Differentes cousas saõ antre si, como diz Plinio, Senhor, e Principe,

nem ha Principe que mais contente ao povo, que o que menos se lembra

que he Senhor. Antigamente este nome de Senhor era odioso, e offendia

muito, e polo contrario o nome de Principe era aceito. Por onde

Alexandre Emperador Romaõ defendeo que o naõ chamassem Senhor, e como

diz Seneca, os antigos querendo abrandar dos nomes asperos, que eraõ

escravo, e Senhor, chamavaõ Pay de Familia ao Senhor, e ao escravo

chamavaõ familiar. Escreve-se de Octaviano, que mandava ter as portas

abertas, a quem o quizesse vizitar, e recebia com tanta humanidade,

e taõ boa acolhença os homens, que chegando hum dia a elle hum Romaõ

pouco desenvolto, e dando-lhe huma petição com muito pejo, o Emperador

lhe disse rindo-se que parecia homem, que dava ceitil a Elefante. Antre

os principaes louvores de Trajano era hum que todos podiaõ entrar

onde esse estava, e louva Pacato em hum seu Panegyrico ao Emperador

Theodosio de muy brando, e humano para todos. Com a mesma humanidade

sohia Cesar Augusto hir vizitar, e consolar a muitos em pessoa, sabendo

bem a consolaçaõ do Principe ser de muita força, e virtude para

abrandar os coraçoens dos homens.

Que direy da bondade de V. Alteza, que naõ sómente em seu reynado,

mas em todo o tempo de sua vida nos mostrou, naõ fallo agora d’quella

bondade, que he nome geral, e vem a ser huma mesma com a virtude, mas

da outra particular bondade, q́ tambem se chama santa inclinaçaõ, ou

zelo virtuoso, e desta V.A. tem tãta parte, que a execuçaõ della tem

convertido em sua propria natureza? Xenocrates excellente Filosofo da

Seita dos Stoicos, que segundo diz Tulio melhor fallaraõ das virtudes,

que todos os outros, sendo perguntado que podiaõ delle seus Discipulos

aprender? Respondeo: fazerem por sua vontade o que os outros fizessem

com medo das leys, e Xenocrates cuidava, que naõ podia alcançar

perfeita virtude sem muita doutrina. Quanto mais de louvar he, quem

de seu natural, e sem nenhum mestre, nem preceitos de Filosofia póde

alcançar per si o que poucos sabedores, ajudados de tantos mestres em

muito tempo, e com grande trabalho se poderaõ alcançar?

Esta tamanha ventagem nasce (se me eu naõ engano) da bondade que digo,

e venturosa inclinaçaõ das pessoas, a qual se em todo o homem he

louvada, quanto mais no Principe o deve ser? Com muita cauza he nomeada

a bondade do Emperador Trajano, que foy tanta, que ficou em proverbio,

taõ bom como Trajano, e acho eu, que sendo elle hum dia publicamente

louvado no Senado, e sofrendo mal por sua temperança tal maneira de

louvor, hum Senador lhe disse em voz alta: Emperador Trajano lembrate

do que fazes, e veràs o que dizem de ti; escreve-se delle, que naõ quiz

nunca ser Censor, sendo este hum dos principaes Officios de Roma, e de

mais authoridade, que os maes de seus ancessores o quizeraõ ser, e com

elle se castigavaõ os màos costumes dos nobres, e da outra gente. Mas

Trajano, vendo que o exemplo de sua vida aproveitava mais ao povo, que

nenhum Càrrego de Censor, ouve por escusado querello aceitar, e porisso

se disse, que a vida honesta do Principe he censura; a esta olhaõ os

vassallos, a esta seguem, nem tem tanta necessidade de Officiaes que

os castiguem, quanta do bom exemplo de quem os manda. Mestre aspero,

e pouco fiel da gente he o arreceyo das leys, melhor aprendem os

vassallos dos bons costumes, e virtuosa atençaõ de seu Principe, o qual

antre outros bens tem este, que confirma com seu exemplo poder-se fazer

o que mandaõ as leys que se faça: e naõ a outro fim os antigos Romaõs

sohiaõ a pòr nas sallas, e cazas dianteiras as imagens, e estatuas de

seus Avòs, que em alguma virtude, ou parte da vida foraõ dignos de

memoria, porque com isto sendo elles mais lembrados, trabalhassem por

seguir, e reprezentar o que os taes fizeraõ. O Rey vicioso todas as

boas partes lança do Reyno naõ menos com lhes querer mal, que com poder

muito, e com seus vassallos naõ ousarem a hir-lhe à maõ.

V. Alteza todas as virtudes tem abarcadas consigo nos seus olhos, nas

suas orelhas, no seu coraçaõ as traz sempre, uzando do que ellas

mandaõ, e tanto as ama, tanto quanto se prezaõ delle. Jà vemos por

experiencia a principal defençaõ do Reyno pender da bondade, e santa

inclinaçaõ do Principe. Jà vemos por de mais ser cercado de armas, o

Rey que naõ he cercado de amor de seus vassallos; mas porque as merces

quando saõ feitas aos bons acrescentaõ a virtude, e polo contrario se

saõ feitas aos màos a maldade cresce, e a virtude perde sua força,

elle nesta parte uza daquelle estremado juizo, e discriçaõ, que delle

se espera, naõ se apartando nunca da temperança, e afastando-se dos

extremos. DelRey D. Sancho de Portugal, chamado Capelo, se escreve,

que por ser muito bom, e piedozo, foy mào a este Reyno, e se perdia

em seu tempo a justiça, nem cuido eu que Alaxandre Magno fosse movido

de verdadeira bondade, quando fez a hum Ortelaõ Rey de Sidonia. Por

certo melhor exemplo poderiamos tomar da vida de Antonino Emperador

de Roma, que foy chamado piedozo, o qual com a fama da sua virtuosa

inclinaçaõ, e perfeita vida governou tamanho Imperio pacificamente

vinte, e tres annos, por isto todos os Reys, Povos, e Naçoens o temiaõ,

e amavaõ mais como o Pay, e defensor, que como a Senhor, e Emperador:

a elle sendo vivo se encomendavaõ como a Deos, a elle tomavaõ por Juiz

em todas as suas diferenças: os Reys da India, os Reys da Persia,

e de todo o Oriente, ouvindo sua fama o mandavaõ vizitar por seus

Embayxadores com ricos prezentes, naõ por medo, ou necessidade, que

delle tivessem, sómente polo gosto, que levavaõ de ter amizade com taõ

virtuoso Principe. Naõ errarão os que em Castella, e Portugal fizeraõ

historias de Cavalleiros d’aventura em os fazerem zelozos, e inclinados

à virtude, tirando as semrazoens da terra, defendendo, e amparando as

Viuvas, e Donzellas, o que tambem segundo muitos escrevem, fizeraõ

Theseo, e Hercules, e outros muitos, que floresceraõ nos tempos, a que

os Gregos chamaraõ heroicos. Mas antes que deste lugar me parta, naõ

leyxarey de trazer à memoria o Cid Ruy Dias, cuja bondade, e cavallaria

foy tanta, que mereceo, que o graõ Soldaõ do Egypto o mandasse vizitar

com ricos presentes, e que suas filhas, que os Infantes de Carriaõ

primeiro engeitaraõ, viessem depois a ser cazadas com os Reys de

Aragaõ, e de Navarra.

Se tão louvado foy hum bom Cavalleiro, quanto mais o deve ser hum

bom Principe, e se hum mào Principe sem embargo de ser tal, toda via

pola dignidade real he muy acatado, que veneração, que honra, que

gloria merecem todalas partes da justiça, cuja parte he esta virtude

de que trato? Escreve-se dos Romaõs, que sendo grandes contrarios, e

inimigos do nome real, com tudo acatavaõ muito aos Reys, e se algum

Rey era prezo em guerra, ou batalha, lhe naõ davaõ morte, mas depois

de triumfarem delle o tinhaõ prezo, avendo por grande mal pòr a maõ em

pessoa de tanta authoridade; por isso trabalhe todo o bom Principe,

pois o seu officio he de tamanho pezo, de tanto mais ser limpo, e

apartado de todo o vicio, quanto as virtudes, e culpas se vem nelle

mais claro: peor està huma nodoa em huma Oppa de brocado, que em hum

vestido mais baixo, e peor a hum grande Senhor, que a hum homem do povo.

Tem alguns que as Reespublicas, e Cidades se devem fundar em lugares

esteriles, porque todos trabalhem, e fujaõ a ociosidade; outros tem

que he melhor edificarem-se nos lugares fertiles, e abastados, e

dizem que nestes pòde haver leys com que se atalhe o muito folgar,

exercitando-se a gente nas cousas que cumpre a guerra, como fizeraõ os

Mamelucos no tempo que havia graõ Soldaõ, os quaes povoando terra taõ

viciosa, e farta, com tudo naõ leixaraõ nunca ser avidos por valentes

homens, e com isto puderaõ sustentar o estado do Egypto por espaço de

quatrocentos annos.

Mas leixando esta questaõ para outro tempo como agora naõ muito

necessaria, eu para mim tenho que nenhuma cousa pòde fazer

bemaventurada huma Reepublica, senaõ o bom Principe, o qual entaõ

pòde, e merece ser chamado bom, quando for justo, e porque como

diz Aristoteles, a vida do que bem obra ella por si lhe dà inteiro

contentamento, nem he bom o que naõ leva gosto de bem obrar, sem duvida

leixando à parte a gloria deste Mundo, tanto mais contente deve viver

o bom Principe obrando bem, quanto mais, e mòres cousas obra que os

outros. Isto, e isto dezejaõ as leys, que os vassallos, e Cidadoens

antre si sejaõ conservados, e vivaõ sem nenhum perigo, huns como os

outros, e os que o contrario fizerem, que sejaõ punidos com morte, e

desterro, prizaõ, e perda de sua fazenda, isto muito mais requere a

mesma razaõ da natureza, que he huma ley Divina, e humana, e quem

lhe obedecer (o que todos devem fazer) nunca dezejarà o alheyo, nem

quererà ver a outrem, o que naõ queria ver a si mesmo. Em fim isto

dezeja aquella justiça Senhora, e Rainha de todas as virtudes, que o

proveito seja universal, o qual naõ se pode chamar proveito, quando naõ

for justo; por isso se os Filosofos antigos vendo, que naturalmente

os homens nasceraõ para obrar bem tinhaõ esta opiniaõ quanto mais a

devemos nòs ter, que fomos alumiados da verdadeira Fè de Christo?

O Principe, que estas partes tiver, eu naõ sey como naõ vivirà muy

contente. Muy contente vivia o Emperador Antonino, quando disse, que

queria antes dar vida a hum Cidadaõ seu, que matar a mil de seus

contrarios. E contente era Licurgo quando ordenou as Leys da Republica

Spartana, o qual sem duvida mereceo mòr louvor em as ordenar, do que

Lizandro, e Pausanias Nobres Capitaens da mesma Cidade mereceraõ em

pellejar valentemente.

Havia entre os Gregos hum proverbio, que a saude era a melhor cousa,

e a justiça a mais fermosa, e alcançar o homem a cousa mais desejada

he de mòr contentamento, mas Aristoteles todas estas tres cousas dà à

bemaventurança do homem, que segundo elle affirma he obrar virtude em

todo o tempo da vida. Que mais fermosa cousa pode ser, que a justiça,

e partes della, as quaes todas luzem em V. Alteza como em hum claro

espelho, se naõ cuidamos, que ha hi outra fermosura senaõ a que parece

aos olhos bem, mas (se naõ me engano) mais fermosa he a virtude, que

com os olhos d’alma se contempla, polo qual bem disse Marco Tulio,

que se a virtude d’alma pudesse ser vista com os olhos de fóra, que

naõ haveria ninguem, que por ella se naõ perdesse, e se esta geral

fermosura das pessoas naõ tem mais credito, naõ he por defeito da

virtude, mas por falta do nosso entendimento, o qual andando cego,

e envolto na prizaõ deste corpo as mais vezes se engana, e assi os

olhos de fóra podem mais, e tem mòr jurisdiçaõ, que os d’alma. Chamava

Socrates à fermosura das mulheres tirannia de pouco tempo, e Theofrasto

engano dissimulado, e Plataõ privilegio da natureza, e Theocrito engano

de marfim, e Carneades Reyno solitario, todas estas diffiniçoens

quadraõ à fermosura do corpo, e porèm a da virtude dura para sempre, e

naõ hà nella engano, nem tirannia, nem dissimulação, mas quanto mais

velha se faz, tanto melhor parece, e tanto mais verdadeira, e amiga se

mostra do homem. Que melhor cousa pode no mundo haver, que justiça,

que fé, que liberalidade, que serem os màos castigados, e os bons

haverem galardaõ. E assi como o homem usando da virtude he nesta vida

bemaventurado, assi para ser mal aventurado abasta, que queira mal, e

que seja contrario à justiça.

Eu bem vejo, que naõ he piqueno trabalho vencer os apetitos; pola mòr

parte se soem de vencer, quam mal as grandes dores se podem dissimular.

Com tudo lembre-se o bom Principe, que nunca muito custou pouco,

e que a virtude de sua natureza he trabalhosa, da qual como dizia

Aristoteles, a raiz he amargosa, e o fruito he doce. O mesmo zombava

dos Athenienses, porque gabando-se, que foraõ os primeiros inventores

do Paõ, e das Leys, dizia Aristoteles, que do Paõ se sabiaõ aproveitar,

e das Leys se leyxavaõ esquecer, e por isso mal pode hum Principe fazer

justiça, se elle mesmo naõ for justo. E he tanta a força da virtude,

que atè Epicuro, que poz a bemaventurança na deleitaçaõ, leyxou dito,

que naõ podia ninguem viver contente naõ sendo justo. Mal me poderà a

mim ensinar quem naõ olha o que faz, e mal me poderà mostrar o caminho,

quem vay errado como eu. Naõ deve o Rey peccar com intençaõ de que

depois se emmendarà, que quanto mais tarda o remedio, tanto os vicios

criaõ mòr raiz, e saõ peores, e guarde-se naõ lhe aconteça, como soe

dacontecer a quem por algum dezastre cahe d’algum lugar d’alto, porque

vendo-se cahir, e querendo-se valer d’alguma cousa, ou pegar, que o

tenha, jà naõ pode resistir ao grande impeto da queda, que o leva.

Antre as virtudes, que saõ necessarias para naõ somente o Principe, mas

qualquer homem ser justo, sempre o primeiro lugar foy dado à prudencia:

esta consiste no conhecimento da verdade, e em naõ cuidar o homem, que

sabe o que naõ sabe, e o despender o tempo em cousas, que naõ relevaõ,

nem servem de nada. Grande perfeição dà esta virtude ao entendimento,

espertando a vontade ao bem obrar, e sem elle nenhuma das outras se

poderà soster.

Por isso opiniaõ he dos Filosofos, que quem tiver discriçaõ, que terà

todas as virtudes, mas porque a prudencia està partida em tres partes:

aconselhar bem, julgar bem, e mandar bem, tanto ellas em si seraõ

mais estimadas, e aceitas, quanto o proveito, que dellas nascer, for

mais universal, e por isso o Principe prudente de que pende o bem, e

descanço de todo o povo, he digno de mòr louvor, que os outros homens.

Diz o Poeta Hesiodo, que aquelle se pode chamar perfeito, que sem

ajuda de ninguem por si conhece a verdade, e logo a poz este, o que

sabe tomar o bom conselho, mas quem naõ alcança nada per si, nem quer

ser aconselhado d’outrem, que este tal naõ tem saber, nem aproveita a

si, nem a Reepublica. Em todalas partes da prudencia V. Alteza he taõ

perfeito, como nas outras, que já disse da justiça, nem poderia ser tão

justo, senaõ fosse taõ prudente. Notorio he a todos com quanto saber,

com quanta diligencia se aconselha em todalas cousas importantes a

seu Estado, e a o bem destes Reynos, como esquecido de todo folgar, e

passatempo, al naõ cuida, em al naõ trabalha, senaõ em buscar meyos

para conhecer o que he bom, e em saber qual he melhor, é depois de

sabido em o pòr por obra. Com tal aviso Themistocles Atheniense

conservou a liberdade de Grecia, e os Romãos poderaõ conquistar,

e governar tamanho Imperio, e muito bem diz o Poeta Homero, que o

Principe, que tem grandes negocios, naõ deve dormir toda a noite.

O Rey, como diz o Filosofo Xenocrates, que naõ menos reyna para ti,

que para os outros, o Rey que ha de ter seu povo livre de todo mal,

e descançado, cumpre-lhe, que naõ creya nenhum falso contentamento,

e de tal maneira vença seus appetitos, que os Vassallos obedecendo a

elle, obedeçaõ à virtude, e naõ he menos cousa real vencer-se o Rey

a si mesmo, que vencer batalhas campaes, e cumpre-lhe naõ dezejar,

nem buscar louvor daquellas cousas em que os màos homens podem ter

preço, por quanto o caminho do verdadeiro louvor he a mesma virtude.

Cumpre-lhe trazer muitas vezes à memoria os aquecimentos, e feitos

passados, assi dos Reys, e Principes, como das pessoas, que o naõ saõ.

E desta maneira quem souber o passado, julgarà mais prudentemente o

que està por vir. Finalmente cumpre lhe lembrarse em todo o tempo, que

he Rey, e aconselhar-se naõ sómente do que ha de fallar, é porque os

lizongeiros saõ muy contrarios do verdadeiro conselho, naõ nos ha de

sofrer em sua casa, mas ha de lançallos de si. O Emperador Trajano a

quantos soube, que sohiaõ no tempo passado, por pedir a fazenda alhea

mexiricar alguem com o Principe, desterrou, e fez embarcar em Navios,

e passar por huma grande tormenta a humas Ilhas desertas. Tiberio

Cesar em quanto foy vivo Octaviano nunca fez cousa sem conselho,

seguindo o exemplo, e authoridade de taõ singular Principe, por onde

suas cousas hiaõ àvante, assi na guerra, como na paz era bem quisto, e

dava de si muita esperança, mas depois que morto Octaviano veyo elle a

ser Emperador, usando mal do grande poder (porque quem muito pode as

mais vezes muito erra) e não se aconselhando como d’antes, veyo a dar

consigo em toda a cruesa, e deshonestidade da vida, e apparecer nelle

os grandes vicios, que a reverencia, e acatamento do Emperador Augusto,

e o conselho dos seus amigos muito tempo tiveraõ encubertos.

Sohia dizer Marco Antonino Emperador Romaõ, quando entrava em conselho,

que mais razaõ era, que elle só seguisse o conselho de tantos, e taes

seus amigos, que naõ que elles seguissem o parecer delle, e Agamenon

Rey dos Gregos no cerco de Troya, pedio a Deos, que lhe desse outros

taes dez conselheiros, como era Nestor, o qual por sua longa idade, e

experiencia excedia no arrayal dos Gregos. Se Pithagoras manda, que

todo o homem tenha na vida respeito a dous tempos, que saõ manhãa, e

tarde, quer dizer, que pela manhãa nos lembremos do que havemos de

fazer aquelle dia, e à noite do que jà temos feito, e se Cleobulo hum

dos sete sabedores leyxou dito, que antes que sahissemos de casa,

cuidasse-mos o que haviamos de fazer, e depois de tornados tomasse-mos

conta a nòs mesmos do que tinhamo feito, se estes preceitos foraõ dados

a qualquer pessoa particular, que conselho, que cuidado deve ser o do

bom Principe, a quem toca o Regimento de tanto numero de gente? Naõ diz

em balde o proverbio mais vem dous olhos, que hum, o que Aristoteles

confirma, e o mesmo diz, que poucas vezes acontece, quando muitos

daõ conselho, que algum delles naõ acerte. Se pudesse ver o Principe

os defeitos, males, e fraquezas dos homens, e se por alguma graça,

ou privilegio Divino pudesse entrar nos pensamentos, e julgar taõ

claramente as vontades, como julga o que vè de fora, sem duvida acharia

ser verdade o que digo, e veria quam necessario he ao bom Governador

entrar muitas vezes em conselho para com elle soccorrer, e acodir a

todos os perigos, e necessidades de seu povo. Escreve-se de Solon

hum dos sete Sabedores de Grecia, que vendo andar hum seu amigo muy

triste, e enojado por grandes payxoens, o levou ao Castello de Athenas,

que era no mais alto da Cidade, e dahi lhe rogou, que lançasse os

olhos, por todos os edificios, e cazas, que daquelle lugar podia ver,

e então lhe disse: cuida agora meu amigo, quantos trabalhos, quantos

cuidados, quantas tribulaçoens ouve sempre de baixo daquelles telhados,

e os que agora tambem ha, e os que ao diante seraõ, e cuidando bem

isto, naõ chores os males, que a todos saõ geraes, como se a ti só

fossem particulares, e com esta consolaçaõ nos mostrou as Cidades, e

Reespublicas serem huns parques, e encerramento de muitos cuidados. O

mesmo Filosofo dizia que se os males de todos os homens se ajuntassem

para depois igualmente se averem de repartir antre todos os homens, que

antes cada hum tomaria, e escolheria levar os seus para sua caza, que

tomar de todos juntos a parte, que a cada hum coubesse.

Outro grande Filosofo, chamado Eraclito, doendo-se das mizerias dos

homens, nunca outra cousa fazia, senaõ chorar. He causa clara, que

nenhum Reyno naõ pòde durar muito sem ajuda de Principe, que tenha

bom conselho, mas cumpre que os conselheyros sejaõ verdadeiros, e

amigos de Deos, e que saybaõ, e naõ sejaõ de pouca idade. Sohia dizer

Socrates muy prudentemente, que a Deos deviamos somente pedir que nos

desse o que fosse bem, porque elle somente via o que era bem, mas que

os homens pola mòr parte dezejavaõ o que seria melhor q́ naõ ouvessem,

e o mesmo dizia que era grande atalho para a verdadeira gloria, que

fossemos taes, quaes queriamos parecer a outrem, porque com Deos naõ

he necessario estar em muitas praticas, nem dar lhe razoens do nosso

dezejo; mas a verdade de leyxar tudo em suas maõs, e quanto a esta

parte brevemente lhe pedir, que faça o que mais vir, que he necessario,

que he seu serviço, mas no negocio dos homens, por andar a verdade as

mais vezes encuberta, cumpre primeyro que se a cousa ponha em obra, que

seja comunicada, e examinada com os amigos, e comparando os tempos,

e aquecimentos, que se vejaõ as razoens, e busquem os meyos, e dos

meyos qual serà o melhor, e depois que se ponha em obra, porque desta

maneira, sendo discutidas, e praticadas as cousas, se vem a cahir no

conhecimento da verdade, e para isto muy necessarios, como dizem, saõ

ao bom Principe bons, e verdadeiros Conselheyros. Nem cuido eu que por

outra causa a Reepublica de Veneza passa jà de mil annos, que florece

sem nunca ser tiranizada. Necessario he que no Conselho naõ entre

payxaõ, odio, nem cobiça, nem pouco amor de Deos, nem lizonjaria,

porque sempre se vio as pessoas, que taes vicios, ou parte delles

tiveraõ, serem prejudiciaes às Reespublicas.

Naõ deve ser o Conselheyro muito moço, que aonde naõ ha idade, naõ pòde

haver muita prudencia, e os mancebos naõ tendo experiência do mal, naõ

podem entender o bem, nem o sabem aconselhar, e então conhecem o erro,

quando o mal he presente, e a culpa naõ tem remedio. Escreve-se que

succedendo Roboaõ filho de Salamaõ no Reyno de seu Pay, e sendo-lhe

requerido em ajuntamento geral polos doze Tribus, que quizesse soltar

alguma parte dos tributos, que ElRey seu Pay lhes puzera, quiz Roboaõ

antes que nada fizesse praticar isto em Conselho em que aos velhos

parecia, que ElRey no começo de seu Reynado devia contentar ao povo.

Os mancebos polo contrario o aconselharaõ, que pois o povo fora taõ

descortès, que ousara pedir cousa, que jà estava taõ assentada, que

Roboaõ lhe devia responder asperamente, porque outra hora vissem com

quem o haviaõ, e naõ ouzassem entrar em taõ doudo requerimento. Pareceo

melhor o Conselho dos mancebos a Roboaõ, por ser tambem mancebo, e

pondo-o assi em obra, foy causa de que dez Tribus se alevantassem logo

contra elle, e fizessem outro Rey, chamado Jeroboaõ, ficando sómente

com Roboaõ dous Tribus Benjamim, e Judà, por isso os Romaõs, como os

Persas, como todos os outros Estados deraõ sempre muita authoridade, e

credito aos mais velhos, o que o mesmo nome de Senador nos representa.

Naõ he piqueno inconveniente quando os mancebos daõ conselho serem

muy colericos, e seguirem seu appetito, que a rasaõ naõ olhaõ a que

pode seguir, porque saõ as maes vezes guiados de hum falso desejo, e

enganosa esperança, que lhes cega o entendimento, ou por seguirem sua

vontade, ou por contentarem a quem aconselhaõ, querem tudo aventurar

em hum ponto, e por isso diz Aristoteles, que os taes naõ saõ aptos

para o exercicio das virtudes moraes. Os velhos polo contrario

ensinados da longa idade, e experiencia das cousas passadas, nenhuma

cousa fazem, nenhuma cousa dizem, senaõ com muito tento, julgaõ o que

hade vir polo passado, e no presente se guardaõ dos extremos, nem pòde

mais nelles a payxaõ, e colera, que a razaõ, e entendimento: naõ fazem,

nem aconselhaõ nada aceleradamente, e se aproveitaõ do tempo segundo a

qualidade do negocio, alguma ora uzando de pressa, outra de vagar, e

tudo isto para conseguir, o que he mais proveitoso à Reepublica, com

dilatar as cousas, e assi como no tempo da paz se vem a saber todo o

engano, assi na guerra se descobrem os conselhos, e acordos da parte

contraria.

Dizia Epaminondas Capitaõ Thebano, que nenhuma cousa era mais

necessaria, nem mais proveitosa a hum bom Capitaõ, que conhecer as

determinaçoens dos inimigos. O Emperador Cesar Augusto (que tanto

neste Panegyrico allego) era Principe muy attentado, e prudente, o

qual dizia, que o Capitaõ novo sobre tudo se devia guardar de pressa,

e atrevido cometimento, e trazia muito na boca estas palavras (ajunta

pressa com vagar) que vieraõ a ficar em proverbio. O mesmo dizia,

que assàz depressa era feito, o que era bem feito, nem queria que se

começasse alguma guerra, salvo quando a esperança do proveito fosse

mayor que o receyo do danno, e os que aventuravaõ muito por cousa

pouca, dizia, que eraõ semelhantes a quem pesca com anzol d’ouro, o

qual se se perde, he muito mayor a perda, que a esperança do interesse.

Naõ cuide alguem que Fabio Maximo mereceo sobre nome de Maximo por

ser aventureyro, e cometedor, mas por ser muy attentado, e uzar de

dilaçaõ a seu tempo, e quanto mais valha o vagar attentado, que a

pressa acelerada se pòde bem ver polo exemplo de Minucio seu Mestre

dos Cavalleyros, porque este despresando os conselhos de seu Capitaõ,

e reprehendendo nelle aquella dilaçaõ, que foy causa de ser quebrada a

furia d’Anibal, se ouvera de perder, se o mesmo Fabio lhe naõ acudira,

assi que o vagar de Fabio Maximo naõ aproveitou pouco depois a Marcelo,

a Scipiaõ Africano para serem diligentes.

Noticias de Portugal · 第 31 / 43 段