A bemaventurança do homem naõ he outra cousa senaõ usar a nossa alma
segundo a razaõ quer em toda a vida. Que mòr testemunho do que digo
queremos, que o que este dia, e tempo prezente nos pode dar, em que
naõ sómente faz mais rica, e populosa com sua presença a sua Cidade
d’Evora, mas ainda muy dezejoso de lhe ser causa de mores bens lhe traz
novamente a agoa de muy longe com muita abastança, vencendo com arte à
natureza, restituindo o cano de agoa taõ necessario, e tantos tempos
hà esquecido, e com grande animo suprindo os defeitos do lugar por dar
saude, e contentamento aos homens. Ó quam bem se pode applicar a V.
Alteza aquelle consentimento geral, que o Povo Romaõ deu ao Emperador
Helvio Pertinaz em estas palavras: _Reynando o Emperador Helvio
Pertinaz seguros vivemos, ninguem tememos, ao Pay piedoso, ao Pay
do Senado, ao Pay de todos os bens_. Este he o verdadeiro officio do
Principe viver para proveito dos homens, isto he, que Deos, e o mundo,
e a obrigaçaõ do Sceptro Real requerem.
Por isto vendo alguns, que grande trabalho era reynar bem, escolheraõ
antes viver descançados sem Reynos, que reynando serem obrigados, e
sugeitos a tantos cuidados. Le-se do Emperador Diocleciano, que vencido
do grande trabalho soltou o Imperio Romaõ, e se recolheo a huma sua
quinta perto de Veneza, e sendo-lhe requerido por parte do Senado por
Herculeo, e Galerio pessoas principaes, que quizesse tornar a aceitar o
Imperio, lhe respondeo estas palavras: se visseis meus amigos as ervas,
que eu por minhas mãos tenho postas, e na minha orta, certo saõ, que
me naõ darieis tal conselho: e naõ hà muito tempo, que Luiz Landrasi,
Principe de hum Estado em Alemanha sendo eleito Emperador o naõ quiz
aceitar, e quiz antes viver em seu pequeno Estado, que governar o
Imperio de Alemanha: antre as escusas, que dava para o naõ poder ser,
era naõ saber letras, as quaes dizia serem muy necessarias para o
governo da Reepublica Christãa, este foy taõ amigo das leys, que as fez
tirar de latim em sua lingoa por melhor as poder entender.
Convida-me neste lugar o tempo a fallar da liberalidade de V. Alteza,
que como dizem os Filosofos he graõ parte da justiça, e propriamente
pertence aos Reys, e Grandes Senhores, e sabido està com quanto animo
usou sempre desta virtude, mòrmente em tempos taõ contrarios, merecendo
todo o louvor, que se pode dar a hum Rey Magnifico, e liberal. Acho
eu, que os mais dos Excellentes Principes foraõ liberaes: liberal foy
Alexandre Magno, e isto em tanto grào, que nos ficou em proverbio.
Liberal foy ElRey Cyro, o qual como escreve Xenofonte, dizia que o
seu Thesouro estava nos amigos, e assi Julio Cezar o foy tanto, que
partindo-se de França, Provincia taõ rica, aonde estivera dez annos por
Governador, e naõ tendo com q́ fazer a guerra Civil a Pompeo, que pouco
antes começara, lhe foy forçado pedir dinheiro emprestado aos Capitães,
e Soldados de seu Exercito. Por certo mais real cousa he enriquecer o
Principe a outrem, que fazer-se elle a si mesmo rico, e por isso bem
dizia ElRey D. Pedro de Portugal, que o dia que naõ dava, se naõ tinha
por Rey. Devese com tudo ter respeito, que esta virtude seja empregada
em quem merece, e se verdade he, que toda a liberalidade he justa, quem
deste meyo fugir, darà consigo em hum dos extremos, e ou serà avarento,
ou prodigo. Escreve-se de Archelao Rey de Macedonia, que pedindo-lhe
hum homem de màos costumes, que lhe fizesse mercè d’hum vaso d’ouro,
ElRey mandando-o dar ao Poeta Euripedes, lhe disse: Tù es digno, que
peças, e naõ te dem, e estoutro he digno, que naõ pedindo lhe seja
dado. Por isso reprehende muito Plutarcho aos Principes, que naõ se
lembrando dos Criados vergonhosos, e bem ensinados, fazem sómente
mercè aos importunos, que naõ tem vergonha, e lhes daõ naõ o que lhes
querem dar, se naõ o que lhes naõ podem negar. Mas V. Alteza em todas
as partes guarda muy inteira temperança, despreza o dinheiro, mas
sómente o despreza nos lugares, e tempos onde he razaõ, edifica Templos
sumptuosamente, mas naõ como o Emperador Domiciano, e alguns outros
Principes, que nesta parte excederaõ o modo.
Finalmente de tal maneira he magnifico distribuidor de suas riquezas,
que sempre se guarda dos extremos, e assi como naõ se esquece da
conservaçaõ, e acrescentamento de sua fazenda, assi a fonte de sua
magnificencia està sempre aberta para todos seus amigos, e Vassallos.
Naõ pode mais claro sinal ser do que digo, que o cuidado, que teve
sempre, e hoje em dia tem dos Infantes seus Irmãos, naõ receando cousa
alguma por onde se veja, que naõ menos os tem por filhos, que por
irmãos, e certo nas obras, e amor, que lhes mostra, naõ hà diferença
para elles de Pay para Irmão. Saõ elles bemaventurados carecendo de taõ
excellente Pay naõ carecerem de hum tal Irmaõ, o que posto que cada
hum mereça por suas muito grandes virtudes, e lealdade, e amor, que lhe
tem; com tudo a mòr parte deste louvor se deve atribuir à liberalidade
de V. Alteza. Huma das grandes virtudes mais estimadas de Marco Antonio
Emperador dos Romãos, chamado por sobrenome o Filosofo, foy esta de
quem se escreve, que sendo o Thesouro de Roma gastado, e naõ havendo
com que pagar huma grande soma de dinheiro, que se devia aos Exercitos,
elle por naõ lançar nenhum pedido, nem dar oppressaõ às Provincias,
mandou vender, e pòr em pregaõ toda a sua bayxella, vasos d’ouro,
joyas, e tapeçaria, com que satisfez, e pagou a todos inteiramente.
Muito bem dizia Julio Cesar, que os outros Capitaens venciaõ seus
inimigos com crueza, e que elle tinha achado huma nova maneira de
vencer, que era clemencia, e liberalidade, e de maneira, que o bom
Principe, he hum só remedio da gente pobre, e assi fazendo muitas
merces, naõ menos aproveita a si, que aos outros; porque àlem de
ganhar verdadeira gloria, dà o dinheiro que sempre hade ter prestes,
e achar em seus vassallos quando cumprir, e a este proposito disse
muy bem o Poeta Rabirio: Naõ tenho outra cousa de meu, senaõ o que
dey. Verdadeiramente diz Tulio naõ ha virtude que mais faça os homens
conversaveis antre si, que justiça, e liberalidade. A natureza dos
homens he esta, assi se obrigarem polas boas obras que fazem, como
polas que recebem. Bem vejo quam escuzado he querer eu confirmar com
authoridades de fóra as virtudes de que V. Alteza he taõ novel exemplo;
mas he tamanho o meu contentamento, fallando nellas; que pòde mais
em mim este appetito, que o receyo de ser polixo, e vendo bem quam
poucas vezes se acha hum tal Principe taõ acabado em tantas partes, saõ
forçado a me deter em cada huma dellas particularmente.
Tornando a meu proposito, he tamanha virtude esta de que fallo, que
muitos Principes viciosos, e perversos com serem sómente liberaes,
foraõ bem quistos de seu povo. Herodes filho de Antipatro Rey de Judèa
foy cruel contra seus filhos, e de forte condiçaõ, com tudo porque
foy liberal mereceo ser obedecido dos seus, e naõ de todo malquistos
sohia dizer delle o Emperador Octaviano, e Marco Agrippa, que era mòr
o estamago del-Rey Herodes que o Reyno, e que era digno taõ liberal
Principe do Reyno de Egypto, ou da Suria. Deve com tudo o bom Rey
saber naõ menos acquirir, que despender, e de tal modo temperar esta
virtude, que querendo ser muito liberal, naõ venha a dar em prodigo,
e desbaratado. Do mesmo Herodes se lè que naõ podendo suprir seus
demasiados gastos, e tendo jà despezo todo o seu Thezouro, trabalhava
com todos os modos, e vias illicitas roubos, e cruezas para ajuntar
outro de novo, e naõ sómente roubava o povo, mas os lugares, e
sepulturas antigas. Contaõ delle que ouvindo dizer, que na sepultura de
Rey David fora metido hum graõ Thesouro por mandado delRey Salamaõ,
e que Hircano Principe dos Sacerdotes nos tempos passados tiràra
della tres mil talentos, que era hum conto d’ouro, e oito centos mil
cruzados, Herodes cuidando, que ainda là ficasse muito mais, entrou
huma noite secretamente na cova, e sendo chegado aos muimentos da pedra
em que jaziaõ os ossos delRey David, e delRey Salamaõ, supitamente
da mais derradeira parte della se alevantou huma chama de fogo, que
queimou dous homens da sua guarda, que hiaõ diante delle, o que vendo
Herodes tornou atraz com grande medo, e em satisfaçaõ da culpa, mandou
depois à entrada da sepultura edificar hum muimento de marmore branco
de magnifica obra, e despeza, e assi foy castigada a cobiça delRey
Herodes.
Este vicio foy a causa, por onde o Emperador Nero veyo a ser taõ
mào, e cruel tirano, como foy. Mas naõ deve menos fugir todo o bom
Principe do outro, extremo da avareza, que em todolos tempos foy muy
reprehendido, e causa de muitos males, e inconvenientes, nem ha cousa
que peor esteja a hum graõ Senhor, que ser escaço, polo qual o Idolo
de Apolo Delphico em huma reposta, que deu disse, que a Reepublica
dos Lacedemonios se perdèra por avareza. E Persio derradeiro Rey de
Macedonia por ella se perdeo. O Emperador Vespasiano, sendo em muitas
cousas louvado de bom Principe, nesta só foy vituperado. Acha-se nas
historias antigas que havia no Reyno da Persia huma ley, que ElRey
Ciro fizera, que quando ElRey entrasse em alguma Cidade de seu Reyno,
mandasse dar a cada molher cazada huma moeda d’ouro. Depois reynando
Ocho Principe muy avaro, e querendo entrar na Cidade d’Especio por naõ
pagar a moeda d’ouro, que segundo a ley era obrigado, rodeou os muros,
e passou adiante. Foy esta naõ pequena infamia para hum Principe taõ
poderoso, e taõ rico. Por certo digno de louvor foy Alexandre Magno,
o qual entrando duas vezes na mesma Cidade, de ambas mandou pagar a
sua moeda às mulheres, e às prenhes mandou que fosse pago o dobro.
Pola mesma causa se louva o Emperador Octaviano, porque vizitando como
Pay geral de todas as Cidades, e lugares de Italia, aos Cidadaõs, que
faziaõ certo terem filhos, ou filhas, mandava dar hum sextercio, que
eraõ vinte, e cinco cruzados.
Por isso trabalhem os Principes por serem liberaes, e tomem exemplo de
V. Alteza, nem cuidem que he tão pouco saberem-no ser, e por quanto às
vezes com menos trabalho se vingaõ as injurias, do que se fazem as boas
obras; a razão disto he: porque a boa obra, quando se faz, soe carregar
muito, e a vingança ella consigo tras contentamento. Lembrem-se que
se Pompeo, e Scipiaõ triunfaraõ taõ mancebos, e se Valerio Corvino
foy feito Consul de vinte, e tres annos, que naõ sómente com serem
cavalleiros, mas com serem liberaes sobiraõ em taõ pouco tempo a tanta
honra, e authoridade. Tenhaõ porèm na lembrança, e avizo que fujaõ,
como disse, dos extremos, nem sendo avarentos, nem prodigos, o que
se olharaõ os mais antigos Emperadores d’Alemanha, pola ventura naõ
consentiraõ, que Cidades por taõ pequeno censo, e tributo se fizeraõ
livres, donde nasceo ousarem depois os socios alevantarem-se contra o
Duque d’Austria, e os povos cobrarem tanta ouzadia, e coraçaõ contra o
mesmo Emperador, porque sendo partida Alemanha em quatro partes Soiços,
Terras francas,......e Terras Impereaes, por esta sobeja liberalidade,
que a todos foy comunicada, vieraõ a estimar pouco o Emperador, e a
terem huns com outros mil guerras, e diferenças, dos quaes males, como
jà disse, foraõ causa os primeiros Emperadores, que querendo fazer
grandes merces ao povo excederaõ o modo, e cuidãdo de aproveitar os
vassallos, fizeraõ muito danno a si, e a seu estado, e authoridade.
Nem me pòde a mim parecer bem aquella opiniaõ do Emperador Tiberio
Cesar, que os Governadores depois de ter governado muito tempo eraõ
melhores, que os que entravaõ de novo, e dizia que os de muito tempo,
sendo jà ricos, roubavaõ menos, os que começavaõ indo pobres metiaõ
mais a maõ, e era mais prejudicial às Provincias. Mào Regimento, e mà
atençaõ,(segundo meu fraco entender) era esta tomar por remedio do
roubo, e tirannia a continuaçaõ do tempo, e naõ bom ensino das leys,
sem duvida mais louvor merecèra Tiberio, ordenando sua Reepublica de
maneira que ninguem fora ousado de roubar. Que louvor darey a bondade,
e santa inclinaçaõ, e ao trabalho continuo sem nenhum repouso, à
clemencia, e humanidade de V. Alteza?
Se eu este Panegyrico escrevera em alguma terra muy afastada de nòs,
onde o seu nome ainda naõ chegàra, pola ventura receando de me naõ
darem credito, ou temperara taõ grandes louvores, ou os leyxara de
dizer. Mas fallando isto em parte aonde saõ taõ claros, e manifestos,
naõ recearey dos celebrar em quanto puder, porque sey que assim como
naõ posso dizer tanto, que satisfaça a verdade, e contente meu dezejo,
assim heyde ter a todos por testemunhas, e assaz me parecerà, quam
ditozo som, se vir, que nesta obra ao menos he recebida minha vontade,
que do mais bem vejo que naõ pode o estillo ser igual a taõ alto
merecimento, posto que naõ sinto eu parte, em que jà senaõ achem muitas
testemunhas do que digo. Cheyo està o Mar Occeano, cheyo està Levante,
e Ponente da grandeza de suas obras, e assim de seu louvor. Naõ se pòde
hum Reyno prosperamente governar, sem muito trabalho, assim na justiça,
e partes della, como em todalas outras virtudes. E se a vida do homem,
como dizem alguns, he vigia, quanto mais o deve ser a do Principe. Por
tanto V. Alteza muy solicito, e diligente, na conservaçaõ do seu povo,
depois que entrou na governança delle, naõ em huma só parte de negocio,
mas em quantas occorrem, e cumprem a seu estado, nunca cançou, nem
cança, com que sendo aceito a Deos possa aproveitar aos homens, e ganhe
memoria para sempre.
Naõ he piqueno trabalho o que tem todo o bom Principe no tempo da
paz, e quanto o repouso, e descanço, que della nasce he mayor, tanto
os homens pola mayor parte saõ peores, senaõ ha quem continuamente
os possa, e saiba emmendar, e he isto taõ necessario, que às vezes
a huma Reepublica, que vive em muita ociozidade, aproveita verse em
alguma fadiga, porque com os trabalhos, e perseguiçoens a gente se
emmende, e leixando os màos costumes, se torne ao verdadeiro caminho,
como dizem que aproveitou muito a Roma ser tomada dos Francezes em
tempo de Camillo, com que os Romaõs espertaraõ, e tornaraõ a renovar
a virtude antiga, que jà nelles hia faltando, e porque naturalmente
todalas cousas vaõ diminuindo, cumpre naõ huma vez, senaõ muitas, serem
as Reespublicas tornadas a seu principio, quero dizer, serem tornadas
aos bons costumes com que foraõ fundadas. Antigamente sohia dizer Apio
Claudio Cidadaõ Romaõ, que melhor hia ao povo Romaõ no tempo da guerra,
que no da paz, naõ porque naõ soubesse quanto melhor estado era o da
paz, mas porque via os grandes Reynos, e Imperios com o trabalho, e
exercicio das armas hirem por diante, e com boa vida tornarem atraz.
Da mesma tenção era Quinto Mettelo, Pay de Mettelo, chamado o
piedoso, quando disse, que se naõ sabia, determinar, se terem os
Romaõs vencido a Cidade de Carthago era mais damnoso à Reepublica,
ou mais proveitoso, porque com a vida de Anibal Italia espertara do
sono, e depois da victoria havia medo que tornasse a dormir. Por
isso cumpre ao bom Principe no tempo da paz ser taõ diligente, que a
justiça, e bons costumes se conservem, e sejaõ afastados os males,
que o descuido da longa paz soe trazer consigo. A muita confiança naõ
o faça desapercebido, e a muita confiança não o faça mào de sofrer:
nas cousas prosperas naõ use menos do conselho de seus amigos, nem
lhes dè entaõ menos credito, que nas contrarias. E no mesmo tempo se
deve guardar dos lizongeiros, e isto tanto mais, quanto este engano
he mais sotil, porque as mais vezes os homens quando saõ lizongeados,
cuidaõ que lhes fallaõ verdade, e dessa presumpçaõ, ou opiniaõ falsa
nascem muitos erros, que cada dia crescem, quando naõ saõ atalhados. E
porque a prudencia he saber o homem as cousas, que se devem fazer, e o
saber consiste no entendimento das cousas divinas, e humanas, cumpre
muito ao bom Principe, que dè alguma parte do seu tempo, e cuidado ao
conhecimento desta virtude, mòrmente tirando-se della grande fruto, e
dizia Plataõ, que entaõ seriam bemaventuradas as Reespublicas, quando,
ou os Filosofos reynassem, ou os Reys fossem dados à Filosofia. Mas
posto que todo o bom Principe seja obrigado a saber todas as partes do
bom governo, muito mais obrigado he aquelle a que este cuidado vem como
por herança de seus Avòs: porque assi como os Pays naõ podem leyxar
aos filhos mais honrado patrimonio, que a gloria de virtudes, e feitos
excellentes, assim os filhos com todalas suas forças devem, seguir o
exemplo dos bons Pays, e fazendo o contrario naõ hà culpa, nem infamia
de que naõ sejaõ dignos.
Deve o prudente Governador, quanto nelle for possivel, tirar os màos
costumes da terra, antes que criem raiz, que depois naõ lhe aconteça,
como aos Fisicos na cura dos Eticos, cuja enfermidade no começo he boa
de curar, e mà de conhecer e no fim he boa de conhecer, e mà de curar.
E quando os Cretenses antigamente queriaõ rogar alguma grande praga a
seus inimigos; diziaõ, que ainda os vissem folgar com màos costumes.
Naõ deve o Principe ser esquecido do que toca a toda huma Reepublica, e
se este defeito em huma pessoa particular se estranha tanto, que deve
ser em quem representa todo o povo? Dizia Scipiaõ Africano, que era mà
escusa no tempo da guerra dizer o Capitaõ quem houvera isto de cuidar?
O que tambem se pode aplicar ao tempo da paz; porque na guerra a muita
diligencia faz às vezes danno, e por isso dizia o mesmo Scipiaõ, que
nunca se devia dar batalha, senaõ com grande vantagem, ou necessidade,
mas no tempo da paz naõ he assi, no qual nunca a diligencia pode ser
tanta, que naõ seja toda necessaria, para a conservaçaõ dos bons
costumes. Trabalhe o bom Principe, que a sua vida seja aos subditos,
como huma regra direita de bom viver, como dizia o Filosofo Xenocrates.
Naõ hà cousa mais fóra da razaõ, nem que peor pareça, que vivendo bem
os Vassallos, viverem os Senhores mal, e como acima disse as mais vezes
vemos, que as Cidades, e Povos seguem a vida, e costumes de seu Senhor.
Quanto a pessoa he mais illustre, tanto o erro, que cõmete, he havido
por mayor. E como diz S. Joaõ Chrisostomo, as culpas se sóem a medir
naõ pola quantidade do peccado, mas pola dignidade do que pecca.
Que grande contentamento deve ser o do bom Principe, vendo-se limpo, e
apartado de todo o vicio, e não tendo feito, nem fazendo cousa alguma,
de que naõ possa dar boa conta de si, e muy digna de ser recebida,
darlhe-hà contentamento sua mesma consciencia: dar-lhoaõ seus amigos,
sendo delles louvado verdadeiramente, dar-lhoaõ seus Vassallos em o
seguirem, e tomarem seu exemplo, finalmente dar-lhoaõ seus contrarios,
e os que lhe quizerem mal, os quaes buscando em que o possaõ
reprehender, tanto mòr paixão haõ de levar, quanto menos acharem cousa
em que com razaõ o possaõ fazer. E quem estas partes no Regimento da
Reepublica prudentemente conservar, sem duvida terà muito, e continuo
trabalho, mas elle conseguirà o verdadeiro fim de bom Principe. Por
isso naõ sem causa V. Alteza sendo como he em tudo taõ acabado, vigia
continuamente, aplicando seu entendimento a todos os cuidados, porque
nòs vivamos descançados: o fruto, que jà disto recebe he taõ grande,
que o esperta a passar esta carreira animosamente, o trabalho se ajuda
da vontade, o bom natural se aproveita de muita arte, e assim como
o bom Capitaõ deseja sempre novas victorias, e o bom Piloto naõ se
contenta com o que sabe, vay por diante descobrindo novos mares, e
terras, o que cada hum destes faz pela gloria, que espera, alli o bom
Principe naõ receando nenhum trabalho, nunca cança, nunca repousa, ora
fazendo leys, ora inventando novas maneiras proveitosas ao bem do seu
Povo, e Estado, ora competindo com os melhores Principes, e trabalhando
por lhes levar ventagem: o que tudo faz naõ por algum interesse desta
vida, mas polo fim, e bemaventurança, que na outra deste trabalho
espera.
Artaxerxes Rey da Persia, filho delRey Xerxes, a que os Gregos chamaraõ
Cyro, e os Judeos Assuero, foy muito nomeado antre os Persas, delle se
conta, que jazendo huma noite na cama, e naõ podendo dormir por naõ
perder aquelle tempo mandou chamar hum Secretario, e que trouxesse os
livros dos memoriaes, em que estava escrito o merecimento, e galardaõ
de cada pessoa, o qual vindo se achou, começando a ler logo hum, que
por serviços, que fizera a ElRey houvera humas terras em satisfaçaõ,
e mais adiante acharaõ outro, que recebera mercè de dinheiro, e estes
ambos tinhaõ asignado no livro como he costume, e chegando a hum
Mardocheo, que os tempos passados descobrira huma traição, que estava
ordenada contra ElRey; perguntou Artaxerxes se a este fora feita alguma
mercè, e respondendo o Secretario, que o livro estava em branco, fez
ElRey a mesma pergunta a hum grande seu privado, que estava prezente
chamado Amaõ, o qual tambem naõ sabendo nada, Artaxerxes espantado
de tamanho descuido, mandou logo chamar ao mesmo Mardocheo, e o fez
vestir de vestiduras Reaes, e lançar-lhe hum Colar de ouro ao pescoço,
e no dia seguinte quiz, que fosse levado com grande pompa por toda a
Cidade, e porque seu privado Amaõ fora taõ descuidado em cousa, que
tanto lhe cumpria, mandou, que elle mesmo fosse pelas ruas diante de
Mordocheo, apregoando, que o mòr premio da honra se dava a Mardocheo
polo mòr serviço. A mesma diligencia teve em governar o mundo o
Emperador Cesar Octaviano, porque em quanto viveo, sempre ordenou
cousas muy proveitosas à sua Reepublica, e antre outras escolhendo
por authoridade do Senado dez pessoas, que o ajudassem, constrangeo a
todos os Cavalleiros de Roma, que viessem perante elle dar conta, e
razaõ de sua vida, e os que a naõ deraõ boa, parte castigou com pena,
e parte fez infames, e outros reprehendeo de palavras: o mais brando
castigo de todos foy meter na maõ, a quem naõ achava taõ culpado, hum
pequeno escrito de reprehensaõ, que logo o mesmo havia de ler antre
si em presença do Emperador, e nisto Octaviano seguio o exemplo de
Amasis Rey do Egypto, segundo conta Herodoto, que fez huma Ley, que
sobpena da vida, todo o homem cada anno perante Juizes Deputados fosse
obrigado a dar razaõ de sua vida, e o mesmo costume passou depois Solon
Filosofo às leys dos Athenienses. Mandou Cesar Augusto soltar todos os
devedores a que seus acredores tinhaõ presos na cadea naõ por esperar
paga alguma, naõ tendo elles de seu nada, mas para tomar huma sobeja, e
dura maneira de vingança, e foy em tudo taõ prudente, que naõ sómente
na vida, mas tambem na morte teve respeito ao bem cõmum. Escreve-se,
que leyxou tres livros feitos por sua maõ, o primeiro do que pertencia
a seu enterramento, o segundo lembrança de todas as cousas, que fizera,
no terceiro se continha huma breve instrucçaõ de todo o Imperio, quanta
gente de peleja ficava no campo, quanto dinheiro deixava, quanto
se devia das rendas publicas, e assi o que deviaõ seus criados, e
procuradores a Reepublica, para que em todo o tempo por este livro lhe
podesse ser tomada conta.
Quem leyxarà de louvar a verdadeira clemencia, e humanidade de V.
Alteza, que naõ menos usa com os grandes, que com os pequenos em tudo
sempre conservando, o que cumpre a sua real authoridade? Proprias
virtudes saõ estas de bom Principe Christaõ, que sempre deve trabalhar
de naõ ser aspero, nem so berbo ao povo, nem lhe dar mais opressaõ
daquella, que cumpre para o bem, e conservaçaõ da justiça, e polos
males, que do contrario disto em algumas partes nascem, se pode ver
bem, quanta verdade digo. Huma das mòres virtudes, que houve em Julio
Cesar foy a Clemencia, e a mayor, que houve em Tito filho de Vespasiano,
foy a mansidaõ de que nasce toda a liberalidade, e comedimento. Sóhia
dizer este Emperador Tito a seus amigos, quando passava algum dia,
sem fazer mercé, que perdera aquelle dia. Octaviano foy taõ clemente,
e piedozo, que mandou queimar todas as obrigaçoens, e conhecimentos
de dividas velhas, que se deviaõ à Reepublica, donde claramente se
pòde ver, que assi como das palavras asperas, e soberba condiçaõ nasce
crueza, assi da clemencia, e mansidaõ vem todo o bom respeito, e
liberdade.