em Roma apartou os Estrangeiros em quatro Tribos, ou Freguesias sobre
si, mas a gloria de salvar Italia das maõs d’Anibal foy tamanha, que
naõ sey para que buscamos outra causa, nem outro nascimento a taõ
honrado titulo, e eu para mim quero viver neste engano; devem isso
mesmo os que aconselhaõ saber muitas cousas, e senaõ forem Letrados, ao
menos sejaõ taõ prudentes, que escuzem as letras, e porque o principal
fundamento de todos os Estados està em boas leys, e boas armas, naõ
menos devem de entender as cousas da guerra, que da paz. Preceito he
de Xenocrates, que o Rey se deve aconselhar com homens Letrados, e
universaes, e com Poetas, e com Filosofos, mas eu assi como naõ tomo
todo o perigo desta tençaõ sobre mim, assi ousaria affirmar, que o bom
Conselheyro deve ter noticia de muitos estudos, das Ordenaçoens, da
Patria, do Direito commum, finalmente dos verdadeiros Officios de toda
a virtude, e quem estas partes todas tiver, poderà bem aconselhar seu
Principe.
Acho eu, que duas maneiras ha ahi do governo, porque ou o Principe quer
conservar o que tem, ou quer conquistar os caminhos para conquistar saõ
estes: aos vencidos naõ dar muita opressaõ, mandar que os vassallos, e
naturaes vaõ morar nas terras ganhadas, as quaes povoaçoens os Romaõs
chamavaõ Colonias, dos despojos fazer thesouro: afadigar ao inimigo com
cavalgadas, entradas, e batalhas campaes, e naõ concertos: ter rico o
pubrico, e pobre: a os vencidos dar aos Capitaens inteiro poder como
faziaõ os Romaõs, naõ reservando para si mais que o mover nova guerra,
e assi manter com muita diligencia os Exercitos, e gente d’armas:
as regras para conservar saõ enfrear cobiças, e desejos demasiados,
e governar as Cidades com boas leys, e bons costumes. Mas quer o
Principe queira conquistar, quer se contente com conservar o ganhado,
sempre tem muita necessidade de fieis, e prudentes Conselheiros,
fieis seraõ quando fallarem verdade, e como diz o nosso Proverbio
antigo (mais valem açoutes do amigo, que beijos doces do inimigo)
e prudentes, quando tiverem experiencia, ou letras. Costume he da
Reepublica Veneziana, que havendo muitos officios nobres em cada
officio da Justiça, e durando ordinariamente os officios, nunca sahem
todos juntos, nem entraõ todos juntos; mas se saõ dez Officiaes de
hum càrrego, quando o primeiro delles acaba, ainda os nove, que naõ
tem acabado, ficaõ, e quando o segundo acaba, ainda ficaõ os oito, e
em lugar dos que acabaõ, se elegem outros de novo. Ordenaraõ isto os
Venezeanos, porque haja sempre Officiaes, que ensinem aos que entraõ,
porque se começassem todos juntos, naõ poderia ser, e para que vejamos
quam necessario he o bom conselho a todos os Principes, olhemos quantos
males, e quantas deshonras, vem aos Reys, e Senhores, que se regem por
sua cabeça.
Do Emperador Octaviano se escreve que naõ podendo sofrer a pouca
vergonha, e deshonesto viver de sua filha Julia, vencido de muita
ira, contou publicamente todas suas deshonestidades, que della
sabia ao povo, em que foy digno de muita reprehensaõ, que posto
que (segundo delle escrevem) queria mais ver morte aos seus, que
deshonra, com tudo as culpas de sua filha mais eraõ para elle as
callar, e castigar secretamente, que naõ para as dizer ao povo: mas
depois que a merencorîa se lhe foy, e em lugar da sobeja colera
succedeo o conhecimento da verdade, doendose Augusto de sua infamia, e
queixando-se de si mesmo, dizem, que disse em voz alta com grande dor
de sua alma estas palavras: naõ me acontecèra a mim isto, se Agrippa,
e Mecenate meus Conselheiros foraõ vivos; estes foraõ dous grandes
seus privados ambos pessoas de muito preço, e de muita virtude, que o
Emperador desde sua mocidade tomàra por amigos, e achando-os dignos
de sua amizade os amàra constantemente; porque Augusto antre outras
virtudes teve esta, que assi como era mào de tomar amigos, e amizades
novas, assi as que huma vez tomava, nunca mais soltava atè morte, e
se o Emperador Augusto, sendo tal Principe, por se naõ aconselhar,
cahio em tamanha culpa, em tanto mòres erros se deve crer, que cahiraõ
os Principes, que naõ saõ iguaes a Octaviano, se se quizerem sómente
reger por seu Conselho. Mas tornando a meu proposito, V. Alteza faz
tudo o que se espera de hum virtuoso Principe, e assi como Nosso
Senhor o dotou de muy alto, e experto juizo, e vivo entendimento, assi
os do seu Conselho saõ merecedores de tamanha honra como he confiar
delles o pezo dos negocios, q́ tocaõ a seu Ceptro Real, nos quaes
elle he taõ occupado, que posto que a idade o convida a folgar, e a
tomar algum descanço, e recreaçaõ do trabalho; com tudo o amor, que
tem à sua Reepublica he de mais força, e pode mais que nenhum seu
particular contentamento. Louvado he o exercicio da caça, e monte aos
Principes, e grandes Senhores, o qual, como diz Xenofonte, ha de ser
temperado, e antigamente os filhos dos Reys se criavaõ nos bosques
e caças, e tinhaõ quem lhes ensinava muitas cousas necessarias para
guerra: tambem o sitio, e disposiçaõ dos lugares se sabe pola mòr
parte, porque havendo nas terras todas alguma conformidade facilmente
polo conhecimento de humas, se vem a saber as outras; mas posto que
este exercicio seja louvado, e V. Alteza use dalle temperadamente, e a
seus tempos, com tudo muito mòr louvor sem nenhuma comparaçaõ merece o
seu continuado exercicio, e trabalho de governar bem, e ter em muita
paz, e justiça seu Reyno, levando elle sóo mà vida, com que nòs todos
vivamos descançados. A todos he notorio quanto amor às Letras, quanto
favor, quanto amparo, quanta mercè recebem delle os Letrados de toda a
sciencia: este amor he causa de sua Corte florecer hoje tanto em Letras
como florece, este mesmo o faz cuidar novas maneiras, e novas invençoes
d’Estudos geraes, por onde as sciencias em seu Reyno naõ menos cresçaõ,
e vaõ adiante, que as outras virtudes. Verdadeiramente as Letras dizem
bem com as armas. Bem sey, que saõ muitos d’outra opiniaõ, mas a causa
disto (se me não engano) he por naõ confessarem seu defeito, louvando
a virtude de que carecem. Mal hiria ao Capitaõ senaõ fosse prudente, e
mal à Reepublica que naõ houvesse armas sem conselho, e authoridade de
Letras; mas fique esta questaõ para outro tempo, agora sómente direy,
que os mais dos Emperadores, e Reys, e Capitaens de grande fama foraõ
Letrados.
Costume era no Egypto (como escreve Plataõ) dos Filosofos se elegerem
os Sacerdotes, e dos Sacerdotes os Reys. Destes foy aquelle graõ Rey
Mercurio chamado Trimigistro, que quer dizer tres vezes grande, por
quanto em Filosofia excedeo a todos os Filosofos, na Religiaõ a todos
os Sacerdotes, e em saber governar, seu Reyno a todolos Reys, e do
mesmo se escreve, que começou a Theologia antiga, que depois acabou
Plataõ. Quem bem esta ordem de eleiçaõ atentar, verà quam bom Regimento
era o do Egypto, e quam bem està ao Principe ter conhecimento das
cousas Divinas, e humanas. De Pericles Atheniense se lè, que foy
grande Capitaõ, grande orador, e grande Filosofo, e Discipulo muito
tempo do Filosofo Anaxagoras. Epaminondas Thebano foy graõ Capitaõ, e
graõ Filosofo. ElRey Philipe de Macedonia, filho delRey Amintas, e Pay
de Alexandre Magno, foy Letrado, e Discipulo de Epaminondas. O mesmo
Alexandre foy Filosofo, e muy dado às Letras, e antre tantos trabalhos,
e occupaçoens de conquistar o mundo, cada dia tomava algum tempo para
ler, e delle se escreve, que nunca se lançou na cama, sem hum punhal,
e o livro de Poeta Homero à cabeceira. Isicrates Atheniense foy graõ
Capitaõ, e orador.
Que direy de Julio Cesar, Sylla, Pompeo, Octaviano, Adriano, e dos
outros Emperadores Romaõs, que naõ menos em armas, que em Letras
floreceraõ? Finalmente Carlos Magno Emperador d’ Alemanha foy Letrado,
e compoz algumas obras, por isso quem ousar de reprehender algum
Principe por ser dado às Letras, he-lhe necessario, que reprehenda
tambem a estes todos, os quaes sendo nellas naõ menos excellentes, que
nas armas, veja com quanta sua honra a seu salvo o poderà fazer? Se naõ
fossem as Letras, e o conselho, que dellas aos Principe nasce por onde
se governaõ, sem duvida muita tormenta naõ poucas vezes passariaõ as
Reespublicas.
Por tanto o bom Rey he comparado ao bom Piloto, o qual naõ somente na
parte da Nào em que està faz proveito, mas com seu conselho, e saber
em hum mesmo tempo provè, e manda o que se faça em toda a Nào, e dizia
Cataõ Uticense, que naõ fizeraõ os Romaõs a sua Reepublica de pequena
tamanha com força d’armas, mas com uzarem em casa de muito saber, e
governarem fóra perfeitamente, e com serem livres em dar conselho,
e asaltados de toda a reprehensaõ, donde cuido eu, que nasceo o
Proverbio, que por elles se disse, o Romaõ estando assentado vence.
Bem està a todos os Principes serem grandes, e prudentes, e amadores
das Letras, mas muito melhor està isto aos Reys de Portugal, e a razão
he, porque a naçaõ Portuguez hoje mais, que nenhuma (se me naõ engano)
conserva a gravidade, e desejo de honra, que antigamente sohia ter
o Povo Romaõ. O Emperador Cesar Augusto, quando lia por algum livro
latino, ou Grego, achando algum exemplo, ou preceito, que pudesse
aproveitar ao Regimento da Reepublica o fazia logo tirar, e o mandava,
ou a seus Criados, ou a seus Exercitos, ou Governadores das Provincias,
ou aos Officiaes de Roma, assi como via, que delle cada hum tinha
necessidade.
Deste, e taõ grande Principe se escreve ser homem de poucas palavras,
e que nunca fez falla ao Senado, ao Povo, nem o Exercito, que a não
levasse primeiro cuidado de casa: com taõ singular prudencia fez muitas
cousas, muy proveitosas, e necessarias a sua Reepublica: ordenou que
naõ houvesse mais de trezentos Senadores no Conselho de Roma, havendo
d’antes mais de mil: estando em Conselho nunca perguntou por ordem
seu parecer aos Senadores, mas ora a huns, ora a outros, porque cada
hum estivesse mais apercebido, e respondesse melhor quando fosse
perguntado; favoreceo muito os Lavradores, trabalhou que estivesse
Roma farta, ennobreceo-a de muitos edificios, teve grande cuidado da
segurança, e paz geral, e naõ menos cuidado dos Exercitos. Renovou, e
ornou os Templos, acrescentou o numero, e dignidade dos Sacerdotes,
emmendou todas as cousas de mào exemplo, ouvio partes, e elle per si
determinou muitas demandas, e proveo como naõ ardessem os edificios em
Roma. Teve sempre hum memorial em sua camera de todo o Imperio, ordenou
homens em pàradas, para ser mais cedo avizado do que se passava, e
estes depois tirou, e poz Cavallos em postas, porque os mesmos, a que
fossem dadas as cartas, lhas podessem trazer, e dessem razaõ do que
fossem perguntados. Escreve-se, que ElRey Cyro foy o primeiro, que
ordenou Correyos, de tal maneira, que hum mensageiro corresse todo
hum dia em hum só Cavallo, e o seguinte noutro, e assim atè o cabo;
e finalmente Octaviano todalas cousas fez prudentemente como cumpria
ao bem, e conservaçaõ da Reepublica Romãa, mostrando-se em tudo mais
virtuoso, que todos, e Pay verdadeiro de seus Cidadaõs, aos quaes teve
tanto amor, que duas vezes esteve determinado para soltar a Reepublica,
e restituir à Cidade a sua liberdade, e sempre o fizera, se lhe naõ
parecera mais perigoso ser jà governada por muitos, que hum sóo.
Os Principes, que querem ser justos, e prudentes, e pacificos devem
sempre imitar tal Emperador, nem sinto eu, que gloria se possa
comparar com a justiça, e paz de Octaviano: mas naõ menos santas, e
proveitosas invençoens a estes Reynos nascem cada dia da prudencia de
V. Alteza, com as quaes vivemos taõ descançados, como na mais segura
Reepublica do mundo: jà naõ hà morte, jà naõ hà ladroens, jà naõ hà
salteadores, todos os males com sua justiça, e prudencia saõ de tal
maneira apagados, que quando ouvimos, que foraõ, nos espantamos como
poderàõ ser. Ó grande bemaventurança destes tempos, pola comparaçaõ dos
bens presentes, naõ podemos dar credito aos males, que jà passaraõ!
Sem duvida estes bens se devem atribuir à grande virtude de V. Alteza,
o qual assi como tem sua consciencia muy limpa, e apartada de todo o
vicio, assi trabalha, que sua terra esteja limpa de todos os males;
estas virtudes taõ excellentes acompanha V. Alteza de grande fortaleza,
e magnanimidade: forte he quem defende a boa rasaõ, e igualdade, as
quaes nunca pòdem estar: forte he quem ama a virtude, naõ por interesse
algum deste Mundo, mas pola gloria do outro, que espera: forte he
quem sempre mostra hum mesmo rosto à fortuna, nem se espantando com
nada, nem se leyxando vencer d’algum appetito. Fortaleza he procurar
as cousas da paz, naõ menos que vencer batalhas campaes, por quanto
as ordenaçoens da paz aproveitaõ para sempre, os males da guerra saõ
muitos, e o bem da vitoria as mais vezes dura pouco. Magnanimo he quem
resiste à ira, e menencoria, e quem soffre temperadamente a prospera,
e adversaria fortuna, nem se alterando com as prosperidades, nem se
abayxando com as adversidades.
Finalmente a magnanimidade està no cume de todas as virtudes, a todas
dà muita perfeiçaõ. Quem bem quizer olhar todo o tempo do Reynado de
V. Alteza, acharà que todalas partes desta virtude se pòdem nelle
verificar. O zelo de toda a virtude, a boa razaõ, e a igualdade tem
nelle taõ forte, e constante defensor, que o que em outras partes se
faz com medo da pena, se faz neste Reyno seguindo seu virtuoso exemplo.
Quem naõ sabe quam forte foy no principio de seu reynado, vendo logo
cousas em que bem mostrou quam acabado em tudo era, e ao diante havia
de ser, as quaes eu cuido que Deos permitio, que vissem estes Reynos
por experiencia quamanha merce delle receberaõ em se lhes dar tal
Principe, e que de taõ pouca idade, e sendo taõ novo em tamanho
officio, assi resistio a muitas cousas, a que outros pola ventura de
mais tempo naõ puderaõ resistir, rasaõ era que delle se esperassem
todos os bens, naõ nos enganou esta esperança: passa de doze annos
que V. Alteza reyna, nos quaes sendo sempre taõ excellente Rey, nunca
cançou, nem cança d’o ser cada dia melhor: notorio he ao Mundo com
quanto respeito, com quanta igualdade, se ouve com a Rainha de França
Dona Leonor usando com ella toda a virtude, e magnificencia, que hum
Rey Christianissimo, e magnanimo podia usar.
Naõ sómente como dizem os Filosofos o que peleja, he bom Cavalleyro;
mas tambem merece este nome, quem no tempo da paz pode levar ao cabo as
cousas fundadas em bom conselho, e rasaõ, nem foy menos forte Salamaõ
no tempo da paz, do que foy seu Pay David no tempo da guerra: venceo
o Gigante Philistheo d’altura de seis covados, venceo outras muitas
Naçoens poderosas, e apartadas do Reyno de Judea, Salamaõ estando em
paz com naõ menos fortaleza, fundou em louvor de Deos aquelle Templo
taõ nomeado de Hyerusalem, manteve os doze Tribus em muita justiça,
enriqueceo seu Reyno, e vassallos sem nenhuma comparaçaõ: edificou
Cidades em muitas partes, e muy longe de Judèa: foy Senhor pacifico
da Arabia, e mòr parte da Suria: estendeo sua fama pola Asia, Persia,
Etiophia: mandou fazer no Mar Roxo nàos em hum porto, que entaõ se
chamava Asion Gaber perto da Cidade de Helena, que depois foy chamada
Beronica, e pòde ser que seja agora porto Judà, porque toda esta
terra, e costa foy naquelle tempo dos Judeos, e estas Nàos sendo
mandadas por ElRey Salamaõ à India, e governadas por Marinheiros,
e Pilotos da Cidade de Tyro, que entaõ eraõ grandes homens do mar,
chegaraõ a hum lugar chamado Ophira, que depois se chamou Terra d’ouro,
donde trouxeraõ a ElRey mil e cem arrobas pouco mais, ou menos, e
muita madeira de Pinho alvo, de que Salamaõ mandou fazer Violas, e
Psalterios, com que os Levitas tangessem a Deos no Templo.
Quem comparar ambos estes Reys Pay, e Filho, acharà que naõ menos forte
foy Salamaõ na paz, do que foy David na guerra. Bem sabia David, sendo
Profeta, e taõ aceito a Deos, que seu filho Salamaõ havia de reynar
pacificamente, e com esta certeza lhe mandou edificar o Templo. Com
tudo estando jà para dar a alma a Deos, nenhuma cousa lhe encomendou
mais que fortaleza, porque via que tambem os Reys na paz tinhaõ della
muita necessidade: mas V. Alteza igualmente se serve da Fortaleza
em ambos os tempos: a guerra feita por seus Capitaens contra os
Mouros d’Africa, contra a India, contra a Persia, contra a Arabia daõ
claro testemunho do que digo: nas mòres fortunas mostra mòr animo.
Constantemente leva àvante por mar, e por terra o que huma vez começou,
nem me espantaõ grossas armadas de Rumes, nem Reys da India, porque
a graõ fortaleza, acompanhada de muita fé, não pòde ser desbaratada,
pouco aproveita começar huma, a quem a naõ hade levar àvante, e muito
mòr infamia lhe fica leyxando-a, do que mereceo louvor em a começar, e
tal foy o Emperador Tiberio, o qual sendo graõ Capitaõ em principio,
depois que veyo a reynar, faltou no melhor tempo, e por sua fraqueza,
ou descuido leyxou perder muitas terras do Imperio Romaõ. Deve-se
fugir a guerra quanto for possivel, mas depois que justamente for
cometida, mais aproveita a huma Reepublica levalla àvante com perigo,
que desistir della com vergonha, e por isso se escreve, que sabendo os
Lacedemonios, que o Poeta Archiloco dissera que era melhor renderse, e
leyxar as armas, que morrer, que logo no mesmo ponto o lançaraõ fóra da
sua Cidade.
Essa fortaleza mostrou Alexandre Magno na Conquista da Persia, porque
sendo cometido por ElRey Dario com grandes promessas a que soltasse
a empreza, que levava, e parecendo isto bem a alguns seus privados,
não quiz Alexandre por nenhum interesse soltar a guerra, que somente
por dezejo de gloria começàra, assi que levou àvante sua tenção, nem
descançou athè por força lhe naõ tomar todo o Estado, e senaõ fazer
Senhor da mòr parte da India, e de toda a Asia, e se a morte o naõ
estorvara, opiniaõ he de muitos, que se fizera Senhor do Mundo; mas
a ventura contraria (pola mòr parte) dos grandes começos, e grandes
pensamentos, ordenou que aquelle Principe que jà em seu titulo se
chamava Rey do Mundo, a que nenhum Exercito pudera resistir, que
nenhuma Cidade cercàra, que naõ tomasse, que em nenhum Reyno entràra,
que naõ sojugasse, que tanto esforço dava aos seus, que em sua
prezença, e dezarmado, naõ temia nenhuma gente armada aquelle, a quem
o mar de Pamphilia (segundo escreve Jozepho) milagrosamente se abrira
como a Moysès o mar Roxo, a quem em sonhos por revelaçaõ Divina foraõ
ensinados remedios para curar feridas, que tantas Cidades edificàra,
que acabàra cousas, que Hercules naõ pudera acabar, quiz (como disse)
a ventura que este tamanho Rey, e Capitaõ depois de tantas vitorias,
tantos titulos, tantos triumfos, fosse na flor de sua idade morto com
peçonha por traiçaõ dos seus, e a causa desta morte foy por se fazer
adorar à maneira dos Reys da Persia, contra vontade de seus naturaes.
Escreve-se delle, que athè o fim se alembrou da grande fortaleza, que
em toda a sua vida mostràra, porque estando jà para espirar, e sendo
lhe perguntado por seus privados, e amigos, que de redor delle estavaõ,
quem queria leyxar por seu erdeiro, respondeo, que o mais digno, e
esta foy a sua derradeira palavra. Foy tanta a sua grandeza, que tendo
hum filho chamado Hercules, que fora avido em Marsine sua escrava,
e hum seu Irmaõ por nome Arido, e assi leyxando prenhe a sua mulher
chamada Roxane, todavia esquecido do sangue, e das razoens de todo o
parentesco, quiz sómente nomear por seu erdeiro o que fosse mais digno,
mas depois de morto Alexandre, aquelle grande Imperio, que em taõ breve
tempo fora ganhado, em breve tempo foy desbaratado, e desfeito, porque
succedendo no Reyno Arideo, Irmaõ de Alexandre homem fraco, e para
pouco, os Capitaens, a que fora cometida a governança das Provincias,
se alevantaraõ cada hum com a sua, ao que sómente resistio a Rainha
Euridice mulher de Arideo: esta naõ podendo sofrer a fraqueza de Arideo
seu marido, e sendo muy constante, e valerosa com ajuda de Cassandro
seu Capitaõ fez muitas cousas de esforço, cobrou muitas Cidades de
Grecia, constrangeo os Lacedemonios que cercassem novamente a sua
Cidade, cousa, que athè entaõ nunca fizeraõ; mas porque huma mulher naõ
podia resistir a tantos males, que se levantavaõ de cada parte, em fim
foy necessario que perdesse tamanho Imperio. Tambem aquelles vitoriosos
Soldados, chamados Argiras, e Pidas, que quer dizer escudos de prata,
com que Alexandre conquistàra o Mundo, tanto que o perderaõ, perderaõ
logo toda sua força, e sendo pouco antes espanto de todas as gentes,
foraõ por Antigono deshonradamente desbaratados, e postos em cativeyro,
donde se pòde ver quamanha verdade he o que sohia dizer ElRey Philipe
de Macedonia, que era melhor, e mais forte hum Exercito de cervos com
hum Leaõ por Capitaõ, que hum de Leoens tendo por Capitaõ hum Cervo.
E foy tanta a fama, que leyxou Alexandre de sua fortaleza, que ainda
agora depois de tantos tempos, e idades he nomeado em todo o mundo.
Escreve-se do Emperador Cesar Augusto, que achando-se em Alexandria,
Cidade do Egypto, e dezejando ver o corpo de Alexandre, que nella jazia
sepultado; foy à sepultura, e a mandou abrir, e vendo o corpo o adorou,
lançando-lhe em cima muitas flores, e pondo-lhe na cabeça huma Coroa
de ouro, que era a mòr honra, que então a hum corpo morto se podia
fazer, e sendo perguntado se queria tambem ver o Corpo delRey Ptolomeo,
respondeo, que elle viera alli para ver o Rey, e naõ para ver os mortos.
Havia em Roma huma nobre linhagem dos Macrianos, os quaes tinhaõ por
devoçaõ, e bençaõ de seus Avòs trazerem sempre a imagem de Alexandre
consigo, e os homens a traziaõ de ouro, ou prata, as mulheres
sómente d’ ouro na cabeça, ou em manilhas nos braços direitos, e
em aneis, e tinhaõ antigamente como escreve Julio Capitolino, que
quem consigo trouxesse a Imagem de Alexandre em ouro, ou em prata,
que todas suas cousas succederiaõ bem, e hiriaõ àvante. Esta honra
mereceraõ os feitos, e fortaleza de Alexandre, o qual naõ sómente
teve respeito ao tempo da vida, mas como muy prudente Principe
trabalhou por haver Chronistas excellentes, que pudessem (como era
razaõ) encomendar à memoria seus grandes aquecimentos. Desta opiniaõ
era Themistocles Atheniense, que sendo perguntado qual era a voz,
que mais folgara de ouvir, respondeo: que aquella de quem visse suas
cousas mais eloquentemente serem tratadas. Foy Alexandre magnanimo nas
adversidades, e de tal maneira cõmetteo a guerra, que naõ pareceo,
que dezejava a paz: foy magnifico, e desprezador das riquezas sabendo
certo, que querer bem ao dinheiro naõ havia mòr sinal de coraçaõ
fraco, nem polo contrario cousa mais real, nem mais digna de hum graõ
Principe, que desprezalo, quando o naõ tivesse, e quando o tivesse
despendelo magnifica, e liberalmente. Em fim teve Alexandre as mais
das partes, que deve ter hum Capitaõ forte, e magnanino com que naõ
somente foy aceito aos homens, mas ainda obrou Deos por elle cousas
de grande admiraçaõ. Se a virtude da fortaleza naõ fora aceita a Deos,
naõ edificara ElRey Salamaõ no Templo o Armazem das armas junto à Sede
Real, em que eraõ levantados os Reys depois de serem ungidos pelo
Principe dos Sacerdotes.
O Principe, que quer ser forte, ha de guardar inteiramente sua fé, e
porque isto naõ teve ElRey Philipe de Macedonia, antes usou de enganos,
e falsidades, poz muy grande nodoa em muitas partes da fortaleza, que
nelle havia: deve tambem ser lido, e folgar de ouvir as historias,
e vidas dos grandes homens, olhando como se governaraõ na guerra,
examinando as causas da victoria, e perda das batalhas, e seguindo o
exemplo de algum notavel Capitaõ. O mesmo Alexandre seguio Achiles,
Julio Cesar seguio Alexandre, e assi Scipiaõ Africano seguio tanto a
ElRey Cyro, que quem bem ler a historia, que Xenofonte escreve delle,
acharà, que todas as virtudes, e liberalidade, e humanidade delRey Cyro
foraõ representadas por Scipiaõ de maneira, que bem se poderia dizer,
que ou Cyro foy Scipiaõ, ou Scipiaõ foy Cyro. Dizia este Rey, que o
Principe no tempo da paz devia ter cuidado das cousas da guerra, e
porque isto fez (naõ muitos tempos hà) Francisco Sforcia foy em quanto
viveo Duque de Milaõ, e os filhos polo contrario naõ tendo nenhuma
lembrança da guerra vieraõ a perder aquelle Estado, que seu Pay lhes
leyxara a elles muy pacifico. Por muy desaventurado se deve ter o
Principe a que nunca aconteceo dezaventura, na qual alem de se provarem
os homens para quanto saõ, a experiencia dos trabalhos os faz mais
prudentes, e avizados, e sempre ter passado algum mal aproveitou muito
para a conservaçaõ do bem presente. De Policrates poderoso tiranno da
Ilha de Samno se lè, que sendo em tudo muy prospero, e bemaventurado,
veyo no cabo a ser prezo por Orontes Capitaõ delRey Dario, e a ser
enforcado no mais alto outeiro da montanha de Micale sobre o mar: em a
fim soube Policrates quanta verdade lhe fallava Amases Rey do Egypto
grande seu amigo, porque vendo, que se prezava muito de sua boa fortuna
lhe escrevera por algumas vezes, que se guardasse do fim.