Por morte de Adriano I. foy eleito Summo Pontifice em Viterbo aos 20.

de Setembro de 1276. Teve grande cuidado de prover os beneficios da

Igreja em pessoas benemeritas por virtude, e letras. Intentou fazer

huma insigne jornada para recuperar, e libertar a Casa Santa; e a

posera por obra, se a vida lhe naõ faltara. Mandou fazer huns ricos,

e sumptuosos Paços em Viterbo (que entaõ era o assento ordinario das

Cortes dos Pontifices) que foraõ a causa de sua morte; porque estando

vendo hum quarto, que se tinha acabado de novo, se veyo o edificio

abaixo, e o maltratou de maneira, que dahi a seis dias deu o espirito

ao Senhor com grandes mostras de devaçaõ a 16. de Mayo de 1277. Viveo

outo meses no Pontificado, e cinco dias: naõ creou Cardeaes. Està

sepultado na Igreja de S. Lourenço em huma sepultura ordinaria com

este Epitafio _Joanni Lusitano 21. Pontificatus Max. sui mense 8.

Moritur 1277_. Deixou escritas muitas obras cheyas de grande erudiçaõ,

principalmente em Medicina o livro, que se intitula: _Thesaurus

pauperum_; e outro _Canones Medicinæ_, e outros alguns; compoz tambem

certos _Problemas_, como os de Aristoteles; e as _Summulas_, que se lem

em muitas Escolas de Filosofia com seu nome. Viveo este Pontifice em

tempo delRey D. Afonso III.

§. V.

_O Cardeal D. Martinho._

Dom Martinho Bispo de Lisboa foy creado Presbytero Cardeal no anno

1383. aos 13. de Dezembro em Avinhaõ por Clemente VII. que se chamava

Papa, da qual parcialidade era este Bispo, como se vè da Chronica

delRey D. Joaõ I. p. 1. o qual foy morto pelo povo, por naõ querer

mandar repicar os sinos da Sè em favor do Mestre de Aviz em Lisboa.

Onufrio no seu livro dos Cardeaes lhe chama Portuguez, ainda naõ falta,

quem o tem por Castelhano.

§. VI.

_O Cardeal D. Joaõ Afonso de Azambuja._

Dom Joaõ Afonso de Azambuja foy filho de Afonso Esteves Cavalleiro,

Reposteiro Mòr delRey D. Pedro, e irmaõ de Joaõ Esteves o Privado.

Foy feitura delRey D. Joaõ I. e da sua facçaõ, em quanto duraraõ as

guerras de Castella. Em seu principio foy Conego de Evora, e Prior

da Igreja de Monçaõ em Entre Douro, e Minho; e depois da Alcaçova de

Santarem. ElRey D. Joaõ o mandou a Roma por duas vezes a buscar a

sua dispensaçaõ para poder casar: a primeira, sendo ainda Prior da

Alcaçova em companhia de D. Joaõ Bispo de Evora; e a segunda, sendo

elle jà Bispo de Sylves, juntamente com Joaõ Rodrigues de Sà ao mesmo

negocio. E naõ sómente neste particular, porèm em todas as cousas

importantes, que naquelles tempos succederaõ, usou sempre ElRey muito

de seu Conselho, e pessoa, por ser sogeito de muitas partes, e grande

authoridade.

Foy Bispo do Algarve dous annos, do Porto sete, de Coimbra quatro, e

ultimamente Arcebispo de Lisboa sete, e meyo: foy creado Cardeal de S.

Pedro ad Vincula, do titulo de Santa Eudoxia em Roma por Joaõ XXIII.

anno 1411. a 6. de Junho, e lhe ficou o Arcebispado em Encomenda.

Fundou em Lisboa sendo Arcebispo, o Mosteiro do Salvador de Religiosas

da Ordem de S. Domingos, a quem deixou por seu herdeiro, cujo padroado

tem hoje os descendentes de Joaõ Esteves o Privado irmaõ do Cardeal,

posto que usaõ appellido de Noronha. Morreo em Bruges, vindo de Roma

para Portugal a 23. de Janeiro de 1415. mandou trazer seu corpo ao

Mosteiro do Salvador, e nelle està sepultado na Capella Mòr da parte do

Evangelho: os Padroeiros apresentaõ hum Vigario, e dous Capellaens, que

dizem Missa quotidiana pelo Fundador; na sepultura tem este letreiro:

_Senhor D. Joaõ Arcebispo de Lisboa, e Cardeal de Roma, Baraõ sabedor,

e virtuoso_. Na Sè de Evora fazem hum Anniversario aos 24. de Janeiro

por este Prelado, o qual lhe mandou dizer Alvaro Dias Pestana Conego da

mesma Igreja, seu criado que foy, e feitura sua; no qual lugar do livro

dos Anniversarios se refere muita parte desta relaçaõ; e diz que morreo

a 22. de Janeiro de 1415. e que foy creado Cardeal a 3. de Junho de

1411.

§. VII.

_O Cardeal D. Pedro da Fonseca._

Dom Pedro da Fonseca foy filho de Pedro Rodrigues da Fonseca Alcaide

Mòr de Olivença, e de Ines Botelha parenta da Rainha Dona Leonor de

Portugal; por occasiaõ do qual parentesco seguio Pedro Rodrigues as

partes da Rainha Dona Beatriz, e D. João o I. de Castella, para onde se

foy, e là o fez ElRey seu Guarda Mór, deixando elle em Portugal muitas

Villas, e lugares, de que era Senhor. Quando se Pedro Rodrigues foy de

Portugal, jà levava a Pedro da Fonseca seu filho, ainda que pequeno;

e assim posto que se criou em Castella, lhe chama sempre Onufrio

Portugalense, e os Authores Castelhanos o confessaõ.

Foy Bispo Portuense, e depois o creou Cardeal Benedicto XI. que de

antes se chamava Pedro de Luna, nas Temporas de Setembro, anno 1409.

Era jà neste tempo Benedicto declarado por naõ Papa, e deposto pelo

Concilio de Pisa, a quem elle naõ quiz obedecer. Durou D. Pedro em sua

parcialidade, atè ultimamente ser deposto pelo Concilio de Constancia

no anno de 1417. ao qual pertinazmente resistindo, foy desamparado

de quasi todos os seus Cardeaes, e D. Pedro da Fonseca se foy para

Martinho III. (a quem ordinariamente chamaõ V.) o qual o confirmou

na Dignidade em 17. de Março de 1419. e conhecendo bem suas partes,

o mandou por seu Legado a Constantinopla, quando o Emperador Manoel

lhe mandou dizer por sua Embaixada, que a Igreja Grega queria vir em

uniaõ com a Latina. Nesta Legacia se ouve o Cardeal com tanto acordo,

e prudencia, que trouxe os Gregos a Italia ao Concilio de Ferrara, que

depois se passou para Florença contra os Prelados de Basilea, que com

grande instancia pretendiaõ levar os Gregos ao seu Concilio. Morreo

depois em Vicovaro a 20. de Agosto de 1422. Està sepultado em Roma

em huma Capella junto da grande de Pio IV. que serve de Choro; tem a

sepultura cinco Estrellas em aspa, que saõ as armas dos Fonsecas, e

este Epitaphio:

_Hortus in Hesperiis Præsul dignissimus oris

Fonseca è prole Petrus, lux, gloria magni

Sanguinis, & patrii superexaltator honoris,

Hic jacet: è sacro titulum Michaele recepit

Cardineum; cujus sapientia claruit altas

In laudes sensati animi, mirabilis iste

Doctor erat, divina colens, & amator honesti,

Mente pius, recti prudens, moderator & æqui.

Venit amara dies, qua diræ syncopa mortis,

Heù patrem hunc rapuit, Domini labentibus annis

Mille, quadringentis, bis denis, atque duobus,

Dum vigena Dies Augusti panderet astra.

Spiritus in Cælo tecum sacer Angele vivat._

§. VIII.

_O Cardeal D. Antaõ Martins de Chaves._

Dom Antaõ Martins de Chaves sendo Deaõ de Évora, foy eleito Bispo do

Porto pela vacancia de D. Vasco Bispo da mesma Igreja, quando foy

transferido para a de Evora pelos annos de 1424. atè 25. Foy D. Antaõ

insigne Prelado de muita virtude, e sciencia, e grande defensor da

liberdade Ecclesiastica, como bem o mostrou em hum Concilio, que o Papa

Martinho V. mandou ajuntar em Braga no anno de 1426. para a conservaçaõ

da izençaõ dos Ministros Ecclesiasticos, os quaes com a licença,

que a guerra traz consigo, andavaõ muy opprimidos dos Capitaens, e

Soldados, em quanto as guerras delRey D. Joaõ I. duraraõ com Castella;

e para remedio de taõ grandes males se ajuntaraõ dous Concilios neste

Reyno, hum em Braga, e outro em Lisboa; e no de Braga, em que se D.

Antaõ achou presente, se ordenaraõ muitas cousas tocantes à liberdade

Ecclesiastica, e mostrou bem nelle este Prelado o valor, que em si

tinha.

Depois no anno de 1434. foy mandado D. Antaõ por ElRey D. Duarte ao

Concilio Geral de Basilea em companhia do Conde de Ourem D. Affonso,

que depois foy Marquez de Valença. Assistio em Basilea todo o tempo,

que durou aquelle Concilio, atè que o Papa Eugenio IV. o revogou,

e tranferio para Ferrara para onde veyo, por obedecer aos mandados

Apostolicos. Pela qual razaõ, querendo-lhe depois o Pontifice

agradecer seus trabalhos, o creou Presbytero Cardeal, estando em

Consistorio no Concilio Geral de Florença a 15. de Janeiro de 1439.

dando-lhe o titulo de S. Chrysogono.

Viveo depois em Roma alguns annos, aonde edificou, e dotou a

hospedaria, e hospital de Santo Antonio dos Portugueses, e lhe deu os

Estatutos, que hoje guarda: na qual obra merece certo grande louvor;

porque àlem do serviço, que nella fez a Nosso Senhor, applicando-lhe

muitas rendas para ajuda, e refugio dos naturaes deste Reyno, que

naquellas partes andaõ, foy occasiaõ para que os outros Portugueses,

que naquella Corte viveraõ, deixassem suas fazendas à mesma Casa, com

o que cada dia se vay augmentando mais, assim as boas obras, que nella

se fazem, como a reputaçaõ, e honra da naçaõ Portuguesa; na qual Igreja

se mandou sepultar aquelle insigne Doutor, e Santo Varaõ Martinho de

Aspilcueta Navarro, o qual naõ sómente nos costumes em vida, mas ainda

na morte, quiz mostrar com esta sepultura o amor, que sempre tivera a

este Reyno, e a seus naturaes.

No Cartorio do Cabido da Sè de Evora està a copia de huma carta, que

o Cabido escreveo a este Cardeal, em que lhe mandava pedir alcançasse

do Summo Pontifice hum Breve para o Cabido administrar a fabrica da

Igreja, lembrando-lhe que os Bispos faziaõ este officio, como elle

vira no tempo que servira esta Sè. E ainda que consta, que o Cardeal

impetrou esta graça para o Cabido; naõ parece que teve de todo effeito,

e os Prelados ficaraõ com a posse della. Morreo depois o Cardeal em

Roma a 11. de Julho de 1447. està sepultado em S. Joaõ de Latraõ, onde

estaõ huns orgaõs, que segundo tradiçaõ deu elle àquella Igreja, e tem

este Epitafio.

_Sepulchrum D. Antonii Cardinalis Portugalensis, qui obiit Romæ die 11.

mensis Julii anno a Nativitate Domini MCDXLVII cujus anima requiescat

in pace. Amen._

§. IX.

_D. Luiz do Amaral_

ElRey D. Joaõ I. mandou por seu Embaixador ao Concilio de Basilea D.

Luiz de Amaral Bispo de Viseu, o qual se partio deste Reyno no anno de

1433. (que foy o em que ElRey morreo) havendo jà dous, que o Concilio

era começado; fez o caminho por Bolonha, aonde entaõ estava o Summo

Pontifice, e por occasiaõ da morte delRey D. Joaõ, que o mandava, se

deteve naquella Corte, atè chegarem o Conde de Ourem, e o Bispo do

Porto D. Antaõ, aos quaes, e a elle mesmo D. Luiz mandava ElRey D.

Duarte por seus Embaixadores ao proprio Concilio.

Partiraõ no anno seguinte de 1434. Juntos todos em Basilea, foy tido

em grande reputaçaõ entre aquelles Prelados, o Bispo D. Luiz por sua

grande virtude, constancia, e inteireza, pela qual razaõ o elegeraõ os

Prelados de Basilea por hum dos Embaixadores, que mandaraõ a Grecia

ao Emperador de Constantinopla Joaõ Paleologo, que a Manoel seu pay

tinha succedido com intençaõ de reduzirem os Gregos à uniaõ da Igreja

Catholica Romana, e os trazerem ao Concilio de Basilea. Partio desta

Cidade o derradeiro de Fevereiro de 1435. e o foraõ acompanhando atè

fóra da Cidade o Conde de Ourem, e o Bispo do Porto com outros Padres

do Concilio, como tudo particularmente se refere em hum livro grande

escrito de maõ, que chamaõ de varias cousas, que foy da Guardaroupa

do Cardeal, e Rey D. Henrique, e hoje està na Livraria do Collegio do

Espirito Santo da Companhia de Jesus da Cidade de Evora, em que està

escrita esta jornada do Conde de Ourem, e tudo o que em Basilea passou

muito ao largo por hum seu criado, que em todo o caminho o acompanhou.

Vindo de Grecia, intentou levar o Concilio de Basilea por diante a

despeito do Papa Eugenio IV. com outros Bispos, que em Basilea estavaõ.

Para cujo effeito foy mandado outra vez do Concilio ao Emperador de

Alemanha Alberto II. no anno de 1438. mas por este tempo andar o

Emperador muy occupado na guerra, que queria fazer ao Turco em favor

do Despote da Servia, naõ se pode tomar meyo, em que os Concilios

viessem a concordia; antes com a morte de Alberto tomaraõ os de Basilea

nova licença contra o Papa Eugenio, e ousaraõ a proceder contra elle

com censuras; até que ultimamente depois de passados os termos dellas,

pronunciaraõ contra elle sentença de privaçaõ da dignidade Papal; e

havendo a Sede por vacante, entraraõ em nova eleiçaõ de Pontifice.

Mas vendo que dos Prelados, que no Concilio estavaõ, sómente Ludovico

Arelatense era Cardeal, acordaraõ de dar-lhe 32. adjuntos para

Eleitores 8. de cada naçaõ; entre os quaes na de Espanha entrou o Bispo

D. Luiz. Desta eleiçaõ sahio por Papa Amadeo, Duque, que tinha sido de

Saboya, o qual tendo-se por legitimo Pontifice, se quiz chamar Felix

V. e se coroou neste anno de 1439. Depois creou por vezes Cardeaes, e

fez todas as mais cousas, que aos Summos Pontifices convinhaõ. E na

quarta creaçaõ, que foy a sua ultima anno 1443. no mez de Abril, creou

Presbytero Cardeal ao Bispo D. Luiz. Durou o Scisma atè o anno de 1449.

em que o Emperador Federico III. acabou com o Antipapa Felix cedesse

de algum direito, que ao Pontificado podia ter. Em gratificaçaõ da

qual cessaõ o Papa Eugenio o fez Deaõ dos Cardeaes, e lhe deu muitos

outros honrados cargos. E dos 24. Cardeaes, que tinha creado, confirmou

sómente tres. Porèm jà a este tempo era deposto, ou morto o Bispo D.

Luiz; porque no anno 1444. D. Luiz Coutinho era jà Bispo de Viseu, de

modo, que sua morte foy pouco depois de sua creaçaõ.

§. X.

_O Cardeal D. Gemes._

O Cardeal D. Gemes foy filho do Infante D. Pedro Regente destes Reynos,

e de Dona Isabel sua mulher, filha do Conde de Urgel D. Gemes, e netta

delRey D. Afonso III. de Aragaõ. Depois de ser preso na batalha de

Alfarrobeira (em que seu pay morreo) se foy para sua tia a Infanta

Dona Isabel Duquesa de Borgonha, sendo ainda de muy pouca idade. Vindo

depois a Roma houve a perpetua administraçaõ do Arcebispo de Lisboa;

e foy creado Cardeal de Santa Maria in Porticu na primeira creaçaõ,

que o Papa Calixto fez anno 1456. no primeiro dia de Outubro, em que

creou sómente tres; convem a saber dous sobrinhos seus, a este Senhor.

Duarte Nunes do Leaõ, e outros homens graves, e de letras, dizem que

foy Cardeal do titulo de Santo Eustachio; naõ sey com que fundamento,

porque Onufrio sempre lhe chama de Santa Maria in Porticu na particular

historia, que dos Cardeaes compoz. Porèm segundo todos os nossos, lhe

dão o titulo de Santo Eustachio; podia bem ser que succedesse nelle por

morte de algum outro Cardeal mais antigo.

Foy Principe de grande modestia, gravidade, engenho, e erudição, de

cujas partes Eneas Sylvio, que depois foy Summo Pontifice Pio II, faz

honradissima mençaõ, fallando da primeira creaçaõ do Papa Calixto

na sua Europa cap. 58. com estas palavras: _Tertius fuit Jacobus de

Portugalia Regio sanguine natus, in quo ea modestia, ea gravitas, id

acumen ingenij, id studium literarum, is amor virtutis emicuit, ut

quamvis juvenis adhuc, tardius tamen opinione omnium ad eam dignitatem

ascenderit_.

Sendo de idade de 25. annos, e 9. meses, morreo em Florença a 19. de

Setembro de 1459. com nome de castissimo; e he tido nesta Cidade em

opiniaõ de Santo. Jaz sepultado na Igreja de S. Miniato, que he dos

Frades de S. Bento, situada fóra dos muros da Cidade, na qual està o

Crucifixo, que se inclinou a S. Joaõ Gualberto Author dos Ermitaens de

Valumbrosa. Tem na sepultura este letreiro.

_Regia stirps, Jacobus nomen, Lusitana propago

Insignis forma, summa pudicitia.

Cardineus titulus, morum nitor, optima vita,

Ista fuere mihi, mors juvenem rapuit.

Vixit Ann. XXV. Mens. XI. Dies X. ob. A.S.

MCCCCLIX._

§. XI.

_O Cardeal D. George da Costa._

Dom George da Costa foy natural de Alpedrinha lugar do Bispado da

Guarda, nasceo no anno de mil quatro centos e sesenta, foy varaõ dotado

de grande engenho, virtudes, e altos pensamentos, em seus principios

foy Lente de Santo Eloy de Lisboa, donde era Reytor hum tio seu varaõ

de grande virtude, e Mestre que foy da Infanta Dona Catharina, filha

delRey D. Duarte: e por respeito deste seu tio, e suas boas partes, o

admittio a Infanta à sua familia: foy esta Princesa de muita virtude,

que nunca quiz casar, nem fez alguma hora mudança nos trajos; teve

porèm sempre grande casa, e Capella; e affeiçoando-se muito às letras,

e procedimento de D. George, lhe deu algumas Igrejas rendosas; depois

das quaes fez com ElRey D. Afonso V. seu irmaõ o appresentasse no Deado

de Lisboa, donde servindo-se ElRey delle em cousas de mais momento,

o mandou a Roma com negocios de muita importancia, a que elle soube

dar taõ bom despacho, que vindo a este Reyno, movido ElRey de sua

rara prudencia, e governo, lhe deu grande parte na administraçaõ,

e regimento delle, tendo sempre muito credito em seu Conselho, e

usando sempre delle em todos os negocios de paz, e guerra, que se

offereceraõ em seu tempo. Achou-se com ElRey em Gibraltar, quando anno

de 1464. se vio com ElRey D. Henrique o IV. de Castella; e em suas

mãos juraraõ ambos os Reys de guardarem bem, e como deviaõ os acordos,

que no proprio lugar entre si fizeraõ; no qual tempo era jà D. George

Bispo de Evora; posto que poucos meses depois, e quasi no mesmo anno

foy transferido para o Arcebispado de Lisboa, na qual dignidade fez

muitos serviços a ElRey D. Afonso, o qual o enviou a Castella por seu

Embaixador, quando ElRey D. Henrique lhe pedio, que lhe mandasse seus

Embaixadores, para tratar os casamentos, que pretendia, convèm a saber

entre a Infanta Dona Isabel sua irmãa com o mesmo Rey D. Afonso, e a

Princesa Dona Joanna sua filha com o Principe D. Joaõ. A os contratos

dos quaes desposorios jà tinha sido presente, e padrinho em Gibraltar.

Foy a esta Embaixada com todo o estado, e acompanhamento conveniente à

pessoa, e dignidade, que representava; posto que naõ teve este negocio

effeito. Depois na empreza, que ElRey D. Afonso commetteo da conquista

de Castella, o acompanhou sempre com muitas gentes à sua custa, e com

sua pessoa.

Com estes serviços, e partes, crescendo cada dia mais em authoridade

com ElRey D. Afonso, foy à sua instancia creado Presbytero Cardeal

do titulo dos Santos Marcellino, e Pedro; por Sixto IV. no primeiro

de Janeiro de 1476. Com a grandeza destas dignidades, e com a valia,

que com ElRey tinha, era tanta sua authoridade no governo do Reyno,

que veyo a ser pouco grato ao Principe D. Joaõ, como homem, que naõ

quiz ser nunca governado por outrem. Pela qual razaõ se lhe mostrou

contrario, e lhe chegou a dizer palavras taõ asperas, que por viver

seguro, e sem molestia, se foy occultamente para Roma; pouco depois da

chegada delRey D. Affonso de França.

Em Roma foy muy aceito ao Papa Sixto IV. e lhe deu o Arcebispado de

Braga, que teve juntamente com o de Lisboa, atè que no anno de 1487.

o renunciou em seu irmão uterino D. George. Valeu tambem muito com

Innocencio VI. que a Sixto succedeo, e de Presbytero Cardeal o fez

Bispo Cardeal Albano.

Era já neste tempo taõ grande sua authoridade no Collegio dos Cardeaes,

que morto Innocencio, esteve muy perto de o elegerem em Summo

Pontifice; porque dividindose todo o Collegio em duas parcialidades,

huma dellas seguia a Ascanio Esforçia, que procurava o Pontificado para

Rodrigo de Borja Vicecancellario, e a outra seguia ao Cardeal de S.

Pedro, que declarava querer fazer Pontifice ao nosso D. George. Porém

posto que os que seguiaõ esta parte, fossem os mais antigos, e graves

do Collegio; a outra, que tinha grande poder, e muitas Personages

levaraõ ao fim seu designio, creando Pontifice ao Vice-Chanceller, que

se chamou Alexandre VI. o qual lhe teve sempre grande respeito, e o fez

Bispo Cardeal Tusculano, e depois Portuense, e de Santa Rufina.

Em vida deste Papa lhe mandou pedir muito ElRey D. Manoel, que a D.

Joaõ II. havia succedido, se viesse para este Reyno, para lhe ajudar a

administrar o governo delle; conhecendo bem, que pela muita prudencia,

e experiencia, que nelle havia dos negocios daquelle tempo, e das

cousas passadas, lhe seria de grande proveito tello junto consigo. E

tanto fez com elle por cartas, e mensageiros, que lhe prometteo de vir.

Pelo que mandou ElRey a Roma Pedro Correa Fidalgo de sua casa, para o

acompanhar no caminho, e negociar com o Papa algumas cousas por meyo do

Cardeal. Mas depois de Pedro Correa ser em Roma, achou jà a D. George

mudado do proposito, dando por escusa sua idade, e mà disposiçaõ, e

sobre tudo naõ lhe querer o Papa para isso dar licença, e o querer

ter apar de si, pela necessidade que tinha de seu conselho, e ajuda

nas cousas, que lhe compriaõ. E assim encomendando-lhe muito Pedro

Correa os negocios, que levava, se tornou para o Reyno. Eraõ estes

negocios, que ElRey lhe mandava encommendar as dispensaçoens do voto

de castidade, que faziaõ os Commendadores da Ordem de Christo, e de S.

Bento de Aviz, o qual o Cardeal despachou facilmente com o Papa, e as

Bullas mandou depois a ElRey, cousa que elle estimou muito, porque atè

entaõ senaõ pode nunca alcançar; posto que muitos de seus antecessores

fizeraõ com os Summos Pontifices grandes instancias nesta materia.

Com os grandes redditos destas Prelasias, e de outras muitas, que teve

em varias Provincias de Espanha, e beneficios, que provia de todo

Portugal, deixou a todos seus parentes ricos, e em grandes dignidades,

a outro irmaõ seu, chamado D. Martinho renunciou o Arcebispado de

Lisboa; e do mesmo modo proveo em outros ricos beneficios muitos

criados, e amigos seus, e casou suas irmaãs com Fidalgos muy illustres,

e principaes, e seus irmaõs da mesma maneira. E em quanto a vida lhe

durou em lembrança do que devia à Infanta Dona Catharina, trouxe por

divisa humas rodas de navalhas. As mesmas vi esculpidas numa antiga

alampada de prata, que inda alcancey na Capella Mor da Sé de Evora, a

qual o Cardeal mandou fazer sendo Bispo desta Igreja.

Tambem tenho huma medalha grande, em que està esculpido ao natural com

hum letreiro à roda, que diz: _Georgius Cardinalis Portugalen._ George

Cardeal de Portugal: e da outra parte tem a imagem de huma mulher com

hum Anjo defronte, que numa maõ tem hum livro, e a outra aponta para

o Ceo com o letreiro: _Theologia_, donde parece que esta foy a sua

empresa, denotando o grande affecto que tinha à sciencia da Theologia,

e contemplaçaõ das cousas divinas.

Morreo em Roma a 19. de Setembro de 1508. sendo de idade de 102. annos;

jaz sepultado na Igreja de Nossa Senhora de Populo na Capella de Santa

Catharina; dentro da qual no alto da parede està hum vulto de marmore

com este letreiro.

_Georgius Episcopus Albanens. Card. Ulixp. dum se mortalem animo

volvit, vivens sibi posuit._

Abaixo deste vulto, e letreiro està huma caixa grande de marmore com

estas letras.

_Georgius Lusitan. Episc. Portuens. S. R. E. Card. Ulixp. virtutis

doctrinæque ergo in Regiam adscitus, ac multis domi, forisque præclaris

facinoribus editis, ad Regnique procurationem provectus à Xisto IV.

in Senatum adlectus, Romamque adscitus, magnam ingenii, pietatis,

prudentiæque laudem adeptus sub Julio II. Pontifice Maxim. quem unicè

dilexit, & observavit, annum agens secundum supra centesimum obiit M.

D. VIII._

§. XII.

_O Cardeal D. Affonso._

O Cardeal D. Affonso foy filho delRey D. Manoel. Sendo de idade de 8.

annos, lhe mandou o Papa Leaõ X. o Capello de Diacono Cardeal do Titulo

de Santa Luzia, e juntamente o fez Protonotario Apostolico, e Bispo

Targitano; foy creado em Roma a 27. de Junho de 1517.

Depois teve o Titulo de Cardeal de S. Braz, e ultimamente de S. Joaõ, e

S. Paulo. Foy neste Reyno Bispo de Viseu, Arcebispo de Lisboa, Abbade

de Alcobaça, e perpetuo administrador do Bispado de Evora; cujo governo

teve em seu nome D. Fr. Henrique Frade Franciscano Bispo de Ceita

Primaz de Africa, como se elle intitulava.

Em todas as Prelasias que teve, se houve com grande governo, e usou de

homens eminentes em todas as materias, e em seu serviço. Foy Principe

de grande virtude, e amou muito as letras, e seus professores, de que

elle naõ alcançou pequena parte. Morreo em Lisboa a 21. de Abril de

1540. e està sepultado no Real Mosteiro de Belem, na Capella que chamaõ

do Cardeal, e tem este Epitafio.

_Heu quot in Alfonso viduantur honore Tiara!

Plorat Ullisipo, Roma, rubensque toga!

Visenses pueri, quos ipse side erudiebat,

Solaque congaudent æthera cive suo._

§. XIII.

_O Cardeal D. Miguel da Sylva._

Noticias de Portugal · 第 23 / 43 段