Quel monte che divide, i quel che serra
Italia, i un mare, il altro che là bagna
Questo mi basta, il resto de la terra,
Senza mai pagar lhoste, andro cercando.
Con Tolomeo, sia il mondo in pace, o in guerra.
E tuto il mar senza far voti, quando
Lampeggia il Ciel sicuro in su le carte,
Verrò, piu che su i legni volteggiando._
E por deixar os estranhos, o mesmo succedeo aos nossos Joaõ de Barros,
e a Luiz de Camoens neste Reyno (porque a jornada, que este fez à
India, naõ foy para aprender as letras, senaõ as armas) nem o Conde
Balthasar Castilhioni obriga ao seu Cortesaõ a mayores jornadas,
sendo assim, que o orna de tantas perfeiçoens, que parece impossivel
acharse sogeito daquellas partes. Do mesmo modo foraõ tidos antigamente
por insignes Capitaens Pirrho, e Filippe de Macedonia sem verem
mais Provincias, que aquellas, em que se exercitaraõ nas armas; e
modernamente em Espanha, o Graõ Capitaõ Gonçalo Fernandes, Antonio de
Leiva; e dos nossos o Conde D. Nuno Alvares Pereira, Nuno Fernandes
de Ataide, D. Francisco de Almeida, Affonso de Albuquerque, e outros;
deixando os Italianos, que seria largo referir. E na Corte Hypolito de
Este, Lourenço de Medices, e Jacobo Senazaro em Italia. Pelo que consta
claramente, que todas as outras jornadas, que àlem destas se intentaraõ
saõ voluntarias, e ordenadas, naõ por obrigaçaõ, senaõ pelo gosto de
cada hum.
Com tudo fazendose esta peregrinaçaõ voluntaria em tempo, e idade
conveniente, e por pessoas, que se saibaõ della aproveitar, sem
duvida lhes serà de muito fruito, e ornamento: porque nellas se
aprendem muitas cousas, e principalmente o sofrimento dos trabalhos,
e paciencia, e o viver com temperança, como jà disse Democrito. _Vitæ
frugalitatem docent, offa quippe, & thorus herbaceus, famis, & laboris
dulcissimæ medullæ sunt._
A idade, e tempo, em que estes caminhos se devem intentar, ha de ser
atè aos 25. annos, em que se acaba a adolescencia, assim porque atè
entaõ dà a natureza forças para sustentar o trabalho do caminho,
alegria, e vigor para se continuar; como porque tambem esta he a idade
propria de aprender. O tempo ha de ser desoccupado de outro mayor
encargo, como o mostra Plutarco, quando diz: _Quibus nihil domi boni
est, dulcis est peregrinatio_. Pelo que saõ mais dignos de reprehensaõ
os que deixaõ os ministerios publicos, que tem a seu cargo por esta
curiosidade, contra os quaes diz Tulio a Rufo: _Vrbem mi Rufe cole, &
in ista luce vive, omnis enim peregrinatio (quod ego ab adolescencia
judicavi) obscura, & sordida est ijs, quorum industria Romæ potest
illustris esse_. De maneira, que com estas condiçoens poderà ser de
bom effeito a peregrinaçaõ, ainda que as que se fazem por causa de
Religiaõ, e de venerar os Santuarios, em todo o tempo, e idade saõ
louvaveis, e piissimas. Postoque atè os Monges Giravagos, que havia
antigamente, e gastavaõ toda a vida, visitando as Celas dos Anacoretas
por diversas Provincias do mundo, foraõ muy reprehendidos dos Santos
Patriarcas Bento, e Bruno, e em opposiçaõ sua, ordenaraõ o grande
recolhimento de seus mosteiros. Porem o bom successo nas vagueaçoens
voluntarias aconteceo rarissimas vezes; porque como estes desejos
nasçaõ pela mayor parte do animo vago, inquieto, e inconstante, ficaõ
sendo os meyos, e fins das jornadas semelhantes aos principios em que
se fundaraõ. E assim das cousas, que Seneca louva a seu amigo Lucilio,
he naõ lhe ver estes intentos: _Bonam spem,_ diz elle, _de te concipio
quod non discurris, nec locorum mutationibus inquietaris: ægri animi
jactatio ista est_. _Primum argumentũ bene compositæ mentis existimo
posse conesistere, & secum morari._ Mas porque muitos encobrem este
vicioso appetite com o louvavel desejo de alcançar perfeitamente a
Ethica com o conhecimento proprio, e melhoramento de costumes: serà
necessario, que particularmente vejamos o pouco fruito, que dellas
se colhe, e os grandes males, que daqui nascem, para que se acabe de
entender, quanto se enganaõ os que cuidaõ, que nestas peregrinaçoens
sómente consiste toda a sabedoria, e boa reputaçaõ de hum homem. De
huma, e outra cousa, tratando particularmente o mesmo Seneca insigne
Phylosopho moral, diz: _Quid per se prodesse peregrinatio cuiquam
potuit? Non voluptates illa temperavit, non cupiditates refrænavit,
non iras repressit, non indomitos amoris impetus fregit, nulla denique
animo mala eduxit, non judicium dedit, non excussit errorem, sed ut
puerum ignota mirantem ad breve tempus rerum aliqua novitate detinuit;
cæterum inconstantiam, quæ maximè agra est lacescit mobiliorem,
levioremque reddidit ipsa jactatio. Itaque qui petierant cupidissime
loca, cupidius deserunt, & avium modo transuolant, citiusque quàm
venerant, abeunt. Peregrinatio notitiam dabit gentium; novas tibi
montium formas ostendet, inusitata spatia camporum, & irriguas
perenibus aquis valles, & alicujus fluminis sub observatione naturam,
sive ut Nilus æstivo incremento tumet; sive ut Tigris eripitur ex
oculis, & acto per occulta cursu integrè magnitudini redditur; sive
ut Mæander Poetarum omnium exercitatio, & ludus implicatur crebris
anfractibus, & sæpè in vicinum alueo suo admotus, antequam sibi
influat, flectitur. Cæterum neque meliorem faciet, neque saniorem. Iter
studio versandum est, & inter Authores Sapientiæ, ut quæsita discamus,
nondum inventa quæramus. Sic eximendus animus ex miserrima servitute
in libertatem asseritur. Quandiù quidem nescieris quid fugiendum,
quid petendum, quid necessarium, quid supervacuum, quid justum, quid
honestum non erit hoc peregrinari, sed errare, nullam tibi opem feret
iste discursus, peregrinaris enim cum affectibus tuis, & mala te tua
sequuntur. Utinam quidem sequerentur, longius abessent, nunc fers
illa, non ducis. Itaque ubique te premunt, & paribus incommodis urunt.
Medicina ergo, non regio quærenda est, fregit crus, aut extorsit
articulum, non vehiculum navemque conscendit, sed advocat medicum, ut
fracta pars jungatur, ut luxata in locum reponatur. Quid ergo animum
tot locis fractum, aut extortum credes locorum mutatione posse sanari?
Maius est illud malum, quàm ut gestatione curetur. Peregrinatio non
facit medicum, non oratorem, nulla ars loco discitur. Quid ergo
sapientia res omnium mamima in itinere colligitur?_
Estas sentenças, que por serem proprias desta materia, quiz referir
tanto ao largo, saõ todas gravissimas, e dignas de as trazermos diante
dos olhos, e na memoria sempre. O mesmo que Seneca, quiz tambem dizer
Horacio: _Cælum non animum mutant, qui trans mare currunt_. E o outro:
_Congressus sapientum confert prudentiam, non montes, aut maria_. E
da mesma opiniaõ saõ quasi todos os modernos. Pelo que naõ hà que
duvidar, que os mais destes desejos de ver terras saõ viciosos, e
indignos de varaõ prudente. Quanto mais, que se em algum tempo se pòde
escusar a noticia do mundo adquirida pessoalmente, he neste nosso
Seculo, em que o conhecimento delle està em grào taõ sobido com tantos
livros, que nos mostraõ aos olhos, naõ só as Provincias, e Reynos,
mas ainda as proprias Cidades, e Povos com tanta perfeiçaõ, e com tal
particularidade, que he impossivel hum caminhante por mais curioso,
e intelligente, que seja, alcançar a menor parte destas cousas,
vendo, e andando, como em casa se conhecem todas, lendo, e estudando.
Porque os que caminhaõ naõ se pòdem deter muito nas terras por onde
passaõ, e doutras, nem sempre achaõ, quem lhes dè inteiras, e certas
informaçoens. Porèm o que estuda, logra com toda a quietaçaõ, e repouso
dos trabalhos alheyos, e aquella particular materia em que cada hum
dos Authores empregou muitos annos de estudo, alcança perfeitamente
em pouco tempo. Donde succede muitas vezes a alguns destes, que vem
de Venesa, Roma, Pariz, e outras partes, perguntarem-lhe os que cà
leraõ, as cousas daquellas Cidades por particularidades dellas: a que
elles naõ sabem responder, nem ainda entender o que lhes perguntaõ.
Deixo jà nos trabalhos immensos dos caminhos, os gastos excessivos,
as inclemencias do ar, e os perigos da vida, que acompanhaõ estas
peregrinaçoens, por razaõ das quaes cousas compara ordinariamente o
Espirito Santo na Escritura Sagrada a vida humana, à peregrinaçaõ, e
chama patria ao Paraiso Celeste, em que se gosa a visaõ Beatifica,
significando no nome da patria a Bemaventurança, e no da peregrinaçaõ,
toda a pena, e tormento; porèm he tal a condiçaõ de muitos, que estimaõ
tanto mais a mesma cousa, quanto mais lhe custa, o que naõ he digno
menos de condenaçaõ, que se hum Capitaõ despresasse a vitoria certa por
lhe naõ custar sangue, e a estimasse mais por a alcançar com morte de
muitos Soldados; por taes podemos julgar hoje os que podendo facilmente
na Patria.
_Sò por puro engenho, e por sciencia
Ver do mundo os segredos escondidos._
Como diz o nosso Poeta, os vaõ buscar por meyo de tantos trabalhos,
para depois de correrem o mundo contarem, que viraõ o Labirynto de
Creta, e Cidades inteiras com seus moradores de pedra, e hum carcre
em que estavaõ tresentos mil presos, e que o Espirito Santo apparece
nas tormentas em forma de fogo, e que viraõ em certas paragens andar
o Sol, e a Lua as avessas, com outros semelhantes, movidos só das
apparencias da vista, de que elles tanto caso fazem. Por tanto a
verdade das sentenças de Seneca, a mesma experiencia mostrou sempre
nestes peregrinantes, hum dos quaes, tornando depois de largo caminho
a Athenas; e achandose em tudo tal como partira, perguntou a causa a
Socrates, o qual lhe respondeo, que nascia de se levar a si sempre
comsigo; e bem fora ainda, que tornaraõ sempre os mesmos, e naõ
peyorados. Porèm destes dizia Cataõ, que viera todo o mal a Roma, e
o mesmo entendia Amistenes, quando affirmava, que todos os vicios de
Grecia eraõ peregrinos; porque daqui nascem os excessos dos trajos,
a gula, e sobegidaõ dos banquetes, e soltura dos vicios, os jogos,
as pompas, e ainda mil emfermidades contagiosas, lavrando tanto mais
depreça estes vicios na Republica, quanto as pessoas, em que se vem,
saõ mais conhecidas nella; e pela noticia, que tem do mundo, mais
authorisadas. Assaz hà que sentir disto em nossa Espanha, e neste Reyno
particularmente, onde com os costumes estrangeiros vimos acabada a
temperança, e inteireza antiga dos Portugueses, e com ella o valor, e
Imperio padeceraõ tambem grande naufragio. Pelo que com muita razaõ
em algumas Respublicas bem ordenadas se prohibiraõ com severissimas
leys estas peregrinaçoens. Na dos Lacedemonios se conservava este
costume de modo, que mostrando hum mancebo Lacedemonio saber o caminho,
que hia para Pileas, foy disso reprendido rigorosamente. Os nobres
Athenienses se presavaõ tanto de naõ sahir da patria, que por isso
traziaõ continuamente huma cigarra de ouro na cabeça por divisa,
mostrando com isto, que eraõ taõ continuos nella, como este animal,
o qual entre todos os outros tem tal qualidade, que senaõ muda nunca
do sitio donde nasceo. O mesmo guardaõ em nossos tempos as familias
clarissimas de Veneza, dos quaes rarissimos saõ os que vaõ fóra da
terra, senaõ Enviados da Republica. E o grande Imperio dos Chinas se
sustentou por mais de dous mil annos, naõ admittindo estrangeiros no
Reyno, nem se permittir aos naturaes sahir da Provincia, senaõ com
estreitissima licença. Daqui se poderà entender quanto mais dignos
saõ de reprehensaõ, os que intentao estes caminhos só pelo gosto de
ver varios lugares, pois tomaõ por deleite o desterro da patria, que
todas as gentes julgaraõ pela mayor pena da vida; como pelo contrario
o poder estar na patria por a mayor felicidade della, segundo o nota
excellentemente Claudiano neste Epigrama.
_Felix, qui patriis ævum transegit in arvis.
Ipsa domus puerum, quem videt ipsa senem.
Qui baculo nitens, in qua reptavit arena,
Unius numerat sæcula longa casæ.
Illum non vario traxit Fortuna tumultu,
Nec bibit ignotas mobilis hospes aquas.
Non freta mercator timuit, non clasica miles.
Non rauci lites pertulit ille fori.
Indocilis rerum vicinæ nescius urbis,
Ad spectu fruitur liberiore poli.
Frugibus alternis, non Consule, computat annum.
Autumnum pomis ver sibi flore notat.
Idem condit ager, soles idemque reducit,
Metiturque suo rusticus orbe diem.
Ingentem meminit parvo, qui germine quercum,
Æquævumque videt consenuisse nemus.
Proxima cui nigris Verona remotior Indis,
Benacumque putat littora rubra lacum.
Sed tamen indomitæ vires firmisque lacertis
Ætas robustum tertia cernit avum.
Erret, & extremos alter scrutetur Iberos,
Plus habet hic vitæ, plus habet ille viæ._
De mesmo modo jà Sophocles chamou antigamente só bemaventurado aquelle,
que sempre esteve no lugar onde nasceo; e disse que a mòr fortuna de
todas era naõ ver nunca a terra alheya. O mesmo confirmou o Oraculo de
Apollo, que por esta razaõ julgou por mais ditoso ao pobre Aglaõ, que
nunca se apartara de huma pequena herdade em que nascera, que o grande
poder, e riqueza delRey Gyges. E finalmente assim o entenderaõ todas as
gentes; como se vé nos celebres Adagios: _Domi manendum: Domus amica:
Domus optima_. Pelo que com razaõ teve Euripedes por miseravel o tempo
em que se deixa a terra propria.
De tudo o que està dito, se collige claramente como na patria, e
com pouco trabalho pòde cada hum alcançar a reputaçaõ de grande,
e consummado em qualquer faculdade, ou arte, que professe. E pelo
contrario com quantos trabalhos, gastos, e perigos se pòde chegar a
este grào pelas peregrinaçoens. Por tanto deve cada hum de procurar de
lançar de si estes pensamentos, porque àlem de naõ serem de proveito
em cousa alguma, naõ cahirà na sentença de Santo Agostinho, que diz:
_Odit patriam, qui sibi bene putat, cum peregrinatur_. Sendo assim, que
o amor da patria he taõ natural aos homens, que de todas as gentes foy
anteposto sempre à propria vida.
NOTAS DE RODAPÉ:
[251] _Camoens canto 10. est. 153._
[252] _l. 1. Satur. c. 5._
[253] _Chronica de Carlos 5. 2. p. l. 23. §. 25._
[254] _Satyra 3._
MEMORIAL
_De alguns Cardeaes Portuguezes._
Os grandes desejos, que sempre tive de ver conservada a memoria dos
Varoens illustres deste Reyno, me obrigou hà annos a escrever o que
pude alcançar dos Cardeaes Portugueses. E posto que bem se vé neste
Tratado a verdura da primeira idade, com tudo he taõ pouco o que se tem
alcançado nesta materia, que me naõ pareceo inconveniente dar com estas
lembranças principio às vidas, que em varias occasioens tinha composto,
para poderem usar destes notados, os que quiserem seguir semelhante
argumento.
§. I.
_S. Damaso Summo Pontifice._
Foy S. Damaso Portuguez, filho de Antonio, nasceo em Entre Douro,
e Minho, junto a Guimaraens, ou no mesmo povo, como claramente o
testificaõ os Breviarios Bracharense, e Eborense antigos. E Joaõ Vaseu
varaõ douto, Joaõ de Barros Jurisconsulto nas suas Antiguidades de
Entre Douro, e Minho c. 13. fallando de Guimaraens, onde àlem dos
Authores, que por si allega, diz que duas legoas de Guimaraens, e
huma de Braga estaõ no Couto de Pedralva humas casas, e edificios
muito antigos, e arruinados, os quaes tem por tradiçaõ antiquissima
os daquelle lugar, que morou alli a mãy de hum Papa, que foy em Roma
Santo, e que dalli se foy para là. O que àlem de ter authoridade pela
tradiçaõ, concorda com o que lemos em sua vida, que foy enterrado em
Roma com sua mãy, e irmaã; as quaes parece deixaraõ sua pátria, e
assento natural, por viver em companhia deste Servo de Deos. Porèm
invejosos alguns Estrangeiros do lustre, e honra, que a esta Provincia
resultava de ser mãy de taõ santo filho, no lo quiseraõ usurpar, para
illustrar com elle suas Patrias; como foy o Doutor Pedro Antaõ Beuter,
que sem fundamento, por engrandecer a sua, o faz de Barcellona, e os
Castelhanos, que contendem ser nascido em Madrid, e allegaõ com Marineo
Siculo, o qual ainda parece sentir o contrario; pois tratando no seu
quinto livro muy particularmente dos Santos dos Reynos de Castella,
e Aragaõ, naõ poem este, sendo taõ notavel; e sómente fallando de
Madrid no livro segundo, acaso diz estas palavras: _Est præterea
felicissimum Sancti Damasi Summi Pontificis meritis, qui Maioritanus
fuisse perhibetur a multis_. E desta sua opiniaõ naõ dà mais razaõ
alguma, nem mostra outros Authores, em que se funde, senaõ huma pedra
moderna sem author, nem authoridade. Pelo que se vè claramente, que
só suas paixoens particulares os fazẽ desviar da verdade conhecida.
Temos àlem de tudo por nós Onufrio Panvino, o qual o nomea sempre
Portuguez. E posto que no livro, que compoz de _Vitis Pontificum, &
Cardinalium_, diga que era Egitanense, ultimamente no Chronicon dos
Pontifices Romanos diz, que he de Guimaraens. E o Doutor Gonçalo
de Ilhescas em sua vida confessa esta verdade, e diz estar tido
universalmente por Portuguez. O que parece he bastante para abonar a
parte de nosso, em que tanto interessamos. De suas acçoens, e hida
a Roma, e o mais que passou, atè ser posto no Pontificado, hà pouca
noticia. Onufrio diz, que seu antecessor Liberio o fez Diacono Cardeal;
por morte do qual foy promovido ao Pontificado no anno 366. Foy insigne
Pontifice, muito erudito nas Escrituras Sagradas, e por isso estimou
tanto a S. Hieronymo: condennou no Concilio Constantinopolitano as
heresias de Eunomio; e Macedonio: fez outro Concilio em Aquileya:
edificou em Roma, junto do Theatro de Pompeo, hum insigne templo ao
Martyr S. Lourenço Espanhol com huns sumptuosos Paços, que servem de
Chancellaria, e se chamaõ commummente S. Lourenço _in Damaso_, e o
enriqueceo com muitas doaçoens. Edificou outros fóra de Roma na estrada
Ardeatina ad Catacumbas; chamado agora S. Sebastiaõ, onde consagrou
a Platonia, sepultura que foy algum tempo dos Apostolos S. Pedro, e
S. Paulo. Achou muitos corpos de Santos, cujos sepulchros illustrou
com elegantes epitafios. Deixou muitas obras escritas em prosa, e
verso, principalmente de _Virginitate_. O que delle exta hoje, saõ
cinco Epistolas Decretaes: hum Poema às sepulturas dos Apostolos S.
Pedro, e S. Paulo: e as vidas dos Summos Pontifices Romanos atè seu
tempo; a qual obra depois supriraõ Anastasio Monacho Bibliothecario da
Igreja Romana, e Guilhelmo tambem Bibliothecario, e Pandulfo Pisano,
que tambem teve o mesmo officio. Ordenou se cantassem nas Igrejas
alternativamente os versos dos Psalmos, e no fim de cada hum o Gloria
Patri, &c., posto que jà em algumas Igrejas havia este costume. Governou
17. annos, dous meses, e 26. dias, e cheyo de virtudes passou desta
vida em Roma quasi de 80. annos, no de Christo 384. a 11. de Dezembro.
Foy sepultado na Basilica, que elle edificou na vida Ardeatina; e
depois transferido para a de S. Lourenço, que hoje se chama _In
Damaso_, onde sobre sua sepultura se poz este epitafio, que elle em
vida compoz.
_Epitatphium Papæ Damasi, quod sibi editit ipse.
Qui gradiens pelagi fluctus compressit amaros,
Vivere qui præstat morientia semina terræ;
Solvere qui potuit Lazaro sua vincula, mortis
Post tenebras, fratrem post tertia lumina solis.
Ad superos iterum Mariæ donare sorori,
Post cineres Damasum saciet, quia surgere credo._
§. II.
_O Cardeal D. Payo Galvaõ._
Pelos annos de 1221. floreceo o Cardeal D. Payo Galvaõ Conego Regular
do Mosteiro da Costa, junto a Guimarens, donde era natural, e filho
de Pedro Galvaõ, e de Dona Maria Paes. Foy Conego Regrante de Santa
Ctuz de Coimbra, e Mestre em Theologia pela Universidade de Pariz.
Foy Mestre Escola de Guimaraens, e Embaixador de Obediencia a Roma
por ElRey D. Sancho I. O Papa Innocencio III. o creou Cardeal Diacono
do titulo de Santa Maria _in Septisolio_ no anno de 1206. e no de
1211. foy Cardeal do titulo de Santa Cecilia, e no de 1215. Cardeal
Albanense. O Papa Honorio III. o mandou Legado Apostolico com a Crusada
à Conquista da Terra Santa no anno de 1219. e no anno de 1225. foy
Legado ao Emperador Federico II. Com grande satisfaçaõ foy Legado nas
guerras da Terra Santa em tempo de Joaõ Breno Rey de Chipre, e por ser
Portuguez lhe pareceo, que em seu tempo se havia de tomar a Terra Santa
por huma prophecia, que dizem hà, que hum natural da ultima Espanha a
hà de restituir, segundo se vè da Historia de Basilio Joaõ Helora na
continuaçaõ da Terra Santa lib. 3. cap. 2. e se confirma com a memoria
do livro dos Obitos do Mosteiro de S. Vicente de fóra de Lisboa no
primeiro de Junho, onde se acha deste Cardeal expressa mençaõ.
§. III.
_O Cardeal D. Joaõ Froes._
O Cardeal D. Joaõ Froes foy natural de Coimbra filho de Alvaro Froes
Senhor de Mayorca, e Alhadas no territorio daquella Cidade de D. Elvira
Cidiz tambem Senhora de terras. Foy Conego Regular de Santa Cruz de
Coimbra, e sendo Bispo Sabinense, e Legado Apostolico consagrou a
Igreja do mesmo Mosteiro em 7. de Janeiro de 1228. como consta de
hum letreiro da mesma Igreja, e pelo livro dos obitos de Santa Cruz
falleceo aos 9. de Agosto de 1236. A noticia deste Cardeal deu o
Licenciado George Cardoso a este Reyno, como muitas outras de que està
cheyo o seu Agiologio, obra taõ insigne, e de tanto estudo, que se
pòde admirar igualmente o zelo, e piedade, com que està composta, e o
immenso trabalho, com que seu Author tirou das trevas do esquecimento
tantas noticias de gloriosos Santos, com que Deos tem illustrado a este
Reyno, e avantejado a muitos outros de Europa.
§. IV.
_Joaõ 20. ditto 21. Summo Pontifice._
Joaõ 20. ditto vulgarmente 21. foy natural de Lisboa da Freguezia de
S. Juliaõ, filho de Juliaõ, donde tomou o patronimico de Juliaens;
posto que nas obras que compoz sómente se intitula _Petrus Hispanus_. E
Onufrio lhe chama tambem Pedro Perez. Foy Arcediago de Vermuim na Sè de
Braga, e D. Prior de Guimarẽes apresentado por ElRey D. Afonso III. no
anno de 1273. Foy doutissimo Varaõ, particularmente nas Mathematicas,
e Medicina; creou o Bispo Cardeal Tusculano Gregorio X. no Concilio
Geral Lugdunense no Pentecostes do anno 1274. Teve o nosso Cardeal
a estimavel circunstancia de ser creado pelo Papa S. Gregorio X. e
ter por companheiros a S. Boaventura, a Fr. Pedro de Tarantasia, que
depois foy Papa Innocencio V. a Fr. Visdomino de Visdominis, que alguns
dizem que foy eleito Papa, e que morreo no dia da sua eleiçaõ, e Fr.
Bertando de S. Martinho Arcebispo de Arles, a quem concedeo Clemente
IV. que trouxesse diante de si a Cruz à maneira do Summo Pontifice.
Era jà neste tempo Arcebispo de Braga, como o diz Joaõ de Barros
Jurisconsulto em hum Prologo de certa obra que compoz, e dedicou ao
Cardeal Infante D. Afonso, sendo Arcebispo de Braga, e Commendatario do
Mosteiro de Pedroso, no qual lhe mandou fazer, e reformar o Cartorio; e
nesta obra, que contèm o numero das Escrituras daquella casa (que saõ
muitas, insignes, e antigas) diz fallando em muitos deste Reyno, que
foraõ eminentes em virtudes, e letras, estas palavras. _Da Cidade de
Lisboa foy natural o Papa Joaõ XXI. que primeiro se chamou Mestre Pedro
Hispano, e que primeiro foy Physico, e fez Summulas da Logica, que hoje
se lèm; e assim outras muitas obras, do qual Pedro Hispano eu achey
neste Cartorio huma Epistola, assellada do seu sello, que elle escrevia
sendo Cardeal, estando em Perosa aos Officiaes de Braga, sendo tambem
eleito Arcebispo de Braga; cuja vida foy pelos annos do Senhor 1270._
Atèqui Joaõ de Barros.
O tempo, em que parece succedeo nesta dignidade, devia de ser o
primeiro anno de 1274. porque este foy o ultimo do Arcebispo D. Sancho
de Braga, a quem elle succedeo.