs no zelo do Culto Divino,

e acrescentamento na Religiaõ, porque no Reyno fez tres Igrejas Sès

Cathedraes, Leiria, Portalegre, e Miranda, e nas Ilhas do Mar Oceano,

e outros Estados da Coroa de Portugal erigio novos Bispados por

authoridade Apostolica, cujos Prelados, e Ministros de cada Igreja

fez sustentar dos dizimos, que estavaõ applicados à Ordem de Christo,

no descobrimento destas partes. Fez com a mesma authoridade a Igreja

de Evora por morte do Cardeal D. Affonso Metropolitana, onde passou

com o mesmo favor do Arcebispado de Braga o Cardeal D. Henrique, para

restituir com seu exemplo de vida a melhores costumes os Ministros,

que a riqueza daquella Igreja hia afroixando. O mesmo titulo procurou

à Sè do Funchal na Ilha da Madeira, com ordem, que fosse reconhecida

na jurdiçao espiritual do Bispado de San Tiago, e de S. Thomè, e da

Cidade de Goa na India. E por tempo depois impetrou do Papa o Primado

à Cidade de Goa, que reconheciaõ os Bispados de Cochim, e Malaca.

As Ordens dos Religiosos esfriados do primeiro fervor foraõ à sua

instancia restituidas à limpeza, e devaçaõ dos primeiros Instituidores,

como foraõ a dos Franciscanos, Dominicos, Agustinhos, Carmelitas, e

Hieronymos, repairando os Edificios antigos dos Religiosos, para se

exercitarem naquella vida santa, e recolhimentos mais acommodados,

com o qual cuidado reformou o Convento dos Freires da Ordem de Nosso

Senhor Jesu Christo em Tomar, apertando aquella Religiaõ Militar,

quasi desatada, com a Regra de S. Bernardo, como fez no Mosteiro de

Santa Cruz de Coimbra, que naõ sómente mudavaõ os costumes, a vida, e

recolhimento, mas foy acrescentado de Edificio magnifico, e digno de

sua grandeza. Tinha a mesma tençaõ redusir a Ordem de S. Bento à sua

limpeza, e santidade primeira, mas a morte rompeo este desejo, posto

que em sua vida o Mosteiro de Alcobaça resplandecesse em muita virtude,

como depois succedeo a todas as casas de Portugal desta Ordem, com o

zelo que o Cardeal D. Henrique mostrou a esta Religiaõ, depois que lhe

foy encomendada em tempo del Rey D. Sebastiaõ, herdeiro dos pensamentos

de seu Avò, veyo a lume a Reformaçaõ, que S. Bento lhe inspirou do

Ceo, com que os Mosteiros de sua Ordem começaraõ a florecer em nova

Religiaõ, e com seu exemplo as outras Ordens Militares de Aviz, e

Palmela, se governaraõ melhor.

Noticias de Portugal · 第 34 / 43 段