as cousas pertencentes a Deos, e à sua verdadeira Religiaõ, apoz estes
foraõ louvados os que fundaraõ Reespublicas, e as poderaõ conservar com
muita paz, e o terceiro lugar mereceraõ os Reys, e Principes, que com
Exercitos, e armas acrescentaraõ seu Estado, no quarto foraõ postos os
Letrados, e dahi segundo seu grào mereceraõ seu louvor, pois se cada
hum destes estados por si merece tanto, que louvor deve ser o do bom
Principe a quem de tantos, e taõ grandes bens, juntamente cabe muita
parte? Por certo taes devem ser os bons Reys, e por serem antigamente
taes, muitas Comunidades se tornaraõ em Reynos, e muy poucos Reynos
em Comunidades, como se lè do Reyno de Toscana em que reynou Porsena,
o qual foy desfeito, e dahi por diante governado por doze povos. No
principio do Mundo os homens viviaõ em Reepublica, e depois vieraõ a
ser governados por Reys, que he o Estado, a que a natureza mais se
inclina, mas antre as virtudes do bom Regimento, a conservaçaõ da boa
paz he muito aceita a Deos, e proveitoza às Reespublicas, e naõ sem
causa: quando Saturno reynou em Italia, por governar seu povo justa,
e pacificamente, os Poetas a este tempo chamaraõ dourado, e Numa
Pompilio segundo Rey dos Romaõs, por ser amador da paz naõ mereceo
menos louvor, que Romulo seu antecessor por ser grande, e muy esforçado
Capitaõ; e sendo temperada a opiniaõ, e exercicio das armas que ficou
de Romulo, com a paz de Numa o povo Romaõ veyo a ser bem quisto de
seus vizinhos, e comarcaõs; mas porque mal se conserva esta virtude,
quando naõ he fundada em serviço, e devaçaõ de Deos, V. Alteza como
Principe Christianissimo em nenhuma cousa he mais occupado, nem traz
mais pronto seu pensamento, que em cumprir perfeitamente, tudo quanto
toca ao serviço de N. Senhor, e de sua Santa Fè, sabendo certo,
que naõ pòde ser melhor cousa para hum Principe Christaõ, que fazer
inteiramente justiça, e o que elle manda. Quem poderia bem dizer quam
liberal V. Alteza he nos gastos dos Hospitaes, Mosteiros, e Igrejas de
seus Reynos, muitas dellas edificando magnificamente, outras provendo
de sumptuosos retabolos, e ornamentos, e geralmente a todas, e assi a
muitas fóra do seu Reyno fazendo esmollas muy grandes em todo o tempo?
Que direy do cuidado, que continuamente tem sobre a reformaçaõ das
Ordens, veneraçaõ do Culto Divino, e conservaçaõ da Fè Christã? Quam
novas maneiras busca, para que em nenhuma cousa, que toque à sua
consciencia, offender a vontade de Deos; clara cousa he ao Mundo sua
verdadeira devaçaõ, claro he o bom exemplo, que assi nesta, como em
todalas outras virtudes dà de si. Quam bem estaõ estas tres partes a
hum Principe, justiça, amor da paz, e Religiaõ? Quam bem se concertaõ
antre si, e ajudaõ huma à outra? Por certo naõ se pòde melhor, nem mais
fermosa cousa pintar aos olhos que a paz esmaltada sobre verdadeira Fé,
e amor de Deos, a qual he em si de tanta perfeiçaõ, e merecimento, que
a quantos Reys do Testamento Velho, e Principes Christãos inteiramente
a guardaraõ, foy sempre causa de grandes bens, e acrescentamentos
de seus Estados. Mal se pòde conservar huma Reepublica em que naõ
haja amor de Deos, e este amor mais crece na paz, que na guerra,
pola qual Numa Pompilio, segundo Rey dos Romaõs (de quem pouco ha
que falley, digo isto por quanto a falsa Religiaõ em algumas cousas
segue a verdadeira) dezejando que a devaçaõ em Roma fosse mayor do
que era, primeiro que nada fizesse, assentou as cousas da paz, e
como affirma Tito Livio em todo o tempo de seu reynado, que foraõ
43. annos, em nenhuma cousa mais trabalhou que em ter o povo Romaõ
pacifico, sendo certo que desta maneira facilmente o pudera applicar
às cousas da Religiaõ. Aquelle muy esforçado, e naõ menos Religioso
Principe, Profeta, e Rey David em quanto andou occupado nas guerras
necessarias às Reespublicas dos Judeos, naõ pode tambem cumprir, como
elle dezejava, o que tocava ao Culto, e Veneraçaõ de Deos, mas depois
que vencidos seus inimigos teve paz, compoz elle mesmo em louvor de
Deos Psalmos, e Hymnos em diversas maneiras, de metro, ordenou novas
maneiras de instromentos, Psalterios de dez cordas, Violas de doze, e
Campainhas de arame, com que aos Sabados, e outras festas do anno os
Levitas tangendo louvassem a Deos.
Tambem Ezechias Rey de Judà Principe muy Santo estando em muita
paz restituio as solemnidades do Templo, e escreve-se delle, que
acompanhado dos principaes do povo sohia sacrificar com os Sacerdotes,
estando os Levitas ao redor delle, e cantando Hymnos, como foraõ
ensinados por David: acabado o Sacrificio, ElRey, e todo o povo se
lançava debruços no chaõ, dando graças a Deos por esta tão fervente
devaçaõ, mereceo que sojugasse as Cidades dos Philisteos, e que fosse
livre do cerco de Senacherib Rey dos Assyrios, e pela mesma causa
ElRey David nunca pode ser vencido em batalha. Hircano da linhagem
dos Macabeos, Principe dos Sacerdotes, todo o tempo da paz empregava
nas cousas da Religiaõ, por onde mereceo, que lhe fosse dado espirito
de profecia, e que estando devotamente incensando o Sancta Sanctorum,
ouvisse a voz de Deos, que lhe disse, que seus filhos venceriaõ a
ElRey Antiocho. Naõ a hy no tempo da paz, cousa mais pertencente à
dignidade Real, que o exercicio da devaçaõ, e naõ sem causa antigamente
todos os Reys eraõ Sacerdotes, e traziaõ Diadema, que primeiro foy
achada por Bacho, a qual era hum pano branco atado derredor da cabeça,
que tomarão dos Sacerdotes, para terem continuamente lembrança das
cousas, que tocassem à Religiaõ, e da maneira que a devaçaõ aproveita
muito aos Reys, exemplo della recebe o povo grande fruto. Se o povo
Romaõ naõ vira Numa Pompilio taõ occupado nas cousas Divinas, mal se
podera aplicar a ellas, e esquecer dos màos costumes, que o tempo da
guerra traz consigo, mas vendo seu Principe tambem inclinado edificar
tantos Templos, ordenar tantas Ceremonias, e Sacerdotes, facilmente
se demoveo que havia Deos, por onde leixando a força, e as armas se
deu ao mesmo Exercicio, e diz Tito Livio, que em breve tempo foraõ os
Romaõs taõ devotos, que só o temor, e authoridade da Religiaõ os fazia
continentes, e bem ensinados, sem outro temor de leys, nem execuçaõ
de penas, e por isso as Cidades vezinhas, e terras comarcaãs, que
sohiaõ antes recear o crescimento de Roma, vendo taõ santa mudança de
costumes, lhes guardaraõ (em quanto reynou Numa) inteira amizade,
avendo por grande mal hirem contra aquelle Reepublica, que tanto
cuidado tinha de viver santa, e religiosamente.
Escreve-se que havia em Roma hum mancebo nobre chamado Cayo Valerio
Flacco, que sendo muy vicioso, era malquisto de todo o povo, aborrecido
de seu mesmo irmaõ, e parentes, o que vendo Publio Licinio Sacerdote
mayor, pessoa naquelle tempo singular, e de grãde authoridade dezejãdo
muito de emendar huma taõ deshonesta vida, o constrangeo por razaõ de
seu officio a q́ fosse Sacerdote de Jupiter, o que posto, que logo no
principio parecesse estranho a Cayo Valerio, com tudo depois que se
deu ao cuidado das Ceremonias, e cousas Sagradas, em breve tempo se
esqueceo da vida passada, e se fez taõ virtuozo, que em toda a Cidade
de Roma senaõ achava pessoa mais virtuosa, e honesta, finalmente tanto
foy o preço, e estimaçaõ de sua virtude, que lhe foy concedido, que os
Sacerdotes de Jupiter dali por diante podessem entrar, e ter assento no
Senado, cousa, que athe entaõ nenhum outro Sacerdote podera alcançar.
Pois se a Religiaõ dos Gentios reprovada, e falsa tinha poder polo
apartamento dos vicios, e limpeza do espirito de cauzar tanta perfeiçaõ
a quem a seguia, quanto mais se deve isto d’esperar da verdadeira Fè
de Christo? Por certo Principe Christaõ, que bem conserva esta parte,
naõ somente a si, mas a todo o povo, que lhe obedece, e toma seu
exemplo, aproveita muito, e tanto mais com esta virtude, que com as
outras, quanto he esta mais chegada, e espiritual a Deos, posto que
se bem queremos olhar, encadeadas, e tecidas estaõ todas as virtudes
antre si, que aonde ha perfeita justiça, tambem ha perfeita paz, e
amor do proximo, nem pode aver perfeita paz, sem perfeita Religiaõ.
Santa tençaõ era a d’elRey Abias de Judà filho de Roboaõ, o qual naõ
sendo mais que de 18. annos, estando para dar com pouca gente batalha a
Jeroboaõ Rey dos dez Tribus, que trazia muito mòr exercito, esforçava
aos seus, dizendo: que naõ temessem, porque sendo Jeroboaõ injusto, e
desprezador da verdadeira Ley, por mais gente que tivesse, naõ poderia
vencer, e que pois o fundamento da vitoria estava na justiça, e amor de
Deos, que conhecido era a qual das partes se avia mais d’inclinar: isto
dizia em seu favor, e da gente do seu Exercito, que antaõ guardavaõ a
Ley inteiramente.
Sabida cousa he com quanto cuidado os Romaõs guardavaõ sua falsa
Religiaõ, e de crer he, que mais devotos foraõ da verdadeira, se della
tiveraõ conhecimento. Escrevem delles, que tinhaõ sobre tudo respeito a
naõ jurarem falso: nomeado he o exemplo de Marco Atilio Regulo Capitaõ
dos Romaõs, o qual sendo captivo na Cidade de Carthago, e mandado a
Roma por parte dos Carthaginenses a fazer huma troca de cativos antre
Roma, e Carthago, com juramento, que não acabando nada se tornasse à
prizaõ, Regulo depois de vir a Roma, e naõ acabar nada com o Senado
daquillo a que viera, podendo ficar na patria, para o que era requerido
de todos, e sua mulher, e filhos, e parentes com muitas lagrymas, com
tudo quiz antes tornarse a entregar, sabendo certo, que havia de ser
morto com asperos tormentos, que naõ ficando em Roma haver de quebrar
seu juramento: tambem se escreve, que depois da batalha de Canas em que
Anibal desbaratou os Romaõs, vindo à noticia de Scipiaõ, que depois foy
chamado Africano, como alguns Mancebos Fidalgos Romaõs desesperando
jà da sua Reepublica se queriaõ passar a Sicilia, Scipiaõ os foy logo
buscar, e com hum punhal a cada hum nos peitos os fez jurar, que
naõ se partiriaõ, nem leixariaõ em tal tempo a Reepublica, e este
juramento ainda que fosse com medo, e por força, com tudo foy por elles
guardado inteiramente: sem duvida muito necessario he o temor de Deos,
e do outro mundo para a conservaçaõ de qualquer Estado, porque o bom
Principe por força ha de acatar o temor de Deos, e o seu acatamento
dura para sempre. Numa Pompilio, de que jà tratey, e Solon, que deu ley
aos Athenienses, e Licurgo, que as deu aos Espartanos, em nenhuma cousa
mais se fundavaõ, que em dar grande authoridade às Religioens, sem as
quaes viaõ, que nenhum ajuntamento, nem Reepublica podia durar muito
tempo.
Le-se de Cyro primeiro Rey de Persia, e Media, que foy Religioso,
e devoto, e assi elle como todos os Reys seus successores mandaraõ
aos Sacerdotes, e Levitas dos Judeos, que os encomendassem a Deos no
Templo, e por este respeito se haviaõ bem com elles, por onde creo
eu, que suas cousas hum tempo foraõ tanto àvante. Aquelle graõ Rey
Xerxes da Persia, espanto do mundo, que contra Grecia armou hum milhaõ
de homens passou hum privilegio de grandes liberdades em favor dos
dez Tribus, que entaõ moravaõ nos Reynos de Persia, e Media alèm do
Rio Eufrates, e foraõ là passados por ElRey Salmanasar depois de ter
vencido ElRey Osias: este privilegio foy entregue a Esdras Judeo
naquelles tempos justo, e de muita authoridade o qual o mandou aos
dez Tribus; escreve Jozepho, que por este respeito os Judeos ganharaõ
grande affeiçaõ a ElRey Xerxes, e alguns se vieraõ com casas movidas a
Babilonia para dahi se passarem a Jerusalem, com tudo os mais delles
por amor de taõ bom Principe se não quizeraõ mudar, por onde diz o
mesmo, que ainda em seu tempo naõ havia mais no Imperio dos Romãos,
que dous Tribus, e que os outros dez viviaõ alèm do Rio Eufrates,
onde multiplicavaõ sem nenhum conto; mas de todos os Principes
Gentios, que foraõ devotos do Testamento Velho, ninguem mereceo ser
taõ louvado como Ptolomeu Philadelpho Rey do Egypto, porque desejando
muito de entender a Ley dos Judeos mandou a Jerusalem pedir a Eleasar
Principe dos Sacerdotes alguns Letrados, que lha viessem declarar, o
qual lhe mandou os setenta e dous interpretes, seis de cada Tribu, e
com elles a Biblia, que estava guardada no Templo, e vendo ElRey o
livro em que estavaõ escritas todas as Leys de Moysés com letras de
ouro, maravilhado da formosura da letra, da delgadeza do pergaminho,
e sutileza da encadernaçaõ, deu muitas graças a Deos, e chorando com
prazer dizia, que dalli por diante saberia reynar.
Este Rey mandou resgatar, e dar liberdade a todos os Judeos, que
achassem cativos no Reyno de Egypto, pagando por elles todo o preço
aos Senhores, e foraõ livres assy mais de cem mil pessoas, e naõ
se contentando desta só magnificencia, mandou offerecer no Templo
muitas peças d’ ouro, e prata de grandissima estima, huma das quaes
foy aquella Mesa taõ nomeada cuberta de perolas, e pedras preciosas,
em que se haviaõ de pòr os doze pães da proposiçaõ. Foy tanta a sua
devaçaõ, que em quanto se esta Mesa lavrava, elle per si a hia ver
muitas vezes, porque com sua presença mais cedo, e mais perfeitamente
se acabasse. Teve Philadelpho com esta virtude outras muitas, foy
engenhoso, prudente, liberal, e os mais dos privados, que tinha, eraõ
grandes Letrados, e certo huma taõ excellente parte naõ podia estar
desacompanhada d’outras muitas, como verdadeiramente diz Plutarco,
o Rey he Imagem de Deos, o Rey novo representa ley nova, por isso
cumpre muito ao bom Principe ter quatro cousas saber, bondade, poder,
e temor de Deos, nas quaes se bem olharmos consiste o bem de todo hum
Reyno: estas havia todas em Cesar Augusto Emperador de Roma (a quem
naõ minguava nada para ser perfeito Principe, senaõ o conhecimento
do verdadeiro Deos) e foy taõ pacifico, taõ justo, taõ quieto seu
Imperio, que em seus tempos quiz vir ao mundo a tomar carne nosso
Salvador. Antre as virtudes, que neste Emperador havia, nenhuma foy
mais louvada, que a Religiaõ, que como jà disse, mais perfeitamente se
mostra no tempo da paz: escrevem delle, que ordenou muitos sacrificios
em Roma, que per si mesmo celebrava, edificou magnificos Templos, e
Casas d’oraçaõ, huma das quaes ainda hoje dura, feita em nome de Marco
Agrippa, que foy depois dedicada a Nossa Senhora, que chamaõ a Redonda,
e porque o Conselho (a que os Romaõs chamavaõ Senado) senaõ podia fazer
senaõ em templo consagrado, ordenou que todo o Senador antes, que
nelle entrasse, sacrificasse àquelle idolo, em cuja Casa se haviaõ de
juntar, o que fez por cada hum, tendo mòr acatamento à Religiaõ desse
seu parecer mais desenganadamente, e sem algum respeito, nem affeiçaõ,
sem duvida santa tençaõ de Principe era esta querer começar todas suas
cousas de Deos, se como jà disse este seu trabalho fora empregado no
amor da verdadeira Religiaõ, e cousa justa he, pois Deos he principio
de todalas cousas, que a elle sempre ponhamos diante no começo de todas
nossas obras, e por este respeito, quando os Principes antigamente
haviaõ de fazer alguma falla, pediaõ ajuda a Deos, tambem o Emperador
Trajano, sendo Gentio era muy justo, e devoto.
Se alguem me perguntasse a que fim ajuntey tantos exemplos de Gentios,
poderia responder, que pois os Principes idolatras cegos, e envoltos na
ignorancia de seu engano com tanto trabalho conservavaõ, e procuravaõ
as cousas de sua seita (o que a elles era causa de muitas virtudes,
e de seu louvor, e acrescentamento) que devem fazer os Principes
Christãos, a que o conhecimento, e veneraçaõ do verdadeiro Deos pode
ser causa de tantos mòres bens? Quanto mayor galardaõ merece o bem,
que o mal? E a verdade, que a falsidade? Vemos por experiencia, quam
bons Principes foraõ, e quanta ventagem fizeraõ aos Gentios os Reys
Christãos, que nesta parte mereceraõ louvor.
Tragamos à memoria o Emperador Carlos Magno, e acharemos, que naõ
houve Principe, que se compare com elle, muitas virtudes houve nelle,
que quem perfeitamente tiver huma, he necessario, que tenha todas as
outras, com tudo o amor de Deos, e da Religiaõ lhe deu muito mayor
gloria, assi neste mundo como no outro: esta o fez (sendo-lhe pedida
ajuda polo Papa Adriano) passar em Italia contra Desiderio derradeiro
Rey dos Longobardos com grande exercito, ao qual vencendo em batalha
campal foy por elle restituido o Papa à sua dignidade, esta o fez
mover guerra a toda Saxonia; a huma graõ parte d’Alemanha por naõ se
querer tornar a Fè de Christo lha fez taõ aspera por espaço de trinta
annos, atè que por força a sojugou, e fez converter à verdadeira Fè:
esta o moveo a tomar a empreza contra os Mouros, que tinhaõ occupado a
Hespanha, quando foraõ por elles eleitos os doze do seu conselho, que
agora chamamos Pares, ou Padres, seis Leigos, e seis Ecclesiasticos,
todos Duques, ou Bispos, ou Condes: esta mesma o fez hir poderosamente
contra os Hunnos, gente barbara, de que jà falley, que tinha feito
grande danno em toda a Christandade, e com a ajuda de Deos os venceo,
e desbaratou, polo qual Leaõ Papa lhe deu novamente a Coroa, e
Insignias do Imperio Romaõ: finalmente esta foy causa, que ordenasse a
Universidade dos estudos de Pariz, onde continuamente se defendesse a
Fè, e ensinasse a Santa Theologia, naõ me occorre Principe dos Gentios,
que tanto fizesse por seus idolos, quanto este fez em louvor, e
acrescentamento da Fè Christãa, e sem duvida razaõ era, que sendo nossa
Fè taõ Santa, e taõ verdadeira, que a virtude della desse mayor animo,
e esforço a hum taõ Catholico Principe, e o ajudasse mais em taõ santas
empresas.
Oh quam bem està a hum Principe ser devoto! Quam bem està a quem teve
a Coroa na terra sobre os homens, ter depois outra muito mais preciosa
na Gloria do Ceo! Quam bem està a hum Reyno, poder allegar, que teve
hum Rey Santo, e aceito a Deos! Preza-se França d’ElRey S. Luiz, e de
Clodoveo filho delRey Childirico, que foy o primeiro Rey Christaõ, que
houve nella, do qual se conta, que no tempo que Remigio Bispo Remense
o baptizava, appareceo huma pomba no Ceo com huma redoma d’oleo no
bico, com que ElRey Clodoveo foy ungido neste Santo Sacramento, donde
ficou em costume, que os Reys de França em sua Coroaçaõ fossem ungido
com este oleo. Preza-se Ungria delRey S. Ladislao: preza-se Castella
da Santidade delRey D. Fernando, que ganhou Sevilha aos Mouros,
preza-se Portugal da grande fé d’elRey D. Affonso Henriques (segundo
alguns tem de Lorena) que se achou na Santa Conquista d’Ultramar, por
isso assi como he grande honra, e proveito do Reyno ser o Principe
servidor, e amigo de Deos, e seguir em tudo sua Santa vontade, assi o
Rey, que he mào Christaõ, he cauza de grandes males, e dannos a seus
vassallos, e naõ sey eu que escuza o tal possa dar a Deos, tendo delle
recebido tamanhas merces, como saõ mando, e poder, authoridade, e
sobre tudo lume, e conhecimento de sua verdadeira fè: mas esta virtude
taõ estremada, e taõ aceita a Deos, taõ particular he a V. Alteza
nas obras, quam geral a muitos nas palavras, e o proveito disto nòs
o sentimos, e sempre (como espero) sentiremos, nem he de crer que
Deos naõ leve sempre avante as cousas deste Reyno, sendo taõ santa, e
justamente governado por V. Alteza. Acha-se na Sagrada Escritura que
Asà Rey dos dous Tribus filho delRey Abias, tornando-se para Jerusalem
com seu Exercito muy alegre, pola vitoria que ouvera contra Zarà Rey
da Ethiopia, o Profeta Azarias o veyo esperar ao caminho, e o fez
estar quedo, e lhe disse que lhe fazia saber, que elle, e seu Exercito
venceraõ, porque viviaõ segundo Deos mandava, o que se levassem àvante,
haveriaõ sempre vitoria contra seus inimigos, mas se d’outra maneira
vivessem, que lhes aconteceria o contrario, e que tempo viria, que no
povo dos Judeos, se naõ achasse nenhum Profeta, nem Sacerdote, que
fallasse verdade, e que os Judeos seriaõ lançados por todo o Mundo, e
que viviriaõ pobremente, e com muito trabalho, por tanto os amoestava,
que naõ se apartassem da vontade, e devaçaõ de Deos.
Quam verdadeiramente o Profeta Azarias isto fallasse, se vio em todo
o tempo, e se vè cada dia por experiencia. Claro està, que em quanto
ElRey Saul foy obediente a Deos, venceo todas as batalhas, e suas
cousas foraõ àvante, ajuntou hum Exercito de sete centos, e setenta
mil homens com que desbaratou a Annaàs Rey dos Ammonitas, que vinha
contra elle poderosamente venceo com seis centos homens trezentos
mil Philisteos alevantando-se entre elles hum grande medo sem causa
evidente, que os poz em desbarato; mas depois que Saul contra o mandado
de Deos perdoou aos Amalechitas, gente da Arabia, naõ sómente suas
cousas foraõ mais adiante, mas perdeo a dignidade Real, e foy dado o
Reyno a outrem, que naõ era da sua linhagem. Escreve-se de Joathaõ
Rey de Jerusalem, que por ser devoto, e amigo da ley, e por edificar
huns Alpendres no Templo de Salamaõ mereceo vencer os Ammonitas: mas
escuzado he determe em cousa taõ clara chea està a Sagrada Escritura
das grandes merces que Deos fez aos que verdadeiramente o amaraõ, e naõ
sómente aos Judeos, mas a todos aquelles, que os defenderaõ, e foraõ
em sua ajuda. A principal causa segundo a opiniaõ de muitos, porque
Alexandre Magno venceo a ElRey Dario, foy porque passando junto de
Jerusalem, e saindo a recebello os Sacerdotes, e Levitas revestidos com
grande pompa, e solemnidade, o mesmo Alexandre Magno se deceo a elles,
e lhes fez muita honra, e acatamento, e sendo naquelle tempo Jerusalem
muy rica, e populosa de duas legoas de cerca, segundo escreve Hecateo,
que foy no mesmo tempo, em que havia cento, e tantos mil homens, com
tudo naõ quiz entrar nella, nem consintio que polos seus lhe fosse
feito algum danno.
Tambem o Emperador Julio Cesar, por favorecer o povo dos Judeos se cre
que mereceo ser vencedor nas guerras civis que teve com Pompeo, e polo
contrario Pompeo se perdeo, porque na guerra, que teve em Asia, sendo
Capitaõ dos Romaõs, entrou em Jerusalem por força no dia sabado, e
andou vendo o Templo armado com sua gente, sem fazer nenhum acatamento,
nem reverencia a Deos, e sabido està, que dali pordiante suas cousas
foraõ de mal em peor. O mesmo aconteceo a Marco Crasso, Capitaõ Romaõ,
pessoa de graõ riqueza, e authoridade, este passando por Jerusalem com
seu Exercito, e sabendo que estavaõ guardados no Templo de Salamaõ
oito mil talentos, que eraõ cinco contos de ouro pouco mais, ou menos,
e sendo de seu natural muy cobiçozo, os tomou por força sem nenhum
respeito, polo qual peccado foy logo vencido polos Parthos em batalha
campal em que morreraõ quarenta mil Romaõs.
Naõ leixarey de trazer aqui à memoria o caso d’Antiocho Rey de Asia,
chamado por sobrenome Epiphanes, que quer dizer illustre, ou claro,
o qual teve tamanho odio aos Judeos que destruio Jerusalem, roubando
quanto achou no Templo, e levando a meza de Philadelpho, mandou dentro
do Sancta Sanctorum alevantar hum altar em que fazia sacrificar
porcos, constranger por força aos Judeos, que adorassem os Idolos, e
comessem carne de porco, defendeo-lhes a circuncisaõ, edificou hum
Castello em Jerusalem, em que poz guarda de gente, derribou os muros
da Cidade, e os o que ousaraõ contradizer, mandou crucificar, e matar
com desvaraidos tormentos: por estas cruezas, e desprezo da verdadeira
Ley padeceo depois grandes males, e dezaventuras, e emfim morreo de
huma morte muy acelerada com grandes dores, que sem nenhum repouso o
atormentavaõ. Antiocho estando para morrer dizia bramando, que elle
merecia os males prezentes, e os passados por tratar mal o Templo, e
povo dos Judeos. Destes exemplos consta claramente, que no tempo ds Ley
velha favorecia Deos não sómente aos Judeos, que o serviaõ, mas tambem
a quem os ajudava, e pelo contrario a muitos, que os perseguiaõ, sohia
dar grave castigo, e assi como os Reys do Testamento Velho se eraõ
justos, e chegados a Deos, haviaõ grandes vitorias, assi os que taes
naõ eraõ, as mais das vezes haviaõ dezastrados fins, e eraõ vencidos de
seus inimigos, ainda que fossem mais poucos.