ouveraõ d’atribuir mais à sua boa fortuna, que à sua virtude, que
posto que a guerra tenha necessidade de tres cousas, boa gente, bons
Capitaens, e boa fortuna, com tudo a mòr parte della consiste nas duas
primeiras, e por isso bem diz hum Proverbio latino, que a fortuna
succede segundo saõ as manhas, e costumes de cada hum. Teve Roma grande
Estrella, mas naõ teve menos fortaleza, e com ambas pode alcançar
tamanho Imperio, o qual logo em seu principio cresceo tanto, que em
tempo do sexto Rey de Roma havia jà nella oitenta mil homens para tomar
armas, e foy tanta a bondade, e nome desta Reepublica, que os Reys
antigamente trabalhavaõ por serem Senadores della. Naõ desprezou esta
Dignidade o Infante D. Henrique Irmaõ delRey D. Afonso de Castella
decimo deste nome, naõ a desprezou Carlos Rey de Napoles, e Sicilia, e
Conde de Andegavia, e Proença, em cujo tempo no anno de Nosso Senhor
do nascimento de mil e duzentos e oitenta e hum foy aquella conjuraçaõ
taõ nomeada dos Sicilianos, em que foraõ mortos em hum só dia todos os
Francezes, que polo Reyno de Sicilia foraõ achados, e levantando-se
logo toda a Ilha se deu a D. Pedro de Aragaõ. Mas tornando ao meu
proposito se no tempo, que Roma era jà desfeita, e destruida, com tudo
os Reys desejavaõ serem Senadores della, que devemos cuidar, quando
prosperava, e mandava o mundo?
O Emperador Octaviano nenhuma cousa depois de Deos estimava tanto, como
a memoria dos Capitaens por cuja industria, e fortaleza o Imperio Romaõ
de pequeno fora feito taõ grande, e para isto melhor mostrar, renovou
as obras, e edificios, que cada hum delles fizera, e mandou levantar a
todos estatuas em habito triunfal de redor da sua praça com hum pregaõ,
que dizia, que isto fazia Octaviano para que o Povo Romaõ assi a elle,
e aos Emperadores, que viessem depois obrigassem a darem de si taõ boa
conta, como elles deraõ. Este taõ grande Imperio houve fim, e acabou
como naturalmente acaba tudo, e segundo a opiniaõ de alguns o principio
de sua destruiçaõ foy quando os Romaõs esquecidos de quem eraõ, se
começaraõ a ajudar da gente de fóra, e deraõ soldo aos Godos, naçaõ
barbara, e estrangeira, e sem duvida naõ hà remedio menos firme para a
conservaçaõ de hum Estado, que a potencia fundada nas forças alheyas,
por tanto os Principes, e Reepublicas devem fazer guerra com os seus
natu-raes, e aventurar-se antes com elles, que tomar ajuda d’outra
parte, e se bem queremos olhar, esta foy a causa, por onde poucos
tempos hà Italia foy destruida, porque sendo o Imperio de Roma lançado
della, e alevantandose muitas Cidades principaes contra os nobres,
que com favor do Emperador as tirannizavaõ, e tendo muita necessidade
de ajuda parte dellas, se encomendavaõ ao Papa, e parte de algumas
Reespublicas principaes de Italia, mas polo Papa ser Ecclesiastico,
e as Reespublicas serem pouco usadas nas armas começaraõ entaõ para
defençaõ de seus Estados de darem soldo aos de fóra, e o primeiro,
que deu authoridade, a gente, e armas estrangeiras foy Alberico de
Romanha, mas porque poucos homens de pè aproveitavaõ pouco, e muitos
eraõ màos de manter, ordenaraõ entaõ em lugar destes gente de Cavallo
para fazerem corpo com poucos de Cavallo, o que com poucos de pè naõ
podiaõ fazer, e fazer-se com muitos era graõ despeza, dahi por diante
sendo dado tanto favor à gente de fóra tiveraõ occasiaõ os Estrangeiros
de se hirem fazendo Senhores de Italia, atè que finalmente aquella
Italia senhora do mundo veyo a ser escrava de muitas naçoens, corrida
por ElRey Carlos, roubada por ElRey Luiz, vencida por ElRey D. Fernando
vosso Avò, e deshonrada por Soiços.
Se quizermos olhar França, tambem ella nos serà exemplo de quam
prejudiciaes aos naturaes saõ as Armadas de fóra. ElRey Carlos de
França VII. deste nome Pay delRey Luiz Onzeno depois de livrar seu
Reyno com muito trabalho das mãos dos Ingleses conhecendo esta
necessidade fez em França ordenança de gente de pè, ou Infantaria,
depois ElRey Luiz seu filho tirou a Infantaria, e começou a dar soldo
aos Soiços, e este erro continuado foy causa dos perigos, e males
daquelle Reyno, porque sendo dada a authoridade aos Soiços, o partido
dos Franceses sem gente de pè ficou bayxo, e a sua gente d’armas veyo
a ter necessidade da gente estrangeira, donde vem, que os Franceses
aos Soiços naõ podem resistir, e sem elles naõ valem muito. Se Capua
naõ recebera a gente de Anibal, naõ fora destruida pelos Romaõs, se
Grecia naõ chamara a Philipe Rey de Macedonia, naõ viera a ser sogeita
dos Macedonios, nem passara os males, que passou. Se o Emperador de
Constantinopla Michael Paleologo naõ metera os Turcos de Natolia em
Grecia, naõ se perdera aquelle Imperio, como se perdeo. Finalmente
se nestes tempos d’agora Joaõ Vayvoda naõ chamàra os Turcos, Ungria
senaõ destruira, e elle estivera mais honrado, que està: assi que claro
se vè de quantos males, e perdas as armas estrangeiras saõ causa, e
sempre foraõ; por isso o Principe que dezeja, que seu povo seja forte,
faça a guerra com os seus naturaes, lembrando-se que nenhum Capitaõ
conquistou muito, senaõ com a propria gente, e se o Emperador Carlos
V. deste nome ouve em nossos tempos tantas vitorias contra ElRey de
França, e o prendeo em batalha por seus Capitaens, que a principal
causa disto foy, por fazer a guerra com os Espanhoes seus naturaes, e
ElRey de França polo contrario com muita parte de Soiços, e Italianos:
grande inconveniente he ajudarse o Principe do Exercito, que sómente
anda por roubar, porque assi como a gente natural peleja por amor,
assi a estrangeira por só interesse, o qual faltando, tudo falta, e
a tal gente se leyxa vencer por ser peitada, ou por esperança de mòr
proveito, e o peor he que muitas vezes por este caminho os Estados se
vem a perder, e a ficarem sugeitos daquelles, que os ajudavaõ.
Diz Aristoteles, que os Athenienses levantaraõ a Codro por seu Rey
por lhes conservar a liberdade, e ElRey Cyro mereceo antre os Poetas
a mesma honra: outros foraõ feitos Reys, ou por conquistarem Reynos,
ou por fundarem Cidades de novo, como foraõ os Reys dos Macedonios,
dos Spartanos, e dos Molossos. Tambem os Reynos, que neste tempo por
legitima sucessaõ se herdaõ, antigamente foraõ aos grandes merecimentos
das pessoas, ou por virtudes, ou boas obras, ou grande fortaleza. O
mesmo Aristoteles diz, que o mòr pensamento dos Principes antigos era
levantarem o Ceptro Real, em sinal da fé, que direitamente haviaõ de
guardar, e pois que aos Reys antigos, os povos deraõ sobre si tamanho
poder, e authoridade polos bens que receberaõ delles, e principalmente
pola liberdade, e asosego comum, devem todos os Reys seguir os exemplos
de seus avòs, e da caza donde vem, de maneira, que os Reynos, que
herdaõ por sangue, tornem a merecer de novo por grande virtude, e
fortaleza, e sobre tudo devem conservar a honra, descanço, e liberdade
de seus vassallos, usando verdadeira fortaleza, e naõ confiando mais na
gente de fóra, que na força, e valentia de seus naturaes, por quanto
sempre se vio com a gente natural se conquistarem os Reynos alheyos, e
com a de fóra se perderem os proprios, e jà ganhados.
Tudo isto que disse de fortaleza, e partes della, foy porque vissem
todos comparando as cousas antre si, quam excellente Principe em todas
he V. Alteza quam forte, quam constante, quam afeiçoado à lembrança
dos feitos, que saõ dignos de memoria. Quantas Conquistas tem contra
os infieis em diversas partes do Mundo, e assi quanto mais confia no
esforço, e bondade de seus naturaes, que nas armas, e ajuda de nenhuma
gente estrangeira: mas naõ se contenta com sómente ser forte (sendo
este em si tamanho louvor) mas ainda vay mais por diante, merecendo mòr
nome, que o da fortaleza, e sua natureza he naõ descançar nunca athè
naõ chegar ao mais alto ponto, e cabo de toda a virtude. Grande louvor
seria a todo o Principe ser chamado forte; V. Alteza de tal maneira o
he, que tambem com muita razaõ pòde ser chamado magnanimo. Quem o vio
nunca menancorio, ou desviado daquella humanidade, e brandura, que mais
representa homem Divino, que humano? Quem vio nunca seu rosto alterado,
nem vencido de alguma payxaõ, por nenhuma grande adversidade, que fóra
destes Reynos (tantas esterelidades, tantas fomes, tantos terremotos,
e pestes em quantos annos atraz foraõ) se elle com seu grande, e
magnanimo esforço, e bondade lhes naõ acudira?
Eraõ perdidas muitas Nàos de V. Alteza que vinhaõ carregadas da India
de muita riqueza, naõ cessavaõ diferenças muito importantes com
grandes Principes, com tudo sentindo sem comparaçaõ mais os males
presentes, que seus Reynos padeciaõ, e dissimulando a payxaõ com muito
esforço, naõ cessava com igual prudencia, e magnanimidade de socorrer
continuamente as necessidades de todo o seu povo, muito mais do que
a qualidade dos tempos parecia, que pudesse soportar; mais he isto
que fortaleza, e mòr louvor merece, porque saõ estas as partes do
coraçaõ alto, e segundo dizem os Filofofos, heroico, que assi como
nas prosperidades se vem os homens para quanto saõ, assi nos grandes
males, e perdas se conhecem os magnanimos. Em tempo do Emperador Marco
Antonio o Imperio Romaõ padeceo todos os males, que se podiaõ cuidar,
toda a terra de Levante toda Esclavonia, toda a França ardiaõ em
guerra, havia fomes, esterilidades, tremia a terra em muitas partes,
cahiaõ Cidades, e lugares com perda de muita gente, vinhaõ grandes
cheas de rios, que alagavaõ os campos, e faziaõ grande danno, andava
por todas as partes graõ pestilencia, com outras muitas doenças,
desciaõ polo ar nuvens de Gafanhotos, que aonde pousavaõ, destruiaõ
tudo, em fim nenhum mal, nenhuma desaventura se poderia imaginar, que
entaõ naõ ouvesse, mas Deos que nunca se esquece dos homens, tanto
que naõ lhes dè algum remedio, quiz por sua misericordia, que fosse
naquelles tempos Emperador de Roma Marco Antonino Principe dotado de
tantas virtudes, e de taõ excellente engenho, e saber, que pode com
seu esforço repairar, e ter o rosto quedo a tamanha fortuna, e bem se
pòde dizer, que se naquelles tempos naõ fora Antonino, que o Imperio
Romaõ se perdera. Com muita razaõ pòde V. Alteza ser comparado a este
taõ virtuoso Principe, posto que nisto lhe faz ventagem, que tendo
recebidas mòres perdas em sua fazenda naõ leyxou por isso, nem leyxa
de ser taõ liberal, como elle foy; mas quanto mais me estendo por seus
louvores, e grandes virtudes tanto se faz o caminho mais comprido.
Aconteceme como àquelles, que entrando polo mar Occeano, quanto mais
vaõ por diante, tanto mais se metem no alto, por isso em tanto perigo,
melhor, e mais saõ conselho seria recolherme, e assi o quero fazer se
primeiro disser algum pouco da grande temperança que ha nelle: claro
remate de todas suas virtudes, sugigando sempre o appetito à razaõ,
e guardando inteiramente o que cumpre, e sómente està bem a seu Real
Estado. Grande jurisdicçaõ tem esta virtude em toda a vida do homem, e
com todas as outras esta abraçada de maneira, que de nenhuma se pòde
apartar, nem pòde haver perfeita virtude, em que naõ haja temperança,
com que nada repugna à razaõ; mas he tudo confórme, e conveniente antre
si. Naõ me he a mim necessario para prova disto allegar muitas razoens,
por quanto o exemplo de V. Alteza basta para verificar o que digo, no
qual naõ menos todas as outras virtudes, que esta, e suas partes se
representaõ. Qual homem por mais rude, e idiota que seja, vendo a sua
muita temperança, naõ cuidarà que vè hum daquelles Principes antigos
cheyos de toda a humanidade, e comedimento, que de si nos leyxàrão
memoria para sempre?
Todo este louvor he seu proprio, e por isso tanto mais digno de ser
neste lugar louvado, quanto mais a elle só he devido, porque tirando
algumas cousas que necessariamente requere a dignidade Real para
sua conservaçaõ, em tudo o mais se ha para seus vassallos com tanta
moderaçaõ, que mais parece Pay de todos, que Rey, e Senhor. Oh quam
grande força he a da virtude! Quanto mais temperado he V. Alteza, tanto
de nòs he mais venerado, e quanto mais obedece à razaõ, tanto mais o
alevanta Deos, de maneira que o acatamento, que muitos outros Reys com
mostra de muita gente, com pompa de Real Estado, com luzentes Alabardas
diante de si naõ pòdem alcançar, elle só com muito comedimento, com
muita brandura, e humanidade naõ menos alcança do que merece. Bem està
esta tal virtude a hum tal Principe, e tanto melhor lhe està, quanto
he mais nova, naõ digo, porque o conhecimento das virtudes naõ seja
cousa velha, mas porque a pratica, e uzo dellas, as mais vezes he
cousa nova, mas elle naõ se contenta de louvor geral, os seus altos
pensamentos dezejaõ merecimentos novos, o seu Real Coraçaõ desprezador
de honras demasiadas, e amansador de desejos sem nenhum fim, mais do
que Deos manda, alcança mais do que deseja. Naõ leyxarey de pòr aqui
as palavras, que Moysès Secretario do muy alto Deos leyxou ditas a
seu povo. Se quizerdes em algum tempo ser governados por Rey, olhay
que seja vosso natural, e que tenha sempre cuidado da justiça, e que
saiba que a sabedoria consiste principalmente em temer a Deos, e em
guardar as leys, naõ faça nada sem vontade do Principe dos Sacerdotes,
e dos mais anciaõs do Povo, naõ caze com muitas molheres, naõ trabalhe
por acquirir muitos thesouros, nem por ter muitos cavallos ajaezados,
por quanto se estas causas desejar, e tiver, serà soberbo, e pouco
obediente às leys. Esta virtude taõ louvada de Moysès os mais antigos
Romaõs, seguidores da ley da natureza, guardaraõ inteiramente, e em
quanto a elles guardaraõ, e com ella juntamente amàraõ pobreza, o
Imperio Romaõ assi na paz, como na guerra cresceo, e foy por diante.
Lucio Quincio Cincinato Capitaõ, e Senador Romão com quatro geiras de
terra vivia, e nellas andava lavrando, quando foy chamado para ser
Dictador de Roma, que era entaõ a mòr honra, e dignidade que naquella
Reepublica se podia dar, e delle se escreve, que fez no seu tempo
seu Mestre dos Cavalleiros a hum Curio, ou Lucio Tarquino, que athè
entaõ por ser muy pobre servira na guerra a pè, e assi Marco Athilio
Regulo Nobre Capitaõ, que como jà em cima disse, foy prezo polos
Carthaginenses teve o dezejo taõ curto, e limitado, que sendo em Africa
Capitaõ d’hum grande Exercito mandou pedir ao Senado licença para vir
a Roma olhar por huma sua Quintãa, que entaõ era maltratada de seus
Lavradores: sem duvida quem isto pedia, naõ desejava de enriquecer na
guerra, que entaõ pouco lhe lembràra o danno da sua erdade, mòrmente
andando em tal parte, e com tal càrrego, donde pudera tirar grandes
interesses, mas aquelle fim certo da bondade, que nunca pode exceder
às Leys da temperança, foy causa, que assi como Regulo fazia guerra
por gloria, e serviço da sua Reepublica, que assi em tamanha Capitanîa
senaõ esquecesse de sua pobre fazenda.
He certo para notar a grandeza de coraçaõ dos Cidadaõs Romaõs, os
quaes sendo em alguma parte Capitaens, eraõ magnanimos sobre todos os
Principes, desbaratavaõ poderosos Reys, e grandes Exercitos em batalhas
campaes, e estes mesmos depois, que se tornavaõ à patria, tornavaõ a
ser como d’antes Cidadaõs particulares, temperados, contentes de suas
pobres fazendas, obedientes aos Officiaes de Roma, e aos mais velhos,
quasi de maneira, que parece cousa impossivel, em hum mesmo coraçaõ
caber tamanha diversidade de costumes. Durou isto atè o tempo de Paulo
Emilio, o qual vencendo a ElRey Perseo de Macedonia, e triumfando delle
trouxe a Roma tanto ouro, e prata com que o Povo Romaõ aprendeo a ser
cobiçoso, mas Paulo Emilio lembrado dos costumes em que fora criado,
se lembrou sómente da victoria, e viveo como dantes pobremente: dahi
por diante crescendo a cobiça nos Romaõs chegou a tanto extremo por
onde aquella Reepublica, q́ o que com temperança se ganhàra, se veyo
a perder com seu contrario, e como diz hum Poeta a cobiça, e desordem
dos Romaõs destruio Roma, e deu della vingança ao mundo; mas V. Alteza
naõ somente no que toca à dignidade Real, mas à maneira, e costumes
de sua vida he muy temperado. Jà disse em cima quam sumptuosamente
edificava, o que porèm faz com tanto respeito, que naõ pode ser a isso
reprehendido, como foraõ Pericles, e Pompeo. ElRey Herodes de Judea
filho de Antipatro, e Domiciano Emperador de Roma, e ElRey D. Fernando
de Portugal por este demasiado apetito, de ricos Principes, que eraõ
d’antes, deraõ consigo em muita pobreza. A Mesa Real de V. Alteza assi
como he servida como cumpre a seu Real Estado, assi naõ excede o modo
na muita sobejidaõ dos manjares, que se agora em outras partes usaõ,
os quaes naõ sendo bons para a vida, trazem consigo outro danno, que
empecem com seu exemplo ao povo, que como jà disse, sempre folga de
fazer o que vè, que seu Principe faz.
De Julio Cesar se conta, que fez huma Ley, que naõ se comesse em
Roma mais de certas viandas, e a fez guardar taõ inteiramente, que
alèm de mandar olhar sempre o que se vendia nas Praças, mandava
dissimuladamente saber o que se comia nas Casas dos principaes. Esta
Ley foy tomada das Leys de Licurgo, que em nenhuma cousa trabalhou
mais, que fazer, que a sua Reepublica fosse temperada no comer, e
beber, e sem duvida os homens devem de comer para viverem, e naõ
viverem para comer. Quem bem olhar quanto a sobejidaõ da gula repugna
às Leys da natureza, e encurta a vida, e assi as muitas enfermidades, e
naõ boas disposiçoens, que della nascem, acharà quam pouca necessidade
tem os homens de muito comer. D’ElRey Dario se escreve, que hindo
fugindo de Alexandre, e levando grande sede, foy dar em hum regato
da agoa turba, trilhada de gente, e envolta em sangue de homens, que
nella jasiaõ mortos, e fartando-se entaõ aquelle graõ Rey Dario desta
sorte d’agoa, confessou, que nunca bebera com tanto gosto. Tambem ElRey
Ptolomeo caminhando pelo Egypto, e naõ tendo huma noite, que cear,
senaõ paõ de toda a farinha disse, que nunca cousa melhor lhe soubera.
Desta temperança louva Mamertino em hum seu Panegyrico ao Emperador
Juliano, o qual, segundo diz, as mais vezes comia, e bebia em pè o
que lhe mandavaõ, e assi por este respeito louvaõ em seus Panegyricos
Ausonio ao Emperador Graciano, e Plinio a Trajano. Pacato em hum
Panegyrico, que fez ao Emperador Theodosio, diz, que sendo elle Senhor
das terras, e dos mares, era no comer muy temperado contentando-se de
toda a vianda, nem se prezando de manjares delicados de muito preço,
e trasidos de longe, e no mesmo lugar reprehende a hum Principe, cujo
nome calla, que foy taõ dado à Gula, que muitos comeres seus foraõ
avaliados, e estimados cada hum em dez mil cruzados. Finalmente do
Emperador Cesar Augusto se escreve, que nunca fez gasto demasiado em
comer.
Naõ he V. Alteza digno de pequeno louvor em beber agoa, posto que
esta taõ venturosa manha lhe venha a elle, e naõ menos aos Infantes
seus Irmaõs, como de herança leyxada por ElRey D. Manoel seu Pay de
gloriosa memoria. Diz Salamaõ nos Proverbios naõ queiras aos Reys
dar vinho, porque onde reyna o vinho, naõ reyna nenhum segredo, sem
duvida assi como o entendimento dos que bebem agoa, està inteiro, e
claro, assi o sentido dos que bebem vinho, anda mais bruto, e remoto,
e vè menos, porque a luz natural da razaõ natural he impedida, por
isso he proverbio antigo, que o vinho traz assombrada a sabedoria.
Manda Plataõ em suas Leys, que os Principes das Cidades, e Officiaes,
e Conselheiros das Reespublicas naõ no bebaõ, e naõ dà outra razaõ,
senaõ parecer cousa de escarneo, quem ha de mandar a outrem, aver
elle mister de ser mandado: o mesmo diz assi Aristoteles louvando a
Ley dos Carthaginenses, que nenhum Soldado sobpena da vida pudesse
durando a guerra beber vinho, e Moysés mandou aos Sacerdotes, que
quando houvessem de sacrificar o naõ bebessem. Em fim Salamaõ o defende
naõ somente aos Reys, mas aos Officiaes, e Juizes de seu Povo: e diz
Plutarcho, que antigamente era defezo aos Sacerdotes do Egypto.
Escreve-se delRey Cyro, que chegando a casa de hum seu Hospede, e
tendo-lhe perguntado familiarmente, que queria comer, respondeo, que
lhe buscassem paõ, por quanto esperava hir comer a huma fonte. Tambem
o Emperador Octaviano sendo em tudo muy temperado, e queixando-se o
Povo Romaõ a elle de o vinho valer muy caro em Roma, respondeo com
muy grande merencorîa estas palavras: assaz trabalhou meu genro Marco
Agrippa para que naõ houvesseis sede em vos trazer tantas agoas de
fóra. Sohia dizer ElRey Cyro a seu Exercito, que se costumassem a beber
agoa, e de Pescenio Nigro Capitaõ dos Romaõs se lè, que andando no
Egypto com Exercito, e pedindo-lhe os Soldados vinho, respondeo como
pode ser, que dezejeis vinho passando o Rio Nilo taõ perto de vòs?
Olhemos Portugal, e o que se agora nelle usa, e acharemos, que a
temperança dos homens nos trajos, e vestidos nasce toda do bom exemplo
de V. Alteza. Disse em cima do seu grande comedimento no modo de
vestir, agora sómente direy, que posto que Xenocrates tenha, que os
Reys para serem mais conhecidos devem d’ andar ricamente vestidos, com
tudo para isto ser assi, mais verdadeiro caminho parece ser o Rey em
tudo muy temperado, porque desta maneira sua bondade o fará ser mais
conhecido, que nenhuma mostra de fora, nem insignias do real Estado.
Esta virtude foy causa, que a Reepublica dos Spartanos durasse tanto
tempo, e crescesse tanto com as Leys de Licurgo, o qual mandou, que na
sua Cidade corresse moeda de couro, porque naõ vindo mercadorias de
fóra, que as mais vezes fazem a gente afeminada, os bons costumes della
se podessem melhor conservar.
Esta foy a causa, que o Estado de Persia fosse tanto àvante em tempo
delRey Cyro, que de nenhuma cousa mais se presava, que de muita
temperança, e humanidade, e os Romãos, como já disse, em quanto tiveraõ
isto, cresceraõ, e cousa sabida he, que Cayo Fabricio Censor lançou
fora do Senado a Publio Cornelio Rufo da linhagem dos Patricios, porque
em hum convite, que deu, poz em huma sua bayxella somente quinze marcos
de prata lavrada. Tem Aristoteles, que os Reynos para durarem muito haõ
de ser temperados, e allega com os Lacedemonios, e com os Molossos,
e para isto ser assi, diz que cumpre muito ao Rey ser temperado. Naõ
busquemos prova disto longe, que neste Reyno a temos, o qual de seu
principio atè estes tempos foy àvante, naõ menos por esta virtude, que
polas outras: mas tanto agora nos he mais necessaria, quanto a riqueza,
e mercadorias, que vem da India, saõ de mais força para fazerem mà
impressaõ em nossos costumes. Estes inconvenientes tira vosso Alteza,
e com o virtuoso exemplo, que de sua pessoa, e vida nos dà, faz guerra
continua aos appetitos alheyos, o qual podendo andar cuberto de joyas,
e perolas, tem mais respeito aos bons costumes de seus Vassallos,
que naõ à qualidade, e grandeza de sua Real pessoa. A esta tamanha
temperança responde a Rainha Nossa Senhora, vivo exemplo de toda a
bondade, antre a qual, e V. Alteza se vè sempre andar hum famoso, e
notavel competimento, de qual delles serà mais virtuoso. Escreve-se da
Emperatriz Pompeya Plotina, mulher do Emperador Trajano, que foy taõ
virtuosa, que acrescentou a gloria do mesmo Trajano, à qual com muita
razaõ pòde ser comparada a Rainha N. Senhora, cuja virtude, e em todas
as partes de sua vida perfeita temperança levantaõ mais a gloria, e
alto merecimento de V. Alteza.