ordinario daõ os nossos Portugueses[239] naquellas partes; porque
ainda que nellas vivem alguns bons Christãos, e zelosos do serviço de
Deos, com tudo os mais dos que nelles moraõ, saõ degradados do Reyno
por delitos graves; e os que andaõ no cõmercio, ou saõ tratantes, ou
soldados, gente pela mayor parte cativa do interesse, a quem respeitaõ
mais que a tudo. E assim muitas vezes estes saõ os que sem temor de
Deos fazem naquellas partes grandes enganos, roubos, e extorsoens, por
cativarem os naturaes contra justiça, e satisfazerem a sua cobiça. Pelo
que naõ he muito que seja este roim exemplo dos Christaõs impedimento
para se os naturaes converterem. Assim procedem muitas vezes os nossos
misturados entre aquelles Gentios, passando muitos annos sem Missa,
sem Sacramentos, sem ouvir a palavra de Deos, e pòde ser que sem se
lembrar delle.
A terceira causa he a malignidade do clyma de muitas daquellas
Provincias, que por serem de ares pestilenciaes, em breves dias
consome, e mata a mais da gente, que deste Reyno là vay ter, e os que
escapaõ, depois de os apalpar a terra, andaõ sempre com cores de homens
mortos, atè que pouco a pouco os acaba de matar de todo aquelle Anjo
percuciente, porque como diz o nosso Joaõ de Barros[240] poz alli Deos
por seu occulto juizo com huma espada na maõ de mortaes febres, com
que nos impede aquella habitaçaõ. Por tanto os mais dos Religiosos,
e Bispos, que àquellas partes passaraõ, duraraõ muito pouco tempo,
principalmente os que quiseraõ tomar mais trabalho abrazando-se com
febres, ou exhalandose-lhes os espiritos pelos poros abertos com a
grande inflamaçaõ do calor, de maneira que o Bispo de Cabo Verde D.
Joaõ Parvi espirou estando chrismando, afrontado com o trabalho da
muita gente; e D. Fr. Sebastiaõ da Assumpçaõ por fazer hum Pontifical,
e prègar juntamente, acabou ao outro dia a vida.
Faltando pois aos naturaes a presença dos Bispos, e o exemplo dos
Sacerdotes, e escandalizando-os algumas vezes o trato ordinario dos
seculares, e matando a terra os Prègadores, que haviaõ de dar soccorro
a estes males, naõ he muito que frutificasse taõ pouco esta sementeira,
porque como diz o mesmo Senhor no Evangelho: Pouco importa semear, se a
semente cae no caminho, e he pisada dos que passaõ, ou comida das aves,
sem haver quem a guarde, ou he affogada das espinhas, faltando quem
a monde. E S. Paulo confessa, que sua prègaçaõ em Corintho fora sem
fruito, se Apollo seu discipulo a naõ regàra: pelo que carecendo esta
Sementeira da cultivaçaõ necessaria, naõ he de espantar, se fizesse
bravia, e de trigo tenha degenerado em zizania.
§. III.
_De como se podem remediar todas estas tres causas havendo Seminarios
destas Naçoens._
Todas estas tres causas acima referidas da falta dos Sacerdotes,
escandalo dos tratantes, e enfirmidades da terra, se pòdem remediar
facilmente com hum só meyo, o qual he ordenar Sua Magestade, que haja
Seminarios nos lugares, que parecer mais convenientes, como Loanda, e
Cacheu, que he na terra firme do districto de Cabo-Verde, em que se
crie certo numero de moços de cada huma destas Provincias, onde estaõ
os nossos governos, os quaes moços aprendaõ, e sejaõ ensinados nos
mesmos Seminarios em bons costumes, e virtudes por alguns Religiosos,
que só por serviço de Deos se entreguem deste cuidado, e espiritual
empreza; de maneira que quando os Seminaristas tornarem para suas
patrias, possaõ fazer o officio de Prégadores, e succedendo huns aos
outros, continuem na cultivaçaõ espiritual daquellas Provincias, atè
as converter de todo. Este remedio he taõ notorio, e a obrigaçaõ taõ
precisa, que jà se mandou fazer hum Seminario na Ilha de Santiago
do Cabo-Verde, mas como naõ se lhe applicou governo conveniente,
ficou quasi como se o naõ houvesse. Por onde se vè que estas cousas
fóra da Barra naõ pòdem ter effeito, senaõ forem administradas por
huma Religiaõ, que nunca morre, como se vè no Seminario de Goa.
Todos os inconvenientes apontados se remedeaõ com estes Seminarios.
Primeiramente evitarse haõ com os Sacerdotes deste Seminario as
faltas, que dissemos nos nossos Ministros Ecclesiasticos, porque os
do Seminario seraõ mais em numero para poderem discorrer por todas
os povoaçoens de suas Provincias, e seraõ tambem de bons costumes,
pois os levaõ da creaçaõ do recolhimento, e boa doutrina. Poderàõ
os do Seminario muito melhor fazer o officio de Pregadores, porque
escusaõ interpretes na doutrina, e prègaçaõ, que he hum dos grandes
impedimentos, que os nossos Clerigos tem para ensinar; porque gastaõ
muito tempo em saber a lingua, e ainda quando a alcançaõ, nunca a
pòdem tambem saber como os naturaes. Seràõ os Sacerdotes mayor effeito
na prégaçaõ, porque como naturaes da terra, haõ de permanecer sempre
nella, e naõ virse logo como fazem os nossos; e com o natural amor, que
tem aos de sua naçaõ, se moveràõ com natural zelo aos ensinar, e elles
os ouviraõ com muito melhor vontade; por verem que os que lhes prégaõ,
e daõ exemplo, saõ de sua mesma patria, e gente, e que naõ hà nelles
outro interesse.
Naõ se remediarà menos com estes Sacerdotes do Seminario a segunda
causa, que apontamos do mào exemplo de alguns nossos naquellas partes;
porque vendo os mesmos Portugueses a virtude que resplandece nestes
de novo convertidos; confundirse hão considerando a vantagem, que
lhes levaõ nos costumes, sendo os nossos os que lhes ensinaraõ a Fè.
E quando todavia succeder algum escandalo, os do Seminario tiraràõ a
opiniaõ aos naturaes da terra de serem todos os nossos semelhantes na
vida, dizendo-lhes da grande Christandade deste Reyno, e que por huns
se naõ haõ de julgar todos os outros.
Finalmente fazendo se os Seminarios, se evitaràõ com isso as doenças,
e mortes, que padecem os nossos, que vaõ prègar a Guiné; porque como
estes moços sejaõ naturaes da terra, seguramente podem andar, e viver
nella. Por estas razoens se fez em Goa o Seminario da Santa Fé, em que
se criaõ os sojeitos de todas as naçoens Orientaes. E neste Reyno o
vimos por experiencia no mesmo Guiné; porque em se descobrindo o Reyno
de Congo; mandou ElRey D.Joaõ II. doutrinar logo alguns moços nobres;
porque depois de ensinados na Fè, tornassem a prègar a seus naturaes.
E o mesmo fez ElRey D. Manoel aos filhos, netos, e sobrinhos delRey
D. Afonso de Congo, e outros moços nobres, os quaes aprenderaõ, naõ
sómente as nossas letras, mas ainda as latinas, e sagradas; de maneira
que delles sahiraõ muitos Sacerdotes, e prègadores; e dous Bispos, que
exercitando seu officio, serviraõ a Deos com grande aproveitamento
espiritual daquelle Reyno, como testifica Joaõ de Barros Dec. 1. l.
3. c. 10. Pelo que naõ hà duvida, que aprendendo estes sogeitos,
faràõ agora os mesmos effeitos, principalmente se os Governadores,
Bispos, ou Religiosos, a quem Sua Magestade cõmetter a escolha dos
sojeitos, que haõ de vir para o Seminario, fizerem boa diligencia
em escolherem os de engenho mais vivo, e melhor inclinaçaõ: e posto
que em alguns naõ haja taõ bom successo (como acontece em todos os
Seminarios, e Collegios de qualquer naçaõ que sejaõ) isso não tira,
que de ordinario nos mais se acerte, principalmente sendo todos estes
povos de Guinè muito differentes do novo mundo, e muy doceis, e
capazes para toda a doutrina, como o experimentaraõ jà por vezes os
que ensinaraõ os de Congo, e Cabo-Verde, e o confessaõ de todos os
Olandeses nas suas navegaçoens Orientaes p. 6. cap. 9. dizendo: _Viri
omnes habent proprietates, quibus virum cordatum, circunspectum, &
prudentem ornatum esse convenit, ingenio sunt, & intellectu optimo,
& facilè quod vel semel saltem viderunt, apprehendentes imitari, &
æmulari non infeliciter conantur, &c_. E de hum delles conta o Author
Gorardo que lia, e escrevia na lingua Portuguesa, e q́ foy argumentar
com os Olandeses, para lhes confutar suas heresias, allegando muitas
authoridades do Evangelho, e livros Apostolicos; como refere p. 6.
c. 21. nestas palavras: _Quin, & unus inventus est, qui linguam
Lusitanicum legere, & scribere perfecte potuit, inque sacris literis
adeo versatus fuit, ut de religione cum Batavis conferre, & si quid
contrarium proferentis, ipsi refutationem ejus ex Evangelistarum, &
Apostolorum scriptis suscipere non dubitaret; unde videre est, ingenium
quidem eis non deesse, quo ad veritatis agnitionem pertingerent, modo
haberent aliquem à quo in capitibus pietatis, & religionis Christianæ
principijs recte erudirentur. Quo magis eiiam optandum, ut talia Deus
ipsis media largiatur, quæ ad propagationem verbi sui, & salutem
ipsorum facere, & prodesse possint_.
§. IV.
_Do proveito temporal, que resultarà à Coroa de Portugal de se fazerem
estes Seminarios._
Notorio he a quem tem noticia das cousas deste Reyno, que a
contrataçaõ, e direitos da Costa de Guinè foraõ por muitos annos a
principal renda da Coroa de Portugal, e a com que ella se enriqueceo,
e lhe deu cabedal para poder fazer as conquistas do Oriente, e novo
mundo, pelo muito que importavaõ os direitos de Cabo-Verde, e rios
de Guinè, Mina, S. Thomè, e Angolla, como se pòde ver dos Contratos,
em que muitas vezes andaraõ arrendadas. Estas rendas, nas quaes os
rendeiros ganhavaõ ainda muito, e eraõ taõ certas, que diz Joaõ de
Barros[241] della estas palavras: _Quanto ao acrescentamento do
patrimonio Real, eu naõ sei neste Reyno jugada, portagem, dizima, siza,
ou algum outro direito Real mais certo, nem que regularmente cada anno
assim responda, sem rendeiros allegarem esterilidades, ou perdas, do
que he o rendimento de cõmercio de Guinè; porque dà ouro, marfim, cera,
courama, assucar, pimenta, malagueta, e daria mais cousas, se tanto
quisessemos della descobrir, como descobrimos, alem dos povos Japões,
que passaõ acerca de nós por Antipodas._
Porèm he muito para sentir,[242] que este taõ grande rendimento da
Coroa Real esteja quasi de todo acabado de alguns annos a esta parte.
A causa saõ os Olandeses, e naçoens do Norte, que navegando àquellas
partes em suas nàos, levaõ là as mercadorias, que nòs levavamos em
muito mayor abundancia: e naõ contentes com isto, roubaõ todas as
nossas embarcaçoens, que por aquellas Costas andaõ de maneira que estaõ
hoje quasi senhores daquelle commercio, e tiraõ delle tanto proveito,
que se julga por homens praticos lhe vem a importar o trato perto de
dous milhoens: e esta foy a fonte das riquezas, que hoje possuem os
Olandeses. Para remedio deste mal se tem applicados alguns meyos, mas
nenhum delles foy de effeito; porque como aquellas Provincias saõ
taõ distantes, e tenha cada huma tantos centos de legoas de Costa he
impossivel defenderem-selhe todos os portos com armadas nossas, nem com
fortalezas; e assim senaõ acabarmos com os mesmos naturaes da terra,
que os naõ queiraõ receber em seus portos, nem commerciar com elles,
naõ poderemos ser restituhidos a nosso antigo Senhorio.
Para se isto alcançar daquella gente, parece que naõ póde haver outro
meyo mais poderoso, e facil, que o dos Seminarios, que dizemos; porque
com elles se alcançaõ dous importantissimos effeitos. O primeiro he
segurarmos em nossa amizade os Regulos confederados; porque tendo estes
entre nòs seus filhos, e parentes, quasi como em refens, naõ poderaõ
declararse em favor dos Olandeses em publico, nem em secreto. O segundo
he a universal benevolencia, que adquirirémos com aquelles Principes,
e povos de Guinè, os quaes vendo o grande beneficio, que se faz a seus
filhos, e parentes em os mandar sua Magestade ensinar, e doutrinar à
sua custa, honrando-os, e engrandecendo-os com a dignidade Sacerdotal,
admittindo-os aos Beneficios, Cortesias, e Dignidades de suas Igrejas,
forçosamente haõde ficar obrigados a taõ grande mercè, e unidos com
nosco em paz, e amizade, e feitos inimigos de nossos contrarios,
principalmente depois que os Seminaristas seus naturaes lhes começarem
a prègar, e persuadir, que se apartem de sua communicaçaõ. Disto temos
jà visto hum grande exemplo[243] em ElRey D. Filippe da Serra Leoa, o
qual sem receber beneficio algum temporal da Coroa deste Reyno, mais
que o espiritual do Bautismo, foy este bastante para lançar fóra de
seus portos os Olandeses, e prender os que depois a elles chegaraõ.
Pelo que mais se pode esperar que façaõ os outros daqui por diante,
vendose obrigados a Sua Magestade com lhes mandar ensinar, e honrar
seus filhos, e naturaes.
He este meyo de taõ grande importancia, que naõ póde haver outro
mayor, nem mais certo para as Naçoens do Norte deixarem aquelle
cõmercio; porque nenhuma cousa cria taõ grande odio entre as gentes,
como a diferença das Religioens. E assim ainda em razaõ de estado este
he o meyo mais principal, com que os Reys fazem mais obedientes os
vassallos, e inimigos de seus vizinhos, como conta a Escritura Sagrada
de Jeroboaõ, que fez idolatrar a gente de Samaria, para ficar firme
no Reyno novo. Pelo que se estes, e outros muitos alcançaraõ este seu
intento prégando falsa doutrina; com muita mais razaõ devemos pretender
a conversaõ desta Gentilidade; pois com ella àlem do bem de suas almas
se confirmarà em perpetua obediencia o senhorio, que esta Coroa tem
naquellas partes, fazendo aborrecer, e odiar nellas os Herejes, de
maneira, que naõ sejaõ nellas mais admitidos.
Seguirseha tambem destes Seminarios a paz de Angolla, deixandose o meyo
das armas, que ha tantos annos a andaõ destruindo, das quaes senaõ
tem colhido fruito algum; porque o pensamento de nos senhorearmos das
Minas, a experiencia o tem mostrado impossivel, naõ só porque as naõ hà
da fineza, e abundancia, que se requerem para serem de proveito; mas
pela grande dificuldade, que haveria em se conservar o dominio dellas
tantas leguas pelo sertaõ dentro, o que naõ poderia ser sem muitos
presidios. Onde os inimigos, e doenças eraõ bastantes, para consumir
toda a gente de Portugal. E assim destes metaes nunca poderémos ter
mais, que aquelles que os Negros nos trouxerem a resgatar, movidos
pelo interesse do ganho; e as guerras, que por este respeito se fazem,
só servem de gastarem a fazenda de Sua Magestade ha muitos annos,
por custar muito naquellas partes a sustentaçaõ dos soldados, e naõ
para algum bom effeito. Porque ainda que sempre tivemos vitoria,
naõ se contentaõ muitos Capitaens com este vencimento por ganharem
mais com Sua Magestade nestas guerras, do que as mesmas rendas de Sua
Magestade poderiaõ ganhar com o commercio da paz. E sendo assim que a
conquista de Angolla naõ se intentou para povoarmos aquella Provincia
(pois neste Reyno nos sobejaõ terras muito melhores, que por falta
de gente se deixaõ de cultivar) senaõ por respeito da conversaõ dos
naturaes da terra, e do comercio: não sey que espirito de guerra
tem entrado naquelle Estado, que o tem destruido quasi de todo. E
feito cessar huma, e outra cousa, por ser a guerra a destruidora dos
commercios, e da promulgaçaõ do Evangelho, que sendo como temos dito,
de paz, naõ se pòde prègar com as armas na maõ. E por isso dizem os
Santos, que ordenou Nosso Senhor houvesse huma paz universal no Mundo,
quando quiz que se convertesse, e prégasse nella sua Santa Ley. E
o que em Angolla està feito de conversaõ, e commercio, se deve aos
que a governaraõ em paz, e naõ com guerra. Por tanto se devem mandar
extinguir estas infaustas guerras, e trazer aquelles Povos à nossa
amizade com beneficios, e boas obras, ensinando-lhes os filhos, e
honrando-lhos por meyo dos Seminarios; e por esta via se alcançarà a
benevolencia daquellas gentes, e naõ com as mortes de seus parentes,
e assolaçoens de seus Povos, que cada hora recebem de nossas mãos, em
lugar dos favores, e caricias, com que os haviamos de attrahir para se
converterem, e estimarem nossa communicaçaõ.
Finalmente com esta obra dos Seminarios alcançarà Sua Magestade hum
nome gloriosissimo de Pio, e Religioso Principe, porque vendo as outras
Naçoens estes Seminarios, e o grande zelo da honra de Deos, com que Sua
Magestade manda taõ longe, e a terras taõ barbaras doutrinar sogeitos
para a prègaçaõ do Evangelho, e fazer politica huma das mayores partes
do Mundo, naõ poderaõ deixar de lhe dar grandes louvores, edificando-se
de taõ grande zelo da salvaçaõ das almas. E com isto se calaraõ de
todo nossos inimigos,[244] que vendo nosso descuido, naõ deixaõ de
nos calumniar, dizendo que naõ himos àquellas partes, por estender o
Evangelho, senaõ por fazer nosso proveito. As quaes calumnias falsas, e
outras semelhantes, de que andão seus livros cheyos, cessaraõ de todo,
vendo com estes Seminarios, que a salvaçaõ das almas he o principal
interesse, que Sua Magestade pretende destas Conquistas.
§. V.
_Como se poderaõ fazer os Seminarios com pouco custo._
Do que temos atègora dito, consta que esta obra da conversaõ dos
Ethyopes desta Costa, naõ se pòde fazer sem ajuda dos mesmos naturaes
da terra doutrinados, e ensinados por nòs. Pelo que resta sómente
vermos os meyos, com que isto se hade fazer: estes saõ notoriamente
dous, ou vindo os sogeitos de Guinè aprender a Portugal, ou hindo os
Prègadores de Portugal a Guinè a ensinallos.
Bem sey que de muito mòr proveito fora fazer estes Seminarios em
Portugal, applicando-se a creaçaõ delles a alguns Religiosos; porque
cà seria de mòr fruito a doutrina, e aprenderia juntamente a policîa,
como aconteceo aos primeiros Sogeitos que de Congo vieraõ, que
chegaraõ a ser depois Bispos. Mas se pelas occasioens presentes naõ
pòde isto agora ter inteiro effeito, ao menos bem se poderiaõ repartir
alguns a dous, a dous pelos Conventos de Religiosos com ordem de Sua
Magestade, para que fossem doutrinados nas boas letras, e podessem
depois hir fazer o mesmo officio com seus naturaes. O que meyo com
muita facilidade se podia executar. Porém quando isto agora naõ possa
ser, facilmente se poderaõ ordenar em Guinè; porque as fabricas, que
se usaõ naquellas partes, saõ taõ pouco custosas, e do mesmo modo a
sustentaçaõ dos sugeitos pela barateza dos mantimentos da terra, que
ElRey D. Affonso de Congo fez huma cerca, em que tinha mil moços nobres
com Mestres, que os ensinavaõ, e delles sahiraõ Mestres, que poseraõ
escolas por todo o Reyno, e por este meyo se veyo converter todo elle,
como se diz na Chronica delRey D. Manoel p. 4. c. 3. Pelo que tornando
as rendas daquellas Provincias seu estado com huma moderada ordinaria,
se poderiaõ sustentar os sogeitos, que parecessem convenientes.
Para se fazerem estes Seminarios, àlem do de Loanda em Cacheu, ou em
Biguba ha a mayor commodidade, que pòde ser, naõ só para os Discipulos,
mas para os Mestres, que naõ saõ naturaes da terra. Cacheu, diz o Padre
Balthesar Barreira nas cartas do anno de 1607. e 1608. que he o mais
composto, que se póde escolher; porque he porto frequentado de todos
os navios de Europa, e Caboverde, pelo grande resgate, que aqui ha de
escravos, os quaes antes de se embarcarem, se bautizaõ, e por isso
he alli mais necessaria huma casa de Religiosos doutos. Confessa o
Padre, que aqui fez mayor fruito, que em nenhuma outra parte de Guinè,
com estar alli menos tempo. E com tudo era grande a magoa, e dor,
que sentia de ver a perdiçaõ de tantas almas, que se poderaõ salvar,
se deste Reyno lhes mandaraõ quem os doutrinasse; porque com o bom
entendimento, que tem, se sojeitaõ tanto às razoens, que lhes daõ, que
sem duvida se converteriaõ todos. E he esta Provincia taõ perto deste
Reyno, que naõ dista de Portugal mais que 20. dias de navegaçaõ. E o
que mais he de notar, que diz o Padre em muitos lugares, que os ares
da Serra Leoa, e dos mais lugares daquella costa levaõ ventagem aos
melhores de Portugal; e que se naõ morre naquella terra de doença,
senaõ de velhice; porque naõ tem excesso nos frios, nem nas calmas pela
frescura que sempre corre, e assim naõ he necessario no veraõ usar de
remedios de aguar as casas, nem de avanos. E affirma o Padre, que tem
esta terra por mais accommodada à vida humana, que todas as de Europa.
A facilidade da conversaõ he tanta, que diz o Padre Balthasar Barreira,
que naõ ha Rey dos que vivem pela Costa, que naõ queira receber o
Evangelho com toda a sua gente: exemplo seja, que os mais delles lhes
deraõ os mesmos filhos, para que os levasse consigo, e os ensinasse, e
assim entre outros trazia dous filhos delRey de Tora, e outros dous, da
Serra Leoa.
O Cõmercio he taõ grande, que excede o que se tira de todas as outras
partes, porque diz, que só os Olandeses tiraõ delle todos os annos dous
mil arrateis de ouro. Na terra hà melhor pào de tinta, que o do Brasil,
mais algodaõ, e mais fino, ambar, marfim, cera, malagueta, courama. As
canas de assucar nascem naturalmente, grande abundancia de mantimentos,
ferro, e outros metaes, muitas arvores de espinho, as uvas se daõ pelo
campo, bananas, arroz, milho, castanha, a que chamaõ Cola, de que se
leva para todo Guinè, e nascem em ouriços sem espinhos, palmeiras, toda
a sorte de aves, e animaes, muitos, e bons pescados, pelo que naõ só
havendo Prègadores, se ficaria ganhando hum numero quasi infinito de
almas para a Igreja Catholica, mas hum muy rendoso comercio para este
Reyno.
Para Sua Magestade mandar contribuhir das rendas de Guinè esta
ordinaria, hà assaz de razoens: porque àlem de naõ ser muita a porçaõ,
he esta obrigaçaõ imposta pelo Sagrado Concilio Tridentino àquelles
dizimos, àlem de os Summos Pontifices concederem com esta condiçaõ
à Coroa deste Reyno o Senhorio de Guinè; da qual só Angolla rendia
quarenta contos. Pelo que naõ he muito, que para esta obra de tanta
obrigaçaõ, e proveito espiritual, e temporal se acrescente esta
Ordinaria às outras de Angolla, e Caboverde, a qual naõ servirà de
despeza, senaõ de accrescentamento dellas; porque como dissemos, naõ
se pòde fazer mayor guerra aos Herejes naquellas partes, que por meyo
do Seminario. De maneira que continuandose elle, em poucos annos se
colherà sem comparaçaõ muito mayor fruito temporal, do que pòde ser
o gasto; mas ainda que se este naõ seguisse, assaz se alcança com a
salvaçaõ de tantas almas: sendo cada qual de tanto preço, que só por
huma dellas, viria Nosso Senhor de novo do Ceo à terra a se fazer
homem, se isso fora necessario para sua salvaçaõ.
Este zelo da honra de Deos foy o que dilatou o Senhorio de Portugal
posto num canto de Espanha atè os fins da terra, dando-lhe as
riquezas de Africa, Asia, e America. Esta grandeza hirà sempre em
crescimento, se se continuar o zelo da conversaõ das mesmas gentes.
Para o qual ministerio Nosso Senhor escolheo por sua particular graça,
e misericordia aos Portugueses, como o certificou ao nosso primeiro
Rey D. Affonso Henriques. Este he o fundamento de nossas vitorias,
esta he a causa de se sustentarem as Colonias de Portugal por todas as
Costas da redondeza da terra; o que naõ pòde ser senaõ milagrosamente,
porque naõ houve nunca Monarquia, que tanto se estendesse, nem Imperio
algum, que tivesse poder para defender tantas mil legoas de Fronteira
confinantes contra os mayores Principes do mundo. A esta divina obra
deraõ principio os Portugueses, como outros novos Apostolos, por ella
derramaraõ tantas vezes o sangue, e sacrificaraõ as vidas, como tem
visto o mundo todo no grande numero de Martyres, assim Religiosos, como
Seculares, que padeceraõ no Japaõ, China, Siaõ, India, Cafraria, e no
Brasil.
Botero no livro intitulado: Del officio di Cardinali l. 2. fol.
138. estranha grandemente aos Portugueses o esquecimento que tem de
prègarem na Ilha de S. Lourenço; tendo tanto zelo, que se empregaraõ na
conversaõ espiritual da India, Malucas, Japaõ, e China, que lhe ficava
muito mais longe. Pelo que com quanta mais razaõ se podéra queixar de
faltarmos com esta doutrina aos povos de Guinè, se fora informado das
commodidades, que para isso temos muito mayores, que naõ para a Ilha de
S. Lourenço, suas palavras saõ: _Non voglio pero lasciar de dire che io
mi maraviglio grandemente, che i Portuguesi, che con lode, e con gloria
loro immortale an aportato la luce del Evangelio a la India, a le
Maluche, a la China, i al Giapone, & che no hanno incio risparmiato, ne
speza, ne travaglio, ne periculo alcuno, lascino, in abandono, la Isola
de San Lorenzo, posta quasi a media strada de le navigationi loro_.
Finalmente se desejava[245] S. Francisco Xavier de hir prègar aos
Doutores da Universidade de Pariz a obrigaçaõ, que tinhaõ de exercitar
o talento na conversaõ dos povos da India, que por falta de semelhantes
obreiros se hiaõ à perdiçaõ; com quanto mais razaõ pòdem temer esta
conta aquelles, a cujo cargo estiver procurar a conversaõ de tantas
almas, que por esta falta se perdem cada dia? E assim parece se deve
mandar entender nesta materia com muita diligencia, e consideraçaõ;
pois della resulta taõ grande serviço de Deos, e de Sua Magestade.
NOTAS DE RODAPÉ:
[233] _P. Joaõ de Lucena na vida de S. Francisco Xavier l. 2. c. 10._
[234] _Joaõ de Barr. Dec. 10. l. 3 c. 9. & 10._
[235] _Chron. delRey D. João II. c. 178._
[236] _Relaçoens de Botero p. 3. t. Angolla._
[237] _Relaçaõ do Padre Guerreiro do anno de 1605._
[238] _Padre Guerreiro nas Relacoens de 605. 606. 607._
[239] _O mesmo Padre no lugar citado._