Naõ sey para que buscamos exemplos de fora? Tragamos à memoria a

destruiçaõ de Hespanha; e veremos, que a sem justiça delRey Rodrigo

derradeiro Rey dos Godos foy causa de tanto mal. Castiga Deos as mais

vezes os Christaõs por gentes infieis, e barbaros, ou por Christãos

de mà vida, e costumes abominaveis, e torpes. Hereges eraõ os que

foraõ chamados Adamitas, viviaõ em Comunidade, andavaõ nùs, moravaõ

em Covas, e havia entre elles muito torpes, e deshonestos costumes,

com tudo por homens de taõ mào viver permitio Deos, que fosse vencido

em batalha campal Sigismundo Emperador de Alemanha, e Rey de Ungria;

mas quando da sem justiça se naõ seguissem outros males, devia de

bastar verem todos claramente quam vituperada foy sempre a memoria dos

que cahiraõ nesta culpa, e queria, que me dissessem, que mòr gloria

podia set a do Emperador Trajano, e que mòr mofina, que a de Nero? Que

aproveitou a Federico II. deste nome, sendo taõ mào homem, como foy,

ser Emperador de Alemanha, ser Rey de Sicilia, e herdar o direito do

Reyno de Jerusalem, casando com huma filha de Joaõ de Brenha derradeiro

Rey della, donde todolos Reys de Sicilia dahi por diante tomaraõ este

titulo? Foraõ estas grandes honras, e as mòres, que entre os Christaõs

se podiaõ dar, com tudo por ser Federico taõ mào Emperador, naõ sómente

naõ deraõ lustro à memoria, que delle ficou, antes tanto mòr nodoa lhe

puzeraõ, quanto os defeitos dos Principes se vem, e sabem melhor, que

os dos outros homens; qual homem justo, e de boa razaõ aceitaria o

estado deste com sua mà fama, sendo como foy muy contrario, e grande

inimigo da Igreja Romana, mandando matar hum seu proprio filho por nome

Henrique, por sentir nelle, que era bom, e differente de seus màos

costumes; dando começo aos bandos dos Guelfos, e Gibilinos, que hoje

em dia duraõ em Italia, e Guelfo, e Gibilino saõ nomes Alemães, que

segundo se escreve, foraõ postos na Cidade de Pistoya, e dizem, que

andava este Emperador correndo as Cidades de Italia, Villas, e lugares,

e os que achava de sua banda contra o Papa, e Venezianos, chamava

Gibilinos, e os contrarios Guelfos; emfim naõ se contentando com ser,

em quanto viveo, tirano, mas sameando cousas de tanto damno, odio, e

differenças para sempre nos povos de Italia.

Mas claro he a todos, quam aceita virtude a Deos, e ao mundo, e quam

proveitosa as Reespublicas, he a justiça, e polo contrario, quantos,

e quam grandes males nascem da semjustiça; por isso que Panegyrico,

que louvor naõ merecerà V. Alteza obrando taõ perfeitamente do começo

de seu Reynado, todalas cousas, que tocaõ a taõ estremada virtude?

Naõ bastaõ forças humanas a dar igual louvor, ou premio a taõ alto

merecimento, posto que o verdadeiro deve esperar de Deos, do qual jà

tem conseguido hum dos mores bens, que da justiça nascem; este he ter

em muita paz, e tranquilidade os seus Reynos, quanta pola ventura nos

outros Reynos Christaõs de muitos annos a esta parte naõ houve. Plinio

em hum seu Panegyrico, que fez ao Emperador Trajano diz, que entaõ se

poderaõ chamar os Reynos, e Reespublicas bemauenturadas, quando se der

galardaõ à virtude, e os bons forem estimados, e os màos naõ forem

temidos, mas estes taõ grandes bens, que nascem do Principe, ou da

Reepublica justa, melhor se mostraõ nos tempos da paz, que da guerra,

porque ainda que se a guerra trate, como deva, com tudo naõ sendo os

tempos quietos, mal se podem de todo refrear os appetitos dos homens,

e por isso naõ hà tempo em que se assi possa usar toda a virtude, como

no da paz: esta para ser firme, e qual cumpre ao verdadeiro estado das

Reespublicas, he necessario, que tenha seu fundamento na justiça, sem a

qual naõ hà cousa segura, nem que possa durar muito.

Dizem as nossas Chronicas, que ElRey D. Pedro de Portugal vosso IV.

Avo, filho delRey D. Afonso, a quem chamaraõ do Salado, foy Principe

justo, por onde ainda que sua justiça parecesse hum pouco aspera,

teve seu Reyno em tanta paz, e foy tambem quisto do povo, que segundo

a voz geral, nunca se viraõ taes dez annos; naõ aconteceo assim no

mesmo tempo a ElRey D. Pedro de Castella, o qual por sua semjustiça, e

cruesa a poz toda em revolta, e lhe foy necessario sahir do seu Reyno

deshonradamente, e passar-se a Inglaterra; mas posto que da justiça

venha paz, e da semjustiça nasçaõ odios, e differenças, naõ leixa V.

Alteza de ter respeito particular à paz, e de tal maneira se reparte

em cada virtude por si, que sendo geral em todas, he perfeito em

cada huma. Quem poderà dizer, com quanta prudencia, com quanto zelo,

tendo guerra entre si a mòr parte dos Principes Christaõs, elle como

verdadeiro Pay de todo o seu povo procurou a paz universal destes

Reynos, naõ leixando cousa alguma, por onde vivessemos descançados;

favoreceo Deos este seu taõ virtuoso zelo, e quiz que em tempos taõ

trabalhosos nos pudessemos lograr de hum taõ proveitoso, e dezejado

bem, naõ hà no mundo triunfo, nem victoria, que se possa comparar com

os bens da verdadeira paz, por tanto pelejem de huma parte os Reys

Christaõs, e tenhaõ guerra huns com os outros, vaõ contra a paz, que

N. Senhor tanto encomendou a seus Discipulos, e em seu nome a toda

Igreja Catholica, vinguem suas paixoens às custas do sangue de seus

Vassallos; façaõ em pedaços a Vestidura de Christo, em que naõ hà

costura, nem divisaõ; V. Alteza da outra parte prosiga, como faz, sua

muy sancta tençaõ, faça guerra aos Infieis, e Mouros d’Africa; e movido

do santissimo zelo converta Ethiopia, e Arabia, Persia, e India à

verdadeira Fè de Christo.

Saõ por certo estas tençoens, e obras entre si muy differentes, mas bem

claro està quanta razaõ elle tem de se naõ arrepender das suas, nem do

que atèqui tem feito. Que descanço, ou que contentamento pode haver no

Reyno, ou Reepublica, onde naõ há paz? Por isso assi, como o fim do bom

Piloto he fazer prospera viagem, e do Medico dar saude, e do Capitaõ

alcançar vitoria; assi do bom Principe he conservar a vida, e descanço

de seus Vassallos, a qual cousa em tempo de guerra naõ pode ser;

alegre parece a guerra de fóra, mas quem a experimenta, este conhece

bem os trabalhos de huma, e os bens da outra, porque assi como na

doença se conhece o bem da saude, e na tormenta do mar o bem da terra,

assi naõ ha tempo em que melhor se julgue, e entenda o bem da paz,

que quando se carece della. Se a hum homem que nunca ouvisse fallar

em armas, nem tivesse alguma experiencia dellas, supitamente fosse

mostrado o apparato de dous grandes Exercitos, por mar, e por terra,

ordenados para se darem batalha, e visse os fermosos penachos, as armas

reluzentes, a multidaõ dos Cavallos, a ordenança da gente de pè, toda

bem disposta, e prestes para pelejar; as bandeiras, os esquadroens

em seu concerto: doutra parte visse no mar muitas Nàos, e Galeoens,

com muita gente bem armada cubertas de fermosas bandeiras rodeadas de

paveses, e cercada de toda a sorte de artelharia, sem duvida quem quer

que isto visse, naõ sabendo mais nada, naõ cuido eu que receasse de se

meter entre elles, e lhe pareceria, que via a mais fermosa cousa do

mundo; mas se depois de travada, e muy cruamente ferida a batalha, este

mesmo sentisse, e visse com seus olhos o grande ruido, e estrondo das

armas, a grita da gente, os golpes, e tiros d’artelharia, a multidaõ

dos mortos, corpos espedaçados, ays, e gemidos dos feridos, outros

serem pizados dos Cavallos, a confusaõ, o medo, e o espanto da morte

presente, e assi visse no mar as Nàos, e Galeoens arrombadas de tiros

de fogo, humas dellas hirem-se ao fundo, outras arderem em fogo, e

chamas de alcatraõ, as ondas vermelhas com sangue, o fumo da polvora,

os homens lançarem-se ao mar, e afogarem-se.

Quem isto tudo bem visse, bem creyo eu, que escolhesse antes a paz,

que a guerra, e que tomasse antes por partido viver em descançada, e

segura paz de bayxo da obediencia de hum Principe justo, que naõ querer

arriscar-se a tamanhos perigos por huma mostra falsa, e engano d’lhos,

e esperança incerta de vitoria; naõ se devem julgar as cousas polo

apetito, senaõ pola razaõ. Quem isto assi fizer, verà quanto mais val o

descanço da boa paz, que o sobejo exercicio das armas, porque posto que

ellas prometaõ vitorias, ou a guerra em si he de todo injusta, e naõ

pertence ao Principe Christaõ, ou tem muitos inconvenientes, que della

pòdem nascer, que devem todos ser olhados primeiro que nada se cometa;

por quanto os começos da guerra estaõ em nosso poder, e os cabos naõ;

eu naõ entendo aqui da que se faz aos infieis, e inimigos de nossa

Santa Fè, porque esta sendo justa, he proveitosa, e traz grande louvor

ao Rey Christaõ; mas toda a outra sorte della, que agora se usa, mais

do necessario, naõ sendo em defensaõ da Patria, se deve muito fogir,

e estranhar. Quem naõ sabe quam necessaria foy a guerra que ElRey D.

Joaõ I. deste nome teve com Castella pola defensaõ, e liberdade destes

Reynos?

Com tudo foy provada a vitoria por tantos males, que os taes tempos

soem trazer consigo, e por tanto sangue da gente Portugueza, que

segundo ouvi dizer, faltou mais da terceira parte da que sohia d’aver,

e eu tenho achado em Escriptura authentica, que naquelle tempo naõ

ficarão mais na Villa de Monforte que doze pessoas, avendo dantes duas

mil, e em Arronches huma só; pois se as perdas que em guerra taõ justa

se sentiraõ, toda via fizeraõ ao Reyno tanta falta, e foraõ causa de

tantas lagrymas, e dezamparo, quanto se devem guardar os Principes d’a

cometerem nunca, naõ tendo para isso justa causa, e grande necessidade?

E naõ sey eu, que conta os Reys darão a Deos da vida de seus vassallos,

a que elles por muy leves causas, e somente por seguirem seus

appetitos, foraõ causa da morte. Naõ foraõ os Reys ordenados por Deos

para homicidas de seu povo; mas para o defenderem, e ampararem, nem

devem taõ pouco estimar as vidas dos homens, os que naõ tem poder nas

almas depois da morte: naõ ha guerra taõ prospera, nem taõ vitoriosa,

em que se viva com tanto descanço, como no tempo da paz. Venceo

ElRey D. Joaõ I. deste nome a ElRey de Castella, e foy taõ gloriosa

a vitoria, que com ella se restituio a liberdade destes Reynos, com

tudo quem bem olhar o pacifico, e quieto estado dos tempos delRey

D. Dinis, e delRey D. Pedro, verá quanto melhor he viver em honrada

paz, que esperar vitoria ganhada com muito trabalho, e destruiçaõ da

gente. Muy bem entendia isto o mesmo Rey D. João, o qual sendo como era

taõ esforçado, favoreceo muito a paz, e conta-se delle, que estando

esperando a confirmação das pazes perpetuas, que lhe haviaõ de vir de

Castella, disse hum dia, que esperava por hum recado do mòr prazer, que

nunca ouvera.

Mas naõ basta ao bom Principe arredarse dos inconvenientes da guerra de

fora, mas cumpre-lhe tambem guardarse, que naõ se levante alguma dentro

no seu Reyno, e Casa. Este mal se escuza quando he bem quisto, e faz

muita justiça a seu povo, a todos he notorio, quantas desaventuras,

quantas fortunas, vem ao Reyno em que ha differenças antre o Rey, e

os vassalos, e esta sem duvida he a mais perigosa, que a de fora, por

quanto os males doutra parte pòdem se atalhar, antes que cheguem: os

de dentro jà naõ tem este remedio, nem pòde o Principe leyxar d’os

ter consigo em sua casa, digo isto naõ por se parecerem estes tempos

com os passados, e a virtude de V. Alteza, e assi a lealdade de seus

vassalos he tanta, que naõ menos o amaõ, do que os ama a elles; mas

porque minha tençaõ he que naõ menos saber, e justiça ha mister o

Principe para conservar a paz com os naturaes, que com os Estrangeiros;

este respeito tiveraõ alguns Reys de Portugal, naõ sómente em manter

estes Reynos em muita concordia, mas em trabalhar muito que a ouvesse

nos de fóra. ElRey D. Affonso de Castella Onzeno deste nome, indo

com seu Exercito para a frontaria dos Mouros disse em publico que os

Cavalleiros da frontaria eraõ taõ bons, como os de Castella, polo

qual na batalha d’Ilharcos (que dahi a pouco foy) D. Diogo Lopes de

Haro seu Alferes Mòr com todolos Cavalleiros estando assi de concerto

fugiraõ, e o leyxaraõ sóo, por onde elle se vio em grande aperto, e

foy ferido de duas azagayadas polas pernas, e naõ querendo sahir da

batalha por ser muy esforçado Principe, foy necessario aos seus, que o

tirassem della. Tanto empèceo huma sòo palavra deste Rey dita contra

os Cavalleiros, que de sua condição saõ vingativos; mas quam clemente

V. Alteza, e humano seja, e quam afastado de toda a sorte d’aspereza,

cousa he a todos muy sabida, o qual sempre uzou, e uza palavras cheas

de todo o comedimento, de toda virtude, e bom exemplo, acompanhadas

daquella authoridade, que cumpre ao bom acatamento da Magestade Real. O

Marquez de Villa Viçoza em huma carta, que escreveo a ElRey D. Affonso

V. sobre a ida de Castella, louva muito a paz della com Portugal, e

trabalha quanto pòde polo apartar de tal empreza, antes lhe prova por

muitas razoens, que elle mesmo se deve meter no meyo, e fazer a paz

entre ElRey D. Fernando, e os Cavalleiros, e a este proposito traz hum

exemplo delRey D. Joaõ I. o qual sendo, como diz, cometido por ElRey

d’Aragaõ para se liarem ambos com os Cavalleiros de Castella a partirem

antre si, ElRey depois de tomar o parecer dos Grandes se escusou,

dizendo que tinha paz com ella: por isso naõ sem cauza V. Alteza

trabalha tanto pola conservaçaõ da boa paz, pois a justiça, o respeito

de nossa Santa Fé, o proveito universal, e exemplo, e authoridade de

seus antepassados assi o requerem.

Verdade he o que se diz, que o bom Principe dà luz, e claridade de si,

como o Sol a todos, o que tanto mais se deve estimar, quanto muitas

vezes por culpa de màos Governadores he peor tratada, e naõ sómente com

os vassallos, mas com os filhos, irmaõs, e parentes tiveraõ jà muitos

Principes differenças, e guerra civil. Escreve-se de Iezabel Rainha

dos dez Tribus, e mulher delRey Acab, que sendo mulher desarrezoada,

e forte, e de crua condiçaõ, foy causa em seu Reyno de muitos odios,

e revoltas, matou todos os Profetas, que pode haver à maõ, e mandou,

que se adorassem os idolos no Reyno de Israel, e de Samaria. A Rainha

Athalia depois da morte delRey Ochozias seu filho governou o Reyno

de Judà seis annos taõ soberba, e cruamente, que mandou matar todos

os que vinhaõ da linhagem do Rey David, e pera mòr escandalo, e

descontentamento do povo fez edificar hum Templo em Hierusalem, em que

mandou adorar hum idolo, que chamavaõ Baàl, e ella porèm foy morta, e

ouve o castigo que suas grandes maldades mereciaõ.

Que direy de quantas differenças, e guerras civis ouve no Reyno de

França antre ElRey, e o povo? Le-se de Broncilde Rainha de França, e

mãy delRey Childiberto, que excedendo a toda a sorte de crueza, matou

seus filhos, netos, e bisnetos delles a ferro, delles com peçonha,

sómente por uzar à sua vontade de seus màos appetitos deshonestos: esta

foy semelhante a Euridice, Rainha de Macedonia, e filha de Amintas,

que foy nòra de Felippe, pay de Alexandre Magno, a qual soltando-lhe a

redea a seu mào, e torpe dezejo, fez tambem matar muitos seus filhos.

Se nos passarmos às Chronicas do Reyno d’Ungria, tambem acharemos que

ouve antre ElRey, e povo muitos bandos, e differenças, e leixando os

males prezentes, em que hoje aquelle Reyno està metido, que tem dado

a toda a Christandade assaz bem trabalho: o Rey Pedro, filho delRey

Estevaõ primeiro Rey de Ungria foy lançado della por usar contra seus

vassallos grandes cruezas, a estes succedeo Abbà, o qual em conjuraçaõ

feita contra elle, foy morto, e assi Salamaõ Rey d’Ungria foy lançado

por Gersa seu Primo com Irmaõ.

Naõ hà muito, que fiz mençaõ delRey D. Pedro de Castella; este reynou

taõ cruamente, que sendo lançado della, e querendo vir-se cà, ElRey D.

Pedro, sendo naõ pouco seu parente, o naõ quiz acolher, por onde lhe

foy necessario passarse a Inglaterra. Ainda he cousa fresca na memoria

dos homens, como o Rey de Dinamarca por semelhantes odios, foy lançado

de sua terra deshonradamente, e hoje em dia està prezo: que direy no

Reyno de Castella, quantas differenças, quantas conjuraçoens houve

antre os Reys della, e seus Filhos, e Irmãos, e outros muitos da Casa

Real, mas naõ me quero deter em cousa taõ clara; abaste a comparação

destes para se ver quamanho louvor he o de V. Alteza; e quanto lhe

devem seus Vassallos, vivendo por sua causa taõ afastados de tantos

males. Esta bondade, este amor, que mostra, naõ somente aos Infantes

seus Irmãos, de que depois direy, mas a todos em geral, e assi o

trabalho, que sempre toma para nosso descanço, accrescenta mais o amor,

que lhe seus Vassallos tem, o qual he mais firme, e aproveita mais aos

Principes; que todas as fortalezas por mais fortes, que sejaõ.

Aos Emperadores de Roma Tito, e Nerva, e Adriano, e Antonio, e Marco

por serem bons Principes, naõ eraõ necessarios Soldados, nem gente

armada, que os guardasse; os seus costumes, a boa vontade do povo, o

amor do Senado os defendia, e polo contrario aos màos Emperadores,

como foraõ Nero, Caligula, Vitelio, e outros muitos, naõ abastavaõ os

exercitos, que o Imperio Romaõ tinha em todo Levante, e Ponente para

se poderem guardar de seus proprios Vassallos, e por sua mà vida,

e costumes eraõ os mòres inimigos, que tinhaõ. He cousa muito para

notar, que de vinte e seis Emperadores, que foraõ de Julio Cesar atè o

Emperador Maximino, os dezaseis foraõ mortos a ferro, e os dez sómente

morrerão de sua morte: por isso tomem os outros Reys Christãos exemplo

de V. Alteza, e aprendaõ delle a viver em verdadeira paz, e sem duvida

tal deve ser o Principe para em fama, e gloria exceder os outros: jà

naõ recearey dizer alguma cousa porq́ sey de mim digo verdadeiramente a

qual he, que sempre folgára de ser Portuguez, mas agora o folgo de ser

mais, que nunca.

Muitas vezes cuidando eu, quantas mudanças, e differenças d’estados

houve nos Reynos de Portugal, acho que nunca tanto floresceraõ, como

agora, e para que mais claramente se veja pola comparaçaõ de cada

tempo, o que eu digo ser assi, brevemente farey de todos mençaõ. Jobel

filho de Jafet, e neto de Noè depois do diluvio veyo ter a Hespanha, a

qual delle, e de seus descendentes se povoou, estes se governarão por

Reespublicas, e Comunidades. O primeiro homem, se queremos dar fé às

fabulas antigas, que nella, e em Portugal entrou com exercitos, e a

conquistou, foy Bacho, depois os Curetes, gente da Grecia, seguindo a

Gargores seu Capitaõ, se fizeraõ senhores della, o qual Gargores foy

excellente Principe, e ensinou aos povos de Hespanha muitas cousas

necessarias para a vida, e proveito cõmum, por onde os successores

deste pacificamente reinaraõ atè o tempo delRey Giriaõ, em cujo tempo,

vindo Hercules o venceo, e nella ordenou novo estado. Depois, segundo

dizem, reynou Hispalo, de quem se nomeou Hespanha, mas da successaõ dos

Reys, que deste vieraõ, e de como se acabaraõ, a fama he incerta, e muy

obscura, posto que os Andaluzes antigamente se sohiaõ gavar, que tinhaõ

escripturas de seis mil annos: o que eu destes tempos por conjectura

alcanço he, que Hespanha se tornou a governar por Comunidades, e este

regimento durou atè que os Cartagineses com achaque de socorrerem a

Cidade da Calez, fundada polos Phenices, se fizeraõ senhores da mòr

parte della. Ao Emperador dos Cartaginenses succedeo o dos Romaõs,

que depois de grande perda, e estrago de seus exercitos em cabo de

300 annos sendo Emperador Octaviano acabaraõ de a conquistar, mas em

nenhuma parte desta Conquista tiveraõ os Romaõs mor fadiga, que em

Portugal.

Daqui sahio Viriato Portuguez Capitaõ, que desbaratou muitos exercitos

Romaõs em batalha campal, e em fim nunca pode ser morto, se naõ à

treyçaõ por engano, e astucia de Cayo Lelio Capitaõ dos Romaõs: daqui

se fez Sertorio contra elles com a gente Portugueza, lhes deu muito

trabalho, alevantando depois Portugal, e naõ querendo obedecer a

Roma, foy mandado cà Julio Cesar, e naõ devia Provincia taõ forte ser

vencida, se naõ por Capitaõ nunca vencido. Geral opiniaõ de todos

he a naçaõ Portugueza ser mais forte, e esforçada de toda Hespanha,

mas sendo (pola longa paz) Portugal afastado do uso das armas, e

tendo perdida muita parte da gloria, que com o exercicio dellas em

outro tempo ganhàra, ouzou Atila Rey dos Hunos mandar contra nos hum

exercito de Suevos gente d’Alemanha, que occuparaõ este estado, e

assi por espaço de cento, e setenta annos houve muitos Reys Suevos em

Portugal, atè que com muito trabalho foraõ lançados polos Godos, porque

depois da vinda dos Suevos os Godos seguindo Athanarico (que segundo

dizem foy primeiro Rey antre elles) poderosamente entraraõ em Hespanha

no anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de trezentos e

trinta e tres, e a tomaraõ, excepto a Portugal, que entaõ, como disse,

estava polos Suevos, depois Theodorico Emperador dos Romaõs venceo os

Godos, e os meteo debaixo do seu Imperio; mas naõ duraraõ mais que 18.

annos sogeitos; e logo Alarico seu Rey, que era natural do Reyno d’

Ungria, e por geraçaõ vinha dos Balteos gente de baixo do Norte, se

alevantaraõ, e tornaraõ a fazer senhores de Hespanha. Este Rey Alarico

foy muy esforçado Principe, e se fez Senhor de muita parte de Hespanha:

nestes tempos havia hum Rey dos Godos em Castella, e outro dos Suevos

em Portugal, atè que ElRey Theodorico, vencendo em batalha campal a

ElRey Reciario lhes ganhou Portugal, e porque dos Suevos ficava ainda

alguma parte, ElRey Leovigildo acabou d’os lançar de todo, e assi os

Reys Godos ficaraõ em posse pacifica de toda Hespanha, atè a derradeira

destruiçaõ della, que foy em tempo delRey D. Rodrigo, e sendo depois,

como sabemos, lançados os Mouros, se veyo a partir em muitos Reynos

como saõ Leaõ, Castella, Aragaõ, Navarra, e Granada, e aos Antecessores

de V. Alteza coube Portugal, cujos louvores, e feitos d’armas, porque

delles as nossas Chronicas estaõ cheas, naõ he necessario dizellas eu,

nem menos se deve tratar em taõ piquena obra.

Sómente he para notar, que querendo Deos restituir a gloria destes

Reynos quiz, que reynasse o muy Excellente Rey D. Afonso Henriques,

o qual continuamente pelejando pola Fè Catholica, e vencendo muitos

Reys Mouros em batalha campal renovou a fama da gente Portugueza, e

deu bemaventurado, e prospero começo ao Estado prezente: muitos Reynos

dos Gentios começaraõ em Reys esforçados, mas por naõ adorarem, nem

conhecerem o verdadeiro Deos duraraõ pouco, este Reyno sendo ganhado

a Mouros, e começado por Rey Christianissimo, e continuado por Reys

naõ menos Catholicos, devemos d’esperar, que durarà para sempre. Naõ

descançaraõ os Reys de Portugal, donde V. Alteza vem, atè que de todo

naõ lançaraõ os Mouros delle, em que se vè quanto mòr louvor mereceraõ,

que os outros Principes, que nos tempos mais atraz o conquistaraõ,

por quanto os Reys de Portugal mais antigos sojugaraõ, e trataraõ mal

os naturaes: os da linhagem delRey D. Afonso Henriques favorecendo

os naturaes sómente conquistaraõ, e venceraõ os de fóra: os Reys

muito antigos tinhaõ Portugal como Provincia, e tributaria: os que

deraõ começo à successaõ prezente, reynando justamente o amaraõ como

sua patria, e terra natural: dos primeiros tempos, havendo muitas

differenças de estado era necessario, que nascessem bandos, e guerras

civis, nos tempos mais chegados houve poucas differenças, e se algumas

houve logo foraõ apagadas em breve tempo; assi que claro se vè, quanto

mais prospero he o estado presente, que o dos tempos atraz, o que ainda

foy mais notorio reynando o muito victorioso Rey D. Manoel vosso Pay de

bemaventurada memoria, e assi agora o he em tempo de V. Alteza, cujo

glorioso Reynado tanto amor, honra, e preço dà a Portugal, quanto a

gloria de seo Regimento, e Conquista, que tem, excede a fama, e memoria

de seus antepassados.

Qual Principe de Portugal naõ digo eu, mas d’ Europa, triunfou da

Ethiopia, da Arabia, dos Persas, e dos Indios, descubrio tantos mares,

tantas Ilhas, deu tantas terras naõ conhecidas ao mundo? Qual Principe

converteo a Fè de Christo tantas Provincias, tanta multidaõ de almas,

cuja bemaventurança naõ pode leyxar de ser comunicada com a causa

della? Qual Principe com as suas vitorias, e triumphaes armadas rodeou

o Mar Occeano, passou os termos, e limites da navegaçaõ geral, alcançou

taõ grande fama na derradeira parte do Oriente, foy taõ temido de

Reys poderosos, e Senhores taõ apartados, finalmente fez conversaveis

aos Christãos com as Nações do nosso Ponente? Sem duvida esta tamanha

gloria, este tamanho bem, para o muy Victorioso Rey D. Manoel, e para

V. Alteza estavaõ guardados, ambos isto usaraõ, ambos isto cõmetteraõ,

e poderaõ levar àvante, polo qual bem he, que o Pay, e o filho

comuniquem huma mesma gloria juntamente: os Reys seus antepassados

com muita razaõ foraõ louvados polas victorias, que dentro neste

Reyno houveraõ, V. Alteza alèm de seus naturaes manter em muita paz,

e justiça, manda continuamente por mar, e por terra seus exercitos, e

grossas armadas contra os Infieis, buscando sempre novos triumfos, e

vencimento; de tal maneira tempera a paz com a guerra, que nem seus

Reynos carecem do bem da paz, nem a força, e opiniaõ da gente se perde

por falta de exercicio das armas.

Noticias de Portugal · 第 27 / 43 段