do verdadeiro Deos? E he para notar, que a mòr parte dos Reys de
Israel, por causa de semjustiça, e idolatria viveraõ pouco tempo, de
maneira que em quanto reynou em Jerusalem ElRey Asà Principe justo,
e devoto, que naõ foy muito tempo, ouve no Reyno de Samaria muitos
Reys idolatras, que todos ouveraõ mào fim, e succedendo no Reyno
dos dez Tribus ElRey Osias, e levando àvante as idolatrias de seus
antepassados, permitio Deos, que viesse contra elle Salmanasar Rey
dos Assirios com grande Exercito, o qual tomando por força a Cidade
de Samaria, o prendeo, e levou consigo cativos todos os dez Tribus às
terras da Persia, e Media, donde depois mandou aos Chuteos gente da
Persia, que viviaõ naõ longe de Babilonia, que viessem povoar a terra
de Samaria, que ficava deserta, os quaes cumprindo o que ElRey mandava
foraõ depois chamados Samaritanos, e tal fim ouve o Reyno de Jeroboaõ,
e a idolatria, e pouca devaçaõ dos dez Tribus de Isrrael: pola mesma
causa o Reyno de Judà sentio muita parte destes males, e escrito està,
que Achaõ Rey de Judà foy taõ mào Principe, taõ desprezador de Deos, e
taõ contente dos costumes de Samaria, que mandou alevantar em honra dos
idolos altares em Jerusalem, em que sacrificou hum seu proprio filho,
seguindo nisto o barbaro, e abominavel costume dos Cananeos, finalmente
mandou cerrar o Templo de Salamaõ, defendendo que se naõ sacrificasse
mais nelle, por onde mereceo ser vencido em batalha campal por ElRey de
Samaria, e lhe serem mortos nella cento, e trinta mil homens; tambem
ElRey Manasses por adorar os idolos, e matar muitos Profetas, foy
vencido, e levado cativo a ElRey de Babilonia, mas arrependendo-se do
seu peccado foy restituido a seu Reyno, e veyo a ser bom Rey, e amigo
de Deos.
Quem naõ sabe a causa por onde mereceraõ os Judeos ser levados cativos
a Babilonia no tempo de sua transmigraçaõ? Sem duvida o principio de
tanto mal nasceo do esquecimento da Religiaõ, e a este vicio estavaõ jà
taõ abituados, e entregues os Judeos naquelle tempo, que posto que o
Profeta Jeremias, vendo os males, que cedo haviaõ de vir, lhes rogasse
com muitas lagrimas, que se convertessem, com tudo nunca o quizeraõ
crer, athè que viraõ as lamentaçoens do Profeta sahir verdadeiras em
tempo, que jà o dezengano dellas naõ podia aproveitar: abominavel cousa
era idolatrarem os Judeos mòrmente tendo taõ claro conhecimento de
Deos, e guardarem peor sua verdadeira ley do que os Gentios guardavaõ
sua falsa Religiaõ, os quaes em algumas partes davaõ graves penas
a toda a pessoa, que ou desfazia os Deoses, que jà eraõ recebidos,
ou queria acrescentar alguns de novo, e por esta causa foy acuzado
Socrates, e condennado à morte Anaxagoras, Clazomenio Filosofo foy
morto polos Athenienses, por affirmar que o Sol, que elles adoravaõ,
carecia de todo o sentido, assi que com muita razaõ os Judeos naõ
honrando, nem amando a Deos, como eraõ obrigados ouveraõ taõ grande
castigo, e por este peccado naõ somente o seu Reyno, mas o Principado
dos Sacerdotes sahio algumas vezes da linha direita; tirou Deos esta
dignidade aos filhos de Hely, e fez Principe dos Sacerdotes a Samuel:
depois naõ sendo os filhos de Samuel dignos della, foy entregue o
mando, e authoridade a Saul, e elle tambem naõ cumprindo em tudo a
vontade de Deos, posto que trabalhou muito de leyxar o Reyno, e bençaõ
a seu filho, o naõ pode nunca alcançar, e foy dado a David, porque he
cousa impossivel resistir ninguem à vontade de Deos.
Muitas, e grandes victorias alcançou o Emperador Theodosio Principe
Christianissimo, porque sendo em todas as outras virtudes muy
semelhante ao Emperador Trajano, no conhecimento, e veneraçaõ
do Salvador do Mundo lhe levou muita ventagem. Com esta virtude
acrescentou nossa Santa Fè, e desbaratou os Godos, e Hunnos, e
mereceo, como diz o Poeta Claudiano, que as settas, e lanças dos
inimigos se voltassem pelo ar milagrosamente contra elles, e os
desbaratassem. Conta se delle, que quanto mais velho se hia fazendo,
tanto mais excellente Principe era, o que he muito de louvar, porque
vemos muitos com a longa idade hirem perdendo a vergonha, e usarem do
mando, que lhe foy dado para muy desviadas cousas do seu fim. Taes
foraõ os Emperadores Adriano, e Nero, e Philipe Rey de Macedonia, filho
de Antigono, porque começando a reynar virtuosamenre, deraõ depois mà
conta de si, e acabaraõ mal. Mas a muita devaçaõ, e fé do Emperador
Theodosio o naõ leyxavaõ errar, nem sahir do verdadeiro caminho, que
quem em Nosso Senhor tem posto o alvo de toda sua esperança, este
quanto mais cresce em idade, tanto mais crescerà nelle toda a virtude,
e perfeição, nem seus inimigos por mais poderosos, que sejaõ, lhe
poderaõ resistir. Naõ he muy antiga a Conquista de Ultramar, em que
milagrosamente os Christaõs houveraõ muitas victorias contra os infieis
pola fé, que levavaõ, a qual he de muito mor força, que todos os
Esquadroens de gente armada, e polo contrario o Emperador Juliano, que
foy chamado Apostata, porque perseguio a Fè dos Christãos, e foy muy
dado à falsa idolatria, houve desastrado fim.
Finalmente grandes dannos receberaõ sempre os Principes Christãos em
que houve pouca Fè, e assi grandes mercès houveraõ de N. Senhor os
que a seguiraõ, e se abraçaraõ com elle verdadeiramente, mas quando
para prova disto se naõ allegassem memorias do tempo passado, abastava
só o exemplo de V. Alteza, em cujo prospero reynado logra Portugal
tantos bens, quantos naõ sey se poderiaõ ser acabados em outro algum
Reyno de Christaõs: crece nelle a virtude, assi como vay crecendo a
idade, e quando jà parece, que naõ pode mais crecer, entaõ acha caminho
de novo crescimento, que o que a nòs he perfeita satisfaçaõ, a elle
sempre he começo. Com razaõ seria louvado algum Principe usando algum
tempo parte das virtudes de que V. Alteza sempre usa, e isto com tanta
vontade, e firmeza, que lhe fica jà em natureza, vigia sempre por onde
nòs descansemos, e trabalha polo premio, que nòs havemos d’haver, e em
tanto sómente descansa, quando do grande amor, que nos tem, nasce algum
bem universal; todos os dias gasta no que cumpre a nosso proveito, e se
alguma hora lhe parece, que tem satisfeito a muito grandes negocios,
que tem, toma por passatempo, e descanso do trabalho passarse a outros
trabalhos de novo.
Dous grandes bens, que a todos aproveitaõ, vemos sempre em V. Alteza
certeza de sua bondade, como se jà fosse Rey de muitos annos, e grande
comedimento, como se pouco hà, que começasse a reynar: mà parte he a
do Principe dizer a seus Vassallos palavras de escandalo, nem graças,
que toquem, as quaes quando nascem da verdade, leixaõ aspera memoria
nas vontades, e este mal tanto he mòr, quanto as pessoas, que as dizem,
saõ de mòr authoridade. De Tiberio Gracco se lè, que sendo na guerra de
Anibal Capitaõ de hum Exercito (que com mingoa d’outra gente ajuntado
d’escravos) mandou em seu Arrayal lançar hum pregaõ, que sobpena da
vida, ninguem ousasse chamar a outro escravo; e se Tiberio Gracco antre
pessoas taõ baixas, e iguaes houve por taõ perigosa huma commua offensa
de palavras, com quanta mòr razaõ se deve isto recear, quando nasce o
tal escandalo de pessoas principaes?
Mas posto que V. Alteza desta temperança, que usa, e amor que tem a
seu povo, naõ queira na vida outro interesse, que a execuçaõ da mesma
virtude (que pola mòr parte dà de si tanto contentamento) que escusa
toda a outra satisfaçaõ, com tudo daqui nasce ser jà tam bem quisto de
seus Vassallos, que cada hum delles o ama, como a Pay, e teme como a
seu Rey, e Senhor natural. Dizia Xenocrates Filosofo antigo, que entaõ
se tivesse o Principe por mais seguro, quando fosse cercado naõ de
muros, mas da força de seus amigos, naõ d’armas, mas do amor de seu
Vassallos, naõ de gente da sua guarda, mas de sua propria bondade, e
virtude, e que com estas tres cousas se ganhavaõ os Reynos de novo, e
os ganhados se conservavaõ. Mal se pode conservar o Reyno em que os
Vassallos haõ medo aos Principes; e naõ lhe querem bem, por tanto quem
tras o cuidado em reger bem, deve ganhar a vontade de seu povo, nem
sofrendo, que lhe seja feita sem razaõ, nem a tendo em pouco depois de
feita, e de tal maneira deve estimar os Grandes, que os mais baixos
lhes naõ tenhaõ odio, e os sem culpa lhe naõ hajaõ medo: sobre tudo naõ
mande alguma cousa com ira, que as mais vezes cega o verdadeiro juizo
da razaõ, e para nunca errar, ha de fazer conta, que representa a mesma
Ley, a qual no castigo, que dà, se move sempre por igualdade, e naõ por
tençaõ, ou merencoria. Naõ faça o Principe alguma cousa duvidando se he
mal, ou bem, por quanto a verdade onde quer, que està, ella se mostra,
e dà lume de si, e polo contrario o duvidar he sinal, que se naõ faz o
que he razaõ. As guerras, que começar para conservaçaõ da Reepublica,
e defensaõ da paz he a que sobre tudo se deve ter respeito, nem cuide,
que a virtude consiste só no entendimento, mas no uso, e execuçaõ
della. Nem olhe menos o que faz, que o que deve fazer, e principalmente
trabalhe, que a justiça se continue, cujo officio he, que naõ se empeça
a ninguem; e que em tudo se sirva, e tenha respeito ao proveito commum.
Naõ hà engano mais prejudicial, que o daquelles, que no tempo em que
mais enganaõ, trabalhaõ por parecer homens de bem.
Por isso no Principe naõ deve entrar dissimulaçaõ alguma, nem arte,
mas em tudo seja claro, constante, e forte com tal temperança, que nem
seja havido por muy aspero, por quanto muito direito se torna em sem
razaõ, nem tambem seja taõ brando, que possa caber nelle o proverbio
Grego, que diz: _Os mandados mandaõ a quem manda_. Finalmente naõ
faça cousa, que naõ queria ser-lhe a elle feita, e quem estas partes
tiver, por certo serà muy quisto, e amado de seu Povo. Razaõ he, que
o contentamento de V. Alteza seja muy grande, vendo quam inteiramente
satisfaz a todas as partes de bom Principe, e que as virtudes, que
poucos Filosofos com grande seu trabalho em muito tempo puderaõ
alcançar, elle por si as poem jà todas em obra perfeitamente. Os
Romaõs sabendo bem, quanto mais a conservaçaõ do Estado pendia do amor
dos Vassallos que do sitio, ou força do lugar, naõ tinhaõ fortalezas
nas Provincias, que sojugavaõ, nem cuido eu, que por outro respeito
Octaviano Fragoso mandasse desfazer em nossos tempos a fortaleza de
Genova, que fora feita pouco antes à entrada do Porto por mandado
d’ElRey Luiz de França. Tambem o Duque de Urbino chamado Guido Ubaldo,
que naõ muito hà que foy restituido a seu Ducado, de que fora lançado
pelo Duque Valentino, mandou derribar todas as Fortalezas, que o
mesmo Duque leyxàra feitas, o que fez por ser bem quisto da gente, e
obrigar mais a vontade a seus Vassallos. Naõ podem os subditos amar ao
Principe, que os naõ ama, por isso os Emperadores Augusto, e Theodosio
amaraõ muito a seu povo, e foraõ naõ menos bem quistos delle, e Augusto
foy taõ amado, que publicamente foy chamado Pay da patria. Louva Plinio
em seu Panegyrico a Trajano, que antes de ser chamado Pay da patria
polos Romaõs, o era jà nas obras, o qual foy taõ zeloso do bem, e
affeiçoado a seus Cidadaõs, e Vassallos, que se affirmava em seu tempo,
que a alma do Emperador Augusto vinha fallar com elle, e naõ sómente os
Principes, mas ainda os Tirannos, se saõ bem quistos, podem conservar
pacificamente seu Estado. Pouco hà, que Anibal Bentivoglio foy tiranno
de Bolonha, este foy taõ amado da Reepublica, que sendo morto à treiçaõ
por conjuraçaõ dos Canescos, no mesmo ponto toda a Cidade se alevantou
contra elles, e os matou sem ficar nenhum, e ficando delle hum menino
por nome Joaõ Bentivoglio mandaraõ logo a Florença buscar outro seu
filho, que era bastardo, que atè entaõ fora havido por filho d’hum
Ferreiro, ao qual fizeraõ Governador em quanto Joaõ Bentivoglio naõ
fosse de idade, e tanto que foy, lhe entregaraõ o Governo com muita fé,
e fidelidade.
O contrario se lè de Philipe Rey de Macedonia pay do grande Alexandre,
que foy mal quisto, e aborrecido de toda a gente, e em hum dia grande
de festa, em que se casava sua filha Cleopatra com Alexandre Rey de
Epiro, foy morto por maõ d’Amintas seu Criado. Quem naõ sabe o fim,
que houve Galeazo Duque de Milaõ morto às punhaladas por maõ de Joaõ
Andrè de Lamponhaõ, e assi Agotocles tiranno em Sicilia, sendo valente
Cavalleiro por màos costumes veyo a ser mal quisto: Este entre muitas
cruezas, que uzou fez matar em hum só dia a hum certo sinal, a todos
os Senadores, e principaes da Cidade de Saragoça. O Duque Valentino
Cesar Borja em nossos tempos por sua muita crueza foy taõ aborrecido,
que ouve depois o fim que todos sabemos, e antre outras cousas matou
na Cidade de Senegalha muitos Senhores principaes Ursinos, e Vitellos,
trazidos alli por elle a falsa fè; e hum destes foy Oliveroto, que
antes se fizera tirano da Cidade de Fermo, matando em hum banquete
todos os principaes da mesma Cidade. Foy certo notavel exemplo querer
Deos, que hum tiranno fosse morto por outro tiranno, e quem por trayçaõ
matàra, que elle tambem fosse morto a trayçaõ.
Se queremos exemplo da Sagrada Escritura tambem nos poderà ensinar,
quam prejudicial cousa he aos Principes o odio do povo. A ElRey
Aristobulo dos Judeos succedeo no Reyno seu irmão Alexandre, o qual
sendo magnanimo, e valente Cavaleiro por tratar mal a seu povo, e lhe
fazer muitas injurias, e vexaçoens veyo a cahir em grande, e geral
odio, em muitas dezaventuras: foy tão mal quisto, que ousava o povo
esquecido de si mesmo, e do acatamento devido à Real Magestade em sua
prezença delle rogar-lhe em vozes altas a morte. Naõ foy isto sem
causa, porque em hum só dia fez Alexandre crucificar perante si 800.
Judeos dos principaes do povo mandando primeiro matar suas molheres,
e filhos diante delles. Escreve-se d’Amasias Rey de Judà filho delRey
Joàs, que começou a reynar temperadamente, mas depois alterado com a
vitoria dos Amalechitas adorou os idolos, e tratou mal o povo, por
onde estando para dar batalha a Joàs Rey de Samaria alevantou Deos
em seu Exercito hum grande espanto, sem nenhuma causa, em que todos
foraõ desbaratados, e elle ficou prezo em poder de seus inimigos,
e assi seu filho ElRey Ozias começou tambem, e venceo os Arabes, e
Amònitas, e muitas outras gentes, mas seguindo o mào exemplo de seu
pay, e tornando-se inimigo de Deos, e de seu povo ouve mà fim como seus
máos costumes mereciaõ. Escrevem delle, que querendo em huma festa
principal entrar revestido como Sacerdote no Templo a offerecer no
altar do ouro, ou incenso a Deos, e indo-lhe à maõ Azarias, com outros
oitenta Sacerdotes, dizendo isto naõ ser dado senaõ aos que vinhaõ da
casta, e sangue de Aaron. ElRey os ameaçava, que os mandaria matar se
senaõ calassem. Estando nisto se levantou hum terremoto, e defronte
da Cidade no lugar chamado Eroge arrebentou ametade de hum monte, que
estava contra a ponte, e com grande impeto correo a terra por espaço de
quinhentos passos, e foy alagar as hortas delRey, nas quaes se deteve
sem passar mais adiante, e onde estava Ozias, a claridade do Sol se fez
muito mais clara, e resplandecente, e dando-lhe no rosto ficou cheyo de
lepra, de que depois morreo, e por esta enfirmidade lhe foy necessario
sahir-se de Jerusalem. Que direy da maldade de Joraõ Rey de Judà, que
certo naõ mereceo ser filho de tal Principe, como foy ElRey Jozaphat,
matou seus irmãos, e quantos amigos tivera seu pay, e foy o primeiro,
que fez adorar os idolos em Jerusalem, constrangia seu povo sobir aos
montes altos, e adorar os Deozes falsos, e naõ conhecidos? Nem foy
menos preverso ElRey Ochozias seu filho, e elle, e Joraõ foraõ depois
mortos por hum Capitão Gentio.
Naõ me quero deter em huma cousa taõ clara, como he a prova de hum
taõ grande vicio, o qual sem duvida he tamanho, quam grande virtude
sempre foy, e hade ser hum Rey, e Senhor natural de todos poderse com
razaõ chamar Pay de todos. Naõ hade viver o Principe para si só, nem
para sua deleitaçaõ, mas para com muito trabalho, e continua vigia
ganhar o amor de todos seus vassallos, como fez o muy esforçado, e
prudente Rey David, de quem se escreve, que tendo vencido seu filho
Absalaõ, que se lhe erguera com todo o Reyno, e tornando-se com
vitoria para Jerusalem, encontrou o Tribu de Judà ao Rio Jordaõ, que
se adiantàra ao hir receber, e queixando-se disto os outros Tribus,
que ficaraõ mais atraz no lugar que chamaõ Galgalà, o Tribu de Judà
se escusava polo parentesco que tinha com David, a isto responderaõ
os principaes dos outros Tribus estas palavras: _Espantados somos de
vòs irmãos, cuidares, que ElRey só he vosso parente, por quanto quem
sobre nòs todos recebeo o mando de Deos, este com nosco todos tem igual
parentesco, e sendo nòs as onze partes do povo, e vòs a huma, e assi
sendo mais antigos, que vós, naõ fizestes bem em nos querer tomar a
dianteira escondida, e maliciosamente_; sem duvida, razaõ tinhaõ nestas
palavras os onze Tribus, que tanto que huma pessoa he Principe, logo
cessaõ os respeitos particulares, e obedecem ao proveito commum, e he
para notar o grande amor, que os Judeos tinhaõ a ElRey David, que elle
merecia por suas grandes bondades, e affeiçaõ que tinha a seu povo.
Naõ cuide alguem, que as merces, e liberalidades dos Principes tem
mais força para os fazer bem quistos, que a santidade da vida; porque
naõ ha cousa (se me naõ engano) mais poderosa, nem de mór efficacia,
para ganhar a vontade dos vassallos, que os bons costumes. Felipe Rey
de Macedonia, sabendo que seu filho Alexandre por ganhar a vontade
d’alguns Fidalgos lhes fazia merce de dinheiro, dizem que ouve graõ
merencoria, e lhe escreveo huma breve carta por estas palavras: _Qual
razaõ, filho, te demoveo a cuidares, que te haviaõ de ser fieis
amigos os que por dinheiro forçasses athe quererem bem? Enganas-te, o
verdadeiro amor naõ se compra per dinheiro_. E tinhaõ por costume os
Reys de Macedonia, de chamarem às pessoas notaveis, e de seu conselho,
seus amigos, o que V. Alteza tambem uza, nem se pòde dar mais honrado
premio à virtude, que o titulo d’amizade, e para que todos vejaõ; quam
perfeitamente, e com quanta constancia ama a seu povo, ainda que a
todos seja notorio, direy duas principaes cousas, que em seu reynado
tem feitas, de que se possa comprehender facilmente com quanto amor, e
com quanto zelo trabalhou sempre pola conservaçaõ, e descanço geral de
seus vassallos.
Huma dellas he cazar-se com a muy poderosa Rainha Dona Catharina Nossa
Senhora, e a outra no tempo das grandes fomes, e esterilidades destes
Reynos, trabalhar tanto, que seus subditos vivessem abastados. Ardia
este Reyno em grandes suspeitas, e receos de males, que se esperavaõ,
a guerra parecia certa, os tempos naõ permetiaõ descanço, a vontade
dos homens naõ achava repouso algum. Naõ pòde V. Alteza naõ sòmente
sofrer os males de seus vassallos, mas nem a suspeita delles, por
onde logo no principio de seu reynado, sendo muito mayor seu muito
saber, e prudencia do que se podia esperar dos annos, e idade, se
cazou com a Rainha nossa Senhora, Irmaã do Emperador Carlos V. deste
nome, e para mais liança, e remate de taõ santa amizade, mayormente
antre Reynos vezinhos, e comarcaõs, dahi a hum anno lhe deu por
molher a Infanta Dona Izabel sua Irmã, dando-lhe com ella taõ grande,
e magnifico dote, digno de seu Real coraçaõ, que com razaõ se pòde
comparar com as promessas delRey Dario, e liberalidades de Alexandre
Magno. Assim que lançado o fundamento da paz, o povo dantes suspenso,
e solicito descançou, e vendo mostra de tanto amor o começou com mais
razão d’amar, e tanto cada dia mais o ama, quanto as obras de V.
Alteza merecem cada dia mais de serem amadas. Mereceo, que lhe desse
Deos a Rainha Dona Catharina nossa Senhora por mulher dotada de toda
a perfeição, e santidade de vida, cujas virtudes saõ tantas, e taõ
grandes, que melhor se pòdem cuidar, e ver no pensamento, que louvar
segundo seu alto merecimento polo qual nem eu me acho assaz eloquente
para as poder dizer, e ainda q́ fosse, se deve isto guardar para outro
tempo, em que mais conveniente, e copiosamente em seu proprio lugar se
possa fazer.
Mas como poderey eu dizer a estremada diligencia, que V. Alteza uzou
nos tempos das grandes esterilidades de seus Reynos, mandando vir trigo
de diversas partes do Mundo, aventurando grande soma de dinheiro, e
suas armadas a tantos perigos, vencendo as dezordens dos tempos, e
contraria constellaçaõ do Ceo, porque seu povo não sentisse fome, e
vivesse contente, e abastado, com taõ verdadeira piedade, e amor,
como se elle somente fora o que sentira? Grande mal he a mingoa das
cousas, que muito importaõ à vida, de que nascem mil queixumes, e
descontentamento, e por isso tanto mòr louvor merece o Principe, que
atalha as necessidades de seu povo. ElRey Herodes filho de Antipatro,
por soccorrer a huma tal esterelidade ao Reyno de Judéa, mandou vir
muito trigo do Egypto com que abastou aos naturaes, e estrangeiros. Foy
amado, e julgado porRey excellente, posto que no tempo atraz, tivesse
feito grandes males, e cruezas, e delle se escreve, que em outra
esterilidade, quitou a terça parte das rendas, que lhe eraõ devidas;
pois com quanta mòr razão merece V. Alteza ser louvado, e quanto mais
evidente nos mostra o amor, que nos tem, o qual nas necessidades, e
carestias deste Reyno, naõ de terra taõ vizinha, e comarcaã, como era
o Egypto de Judèa, mas de Reynos taõ afastados, como saõ Sicilia, e
Alemanha mandou trazer à sua propria custa tanta abastança de paõ, e
assim a seus rendeiros, naõ sómente em hum anno, mas em todo o tempo
tem feitas, e faz cada dia grandes, e muy liberaes quitas? Louva-se o
Emperador Trajano, que havendo esterilidade no Egypto por naõ encher o
Nilo ordenou que levassem là d’outras partes muita soma de trigo, e
assi o Emperador Octaviano, nas fomes de Roma provia com muito cuidado
as necessidades do povo, fazendo vir paõ de muitas partes, o qual
mandava dar de graça, ou vender por baixo preço. Mas quanto a esta
parte sobre todos he louvado o Emperador Severo, que naõ sómente em
quanto foy vivo, trabalhou que em Roma naõ houvesse tal necessidade;
mas ainda foy causa, que depois de sua morte, pola provisaõ, que
leyxou, vivesse sete annos o Povo Romaõ abastado. A fartura, que he
dada polo Principe, como verdadeiramente diz Plinio, he huma mercè
perpetua, que sempre dura nas vontades, e o Principe liberal naõ menos
aproveita a propria fazenda, que a fama: por isso dizia o Emperador
Aureliano, que naõ havia cousa no mundo mais para folgar de ver, que o
Povo Romaõ, quando era abastado, nem deu menos gloria ao grande Pompeo
a empreza de fazer vir paõ a Roma, que os triumfos, e vitorias, que
trouxe d’Oriente.
Sem duvida todos estes louvores cabem em V. Alteza, e nisto se pode
ver com quanta razaõ merece ser amado de seu Povo, o qual tanto mais
verdadeiramente o ama, quanto mais certo vè, e sabe, que as mercès,
que lhe faz, vem de sua propria bondade, sem algum seu particular
respeito, que entaõ he verdadeiro o amor quando as boas obras nascem
delle só, e naõ da esperança d’algum interesse, mas nem com isto
satisfaz ainda o seu muy virtuoso zelo, e santa inclinaçaõ. Novas
maneiras, novos caminhos busca cada dia com que tenha mais contente seu
Povo, e naõ tendo nos mais, que dezejar, todavia o seu dezejo cresce,
e nunca cansa, e satisfazendo a todos, sómente a si nunca satisfaz.
Era entrado neste Reyno, polo costumes das sedas, hum mais desordenado
gasto no vestir do que cumpria ao bom ensino, e honestidade, e trajo
antigo desta Naçaõ, o que vendo V. Alteza de tal maneira o atalhou, e
remediou, que elle mesmo foy a ordenaçaõ, someteo sua real authoridade
a trajo temperado, e commum, digno da gravidade de seus antepassados,
porque naõ sómente com as virtudes d’alma, mas com o exemplo de fóra
aproveitasse ao povo, e lhe mostrasse tambem nisto o grande amor, que
lhe tinha. O quanto mais luzem, e resplandecem nelle os temperados, e
honestos vestidos, que em outros muitos Principes brocados, e forros, e
golpes demasiados! Sem duvida tanto mòr verdade he o que digo, quanto
no Principe he mais louvada a temperança, que a desordem do appetito.
Com razão deve ser reprehendido Aureliano Emperador Romaõ, que usou
primeiro pòr Diadema na cabeça à maneira dos Principes barbaros, e
vestio Opas d’ouro tirado, cubertas de perolas, e pedras preciosas, as
quaes insignias leyxaraõ depois os Reys Christãos em sinal de humildade.
Que direy dos Moços, que V. Alteza à sua propria custa mandou, e cada
dia manda à Universidade de Pariz aprender as Artes liberaes, e Santa
Theologia, porque a honra de seu Reyno naõ menos nas Letras, que nas
outras virtudes seja por elle acrescentada? Louvado he o Emperador
Trajano, por mandar criar cinco mil meninos Romaõs pobres à sua custa,
mas tanto V. Alteza he digno de mòr louvor, que Trajano, quanto a
doutrina, e ensino das Letras se deve mais estimar, que toda a outra
criaçaõ. Nomeada he nas historias a memoria delRey Ciro, que sabia o
nome a todos os seus Soldados, e delRey Mitridates, que sabia vinte
e duas linguas de vinte e duas Provincias de que era Senhor: tambem
Temistocles Capitaõ Atheniense sabia o nome a todos seus Cidadaõs. V.
Alteza naõ sómente se lembra dos nomes, mas do merecimento, e preço das
pessoas, nem ganha menos a vontade de seus Vassallos com a viveza da
memoria, que com a perfeiçaõ das obras. Aquelle verdadeiramente se pode
chamar bom, que se preza de boas obras.