Dona Maria de Ayala filha de Diogo de Ferreira, Senhor das Ilhas de
Lançaròte, Forte ventura, e Gomeira nas Canarias. Era Diogo da Sylva
Ayo delRey D. Manoel, sendo ainda Duque de Beja, e assim depois que
succedeo no Reyno, em gratificação de seus serviços, o fez Conde de
Portalegre, Senhor de Gouvea, Celorico, e S. Romaõ, e muitas outras
Villas, e Lugares, e lhe deu o officio de Mordomo Mòr, e o fez seu
Veador da Fazenda, e Escrivaõ da Puridade. D. Miguel seu filho sendo
moço, o mandou ElRey estudar a Pariz, aonde neste tempo costumavaõ hir
aprender todos os Nobres deste Reyno; para o qual effeito sustentavaõ
os nossos Reys hum Collegio naquella Universidade, em que todos
estudavaõ. Sahio D. Miguel muy douto na sciencia, que aprendia, e
muito mais nas humanidades, e elegancia da lingua latina. Pelo que
naõ se contentando de dar mostras das flores de seus estudos somente
em Pariz, se foy a Bolonha, e depois a Roma no anno de 1530. onde
communicou todos os homens eminentes daquelle tempo; dos quaes sendo
recebido com grande applauso, os deixou taõ affeiçoados à sua agradavel
benevolencia, que lhe ficaraõ chamando em Roma _Il. nostro Micheleto_.
Aqui se encontrou com Hieronymo Osorio (Bispo, que depois foy do
Algarve) e como combinavaõ ambos na erudiçaõ, e elegancia latina, se
foraõ a Veneza, por saberem, que naquella Cidade se tinhaõ junto muitos
engenhos raros daquelle tempo sobre a correcção de Plinio, e chegados a
ella, dizem que deu D. Miguel grandes mostras da viveza de seu engenho;
porque ordinariamente emendava dous, e tres lugares, em quanto os
outros emendavaõ hum. Foy álem disto insigne Poeta latino, e tinha tal
graça nesta faculdade, que disseraõ por elle em Pariz, que assim como
Hieronymo Osorio levava a ventagem a todos em descrever qualquer cousa
na prosa, D. Miguel a naõ concedia a ninguem em fazer o mesmo no verso.
Acabados os estudos, vindo a este Reyno, assim pela valia de seu pay,
como por seus proprios merecimentos, o fez ElRey D. Joaõ III. do seu
Conselho, e lhe deu a Abbadia de S. Tirso em Riba de Ave, com outros
muitos beneficios; e ultimamente o presentou no Bispado de Viseu, e o
mandou por seu Embaixador a Roma, onde esteve muitos annos. E tornando
a este Reyno, lhe deu ElRey o mesmo officio de Escrivaõ da Puridade,
que seu pay tivera.
Movido neste tempo o Summo Pontifice Paulo III. das partes, letras, e
virtudes, que em D. Miguel conheceo, o quiz fazer Cardeal; porèm ElRey
D. Joaõ III. por alguns respeitos de estado, o naõ consentio nunca;
de modo que posto que D. Miguel aceitou a mercè do Papa sendo creado
Presbytero Cardeal da Basilica dos doze Apostolos a 5. de Setembro de
1539. na 7. creaçaõ, com tudo naõ se publicou por entaõ, atè ver se em
alguma maneira consentia ElRey aceitasse esta dignidade. Porèm nunca
se pode alcançar delle esta licença. Pelo q́ desenganado D. Miguel, se
partio escondidamente para Roma o anno de 1541. naõ dando a ElRey os
papeis, que como Escrivaõ da Puridade em seu poder tinha, por fazer com
mayor segredo sua jornada. ElRey tanto que soube della, teve grande
paixaõ, e parecendo-lhe, que sempre D. Miguel defiriria ao que elle
mandasse, o enviou chamar por cartas suas, em que lhe dizia se viesse
logo para elle sem detença alguma, e por lhe tirar o receyo, que podia
ter, o segurou por hum seguro Real, que para isso lhe mandou. Mas D.
Miguel, que estava bem inteirado do desgosto, que ElRey tomara com
sua ida, e quanto sempre lhe repugnara aceitar elle o Capello, naõ se
atreveo a apparecer outra vez ante elle. Do que ElRey se houve por
taõ desservido, que logo o desnaturalizou de seus Reynos, e o privou
de todas as mercès, que lhe tinha feitas por huma carta sua, dada em
Lisboa a 26. de Janeiro de 1542. e nesta desgraça delRey ficou sempre.
Chegado a Roma, foy logo publicada a sua Creaçaõ, que atè entaõ
estivera secreta, e o festejou grandemente o Summo Pontifice Paulo
III. e todo o Collegio dos Cardeaes, com quem foy sempre muy grande
sua authoridade, por as raras partes, que nelle havia, com que levava
a benevolencia de todos; e tal era a opiniaõ com que estava tido na
Corte Romana (ou por melhor dizer) em toda Italia, que naõ achou o
Conde Balthasar Castilhoni, a quem com mais razaõ podesse dedicar o
seu livro do Perfeito Cortesaõ, que a elle; e assim o escolheo entre
todos os Varoens famosos (de que aquelle tempo foy taõ abundante) por
elle representar mais ao vivo todas as perfeiçoens, que no verdadeiro
Cortesaõ imaginava.
Depois disto foy muitos annos Legado de Ravena; huma das principaes
Legacias do Estado Ecclesiastico, e era tal a ordem, e expediencia,
que dava aos negocios, que ainda hoje anda em proverbio na Curia a
audiencia de Viseu. Depois do titulo dos doze Apostolos, com que
foy criado, teve o de Santa Praxedes, e Julio III, o fez Presbytero
Cardeal de Santa Maria Trans Tiberim, junto da qual Igreja viveo nuns
sumptuosos Paços, que ainda hoje conservaõ seu nome. Teve votos para
o Summo Pontificado. Morreo em Roma a 5. de Junho de 1556. e está
sepultado na mesma Igreja de seu Titulo.
§. XIV.
_O Cardeal D. Henrique._
O Infante D. Henrique foy filho delRey D. Manoel, e da Rainha Dona
Maria, sendo de 14. annos se fez Clerigo, e o primeiro Beneficio que
teve, foy o Priorado de Santa Cruz de Coimbra. Depois no anno de 1522.
lhe deraõ o Arcebispado de Braga, que possuhio com outros Beneficios,
até que por morte de seu irmaõ o Infante D. Afonso foy feito Bispo
de Evora; creando no mesmo anno o Papa Paulo III. esta Igreja em
Arcebispado Metropoli, de Sylves, e Ceita, e depois se lhe acrescentou
Elvas. Foy creado Cardeal do Titulo dos Santos quatro Coroados pelo
Papa Paulo III. em Roma na undecima creaçaõ a 16. de Dezembro de 1545.
Foy Legado à Latere neste Reyno, em quanto viveo. Teve do mesmo modo o
Officio de Inquisidor Mòr, e levantou quatro Casas do Santo Officio;
convem a saber, Lisboa, Evora, Coimbra, e Goa. Reformou as Religioens
neste Reyno, e fez muitos Mosteiros, e Casas de Oraçaõ; entre os
quaes foy celebre a Universidade, e o Collegio do Espirito Santo da
Cidade de Evora. Por a infelice morte delRey D. Sebastiaõ succedeo
na Coroa deste Reyno, anno 1578. e morreo em Almeirim no de 1580 no
derradeiro de Janeiro, onde esteve seu corpo depositado atè o de 1582.
em que ElRey D. Filippe de Castella o mandou levar a Belèm, onde està
sepultado, e tem o seguinte Epitafio.
_Hic jacet Henricus gemino diademate clarus,
Quod Patrio sceptro Purpura juncta fuit.
Conditur & Regnum pariter cum Rege sepultum,
Ut foret imperii vitaque, morsque sui._
§. XV.
_O Cardeal D. Verissimo de Lancastro._
Foy filho de D. Luiz de Lancastro, Comendador Mòr de Aviz, e de
Dona Filippa de Vilhena, filha de Manoel de Vasconcellos Regedor da
Justiça. Nasceo em Lisboa, e foy bautizado na Igreja Parroquial de
Santos a 9. de Julho de 1615. Foy Doutor em Canones pela Universidade
de Coimbra. Foy Conego, e Thesoureiro Mòr da Sè de Evora, Deputado,
e Promotor do Santo Officio da Inquisiçaõ da mesma Cidade, lugar de
que tomou posse em 19. de Novembro de 1644. Foy Inquisidor da mesma
Inquisiçaõ, e tomou posse em 16. de Março de 1649. donde veyo para
lnquisidor de Lisboa, e tomou posse em 7. de Julho de 1660. Deputado
do Concelho Geral, de que tomou posse em o primeiro de Abril de 1664.
Foy Sumilher da Cortina delRey D.Pedro II. e por elle nomeado Bispo
de Lamego, que naõ aceitou. Foy Arcebispo, e Senhor de Braga, Primaz
de Espanha. Tomou posse por Procurador em 8. de Julho de 1671. Entrou
naquella Cidade em 3. de Novembro do mesmo anno. Visitou a sua Diocesi
com muita diligencia, e caridade. Administrou o Santo Sacramento da
Confirmaçaõ a innumeraveis pessoas de hum, e outro Sexo. Residio na
sua Igreja atè 27. de Março de 1677. em que veyo para Lisboa, e foy
provido no lugar de Inquisidor Geral, deixando a Cidade de Braga muito
sentida de perder hum taõ benigno Senhor. No lugar de Inquisidor Geral
logrou occasioens de mostrar alèm do zelo da Fè, todas as virtudes
moraes, de que foy dotado. Em 12. de Setembro de 1686. o creou o Santo
Pontifice Innocencio XI. Cardeal da Santa Igreja Romana. A eminencia
da Dignidade nunca dantes vista em Portugal dos que entaõ viviaõ,
lhe naõ diminuhio a sua natural affabilidade, pela qual era amado de
todos. Continuou em dar Ordens todos os Domingos na sua Capella a
todos, os que tinhaõ privilegios para tomalas extra tempora com grande
cõmodidade dos ordinandos, naõ só deste Reyno, mas dos vesinhos, donde
vinhaõ muitos a tomar Ordens a Lisboa, que elle dava a todos com tanto
gosto, que dizia, que nisso naõ fazia favor, mas que o recebia. Ainda
sendo muito velho se levantava muito cedo para estudar na sua copiosa
Livraria, e assim era taõ versado nas materias Canonicas, que nenhum
ponto se lhe allegava Author algum, que elle naõ accrescentasse a
allegaçaõ com muitos outros, sem que a applicaçaõ lhe fizesse damno à
saude, que conservou robusta atè a ultima idade, em que assaltado de
hum violento achaque se rendeo à cama, e em poucos dias de doença deu
muitos exemplos de piedade, e de todas as virtudes. Achava-se naquelle
tempo em Lisboa o Reverendissimo Padre Fr. Joaõ de Alvim Ministro Geral
de toda a Ordem dos Menores, Successor de S. Francisco, que tinha vindo
a vizitar as Provincias deste Reyno, Varaõ prudentissimo, e de santa
vida, e foy significar ao Cardeal o quanto era sensivel para toda a
sua Religiaõ, o estado, em que se achava sua Eminencia, e o Cardeal o
recebeo com as expressoens de humildade christãa, que pudera fazer o
menor subdito daquelle grande Prelado. Conservando sempre a constancia
do animo, recebeo todos os ultimos Sacramentos com tal piedade, que
edificou a toda a Corte. Em todas as Casas Religiosas se faziaõ
Preces pela vida daquelle Principe, que excedeo a todos no amor às
Sagradas Religioens; mas se lhe naõ alcançaraõ huma vida mais dilatada,
conseguiraõ-lhe huma morte santa, pela qual entregou a alma nas mãos
do seu Creador em 13. de Dezembro de 1692. Aberto o seu Testamento se
achou cheyo de disposiçoens pias, e prudentes: entre outras mandou, que
se lhe fizesse huma Capella no Adro da Igreja de S. Pedro de Alcantara
de Lisboa com outenta mil reis de renda perpetua para a fabrica della,
e que nella se lhe dissessem quatro Missas quotidianas perpetuas,
deixando por cada huma a esmolla de quarenta mil reis cada anno. Foy a
sua morte sentida em todo o Reyno pela muitas, e singulares virtudes,
com que se tinha feito amavel a todo elle. Mandouse sepultar no Atrio
da Igreja de S. Pedro de Alcantara do Mosteiro dos Capuchos da Santa
Provincia da Arrabida, da qual tinha sido grande bemfeitor, adonde o
seu corpo foy levado por entre duas alas de Religiosos de todas as
Ordens, que ha em Lisboa, que principiando na porta do Palacio da
Inquisiçaõ, acabavaõ na dita Igreja, tendo todos vèlas acesas. Ao mez
se lhe fez hum solennissimo officio na mesma Igreja, funebre, mas
ricamente adornada, com elevadissimo Mausoleo cheyo de luzes. Prègou
naquellas honras o Illustrissimo Bispo de Pernambuco D. Fr. Francisco
de Lima da Ordem de N. Senhora do Monte do Carmo com a sua costumada
elegancia, e erudiçaõ.
§. XVI.
_O Cardeal Luiz de Souza._
Foy filho de Diogo Lopes de Sousa, segundo Conde de Miranda, Governador
do Porto, Presidente do Concelho da Fazenda, do Concelho de Estado de
Portugal na Corte de Madrid, e da Condessa Dona Leonor de Mendoça.
Nasceo na Cidade do Porto em 16. de Outubro de 1630. No de 1639. foy
com a Condessa sua Mãy para Madrid, adonde desde o anno antecedente
estava o Conde seu Pay, que alli faleceo em 27. de Dezembro de 1640.
vinte, e sete dias depois de se ter acclamado em Lisboa ElRey D.
Joaõ IV. Neste tempo jà Luiz de Sousa era Menino da Rainha no Paço
de Castella, aonde continuou atè o anno de 1646. em que em companhia
da Condessa viuva, com permissaõ delRey D. Felippe IV. voltou a
Portugal. Em Lisboa estudou Latinidades no Collegio de Santo Antaõ
da Companhia de Jesus. Declarouse logo por elle o favor do Principe
D. Theodozio, augmentado pelo amor dos Livros, em que era muito
semelhante ao Principe, Luiz de Sousa, que tendo só dez annos, começou
a diligencia de juntar Livros, em que perseverou por toda a vida,
comprando naquella tenra idade os primeiros trez, que ainda que de
materias agradaveis aos annos pueriz, foraõ principio da copiosissima,
selecta, e celebrada Livraria de Luiz de Sousa, que para ajuntalla,
fez huma larga peregrinaçaõ. Naõ tendo completos vinte, e hum annos,
partio para Roma em 8. de Fevereiro de 1651. no Pontificado do Papa
Innocencio X. No anno de 1653. lhe chegou a funesta noticia da morte do
seu adorado Principe D. Theodozio, succedida em Alcantara de Lisboa a
15. de Mayo daquelle anno, a qual fez nelle tanta impressaõ, que teve
grandes impulsos de entrar na Cartuxa, para se retirar totalmente do
Mundo, e morrer para elle, seguindo do modo, que lhe era licito, ao
Principe defunto. Mas a Divina Providencia, que destinava Luiz de Sousa
para Principe da Igreja, lhe tirou os pensamentos daquella estreita
clausura, e a que sempre conservou hum grande amor, pelo qual tinha
resoluto nos ultimos annos de sua vida doar à Cartuxa de Laveiras, no
Termo de Lisboa, a sua grande Livraria, e lhe começou a fabricar huma
capacissima Sala para a collocar, a qual ficou imperfeita, e a meditada
doaçaõ sem effeito. Testemunhou publicamente o sentimento da morte do
Principe D. Theodosio com erigir em Roma hum Monumento perene à sua
memoria, com esta inscripçaõ.
_=TUMULUS=
Serenissimi Principis Lusitania
THEODOS II
Ornatus virtutibus, oppletus lacrimis
Illius inmorttalitati
A LUDUVICO DE SOUSA
Comitis Mirandæ filio
Uno ex intimis Aulæ
Erectus._
No qual em elegantes versos latinos choraõ aquella lamentavel perda as
quatro partes do Mundo, a que se estende o Imperio Portuguez. Em Roma
estudou Luiz de Sousa os Sagrados Canones, em que se graduou Doutor.
Ainda se achava naquella Corte ao tempo da morte de Innocencio X. a 3.
de Janeiro de 1655, e no da eleiçaõ de seu successor Alexandre VII.
exaltado ao Summo Pontificado em 7. de Abril do mesmo anno. Do qual
obteve o Deado da Sè do Porto, com o qual sahio de Roma em Setembro do
dito anno, e depois de visitar a Santa Casa do Loreto, passou a Veneza,
e dahi a Alemanha, Flandes, Olanda, e Pariz. Restituido a Portugal em
26. de Setembro do anno seguinte de 1655. foy Governador do Bispado
do Porto, e Governador da mesma Cidade, e da sua Relaçaõ, occupando
estes tres lugares com admiravel inteireza, prudencia, e desinteresse.
Em 1669. o nomeou ElRey D. Pedro o II, (sendo ainda Principe Regente,
e Governador deste Reyno) para a dignidade de Capellaõ Mòr, e o Papa
Clemente X. o fez Bispo de Bona. Sagrouse na Capella Real em 14. de
Junho de 1671. Em 17. de Setembro de 1675. foy nomeado Arcebispo de
Lisboa. Tomou posse em 22. de Janeiro de 1676. Fez magnificas obras
no Palacio Archiepiscopal. Alcançou para Lisboa o Jubileo do _Laus
perenne_, e hia visitar todas as Igrejas, em que elle se achava por
todo o circulo do anno. Duas vezes foy Provedor da Mizericordia, huma
no anno de 1674. e outra no de 1683. em ambas fez aquelle officio
com grande assistencia, piedade, e generosidade. Reedificou o Templo
de Santa Catharina de Ribamar, de Religiosos da Santa Provincia da
Arrabida, com todo o primor da Architectura. No Real Mosteiro da
Batalha na Capella de S. Miguel fez o sumptuoso Mausolèo para que fez
trasladar em 24. de Mayo de 1691. os ossos do Conde seu Pay, como
testemunha a inscripçaõ, cuja elegancia compete com o polido da obra,
como sahida da penna do Reverendissimo Padre D. Rafael Bluteau, Clerigo
Regular da Divina Providencia, Academico da Academia Real, Varaõ bem
conhecido no Mundo pela sua celebre, e admiravel obra do Vocabulario
Portuguez em dez tomos de folha, e outras muitas obras de grandissima
estimaçaõ, que imprimio, e deixou manuscriptas em Latim, e Portuguez.
Em 30 de Agosto de 1679. foy feito do Concelho de Estado. Foy creado
Cardeal da Santa Igreja Romana, pelo Papa Innocencio XII. em 21.
de Junho de 1697. Trouxe-lhe o Barrete D. Jeronymo Colona, que
por isto teve de pensaõ duzentos mil reis no Bispado de Miranda.
E perguntando-lhe o Senhor Rey D. Pedro II. se havia continuar no
Officio de Capellaõ Mór, sendo Cardeal, elle lhe respondeo, que se
a Purpura lhe houvesse de ser embaraço para servir a Sua Magestade
naquelle Officio, por nenhum caso a aceitaria. Morreo piamente em 4.
de Janeiro de 1702. Mandouse sepultar na Capella de Nossa Senhora
da Piedade da Terra Solta na Claustra da sua Sè, para a qual tinha
Tribuna do seu Palacio, no pavimento da Capella, em huma sepultura
raza, em cuja campa, que he de pedra negra, mandou esculpir por
Epitafio estas palavras: _Sub tuum præsidium_. Fizeraõ-se-lhe as honras
na sua Sè, com a magnificencia devida a tal Principe: prégou nellas o
Reverendissimo Padre Fr. Rodrigo de Lancastro, da Ordem dos Pregadores,
hoje do Concelho de Sua Magestade, e do Geral do Santo Officio, por
suas virtudes, letras, e alto Sangue, acredor das mayores dignidades.
Trataõ do Cardeal Luiz de Sousa, Manoel de Sousa Moreira no Theatro
Genealogico da Casa de Sousa. O qual he huma excellente obra, e em que
se està vendo a boa eleiçaõ do Cardeal Sousa, porque a mandou fazer
por hum dos maes discretos homens de seu tempo, que era Secretario
do Padroado Real, e depois foy Abbade das Chans, e ultimamente da
Igreja de Sambade, adonde morreo sendo Academico da Academia Real, na
Provincia de Traz os Montes. Mandou o Cardeal imprimir esta excellente
obra na Impressaõ Real de Pariz, no anno de 1694. em folha de grande
papel, a qual enche mais de mil paginas, he livro muito adornado de
estampas, com os retratos de todos os Senhores da Casa Sousa, desde
o seu principio até aquelle anno, tudo feito com tal primor, que
pareceo querer competir a arte Typografica com a elegancia do estylo,
sacrificando-se huma, e outra a elevaçaõ do Assumpto daquella obra. O
Padre Daniel Papebrochio da Companhia de Jesus, lhe dedicou o quinto
tomo da grande obra intitulada: _Acta Sanctorum Maij_, e a Dedicatoria
he hum elegante Panegyrico do seu Patrono; nella celebra tambem a sua
famosa Livraria; à qual o sobredito Padre D. Rafael Bluteau dedicou o
seu segundo tomo das suas Primicias Evangelicas, e he a Dedicatoria naõ
só hum Panegyrico daquella Livraria; mas hum grande theatro de toda a
erudiçaõ. Faz tambem honorifica memoria de Luiz de Sousa Jorge Cardozo,
no terceiro tomo do Agiologio Lusitano, no commentario de 15. de Mayo
letra G. pag. 283. tratando do Principe D. Theodosio; e este Author
accrescentou, e enriqueceo muito a dita Livraria do Cardeal, com os
preciosos Manuscriptos, que lhe deixou, os quaes tinha junto com grande
trabalho, despeza, e desvelo em trinta annos: em ordem à composiçaõ da
nunca dignamente louvada obra do Agiologio Lusitano de tanta gloria de
Deos, e honra deste Reyno, de que deixou impressos tres tomos dos seis
primeiros meses do anno, e nos taes Manuscritos a materia disposta para
os outros seis.
§. XVII.
_O Cardeal Nuno da Cunha de Ataide._
He filho de Luiz da Cunha de Ataide, Senhor de Povolide; Castro
Verde, e Paradella, e de sua mulher Dona Guiomar de Lancastro, filha
de D. Alvaro de Abranches, do Conselho de Estado, e de Dona Maria de
Lancastro. Nasceo em Lisboa no anno de 1664. em 8. de Dezembro, (e
naõ em 7. de Agosto, como erradamente trazem alguns livros impressos
em Roma.) Foy bautizado na Igreja de S. Jozè, em cuja Parochia està o
Palacio de sua Casa, pelo Senhor D. Verissimo de Lancastro, Deputado
entaõ do Conselho Geral do Santo Officio, e depois Arcebispo de Braga,
Primaz das Espanhas, Inquisidor Geral de Portugal, e Cardeal da Santa
Igreja Romana. Foy seu Padrinho do Bautismo Luiz de Vasconcellos, e
Sousa, Conde de Castello Melhor, do Conselho de Estado, Reposteiro Mòr,
e Escrivaõ da Puridade delRey D. Afonso VI. e Madrinha, a Senhora Dona
Elvira Maria de Vilhena, Condessa de Pontevel.
Estudou Latinidades em Lisboa com insignes Mestres. Estudou Filosofia
na mesma Cidade, na Aula do Mosteiro da Santissima Trindade, e em
Coimbra tomou o grào de Mestre em Artes. Sendo naquella Universidade
Porcionista do Collegio de S. Paulo, estudou os Sagrados Canones,
em que fez exame privado. Foy Conego da Sè da mesma Cidade. Em moço
acompanhou a seu Tio Paterno Nuno da Cunha, Conde de Pontevel, na
jornada, que fez a França, para dahi passar a Inglaterra, para cuja
Corte hia por Embaixador extraordinario. He comendador de Santa Martha
de Bornes da Ordem de Christo.
Foy Deputado da Inquisiçaõ de Coimbra, de que tomou posse em 2. de
Novembro de 1691. e em 29. de Julho do anno de 1692. entrou a ser
Promotor da mesma Inquisiçaõ; em 8. de Abril de 1692. tomou posse no
lugar de Deputado da Inquisiçaõ de Lisboa; desta foy tambem Inquisidor,
e tomou posse do lugar em 5. de Abril de 1700. Foy Deputado da Junta
dos Tres Estados. Sendo nomeado Bispo de Elvas, naõ aceitou. O Senhor
Rey D. Pedro II. o nomeou Capellaõ Mòr em 14. de Setembro de 1704. o
Papa Clemente XI. lhe deu o Titulo de Bispo de Targa. He Inquisidor
Geral nestes Reynos, e suas Conquistas, lugar de que tomou posse em 6.
de Outubro de 1707. He do Concelho de Estado, e Cardeal da Santa Igreja
Romana, creado em 18. de Mayo de 1712. pelo mesmo Papa Clemente XI.
por cuja morte partio de Lisboa para Roma ao Conclave em 9. de Mayo de
1712. O Papa Innocencio XIII. que entaõ foy eleito lhe deu o Chapeo em
10. de Junho do mesmo anno, com o Titulo de Santa Anastasia, de que
tomou posse em 21. de Julho do mesmo anno, e o fez das _Congregaçoens
de Bispos, e Regulares_, de _Propaganda Fide_, dos _Ritos_, e da
_Consistorial_. Esteve em Roma com grande credito da Naçaõ Portuguesa,
assim pelas suas letras, e piedade, como pela sua magnificencia.
Restaurou a Basilica de Santa Anastasia, fazendo nella magnificas
obras, e augmentos, de que agradecido o Cabido della, em 2. de Março
de 1722. determinou, que naquella Igreja se fizesse todos os annos,
atè o fim do mundo, especial memoria do seu grande Bemfeitor, e mandou
gravar em num marmore huma larga inscripçaõ para eterna lembrança de
tudo isto, que traz o doutissimo Director da Academia Real Portugueza
D. Manoel Caetano de Souza no seu _Catalogo Historico dos Summos
Pontifices, Cardeaes, e Bispos deste Reyno_, onde se pòde ver. A grande
devaçaõ, que tem à Glorioaa Santa Barbara Virgem, e Martyr, o moveo a
solicitar em Roma, e conseguir do Papa Innocencio, logo que chegou à
Curia, que neste Reyno se pudesse rezar della com liçoens proprias, e
rito Duplex, sendo dantes simples, e deu para a sua Ermida do Castello
de Lisboa huma fermosa alampada de prata. Voltou a esta Corte em 22. de
Outubro de 1722. aonde foy recebido por S. Magestade, por toda a Corte,
e Nobreza com as demonstrações de estimaçaõ, que sempre mereceo.
§. XVIII.
_O Cardeal D. Jozè Pereira de Lacerda._
Foy filho de Francisco Pereira de Lacerda, e de sua mulher Dona Antonia
de Brito, Fidalgos illustres. Nasceo na Provincia de Alentejo, na Villa
de Moura em 7. de Junho de 1661. Estudou Canones na Universidade de
Coimbra, em que tomou o grào de Doutor, foy Oppositor às Cadeiras, e
leo algumas por substituiçaõ. Foy Promotor, e Deputado do Santo Officio
na Inquisiçaõ de Evora, lugares de que tomou posse no anno de 1691.
em 10. de Dezembro vespera de S. Damaso Pontifice Portuguez. Na mesma
Inquisiçaõ foy Inquisidor, lugar de que tomou posse em 2. de Setembro
1692. Largou o serviço do Santo Officio. Foy Prior da Igreja Parochial
de S. Lourenço de Lisboa, na qual succedeo ao Eminentissimo Senhor
D. Thomaz de Almeida, hoje Cardeal Patriarca de Lisboa Occidental.
Foy nomeado Prior Mòr da Ordem Militar de S. Tiago em 12. de Setembro
de 1709. Tomou posse do Priorado Mòr no Convento de Palmella em 4.
de Novembro do mesmo anno. Foy nomeado Bispo do Algarve em Novembro
de 1715. Foy Sagrado em Lisboa na Igreja do Mosteiro da Santissima
Trindade em 30. de Agosto de 1716. pelo Eminentissimo Senhor Cardeal
da Cunha, sendo assistentes os Illustrissimos Senhores D. Luiz
Simoens Brandaõ, Bispo de Angola, e D. Manoel da Sylva Francez, Bispo
de Tagaste, e Coadjutor do Arcebispado de Lisboa. Foy Executor da
Bulla Aurea para a Creaçaõ do Patriarcado de Lisboa Occidental. Foy
creado Cardeal Presbytero da Santa Igreja Romana pelo Papa Clemente
XI. no Consistorio de 19. de Novembro de 1719. Trouxe-lhe o Barrete
Cardinalicio Monsignor Sacripante, o qual recebeo na sua Capella em
3. de Novembro de 1720. Nos principios de Mayo de 1721. o nomeou S.
Magestade do Conselho de Estado. Em 9. do mesmo mez, e anno se embarcou
em Lisboa para Roma, a entrar no Conclave, a que tinha sido convocado
pelo Sacro Collegio; por morte do Papa Clemente XI. A 10. de Junho do
mesmo anno, estando jà em Roma, lhe deu o Papa Innocencio XIII. que
tinha succedido a Clemente XI. em 8. de Mayo, o Chapeo; e a 16. do
mesmo mez lhe deu o Anel Cardinalicio, e o Titulo de Santa Susana, do
qual tomou posse no mesmo anno em 11. de Agosto, dia da mesma Santa.
E aos 7. de Setembro seguinte tomou posse do lugar de Protector da
Capella do Santissimo Sacramento da mesma Igreja.