parte para outro tempo, buscando brevidade na copia por naõ exceder o
modo, pelo qual naõ me deterey aqui em contar as grandes virtudes, que
logo mostrou do começo de sua mocidade atè o principio de seu Reynado;
leyxarey de escrever com quanta prudencia, com quanto esforço, depois
do falecimento do muy victoriozo, e de bemaventurada memoria ElRey
D. Manoel seu Pay levou àvante a Conquista, e Navegaçaõ da India,
descobrindo novos mares, novas terras, novas estrellas, dando materias
de cousas taõ notaveis aos livros dos Cosmografos, passando àlem da
memoria de todas as historias, e fabulas, estendendo suas bandeiras
na mais derradeira parte do Oriente, saõ certo estas cousas dignas
de immortal memoria, e lembrança para sempre; mas a tençaõ da obra
prezente naõ poderà com tanto pezo; tempo virà (se me o dezejo naõ
engana) em que possa dizer tudo (segundo requere taõ alta empreza,
e meu engenho), quanto elle for a isto só està offerecido em latim,
em lingoagem, em proza, e metro louvar sempre as grandes victorias
destes Reynos, os quaes neste tempo saõ mais bemaventurados, que nunca
foraõ; e porque nesta esperança vivo, e ella me sostem, em quanto se me
naõ offerece mòr occasiaõ, ao menos enganarey meu appetito com estes
começos, e representarey neste Panegyrico alguma parte da virtudes de
V. Alteza, por onde facilmente se possa ver, quantas, e quam grandes o
saõ as outras, que nelle hà.
Antre as virtudes de que os Principes, e Governadores das Reespublicas
tem mòr necessidade, para descanso, e conservaçaõ de seus Estados,
sempre o primeiro lugar foy dado à Justiça; e isto com muita razaõ,
porque sendo Deos perfeita Justiça, os Reys que por elle saõ ordenados,
e cujo poder representaõ, a elle soo em tudo devem seguir, e delle
(como excellente pintura) tomar o debuxo, que cumpre a perfeiçaõ
de seu ensino; pois se bem olharmos quam justamente estes Reynos
saõ governados por V. Alteza, e quanto do principio do seu Reynado
trabalhou sempre por apurar cada dia mais esta parte, certo saõ que com
grande trabalho poderiamos achar algum Principe, que com elle neste
tempo se podesse comparar: he virtude por si muy grande fazer, como
faz, a todos justiça igual sem affeiçaõ de pessoas, determinar tantos
negocios, e dar grandes sentenças sem escandalo de ninguem, mas olhando
de quam pequena idade isto começou, que muitos Principes no cabo de
sua vida naõ puderaõ alcançar; vem isto a ser tanto mòr virtude, que
naõ hà louvor tamanho, que com muita razaõ lhe naõ possa, e deva ser
dado; outros Principes, ou sendo velhos, ou depois de longa experiencia
acabaraõ de saber governar, V. Alteza no começo do seu Reynado, sendo
pouco mais de dezanove annos em tanta justiça governou, e procurou o
bem, e descanso de seu povo, como se longa pratica, e costume de muitos
annos o tiveraõ já ensinado.
Com muita razaõ digo isto, pois por minha boa sorte saõ hum daquelles
que se lograõ deste tamanho bem, e se cumpre, o Rey foy verdadeiramente
julgado pelo povo, e o povo pelo Rey; porque assim como os que pintaõ
as terras pelo natural para contemplarem o sitio dos lugares altos se
poem no baixo; e polo contrario para olharem os baixos se poem no alto,
assim para conhecer bem a natureza dos povos convem ser Principe, e
para conhecer a dos Principes convem ser do povo; nem hey medo, que me
chame ninguem lizongeiro, sendo a verdade, e consentimento da minha
banda, e aproveitando-se todos do bem, que digo; isto quanto he mais
raro, e menos jà se usa, tanto mais se devem chamar ditosos os subditos
de V. Alteza. Que direy da continua vigia, que usa nas cousas de
justiça, com quanto conselho, com quanta prudencia sem cançar nunca,
peza tudo em balança igual, hora as cousas mais pequenas, mandando
julgar a seus Letrados, hora as mayores, determinando em sua presença,
às vezes inventando novas, e muy proveitosas Leys à sua Repupublica,
outra hora emendando, e corregendo as não boas, chamando Letrados com
grandes premios, ordenando Officiaes novos para mais comprimento de
justiça, e os mores carregos dando aos melhores, sem duvida este he o
verdadeiro officio de Rey, e pay geral de todos.
Isto he o que Deos, e nossa Santa Fè encomenda aos Principes, como
verdadeiramente dizem os Filosofos. Reynado he officio de muita vigia,
e trabalho, nem deve nunca o bom Rey estar ocioso, mas assim como o
Sol por dar claridade ao mundo nunca està quieto, assim o Principe
por fazer justiça ao povo sempre deve ser occupado, lese do Emperador
Cesar Octaviano, que com muito cuidado de noite, e de dia despachava
as cousas de justiça, e do Emperador Trajano se conta o mesmo, tanto
que parecia, que cada dia hum delles descançava com este trabalho. E
tinha ElRey Ciro, que o bom Principe naõ havia levar ventagem a seus
Vassallos em boa vida, se naõ em muito trabalho para comprimento de
justiça: com o mesmo respeito sóhia dizer Alexandre Magno, que o bom
Rey devia sempre ter huma orelha aberta para quem quizesse accusar, e
outra guardada para quem era accusado, e assim dizia que o melhor verso
de quantos Homero (Poeta Grego) fizera, era hum em que ElRey Agamenon
era gabado de bom Cavaleiro, e justiçoso.
Aquelle Principe com muita razaõ deve ser chamado excellente, que dà
o seu a cada hum (que este he o principal officio da justiça) e que
ouve, e despacha bem as partes, e que vive segundo as Leys, que elle
mesmo ordena, e hà por boas, nem pode dar muita authoridade ao direito
quem em si o naõ quer cumprir inteiramente; por isso quer Plataõ, que o
Principe obedeça em tudo às suas Leys; e diz que onde a Ley he sugeita
ao Rey, e naõ o Rey a ley, se deve recear, que aquelle Reyno se perca
muy azinha; porque quando governa a ley, governa Deos (o que naõ pode
ser se tudo manda pelos apetitos de hum homem) mas quanto desviado
V. Alteza seja deste mal, notorio he a todo o mundo, o qual sómente
governa os seus Reynos, com tanto cuidado de justiça, como se todas
fossem sua propria Casa, mas ainda se mostra taõ justo, e obediente
às suas leys, que naõ menos nos aproveita com o virtuoso exemplo, que
de si nos dà, que com a execuçaõ dellas, e faz isto assim por sua
inclinaçaõ ser em tudo santa, e muy chegada a Deos, como por saber
certo, que quem ha de governar a muitos, e como diz Homero: quem ha
de ser Pastoral de seu povo, cumprelhe ser limpo, e afastado de todo
o vicio, e assim como nenhuma cousa mais aproveita ao povo, que o bom
exemplo do Principe; assim naõ hà cousa mais prejudicial ao Vassallo,
que o mào costume, ou deffeito do Senhor; porque este tanto mais asinha
se aprende, que o bem, quanto os homens saõ mais inclinados ao mal, e
finalmente sempre se vio assi como as ondas do mar seguem o vento assi
o povo seguir as manhas do Principe.
Os costumes de quem manda (sendo a pessoa illustre) quer bons, quer
màos, mal se podem esconder; antes faraõ todos os Reys conta, que estaõ
postos em hum lugar alto, como a atalaya donde vem, e saõ vistos de
todo o povo, e se me dessem a escolher, tomaria antes no Principe màs
leys com bom exemplo, que naõ mào exemplo com santas ordenaçoens; e
naõ fora taõ louvado Cataõ Uticense de bom Cavalleiro, se a isto naõ
ajuntara grande perfeiçaõ de vida, a qual em tudo foy heroyca. Contaõ
delle, que em todalas cousas guardou singular temperança, e seguio a
natureza, e teve sua vida offerecida ao bem da patria, nem lhe parecia,
que nascera saõ para si, senaõ para todo o mundo, foy Conservador
de toda a justiça, e honestidade; pois se Cataõ Cidadaõ de Roma por
dar bom exemplo de si, conservando a justiça, e leys de sua Cidade
mereceo louvor immortal, que gloria deve ser a de V. Alteza, governando
taõ santa, e justamente tantos povos, e desvairadas Provincias,
aproveitando com seu exemplo a tantas gentes, que delle (como de seu
natural Rey, e Senhor) o folgaõ de tomar: sem duvida tanto mais louvor
merece, quanto sempre foy mòr a fama de bom Principe, que da pessoa
particular. Era Cataõ justo, porèm aspero em toda a administraçaõ da
Reepublica, por onde era mais louvado, que bem quisto, V. Alteza sempre
temperou sua Real gravidade com muita humanidade, e clemencia, de tal
maneira soube ajuntar cousas em si taõ differentes, que nem por ser
muito brando leyxa de ser temido, nem por ser muito grave leyxa de ser
amado.
Naõ se deve louvar no Principe condiçaõ aspera, nem he digno de louvor
o que Cambyses Rey de Persia fez, o qual achando que hum seu Juiz dera
huma sentença contra direito, o mandou esfollar, e da pelle fez cubrir
a séde, em que estando assentado dera a tal sentença, e nella mandou
sentar hum filho do mesmo Juiz, dando-lhe a vara, e officio de seu Pay.
Foy pola ventura a tençaõ delRey Cambyses boa, mas por o exemplo ser
taõ aspero, pareceo o que fizera ser mais injuria, que justiça.
Tambem se deve guardar o Principe, que naõ seja taõ brando, e de boa
condiçaõ, que se perca o acatamento devido à Magestade Real, de que
nascem ao Reyno grandes males: tal foy o Emperador Nerva na Cidade de
Roma, que sendo demasiadamente brando, veyo a cahir em despreso da
mòr parte do povo, e se naõ perfilhara a Trajano, perdera-se; o mesmo
caminho levou neste Reyno ElRey D. Sancho, o que chamaraõ o Capello,
mas porque a todos he notorio quantos males de sua muita brandura
nasceraõ, he escusado dizelos eu; porisso quem no Regimento da justiça
tomar o meyo, e fugir dos extremos, como V. Alteza muy prudentemente
faz, este sem duvida serà julgado por excellente.
Eu naõ digo, que naõ temaõ os subditos seu Principe, mas isto seja
de maneira que da muita rigoridade naõ possa nascer algum escandalo,
e deste inconveniente por nenhuma via mais facilmente o bom Rey se
pode desviar, que tirando as occasioens dos males, e querendo antes
ter maneira com que naõ errem seus Vassallos, que ser diligente em os
castigos, depois que erraõ. Naõ ha de haver no Principe affeiçaõ, nem
respeito particular de pessoas, quanto à justiça, e fazendo-o assim
Cesar Octaviano foy adorado em sua vida, e mereceo, que dissessem
delle depois da sua morte aquellas palavras taõ nomeadas; provera a
Deos, Octaviano, que nunca nasceras, ou nunca morreras? Escreve-se do
mesmo, que foy taõ justo, que huma só filha, que tinha por nome Julia,
desterrou por ser deshonesta, e muitas cousas de mào exemplo emendou,
só olhando ao bem commum, teve muitos privados grandes Senhores, mas
de tal maneira foraõ seus privados, que sempre viveraõ sogeitos, e
obedientes às leys, e ordenaçoens da Reepublica Romana.
Bem se deve cuidar, quamanho contentamento serà o destes Reynos,
vendo que V. Alteza nosso natural Rey, e Senhor, com tanta razaõ
pòde ser comparado com taõ excellentes Principes, mas não ha louvor,
que não mereça, quem traz todos seus pensamentos em Deos. Este he a
verdadeira ley, e deste nasce a verdadeira justiça, a qual então se
pòde chamar perfeita, quando toma por seu fundamento nossa Santa Fè,
daqui vem que as leys de Moysès foraõ muy Santas, porque o seu fim era
em Deos, e pelo contrario entre as leys dos Gentios muitas se achaõ
injustas, e pouco honestas, porque carecendo os que as ordenavaõ do
verdadeiro conhecimento de Deos, se moviaõ por huma cega opiniaõ, e
eraõ guiados de hum falso proveito, e vangloria deste Mundo; muitos
Principes seguindo algum seu particular interesse enganaraõ o povo,
fingindo que eraõ justos. Elle naõ quer outro premio, nem gallardaõ da
virtude, que a ella mesma, e sendo seu natural taõ justo, como he, naõ
póde caber nelle fingimento algum de o ser. Como este Santo zelo tira
as occasioens das falsas, e longas demandas, que pela mòr parte, saõ
causa de odios, e escandalos, e trabalha por apurar todas as partes da
justiça, sendo ella de tanto merecimento, que naõ sómente ajuda Deos
aos Principes Catholicos (se a bem guardaõ) mas ainda se acha, que
ajudou a muitos Reys generosos, que delle naõ tiveraõ conhecimento.
Notorio he a quem lè pola Sagrada Escriptura, quam justo foy ElRey
David, quam aceito a Deos por esta parte, e quantas victorias ouve, e
assim Jozaphat Rey de Judà foy Principe justo, e semelhante a David;
este ordenando, e pondo de novo Juizes em todas as Cidades do seu
Reyno lhes encomendou, que em nenhuma cousa entendessem, salvo em
fazer a todos igual justiça, sem ter respeito algum, nem á riqueza,
nem à Fidalguia, lembrando-lhes q́ a Deos naõ podiaõ esconder nada do
que fizessem. Elegeo Juizes em Jerusalem dos Sacerdotes, e Levitas,
e principaes do povo, e lhes mandou, que se as outras Cidades lhes
pedissem conselho, lhes respondessem com muito zelo o que vissem ser
justiça; por quanto era muita rezaõ, que o parecer dos Juizes fosse
justo naquella Cidade, onde o Templo de Deos estava; por esta causa,
e pelo grande amor, que tinha a Deos mereceo vencer os Moabitas,
alevantando-se entre elles no seu arrayal hum tamanho alvoroço, que
huns com outros sem nenhuma causa evidente se matavaõ, entaõ os
Sacerdotes dos Judeos tocaraõ as Trombetas, e os Levitas cantando davaõ
graças a Deos, os Moabitas com grande espanto fugiaõ, e lhes parecia,
que toda a gente do Mundo hia em seu alcance com muito arruido d’armas,
vozes desvayradas, multidaõ de carros, e som de Trombetas, e assim os
Judeos sem nenhum trabalho ouveraõ gloriosa victoria contra tamanho, e
taõ poderoso Exercito. Por certo grandes merces faz Deos aos Principes
que inteiramente guardaõ justiça, e da maneira que aos taes favorece
muito, assim sóe dar grandes castigos aos que vaõ contra ella.
Escreve-se de Sedechias, Rey do Tribu de Judà, que quiz mal à justiça,
foy soberbo, e amigo de màos homens, por onde vindo muitas vezes a
elle o Profeta Jeremias, o amoestava, que se lembrasse de Deos, e naõ
se governasse por màos homens, nem leyxasse enganar por informaçoens
de falsos Profetas, e ElRey em quanto isto ouvia, conhecia a verdade,
e consentia nella, mas partido o Profeta tornava a ser o que era de
antes. Naõ muito depois veyo Nabucodonosor com grão poder sobre elle,
e o venceo, e levou prezo a Babilonia, onde morreo deshonradamente;
tambem os Reys de Samaria, por fazerem pouca justiça, e desprezarem o
verdadeiro Deos, os maes delles reynavaõ, e haviaõ no cabo mào fim,
atè que succedeo ElRey Joza em tempo de Eliseo Profeta, que por ser
Principe justo, e temente a Deos mereceo aver vitoria contra os Syrios;
taõ aceita he a Deos esta virtude, que por mais culpas, que precedaõ,
se esquece dos erros passados; e sem respeito ao merecimento presente.
Naõ tinha todas as boas partes de bom Principe ElRey Herodes, filho
de Antipatro, com tudo porque favoreceo a justiça, foraõ suas cousas
avante, e viveo prosperamente longos dias; fez huma Ordenaçaõ, que os
ladroens que se achassem, fossem vendidos por escravos, e dizem que
andava de noite desconhecido, escuitando o que se fallava delle, e de
seu Reynado.
Da mesma opiniaõ era Hircano Principe dos Sacerdotes, filho de Simaõ
Macabeo, e sendo discipulo dos Fariseos, que naquelle tempo tinhaõ
grande authoridade, lhes dizia que elles sabiaõ bem que sua tençaõ era
fazer justiça com que servindo a Deos, a elles tambem contentasse, por
tanto lhes rogava, e encomendava muito, que se em alguma cousa o vissem
errar, o quizessem emmendar, e tornar a bom caminho, e naõ sómente
esta virtude he muy aceita a Deos, mas foy sempre taõ estimada entre os
Principes Gentios que por serem justos foraõ avidos por Deozes, como se
escreve de Adezer, e Azael Reys de Damasco, os quaes por este respeito
foraõ adorados em toda a Suria, e ainda em tempo de Jozefo historiador,
que foy depois de mil annos, em todalas festas que se faziaõ em
Damasco, as imagens destes se mostravaõ ao povo com muita veneraçaõ:
por certo muito merece esta virtude; porque alem de se representar
nella o poder de Deos, quem a tirar dentre os homens, tirarà todo o
descanço, toda a paz, todo o sossego; e sendo esta a principal cousa
de que as Reespublicas tiveraõ necessidade, huns antigamente sem
fazerem leys, se governavaõ por bons costumes, que antre si com muita
diligencia guardavaõ, outros faziaõ leys por onde viviaõ.
Com tudo acho eu, que os costumes foraõ mais antigos, que as leys:
em tempo do Poeta Homero, ainda entre os Gregos naõ avia leys, nem
se acha tal nome em todalas as obras que fez, sómente se governava o
povo pelas determinaçoens, e vontades dos Principes, que se applicavaõ
aos esquecimentos, sem outra maneira de escritura. Os Lacedemonios, e
Cretenses por costumes se governavaõ. Os Athenienses, e outros Gregos
se aproveitaraõ mais das leys, pelo qual Moysès dador da Santissima ley
do Testamento Velho, vendo que leys, e bons costumes eraõ necessarios
para a conservaçaõ da boa Reepublica, a estas cousas ambas teve
respeito, e se aproveitou dessas com grande seu louvor.
Dizem alguns, que Roma foy huma Cidade de tanta confusaõ, que se a
ventura a naõ favorecera, ella por si fora fraca, e ficàra abayxo
doutras muitas Reespublicas. Eu naõ posso negar, que ventura, e
cavallaria, naõ fossem muita causa do Imperio Romaõ, mas pareceme, que
aonde se trataõ bem as cousas da Guerra, cumpre que haja boa ordem, e
que onde ha boa ordem naõ pòde deixar de haver justiça, e porque os
Filosofos tem que a boa Reepublica he partida em tres Estados, que saõ
principaes, nobres, e povo; quem bem olhar acharà que a Cidade de Roma,
antes de ser tiranizada, era fundada nestas tres partes, porque aos
principaes respondem os Consules, aos nobres os Senadores, e ao povo os
Tribunos; naõ podèra crescer tamanho Imperio, nem conservarse tantos
annos sem perfeita administraçaõ da Justiça, e ella só foy causa de
tantos bons exemplos, quantos muitos Romaõs deraõ de si, e sempre se
vio os bons exemplos nascerem da boa criança, a boa criança das boas
leys, finalmente as boas leys dos bons Principes.
Se o Imperio do Oriente, que durava em Constantinopla, perseveràra
em fazer justiça, e no amor de Deos, naõ creo eu que Deos permitira
(se licito porèm me he julgar das cousas divinas) ser vencido, e
tantos annos ha sogigado polo Turco, e se pelo contrario alguma cousa
hoje conserva a potencia dos Turcos, sendo infieis, e havendo entre
elles tantos vicios, he o grande cuidado, que tem de muitas partes da
justiça. Em tempo de Miguel primeiro da Caza Paleologa Emperador de
Constantinopla, avendo quatro Senhores Turcos em Anatolia, e querendo
com medo dos Christãos fazerem-se mais fortes, elegeraõ por Senhor
geral de todos a Othomano; este foy Principe justo entre elles, e fez
muitas leys, que hoje se guardaõ na Turquia, por onde ainda nestes
tempos, quando elegem graõ Turco, lhe dizem: _Queira Deos, que em
bondade sejas igual a Othomano_. Faz-se na Turquia muita justiça, a
gente pobre que se agrava faz petiçaõ que elles chamaõ Roca, a qual
posta sobre huma cana se offerece ao Grão Turco, quando passa: elle a
toma, e mete no seu turbante, que assim chamaõ os Turcos à fita, ou
touca, que trazem na Cabeça, e como se recolhe à sua Camara a despacha
logo.
Eu bem vejo, que a justiça do Turco he tiranica, e acellerada, tanto
que segundo dizem, a mòr causa civel he despachada pelo seu Cadij
(que he antre elles como Alcayde Mòr) em tres horas, toda via com tal
execuçaõ, e meyos, posto que sejaõ asperos os Turcos, conseguem o
fim, e proveito della, que he viverem em muita paz, e sossego comum,
por serem os Turcos obedientes, e fazerem o que lhes mandaõ, saõ bons
Cavalleiros, e sofrem muito o trabalho, posto que neste tempo, pola
continuaçaõ da boa vida, naõ saõ taõ valentes, como sohiaõ: cousa
natural he as cousas pouco, e pouco hirem minguando atè de todo se
acabarem; he certo cousa para notar, castigar Deos a muita sem justiça
dos Gregos com a tirania dos Turcos; quem naõ sabe quantos males vieraõ
aos Principes, que naõ se lembraraõ de huma cousa taõ necessaria para
a vida comum? De maneira que se jà naõ pòde achar mais certo caminho
da perdiçaõ de hum Estado. Assi como o principal proveito da justiça
he boa paz, assi mais vezes castiga Deos o contrario com guerra, e
destruiçaõ, e perda de Cidades, e Reynos; e por isso muitos Principes
Gentios, que naõ tiveraõ conhecimento da verdadeira ley, e indo contra
esta virtude foraõ gravemente punidos, quanto mais o devem ser os
Christaõs, a que particularmente toca esta obrigaçaõ por ser nossa
Santa Fè toda fundada em justiça, ou mais verdadeiramente fallando,
a mesma justiça; por serem injustos os Assyrios, foraõ vencidos dos
Medos, e os Medos dos Persas, e os Persas dos Gregos, e os Gregos dos
Romaõs; assi muitos outros Reynos por esta causa se perderaõ; mas se
bem queremos olhar, acharemos que muito mores males padeceraõ os Judeos
no tempo do Testamento velho; e depois por esta causa os Christaõs, e
naõ foy isto sem razaõ, que tanto mais aspera devia ser a pena, quanto
mais obrigados eraõ a fazer o que deviaõ polo conhecimento, que tinhaõ
de Deos, e da sua Ley.
Quem poderia contar sem muitas lagrymas os açoutes, que Deos mandou à
Christandade polos Godos, Ostrogodos, Alanos, e toda outra geraçaõ dos
barbaros, os quaes partidos da terra fria, que he debaixo do Norte;
como huma grande tormenta allagaraõ quasi todalas provincias da Europa;
e por me naõ deter nos outros, direy brevemente dos Hunnos: estes
sahindo da Tartaria com tres Capitaens, Cheme, Chadrichia, e Bela,
chegaraõ ao Reyno de Ungria, e o tomaraõ, lançando os Longobardos,
que o tinhaõ occupado; naõ muito depois fallescendo todos tres, foy
alevantado Athyla por Rey dos Hunnos, que foy taõ crù, e fez tanto
estrago na Christandade, que com muita rezaõ mereceo ser chamado açoute
de Deos; matou as onze mil Virgens, venceo, e destruio Alemanha,
França, Italia; pellejou nos Campos Cathalonicos, que saõ em Franca,
com Echio nobre Capitaõ Romaõ, e Meroueo, que foy o III. Rey de França,
e juntamente com Theodorico Rey dos Godos, na qual batalha foraõ
mortos cento, e oitenta mil homens: por onde quer que Athyla passava,
tudo era fogo, e sangue, em cada parte eraõ ouvidos choros, prantos,
e lamentaçoens, eraõ trespassados com feridas crueis os meninos de
mama dentro dos braços das Mãys, os Santos Sacerdotes, e devotos
Religiosos recebiaõ martirio diante dos Altares, o Sangue das Virgens
e innocentes corria em todo o cabo, naõ havia cousa segura, nem que a
tanto mal resistir pudesse; conta-se deste cruel tirano, que entrando
por força a Cidade de Aquilea, que està perto de Veneza, huma molher
nobre de estremada formosura, se lançou dos muros abaixo em huma
ribeira muy alta, por naõ vir às mãos do vencedor; e outros que daqui
escaparaõ com medo dos barbaros, que daquella parte sohiaõ a entrar em
Italia, leyxando Aquilea, se passaraõ a huma pequena Ilha, onde entaõ
foy primeiramente fundada a Cidade de Veneza, e sendo os Christaõs taõ
atormentados, como eraõ, todavia cessava a ira de Deos, porque naõ
cessava a culpa da sem justiça.