No mesmo anno lhe consagraraõ huma festa Academica de Letras, e Armas

os Porcionistas do Collegio Clementino, que saõ Fidalgos da primeira

Nobreza de Italia; e no mesmo anno se imprimiraõ em Roma as obras,

que nella se recitàraõ, todas em louvor do Summo Pontifice, delRey

Nosso Senhor D. João V. e do mesmo Cardeal, com a relação da mesma

festa. Foy das Congregaçoens do _Concilio Tridentino_, da _Immunidade

Ecclesiastica_, do _Indice_, e das _Indulgencias_. A Academia dos

Arcades, da qual hoje he Protector ElRey Nosso Senhor, elegeo a sua

Eminencia por acclamaçaõ, e lhe deu o nome Retimo Sidiano.

A Roma lhe chegaraõ os rogos dos moradores do Reyno do Algarve,

seus subditos, pedindo-lhe, que declarasse dia Santo de guarda na

Cidade de Faro, e seus arrebaldes o dia 4. de Dezembro dedicado a

Santa Barbara Virgem, e Martyr, a qual elles tinhaõ escolhido por

sua Protectora, para se livrarem dos terremotos, e tempestades, que

padeciaõ; calamidades, que naõ experimentaraõ depois de terem recorrido

ao seu patrocinio; o que sua Eminencia lhes concedeo no anno de 1725.

como Bispo que he daquelle Reyno, com que ambos estes Eminentissimos

Cardeaes cooperaraõ em Roma para os mayores cultos, e veneraçoens da

Gloriosa Santa Barbara. Alli entrou em Conclave por morte do dito

Papa Innocencio com os mais Cardeaes, e com elles fez a prudentissima

eleiçaõ do Santo Padre Benedicto XIII. em 29. de Mayo de 1724. que

dantes era Cardeal Vicente Maria Ursini Arcebispo de Benevento da Ordem

de S. Domingos. Viveo em aquella Curia admirando-a com as suas Letras,

erudiçaõ, e acçoens generosas. Voltou para Portugal em Setembro do anno

de 1728. e chegou a esta Corte em Dezembro, aonde assistio algum tempo,

e recolhendo-se ao seu Bispado, se applicou a satisfazer às obrigaçoens

do seu Pastoral Officio. Entrou na Visita Geral, e em 26. de Abril de

1738. administrando o Sacramento da Confirmaçaõ se começou a sentir taõ

mal, que encarregando a visita a Miguel de Ataide Corte Real, Conego

Penitenciario da Sè do Algarve, e Vigario Geral do Bispado, se recolheo

a Loulè em 23. de Junho, e a 24. dia. de S. Joaõ entrou no seu Palacio

da Cidade de Faro, em que sem embargo de multiplicados remedios se

aggravou de forte a doença, que muitas, vezes se confessou, e comungou

por devoçaõ, atè que em 25. de Setembro recebeo o Senhor por Viatico,

que acompanhou o Cabido, de quem se despedio com grande ternura, e com

muitas lagrymas de todos, mandandosse fazer preces pela sua saude.

A 29 do dito Mez amanheceo com tanta melhoria, que se entendeo, que

estava livre de perigo; mas às dez horas da noite se achou taõ privado

de repente dos sentidos, que hum Medico Castelhano, que lhe assistia,

começou a chamar pela familia dizendo, _acudan que se muere el siervo

de Dios_, e assim espirou sendo de idade de 77. annos, tres mezes,

e vinte e dous dias. No dia 30. foy levado o cadaver aos hombros de

Sacerdotes por entre duas alas dos Soldados do Regimento daquella Praça

a Sè, e se celebrou Missa Solemne, e se lhe deo Sepultura no jazigo dos

Prelados daquella Diocesi. A 20. de Outubro se lhe celebraraõ na mesma

Cathedral Solemnissimas Exequias, em que fez a Oração funebre o P. Fr.

Joze Lobo Mercenario Descalço, natural do Reyno do Algarve. Sendo o

Cardeal ainda D. Prior de Palmella foy S. Magestade àquelle Convento

sem ser esperado; sahio a recebello com a Cõmunidade dos Freyres, e lhe

fez de repente huma taõ douta pratica, que subio muito no Real conceito

a sua sciencia. No anno Santo de 1725. fez no seu Palacio em Roma hum

Hospicio para doze Clerigos pobres, que fossem a ganhar de Espanha

aquelle Jubileo.

§. XIX.

_O Cardeal D. João da Mota, e Sylva._

Nasceo na illustre Villa de Castellobranco em 14. de Agosto de 1685.

fazendo-a ainda mais celebrada com o seu nascimento. Começou a estudar

Theologia na Universidade de Evora, e continuando os mesmos estudos

na de Coimbra, nella tomou o grào de Doutor. Sua Magestade que Deos

guarde, attendendo ás suas letras, e procedimento, que saõ as bazes das

mayores felicidades, o nomeou Conego Magistral da insigne Collegiada

de S. Thomè. No tempo em que Monsignor Firrào (hoje Cardeal da Igreja

Romana) se achava em Lisboa, fez no seu Palacio humas Conferencias,

em que se tratavaõ materias dos Concilios, e se faziaõ eruditissimos

discursos, para o que convidou as pessoas mais doutas, que havia na

Corte. Entre ellas foy huma o Conego Joaõ da Mota, e Sylva, que mostrou

em elegantes papeis o muito que estava adiantado em hum estudo, que não

costuma ser muy frequente nas Espanhas, e na facilidade de escrever em

latim, como tinhaõ por obrigaçaõ os que discorriaõ.

A sua literatura, modestia, e gravidade o fizeraõ de tal modo aceito a

Sua Magestade, que pela sua Real nomeação o creou Cardeal a Santidade

de Benedicto XIII. no Consistorio de 26. de Novembro de 1727. Trouxelhe

o Barrete Monsignor Lercari, que hoje he Legado de Avinhaõ. Foy ouvida

esta noticia com applauso commum, porque Sua Eminencia merece a geral

estimaçaõ do Reyno pelo seu agrado, cortesania, e affabilidade. Delle

faz memoria o Padre Fr. Agostinho Fabri da Ordem dos Prégadores na

primeira continuação de Roma Santa, impressa em Ausbourg em 1729.

§. XX.

_O Cardeal D. Thomaz de Almeida._

Naceo em Lisboa, aonde foy bautizado em casa de seus Pays os segundos

Condes de Avintes D. Antonio de Almeida, Governador do Reyno do

Algarve, do Conselho de Estado, e Guerra, e Dona Maria Antonia de

Borbon, e tomou os Santos Oleos na Parrochia de Santa Engracia. Depois

de estudar Filosofia com o Padre Manoel Vieira no Collegio de Santo

Antaõ da Cidade de Lisboa, passou a Coimbra, aonde foy Porcionista no

Collegio Real. Estudou Canones, e sendo Deputado do Santo Officio na

Inquisiçaõ de Lisboa, foy despachado para Dezembargador da Relaçaõ do

Porto, donde veyo para a Casa da Supplicaçaõ, em que teve a serventia

de Aggravos. Foy Prior da Igreja de S. Lourenço, aonde para memoria da

sua piedade mandou fazer huma Capella a S. Thomaz de Villanova, o arco

da Capella Mòr, e os dous Altares Callateraes dedicados hum ao Senhor

Jesu, e outro à Conceiçaõ da Senhora. Foy Deputado, e Provedor da

Fazenda, e Estado da Rainha, Sumilher da Cortina, Cavalleiro da Ordem

de Christo, Deputado da Mesa da Consciencia, e Ordens, Chanceller Mòr

do Reyno, Secretario das Mercès, e Expediente, e ultimamente de Estado.

Attendendo às suas grandes virtudes, e merecimentos a Magestade do

Senhor Rey D. Pedro II. de saudosa memoria o nomeou Bispo de Lamego,

e sendo confirmado pelo Papa Clemente XI. foy sagrado na Igreja de

Nossa Senhora da Graça em 3. de Abril de 1707. pelo Bispo Inquisidor

Geral Nuno da Cunha de Attaide (hoje Cardeal de Santa Anastasia) sendo

Assistentes D. Fr. Antonio Botado, e D. Fr. Pedro de Foyos, aquelle

Bispo de Hypponia, e este de Bona, ambos Irmãos, e Eremitas de Santo

Agostinho.

Havendo tomado posse deste Bispado pelo seu Provisor o Reverendissimo

P. Fr. Antaõ de Faria Monje de S. Bento, que depois foy dignissimo

Geral da sua Congregaçaõ, entrou na Cidade de Lamego em 22. de Mayo do

dito anno, e foy recebido com todas as demonstraçoens de alvoroço, e

alegria, que se deviaõ à sua pessoa, e affabilidade.

Chegado a Lamego, teve noticia que o Bispo de Viseo D. Jeronymo Soares

trazia com o seu Cabido gravissimas contendas, que haviaõ sahido a

autos publicos depois de fulminadas repetidas censuras. Era a causa

de taõ escandalosa perturbaçaõ hum Conego da mesma Sè, que sendo

conhecido pelos seus companheiros, o naõ era pela sinceridade do Bispo.

Estranhou o nosso Bispo taõ indignas demandas, como quem em poucas

horas, e sem paixaõ havia examinado o principio, e sem dar parte da sua

resoluçaõ a ninguem, foy a Viseo a serenar huma tormenta, que havia

tempo perturbava aquella Diocesi. Soube o Bispo de Viseo da visita que

naõ esperava, e veyo mais de huma legoa a esperar taõ zeloso hospede.

Voltaraõ para a Cidade com todas as demonstraçoens de cortezania, e

da conversaçaõ foy a principal parte a presente discordia. Deputou

o Cabido dous Conegos, que vieraõ visitar o Bispo de Lamego, a quem

recebeo com a sua costumada urbanidade. Haviase queixado o Bispo da

contumacia dos seus Capitulares, agora se queixaraõ os Capitulares

do injusto procedimento do seu Prelado. Ouvidas huma, e outra parte

entrou a compollas o Bispo de Lamego, e feito arbitro de taõ dilatados

litigios pelo Bispo, e pelo Cabido, poz termo àquelles pleitos com

satisfaçaõ dos litigantes, e como a sua jornada naõ tinha outro fim

senaõ o da paz, concluida ella, voltou aos negocios da sua Igreja.

Em vinte, e hum mez que foy Bispo de Lamego, deixou da sua generosidade

repetidos argumentos, porque na Cathedral para receber mais copiosa

luz, lhe abrio seis grandes janellas, fez as grades do Cruzeiro, as

portas da Igreja, que pela qualidade do seu artificio saõ dignas

de particular memoria, e lageando o Adro, que estava indecente, o

guarneceo com grades de ferro, que lhe servem de adorno, e de reparo.

Enriqueceo a Sancristia de muitos, e preciosos ornamentos, e àlem dos

materiaes para se fazerem as varandas do Claustro, lhe deixou mais de

nove mil cruzados para obras. No Mosteiro das Chagas de Religiosas de

S. Francisco fez o Mirante religiosamente magnifico, e no Convento

de Santo Antonio dos Capuchos da mesma Cidade fez a Sancristia, que

adornou com peças de muito preço.

Por carta assinada pela Real maõ em 30. de Mayo de 1708. foy visitar

a Coimbra o Collegio Real, em que havia sido Porcionista, e desta

visita resultou acrescentar Sua Magestade, que Deos guarde, as rendas

ao Collegio, devendo a taõ benemerito filho hum notavel augmento na

fazenda.

Em 26. de Setembro de 1708. vagàra o Bispado do Porto por morte do

virtuosissimo Prelado D. Fr. Jozè de Santa Maria, e por carta de 30. de

Abril de 1709. nomeou ElRey D. João o V. nosso Senhor Bispo do Porto

ao Bispo de Lamego, e logo por carta de 6. de Mayo do mesmo anno lhe

fez merce o dito Senhor do lugar de Governador das Justiças daquella

Relaçaõ, e das Armas da Cidade, e seu districto. No mesmo tempo, em

que o Cabido do Porto teve a noticia desta nomeaçaõ, por assentos de

15. e 17. de Mayo elegeo ao Arcediago de Oliveira Luiz de Magalhaens,

para que da sua parte fosse a Lamego visitar, e dar os parabens a Sua

Illustrissima. Foy absoluto do vinculo de Lamego, e confirmado no

Bispado do Porto por Clemente XI. a 22. de Julho do sobredito anno de

1709. e mandando tomar a posse pelo seu Provisor o Reverendissimo Padre

Fr. Antaõ de Faria, se lhe deo em 17. de Outubro. Chegou o Prelado

a 30. passou o Douro, e se recolheo no Convento de Santo Antonio do

Valle da Piedade de Religiosos Capuchos, aonde depois de comprimentado,

e assistido de toda a Nobreza, Relaçaõ, Officiaes de Guerra, e de

Justiça, fez a sua entrada publica na Cidade em 3. de Novembro do

mesmo anno, e a 9. começou a exercitar as occupações de Governador das

Justiças, e das Armas com geral estimaçaõ de toda a Provincia.

Foy extraordinaria a pompa, e magnificencia, com que a opulentissima

Cidade do Porto celebrou esta entrada. Houve tres dias de luminarias,

de repiques, de excellentes encamisadas, e outras demonstraçoens de

alegria, em que rompeo o alvoroço da Cidade, acresentando a todo este

applauso fazerem representar em hum dos pateos do Palacio Episcopal

vistosissimas Comedias, o que tudo descreveo em outava rima Antonio

Cerqueira Pinto, natural de Amarante, e morador na Cidade do Porto,

pessoa digna de toda a estimaçaõ pelos seus estudos, e vastissimas, e

profundas noticias das Antiguidades deste Reyno, em que he summamente

versado com douta, e exacta critica, e que já em outro Poema do mesmo

metro havia cantado a esclarecida Ascendencia do Bispo D. Thomaz de

Almeida.

Executando a piissima disposiçaõ de S. Magestade ordenou, que se

celebrasse a festa de N.Senhora da Conceiçaõ com a mayor solemnidade

que fosse possivel, e para este fim se cantaraõ as Matinas em a noite

antecedente, e no dia celebrou Missa de Pontifical com assistencia de

toda a Nobreza, e do Tribunal da Relaçaõ.

Attendendo à grande necessidade, que havia de Synodo Diocesano, o

celebrou no anno de 1710. com todas as formalidades, e nelle se

dispuzeraõ muitas cousas pertencentes ao melhor governo do Bispado.

No mez de Mayo de 1711. foraõ taõ repetidas as innundaçoens de agua,

que temendo-se alguma esterilidade, mandou o Bispo, que sahisse em

Procissaõ pelas Ruas da Cidade, o Senhor d’Alem, com o qual tem

aquelle povo bem fundada devoçaõ pelos grandes beneficios, que tem

experimentado da sua piedade. Fez-se a Procissaõ em 14. do dito mez,

com a Pompa, e Magestade, que em semelhantes occasioens se costuma;

e como naquelle anno era Ministro da Ordem Terceira de S. Francisco,

para aplacar a indignaçaõ Divina, na noite de 21. do mesmo mez fez

outra Procissaõ de preces, em que a Ordem Terceira, e os Religiosos

foraõ descalços, de que compadecida a Divina bondade, restituhio a

serenidade do tempo, naõ se experimentando o danno, que naturalmente se

temia. Na mesma occasiaõ padeceo aquella Cidade grande falta de peixe,

e fazendo-se por esta causa segunda Procissaõ em 27. do dito mez de

Mayo, em que sahio outra vez a Imagem do Senhor d’Alem, se encaminhou

à barra, e benzendo-a o Prelado, teve outra vez a Cidade do Porto a

costumada abundancia.

Em 4. de Dezembro de 1711. nasceo em Lisboa Occidental a Senhora

Infanta Dona Maria Barbara, hoje Princesa das Asturias, e em 21. do

dito mez, em acçaõ de graças, fez o Bispo D. Thomaz Pontifical, e

Solemnissima Procissaõ, e como a esta solemnidade se unio a Trasladaçaõ

do Santissimo Sacramento para a sua Capella na Sè, que se havia

reformado com extraordinaria magnificencia, prègou neste dia o Conego

Magistral da mesma Sè o Doutor Manoel dos Reys Bernardes, com a

elegancia, acerto, e propriedade, que sendo nelle dotes naturaes, saõ a

enveja de todos os que o ouvem, e lem os seus escritos.

Em 20. de Fevereiro de 1713. lançou a primeira pedra no arrogante, e

magestoso edificio da nova Capella dos Terceiros de S. Domingos; obra

de tanta magestade, que havendo na Cidade do Porto grande numero de

Fabricas Sagradas magnificamente edificadas, esta na sua proporção naõ

he inferior a nenhuma.

Para a sua Cidade do Porto alcançou este zelosissimo Prelado de

Clemente XI. pelo espaço de sete annos, hum Jubileo com Lausperene

em todo o tempo da Quaresma, a que logo se deu principio na Sè, no

primeiro dia da Quaresma do anno de 1713. continuando-se pelas mais

Igrejas dous dia em cada huma.

Em 16. de Julho do mesmo anno de 1713. que era o ultimo dia do Triduo,

com que os Religiosos de S. Domingos celebraraõ a Canonizaçaõ do Summo

Pontifice Pio V. fez o Bispo o Pontifical com toda a grandeza, que

pedia a Sollemnidade daquelle acto.

Mandou rasgar, e abrir mais a porta de Carros, e o Postigo de Santo

Eloy, intentando, que no Campo das Hortas, junto à Fonte da Arca,

se fizesse huma nova Praça. Naõ teve effeito esta obra, mas teve-o

o povoar-se aquelle sitio de muitas, e nobres casas, em que se vay

dilatando a povoaçaõ com incrivel grandeza. Na Igreja de Santo Antonio,

que he dos Padres da Congregaçaõ do Oratorio de S. Fillippe Neri,

mandou fazer hum grande Adro, que ennobreceo muito aquella fabrica, e

nos pilares das grades se lhe gravaraõ as suas Armas.

Reformou a Quinta do Prado, accrescentando-lhe gallarias, e no Palacio

Episcopal mandou abrir janellas em muitas Salas, e fez de novo a Casa

da Camara Ecclesiastica, em cujo tecto estaõ pintadas as Armas dos

Almeidas.

Por ordem de Clemente XI. presidio em dous Capitulos Geraes da Religiaõ

de S. Bento. Celebrou-se hum no Mosteiro de Santo Tyrso, e nelle foy

eleito geral o Reverendissimo Padre Fr. Antaõ de Faria, Provisor do

Bispado do Porto, e o outro se celebrou no Mosteiro de Tibaens, que he

a Cabeça desta Monastica, e Illustrissima Congregaçaõ nos Reynos de

Portugal.

Neste tempo determinou a Magestade delRey D. João V. Nosso Senhor

illustrar a sua Corte com huma Igreja Patriarchal, que nos privilegios,

e grandeza se distinguisse com incomparavel differença de todas as

outras Cathedraes. Conseguio esta graça da Santidade de Clemente XI.

que lha concedeo por huma amplissima Bulla, chamada _Aurea_, expedida

em Roma aos 7. dos Idus de Novembro, que he aos 7. do dito mez do anno

de 1716. e por esta causa nomeou S. Magestade, que Deos guarde, ao

Bispo do Porto D. Thomaz de Almeida Patriarcha de Lisboa Occidental,

em 4. de Novembro do mesmo anno, e em 7. do dito mez o absolveo o Papa

do vinculo de Bispo do Porto, e o confirmou em primeiro Patriarcha da

mesma Cidade de Lisboa Occidental.

Chegada esta feliz noticia à Corte, mandou o Senhor D. Thomaz

de Almeida tomar posse do Patriarchado pelo Arcediago da mesma

Patriarchal Jozè Dionysio Carneiro, cujo acto se fez em 8. de Janeiro

de 1717.

Era necessario q́ o Senhor Patriarcha tomasse a posse pessoal, e que

fizesse entrada publica na sua Igreja, como dispoem o Ceremonial dos

Bispos. Para esta funcçaõ, verdadeiramente magestosa, se destinou a

tarde de Sabbado 13. de Fevereiro do anno jà dito de 1717. Da Quinta do

Duque de Aveiro, sita nas visinhanças da Parrochia de S. Sebastiaõ da

Pedreira, sahio o Senhor Patriarcha para a Igreja deste Santo, aonde

o esperava montado a cavallo, toda a Nobreza de Portugal, e tomando

o Coche, veyo marchando com todo este lusido acompanhamento atè à

Igreja de Santa Martha, aonde apeando-se, tomou a Capa Consistorial,

e pondo-se a cavallo continuou a marcha atè às portas de Santo Antaõ,

em que estava levantado hum excellente, e bem adornado Altar. Aqui

deixada a Capa Consistorial, se revestio de Pontifical com Capa, e

Mitra de tella branca, e montando em huma mula ruça, cuberta com

huma gualdrapa de tella branca, o levou de redea seu Irmaõ D. Luiz

de Almeida Conde de Avintes; ao sahir das portas de Santo Antaõ, o

receberaõ de baixo de hum Pallio de preciosa tella os Vereadores dos

Senados de ambas as Lisboas, e desta sorte, por entre duas alas, que

formavaõ as Communidades Religiosas, as Confrarias, e Irmandades de

Lisboa Occidental, chegou à Santa Basilica Patriarchal, dando-se

fim a esta vistosissima Ceremonia com o Hymno _Te Deum Laudamus_,

solemnissimamente cantado.

Depois da posse começou logo a exercitar a Dignidade de Capellaõ Mòr,

que como consta da mesma _Bulla Aurea_, ha de andar annexa a quem

tiver a de Patriarcha de Lisboa Occidental; e para lhe naõ faltar

a authorizadissima circunstancia de Conselheiro de Estado, foy S.

Magestade servido fazer-lhe dentro de poucos dias aquella mercè.

Tratou de visitar a sua Diocesi, obrigaçaõ a que satisfez pessoalmente,

como quem sabe o quanto emenda mais a vista, do que as informaçoens,

naõ cessando depois em tempo algum de mandar Visitadores, que reformem

os vicios com caridade, e naõ estrondo, porque as culpas, em quanto naõ

degeneraõ em obstinaçaõ, melhor se remedeaõ com a suavidade, que com o

rigor.

Para o sitio de Rinhafolles, que he contiguo ao Convento de Santo

Antonio dos Capuchos, se haviaõ mudado os Padres da Missaõ, cujo

principal instituto he ensinar as Ceremonias Ecclesiasticas aos

Ordinandos. Sobre os principios desta obra entrou o Senhor Patriarca a

fazer nova despeza, e se vay continuando hum edificio, em que possaõ

naõ só viver commodamente os Padres, mas tambem o grande numero de

pessoas, que concorrem a aprender o Ministerio do Altar, e a fazer

algumas vezes a utilissima devoçaõ dos Exercicios Espirituaes, para o

que mandou levantar no interior da Casa hum Oratorio, que naõ cede na

grandeza ao primor do seu ornato.

No anno de 1721. deo o Senhor Patriarca o dezejado principio à clausura

do Mosteiro de N. Senhora dos Remedios de Campolide de Religiosos

da Ordem da Santissima Trindade, para o que mandou ao seu Vigario o

Illustrissimo D. Joaõ Cardoso Castello Arcebispo de Lacedemonia, que

fosse benzer a Igreja, e logo sem mais dilaçaõ, sahiraõ as quatro

Fundadoras do Convento de Santa Marta em 25. de Junho de 1721. Foraõ as

Fundadoras a Madre Izabel Maria das Montanhas para Prioreza, a Madre

Maria Jozefa de S. Filippe para Sub-Prioreza, a Madre Antonia Thereza

de Jesu para Mestra da Ordem, que he o mesmo, que Mestra de Noviças, e

a Madre Eufrasia Maria do Sacramento para Porteira.

Disposto tudo o que era preciso para a entrada das Noviças, na

tarde de 2. de Julho de 1721. em que se celebra a Visitaçaõ de N.

Senhora a Santa Izabel, com assistencia da Rainha N. Senhora, e da

Senhora Infanta Dona Francisca, e de muita parte da Nobreza, e de

hum extraordinario concurso de povo, se lançou o habito às primeiras

Noviças, dando todos graças a Deos por verem concluida huma obra, a que

havia pouco menos de hum seculo, que se lhe dera principio.

Mandou o Senhor Patriarca fazer Constituiçoens, que elle mesmo

confirmou em 26. de Junho de 1721. as quaes se compoem de nove Titulos,

que comprehendem cincoenta Capitulos, e se imprimiraõ em Lisboa

Occidental na Officina de Jozè Antonio da Sylva em 1726. em quarto.

Tambem para as Religiosas Descalças de N. Senhora da Conceyçaõ da

Luz, que he da jurisdicçaõ ordinaria, e fundado pelo piissimo Varaõ

Nuno Barreto Fuzeiro, àlem da Regra approvada pelo Papa Julio II. e

modificada por Innocencio XII. mandou fazer Constituiçoens, que constaõ

de 37. Capitulos, que confirmadas em 8. de Julho de 1727. se imprimiraõ

na mesma Officina no dito anno em quarto.

Tem a Mitra de Lisboa huma Quinta no lugar de Santo Antonio do Tojal,

cuja Igreja, como diz a tradiçaõ, fez o Arcebispo D. Fernando de

Vasconcellos, e lhe começou huma Torre, que depois acabou o Arcebispo

D. Miguel de Castro. Com o progresso do tempo, e descuido estava

esta Quinta, e Palacio quasi arruinado, e o Senhor Patriarca a tem

restituido, e renovado de sorte, que Igreja, e Palacio saõ dignissimos

de se verem, naõ só pela grandeza, como pelo bom gosto.

Faltava a este grande Prelado a Purpura Romana, e no Consistorio de

20. de Dezembro de 1737. o creou Cardeal Clemente XII. e lhe mandou o

Barrete por Monsignor Julio Saccheti Sobrinho de Monsignor Cavallieri

Nuncio em Portugal, que chegou a esta Corte em 3. de Mayo de 1738.

Foy esta noticia summamente estimada, e applaudida por toda a Corte,

e povo, celebrando o premio das grandes virtudes, que venera no seu

Prelado.

Card. D. José Manoel

... D. Francisco de Saldanha

... D. Paulo de Carvalho

... D. Joaõ Cosme da Cunha

... D. Fernando da Silva e Menezes

... D. Joseph Francisco da Mendoça

AO MUITO ALTO, E MUITO PODEROSO _Rey de Portugal_ D. JOAÕ III. _DESTE

NOME_ PANEGYRICO DE JOAÕ DE BARROS

Anno de 1533.

Naõ sem causa (muito alto, e muito poderoso Rey, e Senhor) costumavaõ

nos tempos antigos, louvar os excellentes homens em sua prezença,

porque dando louvor justo, e manifesto ao grande merecimento das

pessoas; assim os presentes, como os que viessem depois, tomassem

exemplo, e fizessem taes obras, com que merecessem o mesmo louvor, e

para os nomes dos taes ser mais celebrados sohiaõ nas mòres festas,

e ajuntamentos do povo publicar os taes louvores, que por esta razaõ

chamaraõ Panegyrico, que quer dizer ajuntamento. Com este fundamento

às mezas dos Principes, e grandes Senhores se cantavaõ antigamente em

metro os feitos notaveis dos grandes homens, donde primeiro nasceo

a poezia heroyca, e segundo eu tenho ouvido, ainda neste tempo os

Turcos em suas cantigas louvaõ os feitos darmas, e cavallarias de seus

Capitaens, o que se fosse uzado em Espanha, e em toda a Europa (se me

eu naõ engano) mais proveito da tal Musica nasceria, do que nasce de

saudosas cantigas, e trovas namoradas; mas se o principal fundamento

dos que compoem chronicas, e escrevem as cousas passadas, he fallar

verdade, sem duvida a invençaõ do Panegyrico he de mòr authoridade, que

outra maneira de historias; por quãto o Panegyrico faz sempre fé do que

ve, e o representa aos olhos; a historia pela mòr parte trata do que

ouve, e isto encomenda à memoria; por esta causa, segundo o exemplo dos

antigos, direy neste alguma parte das grandes, e Reaes virtudes de V.

Alteza, (empreza por certo digna de muy grande, e alto estillo;) Mas se

eu naõ puder chegar taõ alto, e as palavras àquem do dezejo, espero que

me valerà adiante delle, ser minha vontade tal, que quiz antes porse ao

perigo, que leyxar de fazer o que podia. Hum só trabalho sinto nesta

obra serem tantos os seus notaveis feitos, e virtudes, que querendo eu

dizer tudo, seria mais compor Chronica, que Panegyrico; e naõ leixando

parte, naõ satisfaria a meu dezejo.

Noticias de Portugal · 第 25 / 43 段